Perdi alguns amigos, mas não muitos.
Alguns chegados já se foram, devido a facadas, tiros ou acidentes.
Mas poucos me deixaram boas lembranças como o saudoso Adelmário,
um velho que deixou sequelas permanentes em todos, a despeito das confusões que causou.
Republico essa postagem em sua memória... um ano depois.
Alguns chegados já se foram, devido a facadas, tiros ou acidentes.
Mas poucos me deixaram boas lembranças como o saudoso Adelmário,
um velho que deixou sequelas permanentes em todos, a despeito das confusões que causou.
Republico essa postagem em sua memória... um ano depois.
Ele era divertido, sincero e despreocupado como uma criança, a despeito de seus quarenta e poucos anos. Isso, no entanto, não afetava sua vida social, por uma razão simples: ele não tinha vida social. Quando adolescente, era um visionário, carregava livros e sonhos em sua mochila. Parecia promissor, como bom estudante que era, como bom amigo, como namorado, como companhia pras diversas atividades. Um cara requisitado e considerado. Como já dito, estudioso inveterado, gostou da experiência adquirida quando do serviço militar e traçou como meta ingressar na carreira definitiva. Além disso tudo, atleta, forte e eficiente. "O melhor goleiro da Força Aérea". Adelmário era seu nome.
Os sonhos, porém, como as borboletas, morrem todos os dias. Com aquele garoto-prodígio, não foi diferente. Bastou um acidente de carro - um atropelamento, um arremesso de 30 metros que fez seu corpo outrora vigoroso e facilmente autossustentável virar um pedaço de pano seco e frágil no asfalto.
O desejo de ser um militar de carreira se foi como num estalar de dedos. Quase tão repentino quanto o acidente sofrido, foram-se embora também os amigos, a namorada, as outras tantas pretendentes, o sorriso fácil.
Apesar de tudo, sobrevivera. Isso era o mais importante, diziam-lhe os parentes e um outro aprochegado, estes nem um pouco íntimos. No entanto, para aquele jovem acidentado, a oportunidade de sobreviver se tornou simplesmente um adiamento de sua morte. É verdade que suas habilidades básicas até lhe foram devolvidas. Com ajuda de pinos e parafusos, voltou a andar, a se movimentar normalmente e a viver "como se nada de tivesse acontecido". Mas era impossível pensar que nada tivera acontecido. Considerava uma desonestidade para com seus próprios desejos que o acompanhavam até ali.
Como é o destino de todo indivíduo malogrado e arruinado, ele afundou no mundo noir do álcool e do tabaco. Fumava como uma chaminé e bebia a ponto de esquecer o nome do planeta em que vivia. Nos trabalhos que arrumou depois da recuperação, não se mantinha por mais que algumas semanas. Nos estudos que tentou prosseguir, já não sentia mais nenhum ânimo em se concentrar. Tornou-se um baderneiro. Roubava. Quebrava bares e batia em pessoas. Em casa, virou um parasita na família, morando com a mãe - agora já uma senhora, atormentada com as constantes notícias de seus escândalos. Ela que já era avó, graças a seus outros irmãos. Seus irmãos, aliás, todos bem-sucedidos, o humilhavam constantemente, quase como esporte. Freqüentemente convidavam-no a dar fim à própria vida: "te dou o funeral que dos seus sonhos, mas vá embora e deixe nossa mãe em paz".
Foi nessa época turbulenta que o conheci. Ele era tio de um amigo dos tempos do jardim de infância que me convidava nas sextas para sua casa, e eu ia, quase empurrado pela minha mãe. Como conversávamos bastante, nós três, passei-me a aproximar-me mais dele. Com o tempo, tornou-se mais que apenas o tio de meu amigo; com ele próprio eu criaria um laço de amizade. Então passei a, eventualmente, visitá-lo. Era um ótimo parceiro pra conversar sobre minhas vivências de adolescente. Bem se notava que ele ainda guardava a alegria e a pureza doutros tempos. Com sua companhia, assistia aos jogos da Seleção, embora fosse difícil, uma vez que ele só gostasse de jogos onde Ronaldo estava escalado (ao contrário de mim). Também conversávamos sobre bebidas, ainda que ele já não pudesse beber nesse período, pois seu organismo estava muito debilitado. A primeira vez que o vi beber e cair no chão sem conseguir se levantar, senti uma vontade brutal de chorar. Apesar da condição física deteriorada, ele ainda bebia às escondidas.
Além disso, proseávamos longamente sobre planos... mas isso não levava a nada, afinal ele já não tinha planos. E eu apenas pensava que tinha.
O tempo, esse traiçoeiro, fez com que nos víssemos em cada vez mais fugazes oportunidades. A esse tempo obedecemos vergonhosamente, e já fazia dois anos que não via nem falava com esse bom e velho amigo.
Então, senti saudades.
