segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Prazos de validade

Eu sempre tive um hábito meio mórbido de fazer amigos, mas do qual ainda não consegui me livrar (embora esteja tentando).

Já há alguns anos, sempre na época dos vestibulares, eu me dirijo a algum local de prova e fico na frente do portão, junto com os vendedores de água e baganas e os parentes dos candidatos que ficam do lado de fora trocando lero. A diferença é que não vendo nada nem sou parente de ninguém. Observo todos os candidatos passando pelos portões, até que vai se aproximando a hora-limite de entrada e o clima começa a ficar tenso: será que alguém vai perder a prova?

Quando os responsáveis pelo fechamento dos portões começam a se movimentar, a tensão se espalha. Sempre há candidatos retardatários vindo correndo no final da rua, e a multidão em coro toma para si a perseverança desses sujeitos atrasados e começam a lançar gritos e gritos de alerta.

Corre!, corre!, vai fechar!

Quase sempre o candidato consegue entrar, graças à benevolência do fiscal que retarda o trancamento dos portões. Mas sempre há alguém que fica de fora, e então eu - que sempre assisto entusiasmado a esse pequeno show urbano - começo a agir.

Lembro-me de uma vez que uma garota chegou e não pôde entrar por questão de segundos. Segundos mesmo. Desde o início da leitura dessa frase até esse momento: esse foi o tempo entre o fechamento do portão e a chegada da garota, uma mulata baixinha, que só não caiu no choro na mesma hora porque aparentemente não lhe havia caído a ficha. Assim que a garota literalmente esbarrou no portão - ao som consolador de dezenas de vozes -, ela lá ficou por alguns segundos, inerte, sequer sem voz para pedir inutilmente ao fiscal que a deixasse entrar; então foi saindo dali, ainda apoiando-se no portão e logo que este acabou, apoiando-se no muro. Da parte das pessoas, após o choque inicial, já se ouviam algumas risadinhas e umas provocações indiretas, do tipo "a única coisa que ela tem que fazer no ano é essa prova, e chega atrasada". Estavam alimentando-se da desgraça alheia.

A mulatinha andou uns duzentos metros, saiu do meio da multidão, e então sentou num muro, com um semblante tão pálido que parecia que não havia respirado naqueles minutos. Eu comprei um copo de água mineral e me aproximei, oferecendo e sugerindo-lhe que ficasse calma. Ela não tinha fôlego mesmo, mas aos poucos foi se recuperando e o papo fluía melhor. Assim como conheci essa garota, conheci também outras pessoas. Ficava sempre nas portas dos locais de provas, esperando os retardatários, aqueles que (talvez pela primeira vez) sentem o peso de 30 segundos, de um minuto, em suas vidas. A conversa no início era sempre difícil - muitas vezes, depois da tensão inicial a pessoa caía em prantos e a conversa se tornava por algum tempo impossível; porém, eram esses casos que eu mais gostava -, no entanto aos poucos a comunicação evoluía.

Em geral, eu conhecia mais garotas nesses locais. A conversa com elas fluía sempre com mais facilidade, porque elas exprimem mais as emoções. É até uma oportunidade para eu testar tudo que aprendi autodidaticamente com tantos livros de Psicologia. Só que também já conheci alguns caras. Um deles, o único com quem ainda mantenho algum parco contato, era meio metido a surfista. Nunca teve nenhuma meta na vida que passasse pelo vestibular, mas não deixou de ser um baque ser barrado no portão do local de prova. Raros são os que reagem normalmente. Alguns são até insossos, mas também sentem.

A minha última namorada, inclusive, eu conheci na porta do então Cefet-RN. Logo após ela ter sido barrada, fomos até o bosque que há ali perto e lá lanchamos e conversamos o dia todo, e no dia seguinte até umas dez semanas depois estávamos namorando, ainda que não fosse um namoro propriamente dito, mas que seja: namoros não necessariamente precisam ser tais como são propriamente ditos.

Os desatentos pensariam que eu gosto de ver as desgraças alheias; não, não gosto. Se dependesse de mim, não sofreriam desgraças quaisquer. É apenas que a pessoa nesta ocasião está sensibilizada, de modo geral ela, no momento posterior a um tropeço desses, esboça qualquer característica fundante ignorada, talvez alguns defeitos de personalidade desconhecidos ou talvez virtudes até ali reprimidas. Eu vislumbro sempre o segundo caso.

