sábado, 16 de maio de 2009

Junto com o coroa roncador

Depois que paguei os 50 centavos e girei a catraca da Estação de Trem do Jardim Aeroporto foi que estranhei o fato de não haver quase ninguém por ali. Tinha apenas um cinquentão dormindo no banco. Era muito cedo, devia ser 5h00 da manhã, o céu já estava claro, mas o sol ainda nem havia aparecido no horizonte - no horizonte oposto ao que se permite ver da estação. Achei estranho não ter mais ninguém por ali, mas me detive a ficar à espera daquele trem fudido e despedaçado, mas que me permite usufruir do meu direito de ir e vir quando não tenho grana para pôr combustível na minha moto, então pego aquela condução que dança em cima da ferrovia mal-ajustada e desço na Estação da Ribeira, de lá desloco-me pra tudo que é lugar a pé, faço todas as coisas que tenho pra fazer, e, quando é noite, volto caminhando pra Ribeira, todo suado, cheirando mal e cansado, e uno-me a outras centenas de pessoas que estão suadas e cansadas e cheirando mal voltando pra suas casas. Apesar disso, estar na estação ou mesmo no trem era algo que me agradava, porque lá havia uma gente com quem eu, algumas vezes, conversava numa boa e havia uma mutualidade de interesses, sempre havia pessoas de vidas horríveis e asquerosas, e que tinham vergonha de contar experiências suas para estranhos, então eu tinha todo o espaço pra contar as coisas da minha, um espaço que geralmente faltava pra mim, porque não conto nada de mim pra outras pessoas, nem pros meus amigos, eles nunca têm muito interesse em saber, e como tudo mundo eu também às vezes sou meio carente, gosto de trocar uma conversa. Hoje mesmo uma amiga me disse por que você não fala de sua vida?, como se eu ocultasse coisas, e foi isso que ela perguntou também, por que você esconde coisas?, mas ela se engana, eu não escondo nada, ela que nunca se interessou em saber, é tanto que me fez uma pergunta pessoal e, depois da minha resposta, mudou de assunto, sem nem notar, como se nunca tivesse feito diferente, e não fazia mesmo. Mas agora, nem na estação de trem havia alguém para conversar ou sequer para cumprimentar com um aceno de cabeça, estávamos apenas eu e o coroa dormindo, pensei em acordá-lo para perguntar a hora ou algo assim, mas desisti, imaginei que estivesse bêbado ou fudido demais, às vezes cabe um bom senso antes de interromper o sono de alguém, e pensei em ir ali perto da bilheteira e falar com ela, dizer-lhe oi, bom dia?, quer conversar?, porque ela vive ali, catando moedas de 50 centavos e passando trocos, o dia todo, num cubículo de menos de 5m², tendo uma relação tão meteórica com as pessoas que não dura nem 5 segundos, é só o tempo de as tais pessoas dizerem um bilhete, por favor!, ou dois bilhetes, por favor!, e pronto, acabou-se, ela talvez nunca mais volte a ver aquelas faces, enfurnada dentro daquela salinha. Eu não iria lá, fatalmente ela já estava acostumada às relações efêmeras, não se permitia conversar com alguém na hora de trabalho, fiquei lá, sentado, vendo o dia clarear ainda mais, vendo o matagal à frente, porque existe um matagal, um sítio à frente da estação, um sítio imenso, parece uma fazenda, uma floresta, não existe vida habitável nesse terrenão todo até onde a vista alcança, no máximo uma casa lá pelo meio da fazenda, minha nossa, que vastidão de árvores, era legal ver, porque a estação fica situada num ponto alto, uns 5 metros acima do nível do chão da fazenda, então dava pra ver a vastidão de árvores se dirigindo até o horizonte, e eu morava ali perto, a uns 300 metros, ali, o último ponto da cidade, a periferia da periferia, depois da qual não existe civilização até que venha o próximo povoado. Esse marasmo todo, esse vazio me deu vontade de escrever, peguei uma agenda que nunca usava, tinha agenda apenas para ocupar minhas mãos, sou um cara muito nervoso, muito cheio de tiques, de mexe-mexe, nunca sei o que fazer com as mãos, se as ponho no bolso, ou na cintura, ou sei lá, estão sempre saio de casa com um livro ou uma agenda pra ter algo a segurar, mas agora especificamente me deu vontade de escrever na agenda, um poema!, vou escrever um poema!, faz tempo que não faço um, mas que merda!, nesse espaço que eles dedicam não rola fazer um poema!, fiquei puto porque na agenda cada dia tem apenas umas dez linhas, como vou escrever um poema, mesmo pequeno, em dez linhas tão pouco espaçadas?, eu escrevo muito, tenho letras grandes e garranchudas, eu poderia fazer um poema que tomasse a agenda toda, sem me importar com as linhas ou essas coisas, mas fiquei meio puto, nessa hora queria um caderno, ou uma folha totalmente em branco, pra que pudesse escrever livremente, porque essas linhas, mesmo sendo apenas isso, linhas, bloqueavam a minha criatividade, e tudo o que me vinha na cabeça e dava substância a escrever nessa estação, e eu sempre tive uma vontade de escrever na estação, agora tava munido de algo, uma agenda, estava com caneta, que mais que eu queria se tinha caneta e papel?, mas não, sempre tem que acontecer alguma merda pra me bloquear a criatividade, apoiei os cotovelos nos joelhos e escondi a minha cabeça entre as mãos, parecia frustrado, e estava mesmo, mas na verdade eu estava assim por causa do sono, nunca pego o trem às 5h00 da manhã, somente às 7h00, mas nesse dia em específico eu acordei duas horas mais cedo e terminei saindo de casa duas horas mais cedo, porque eu só ligo o relógio-despertador quando vou dormir, então fatalmente eu marquei a hora errada à noite, por isso acordei, também, na hora errada, acordei às 4h00 e quebrados pensando que já passara das 6h00, meu compromisso era as 8h00, mas 300 metros até voltar pra casa já era demais pra mim, abaixei a cabeça, joguei as pernas em cima do banco da estação e também aproveitei para tirar uma soneca junto com o coroa roncador.



