Ofereci mais de mil vezes o meu sorriso, notadamente cada vez que era questionado sobre como estava meu humor naquela roda de conversa. À mesa frívola de uma praça de alimentação, meia dúzia de amigos, todos bastante risonhos e afáveis, acompanhando-me numa embriaguez pequeno-burguesa de pizza e refrigerante. Em geral, todos conhecidos meus há pelo menos um lustro. Três casais. Falávamos alto, como todo mundo por ali. Eu ficava, entre uma alocução e outra, olhando para o céu, observando a boca da noite a eliminar um a um os elementos do dia corrido, já sentindo um pouco o cansaço de estar ali e sendo comiserativo comigo mesmo, pois parece que não é fácil se manter sozinho depois que se passa dos vinte e poucos anos. Um dueto entre os que compõem a mesa, afinal, já é casado; outro já se namora há anos e o terceiro tem uma relação menos estável que os restantes, ainda que haja uma insistente paciência entre ele e ela, de modo que os dois se mantêm juntos assim e assim parece que irão permanecer por algum tempo. De minha parte, apenas imagino como deve ser penosa e confusa a vida a dois, compartilhando cada momento. No meu caso, sujeito de amores impetuosos e faltos, nunca compartilhei nada com ninguém.
Um dos últimos momentos de intimidade que tive com uma garota se esmiuçou por completo quando ela acordou e percebeu pasmada que estava nua e seu banheiro todo vomitado - vômito dela, naturalmente. Havíamos bebido um pouco, mas isso lhe fizera mal. Eu lembro que permaneci desperto durante toda a madrugada, quase sem mexer um milímetro do meu corpo, e a observei pegando no sono, como também a notei acordando algum tempo depois, após um intervalo de três ou quatro horas. Era como se uma pessoa adormecesse a meu lado e outra pessoa acordasse. Em resumo, minha relação com garotas não se compõe de parcerias, mas de cumplicidades. Noventa por cento delas me afirmou, com doce voz, que pretendia esquecer o que tivemos e solicitava que eu fizesse o mesmo. Eu sou homem, e nunca afirmarei para uma garota que tentarei esquecê-la - contudo, tampouco a questionarei se essa for sua vontade.
Eram memórias tumultuadas como essa que me vinham à mente quando eu fitava meus amigos e suas fiéis companheiras a se beijarem romanticamente a cada espaço vazio no colóquio; espaços parcos, aliás, pois na pauta estão acaloradas e orgulhosas discussões, com histórias heróicas de conquistas pessoais, análises políticas, bisbilhotices, dinheiro. Por essência, assuntos igualmente discutidos em ambientes quaisquer, seja naquele em que nos situávamos, seja numa mesa de boteco de alguma megalópole ou até mesmo numa sala de bate-papo na internet. Delongas que não levariam a lugar algum, portanto. Todavia, nós, justificando nossa postura salvadora e presunçosa, demarcávamos nosso espaço. E eu não ficava para trás, embora, ao contrário de meus camaradas, eu não tivesse uma pequena para aplaudir meu discurso na confraria.
Quando é chegada a hora de partir, todos optam por ir à casa de um deles, para prolongar a noite e a madrugada num passatempo qualquer. Por mais que eu expressasse desinteresse, a minha presença pelo restante da noite, claro, foi requisitada, com muita piedade e compaixão. Sendo o primo pobre do grupo, sou permanentemente acolhido pelos bons samaritanos, sempre dispostos a oferecer dinheiro e abrigo nas horas complicadas, além de serem, cada qual na sua individualidade, agradáveis companhias. Como não tenho nada para lhes retribuir, não faria, logo, mais essa desfeita, e aceito acompanhá-los. Entretanto, a essa altura o convite já não se sustentava mais - alguém lembrara que estaria ocupado no dia seguinte. "Preciso resolver aquela bronca, senão blá-blá-blá". Repentinamente, parece que surge do nada uma competição para ver quem está mais atarefado: "é mesmo, também preciso fazer aquele blá-blá-blá", diz mais um. "E eu preciso fazer aquilo", diz uma terceira voz. Nem adiantou que um entre nós lembrasse que o dia seguinte seria sábado. Todos já haviam se convencidos de que deveriam estar ocupados no dia seguinte.
Então, feita a despedida, voltei para casa sozinho, quieto e pouco pensativo. Todos eles também se foram, preocupados e confusos em suas vidas de gente grande, cheias de preocupações conjugais, profissionais, universitárias e monetárias. Meros subterfúgios para a fadiga existencial que se acomete sobre nós, enquanto tentamos fingir que não sofremos disso.
