quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

53 reais a menos

Eu gosto das pessoas. Gosto de observá-las. Só não sei interagir, e também não gosto. Em geral, as formas de interação são tão pueris que nossa melhor companhia de repente pode perder toda a graça. Mas é por gostar apenas da companhia das pessoas e não da interação que me dou bem em lugares como estádio de futebol, fila de banco, ônibus, trem. Imagino-me pegando um trem lotado - há tempos não faço isso -, e dando de frente com todo aquele povo estranho. Cada um no seu lugar, uns sentados, muitos de pé, crianças chorando, mulheres com saco de compra, homens oferecendo lugares a idosos e grávidas e eu lá, no meu silêncio, observando tudo, sem que ninguém precise me falar - e esperar que eu fale de volta - nada.

É por isso que o lugar que mais gosto é o último banco do ônibus. Quando me sento ali, tenho uma visão panorâmica de todo o interior da condução, posso observar a todos, ainda que com as limitações daquele ângulo de vista, e sou também observado por aqueles que vão descer, mesmo que por lapsos de menos de um segundo. Todas as vezes que preciso me recolher em um lugar, o lugar que escolho é sempre nesse último banco.

Quando vou para algum jogo de futebol acompanhar o meu time, o ABC, não é diferente: gosto de ir de ônibus. Gosto da expectativa da vitória dentro de campo aliado ao prazer de ir observando as outras pessoas que estão no ônibus. Gosto de curtir o bom resultado ou amenizar a dor da derrota bisbilhotando os hábitos alheios, no retorno de casa.

Mas na semana passada, chovia muito e era noite; se eu quisesse ir para o amistoso internacional do ABC contra o River Plate, não poderia ser de ônibus, pois não tem mais ônibus depois das 23h00.

Saquei então a minha moto e me dirigi ao Frasqueirão. A chuva era intensa, muito mais do que eu esperava. Somente quando deixei a moto no estacionamento é que ela se elevou a tal ponto que eu mal conseguia me movimentar. Oh chuva para causar desgraças, será que não me permitirá nem chegar nas arquibancadas?!

Com muito esforço alcancei a arquibancada e lá assisti, mesmo debaixo da tempestade, uma partida meio sem graça. A chamada do evento engrandecia o que ele era de fato. Mas nunca se pode esperar um grande jogo da primeira partida do ano. O estádio parecia apenas metade cheio. As outras milhares de pessoas estavam se acotovelando debaixo das arquibancadas para se proteger da chuva. O primeiro tempo terminou sem gols. No segundo eu já estava trêmulo, apesar de a chuva ter diminuído. Mas quando pensei que o jogo melhoraria, o River marcou o primeiro. Quando pensei que o jogo melhoraria, o River marcou o segundo. Quando pensei, o River já estava marcando o terceiro.

Não gosto de ir embora antes do jogo acabar, mas essa soma de fatores foi determinante para me fazer tomar rápido o caminho de casa...

Só que no estacionamento a moto não queria pegar. Não adiantou eu tentar por dezenas de vezes. Não pegou. Saí empurrando, mesmo debaixo da chuva. Queria ver se fazia ela pegar no tranco, correndo. Só que ainda chovia, a pista estava cheia de água e havia muitos carros estacionados e outros saindo do local do jogo. não tinha condições de pegar no tranco. Pensei que podia ser a gasolina em falta. Levei no posto que fica em frente ao estádio e abasteci. Nada. Um amigo chegou e viu meu problema.

Será o cachimbo? Vela encharcada? Liga o afogador, de repente pegue, disse ele.

Fui tentando dando uma sacada em cada ítem, mas não resolvia. E não tinha mecânico para levar, sequer eu tinha como sair debaixo daquele pé d'água.

Nesse momento, ouvi uma gritaria da torcida no estádio. O ABC havia marcado o primeiro, eu sei. Mas nem comemorei. Apenas sentei e lá fiquei como se a solução dos problemas me fosse cair do céu.

Quando me dei conta, já havia bem menos gente pelas redondezas. O jogo já havia terminado há tempos. Deixei a moto ali mesmo, no posto, ciente de que no dia seguinte ligaria para o meu tio e lhe repassaria uns trocados com a mais límpida convicção de que ele iria fazê-la funcionar e descrever acertadamente o problema para que nunca mais venha a se repetir. Sendo assim, não havia mais nada a fazer. Iria caminhando para casa, até talvez aparecer um táxi. E apareceu.

Vai pra onde?, perguntou o taxista com o carro em lento movimento, seguindo minha caminhada.

Parque Industrial.

Onde fica?

Perto do aeroporto.

Tem quanto aí?

15, 20... sei lá.

Não tem mais?

Mais quanto?

Sei lá, bem mais. O aeroporto é longe.

Talvez.

Entra, se tiver mais.

Entrei.

Dentro do carro, pude ver o teor da chuva. Todo o trajeto usual que eu fazia estava completamente alagado, e a BR 101 havia simplesmente desmoronado por quase toda a via. Essas circunstâncias fizeram o taxista dar muitos arrodeios a mais para chegar ao meu destino. A conta deu exatos 53 reais. Eu não tinha tudo isso no bolso. Quando cheguei em casa, fui no quarto e catei umas últimas notas pra fechar a conta. Repassei a grana, ele sorriu e se foi.

