Eu estava ainda na primeira metade da garrafa de conhaque, embora a tarde aos poucos já anunciasse o seu fim. As outras pessoas começavam a ir embora, o local começava a esvaziar-se. Eu estava no Mirante do Canto, um lugar situado no alto da Serra de Martins e que proporciona uma vista incrível de outras serras preenchidas pelo verde, de rios que cortam as terras em rumos sinuosos e azuis demais, alguns pequenos cercados camponeses, tudo sob a imensidão de um céu de sol e nuvens leitosas, paisagem que eu já vislumbrara noutras ocasiões, mas que agora não me parecia mais tão bonita. Eu havia chegado umas três horas antes, o tempo estava frio mas mesmo assim comprei uma cerveja. Só que não queria cerveja. Antes de terminá-la, comprei um conhaque, porém ali estavam vendendo somente em dose. Saí e comprei uma garrafa e voltei para o mirante. Estava a fim de beber até ver tudo engolido pelo breu da noite.
Em todo o tempo que passei, meu silêncio só foi interrompido algumas vezes por pessoas que buscavam informações, ou queriam fazer novos amigos. Eu nunca estou muito aberto a isso, embora até que considerasse, e chegávamos a conversar por algum tempo. Geralmente vinham em grandes grupos, às vezes turistas, ou grupos de estudantes em aulas de campo, mas também apareciam pessoas que vinham sozinhas ou com suas famílias, tirarem fotos e conversarem pra caramba. Mais de uma vez me ofereceram alguma coisa, algum petisco para comer e me convidaram a mesa. Topei em uma dessas vezes.
Que tá fazendo por aqui?, perguntou-me um cara bem falante.
Sou professor, vim tirar umas fotos para mostrar a meus alunos, falei. Obviamente estava mentindo, nem máquina fotográfica eu havia levado. Ainda bem que ele não pediu pra ver as fotos, ou tirar alguma deles.
Essas são minha esposa e meus filhos - um casal de crianças. Sempre me pedem pra vir aqui, mas detesto subir essa serra, meu carro é do tipo que só se comporta bem em sentido plano.
Também não gosto, disse.
Quer carona depois daqui?, perguntou.
Não, obrigado. Estou de moto.
Ele ficou um bom tempo falando que já foi motociclista, e dos riscos que essa prática traz. Felizmente, não demorou a ir-se embora. Assim me ative novamente às minhas divagações, a perder meu olhar no meio da vastidão de terra e água que se podia enxergar daquele mirante, e a enveredar mais algumas doses. Aos grupos que passavam, eu praticamente ignorei; às vezes, recebia algum aceno de cabeça e retribuía. Noutras, perguntavam o que achavam daquele local, daquela atração, e eu só dizia um "ô, muito bom", e pronto. Até porque para mim não era bem uma atração, era apenas um bom lugar, como uma praça, só que mais distante - uns 350km - de casa.
Já perto de ir embora me apareceu um confeiteiro com quem esbarrara noutras ocasiões e era muito bem-relacionado. Não lembrava bem o nome dele, parece que era Décio, mas não arrisquei mencionar. Era negro e baixo, devia ter 1,50m de altura, careca, tinha uma voz engraçada. Ele me reconheceu fácil pelas tantas vezes que fui ali, e lembrava inclusive meu nome, o que me surpreendeu e me deixou um pouco sentido de não lembrar o seu. Os responsáveis pelo mirante não gostaram muito. Notei de longe que olhavam estranho pra minha mesa quando o confeiteiro sentou comigo.
Ignorei o olhar e fiquei a prosear algum bocado com o velho camarada, e ele ainda me perguntou, onde está Cinthia? É Cinthia o nome de sua namorada?
Espantei-me novamente com o vigor de sua memória, e confirmei, sim, é Cinthia. Aliás, era, não namoramos mais há uns três anos, he-he...
Puta merda, dou muita bola fora, falou, em tom de brincadeira.
E eu confirmei.
Por algum tempo, conversei com ele apenas no piloto automático e fiquei com a imagem da Cinthia na cabeça. Eu e ela tínhamos ido ali meia dúzia de vezes, pelo menos. Ela, em todos os instantes, se admirava com a paisagem: é a coisa mais incrível do mundo, dizia. Talvez a Cinthia não tivesse visto outras maravilhas naturais que servissem como parâmetro de comparação, mas eu sempre concordava: a coisa mais incrível do mundo. Queria que ela ainda estivesse aqui; era só nisso que eu pensava.