Um dos últimos momentos de intimidade que tive com uma garota se esmiuçou por completo quando ela acordou e percebeu pasmada que estava nua e seu banheiro todo vomitado - vômito dela, naturalmente. Havíamos bebido um pouco, mas isso lhe fizera mal. Eu lembro que permaneci desperto durante toda a madrugada, quase sem mexer um milímetro do meu corpo, e a observei pegando no sono, como também a notei acordando algum tempo depois, após um intervalo de três ou quatro horas. Era como se uma pessoa adormecesse a meu lado e outra pessoa acordasse. Em resumo, minha relação com garotas não se compõe de parcerias, mas de cumplicidades. Noventa por cento delas me afirmou, com doce voz, que pretendia esquecer o que tivemos e solicitava que eu fizesse o mesmo. Eu sou homem, e nunca afirmarei para uma garota que tentarei esquecê-la - contudo, tampouco a questionarei se essa for sua vontade.
Eram memórias tumultuadas como essa que me vinham à mente quando eu fitava meus amigos e suas fiéis companheiras a se beijarem romanticamente a cada espaço vazio no colóquio; espaços parcos, aliás, pois na pauta estão acaloradas e orgulhosas discussões, com histórias heróicas de conquistas pessoais, análises políticas, bisbilhotices, dinheiro. Por essência, assuntos igualmente discutidos em ambientes quaisquer, seja naquele em que nos situávamos, seja numa mesa de boteco de alguma megalópole ou até mesmo numa sala de bate-papo na internet. Delongas que não levariam a lugar algum, portanto. Todavia, nós, justificando nossa postura salvadora e presunçosa, demarcávamos nosso espaço. E eu não ficava para trás, embora, ao contrário de meus camaradas, eu não tivesse uma pequena para aplaudir meu discurso na confraria.
Quando é chegada a hora de partir, todos optam por ir à casa de um deles, para prolongar a noite e a madrugada num passatempo qualquer. Por mais que eu expressasse desinteresse, a minha presença pelo restante da noite, claro, foi requisitada, com muita piedade e compaixão. Sendo o primo pobre do grupo, sou permanentemente acolhido pelos bons samaritanos, sempre dispostos a oferecer dinheiro e abrigo nas horas complicadas, além de serem, cada qual na sua individualidade, agradáveis companhias. Como não tenho nada para lhes retribuir, não faria, logo, mais essa desfeita, e aceito acompanhá-los. Entretanto, a essa altura o convite já não se sustentava mais - alguém lembrara que estaria ocupado no dia seguinte. "Preciso resolver aquela bronca, senão blá-blá-blá". Repentinamente, parece que surge do nada uma competição para ver quem está mais atarefado: "é mesmo, também preciso fazer aquele blá-blá-blá", diz mais um. "E eu preciso fazer aquilo", diz uma terceira voz. Nem adiantou que um entre nós lembrasse que o dia seguinte seria sábado. Todos já haviam se convencidos de que deveriam estar ocupados no dia seguinte.
Então, feita a despedida, voltei para casa sozinho, quieto e pouco pensativo. Todos eles também se foram, preocupados e confusos em suas vidas de gente grande, cheias de preocupações conjugais, profissionais, universitárias e monetárias. Meros subterfúgios para a fadiga existencial que se acomete sobre nós, enquanto tentamos fingir que não sofremos disso.
Conto originalmente publicado na segunda
edição da revista Tá na Cara!, lançada em novembro,
e que permanecia inédito no blog.
edição da revista Tá na Cara!, lançada em novembro,
e que permanecia inédito no blog.
17 comentários:
Eu sempre me pergunto porque nunca consigo postar uma das coisas que escrevo em lugar nenhum fora do blog. Isso é meio frustrante, droga.
Geralmente eu não deixo nota nem guardo os blogs que acho interessante, mas esse parece que me atraíu não sei como, acho que porque sua escrita parece muito com um escritor que eu também gosto (Bukowski), talvez tivesse sido isso, e também a madrugada. Mas agora é uma hora - e isso não é madrugada, pelo menos pra mim - e eu continuo lendo com o maior prazer, caramba...
E olha que eu não tinha bebido nada ontem, fora o sono.. enfim!
Acho que vou te ler sempre que atualizares, já tá nos meus favoritos então é bem provável que isso aconteça, vai se tornar um dos indispensáveis.
Obrigada por simplesmente ter respondido, tem gente que é tão esnobe por aí que nem isso faz, podre.
Enfim, beijo!
Nossa, que comentário grande, como sou pentelha HAHAHAHA plágio :P
Nossa, sinceramente, seu lixo eletrônico é muito bom rs
Adoro escrever, acho que começarei a postar coisas desse tipo... beijos até a próxima postagem sua
hehe
boa noite
Olha, eu ñ vou dizer todos aqueles blá-blá-blas, que os seus textos me lembram o Sabino etc etc.. pq vc já sabe..
