terça-feira, 8 de junho de 2010

O universo reprimido

Abra bem a boca, isso, assim, hmmm.

São com essas palavras da Janine que me recordo de ter começado o dia, hoje. Lembro bem porque ao ouvir-lhe dizer isso, percebi que eram 8h00 no relógio de parede. Janine era uma dentista, e fazia muito tempo que eu não visitava dentista algum; na verdade, não frequento qualquer consultório médico. Mas, até por fazer esse tempo todo, acho que uns cinco anos, decidi dar uma passada, só que nada que se assemelhasse a algum tratamento semanal. Apenas uma consulta de ocasião. Mas eu não sabia se a Janine concordava comigo que uma mera consulta seria suficiente.

Hmmmm, ela continuava murmurando. Hmmmm, hmmm.

Até que entre os murmúrios, teceu uma pergunta:

Por que não tem ido ao dentista?

Porque acho desagradável uma pessoa me tocando, eu lhe disse.

Hmmm. Acha desagradável só o fato de tocarem em você?, perguntou.

Sim.

E se fosse, hmm... E se fosse sua namorada?

Apenas acharia um pouco menos desagradável, respondi.

Enquanto a Janine me interrogava, eu me sentia desconfortável pelo fato de estar com a boca quase todo o tempo aberta, enquanto a dela estava escondida atrás da máscara. Era uma situação injusta. Eu estava desarmado. Minha língua saltava para todos os lados de tensão.

Podemos terminar?, pedi.

Ainda não. Vamos, abra mais.

Na medida em que aqueles troços metálicos faziam cócegas e sons opacos nos meus dentes e a minha saliva ia se acumulando pelo nervosismo, mais excreções preenchiam também o resto de meu corpo. Logo estava suando e lacrimejando, porque a visão fixada da Janine na minha boca me lembrava dos colegas de infância dos quais não sinto a menor saudade.

Abre a boca!, ordenavam eles. Porém, não o faziam por interesse terapêutico, mas somente para rir à vontade dos meus caninos acentuados e dos meus premolares entramelados.

Ha!Ha!Ha!, ainda ouço suas torpes risadas ecoando no universo reprimido da minha cabeça.

Nesses dias ruins, eu sempre chegava em casa e dizia para a minha mãe que meus dentes são horríveis e que eu queria ter outros dentes.

Você não tem dentes cariados, ela dizia.

Mas eu não gosto dos meus dentes.

Mas você não tem dentes cariados, repetia, e o fazia quantas vezes necessário fosse. Era uma sentença já cristalizada no seu vocabulário, para fazer minha propaganda a outras pessoas. Era como "meu filho só tem nota boa", ou "meu filho é muito educado". Só não fazia sentido ela repetir as mesmas coisas para mim, objeto de culto daquelas afirmações, independente dos defeitos que estivessem ocultos por trás delas.

Numa ocasião, chegou a vez dela - da minha mãe - quebrar seus dentes, sabe-se lá onde e como, e colocar uma dentadura postiça. Seu sorriso modou, ela rejuvenesceu, tudo parecia límpido e renascido. Um prodígio da engenharia odontológica a seu serviço; precisaria eu de um acidente de automóvel para consertar os meus?

Olha só - despertou-me da minha divagação a dentista Janine -, eu vou recomendar que você faça um tratamento costumeiro. Pegue essa ficha, vá ali na recepção e explique para a menina que fica lá, e ela já saberá como encaminhá-lo.

Estou com cáries?, perguntei, meio receoso; um receio reprimido desde a mais tenra idade.

Não.

Não estou com cáries?, repeti, como faço usualmente.

Não.

Agradeci, peguei a ficha e fui até a recepção. A menina responsável estava falando ao telefone e já tinha uma criança acompanhada de sua mãe ao balcão sendo atendida. Sentei e esperei. Pensei na coisa de fazer um tratamento, sabe-se lá por que - não entendia o que estava escrito na ficha -, e pensava no quanto aquilo me fazia rememorar coisas ruins de longos tempos atrás. Aproveitei que dificilmente a menina me atenderia nos minutos seguintes e deixei a ficha de consulta em cima do criado mudo, junto com as revistas Veja e Istoé, e fui embora.

Daqui a cinco anos volto.



15 comentários:

Jordana disse...