10 comentários:

Jordana disse...

Quando eu falava que tinha vontade de escrever e nunca levava adiante era justamente isso que eu sentia. Eu sempre tenho material pra escrever (caneta, agenda, caderno, pc, etc) e sempre rola alguma idéia, mas a "merda pra me bloquear a criatividade" sempre tava ali e eu ficava não diria puta, mas frustrada. Escrever com sono tb é dose, aliás, fazer qualquer coisa com sono a não ser dormir é dose. Dormir com o velho roncador foi a melhor escolha, mas e aí? Acordou antes de perder o trem?

Índio Nu disse...

Ué, tem que usar o truque da esquizofrenía.
Imagina que, sei lá, Goethe apareceu na tua frente te ditando alguma coisa.

Bruno Silva disse...

... Suas publicações são ótimas.

well souza disse...

Opá!
parabéns, você escreve bem!
Volta lá na estação no mesmo horário novamente, quem sabe o poema não está lá com o coroa roncador te esperando? rsr

abraço!

http://hiper-link.blogspot.com

Mic disse...

olha só..vim aki ver se tinha post pra mim ler e num é que tem... 2 ainda.. depois eu volto e leio, tenho prevest agora..vida sofrida! rsrs

bgs

Anônimo disse...

aah, que texto grande guri, mas li. gostei como escreve e do teu nome que já tinha visto por aí.

CAMILA disse...

sim. seu blog tem um estilo diferente do meu..sim.

gostei do seu post. vc nao devia estar numa comunidade de blogueiros fracassados nããão!hehehe..

:D
Obrigada.

Mic disse...

conversar com alguem é muito bom.. às vezes ficar sozinhos nos permite algo mais, de nós mesmos..

Ind Caroline x) disse...

oooii de novo.. li mais um (atrazada) ahuheauhae
mt boom.. enqto leio, vejo as imagens, parece que vejo vc, mesmo não te conhecendo pessoalmente, quase posso ver seus trejeitos, vc é até mt previsível sabe.. rsrs parece que vejo vc pondo a cabeça entre as mãos e bufando.. aehuheaeuah
mas, é mt bom mesmo, bom falar cm pessoas estranhas... nunca vão te incomodar cm seus problemas..rsrs
magnific!!
beijão

Lucas disse...

fragmento do cotidiano, uma mente inquieta, a reificação das pessoas... bem legal =)