Passado o último Carnaval, numa bondosa tentativa de prosear e marcar uma hora para nos reencontramos pessoalmente, eu lhe telefonei. E qual não foi a minha ingrata surpresa quando recebi a acanhada informação de que poucas horas depois, seria celebrada uma missa pelo sétimo dia de seu falecimento...
Não acreditei. Não me situei no princípio. Apenas parei e me lembrei dele. Lembrei de seu sorriso trôpego, já sem a maior parte dos dentes. Das piadas e dos xingamentos. Das peladas que batíamos, embora ele não tivesse fôlego nem pra correr cinco passos. Pensei o que ocorre a todo mundo que perde seus entes; eu não o veria mais. Fiquei acometido de um arrepiamento, um calafrio. E do retorno daquela vontade de chorar.
Esse cara estragou a sua vida, foi o que pensei na hora. Mas isso era besteira. Era um julgamento indevido de minha parte. Estragar sua vida, afinal, todos fazem. Mesmo quem acredita estar cuidando refinadamente da sua. Ele apenas estragou à sua maneira. Estava no seu direito. A minha tristeza estava contida, como todos os fortes sentimentos assim estão, no meu comportamento reservado. Em menos de um mês, eu iria novamente a uma missa de sétimo dia, pois semanas antes falecera a avó da minha irmã, que, segundo minha mãe, também era minha avó. Mas a despedida dessa desolada senhora, néscia e delirante em seus últimos dias, para mim, foi mera burocracia familiar; a despedida deste camarada, todavia, sim, me abalava. E novamente eu segurei as lágrimas por ele.
Fui à casa de meu velho amigo da escola no dia da missa. Entre nós, parecia já não haver mais nenhuma intimidade - nós que, não muitos anos antes, havíamos feito juras de amizade. Não me demorei na sua casa. Trocamos poucas palavras. "Ele estava muito magro... você não ia querer ver...", foi uma das poucas coisas que me disse.
Adelmário bebeu muito, mas, de fato, morreu de tanto fumar. O cigarro, que mata centenas de milhares de pessoas anualmente, estatísticas que não abrangem aqueles que merecem, aqueles que vivem simplesmente por inércia e dinheiro, mas leva outras boas pessoas que já não querem nada da vida, porque não podem querer nada.
E eu sequer pude ir a seu funeral, vê-lo pela última vez, ainda que pelo visor do caixão, sob a pele ossuda e horripilante de uma vítima de câncer de faringe. Precisei conter meu choro novamente, pois não gosto de despedidas, mas não fujo delas. As despedidas são os momentos mais importantes das nossas vidas. Despedida da faculdade, do namoro, do emprego, da rua onde moramos, da vida. Elas são um resumo de tudo que conquistamos ou deixamos de conquistar.
Na missa, sob um olhar trêmulo, sua mãe me disse que ele, nos seus últimos momentos, queria ver montado um quadro com a foto de todos os seus amigos, desde aqueles do tempo de sua juventude até aquela fase de meia-idade (essa meia-idade, para muitos um novo começo, para ele um novo fim). Então, ele fez uma lista de quem deveria estar. Eu estava na lista, é claro... não era o primeiro nem o último, mas estava lá - isso é o mais importante. Porém, a comoção daquela velhinha de oitenta anos me contagiou em definitivo quando eu soube que meu retrato era o único não incluído no dito quadro. Era impossível, ela disse, pois não tinham nenhuma foto minha.
Pela última vez, eu segurei o choro. Até chegar em casa.
23 comentários:
Não tem problema, pega assim mesmo! Eu não conheço direito as regras desse lance de selo!^^
Você é muito forte por ter segurando o choro tantas vezes. Se fosse eu, já tinha desabado só com a notícia.
Despedidas são ruins, não sei se tem alguém que goste, realmente. Mas mesmo as coisas ruins são marcantes.
Esse texto caiu certo comigo hoje, mas o engraçado é que eu não me despedi de ninguém. Ou me despedi? :S
;**
Adoro aqui.
Você escreve muito bem.
Já passei por uma situação um tanto parecida, mas foi estranho, pois a saudade só foi bater mesmo alguns meses após a morte de um amigo - bebeu literalmente como se fosse a última vez, pegou o carro e encontrou um poste. Dizem que ele estragou a vida. Na verdade ele se cansou da vida, pelas conversas que tínhamos.
Parabéns pelo texto. Muito bom.
Faço minhas as palavras da Jéssica. Você foi muuuuito forte. Eu desabaria no telefonema, já. Terminei de ler o texto com os olhos cheios d'água.
O maior medo que eu tenho é o de perder as pessoas que eu amo. Amigos, família, parentes... ~
Mas isso pode acontecer a qualquer hora, por isso devemos sempre deixar as pessoas com uma palavra amiga =)
E obrigado pela visita ao meu blog. =) Fico feliz em saber que gostou do que eu escrevo.
