domingo, 19 de dezembro de 2010

Diálogo existencialista (peça incompleta)

(Eu estava bebendo conhaque e olhando Júpiter pela janela com a luneta que havia comprado recentemente. Gabriela estava deitada na cama, fora de minha vista e de minha audição; mas como ela quisesse conversar, então me voltei em sua direção.)

GABRIELA

Você gosta de tristeza?

(Eu me fiz de desentendido.)

LEON

O livro? Um dos melhores que já li.

(Ela riu. Depois ficou com um pequeno sorriso, mas meio sem querer perguntar novamente.)

GABRIELA

Não é isso não...

LEON

O sentimento, é?

GABRIELA

Sim.

LEON

Não necessariamente gosto... Convivo com ele. Acho que a vida é triste. Os momentos de alegria são meros lapsos. (dei uma boa parada, coloquei mais um pouco de conhaque e bebi antes de continuar a falação.) A nossa condição existencial é a solidão, e não nos conformamos com isso. Porque fisiologicamente somos um animal social, mas existencialmente, somos solitários.

GABRIELA

Puxa. (parecia surpresa, mas não demonstrava ter nada mais a dizer.)

(Continuei como se não a tivesse ouvido.)

LEON

... Então, acho que quando se adquire mais percepção a respeito das vicissitudes, os dilemas que a vida oferece, cada vez mais se entende que tudo o que conhecemos por reconhecimento, conquista, é pueril e simplório demais, e não sustenta nenhum senso de grandeza. Sendo assim, é uma sensação (a conquista, a vitória, a alegria) que surge e tende a esmorecer rápido, antes que nos demos conta disso... Isso só perdura naqueles que ignoram o lado obscuro da vida.

GABRIELA

Acha mesmo?

(Fui sentencioso.)

LEON

Acho sim.

(Silêncio, por alguns minutos. Gabriela estava sentada com as pernas curvadas sobre a cama, então deitou e se cobriu; eu estava bebericando e olhando-a fixamente. Como se tivesse se lembrado de algo, ela virou o rosto para mim rapidamente, mas ainda ficaria alguns segundos calada.)

GABRIELA


Eu nunca parei pra pensar sobre essas coisas.


LEON

Eu sempre parei, era só o que fazia... não fazia mais nada, afinal. Agora continuo não fazendo muita coisa, eu me acostumei com essa condição.

(Ela fazia murmúrios, como se procurasse as palavras.)

GABRIELA

E antes de pensar tanto sobre essas coisas, você era mais alegre?

LEON

Não. Por isso, eu achava que havia algo errado comigo. Sentia-me desprezado, injustiçado, relegado... Achava que as pessoas eram más e esperava sempre algo delas que nunca me ofereciam, em momento algum.

GABRIELA

Continua.

LEON

Depois, entendi que não se tratava disso. Ainda é estranho aceitar, às vezes. Há ressentimentos e coisas assim. Mas eu passei a entender melhor o porquê de as pessoas agirem dessa maneira. De serem indiferentes a outras, de serem insensíveis, e tal...

GABRIELA

São motivos distintos?

LEON

De modo geral, o motivo é o mesmo... aí cada pessoa tem suas particularidades, que só se diferenciam do todo em alguns casos específicos...

GABRIELA

Entendi.

(Voltei a olhar para a janela. Júpiter ainda estava no campo de vista. Enchi o copo com conhaque e dei uma última olhada para Gabriela. Ela estava me olhando, mas como se não estivesse me vendo, como se eu fosse transparente. Fiz-lhe uma última pergunta.)

LEON

Uma grande bobagem tudo isso?

(Não me lembro da resposta.)




16 comentários:

Anônimo disse...

Pois eu compartilho da mesma sensação. Por vezes, abro meu orkut e vejo ali as pessoas que conheço com sorrisos largos no rosto. Recebo mensagens coletivas de carinho e depois percebo que é apenas um momento, um instante e este instante parece ser eterno, mas não reflete a realidade.

Por mais que minha família e meus amigos digam que me amem, penso sempre que é um instante para ser eternizado, mas nem sempre será assim. Vejo que as pessoas, mudam constantemente, priorizam ora uma coisa ou outra.

Sei bem que estamos sós, mas muitos não conseguem acreditar. Fico penalizada quando no twitter, as pessoas aparentar amar umas as outras. Deixei de dizer de quem gosto no twitter, pois lá todo mundo aparenta amar todo mundo, quando sabemos que não é assim.

Embora simpatizemos com alguém, embora desejemos tudo de bom para a pessoa que temos afinidade, estamos sós e tristes a maioria do tempo. Essa tristeza acredito que deve vir do fato de que somos, enquanto animais racionais, imperfeitos diante da natureza. A racionalidade nos faz tristes.