Agora a chuva já era parca e rala, suficiente apenas para que se pudesse ouvi-la caindo sobre os telhados, a pavimentação e as poças. Estava escuro, e na rua somente os postes me faziam reverência em seu silêncio estático, luminoso, molhado demais. Eu fiquei ali parado até o táxi virar a esquina, e ainda continuei alguns segundos a mais, inerte, pensando nos impropérios daquele dia.

E dessa vez eu nem tive o último banco do ônibus para me recolher.



10 comentários:

Anônimo disse...

Hummm... podia ter sido pior.

Gostei muito de lê-lo, muito mais o final, transmitiu-me uma certa paz, chegar em casa, e aproveitar a serenidade do dia conturbado, é tudo de bom! ^^

Bjus!

Dayane Pereira disse...

Gosto de contos realistas assim, que realmente aconteceram, ainda mais com seu jeito tão literário de narrativa.
Eu tb observo muito as pessoas em todos os lugares, no ônibus tambem. Adoro ficar sozinha e só observar, sem conversar com ninguém.. álias, nem gosto de conversar no ônibus e lugares públicos, gosto de sair e andar sempre sozinha.
Mas fiquei imaginando vc na chuva, ai que chato e imagina o frio, rs

Gabriela Marques de Omena disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gabriela Marques de Omena disse...

Mais que dia, hein Leon?
Sinto muito por seu time e sua moto, e seus 53 reais a menos, tirando o gasto para o conserto, não? A vida é assim: imprevisível. Às vezes está sol, então chove, tudo está bem, então despenca. Bem assim.
Sabe, eu gosto dos bancos da frente (do ônibus), mas eu tenho sentado bastante nos asentos do meio, pois os da frente são reservados... Os últimos sempre são os primeiros a serem dominados, muito raro conseguir achar um lugarzinho pra mim. E tens razão, de lá dá para se ver todo o movimento, além de sermos os últimos a serem fitados por olhos desconhecidos, o que me faz achar, que quando aquela pessoa lembrar do ônibus que tomara naquela manhã, a primeira pessoa que irá relembrar nitidamente somos nós, o dos bancos de trás, que foram os últimos, os únicos que ela não notara que estava ali o tempo todo.

Uma vez tive de tomar um táxi para casa após uma festa que terminou mais tarde que o previsto, e fora engraçado, sabe? Esses taxistas são tão tagarelas que, o que tive a sorte de tomar, passou a viagem toda contando da vida dele, que gostava de andar de skate, e tudo o mais. É engraçado, mas eu não esqueço dele e da história que me contou, são certas coisas que ficam na gente, inclusive o valor, que fora salgado demais...
Tudo na vida tem um por que.

Beijo imenso Leon! Ótimo fim de semana a você.

Ind Caroline x) disse...

Que preju seu ABC te deu hein?
Vc vai assistir o jogo, não pode fazer o que gosta que é ir de ônibus, assistiu a uma derrota, teve um problema na moto, se molhou muito, gastou com o táxi e teve 53 reais a menos..!
E olha que o que você disse outro dia é verdade, nem mesmo o taxista sabia onde era sua casa.. hehehe
mas ta bom.. vc sabe que eu tardo mas não falho! beijãao...

Anônimo disse...

Olá, Leon!

Resolvi começar tudo de novo. Desta vez sempressa e sem cometer os mesmos vícios. Não consigo ficar sem escrever.

Pois eu também gosto das pessoas e apesar de me acharem simpática na rua, não me sinto bem interagindo com as pessoas. Talvez seja por isso que eu busque apenas as palavras e como tenho muto a dizer só os blogues me satisfazem.

Não gosto de futebol e no máximo torço para o brasil na copa, mas até isso vem diminuíndo com o tempo.

Vim para dar um olá e dizer que ando por aqui. Desta vez não convidei ninguém a acompanhar, já que também criei um blog no wordpress. O wordpress serve muito mais para que eu estude aquela ferramenta e veja o motivo pelo qual as pessoas preferem o blogger.

Beijo!

Laisa Maria Ferreira disse...

Ola, quanto tempo. O bom é que sempre sei que vou encontrar aqui algo pra me aquecer (o que aparentemente é uma ironia, pois o texto falava de chuva, mas sei que você me entendeu). Pois bem, estou feliz de voltar aqui, acho que os últimos meses foram mais crueis do que eu esperava que fossem, mas pelo menos voltei, e acho que se tivesse voltado antes estaria melhor agora. Se puder, passa no blog depois, tem uma.. uma coisa irritante, mas que explica o que aconteceu esses meses. Até a próxima,

Anônimo disse...

Acho que neste dia vc estava sob efeito da Lei de Murphy, mas todos passamos por dias ruins ou simplesmente estranhos. É interessante gostar de observar apenas, de se posicionar estrategicamente pra ess fim; também faço isso, dependendo da situação... Normal.

Anônimo disse...

Acontece...podia ter sido pior, mas ainda bem que não foi e vc ainda tomou banho de chuva, banho de chuvaaaa ai ai ai ai aaaaai.Bjss

Anônimo disse...

Voltei para dizer que gostei da crítica, como sempre. :) É uma oportunidade para melhorar.

O "eles" escrito lá são as pessoas que me incentivaram a parar de blogar e para as quais eu havia prometido parar.

Beijos!