Eu recebi hoje um email de um conhecido dos tempos de colégio, estava anexado com umas fotos recentes de Rodrigo, um dos caras mais arruaceiros que já conheci, quando nos falamos a primeira vez devíamos ter uns 13 anos, e mantivemos contato pelos três ou quatro seguintes. Depois que nos distanciamos, só tive notícias suas em dois momentos: um foi quando ele passou uma semana preso por estar empossado de umas muambas, que, como se não bastasse, eram roubadas; o outro momento foi agora, através dessas fotos. No corpo da mensagem, o remetente tentava convencer a mim e aos outros três ou quatro destinatários a abrir as imagens.
EI AMIGOS VEJAM O QUE ACONTECEU COM O VENTA
HAHAHAHAHA QUEM SABE ELE APRENDE
SAUDADES
HAHAHAHAHA QUEM SABE ELE APRENDE
SAUDADES
Eu não tinha entendido, só entendi quando vi as fotos. Rodrigo estava acabado, havia sofrido um acidente de carro e era só cacos, com lesões que iam desde pequenos arranhões na bochecha até uma fratura horrível nos metatarsos que o impediria até de colocar o pé no chão por um tempo, mas estava vivo, e chegava até a sorrir em uma das sete fotografias, fazendo um sinal com as mãos.
Eu pensei em responder a mensagem pedindo algum contato do Rodrigo, telefone ou coisa assim, mas deixei pra lá. Ele provavelmente não se lembrava de nenhum de seus colegas do tempo da escola, sabia que no máximo era motivo de chacota para alguns que o chamavam de "venta", e eu nem sabia que ele tinha esse apelido.
Isso tudo na verdade era só algum passatempo na madrugada. Não havia mais nada a fazer, e eu não tinha sono. Não tinha bebida em casa, nem comida. Tomei banho pra passar o tempo, mas isso só me fez pior, porque a água daqui tem muito cloro, e eu sou meio alérgico, sei lá, não sei se é possível ser meio alérgico, mas o fato é que passei vinte e cinco minutos no banho, às três da manhã, e quando saí o meu corpo era só pruridos. Eu demoraria mais no banho - enquanto estou embaixo d'água, nada sinto -, mas escutei o celular apitando, era uma mensagem que havia chegado. Eu pensava quem me escreveria algo a essa hora?, e sabia que havia grande possibilidade de ser uma mensagem automática da operadora lembrando-me de minhas dívidas. Mas não, não era uma mensagem automática, era uma mensagem de um amigo chamado Silas, perdido num apartamento de alguma garota fácil dessa cidade. Ele dizia:
CARA LEMBRA QUANDO VOCE ESTAVA MAL COM AQUELA GAROTA POIS EH AGORA ESTOU ME SENTINDO ASSIM TAMBEM LIGA PRA MIM VAMO CONVERSAR.
Fiquei matutando sobre o porquê de ele fazer a referência a um momento em que eu estava mal, sobretudo com "aquela garota". O que tinha a ver? Será que ele imaginava que eu só lhe daria atenção se houvesse um peso que me obrigasse a isso? De qualquer maneira, de nada adiantaria pensar nessas coisas, porque eu não tinha mesmo condição para lhe telefonar, e fiquei mal por isso. De fato, Silas tinha quebrado um bom galho noutros momentos, e agora eu não poderia retribuir o amparo, que babaca que sou, eu pensava de mim mesmo, mas o que poderia fazer?
Decidi matar o tempo com alguma leitura, embora não estivesse muito a fim. Dei uma olhada na estante e peguei rápido um livro qualquer que fosse, o quarto estava escuro ainda, de maneira que eu não sabia que livro tinha pego. Só depois que acendi, vi que havia sido um do Jack Kerouac. Eu achei que seria bom para adormecer, porque Kerouac é um dos tipos que me ajudam a escrever, quando quero escrever, que me ajudam a dormir, quando quero dormir, e me ajudam a passar o tempo, quando quero apenas passar o tempo, no ônibus, por exemplo.