E te indiquei pra um selo no meu blog. Passa lá pra ver ;)
Beeeeeeeeeeeeeeijos
Nossa, que história1 To arrepiada!
Tem mais um selo lá prá vc hein!
Nossa, que história1 To arrepiada!
Tem mais um selo lá prá vc hein!
nossa... até q fim eu terminei, mas valeu a pena.. vc sabe bem pelo q eu passei né.. pois é.. o que mais marca são as lembranças, é quando lembramos do sorriso, das brincadeiras, é quando pensamos que não os veremos mais... é ai que aperta o choro, é aii que fica difícil, mse quando você tem a certeza de que foi tudo feito da forma que devia, que foi tudo dito quando era preciso, ficamos reconfortados, porque sabemos, que não havia nada a ser feito, e se seu amigo se lembrou d vc, mesmo que não houvessem fotos, isso é que importava... as mais lindas fotos são as da nossa memória, das lembranças q ficam!!
Isso aii. Beeijo.
Leon, saudades. Saudades assim como a que sentiu do seu amigo.
É estranho essas indas e vindas da vida. Muitas vezes me pego pensando nas pessoas que passaram, aquelas que nos marcaram e foram importante para nós. Também penso na fragilidade da nossa vida. Sonhos podem se acabar num estalar de dedos, como vc disse. É triste pensar nessas coisas. Pensar que amanhã eu poderei ser alguém mto bem sucedida ou simplesmente nem estar mais aqui.
Mas tudo tem uma hora e um porque, acredito nisso.
Que seu amigo tenha o conforto que durante um período da vida ele não encontrou.
E, é difícil conter as lágrimas...
Abraços!
Puta soco no estômago! :(
Este conto lembra a primeira vez que estive por aqui. Está listado em sua barra lateral e o tenho como um dos mais emocionantes que já li.
A muito tempo não choro. Como o choro é algo natural e o uso de medicamentos me impede de deixá-lo fluir(o choro), penso que está na hora de parar com os medicamentos.
Em outras épocas, choraria com você; devido a alta sensibilidade deste conto.
Beijos!
É uma história bem comovente. Mas a vida é assim mesmo, não é o que dizem? Você perdeu o amigo, sabemos que é algo triste; mas todos vamos perder alguém e vice-versa, digo, alguém vai nos perder. Tudo vai passar.
um amigo, sempre sera um amigo..
Tanto um familiar, quanto um amigo, muito próximo ou não. A morte sempre é um baque para quem fica.
Me lembro muito bem de quando soube que meu avô tinha morrido, me senti MUITO mal. Faziam meses que não o via, nem se quer, trocava alguma palavra por telefone. E eu poderia tê-lo visto todos os dias.. Me arrependo muito disso.
Mas, querendo ou não, é um ciclo que temos de aceitar, a morte é o nosso único - e melhor - fim :]
beijos
uashuadshas nem li!
Leon, uma coisa admirável nos teus contos é a maneira como eles nos prendem. seguimos lendo e descobrindo detalhes novos. é bom ler textos assim, que não entregam o jogo e mantém o mistério e a vontade do leitor de seguir lendo. :)
eu não sei o selo dos colegas blogueiros acima, mas indiquei o Literatura VIL também. talvez tenhas visto.
beijo!
A dor da perda é eterna, mas o sofrimento é passageiro. Embola o choro e joga para o mar, porque vil é naufragar nas pedras.
Caramba, tava lembrando agora de um amigo qu perdi, mas fazmuito tempo(nossa, como eu puder ter esquecido)...
Tão jovem e feliz, morreu com apenas 12 anos por atropelamento.
Fiquei meio chocado na época, mas eu ainda era uma criança, não sabia muito bem o que era morte.
Nossa, com essa relembrança devo imaginar como foi trágico pra você...
até logo
Nossa Leon, história de vida hein. uma lição.. mas uma né fuminante. eu adorei seu blog de tanto tempo né, é um livro mesmo. adorei cada detalhe viu!?
é realmente eu estou mtu sumida da net, estou esperando começa minhas aulas para o vestibular, vou tentar de novo... hehehe
vo tá estudando, já que perdi um bom tempo sem fazer nada.
espero wue eu faça desse ano um novo começo.
Caro amigo Leon, tudo de bom! e continue esse bom moço que vc é! abraço. Priscila karina
Perdi pessoas muito queridas nos últimos anos. A vida é mesmo mais frágil do que imaginamos, não temos nenhum controle quanto à sua durabilidade. Acho que deve ser confortante para você saber que era estimado por seu amigo. Eu creio que onde ele está, ele pode te ver e acompanhar teus dias.
eu nunca passei por algo assim
mas morro de medo
e voc~e foi muito forte!
eu já tinha começado a chorar beeeeem antes...
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