Em tempo: Quero saber quando te chamarem no concurso. Deixa recado no orkut, em qualquer lugar. Quero saber e torço para que seja breve. viagens podem ser adiadas.

Um beijo

Adriana Hanna disse...

Gabriela queria que estivesse observando Vênus, mais precisamente Marte, na ponta da faca: aço-ação-emoção; mas, você, no caso, Júpiter.
Você: Júpiter!

;D

Anônimo disse...

Eu voltei. Voltei correndo para dizer Oba! ⁀‿⁀

,.-~*'¨¯¨Parabéns, para o mais novo funcionário público do RN'*·~-.¸-

Leon, talvez estas letrinhas escritas aqui, não consigam traduzir o quanto torço para que você tenha muito sucesso na vida.

Não deixe de manter informada, essa sua amiga aqui, que sempre está querendo saber notícias sobre você!

Agora, mais do que nunca, você precisará de seus amigos virtuais, pois não terá mais seus alunos.

E quanto aos alunos, lembre que, principalmente os adolescentes, acabam guardando um carinho e um sentimento de amizade pela gente, que muitas vezes a gente nem percebe.

São, primeiro as crianças e depois os adolescentes, que preservam muito melhor o sentimento de amizade, sendo eles nossos alunos. Muitos dos professores só percebem isso através de relatos, dos próprios alunos, quando lembram do passado.

Até mais...

Fábio Rocha disse...

Gostei, cara!!!

Érica Ferro disse...

Já disse que tenho a mesma opinião sobre isso?
Às vezes quero crer que a vida é mais do que eu suponho que seja: um grande nada, com alguns momentos felizes e a maioria apenas um grande vazio e uma solidão insistente.
Sim, às vezes eu quero muito crer nisso, quero pois não consigo crer que a vida seja só isso... Não faz sentido que seja só isso. Talvez a vida não faça sentido, e é por isso que ela é justamente essa nada aí que eu suponho que seja.
Quando eu não questionava certas coisas dessa vida, eu achava que era feliz, mas ao mesmo tempo eu queria mais dela, da vida, das pessoas e me frustrava constantemente (não que hoje não mais me frustre, mas antes era mais comum e mais doloroso).
Enfim... vou vivendo e um dia isso fará sentido ou acabará sem fazer sentido...

Vou em busca das pitadas de felicidade e trilhando o que tenho para trilhar rumo ao desconhecido, ao fim inevitável.

Já disse: gosto muito mesmo dos seus textos.

Patrícia Müller disse...

'De modo geral, o motivo é o mesmo...'
qual é esse motivo?

Ind Caroline x) disse...

"A nossa condição existencial é a solidão" tenho a impressão de q já vi isso em algum outro blog.. rsrsrs

mas cara.. vc falou tudo, a insensibilidade, tudo...
e é estranho, pq axo q só eu não sou assim, e daí é meio difícil...
mas sei lá, enfim.. gostei muito dessa nova pegada do blog, se colocando completamete como personagem hein! asheuhase
demorei mas vim! (como sempre)
beijão

Ana Seerig disse...

Ótimo texto!

Temos que aprender com a tristeza assim como convivemos com qualquer outro sentimento. Sim, provavelmente não é a melhor das sensações e, portanto, parece ter uma intensidade maior que qualquer outra, mas a verdade é que não damos a devida atenção às boas sensações, às alegrias, às surpresas...

Eis porque a tristeza e outros sentimentos "não-positivos" existem, ao meu modo de ver: para nos fazer dar valor aos bons. Afinal, se tudo fosse perfeito sempre, chegaria o momento em que o valor que daríamos aos sentimentos positivos seria nulo...

Eu realmente falaria mais sobre o assunto, mas além de tu ter dito muito no teu texto, o calor aqui me derruma e me deixa com o cérebro meio fraco... Desculpe se algo que eu disse ficou com o raciocínio pela metade...