Ela é uma garota bonita demais. Eu me pergunto o que todos os meus amigos iam dizer... e o que aconteceria em Nola quando você a visse... sob o sol quente, ela de óculos escuros e um andar preguiçoso... Ela fala de um jeito parecido com minha velha tia franco-canadense lá de Lawrence. "Não quero su moa-ny, o que quero é yur loave." Loave, amor. "És yur lawv." Lawv, lei. Acontece a mesma coisa com Tristessa, que tá o tempo todo tão doidona, passando mal. Ela se aplica 10g de morfina sempre, e sai cambaleando pelas ruas da cidade tão bela, e seus olhos reluzem e seu rosto está úmido com o sereno...
Essa Tristessa é muito louca, muito intensa, eu pensei, e censurei a mim mesmo por ter pensado isso, porque é o que faço todas as vezes, penso demais enquanto leio esse livro, que leva o nome de sua protagonista, Tristessa, e é por meditar tanto nele que não consigo nunca lê-lo todo, mesmo sendo bem pequeno, nem pode ser chamado de livro, é um livreto que não custa nem 6 reais e fica jogado nessas seções de livros que só olha mesmo quem não tem dinheiro para comprar os best-sellers das outras estantes que custam dez vezes mais, embora seus conteúdos valham dez vezes menos. Fico aborrecido porque a leitura de Kerouac deveria ser feita como a escrita, de uma só vez, como o fiz em suas outras obras a que tive acesso. Em se tratando desta, porém, deve haver algo de errado, ou com ela ou comigo. Só sei que sempre que a tomo em mãos, eu parto da primeira linha, e precisaria de um dia inteiro para chegar ao fim. Talvez seja uma forma inconsciente de eu não aceitar que essa história termine tão rápido, como fatalmente seria se fosse lida dum só lance. Decidi deixá-la de lado por uns instantes, fiquei a olhar para o nada e só então achei engraçado o fato de ter pego justo esse livro na estante, porque eu o comprei exatamente com uns trocados emprestados do Silas, que agora me pedia refúgio. Lembro que na ocasião da compra, estávamos num hipermercado, de bobeira, nem recordo o que estávamos buscando e vi esse livreto. O pior é que não tinha nem 6 reais no bolso, eu devia ter 4 reais ou menos, e lhe pedi o restante.
Não tenho, mas peraí, disse o Silas, e saiu, enquanto fiquei folheando outros livros, e em menos de dez minutos ele voltava com a parcela que faltava, em umas dez moedas de 25 centavos.
O que você fez?, perguntei.
O que você acha que fiz? Eu saí pedindo, é claro, foi o que me disse. Vai aceitar ou não?
Aceitei.
Era curioso que ele agora estivesse nessa situação, porque no dia anterior estávamos conversando, eu, ele e mais três amigos, num barzinho pequeno, próximo à escola onde dou aulas, e tanto o Silas como os outros falavam alto sobre as garotas que comeram neste último carnaval, mas o papo não fazia muito sentido pra mim, porque não participei dessa farra licensiosa do carnaval, embora já tenha usufruído dela noutros tempos. É só que agora não tenho mais interesse porque nem meu ânimo é o mesmo, hoje acho que não tenho sequer condições para transar mais de uma vez por semestre, e olhe lá, sem repetições.
Você fala como um velho impotente, disse-me uma garota dia desses.
Você é uma decepção, disse outra, menos de 48 horas depois.
Para as duas eu apenas sorri e mudei de assunto.
Eu pensei em responder a mensagem pedindo algum contato do Rodrigo, telefone ou coisa assim, mas deixei pra lá. Ele provavelmente não se lembrava de nenhum de seus colegas do tempo da escola, sabia que no máximo era motivo de chacota para alguns que o chamavam de "venta", e eu nem sabia que ele tinha esse apelido.
Isso tudo na verdade era só algum passatempo na madrugada. Não havia mais nada a fazer, e eu não tinha sono. Não tinha bebida em casa, nem comida. Tomei banho pra passar o tempo, mas isso só me fez pior, porque a água daqui tem muito cloro, e eu sou meio alérgico, sei lá, não sei se é possível ser meio alérgico, mas o fato é que passei vinte e cinco minutos no banho, às três da manhã, e quando saí o meu corpo era só pruridos. Eu demoraria mais no banho - enquanto estou embaixo d'água, nada sinto -, mas escutei o celular apitando, era uma mensagem que havia chegado. Eu pensava quem me escreveria algo a essa hora?, e sabia que havia grande possibilidade de ser uma mensagem automática da operadora lembrando-me de minhas dívidas. Mas não, não era uma mensagem automática, era uma mensagem de um amigo chamado Silas, perdido num apartamento de alguma garota fácil dessa cidade. Ele dizia:
CARA LEMBRA QUANDO VOCE ESTAVA MAL COM AQUELA GAROTA POIS EH AGORA ESTOU ME SENTINDO ASSIM TAMBEM LIGA PRA MIM VAMO CONVERSAR.
