sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Olhando para trás

Não havia nada a ser invejado na minha infância. Eu não viajava; não visitava parques aquáticos; não brincava na rua. Tudo isso devido à disciplina com a qual minha mãe tentava me fazer habituar, embora ela mesma nunca fosse disciplinada. Mas, em outra parte, pelo meu próprio desinteresse em participar de tais frivolidades.

Até os quatro anos de idade, eu não tinha nome. Ou poderia dizer que tinha vários. Certa vez, há muito tempo atrás, vi uma foto minha num campo aberto, parecia um deserto, e no verso dizia “hoje é 6 de dezembro de 1986, Carlos Alberto fez um ano”, acompanhado de algumas declarações de felicidade, da benção de ser mãe, entre outras anotações. Através dessa e de outras fotos antigas, além do que ela já me contou, soube com o tempo que já me chamei Juan, Ricardo, Roberto, Raoni, Pablo, Leonardo e Leonel, até que se decidisse por Leon. Todos esses nomes acompanhado de Carlos. Claro que eu não era registrado.

Então, para facilitar as coisas, os parentes me chamavam apenas de Ninho. Era mais fácil. Assim foi até que chegou a idade de eu entrar na escola, e ela enfim fez a minha certidão, decidindo de uma vez por todas qual seria o meu nome: Leon.

A minha pobre mãe tinha suas vicissitudes, que a faziam me valorizar. Ela era a mais nova entre sete irmãos, a garota-prodígio, se saía bem nos cursos de inglês, tirava notas bastante elevadas na escola, entrou facilmente na universidade, tinha um caminho aparentemente traçado com linhas coloridas e brilhantes. Mas, aos dezoito anos, esteve grávida, o que não era recomendável em sua situação: devido a um atropelamento sofrido aos nove anos, os órgãos componentes de seu útero tinham dificuldade em se desenvolver, de maneira que o embrião atrofiou-se logo no princípio de sua formação, e ela veio a abortar. Esse trauma, ao que consta, foi gigantesco. No mesmo ano, engravidou novamente, e abortou novamente. Deixou curso de idiomas e faculdade. Foi viver com o namorado. Engravidou pela terceira vez. E por algum milagre, conseguiu ver nascer seu primeiro filho. Na verdade, uma garota. Kaline, minha irmã. Eu nasceria dois anos depois, e entre nós haveria um terceiro aborto. Um dia depois que eu vim ao mundo, minha mãe fugiu do hospital. Não tinha pra onde ir, não sabia o que fazer. Só sabia que não queria levar a vida que tinha até ali. Vivia na casa dos sogros há cinco anos, e mesmo assim todos eles diziam que meu pai era outro. Quando foi encontrada, o médico – de confiança da família – disse que ela sofreria sérios abalos psicológicos se tivesse um novo filho, e ligou suas trompas, ao que ela somente soube na manhã seguinte.

Minha mãe deixou a casa onde vivia e voltou a morar com sua mãe, sem dinheiro, sem trabalho, sem estudo e com um filho no braço – a filha ficara na casa dos sogros, por insistência deles.

Cresci, então, com a mãe sempre me lembrando que as pessoas são máquinas incompreensíveis, difíceis de entender e indignos de confiança até que provem o contrário. A despeito do nome que eu não tinha e de outros detalhes menos interessantes, ela me ensinou a ler, a falar inglês, a calcular, tudo antes de ir para a escola. Queria fazer de mim a pessoa importante que não se tornara, talvez. Mas a compreensão de importante, para minha mãe, se reproduzia em termos monetários. Desde cedo, eu lia os livros que depois ocupariam a lista de mais vendidos; aprendia sobre as leis da autoestima, sobre o poder do pensamento positivo, lia os manuais e as biografias dos milionários. Achava que Napoleon Hill era meu ídolo. Tios e avós me davam tapinha nas costas, sempre aclamando o futuro "doutor da família". Esse tipo de pensamento povoou meu imaginário durante uns dez anos. Olhava para os vizinhos de minha idade jogando bola, xingando-se e esbofeteando-se, e lamentava pela crescente pequenez de suas mentes.

