sábado, 3 de janeiro de 2009

Quando até os iogurtes fazem falta

Pegue um lápis e marque um ponto
no centro de uma folha
a solidão é tudo o que está em volta

Alice Sant'Anna


Deitada ao meu lado, ela ainda insistia em conversar.

- Você parece até que não gostou...

Dei uma risadinha e não respondi.

- Li uma vez - prosseguiu - um texto seu em que você dizia que gostava de mulheres que transavam bem e que tinham um bom papo.

Olhei pra ela e a corrigi: - não, eu dizia que gostava de mulheres que tinham apenas um bom papo.

- E saber transar bem não é importante pra você?

- Não.

- Por que não?

- Porque também não transo bem e nem gosto disso.

- Por quê? Você é fresco?

Ignorei o comentário e percebi que o melhor que eu fazia era cair no sono Virei para o outro lado e fechei os olhos enquanto ela foi tomar banho, no entanto ela logo voltaria sem que eu conseguisse adormecer, e como ela bebesse ainda bastantes tragos de vinho - bebia sozinha, pois eu detesto vinho -, suas delongas não pararam. Eu preferi beber um iogurte pra ver se me distraía... sem sucesso.

- Tenho um bom papo - insistiu -, por que não conversa comigo?

- Você não tem um bom papo, você apenas transa bem.

- Mas você disse que mulher que transa bem não faz o seu tipo.

- E não faz mesmo.

- Ha!Ha!

Ela riu, ainda que tenha detestado o comentário. Sentou na cama, entoando uma enrolação atrás da outra. Eu demorei mas enfim percebi que fora um erro ir pra casa dela, que fora um erro ter pego aquele ônibus no qual a reencontrei; que fora um erro ter bebido conhaque depois do expediente com um amigo, o que me levou a pegar aquele ônibus; que fora um erro ir trabalhar naquele dia, o que me levou a encontrar esse amigo; que fora um erro acordar, o que me levou a ir trabalhar. Tudo no dia foi um erro, notei que me sentia muito melhor horas antes, mesmo estando há oito meses sem deitar com uma garota, do que nesse momento pós-êxtase, sendo obrigado a ouvir tamanhas tagarelices sem possibilidade de pagar a conta e ir embora. Eu pus as duas mãos na cabeça, esperando um apagar repentino que não vinha, enquanto ainda ouvia sua voz rinitente a me roubar a paz e a serenidade.

- Você deve ter um amor recalcado por mim, só pode.

- Não... - disse-lhe - O meu amor recalcado passou hoje no vestibular da Universidade Federal, e nunca mais a verei.

- Por que não?

- Porque ela vai se enfurnar naquela universidade, e eu tenho asco daquele lugar.





Quando estava, uma hora e meia depois, pegando outro ônibus, um corujão, à madrugada, voltando à minha rota normal, indo para casa, ainda pensava nos erros. No erro de ter vendido a moto, o que me faz andar de ônibus. No erro de ter amores recalcados, o que me faz suscetível a boas ofertas como a dessa ex-vizinha que encontrei na condução e me ofereceu uma noite de prazer.

Falando em recalques, então, terminei por ficar travado por vários dias depois desse sem conseguir escrever - lamentavelmente. Meu editor aguardava os meus textos, meu blog aguardava outros textos, meu espírito também os aguardava, tudo ansiava por novas manifestações que não vinham, e até o iogurte agora me fazia falta. Estava tudo ao meu redor tão abafado, eu tentava de todas as formas me estimular, convencia-me de que Hemingway, Bukowski e Dostoievski também deviam se sentir igualmente abafados em seus quartos sem mulheres, comida ou esperança.