Fiquei matutando sobre o porquê de ele fazer a referência a um momento em que eu estava mal, sobretudo com "aquela garota". O que tinha a ver? Será que ele imaginava que eu só lhe daria atenção se houvesse um peso que me obrigasse a isso? De qualquer maneira, de nada adiantaria pensar nessas coisas, porque eu não tinha mesmo condição para lhe telefonar, e fiquei mal por isso. De fato, Silas tinha quebrado um bom galho noutros momentos, e agora eu não poderia retribuir o amparo, que babaca que sou, eu pensava de mim mesmo, mas o que poderia fazer?
Decidi matar o tempo com alguma leitura, embora não estivesse muito a fim. Dei uma olhada na estante e peguei rápido um livro qualquer que fosse, o quarto estava escuro ainda, de maneira que eu não sabia que livro tinha pego. Só depois que acendi, vi que havia sido um do Jack Kerouac. Eu achei que seria bom para adormecer, porque Kerouac é um dos tipos que me ajudam a escrever, quando quero escrever, que me ajudam a dormir, quando quero dormir, e me ajudam a passar o tempo, quando quero apenas passar o tempo, no ônibus, por exemplo.
Ela é uma garota bonita demais. Eu me pergunto o que todos os meus amigos iam dizer... e o que aconteceria em Nola quando você a visse... sob o sol quente, ela de óculos escuros e um andar preguiçoso... Ela fala de um jeito parecido com minha velha tia franco-canadense lá de Lawrence. "Não quero su moa-ny, o que quero é yur loave." Loave, amor. "És yur lawv." Lawv, lei. Acontece a mesma coisa com Tristessa, que tá o tempo todo tão doidona, passando mal. Ela se aplica 10g de morfina sempre, e sai cambaleando pelas ruas da cidade tão bela, e seus olhos reluzem e seu rosto está úmido com o sereno...
Essa Tristessa é muito louca, muito intensa, eu pensei, e censurei a mim mesmo por ter pensado isso, porque é o que faço todas as vezes, penso demais enquanto leio esse livro, que leva o nome de sua protagonista, Tristessa, e é por meditar tanto nele que não consigo nunca lê-lo todo, mesmo sendo bem pequeno, nem pode ser chamado de livro, é um livreto que não custa nem 6 reais e fica jogado nessas seções de livros que só olha mesmo quem não tem dinheiro para comprar os best-sellers das outras estantes que custam dez vezes mais, embora seus conteúdos valham dez vezes menos. Fico aborrecido porque a leitura de Kerouac deveria ser feita como a escrita, de uma só vez, como o fiz em suas outras obras a que tive acesso. Em se tratando desta, porém, deve haver algo de errado, ou com ela ou comigo. Só sei que sempre que a tomo em mãos, eu parto da primeira linha, e precisaria de um dia inteiro para chegar ao fim. Talvez seja uma forma inconsciente de eu não aceitar que essa história termine tão rápido, como fatalmente seria se fosse lida dum só lance. Decidi deixá-la de lado por uns instantes, fiquei a olhar para o nada e só então achei engraçado o fato de ter pego justo esse livro na estante, porque eu o comprei exatamente com uns trocados emprestados do Silas, que agora me pedia refúgio. Lembro que na ocasião da compra, estávamos num hipermercado, de bobeira, nem recordo o que estávamos buscando e vi esse livreto. O pior é que não tinha nem 6 reais no bolso, eu devia ter 4 reais ou menos, e lhe pedi o restante.
Não tenho, mas peraí, disse o Silas, e saiu, enquanto fiquei folheando outros livros, e em menos de dez minutos ele voltava com a parcela que faltava, em umas dez moedas de 25 centavos.