Parece que notando o olhar de soslaio dos responsáveis pelo mirante, o confeiteiro rompeu meus devaneios e fez sinal para me falar algo no ouvido. Amigo, disse ele quase sussurrando, me acompanhe que há um lugar muito bom que vou te mostrar, porque aqui daqui a pouco está fechando. Venha, você vai gostar de conhecer.
Como eu já estivesse mesmo de saída, topei. Saímos caminhando, deixei a moto lá estacionada. Era fim de tarde e andamos por umas ruelas de areia envolvidas por grandes árvores. Como já estava chegando a noite, já não era possível enxergar muita coisa, os meus olhos até lacrimejavam. O Décio, ou seja lá qual fosse seu nome, permanecia calado. Percebendo que a situação tomava contornos muito estranhos, eu, mesmo um pouco bêbado do conhaque - ainda levava a garrafa com bastante bebida na mão - decidi não arriscar mais. Bati-lhe a mão no ombro, segurando-o com alguma firmeza, e falei:
Meu velho, preciso voltar, a noite já chegou e estou muito indisposto. Obrigado pelo papo, pegue esse conhaque pra você. Adeus.
Falei protuberantemente e com uma convicção tal que ele nem ameaçou insistir.
Voltei para o mirante e peguei a moto, já estava escuro e eu não tinha muitas condições de fazer nova viagem de volta pra capital, decidi passar a noite ali por perto, em alguma suíte. Fui para a Pousada Bela Vista, não é muito barata mas era a única que conhecia, era lá onde sempre me hospedava quando acompanhado pela Cinthia, e não tinha saco pra fazer pesquisa de preço agora.
Assim que cheguei, dormi por algumas horas, acordando pouco depois da meia-noite, e aí não consegui mais adormecer. Tava com uma puta vontade de escrever, mas não tinha nada, nem computador, nem mesmo papel. Não tinha livros pra passar o tempo, mas tinha apenas uma TV, que, no entanto, não me serviria. À parte disso tudo, não tinha a Cinthia - o que tornava aquele ambiente muito mais morto e torturante para mim. O único subterfúgio que restava era a bebida, que eu não tinha mais. À minha disposição, ali, só havia um bom aparelho de som. Abri a janela, deixei aquele frio pesado das serras entrar no cômodo, e fiquei sentado a contemplar a imensidão negra lá fora ouvindo músicas lúgubres e lamentando mais de mil vezes por ter dado o litro de conhaque para o confeiteiro.
Em todo o tempo que passei, meu silêncio só foi interrompido algumas vezes por pessoas que buscavam informações, ou queriam fazer novos amigos. Eu nunca estou muito aberto a isso, embora até que considerasse, e chegávamos a conversar por algum tempo. Geralmente vinham em grandes grupos, às vezes turistas, ou grupos de estudantes em aulas de campo, mas também apareciam pessoas que vinham sozinhas ou com suas famílias, tirarem fotos e conversarem pra caramba. Mais de uma vez me ofereceram alguma coisa, algum petisco para comer e me convidaram a mesa. Topei em uma dessas vezes.
Que tá fazendo por aqui?, perguntou-me um cara bem falante.
Sou professor, vim tirar umas fotos para mostrar a meus alunos, falei. Obviamente estava mentindo, nem máquina fotográfica eu havia levado. Ainda bem que ele não pediu pra ver as fotos, ou tirar alguma deles.
Essas são minha esposa e meus filhos - um casal de crianças. Sempre me pedem pra vir aqui, mas detesto subir essa serra, meu carro é do tipo que só se comporta bem em sentido plano.
Também não gosto, disse.
Quer carona depois daqui?, perguntou.
Não, obrigado. Estou de moto.
Ele ficou um bom tempo falando que já foi motociclista, e dos riscos que essa prática traz. Felizmente, não demorou a ir-se embora. Assim me ative novamente às minhas divagações, a perder meu olhar no meio da vastidão de terra e água que se podia enxergar daquele mirante, e a enveredar mais algumas doses. Aos grupos que passavam, eu praticamente ignorei; às vezes, recebia algum aceno de cabeça e retribuía. Noutras, perguntavam o que achavam daquele local, daquela atração, e eu só dizia um "ô, muito bom", e pronto. Até porque para mim não era bem uma atração, era apenas um bom lugar, como uma praça, só que mais distante - uns 350km - de casa.
