Não se preocupe com rejeições, parceiro.
Fumei 25 cigarros esta noite,
e você sabe sobre as cervejas.
O telefone tocou apenas uma vez:
era engano.
Fumei 25 cigarros esta noite,
e você sabe sobre as cervejas.
O telefone tocou apenas uma vez:
era engano.
Charles Bukowski, O Amor é um Cão dos Diabos
Já fazia quarenta minutos que eu caminhava solicitando carona a todos que passavam protegidos em seus automóveis, mas ninguém me concedia. Era alta madrugada e eu estava um pouco embriagado, mas desejava chegar logo em casa, ou, pelo menos, encontrar algo que me fizesse minimamente confortável. Pouco antes, eu bebia com os colegas de faculdade até que fechasse o bar - na verdade, eu não esperava que fechasse, pois não tinha mais condução que me levasse até em casa, 20 quilômetros distante. Todos se foram, cada qual para seu lado, com as moradias próximas ao boteco, caronas e quetais. Eu poderia usar de minha moto, mas a havia deixado na manhã anterior num borracheiro; estava com o pneu furado e eu teria de suportar o peso de andar a pé e, quando necessário, recorrer ao ônibus - como já disse, porém, não havia mais esta possibilidade na hora em questão.
Vou ligar para alguém, pensei, mas para quem eu ligaria? Fiz uma tentativa.
Porra, é quase uma da manhã, disse meu interlocutor quase sem me deixar começar a falar, deixando claro que eu lhe interrompera o sono e desligou, não sem antes xingar minha mãe.
O meu celular ainda me oferecia uma lista de pelo menos 30 pessoas a quem eu poderia ligar. Mas eu sabia que delas nada conseguiria senão aborrecidas recusas. Conformei-me em vagar na madrugada, já sem pretensões de conseguir carona ou um refúgio qualquer. Foi quando vi uma lan 24h, e entrei. Pelo menos a internet poderia me entreter até que amanhecesse o dia, eu pensei, já que eu passei da fase de achar legal ficar dormindo na rua.
Naveguei um pouco na internet e, dentre os poucos indivíduos disponíveis para conversar àquela hora, me deparei com uma garota insone, uma colega da faculdade que recentemente conhecera. No decorrer do palavreado, ela se queixava de tantas coisas, entre as quais o tédio de estar sozinha em casa naquela madrugada. Então eu pensei, já que estava a não mais que meia hora da casa dela: seria legal se...
Papo vai e papo vem, ela sabia que eu estava por perto e me convidou para ir até sua residência, ao que imediatamente aceitei. Ainda que existisse um certo flerte entre a gente, a verdade é que eu aceitei o convite na melhor das intenções, afinal, só queria um lugar para dormir.
O fato é que, quando já estávamos ambos acomodados em sua casa, ainda conversamos um bocado, e como ela soubesse que eu havia bebido há pouco, por certo bateu-lhe também uma vontade de beber, pois logo me ofereceria algo.
Tem uma vodka ainda aqui, que tal bebermos um pouco?, perguntou-me.
Consenti prontamente.
Duas horas depois, repousávamos nus em sua cama, tínhamos feito de tudo e isso fez mal à garota se mostrava bastante deprimida e desculpava-se repetidas vezes por ter sido tão oferecida justo nessa primeira vez em que nos encontramos assim, sozinhos. Eu terminei me sentindo mal também com tudo aquilo, esperava que ela adormecesse, quem sabe pela manhã estaria melhor?, mas ela ainda não parecia ter sono, dizia estar arrependida e buscando um jeito de fazer com que não perdesse meu respeito, por mais que eu dissesse que isso não aconteceria. Como ela insistisse e eu fosse reincidente, então me pediu que lhe desse uma prova de que a continuaria respeitando pela manhã.
Vá em frente, incitei. Que prova você quer?
Me peça em namoro!, ela disse.
Eu me assustei com a proposta. No entanto, como sabia que ela tinha bebido e sequer se lembraria da conversa depois de um cochilo, cedi.
Tá bom... Namora comigo?
Ela riu e sentenciou: hahaha! Não, seu otário, não gosto de você!