O que você fez?, perguntei.
O que você acha que fiz? Eu saí pedindo, é claro, foi o que me disse. Vai aceitar ou não?
Aceitei.
Era curioso que ele agora estivesse nessa situação, porque no dia anterior estávamos conversando, eu, ele e mais três amigos, num barzinho pequeno, próximo à escola onde dou aulas, e tanto o Silas como os outros falavam alto sobre as garotas que comeram neste último carnaval, mas o papo não fazia muito sentido pra mim, porque não participei dessa farra licensiosa do carnaval, embora já tenha usufruído dela noutros tempos. É só que agora não tenho mais interesse porque nem meu ânimo é o mesmo, hoje acho que não tenho sequer condições para transar mais de uma vez por semestre, e olhe lá, sem repetições.
Você fala como um velho impotente, disse-me uma garota dia desses.
Você é uma decepção, disse outra, menos de 48 horas depois.
Para as duas eu apenas sorri e mudei de assunto.
12 comentários:
As vezes também me recrimino pela minha capacidade de ser totalmente inútil para algumas pessoas, mas sei lá esse sentimento dura no máximo 5 segundos ai eu sorrio e mudo de assunto. E sobre as duas garotas, acho que todos esperam as mesmas coisas de todas as pessoas se você não faz algo repetido por todos você se transforma em uma velho impotente e em uma decepção, vai entender!!
De resto me passa o e-mail com as fotos do Venta? (mera curiosidade juvenil, eu sou patética).
Existem as bebedeiras sem motivo e as motivadas... Ambas tem sua serventia, de certa maneira. Não sei não... mas se eu tivesse ouvido o que vc ouviu dessas garotas, independentemente de elas terem ou não algum fundamento, eu tomaria um belo porre... motivado...
Tb nunca consegui terminar de ler "Tristessa"... sei lá, nunca prendeu minha atenção =/
E eu também, muitas vezes [muito mais do que deveria] sou excessivamente ingrata com os amigos, tratante mesmo =/
E fico me odiando por isso.
;*
Desagradável isso de não corresponder ao amigos quando eles precisão. Já passei por isso negar ajudar a quem me ajudou por poucas vezes e me arrependo até hoje.
Não custa nada fazer certos sacrifícios e mesmo assim não fazemos pq sempre achamos que o problema do outro não deve ser tão grande assim.
Este texto me fez pensar bastante sobre este assunto. Eu estava precisando de algo assim. Obrigada por escrevé-lo!
^^
Tristessa.
Parece interessante..
e eu me sinto mal quando recebo uma mensagem pedindo pra ligar e eu não posso..
(não to acreditando até agora que o Silas saiu pedindo dinheiro pra vc comprar o livreto.. rs)
tinha percebido que vc comentou no texto errado, mas não comentei nada pq não prejudicou em nada.. melissas são sandalias de plastico..
Não me canso de te ler.
Só fico sem palavras para comentar algo coerente, tens sempre todas elas.E eu me deleito sentindo-as.
Beijo grande, Leon.
Já me senti assim várias vezes.
Uma inútil na hora de ajudar as pessoas que eu gosto.
Mas é assim mesmo.
Um dia a gente consegue!
=)
Passei aqui ontem, mas como tava sem tempo fui bem rápida e não comentei.
Agora cá estou e li tudo com mais calma, com a atenção que teu blog merece!
Beijos, Leon!
que triste...
é, não sei quantas vezes isso me aconteceu, perdi as contas... ;/
E fico triste comigo mesma, por sempre quando eu preciso de alguém, nem que seja um alguém que sirva como um ouvinte do que tenho a dizer, ele sempre á lá...
E quando devo retribuir, eu nunca estou...
muito engraçado o fim. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
vc é ótimo.
Não se preocupe com isso! Adoro comentários longos. É sinal que o que eu escrevi fez vc pensar ou lembrar de algo importante pra o leitor, algo que foi além das palavras.
Desculpe demorar a ler o comentário. É que durante a semana eu não tenho internet e entro só um pouco na faculdade quando tenho algo pra postar.
Estou aguardando com ansiedade o proximo texto seu!
Bjos!
BOM!!!
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