terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A primeira noite

Já eram 23h e tantos e ele ainda não sabia para onde ir aquela noite. O centro da cidade estava esvaziado, e só se fazia presente a incômoda fetidez de mijo e cerveja que toma conta do lugar à noite. Embora a hora denotasse que já estava ficando tarde, parecia-lhe que muita coisa ainda aconteceria nos instantes seguintes. Mas ele não queria passar aquela noite na rua. Quisesse ou não, ela tinha algo de emblemático, de simbólico.

Depois de vaguear ante as pequenas lojinhas das ruas-beco que se acotovelam entre as principais vias da Cidade Alta, encontrou um hotel asqueroso, mas que oferecia a comodidade pela qual poderia pagar. "Ao menos uma TV ou um radinho deve ter", imaginou, consolando a si mesmo. O salão do hotel, com um balconista e outros quatro caras ao redor de uma mesa jogando cartas, era uma ebriedade só, e lhe trazia à sua memória os filmes vagabundos aos quais costumava assistir na infância - aquele lado escuro da vida, que nunca pensou em experimentar de fato. No entanto, o tempo corria e ele não estava chegado a reflexões. Pegou a primeira chave que o estonteado atendente lhe oferecera e foi ter com o primeiro quarto desconhecido que o acolheria. Lá, nada de radinho ou TV. Apenas uns beliches sujos, quase nenhum com estofado. Da janela, que ficava a quatro andares do chão, o que dava uns quinze metros de altura, sentia o forte vento frio que invadia o quarto e contemplava a decadência dos muitos mendigos, entorpecidos nas calçadas pequenas daquelas ruelas. A maioria das pessoas agradeceria por ter uma cama para dormir, ele pensou. "Sou um ingrato filho-da-puta".

Durante toda a vida, esperou por aquela noite. Contudo, não imaginava que passaria como um mundano, num hotel nojento qualquer. Não chegou a chorar; e se o fizesse não seria por saudades nem por desesperança. Aconchegou-se da forma que pôde, e, pela noite, leu um livro de Allen Ginsberg, mais um inconseqüente doutros tempos que o ensinara a desprezar a boa-vida vazia de sentido que recebera até ali. Apesar da leitura o absorvê-lo por um tempo, não agüentava o tormento daquelas horas e retirou da mochila uma garrafa de vinho pela metade, que o ajudaria a se aquecer e divagar o restante da madrugada, bem percebendo que estava longe de sentir sono. A certo instante, somente quando precisou do banheiro, foi que ele se deu conta de que não estava num suíte - não havia suítes ali, afinal. Caminhou até o fundo do corredor, mas o pouco de dignidade que guardava - que bobagem... - o impedia de usar o banheiro coletivo repugnante que era dividido entre todos os hóspedes do andar, composto de bêbados, prostitutas e, ocasionalmente, um ou outro adolescente fugidio, "igual a você", conforme lhe dissera um dos embriagados que conhecera na entrada do hotel.

Tudo se passou num misto de alegria e tristeza - mas uma tristeza jubilosa, quase uma constatação de que estava vivendo um lado mais sincero e honesto da vida, tal como ela deveria ser de verdade no seu imaginário. Estava, no final das contas, satisfeito. Nos vinte anos anteriores, fora sempre tido como um sujeito esquisito e ermo, mas os adjetivos inglórios até então recebidos pouco significavam agora. Já não pensava mais em nada depois de alguns tragos de vinho, quando reparou num crucifixo que ornamentava, solitário, uma das paredes do quarto, entre rabiscos de caneta outrora traçados por hóspedes canalhas e metidos a poetas. "Aprendi com você a ser um errante", foi o que disse, olhando para o crucifixo. Ou parece que disse, não tinha certeza.

