domingo, 26 de abril de 2009

Notícias do lixo

Um amigo me contou, enquanto bebíamos num bar perto da faculdade, que Rinaldo, um alcóolatra vizinho seu, havia sido atropelado. Foi atravessar a rua bêbado e duas garotas que vinham a todo pique em uma moto o atingiram. Seu corpo fora dividido em dois, sua perna direita jogada longe, sua perna e seu braço esquerdos espatifados no ato do acidente. Seu crânio amassado ao se colidir com o meio-fio. Meu amigo queria visitá-lo no hospital, mas não queria ir sozinho. Ofereci-me para acompanhá-lo.

Rinaldo estava na UTI do Hospital São Lucas, uma clínica particular a qual a motociclista que o atropelara era associada. Ela havia se saído bem do acidente, sofrera apenas umas escoriações nos dois cotovelos. Quanto à sua moto, uma Virago 250cc - suponho que muito pomposa, embora definitivamente mal usada -, e à sua carona, não tenho conhecimento de como estão.

Eu juro que não o vi, ele surgiu muito rápido!, dizia-nos ela. Soubemos que ela seria julgada por crime doloso, por isso seu desespero. Era uma garota bonita, do tipo que fatalmente não conversa com qualquer um. Estava ali sucumbi

Rinaldo morreu dois dias depois do acidente. Além de mim e de meu amigo, apenas quatro pessoas - todas do conselho comunitário de seu bairro - foram visitá-lo no hospital. Ele esteve em coma todo o tempo, mas, ainda que estivesse consciente, não reconheceria ninguém. Seu cérebro estava afetado por completo, e o hipocampo, responsável pela memória, fora praticamente destruído. Não tinha jeito pra ele.

Esse acontecimento não me abalou tanto porque não conhecia o Rinaldo, mas não posso negar que me causou uma certa comoção. Deve ser mesmo triste chegar ao fim sendo tão pouco lembrado.

Quando penso em Rinaldo, vêm-me à mente os casos de todas aquelas pessoas problemáticas. Dia desses, escrevi sobre meus alunos, sobre os problemas que enfrentam por não terem outro caminho a seguir. É corriqueiro, para quem trabalha numa escola pública de uma cidade com problemas de metrópole (mesmo sendo tão mediana e antiquada como Natal), conviver com os dilemas de quem vem da periferia assistir às aulas. É corriqueiro também ser obrigado a se acostumar com as más notícias.

Fiquei pensando nas ocasiões em que, no ano passado, vi alguns alunos se vendo obrigados a sair em grupo da escola, visto o risco que era andar sozinho pelas ruas vestindo uma farda - a rivalidade entre as instituições é uma coisa que já tomam como algo banal por aqui, engraçado até.

Esses dias encontrei Vanaldo, que não é mais meu aluno, mas mesmo quando era eu o via pouco. Sendo frequentemente ameaçado, seria natural mesmo que aparecesse pouco. As ameaças, porém, eram simplórias, pelas coisas mais bobas; Vanaldo é grande atleta, sabe jogar futebol como poucos. Há quem não goste disso. Ano passado, foi espancado na abertura dos Jogos Escolares. O maior evento esportivo do estado vê um de seus participantes sendo espancado e nada faz; no máximo, notinhas críticas no dia seguinte "lamentando o ocorrido".

Quando comecei a escrever esse texto, também povoava a minha cabeça o caso de Maria Luiza, também ex-aluna, que estava desaparecida há dez dias. Mas há instantes, telefonaram-me para me informar que já a haviam encontrado. Algumas crianças, enquanto brincavam - no Lixão de Cidade Nova - encontraram seu corpo ontem, e foi logo reconhecido hoje pela manhã e o funeral rapidamente convocado para instantes depois: o estado de decomposição em que se encontrava já não permitia maiores e mais longas cerimônias.

A Maria Luiza, filha da dona da cantina da escola, conhecida de todos, com um permanente sorriso preso ao rosto - e permanentes questionamentos acerca de minha aparência rude - foi duramente violentada e estrangulada, num caso que gerou bastante comoção. Seu enterro, mesmo feito às pressas, reuniu centenas de pessoas, seu nome seria objeto de faixas espalhadas pela cidade, amanhã mesmo um jogo amistoso no Machadão - ABC x América, os dois grandes do estado - dedicar-lhe-á um minuto de silêncio... devo ter sido o último a saber.

No mais, só mesmo assim para que a garota risonha pudesse ocupar manchetes de todos os jornais, audiovisuais ou impressos.

Depois que eu penso nessas coisas todas, todas as outras perdem sentido, seja dormir, ver um filme, conversar um pouco, comer qualquer merda... diante da pobreza em que vivemos - e não me refiro apenas à pobreza no aspecto social -, essas coisas são vazias demais. Nessas horas se percebe que é por nós que os sinos dobram quando alguém se vai.



13 comentários:

Chantinon disse...

Leon,
Acredito que entendi sua mensagem.
Tenho planos de ir morar em Natal em 2010. E quando vejo o que era Natal a míseros 10 anos atrás, onde a noticia mais sensacionalista era de um sujeito que havia cortado o dedo de outro com uma faca. E essa notícia foi alvo de uma semana inteira debates e regresso ao caso nos telejornais e jornais locais.

Tudo hoje ficou muito banal.

Não só a violência foi banalizado. Aceitamos de tudo. Desde vida sem familia, mães independentes, corrupção, idiotices publicas como BBB's e celebridades fabricadas com escandalosos.

E o curioso, quanto mais violência, mais idiotices, mais escandalos, mais ficamos dormentes e aceitando tudo. É o ciclo do crescimento.

Mas nesse mundo baseado em numeros, quem tem coragem de falar: "Vamos parar de crescer" ?

abraços

Palavrador disse...