Já perto de ir embora me apareceu um confeiteiro com quem esbarrara noutras ocasiões e era muito bem-relacionado. Não lembrava bem o nome dele, parece que era Décio, mas não arrisquei mencionar. Era negro e baixo, devia ter 1,50m de altura, careca, tinha uma voz engraçada. Ele me reconheceu fácil pelas tantas vezes que fui ali, e lembrava inclusive meu nome, o que me surpreendeu e me deixou um pouco sentido de não lembrar o seu. Os responsáveis pelo mirante não gostaram muito. Notei de longe que olhavam estranho pra minha mesa quando o confeiteiro sentou comigo.
Ignorei o olhar e fiquei a prosear algum bocado com o velho camarada, e ele ainda me perguntou, onde está Cinthia? É Cinthia o nome de sua namorada?
Espantei-me novamente com o vigor de sua memória, e confirmei, sim, é Cinthia. Aliás, era, não namoramos mais há uns três anos, he-he...
Puta merda, dou muita bola fora, falou, em tom de brincadeira.
E eu confirmei.
Por algum tempo, conversei com ele apenas no piloto automático e fiquei com a imagem da Cinthia na cabeça. Eu e ela tínhamos ido ali meia dúzia de vezes, pelo menos. Ela, em todos os instantes, se admirava com a paisagem: é a coisa mais incrível do mundo, dizia. Talvez a Cinthia não tivesse visto outras maravilhas naturais que servissem como parâmetro de comparação, mas eu sempre concordava: a coisa mais incrível do mundo. Queria que ela ainda estivesse aqui; era só nisso que eu pensava.
Parece que notando o olhar de soslaio dos responsáveis pelo mirante, o confeiteiro rompeu meus devaneios e fez sinal para me falar algo no ouvido. Amigo, disse ele quase sussurrando, me acompanhe que há um lugar muito bom que vou te mostrar, porque aqui daqui a pouco está fechando. Venha, você vai gostar de conhecer.
Como eu já estivesse mesmo de saída, topei. Saímos caminhando, deixei a moto lá estacionada. Era fim de tarde e andamos por umas ruelas de areia envolvidas por grandes árvores. Como já estava chegando a noite, já não era possível enxergar muita coisa, os meus olhos até lacrimejavam. O Décio, ou seja lá qual fosse seu nome, permanecia calado. Percebendo que a situação tomava contornos muito estranhos, eu, mesmo um pouco bêbado do conhaque - ainda levava a garrafa com bastante bebida na mão - decidi não arriscar mais. Bati-lhe a mão no ombro, segurando-o com alguma firmeza, e falei:
Meu velho, preciso voltar, a noite já chegou e estou muito indisposto. Obrigado pelo papo, pegue esse conhaque pra você. Adeus.
Falei protuberantemente e com uma convicção tal que ele nem ameaçou insistir.
Voltei para o mirante e peguei a moto, já estava escuro e eu não tinha muitas condições de fazer nova viagem de volta pra capital, decidi passar a noite ali por perto, em alguma suíte. Fui para a Pousada Bela Vista, não é muito barata mas era a única que conhecia, era lá onde sempre me hospedava quando acompanhado pela Cinthia, e não tinha saco pra fazer pesquisa de preço agora.
Assim que cheguei, dormi por algumas horas, acordando pouco depois da meia-noite, e aí não consegui mais adormecer. Tava com uma puta vontade de escrever, mas não tinha nada, nem computador, nem mesmo papel. Não tinha livros pra passar o tempo, mas tinha apenas uma TV, que, no entanto, não me serviria. À parte disso tudo, não tinha a Cinthia - o que tornava aquele ambiente muito mais morto e torturante para mim. O único subterfúgio que restava era a bebida, que eu não tinha mais. À minha disposição, ali, só havia um bom aparelho de som. Abri a janela, deixei aquele frio pesado das serras entrar no cômodo, e fiquei sentado a contemplar a imensidão negra lá fora ouvindo músicas lúgubres e lamentando mais de mil vezes por ter dado o litro de conhaque para o confeiteiro.
13 comentários:
adorei (:
É sempre um prazer visitar seu espaço. Você tem uma capacidade de descrição que me possibilita ver tudo, como se eu mesma estivesse lá.
Tomei a liberdade de copiar uma de suas frases e de postá-la no meu blog.
"Permaneço exercendo a arte da escrita, e enquanto o fizer, é um claro sinal de que ainda não estou em paz."
Incrível!
