segunda-feira, 28 de junho de 2010

Inês dorme

Eu não consigo nem escutar música enquanto escrevo, não consigo e não quero que a luz da manhã ilumine o quarto, tranco todas as portas e janelas, mas ainda assim o recinto é invadido por feixes luminosos intrusos, acompanhados dos ruídos que aos poucos adentram no ambiente; é manhã de domingo, a pele nem sente o calor do sol (ainda), no entanto, embora o dia esteja começando, para mim isso é apenas o desfecho de um sábado estranho, em que amanheci na casa de amigos, ressacado e triste, três horas antes dos ditos cujos acordarem, e ficando, assim, preso à solidão daquele ambiente - mesmo que a casa abrigasse ainda meia dúzia de gentes, todas adormecidas. Quase sempre vou embora nessas horas, mas desta vez decidi esperar, e esperei, lendo Maupassant para passar o tempo - é só para o que ele serve, hoje eu sei. O tempo enfim passou, despertando os amigos um a um, sendo a Clara a primeira, já de prontidão para preparar o almoço. Ela também estava ressacada, com pressão baixa e tontura: até a tarde estaria em um prontossocorro. Depois acordariam os demais, um a um, e essa movimentação toda no sábado é que o fez se me parecer diferente, estranho (no sábado normalmente não vejo ninguém).

Fui para casa no início da noite, porém mal cheguei e já fui saindo novamente, pois tinha ainda um outro compromisso: iria me encontrar com outros amigos, iríamos para outra festa. Fôramos convidados pela Inês, uma garota muito jovem, muito bonita, muito louca, que conhecia há dez dias e com quem tenho uma convergência de pensamentos tal como tenho com pouquíssima gente, de maneira que sempre falávamos sobre coisas tantas, sobre livros, sobre sexo, sobre sei lá... No dia em que nos conhecemos ela me deu vários presentes, entre tranquilizantes, bebida e até uma camisa que havia comprado para o namorado, mas ele quis terminar a relação antes que ela o presenteasse (tudo isso é muito confuso para mim, que não ganho presentes, que não tomo calmantes na companhia de ninguém, que não sei fazer amizades). Eu vi então algum valor real na Inês, o que me faz pensar nessas coisas involuntariamente, e ela me lembra as adolescentes que eu conhecia noutros tempos e que tinham vocabulário rico e livre, e postura igualmente ousada mas com as quais eu vivia somente muito rapidamente. Inês tem 15 anos, mas sabe nessa idade que realmente muitas vezes é preciso fazer que a vida pare de doer, e tem os seus subterfúgios que não são usuais no seu círculo, na sua escola, na sua rua, na sua família; ela é então ignorada e maltratada por tanto a martelarem, a olharem de lado... Não sei, não sou ela para saber, mas eu imagino, é por isso que eu a valorizo tanto ela sendo essa ovelha desgarrada, porque as ovelhas desgarradas sofrem mais e amam mais - sentem tudo muito mais intensamente.

Eu me arrumei todo para a festa em questão, mas não era a festa em si que me interessava e sim o momento e a confraria com um grupo pequeno de amigos, quatro no total. Sequer sabíamos de quem era a celebração, era um aniversário de uma conhecida de Inês, mas nós não tínhamos dinheiro para sair e beber, então ela nos fizera o convite para que fôssemos de penetra e assim o fizemos: entramos na festa e, uma vez sentados, tratamos de beber e de comer tudo o que nos era oferecido, entre salgados, entre coquetéis, entre uísque, e tudo isso e aquilo que acontecem nessas festas grandes (do tipo que são organizadas em clubes e afins), e isso já me bastava sobremaneira, sendo todo o resto por mim contínua e solenemente ignorando, fossem as outras pessoas, a música ou a decoração do local; a única pessoa além do garçom que visitava a mesa de nosso quarteto era justamente a Inês, que ficava variando, passava quinze minutos com seus pais e irmãos, e depois passava mais quinze conosco, e ela sentia o nervosismo de alguns de nós que não estavam habituados a entrar de penetra em festas. Foi um momento que até eu achei divertido, e eu sou tão chato para ver diversão nas coisas que, enquanto o pessoal ficava de risadas, eu pensava apenas em como estava sendo legal aquilo tudo.