Enquanto morei com meus pais ia ao dentista a cada semestre, no máximo a cada ano. A partir dos 17 não importava quanto tempo demorasse pra visitar o dentista, o diagnóstico era o mesmo: vc n tem cáries e dificilmente precisará de aparelho. Da última vez que fui tinha planos de continuar as visitas com a frequência da infância. O cara me cobrou 50 contos pra praticamente só olhar pra minha boca e escovar meus dentes. Vou demorar mais uns 3 anos pra voltar lá. Você me surpreendeu. Jurava que sairia direto do consultório pra rua, mas ainda cogitou a possibilidade de fazer o tratamento e até esperou.

Jordana disse...

Ah, tava com saudade(muita) de ler algum post novo por aqui. Bjx!

Anônimo disse...

Oba! Você também retornou. Já sabia dessa sua recusa de ir a médicos.

De uns tempos para cá, também estou achando que, médicos, cada vez sabem menos. Quando vamos consultar, tentar nos moldar a alguma doença que eles já conheçam.

Num ato de rebeldia e sem muita gente saber, deixei de tomar muitos dos remédios que me receitaram e me sinto melhor. apenas comecei a ver a realidade de outra forma.

Quanto a dentistas, como tua mãe, também preciso usar prótese. O motivo está na infância. Minha mãe não conseguia me levar no dentista e desistiu de tentar obturar meu primeiro dente com cárie. Toda vez que eu chegava em um consultório, quando pequena e apontavam aquela, antes barulhenta, broca, mordia todo mundo e não abria a boca. O pânico me dominava.

Conclusão: Prótese na juventude.

Estava com saudade grande daqui e de ti. Em virtude de estar quase me formando, optei por passar pouco tempo na web mas, quando estou passo sempre por aqui.

Beijão!

Dinkin disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alessandra Santos disse...

Isso tudo é medo de dentista ou de qualquer tipo de relação duradoura e rotineira, mesmo que seja entre médico e paciente? Tenho a audácia de apostar na segunda hipótese.

Tenho, também, pânico de médico, em especial, dentistas. Só de pensar na ideia de ter algum problema e que ele me faça retornar aos consutórios, ou hospitais, me dá arrepio. Em geral, quando vou a alguma consulta, ou por ventura tenho um mal súbito que me obrigue a ir a um hospital, volto pior do que quando saí de casa. Gente tristonha, clima tenso, cheiro de hospital, cara de médico me dá desespero e vontade de sair correndo imediatamente.

Geralmente prefiro ficar em casa mesmo, empurrando o meu problema e esperando que melhore sozinho. Deve ser medo de encarar uma possível notícia ruim de frente, vontade de fugir dos problemas, covardia...Sei lá.

Samilla Fonseca disse...

Olha, eu já tive uma cárie quando eu tinha 12 anos e, claro, tive que irao dentista. Fui sozinha, minha mãe apenas me deixou na porta. Na metade do procedimento eu me levantei de uma vez da maca, com a boca cheia de gel e guardanapo e disse que ia embora. A dentista falou que eu não poderia ir embora pq tinha uma buraco no meu dente e a situação ia piorar muito. Eu falei muito séria: Eu me responsabilizo pelas consequencias, tchau. E fui. Ela ligou pra minha mãe, que me levou lá de volta e me colocou de castigo. E essa é a minha história de humilhação, até hoje não superada.
Abraços.

Mari ♥ disse...

Em primeiro lugar gostaria de agradecê-lo mais uma vez pelos comentários em meus blog, que como sempre, tornam por enriquecê-lo. E é uma honra que tenha sido o primeiro a comentar no meu novo! =)
Realmente gostaria de compreender que dom é esse de transformar um acontecimento tão simples em uma crônica que mexe profundamente com a imaginação-e com e a reflexão-de quem lê. E sim, não somos mais do que crianças crescidas, já ouvi por aí e concordo. Que atire a primeira pedra quem não traz consigo alguma situação que ocorreu naquele tempo e causa ainda algum deconforto ao lembrar. É impressionante como as coisas que ocorrem nessa faze marcam pro resto da vida, como é uma fase frágil...memórias que a gente se pega desafiando, vez ou outra...como se quiséssemos simplesmente apagá-las.
Como sempre, ótimo texto!

Mari ♥ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mari ♥ disse...