Você possui uma habilidade de descrever tudo com tal riqueza de detalhes que até consegue conduzir que lê diretamente para o lugar mencionado, ainda mais quem tem imaginação fértil como a minha...Realmente, há lugares que nos convidam àquela solidão tão necessária às vezes, para refletir sobre qualquer coisa ou simplesmente observar em companhia de um bom drink, quando companhias humanas não nos são tão necessárias naquele momento...encontros com nosso "eu" (ou com o que ele nos pede)...Fiquei curiosa para conhecer esse lugar aparentemente tão mágico, o visualizei várias vezes diante de suas tão minuciosas descrições...
Né, até eu lamentaria por ter dado o conhaque, cara.
Adorei, né, claro, como sempre, e me lembrou, também como sempre, algumas coisas que venho com uma vontade absurda de fazer, mas falta tempo, oportunidade ou até mesmo coragem. Sou tão covarde comigo mesma. É um saco isso.
Enfim
;****
oii prof, a serra do martins eh LINDA, LINDA DEMAIS, fui uma vez ha mto tempo, qria ir de novo, vc disse q levaria a nossa turma ne?, mas to esperando ate hoje kkkk so levou a do 2o ano qdo chegara nossa vez hein? BJOS!!!
E eu aqui, jurando que você iria lamentar a ausencia de Cinthia alí, mas não... queria voltar a beber! rs tome jeito!!! :)
Adorei, como sempre. Sua narrativa me prende até o ultimo instante, e deixa o gostinho de quero mais.
Fiquei aqui imaginando, o mirante, a vista deve ser realmente muito bonita. Por uns intantes fiquei com inveja. e ah, feliz com seu recadinho... mas achei meu texto tão fraquinho! Bons mesmos são esses seus aqui. Um dia chego lá!
rs, beijos querido.
Dá-lhe Leon!
você não tinha nada para registrar o momento, mas que bom que guardou a lembrança pra deixar registrada em palavras claras mais tarde.
Abraço.
bom meio de semana.
Nossa, Leon!
Acho que nem tenho muito o que comentar, talvez não caibam comentários aqui.
Senti clima de fossa, que triste!
É, eu achei que você ia lamentar a falta da Cinthia :O
Apesar de eu não beber (e nem ter idade pra isso), prefiro aproveitar a melancolia ouvindo Engenheiros do Hawaii...
Té mais então, te espero no meu blog.
Beijos!
Oi, voltei :O
Então, eu ando assistindo menos Nickelodeon ultimamente, mas não consigo abandonar Drake e Josh :)
Eu não tinha sacado que era pela Cinthia, te juro! Ando meio tapada...
Eu gosto muito de Engenheiros tb, mas ando ouvindo mais quando estou triste...
Ah, professores de Geografia são uns malas! rs
Pelo menos os que me deram aula. Se você fosse meu professor, aposto que ia me detestar também. As vezes eu contesto tanto, que eles acabam a aula gritando comigo. Mas é só pra ver o circo pegar fogo mesmo. Falo coisas tipo "Ah, não confio em mapas. Quem deu a volta ao mundo desenhando cada fronteira?"
Não que eu seja estúpida, mas eu tenho uma ligação tão explosiva com professores de Geografia, que ver a cara de ódio deles me dá alegria...
Não vou mais demorar.
Beijo e até!
E a Cinthia? Acho que ela ainda faz falta.
"...Queria que ela ainda estivesse aqui..."
Um beijo!
Eu achei que ao final do post você iria pensar na Cinthia. Errei, hehehe.
Eu leio os seus posts e além de conseguir imaginar muito bem a situacão da qual você descreve, penso em outra coisa também: como você tem liberdade. Vai para tudo quanto é canto e faz o que bem entende. Acho isso maravilhoso :)
Esse poderia ser um motivo pelo qual fizesse eu me sentir feliz por estar viva. Mas, sempre tive de ser presa a alguma coisa, nunca pude "voar", assim digamos.
beijos
Excelente crônica. Pode apostar que voltarei por aqui.
CARAMBA, tô de queixo viiu.. uma das melhores suas q eu já vi, sem mentira... eu amei essa crônica Leon.. e eu sei como é qdo vc quer devagar ou ficar sozinho e as pessoas parecem não entender isso... te procuram, puxam papo.. é tenso, principalmente qdo quem está devagando é Leon.. aehuaehuah
PARABÉNS, agora eu vi o q eu perdi.. aehuaehuae
Tô DE VOLTA!
;*
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