Poucos minutos depois, a garota estaria vomitando todo o banheiro, depois tomaria um banho rápido e voltaria despida para a cama, dormindo em seguida. Ela já nem sabia o que estava fazendo. Eu fiquei acordado, continuava a me sentir mal, não pelo excesso de bebida, mas por aqueles momentos a dois. Não esperava que um abrigo me custasse tão caro, e a noite de sexo realmente não compensou o peso psicológico que foi permanecer ali. Fiquei andando pela casa, sentando no sofá e levantando, até que só quando começava a ver filetes do alvorecer reprimidos pelas brechas da janela eu fui me deitar na cama, a seu lado, adormecendo logo. Não muito tempo depois, o telefone tocava e nós dois despertávamos, ao mesmo tempo.
Você precisa ir embora, ela proferiu calmamente, e explicou o porquê. Fui embora, portanto.
Muitas horas depois, o colega que me houvera recusado um lugar para dormir estava a ligar, chamando para assistir uma apresentação de sua banda num festival de rock. Aceitei o convite, por mais que já não ande com muito saco de acompanhar festivais musicais, e sempre penso que ninguém tem saco também, de maneira que eu nunca convidaria alguém pra ver uma banda minha a tocar num festival, por mais que houvesse uma nova proposta literária ou musical no nosso som, ainda que não houvesse pretensão de nada disso no som da banda de meu amigo. Mesmo assim, fui e acompanhei. Meu bom camarada se divertiu bastante com seu espetáculo, e nossos amigos em comum também eram pura euforia no meio do público.
No final, ficaram todos juntos, bebendo e fumando e tal, eu fui embora logo. Não queria permanecer ali por muito tempo mais. Era relativamente cedo e teria bastante ônibus disponível àquela hora, então não perdi tempo.
Cheguei em casa e uma impressão estranha me acometia. O silêncio parecia mais audível para mim do que nos outros dias. A escuridão era mais visível do que eu percebia normalmente. Li um pouco, ouvi música, fui para o computador. Agia por inércia, sem propósito, sem juízo. Fui logar em um de meus emails, e a resposta que obtive me fez concluir que, por tanto me procurar, enfim eu havia me encontrado: "o usuário não existe mais".
22 comentários:
Publicado originalmente em agosto de 2008.
Literatura VIL
Caramba Leon! Não tinha lido em agosto, por isso fiquei aqui, de boca aberta com essa postagem.
Esse negócio de viver é esquisito. A gente faz tanta merda, dps se arrepende, dps faz tudo de novo. Vai entender...
Mas acho que apesar de tudo, o importante é viver. Com a experiencia a gente quebra a cara e tal, mas isso no fim só nos faz mais fortes.
Beijos
Não consigo movimentar o pescoço, mas mesmo assim fiquei aqui segurando o queixo para ler esse texto. rsrs
A gente não pode dar caronas os outros na rua porque pode ser assaltante, ainda mais de madrugada né?! rs
Por um momento achei que vc iria namorar com a garota, por mais que não durasse... rs
aah, ontem o Cruzeiro ganhou e eu chorei rsrs
zona de rebaixamento ninguem merece né?!
alívio, pelo menos um pouco.
Estou aqui, vegetando de tanto sono e mesmo assim... fiquei presa à leitura de seu texto. Gosto da forma como você escreve e, pôxa... dias turbulentos esses seus heim? :) Não vou me alongar muito, pois quando com sono, costumo falar bobagens. Volto em outro momento.
Beijão
ps1: Esqueci de dizer, gosto do seu nome.
ps2: na verdade é fácil, o problemas é que grande parta das pessoas gostam de sofrer (mesmo sem saber) e por isso se apegam muito ao passado! Típico dos artistas, que usam a dor como fonte de inspiração. Mas eu acredito do amor pleno.. cúmplice. E esse, o verdadeiro, quando chega... vem sem espaço pra sofrimentos. Os outros, não são amor :)
..acho que preciso dormir! :x kkkk
Eu sou fraca para comparar, já que só li um livro até hoje, mas que texto bukowskiano ein?
hahaha, mas gostei, acho que gosto dessas coisas tristes e mórbidas que acontecem. quem sabe isso não faz mais graça do que a própria graça.
;**
LEON, Muito bom, virei Fã. haha.
E devo dizer que temos gostos literários bem parecidos. Rá.
BjoS..
Foi um ótimo texto com um final maravilhoso que me deixou bem surpresa.
Bjos!