Olhava para as flores de plástico penduradas na janela, que minha irmã deixou quando veio aqui há três semanas, e as tirei, porque imaginei que elas é quem me estavam sufocando, de alguma maneira. De fato, tirá-las de lá me fez melhor, percebi que o ar voltou a fluir, que voltei a escrever, escrever bem. Quanto às flores, deixei-as no chão, num canto do quarto, bastante visível para mim quando estou escrevendo no computador, e cada vez que as vejo sinto um respingo de expectativa, por um email, uma carta, ou qualquer coisa que diga "estou aqui, gosto de você", porque às vezes parece que a necessidade disso é tamanha, e as conseqüências tão úmidas...

Decidi devolver as flores para minha irmã, porque ninguém quer ser julgado pelo que guarda no peito, e eu também fujo disso. Sem querer.


29 comentários:

Mic disse...

Eu gosto de ler seu textos porque me lembra ao meu escritor favorito, Fernando Sabino.
Os seus textos são apaixonantes como o dele e este me fez lembrar o livro, O encontro marcado..
E como ele mesmo dizia, bom é aquele texto que você começa a ler e não consegue mais parar, foi isso que aconteceu agora.
Mais uma vez de muitas que já te disseram, Parabéns, você escreve muito gostoso de ler.

Mic disse...

Vale a pena você tentar acabar de ler O encontro marcado, eu sou meio suspeita pra falar porque eu sou apaixonada pelo Sabino, mas o livro é fantastico e foi o 1° livro que eu comecei a ler.. simplesmente maravilhoso..

Adriana Hanna disse...

Leon, talvez "a pessoa" também esteja esperando por um "ei, 'estou aqui, gosto de você'... quero você".
Flores de plástico sufocam...
E a vida passa... implacavelmente!

Beijo grande!

Laluia disse...

comentário pertinente esse da Annah...
rsrs

"parece que ninguém quer ser julgado pelo que guarda no peito..."
interessante isso.
e parece que ninguém quer ser julgado pelo que guarda em lugar algum, mas é impossível não deixar pistas sobre nós nos nossos pertences...

esse me fez rir rsrs

bjo

Ind Caroline x) disse...

wooow... to akii d novooo, só pra vc veer q eu ainda comento nas suas postagens, me apressei ao máximo pra chegar aki, mas não fui a primeira.. =/
eeeh, vc se importa se eu disser pra todo mundo (atravéz desse comentário) q eu axo q o do texto é vc?? "No erro de ter vendido a moto, o que me faz andar de ônibus." hauehauehae
sempre com partes de vc em seus textos né, mas nem vou me atraver a perguntar do restante, são particularidades em q não vou me intrometer. aheuhauhae

Beijo, beeeijo

Tatiana Pinheiro disse...

Ah...nem me fale em amores recalcados e pontinhas de esperança!

Também não me fale em Universidade Federais insuportáveis!

Seus texto teve o efeito das flores de sua irmã pra mim!

*Assista o vídeo sim, aquele curta é lindo!

;**

Dinkin disse...
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Bruno Silva disse...

Cara, texto muito legal, me prendeu msm.

vlw.. www.bsproducao.blogspot.com

Girotto disse...

Muito interessante o momento oportuno em que surge este texto, entendo por que se atrasou pra pelada. Evitarei fazer paralelos entre texto e experiências reais, pois feriria meus princípios literários; mas que é tentador, é.

Arrematou o texto muito texto.

Katarina disse...

Nao li todos os seus textos (por simples falta de tempo e nao de interesse), mas acho que este deve ser um dos mais profundos. Revelar-se assim de modo tão cru... É admirável ver que a crueza com que vc observa o mundo e os outros é a mesma com q vc observa a si mesmo.
Inevitável meu péssimo hábito de querer saber mais.
Tenha um excelente ano de 2009.
Cheio de amores recalcados e sexo ruim...e de mto mto mais...

Chantinon disse...

Revi hoje 21 gramas.
Ainda estou aqui... abafado!
A vida é muito massa... Tudo é diferente do que pensamos ser, pq tudo muda.
Boa sorte nesse ano novo velhinho!

Weiss disse...

Ótimo texto.
Me lembra Fernando Sabino.
Terei a honra de acompanhar seu blog a partir de agora.
=)

Aline Fernanda S. ferreira disse...