"É corriqueiro também ser obrigado a se acostumar com as más notícias."

Apesar de vivermos num mundo onde o capital potencializa a irracionalidade de aspectos da vida social; em que as cidades concentram a violência, as evidências desses fatos transparecendo nas estatísticas; em que a mídia amplifica o terror, difundido o medo, conferir um sentido determinante dessa violência para o resto da vida surge como uma inoxerabilidade a própria vivência subjetiva.

A vida não conferirá um sentido à nossa existência. Por mais que inumeráveis condicionante incidam, somos nós que conferimos esse sentido último, inconscientemente ou não.

É para ser vazio, é para ser sentido. Se não fosse sim, seria trágico.

Abraços!

Juh disse...

Eu nunca podia imaginar que você conhecia a Maria Luiza... Vi a tragédia na TV.

Quinta-feira, no cursinho, meu professor de história comentou: Poucos são os que tem a chance de tentar entrar na universidade... alguns tentam no maximo dois anos, e já têm de trabalhar, a idade e as condições econômicas da família ja nao permitem mais um ano só estudando...

Voltando do cursinho de moto com meu irmao, pegamos um caminho diferente, viemos por cid. da esperança, cidade nova, observei a pobreza do lugar e fiquei triste por aqueles que não tem escolha de viver em um lugar melhor...

E os políticos, como sempre, cuidam da elite, essa burguesia egoísta.

Juh disse...

Tem uma garota lá no CDF que me conhece, fala comigo com intimidade e que a reconheço, mas sinceramente não lembro dos nossos momentos juntas na escola, no ensino fundamental.

Ainda bem que como eu, ela está ali estudando, procurando um futuro bom. Mas nossas colegas, essas sim eu lembro bem, ela me contou mais de 3 delas já são mães e solteiras.

Uma delas, eu não acreditei. Parecia absurdo. Aquela menina, tão puritana, com sinceridade, era evangélica, já visitei até sua igreja, Assembléia de Deus do Planalto, na época eu tbm frequentava, porem outra congregação. Pois é, ela já está com um filho de 2 anos.

Outra sempre foi a doida da escola. Eu fui sua colega. Eu sou amiga de quem quiser ser meu amigo, a aparencia rebelde nao me assusta, as pessoas tem um coraçao bom, basta conversar com elas, tentar entendê-las. Encontrei-a há dois anos na fila do SETURN, ela já tinha um filho de 6 meses. Estava vindo da escola... ela havia voltado a estudar agora q ja podia deixar o neném com mãe.

Outra, descobri pelo orkut. Garotinha, mais nova q eu, mais baixinha... parecia uma bonequinha e já é mãe também.

Uma prima minha, este ano teve neném tbm. Está morando com o namorado, mas não há estrutura. Nem sei se ela terminou ao menos o 2º grau. Mais nova que eu também...

Eu me pergunto, porquê?

Quando eu estava largando as bonecas, e dei meu primeiro beijo aos 15 anos, minhas colegas já eram mulheres, mas sem o intelecto de uma MULHER.

Naty disse...

Não sei nem o que comentar diante do seu texto que fala de um realidade tão proxima, e que todos fazem de conta que não veem.

Andei pensando muito na insignificância da vida diante de certas coisas que acontecem no dia-a-dia nos ultimo mês. Podemos agir de duas maneiras: Ou fazemos de conta que não é com a gente ou entramos em depressão diante da nossa impotência.

E imaginar que o que aconteceu com todas as pessoas que vc citou no texto poderia ser eu, ou vc, ou alguem que amamos...

Allan Cedrak disse...

Eu serei mais um Rinaldo, a unica mulher que vai se importar com o que aconteceu vai ser a causadora e os unicos 4 que irão me visitar serão:
Leon,
Jael,
Diego e
Jota.


Leon, estou apenas quebrando o gelo, o caso da garotinha é foda, ela tinha um lindo sorriso e esperamos que ele tenha companheiros cavalares de cela.

Tatiana Pinheiro disse...

Nao vou fazer mais um comentario do tipo... horrorizado e banal.

É o mundo cao. É a vida filha da puta. Aquela que eu ainda vou passar a perna.

Tenho é muita pena desses pais.

=**

Biógrafa disse...

que bom falar contigo novamente, meu camarada! não vou comentar o conteúdo do texto, apenas a forma. teu estilo é maravilhoso, de uma sobriedade e equilíbrio, que, obrigatoriamente, petrificam o leitor, fazendo-o refletir profundamente sobre o tema abordado. texo bom é texto que faz pensar. quando o cara termina a última linha e fica meio sem saber o que fazer, olhando pro nada durante alguns segundos. não tem nada de vil aqui nessa literatura. ego do autor devidamente massageado, nos próximos textos me permitirei comentar os assuntos. hoje sou um blogueiro bissexto, só algumas bobagenzinhas eventuais ando publicado, mas fico contente demais em saber que blogs como este existem. p.s: tô baixando os contos, vou começar a ler hj à tarde. grande abraço!

Heloísa Vilela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mic disse...

tanta cisa ruim que acontece..eu tenho medo, pois pode ser até comigo da proxima vez..

Ind Caroline x) disse...

poooh.. tinha feito um comentário ótimo, e deu erro... mas, resumindo, to atrazada, mas to aqui.. rsrs... amei o texto, foi tão ótimo qto os contos, e eu penso o mesmo que vc, qto as coisas que acontecem.. pra mim são catastrofes, e as pessoas, os governos, as autoridades poderiam fazer mais. Gostei da parte que diz: "Nessas horas se percebe que é por nós que os sinos dobram quando alguém se vai."
khoshteep!
bjs

Ind Caroline x) disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

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