Apesar de tudo, eu ainda tentava criar alguma amizade. Quando era convidado a jogar futebol, eu ia junto. Ainda que não suportasse a gritaria, as ordens. No final, quando perdíamos, era a mim que todos cercavam. Diziam que eu devia ir embora, que se arrependeram por terem me chamado. E eu ia embora, esperando que eles chamassem de volta e dissessem "escuta bicho, desculpa pela grosseria". No entanto, nunca chamavam. Às vezes, me jogavam pedra pra que eu saísse correndo.

Essas e outras coisas, vindas com o tempo, me tornou diferente. Chegou um momento que eu percebi que as coisas não eram assim tão simples quando supunha. Nessa época, eu já ia sozinho para a escola, transportava-me de ônibus, pegava dois deles, um para atravessar a ponte, outro para chegar aonde estudava. Viajava de um lado da cidade até o outro. E por essa época eu já sofria assaltos, já via a mendicância a dormir nas ruas, já tomava sopapo dos moleques da escola, já levava foras de garotas. Eu não estava preparado para tudo isso. E então tentava fugir. Decidi não ir mais para a escola. Aliás, mais do que isso, convenci-me de que vivia uma vida errada, aquilo que aprendia e pensava não tinha conexão com as coisas reais. Pegava um ônibus e, enquanto a escola ficava numa direção, eu me dirigia à outra. Ia para a praia, e ficava lá o dia todo. Ou para um bosque, ou simplesmente ia para o centro da cidade e me punha sentado numa parada de ônibus durante quatro ou cinco horas. Até que caísse a noite e chegasse a hora de eu ir pra casa.

Minha mãe descobriria meses depois. E seria um novo trauma pra ela, que, aliado a outras decepções que teria comigo, que já não era mais uma criança, buscaria seus próprios subterfúgios. Passaria a beber excessivamente. Eu seria colocado numa escola pública periférica. Ela decidira que não mais pagaria estudos pra mim. Nunca mais me perguntou como estavam minhas notas. Nunca mais perguntou por onde eu andava ou com quem estava saindo. Nunca mais me deu livros ou me ensinou nada. Seu passatempo favorito era sair e conhecer caras que no mês seguinte viriam morar conosco e três meses depois iriam embora depois de brigas e brigas, e tantos socos e palavrões trocados entre eles.

Eu passei a me confinar ainda mais no meu quarto. Decidi que o tempo que ficaria em casa seria o mínimo possível. Conhecia alguns amigos, entre malandros aqui e bem-intencionados ali. Fiz uma banda de garagem e nos apresentamos algumas vezes. Havia uns sempre de prontidão a nos presentear com benzina para que cheirássemos a madrugada toda. Existia também um bocado de garotas que ofereciam seu corpo como se não fosse nada – uma maneira boba de sair da rotina, talvez. Ainda havia o movimento estudantil, que, à parte das garotas e drogas fáceis que também proporcionava, me ajudou a observar o mundo com outros olhos, a perceber que estamos todos num permanente conflito, numa tensão inacabável, para além daqueles dilemas existenciais. Para desfrutar essas aventuras, eu tinha uns trocados; minha mãe não conversava mais comigo como antes, mas tentava comprar minha amizade dando computador, violão, mesada e coisas assim. E eu aproveitava para tentar fazer uso disso da maneira que eu achasse mais escrota.

Entretanto, garotas, drogas, malandragem, banda de rock, foi tudo passageiro. Como todas as coisas que já fizeram parte de minha vida, logo cansei delas. Tive menos garotas a cada ano, já não tocava mais rock, ainda que assistisse algumas apresentações e também não andava mais acompanhado de substâncias estranhas, apesar de ainda continuar a beber depois dessa fase.

Em casa, quando era madrugada, eu notava pela luz que vinha por baixo da porta que a sala estava iluminada pelo abajur. Era a minha pobre e solitária mãe, escrevendo em sua agenda e bebendo cerveja, ouvindo música bem baixinho. Ocasionalmente, eu saía do quarto, ela parava de escrever, eu ia beber uma água ou comer alguma coisa, e depois sentava e conversávamos um pouco. Nessas horas, ela era mais boa companhia que em qualquer outro momento, antes ou depois dessa fase. Depois, eu voltaria para o quarto e ela voltaria a escrever e a beber, um ritual quase diário. Ela talvez confidenciasse a si mesma que havia cometido muitos erros comigo, erros que não poderiam ser mudados, e teria de viver com isso para sempre.