Depois que de uma certa quantidade de uísque ingerida, logo já queríamos nos deslocar mais, e fomos todos - eu, a Inês e os amigos - para uma área do clube onde ficam as piscinas, e onde não chegam as luzes da festa nem muito menos sua torpe decoração. Éramos apenas vultos no meio do breu, só nos importava mesmo enxergar a nós próprios, e embora a conversa estivesse boa, ela foi tragicamente cortada pela mãe da Inês que, de longe, viu a filha entre nós, a filha adolescente entre quatro caras - uma visão suspeita, ainda que nada de mal lhe tivéssemos feito, proposto ou sequer cogitado. A mãe interrompeu a nossa prosa e obrigou a filha a acompanhá-la até a mesa da família, e por algum tempo ficamos todos muito mal, porque sabíamos o peso e a dificuldade que muitos têm, sobretudo aos 15 anos, de se relacionar com família.

Brindamos à Inês e continuamos a beber bastante e a comer inclusive, até que ela depois de um tempo voltou, surpreendendo-nos e alegrando-nos, e voltamos a conversar todos, mas sabíamos que a coisa não andava tão bem, porque estávamos todos bêbados mas a Inês estava um pouco pior: a essa altura já havia se sentado e deitado na grama, estava começando a ficar grogue, ela bebera muito pouco conosco e ficamos preocupados, porque sabíamos que ela tinha bebido mais do que o que tínhamos visto, e sabíamos (porque ela mesmo nos dissera) que estava dopada de tantos sedativos que tinha tomado antes de sair de casa.

Mesmo com todas essas circunstâncias negativas, ela nos acompanhava na conversa, lançava assuntos, falava de meus textos, dizia que queria ser personagem de um de meus contos, e eu apenas ria, porque não é apenas ela que diz isso, já teve outras também que pediram o mesmo. Eu acho curioso porque não há nada de glamouroso nas garotas sobre quem escrevo, muito menos de bonito... pelo contrário: as que já se viram retratadas neles só viram o aspecto negativo da coisa...

Teríamos que viver alguma coisa juntos, eu lhe disse, porque não sou tão criativo a ponto de construir histórias do zero.

Estamos vivendo, eu tenho um bom papo, é disso que gosta nas garotas, não é?, ela pergunta, e está certa, eu nem lhe havia comentado sobre isso mas ela lê o que escrevo e assim já me conhece bem, e por isso falava de sexo comigo e até se propõs a fazer, por talvez brincar ou por talvez querer, mas ela sabia que sexo pra mim já não é algo tão interessante quanto o era uns dez anos atrás, quando eu tinha a sua idade, 15 anos.

Mas como toda merda que acontece sempre ocorre duas vezes, a mãe dela mais uma vez viria buscá-la, no entanto desta vez sua autoridade não será tão subjugadora, porque Inês não tem muitas condições de se levantar do chão (a essa altura, já está meio desorientada e enjoada), e tudo o que a mãe lhe diz é motivo de retruca, e então ficamos nós, seus amigos, sua mãe e o seu irmão, que chegaria depois, a observar a Inês no seu ato de calvário que ao mesmo tempo é um ato de liberdade; ela vomita na grama enquanto reclama das pessoas que a rodeiam e das coisas que a família a força a fazer, chora, vomita mais, e nós somos todo compaixão pelo seu sofrimento, vez que já passei por isso e outros no círculo também passaram. Num dado momento, mesmo sua mãe enfim sucumbiria a si mesma, e fica a perguntar-se o que poderia fazer ou o que teria feito de errado, mas de que importa?, ela não obteria respostas (talvez nunca obtenha)... Somente depois de regurgitar tudo o que lhe fazia mal fisiologicamente, a Inês se levanta. E então se pode vê-la melhor, ela estava até sorrindo, só que não um semblante de sorriso sexual, e sim o semblante de um menosprezo adolescente de rosto zombeteiro e abatido para o que acham de sua expressão e de seu ato.

Agora estou bem melhor, diz.

E sai caminhando a passos constantes, acompanhada pelo irmão e pela mãe. Mesmo se dissessem que estava suja ou cambaleante, ela ainda assim conseguia ser mais altiva que eles e conseguia ser mais bela que todas as garotas da festa. Uma beleza muito particular, uma beleza triste, um sol noturno. Inês se foi e deixou-nos absortos no mais pleno silêncio, e a última informação que teríamos dela é de que estava internada. Agora, Inês deve apenas permanecer em seu sono distante e inatingível, vivendo sua tortura após a qual continuar existindo é sempre a maior tragédia.


13 comentários:

Diogo de Oliveira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Diogo de Oliveira disse...