Apesar de tudo, nenhuma dessas amizades durou muito tempo. Tratavam-se deamizades cujo elo de ligação era a desgraça, o fracasso, a tensão. Eu gostava de conhecer a pessoa pelo que ela tinha de irresponsável. E, sobretudo, gostava de conhecê-la num momento de total ausência de humor, já que não tenho muito saco para besteirol. Só que após os primeiros dias, ou as primeiras semanas (quando sai o resultado do vestibular, sempre bate de novo aquela crise nos retardatários), as pessoas sempre conseguem "superar" o problema. Suas vidas, passam, então, a se permear de novas boas coisas. As garotas começam a querer que eu vá com elas para uma balada ou passar um fim-de-semana na casa de praia com sua turma, os caras começam a me chamar para churrascadas ou para jogos de futebol. A socialização a dois enterra-se, e a amizade só se sustentaria se eu topasse participar desses programas coletivos e chatos demais. Então eu desisto, todas as vezes, de maneira que essas relações nunca ultrapassam a barreira dos três meses. Depois, vem a espera por novas oportunidades.

Mas isso cansa.

Neste final de semana, bem que acordei com aquela velha vontade de fazer brotar mais um amigo e uma namorada; no entanto, assim que pensei no vazio que emergiria daqui a uns três meses - justo quando eu já estivesse desacostumado com ele -, percebi que valeria mais a pena voltar a dormir.



17 comentários:

Maluz disse...

rs não sabia desse seu exentrico ato rs

Mari ♥ disse...

Um costume peculiar, de uma pessoa um tanto quanto peculiar e entenda isso como um elogio. Interessante. E como sempre transforma vivências e observações corriqueiras em obras-primas em forma de contos, já devo ter dito isso muitas vezes, mas não consigo passar por aqui sem ressaltar isso (: A fugacidade das relações me parece uma coisa cada vez mais comum,à medida que as pessoas seguem caminhos diferentes, para mim soaria como auto-defesa isso de evitar estreitar os laços por 'mais de três meses', porque tenho certa tendência ao apego. Mas nem sempre. Tem aquilo, o clichê, que cansa, às vezes voltar a dormir é mesmo a melhor opção...enfim, achei singular essa sua forma de captar os 'flashes' de momentos de tensão como esses, confesso que me identifiquei com isso de querer oferecer uma palavra, uma companhia pra alguém que acabou de passar por uma situação desagradável...já me peguei caçando e descartando relações conforme sua relevância-ou não. Exausta, volto à dormir e deixo por conta do acaso, agora.


Matando as saudades daqui (:
Beijos!

Anônimo disse...

Eu acho linda esta maneira de fazer amizades. Sou muito só e individualista. Quando gosto de alguém procuro viver os melhores momentos da amizade. Quando as amigas me chamam para sair ou convidam para visitar, não vou. Acredito que assim, preservo o sentimento de amizade.

Não sou dada a festas, agrupamentos e coisas do gênero. Para exemplificar isso, tenho pessoas que conheci em vários momentos da minha vida e que não faço questão de ver de novo, talvez pelo medo de que o sentimento de amizade se desmanche com o convívio.

Eu acho que a amizade é um momento eterno e que não tem prazo de validade. Só acaba com a convivência e a exposição natural dos defeitos mútuos.

Pela web, acredito que esta eternidade é mais concreta, pois é natural mostrarmos apenas o que temos de melhor para oferecer.

Beijos, até mais ler.

Diougnes disse...

Gosto da forma como escreve, ainda que difira da minha. Inclusive, gostaria de tratar temas seus no meu blog.
Abraço.

Dayane Pereira disse...

Velho, eu nunca tinha pensado nisso, adorei! Eu tb sou individualista, na minha e tals, entendo bem esse seu lado de ser, pois me identifico. Essa metodologia e essa forma de pensar é perfeita, tem mesmo tudo a ver, fazer amigos nos momentos menos propícios..

J disse...

concordo com você, cara. nada pior que quando uma amizade começa a virar uma amizade e se encher dessas coisas.. churrasco, futebol, balada, festinha... argh.

muito boa essa sua maneira 'bizarra' de fazer amigos. xD

Laisa Maria Ferreira disse...

curioso. eu nunca tinha nem imaginado esse tipo de situação... quem sabe faço isso um dia, bem, acho que não, mas vale continuar lendo.

ah, sobre o blog de moda. ainda amo, vou fazer moda. mas não sei... não tava indo, não tava fluindo, digo. quem sabe um outro dia.

Adriana Hanna disse...