Enfim, baita texto! =]

C. disse...

Achei um diálogo curioso. quase, QUASE um discurso monológico a partir do silêncio da gabriela. e cá pra nós, é um ótimo pensamento. transcedeu. e é mais curioso ainda, pois assim como há um ponto em comum a todos que são ''indiferentes'', a temática do diálogo tb se torna um ponto em comum a todos os leitores. acredito que quase todos (ou talvez todos, não posso afirmar) pensam muitas vezes sobre tal assunto, sobre tal dilema. é como li no livro do milan kundera. ''a felicidade é o desejo da repetição''. e é por isto que não SOMOS felizes, pois a vida anda em linha reta. temos momentos de felicidade, situações efêmeras (seria uma tautologia o que cometi agora? rs. situações... efêmeras... não sei . rsrs). mas adorei mesmo o post, leon!! hj tirei o dia para ler blogs e gostei mais ainda da seguinte parte: "Os momentos de alegria são meros lapsos. (dei uma boa parada, coloquei mais um pouco de conhaque e bebi antes de continuar a falação.) A nossa condição existencial é a solidão, e não nos conformamos com isso. Porque fisiologicamente somos um animal social, mas existencialmente, somos solitários."

além da sua descrição tãão delicada e cuidadosa sobre a gabriela. pareceu o godard falando da anna karina. hehe. beijos

Henrique Miné disse...

engraçado que estava esses dias pensando nisso, e cheguei a conclusão de que sou triste.

Depois pensei mais um pouco e vi que todo mundo é assim, uns apenas aceitam e resolvem lidar com ela, outros fingem felicidade.

Eu meio que faço os dois ao mesmo tempo.

Gabriela Marques de Omena disse...

Oi Leon, escreves divinamente.
Tenho o nome da personagem feminina, mas me sinto totalmente como o Leon. Vivo pensando sobre a tristeza, às vezes me vejo sozinha remoendo o passado somente para senti-la, acredito que se não fosse por ela não saberíamos o que é bom de verdade, não é mesmo? Como saber se está feliz, se é sempre feliz?
E como o Henrique Miné acima disse: Todos nós somos assim.

A maioria das vezes que me sinto um nada é justamente por achar que não sei metade do mistério que o mundo tem, e acreditar em Deus (agora me refiro ao seu comentário em meu Blog) me faz preencher algumas lacunas, ou apenas acreditar que sim. Estou aprendendo a ter fé depois de anos e anos acreditando ser ateu. Nasci numa família distinta entre religião e ciência. Meu pai acredita numa força superior, minha mãe é devota fervorente de Cristo, meu irmão é um perdido como eu fora.
Todo mundo é triste, todo mundo precisa de fé e esperança para alcançar os sonhos, e acredito que crer em Deus é um porto-seguro para alguns, claro que nem todos encontram sua fé assim.
E o Natal é justo o que você disse: nos lembrar que a sensibilidade existe, e o amor se aflora em nossos corações.


Imenso beijo, Leon. Obrigada por seus votos de feliz aniversário; como pediu não postarei o comentário seu em meu Blog, mas agradeço de coração todo o carinho e sua visita no meu cantinho.
Feliz Natal atrasado pra você também. Atrasado não, Natal é todo dia.

Victor.M disse...

"De modo geral, o motivo é o mesmo... aí cada pessoa tem suas particularidades, que só se diferenciam do todo em alguns casos específicos..."

Gostei bastante do texto, mas essa passagem que selecionei me passa uma visão muito geral, mas que nao deixa de ser verdade. abraço! parabens pelo blog.

Dayane Pereira disse...

Sempre achei que as boas sensações são passageiras, o bem estar ,a felicidade mesmo,sãocoisas que vem e logo passam, são efemeras.
Mas a nossa real condição, é ser só, por isso quem não consegue estar feliz consigo próprio, jamais consiguirá encontrar isso em outrem.

Quanto ao concurso que vc passou, parabéns! Vaiajar é muito bom, mas vc terá oportunidades sim. Assim como eu, sei que preciso correr atrás agora,para desfrutar lá na frente.
Boa sorte com seu livro, quem sabe não chegue logoaqui em Sampa e eu possa desfrutar também..
Bjos

Gabriela Andrade V disse...

"Porque fisiologicamente somos um animal social, mas existencialmente, somos solitários." Acredito que essa frase resume boa parte do diálogo existencialista entre as personagens.
Concordo com você e por instantes, fiquei como a própria Gabriela: "Ela estava me olhando, mas como se não estivesse me vendo, como se eu fosse transparente." Ou, talvez eu ainda esteja porque absorvo o conteúdo lentamente.
Leon, foi absolutamente incrível o modo como você narrou o diálogo, pois até agora estou com a cena na minha cabeça e parece que eu ouvi as personagens e observei os seus olhares. Divino!
P.S.: encantei-me com o seu comentário no meu blog. Nem sei o que dizer... muito obrigada! (:
Um liiindo ano novo, repleto de grandes obras para você!
Beeijos

Anônimo disse...

"Porque fisiologicamente somos um animal social, mas existencialmente, somos solitários."

Porque é tão difícil todo mundo entender isso? Não está claro o suficiente? Não é o bastante?

Luma Rosa disse...

Estamos sós com tudo aquilo que amamos... Feliz 2010!