Sua paz acabou quando bateram na porta, às 4h e poucas, enquanto filetes de luz matinal já começavam a iluminar o ordinário ambiente. Embora ele se mantivesse acordado, estava absorto demais para ter consciência disso. Estava drogado, diriam, como sempre disseram, os lugares-comuns que povoaram sua vida. Mas enfim percebeu que havia mesmo alguém forçando a porta no corredor. Quem seria? Ele não imaginava. Bem poderia se tratar de apenas um beberrão tentando entrar no quarto errado, ou até um serviço de quarto, mas isto ele sabia que não havia naquele antro. Talvez alguém que, após alguma procura, descobrira o seu paradeiro. Tentou não dar muita atenção, entretanto as batidas não cessaram. Num dado momento, contudo, sem entender muito bem o porquê e sem que se preocupasse com motivos ou razões, desceu-lhe uma minúscula lágrima pelo rosto, e um sorriso indolente desestatuou seus lábios. Pegou uma caneta que tinha no bolso para pôr uma sentença na parede, como tantas outras que já estavam ali expostas. Ele se viu quase completamente sem o controle dos próprios nervos, e, com muito esforço, escreveu: É possível alcançar a supressão do sofrimento que é a vida. Dito isto, não tinha muito mais a fazer. Então se dirigiu à janela. É bem verdade que quinze ou vinte metros nem sempre chegam a ser fatais, mas ele estava decidido a pular de cabeça para baixo, para não ter muitas chances. "Nunca tive segundas chances", pensou, no fim. "Seria muita ironia se tivesse agora".



11 comentários:

Brasil Ghost Writer disse...

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Anônimo disse...

E porque ele bebia? Porque sentia-se tão só? Porque se auto-flagelava? Porque se atiraria pela janela?

Porque esperava por aquela noite a vida inteira. Não poderia ter descoberto uma vida nova pela frente? Teria ele sociofobia?

Com os olhos marejados fico torcendo para que da janela ele não se atire.

Beijos!

J disse...

acho que já li isso em algum lugar... rs

Leon K. Nunes disse...

Realmente não; esse conto não é inédito, foi republicado. A primeira vez que foi postado já tem alguns anos...

A bem da verdade, este é o primeiro conto que fiz.


Literatura Vil

Anônimo disse...

Ok, eu estou oficialmente deprimido...

Anônimo disse...

Mesmo tendo a sensação de já ter lido, não deixei de ler e ficar com os olhos marejados. Não estou relendo porque certamente ficaria mais triste pois é um conto que emociona.

E o trabalho? Já está se preparando?

Alessandra Santos disse...

Assustadoramente incrível o seu conto, que vem pra me dar notícias tão humanas e, por isso mesmo, tão dolorosas. Cabem aí inúmeras possibilidades de leitura e interpretação. Gostei muito.

De fato, a vida muitas vezes não nos dá uma segunda chance, por isso mesmo cada momento tem um valor inestimável, mesmo quando tudo parece difícil demais, injusto demais, triste demais...

Gabriela Marques de Omena disse...

O tamanho me espantou, mas assim que fui lendo, queria saber mais e mais sobre o rapaz, e ao fim, pouco soube, apenas que ele estava cansado demais para lutar outra vez. E a frase final que ele escreve na parede, bem, esta me fez refletir, assim como todos os contos que tu escreves. Sempre há uma mensagem nas entrelinhas.
Muito bom seu conto, além de triste, claro. Bonito.

Imenso beijo

Maluz disse...

Não é novidade nenhuma que seus contos são muito bons e bem escritos, ideias bem expostas, menssagens, endagações... Mas não sei por que karlinhos esse teu primogenito tem o que de especial... Nós que lemos temos a impressão de sentir a tristeza desse garoto, tuas palavras ai tem o poder de nos transmitir e fazer sentir uma coisa que não é nossa mas apartir de uma so leitura ela se torna....
Mais uma vez Muito bom!!!!

Dayane Pereira disse...

Gosto de contos, gosto muito dos seus contos. Gostaria de escrever, mas nunca me atrevi. Não creio que ficaria bom.
Gostei do relato, do lugar, da agonia do menino.. Dilema de muitos jovens nessa idade, creio eu , que ele seja (era) muito jovem.

xXx disse...

Estou com uma puta curiosidade de saber quem estava batendo na bendita porta

....

seria a Sra. Morte?