Interessante, Leon.
Estou certa de que essa é uma forma bastante rica de se colher e se alimentar de histórias e de personagens instigantes.
Um prato cheio para um bom observador e escritor. ;)

Abs!

Bruna de Sousa disse...

Hábito um tanto estranho, mas muito válido mesmo que o resultado tenha duração de apenas 3 meses.
Mas, sabe?... não são só suas amizades ou namoros surgidos nessas ocasiões que duram pouco não. Coisas muito verdadeiras acontecem em menos tempo: uma risada gostosa, um olhar sincero, uma piada idiota que te faz rir sozinho quando te vem à memória e tantos outros sentimentos bons que duram pouco, mas deixam marcas que a gente leva pra vida toda. Esses três meses podem ter sido até muito tempo. Quem sabe, né? Nada é pra sempre mesmo... a vida é um sopro!

Bruna de Sousa disse...

Ah, obrigada pelo comentário no meu blog.
O "Literatura Vil" foi um ótimo achado para mim. Adorei seus escritos e já te sigo. Abraço!

nara disse...

Quisera eu ter um tiquin desse seu "dom", e acho que sou totalmente o oposto, e não sei como, afasto as pessoas; quisera eu poder ter uns poucos e bons amigos mesmo que não por muito tempo. ótimo conto!

Nati Pereira disse...

Fazer amigos pra mim é uma coisa muito dificil, tenho conhecidos apenas. beijo

Ind Caroline x) disse...

saaabe q nuunca vii dizer q ninguém tinha esse costumee! e também nuunca fiquei pra fora pq sempre chego muito antes, por isso nunca conheci ninguém desses ahseuhasueh
mas, é um bom costume, a emoção faz aflorar os melhores sentimentos! como sempre demorado mas nunca abandonado! XD
beijãao

well souza disse...

Difícil achar alguém que escreva coisas criativas nessa sopa de bits que insistimos navegar.

Mas encontrar exceções é muito bom! Bela ficção.

Faz tempo que não visito, continuarei a leitura.

Abraço

blog
Site Comunidade Literária Benfazeja

Gabriela Andrade V disse...

Devo confessar que achei um pouco, digamos, excêntrico esse seu modo de fazer amigos ou namoradas. Nesse exato momento, estou me sentindo como um deles - pois perdi o prazo de inscrição para uma das faculdades que eu mais queria - e, seguro o quase choro.
Acredito que todas as pessoas têm os seus modos particulares de fazer amizades, minhas amigas adoram ir à balada e conhecer caras, os quais a amizade/ficada não dura mais do que 1 mês. É a vida, né? Eu, pelo menos não aguento sentir um ciclo de vazios abruptos... Contudo, espero que você possa dar chance à algum desses retardatários e topar alguma saída com eles, quem sabe não é isso que lhe falta? E que, a amizade perdure. haha. Ok, desculpa a intromissão.
Devo falar também, que gostei muito do texto e da história, é diferente e isso faz falta hoje em dia. (:

Érica Ferro disse...

Olhando por esse ângulo que me mostraste, creio que uma amizade assim, "cujo elo de ligação era a desgraça, o fracasso, a tensão" é muito mais sincera e despretensiosa...
Conhecer o outro nesse momento em que ele é verdadeiramente, sem máscaras e com as emoções à flor da pele me parece extremamente melhor, mais interessante, mais genuíno...
O pior é que as coisas não continuam assim por muito tempo, como você mesmo disse no texto. Logo o jogo social se inicia... E fica chato.

As pessoas são chatas, na verdade. Principalmente se prezam o jogo social.

Alessandra Santos disse...

Acho um barato ler um texto, formular uma ideia imediata a respeito dele e depois ler o que as pessoas falaram a respeito. Curioso que a maioria falou do "fazer amigos" e o que me chamou a atenção foi o vazio após os três meses, o término, talvez seja a minha velha mania de destacar o lado negativo das coisas.

Quantos amigos eu fiz e quantos perdi. Ficaram pelo caminho, sumiram. O tempo e a distância acabou levando-os de mim. No começo, ainda quando era infantil demais, sofria com isso. Depois comecei a aceitar que as pessoas passam pelo nosso caminho o tempo todo, algumas em brancas nuvens até... Acho que a gente reconhece uma Amizade quando ficamos muito tempo longe e, quando voltamos a nos encontrar, é como se nunca tivéssemos nos separado.

Porque há pessoas que são atemporais, eis a magia do amor.

:)