É bom por ser difícil parar para ler teu blog de vez em quando. A vida aberta é como o sol de 9 horas da manhã, tende a inflingir nossos olhos e o corpo inteiro.
Lendo, lembrei das semelhanças que me movem a andar com mais duas pessoas, não somos iguais em nada, até brigamos com freqüência. Talvez eu escreva um conto, sobre isso, mas não tenho vocação para sol.
Não acredito que o nome da menina seja Inês, você deve tê-la guardado pra si, afinal ela é uma das poucas. E espero que esse texto não tenha nada a ver com dó, a menina não mereceria isso, mas deve ter a ver com compaixão no sentido mais ilustre da palavra.
Para ficar a impressão de um rapaz que sabe o que fala, o sentido alemão do termo. Não o francês. E isso não diz nada

Anônimo disse...

Acho que essa é a segunda ou terceira vez que eu leio esse texto e sempre adoro. É uma das vidas que eu gostaria de conhecer (uma pena não conhecer ninguém assim), não sei porque, mas me sinto atraída por esse tipo de desgraça, como se algo pior tivesse acontecido e aquela pessoa não sabe como colocar pra fora, então faz e deixa acontecer todas essas coisas. Não sei, é um texto e uma personagem que sempre me deixa com uma pulga atrás da orelha, seja ela real ou não, me chama atenção.

Enfim, adorei, como sempre, e estou com saudade de seus textos novos. Tirei os comentários do meu porque acabei ficando dependente demais e pouca gente comentava, então achei melhor deixar só para que eu escreva.


Enfim, anda chovendo aqui em João Pessoa e talvez agora tudo fique melhor - com o calor insuportável não dá nem pra pensar direito.

Até mais.
:*

Jad disse...

Adorei esse texto. Compartilho dessas desgraças pessoais é uma pena que já não tenho mais 15 anos.


Beijos;

Érica Ferro disse...

Pow, meio triste o fim da história da Inês. Teria ela entrado num como alcoólico? :S

Ah, deixe-me dizer mais uma vez o quanto sua narrativa é fácil de ler e rápida. Gosto muito!
Você sabe.

* * *
Resolvi não falar sobre o texto nos meus P.s's, do tipo explicar que não é autobiográfico, não explicar o que senti escrevendo (não quando eu não achar que devo), porque às vezes eu explicava, já resolvia o X da questão quando a intenção primeira era fazer as pessoas pensarem. Então, já estragava o meu 'trabalho'.
Uma crítica sobre isso me veio, achei-a interessante, refleti e vi que era necessário não resolver a poesia após escrevê-la, entende? É melhor assim...
Como o texto "Por um fio", uns disseram que não se pode guardar ódio no coração, porque, enfim, só faz mal e é preciso perdoar. A intenção era mostrar o lado psicopático de uma pessoa; no caso, o homem. Uma pessoa sacou o X da questão. Gostei muito. Mas o bom é que as pessoas interpretam do modo como elas entendem realmente e falam o que realmente querem falar. Acho interessante isso...
Em outros tempos, falaria no P.s sobre psicopatia, o quanto algumas pessoas se enganam com pessoas frias e tudo mais. Ia estragar toda a interpretação das pessoas mais preguiçosas, digamos assim. Porque há pessoas, como você, que teriam o que dizer por si próprias, porque iriam, antes mesmo de ler o P.s, entender do que se trata.
Basicamente, retirei o P.s que explicava o texto por causa de pessoas preguiçosas e que não pensam por si próprias.

* * *

Ah, você esteve em Maceió e conheceu a Fernanda? Que legal!
Ela parece ser muito gente boa, leio o blog dela.

* * *

Sim, um cara me plagiou recentemente, postei minha indignação no twitter (aliás, você tem twitter?). Pena que no blog dele não havia como reclamar, os comentários estavam fechados.

Um abraço, Leon!

Alessandra Santos disse...

Talvez ainda precise de mais algum tempo pra tentar digerir suas palavras. Achei tudo tão trágico. Talvez seja a minha primeira reação diante da leitura, não sei bem. Impactante tudo isso, principalmente porque se trata de uma menina de 15 anos. Nessa idade ela sequer deveria ingerir álcool...

Moralismo e caretice à parte, essa fase da vida é mesmo conflituosa. É uma pena que a relação da menina com sua família não seja das melhores.

Esperando que ela encontre uma saída desse turbilhão de emoções...

Um abraço!

Mic disse...

Eu estou feliz por esar de volta. Por ler você de novo. E tantos outros textos maravilhosos que existem na blogosfera.