E eu roubei esse hábito dela. Quando é noite, eu tento ver TV ou, como é mais frequente, fico conversando na internet. Às vezes, recebo um telefonema dela, que agora está noiva e pelo menos desta vez não é um cara problemático, tanto que estão juntos há sete ou oito anos. A conversa com ela é sempre breve. Na TV, a programação vazia de conteúdo logo nos convida a desligá-la. E as companhias virtuais, o último escape que resta, também não se demoram a ir embora. É um momento em que não sobra mais nada, senão pegar algo para beber e colocar uma música para soar, só que bem baixo, quase inaudivelmente. E pensar nos tantos erros que cometi – e cometeria de novo se preciso fosse –, mas principalmente nos erros que cometeram ela e todos os outros que já esperaram algo de mim.



22 comentários:

Anônimo disse...

"E pensar nos erros que cometi com ela e com todos os outros que já esperaram algo de mim."

Sempre fugi de qualquer erro, coisa totalmente inútil, visto que eu errei das maneiras mais absurdas com as pessoas mais inacreditáveis. Mas que merda por que esperam algo de nós?
Desligo o som e fico me ouvindo respirar, só pra ver se vou acompanhar meu coração parando.

Dinkin disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dinkin disse...
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Anônimo disse...

Esse post denota uma perspicácia que não foi aproveitada da maneira correta.

Adriana Hanna disse...

Sagitariano?
Você tem pinta de pisciano. Lua em Peixes, Câncer, talvez.
Mas tem algo de Escorpião também, quem sabe?
Só que sei que tem Água, muita Água. Emoções em turbilhão distribuídas em proporções equilibradas e oferecidas em doses homeopáticas. ;D


p.s.: Gosto muito de futebol. Sou corintiana fidelíssima, rs! Costumo dizer que foi o Corinthians que me escolheu como Fiel amante. Desde então, sigo resignadamente (e feliz!!) esse amor sofredor, apesar das taquicardias.
Foi paixão à primeira vista, Leon, amor indissolúvel, sofrível - com prazer, é claro! rs
Quanto à Gaviões, sem querer forçar a barra, foi a Escola que levantou a galera no Anhembi, além da nação corintiana que delirava na arquibancada.
Só emoção, energia pura... Afinal, é Curintia, ô, meu! hahaha
Estarei lá no dia 21, se puder, assista, torça por esse "bando de loucos". ;)

Gabrielle disse...

Eu nunca tive uma relação assim com a minha mãe, mas as coisas com o meu pai nunca foram doces. Ele não era problemático, mas eu sempre senti que, de alguma forma, ele tentava me afastar da vida dele.
E arrependimentos sempre vão existir, por mais que a relação entre mãe e filho seja ótima. Eu prefiro acreditar que, assim como os filhos, os pais também precisam aprender muitas coisas. E é quase impossível aprender sem cometer erros.

Beijo, Leon! Quando estiveres na internet, fique à vontade para puxar papo comigo :D

Anônimo disse...

Como mãe de um filha de 22 anos posso dizer que este distanciamento que ocorre pela falta de diálogo e compreeensão...
Nós mães, erroneamente, sempre temos um projeto para o filho que vai nascer...
Quando deixei de perseguir minha filha querendo que ela vivesse do modo como eu queria... ela simplesmente passou a viver melhor
Hoje temos mais abertura do que tinhamos no passado...passei a ouví-la mais e falar menos.

Eu te vejo com muitas características de um leonino.

O nome Leon combina com tua personalidade.

Grande beijo.

Anônimo disse...

Se não fosse contado por você e esse não fosse um blog público mas sim um livro, eu diria que foi um conto genial.

Como é seu e isso não é um livro - apesar de merecer - eu digo que foi GENIALÍSSIMO!

Cara, pode ser verdade ou não, mas MUUUUUUITO FOOODA esse texto! Deus do céu, cada vez que venho aqui as coisas ficam melhores. *-*

Adorei!

Cintia Pereira dos S. Machado disse...