Passeando pelos blog que estão por aí já li muita coisa boa.
Mas o seu jeito de escrever me cativou de verdade.
Gosto de sadismo sutil. "- Você não tem um bom papo, você apenas transa bem."
Ótimo texto e gramática invejável.

Anônimo disse...

Este texto me lembrou meu marido e de quando eu perguntei a ele se "queria namorar comigo", dois meses depois estávamos casados e até hoje ele me diz que se eu não tomasse a iniciativa ele teria casado com a pessoa errada.

Muitas vezes basta uma iniciativa para espantarmos, nem que seja um pouquinho, a solidão que por natureza nos acompanha.

Também concordo com Annah.

Beijos!

Palavrador disse...

Seu talento para contar estórias e a intolerância inata continuam presentes. Gosto disso!

Enquanto com as mulheres, não é a toa que Bukowski seja uma influência tão forte. A situação narrada neste post é tipica em sua obra. Não sou muito fã, mas leio de vez em quando.

Também admirei muito as passagens do erro retroativo, como se uma ação determinasse o insucesso das ações sucessivas. O pessimismo que lhe é inerente produz bons frutos narrativos, como as presentes neste texto.

Abraços.

Dinkin disse...
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Anônimo disse...

Às vezes quando leio coisas como essa fico imaginando que as coisas são erros camuflados, a vida é um grande mal entendido, uma sucessão de erros diria.
Presente e futuro são ilusões, o passado é que nos resta. Somos fruto de um passado cheio de falhas, mas é o que determina nossa existência...
Mulher que tagarela enche o saco, mesmo depois de uma boa foda mesmo...

Mic disse...

eu t indiquei para uma brincadeira, vai la ve..

Dinkin disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Naty disse...

Impossível não ser clichê, quando falamos de algo tão comum a todos.

Nahara disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nahara disse...

Eu usei o Lula como exemplo,mas na verdade era pra comentar sobre essas noticias inuteis como - Claudia Raia vai as compras.Redatores perdem tempo escrevendo esse tipo de noticias,e o pior é que tem gente que perde tempo lendo as mesmas.

Sobre Obama não sei,talvez se ele fosse um homem branco,as pessoas não tivesem feito todo esse alvoroço,mas de quaquer forma é uma conquista.O problema é que estão cantando vitória antes da guerra.

Anônimo disse...

Brigada pelo comentário. ^^

Blog atualizado, se quiser passar. :p

ah!
O bom de ler o que você escreve, é que você passa como fosse você o ator principal da narrativa, como tudo tivesse acontecido com você, e isso é bom, adoro isso...
E pela parte de irônizar, eu tbm gosto, muito, mas o que tenho em mente é esses tipos de textos, ai eu boto pra fora. " essa minha fase de vida, inspira textos assim" :D

brigada, ainda bem que tu gostou...
[blog esquecido o meu. ;/]

Anônimo disse...

Caramba, 24 comentários [que li alguns, de intrometida] merecidos. Mas merecia mais.

ADOREI! Não sei se é porque você tem 23 anos, mas o texto ficou envolvente demais, e não sei se são todos daqui porque acabei de chegar, mas a-m-e-i!

Volvoltar ;*

Thaís. disse...
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Thaís. disse...

Hmm, de primeeira olhei e achei grande demais... dai veio a curiosidade, e meu Deeus! Ainda bem qe eu li isso ai, qe maravilha de texto! Li e me peguei imaginando tudo isso! Parabens.
Estarei sempre aki!

beeijo, nao qerendo entrometer mais ja entromentendo...(hahaha) as vezes basta só um sinal seu! :)

Ramon Alves disse...

Essa mulher pode até ser burra, mas ela resumiu na 4ª pergunta todo o sentimento que o texto transmite.

Dinkin disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fábio Rocha disse...

"Flores de plástico não morrem", meu querido.
Fantástico post! ÁCIDO!!! Outra ótima finalização!