Parece que já li esse texto, a Inês me parece familiar.

E quanto aos calmantes, eles dopam mesmo a gente!

bjs
Michele

Heloísa Vilela disse...

A Inês também é familiar pra mim, só que dessa vez li esse conto sob outra perspectiva. Tô num momento diferente da vida, um momento em que simplesmente resolvi deixar meu pseudo moralismo de lado e dizer o que realmente sinto.
Talvez essa garota seja precoce, inconsequente e tal. Ou talvez ela seja só mais uma garota querendo fugir de alguma coisa que vem lhe afligindo há tempos.
Sabe, Leon, algumas coisas são injustificáveis. A humilhação pelo qual ela se expôs é uma delas.
Mas talvez, se as circunstâncias da vida dela fossem diferentes, a Inês seria diferente.
Considero muito mais fácil me rebelar e mandar todos os problemas e as pessoas "tomarem você sabe aonde" do que encará-los de frente. Talvez seja cedo pra amadurecer.
Parece que essa garota compartilha isso comigo, se é que ela está em condições pra se posicionar diante de algo.
Beijos

Anônimo disse...

Gosto tanto desse conto. :) Compreendo toda a beleza de Inês e dessa tristeza. Comprimidos, ou bebidas, ou qualquer coisa que sejam redenção em uma época ou em toda uma vida difícil. Nem sempre é um abismo que chama o outro. Existem algumas almas atormentadas, e de uma beleza assustadora.
Faz tanto tempo que você não posta. Volte. :/

Samilla Fonseca disse...

Olha quando eu vi o tamanho do texto, pensei: Que preguiça enorme.
Mas fui ler, e incrível como nem percebi que já estava no final, de tão boa que é a história. Parabéns, viu?!
Abraços!

Anônimo disse...

Eis que há pouco acordo de um sono profundo... possívelmente um coma racional e me deparo com Inês. Vejo uma Inês a cada dia nas Escolas onde leciono.

Beijos!

Alessandra Santos disse...

Na falta de outro canal de comunicação,vai aqui mesmo.

Obrigada por estar sempre por lá. Que bom que tenho um leitor tão assíduo e que está sempre contribuindo. Depois da exclusão das minhas postagens, passei um tempo sem conseguir abrir a página do blog. Foi muito triste perdê-lo, como uma perda de alquém querido mesmo, sabe? Acho que você entende bem isso. Depois de um tempo suas palavras não saíam da minha cabeça:

"Permaneço exercendo a arte da escrita, e enquanto o fizer, é um claro sinal de que ainda não estou em paz"

Fiquei me questionando acerca disso e percebi que não conseguiria abandonar a escrita, ela é parte de mim e é, também, através dela que encontro a minha tão almejada paz.

Mais uma vez, muito obrigada, pelo apoio, pelas palavras sempre tão importantes, pelos questionamentos, pelas críticas, pelo alento.

Um grande beijo!

nayara xavier disse...

Eu não conheço nenhuma Inês, pelo menos não de perto. Muitos dizem que não sou uma Inês, nem de longe. Mas algumas coisas me chamam atenção nela... alguma coisa me inquieta. Durante a leitura fui me excluindo da narrativa... geralmente tento me incluir, pra ficar mais próxima do texto e de quem escreve. Mas de forma inesperada fui me excluindo, pensando que aquilo nada parecia comigo. Que não tinha jeito que me pudesse incluir nesse conto. Fui lendo e percebendo que havia muito mais de Inês em mim do que eu imaginava - na verdade não imaginava que ela parecesse nem um tico. Não uso drogas, calmantes, sei lá sobre issos que ela usava. Também não bebo... sou a típica "certinha" da família e dos amigos. Mas eu tenho, assim como essa moça, meus subterfúgios. Estou sempre em processo de dor, e depois vem tudo aquilo que existe pós "processos" - a coisa em si, o "produto final". Então eu preciso estar preparada, pelo menos na maioria das vezes. A gente não nota a queda vindo... de repente, a gente tá no chão há dias. Ou nos braços de alguém, o que 99% das vezes é só fantasia.

O que mais dizer sobre ela?
Que sou eu, sem as coisas "ilícitas"? Com as dores e as aflições que ninguém tem tanta ideia assim de como ocorrem dentro da gente? ...
Acho que é isso o que eu ia dizer, sem enrolar demais.


Digo que as tristezas, solidões e tentativas de fuga desses contos, me chamam sempre pra cá.

Um beijo...