Em primeiro lugar gostaria de agradecê-lo mais uma vez pelos comentários em meus blog, que como sempre, terminam por enriquecê-lo. E é uma honra que tenha sido o primeiro a comentar no meu novo! =)
Realmente gostaria de compreender que dom é esse de transformar um acontecimento tão simples em uma crônica que mexe profundamente com a imaginação-e com e a reflexão-de quem lê. E sim, não somos mais do que crianças crescidas, já ouvi por aí e concordo. Que atire a primeira pedra quem não traz consigo alguma situação que ocorreu naquele tempo e causa ainda algum deconforto ao lembrar. É impressionante como as coisas que ocorrem nessa fase marcam pro resto da vida, como é uma fase frágil...memórias que a gente se pega desafiando, vez ou outra...como se quiséssemos simplesmente apagá-las.
Como sempre, ótimo texto!

Érica Ferro disse...

Há certas tarefas que são desagradáveis justamente por fazerem lembrar de situações desagradáveis nessas mesmas tarefas ou em semelhantes. Sei como é...

Um abraço!
É sempre bom ler seus comentários no Sacudindo.

Ind Caroline x) disse...

Será q agnt sumiu? haeuhaseuh
Sabia q aqui em Mantena tem uma dentista chamada Janine? XD
eu tenho q ir periódicamente ao dentista por ter usado aparelho... mas eu tenho muuuuita saliva, e eu odeeeeio aqueles aparelhos q eles colocam, parece um secador, uma broca, uma furadeira.. aseuhaesuh

beijãaao o/

Heloísa Vilela disse...

Ô Leon, me perdoe a indelicadeza de não responder seu comentário antes, é que eu simplesmente me entreguei a tristeza e esqueci de todo o resto. Mas, bom, agora voltei!

Como vai você?

Olha, eu odeio ir ao dentista, odeio mesmo. Aquele motorzinho nojento me dá arrepios.
Acho que é por isso que eu insisto em dizer que nenhum deles é bom o suficiente pra mim haha

beijão, até.

Anônimo disse...

Sobre seu comentário: Acho que me acostumei tanto com mudanças (influencia máxima da minha mãe) que não consigo viver sem mudar. Vou deixar o blog lá pra quando quiser voltar e escrever algo, mas não tenho mais paciencia de ficar variando de blog em blog, lendo muito mais textos ruins do que bons para ter algo pra fazer ou o que comentar. Essa época já passou. Acho que comentei isso no post. Enfim...

Mas estou aqui, online, sempre. Você pode entrar em contato comigo ainda - se quiser - de várias forma (Acho que se digitar euzinha.1 ou jessicambf no google vai ctz achar alguma coisa hahaha) então, espero que nossa amizade fora do blog não dê tréguas também. Aliás, como anda aquela revista que você escreve? Novas edições? Vou querer ein!

Sobre o post: Eu sempre tive medo de dentista, mas acho que tenho mais medo do barulhinho irritante daquela máquina destruindo seu dente do que do próprio dentista. Meus dentes sempre foram todos fora do lugar e desde criança que me acostumei a ir no dentista. Mas, como voce disse, o tempo passa e vc vai deixando pra lá. Acho que o que tiveram que fazer na minha boca já fizeram, agora só vou uma vez no ano ou menos, pra - veja só - exatamente checar se estou com cáries hahahahaha.

Beijo, até mais! E não siga meu exemplo de deixar o blog ein? Aqui ainda é interessante, mesmo em tempos de vacas magas :)

Gabrielle disse...

Leon, isso é coisa de mãe! A minha sempre dizia "mas você não tem cáries" quando eu reclamava dos meus dentes, ehehe. Felizmente ela parou com esse hábito depois que eu coloquei aparelho.
Sabe, ir ao dentista é uma coisa que não me incomoda, talvez porque há tres anos eu vou constantemente ao consultorio para ajustar o aparelho. O que eu não gosto é ir no médico, hahah! Sei que é errado, mas prefiro me auto-medicar a ter que encarar uma bateria de exames, kkkk.

Que saudade dos teus textos! Sou uma péssima leitora, eu sei, mas vou aproveitar o tempo livre para continuar apreciando teus escritos. :)

Beijos!

Dayane Pereira disse...

kkkkk
adorei; Mt provável que eu fizesse igual; largaria a ficha lá e me mandava. kk
Fazer tratamento sem saber ao certo por que!!