^^
Respondendo seu comentário sobre o meu outro blog:
O problema não é nem a publicação dos textos, mas é que tem muito ali de mim, muito que muita gente não deveria nem chegar perto. Eu não tenho medo, longe disso, sei bem quem visita/comenta no meu blog e sabe da minha existência virtual. Mas, não sei, talvez seja insegurança, talvez um pouco de vergonha também... eu me exponho demais ali, é como uma sessão de descarrego, um poço que eu despejo tudo. Por outro lado, não quero ofuscar a vida do Contos No Papel, ele já tem muito tempo e, mesmo que tenha perdido um pouco o ritmo esses tempos, continua lá... Não quero desistir dele sabe? Assim, com um blog meu e privado, fica melhor, me faz acreditar que ainda tenho dois "trabalhos" para fazer, ainda preciso me dedicar a dois blogs ao invés de um só.
Bem, anyway, obrigada pelos elogios. Do jeito que eu sou indecisa, qualquer dia desses vai tá tudo aberto de novo.
;*
Agia por inércia, sem propósito, sem juízo, tomando café que nem Cecília :P
Tá certo, vou acreditar que não falei nenhuma bobagem. Mas que escrevi errado, ah isso eu não tenho dúvida. :X hehe
Que todos tenham a chance de amar verdadeiramente!!! Um dia eu vou.
Que bom que gostou da mudança, fiquei um pouco insegura em fazê-la mas, estou em mudança não é mesmo? rs... resolvi arriscar!
Beijão.
Vejo que achei uma 'corijinha' da madrugada, como eu. rs
Pôxa, mas se é dia do escritor... vamos brindar então. Parabéns à você também, merece em dobro. Que legal, sua história com a agenda [diário né, assuma!], bom mesmo saber sobre esse primeiro contato com a escrita. E melhor ainda em saber que já não necessitamos, tanto, da companhia dos nossos amigos imaginários né? quem sabe eu não apresente a minha amiga ao seu amigo. Assim, eles não ficam mais solitários... abandonados, jogados ao léu. :x kkkkk
Quanto à falar bobagens... nem falou. Mas se quiser falar fique a vontade. Na verdade até gosto de pessoas que falam muito e sobre qualquer coisa. E como pode ver, se der um espaçozinho... eu falo e não páro mais né? :x Não ligue! Sou hiperativa. Ou ligue e, me mande 'calar a boca'.
Beijão
Até hoje, essas mudanças em nossos gostos e comportamentos me assusta.
Há 2, 3 anos atrás eu era capaz de jurar que jamais abandonaria uma vida rock'n roll movida a shows, execssos e loucuras.
Jamais imaginei que iria sucumbir a paz da solidão e do silêncio confortável do lar.
Tudo é tão estranho!
=*
Não havia lido em agosto, ainda bem que tu postou de novo. Achei muito foda o texto, mesmo que tenham sido trágicas as experiências a noite! Gostei muito do texto, muito mesmo! Isso não acontece com qualquer um,
:*
O email que tem no seu perfil é o mesmo que voce loga no blog?
nossa, que texto incrível!
ficou muito bom, o melhor é pensar que isso deve ter sido verdade, não?
passamos por coisas demais na vida, algumas nos arrependemos, outras não.. fazer o que? :)
boa semana!
aah, estou rindo aqui de uma coisa que não havia reparado: o amor é um cão dos diabos.
ah, deixa eu te perguntar: vc tá de férias né?! ou não?
Minha vidinha anda tão mediana e estagnada ultimamente e, lendo seu post, confirmo isto. Enfim, como sempre, seus textos são um convite à minha imaginação.Eu também costumo ter as bebidas alcoolicas como boas companhias, mesmo quando me ajudam a provocar estragos, haha!E acho que eu sou o único ser humano no mundo que atenderia o celular de madrugada e buscaria um amigo que precisasse de carona. Eu não existo, fato.
Mais uma vez obrigada pelo comentário em meu blog, não consigo compreender como meus textos, tão simplórios, podem dar margem a reflexões tão ricas!^^
Abraços!
porra!
gostei pakas!
muito baum mesmo..
abraço.
Cada dia mais me arrependo de não ter lido seu blog assiduamente :)
Tem textos muito, muito bons! *-*
E você ganhava 30$ ? =O minha mãe só me dá 20$ =/
Se bem que meu pai é mais liberal! *-* (risos)
Gostei muito do texto, queria viver tão ativamente como você! :)
caraaaca...
ameeei esse finaaal...
essa coisa de vagar, sem sentido, de agir sem propósito... e muito bem aplicado "o usuário não existe mais"... espero que a sensação real não seja mais.. vc existe em nossos corações, em nossas memórias, e no pensamento daqueles que amam ler como eu (y)
;*
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