Os erros daqueles que esperam de nós mais do que nós temos a oferecer são os mais duros, os mais difíceis de esquecer. Estes machucam, provocam angústia, fazem a gente achar que fez menos do que poderia fazer.

Tatiana Pinheiro disse...

Eu não sei pq as pessoas tentam sanar suas frustrações apostando no acerto dos outros. DOS OUTROS. Não faz o menor sentido.

Seu texto me deixou encolhida...

:)

;*

Katarina disse...

As pessoas sempre esperammto de quem pode dar mto. Mas poder e querer sao coisas distintas. Às vezes nao queremos caminhar pelo óbvio. Às vezes nao queremos conquistar tudo o que poderíamos... Às vezes queremos ser apenas nós e mais nada. Sem doutor, sem status, sem fama, sem dinheiro. À vezes queremos apenas viver e descobrir a vida. E deixar que ela nos descubra tb, assim, nus, sem status, dinheiro, fama ou drs. que contaminem a visao (nossa, alheia e da vida).

Naty disse...

Nos somos resultados de nosso erros. Alguns nso servem de experiência e outros nos traumatizam. Mas, por fim, todos eles nos marcam para o resto da vida e nos moldão como seres humanos.
Apesar de triste, eu gostei!
Ficou mais triste ainda, pq estava escutando Albinoni durante a leitura.
^^

Dinkin disse...

Acabei de ler teu texto e quase choro.
Confesso que estou mais emotiva esses dias.
Realmente todos nós passamos por dificuldades, sem elas não poderíamos nos julgar felizes em certos momentos.
Já tive conflitos com minha mãe na época da adolescência. Tenho uma personalidade de certa maneira forte e queria tudo do meu modo, no meu tempo...
hoje sei que deveria ter feito tudo da maneira dela. Mas agora é aprender com os erros.
Na minha infância eu aproveitei bastante, apesar que meu pai não nos levava muito pra passear. Esse jeitão dele permanece até hoje...
pra você ter uma ideia conheci o mar com 20 anos!
Sem se falar que foi numa viagem que fiz somente com a permissão da minha mãe, já que meu pai é do tipo que não gosta de viajar e não quer que sua filhinha o faça (medo bobo dele)...

Por fim, quero dizer que admiro muito seu jeito...
o seu jeito diferente dos demais que o torna brilhante!
Beijos!
;*

Dinkin disse...
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Mic disse...

isso tudo foi a base pra te formar o Homem de hoje...

e boa sorte pra sua mãe, que ela seja feliz!!!

Ingrid disse...

é difícil se expor assim, falar da vida e das mágoas sem dramas excessivos.

~ a Juh! disse...

Não é qualquer um que pode dizer que já teve tantos nomes como você. =)
Acredito que conforme você foi amadurecendo tua relação com a tua mãe foi mudando assim. Eu hoje em dia adoro conversar com a minha. Há uns 10 anos atrás eu não dava muito ouvidos pras coisas que ela me dizia e hoje eu me arrependo.

O que seria das escolhas certas se não existissem os erros pra mostrar o quão idiotas nós podemos ser?

=**

Italo Sena disse...

Cara, seu conto me prendeu até o fim. Gostei muito do seu estilo de escrita. Em alguns momentos me identifiquei com a situação e realmente fiquei um pouco emocionado...
Ótimo texto!

Anônimo disse...

Tem um presente pra vc no meu blog!^^

Dinkin disse...
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Ind Caroline x) disse...

Aaaai.. fiqueei pensando como seria se vc se chamasse Raoni, ou Rodrigo, ou LEONEL (q não é mt legal), só consigo imaginar vc se chamando Leon mesmo, tá ótimo.. Amigo Ninho... XD
eu não sei se toda essa história é verdade, apesar de me identificar com coisas que vc já disse antes, mas é legal, legal saber que vc sobreviveu a tantas coisas, e hoje é essa pessoa culta, inteligente, maravilhosa, com um caráter explêndido, apesar de carregar sequelas, como as d ficar até tarde acordado, as de não se abrir mt com pessoas, não ter mts amigos, não sorrir mt.. etc... coisas q agnt traz como marcas do sofrimento... Espero q sua vida tenha melhoes momentos pra compensar os passados!!! BeeeijO.

Fábio Rocha disse...

Enfim conheci tua mãe.