Eu adorei este também !
um Abraço, até a proxima..
aaah, muito chick a nota logo em baixo.. rsrsrs
"Era como se uma pessoa adormecesse a meu lado e outra pessoa acordasse"
Achei essa frase a minha cara.
é, meio complicado a vida à dois, meio não, muiiito. Tem que ter aquele negociamento com o homem lá de cima sabe? Pra dá paciência em dobro.
Sim, obrigada mais uma vez pelo elogio, vou ver se consigo fazer um texto parecido com o que tu costuma escrever, ironizando.
Prq agora tá difícil, mas vou tentar, já conseguir outras vezes porq não agora né?
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk [ai tu analisa se eu escrevo eronias tão bem quanto vc]
bjo vou te acommpanhar! :*
Se quiser acompanhar lá, é sem pagar!
Obrigada por me corrigir no "pós-modernismo". Fiz o texto e postei muito rápido, sem correções. Tá corrigido agora. E obrigada pelo comentário pós-google.
Bem escrito, coeso, bem pontuado e quanto ao conteúdo, um toque intimista perdido entre relacionamentos modernos!
Relacionamentos são bem dificeis...
Sai de um relacionamento a pouco tempo, e no começo dele, nao sabia o significado da palavra compartilhar, na verdade nao sei se nao sabia, ou se nao queria saber... Me sentia obrigada a ter qe fazer isso com uma pessoa que a pouco tempo conhecia... Depois fui me soltando, e hje qe nao estamos mais juntos, é disso que sinto falta.
Obrigaaada, por ter respondido o comentario!
beeeijo.
De certa forma, estive sentada na mesa ao lado, observando teus gestos e lendo os teus pensamentos.
E como não podia ser diferente, já que te acompanhei a noite toda, fui para casa sozinha, seguindo os teus passos, e refletindo sobre teus devaneios.
Incrível como é possível fazer parte das tuas frases, mesmo que seja como observadora.
Sempre que aqui venho, me encanto cada vez mais com esse teu dom.
Realmente incrível, Leon.
Beijos. :)
aaaah.. vc qr dizer aqueela revista Tá na Cara, q eu devia ter recebido há uns 3 meses, e q já tá quase na 3ª edição?? pois é né.. legaal... agora eu quero receber a anterior e a q vai saiir.. =P
aaah.. gnt, não questionem o humor do meu amigo, ele realmente é uma pessoa bem humorada, mesmo quando a cara dele está fechada e dando medo.. (Y)
Amigo Gente booooooua... aehuaehuae
Beijãao e saudaadeees...
Chega uma fase em que as coisas ficam assim meu caro...
Vc escreve bem pacas... Estamos de volta.
Abcs.
Sua narrativa extremamente detalhada enche de impressões e análises um texto que fica denso, pesado, quase imóvel. Como um pedra no fundo do lago. Quando leio me sinto como se estivesse te escutando, na mesa do bar, sem som nenhum, numa quase monotomia. Não conseguiria escrever sobre o efeito das suas palavras. Sempre que escrevo meus comentários, leio novamente e os considero tolos tadinhos. Dá vontade de apagar, mas sou mto auto-indulgente para isso.
Adorei e espero ansiosamente pelo próximo. Quero mais.
aaah naao!
Faaaz novo post, todo dia venho aki pra dá uma espiada!
hahaha
gosto de leer, oqe vc escreve!
:)
Dina
Interessante seu comentário... e sua opinião sobre compartilhar momentos...
Jéssica
Também gosta do Bukowski? Isso é bom, isso é bom. Ah... e ser um dos seus blogs dispensáveis já é uma honra... que dirá ser indispensável, então... rs.
E não se importe com tamanho de comentários ;)
Regiane
Não tente fazer nada desse tipo... você certamente pode fazer melhor...
Michele
Pode postar um blábláblá diferente, quando quiser... No mais, valeu pela presença ;)
Maria Luiza
Não acompanho porque acho confuso aquele negócio... mas estarei sempre lendo e comentando... beijos.
OnTheRoad
Tais comentários vindos de um cara que tem esse nick... pode crer que foram bem-vindos!
Thaís
Entendo que deve fazer falta mesmo... mas a gente segue na labuta, né..
Fabíola W.
Quem dera estivesse na mesa ao lado de fato... eu não teria hesitado em trocar de lugar.
Ingrid
Hehehehehehehehehe...
Hudson
De fato... chega uma fase em que as coisas ficam assim...
Katarina
Eu também não conseguiria escrever sobre suas impressões... são tão importantes e interessantes quanto o texto original.
Anderson
Boa idéia... mas vou levar um tempo essa idéia na cabeça, até pô-la de fato no "papel"...
Saudações a todos os amigos!
Literatura Vil
Postar um comentário