quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Postagem sobre uma experiência circulatória

– Você não conseguirá. Nem adianta tentar - foi o que me disse um amigo.

– Pensa que não? Por quê? Deixe de besteira...

– Que besteira, Leon? São 3000 peças! Além do mais, você já tá bem grandinho pra brincar de quebra-cabeça, não acha?

– Tem razão - lhe respondi. Mas mesmo assim comprei o jogo. Suas palavras continuavam a repercutir na minha cabeça agora que eu estava solitário com aquele monte de pequenas peças jogadas no assoalho de meu quarto. Já tinha me livrado da capa do desenho, que nem cheguei a ver direito, só para ter o prazer de descobrí-lo no decorrer da montagem. Obviamente, não conseguiria fazer tudo no mesmo instante, era meia noite, logo iria dormir, mas o deixaria aí, sob meus pés, até vê-lo concluído.

Liberdade! Era nisso em que eu pensava quando me ajoelhei no chão como moleque para a primeira noite, garrafa de vinho barato do lado, um classic rock a ecoar no cômodo com seus solos intermináveis que me são uma fonte de paz. As primeiras peças são apenas serviçais de minha pretensa criatividade... vou juntando-as sem muitos critérios, com um arrogante sorriso de todo-poderoso. De início já me saciava o simples fato de estar ali brincando. Já tinha me decidido a não dormir aquela noite - eu andava dormindo tão pouco mesmo. Um quebra-cabeças, em sua lentidão e paragens, é espaço para muitas reflexões, e enquanto jogava, a cada intervalo, eu tomava alguns tragos e pensava nos tolos planos para o dia seguinte, assim que o maçante Sol começasse a iluminar os céus.

Engana-se quem pensa que quebra-cabeça é só mais um jogo igual a qualquer outro. Este, meus amigos, mobiliza a pessoa para o propósito de concluí-lo, prende sua atenção. Quando dei por mim, o despertador já alarmava longamente – meu despertador estava marcado para as onze da manhã! Foram quase doze horas ininterruptas ali sentado, e – que energúmeno eu sou – não tinha feito quase nada. Qual não foi a minha decepção... em verdade, fiquei com mais raiva que decepção. Pensei a bobeira que cometi em ter brincado de jogar peças ao invés de estar montando alguma figura imponente que deveria representar a obra final!

Todos que me viram no dia em questão acharam estranho meu comportamento: estava afobado, impaciente, além da cara de sono e dos olhos sofridamente abertos. Eu estava mesmo era pensando em voltar para casa o quanto antes e continuar a montar o troço! E assim, foi: logo que cheguei em casa, fui tomado de uma repentina disposição, e senti que dali por diante as coisas avançariam. Ao vinho, prefiro a boa e velha cafeína, já que queria me manter mais desperto que embriagado. A montagem de peças seguia num ritmo sensacional, e podia perceber o que já surgia timidamente: dedos, copos, aparentes prédios distantes. Algo como uma paisagem qualquer num dia ensolarado. Não me lembrava de ter comprado algo tão alegre. Talvez eu não tivesse visto a capa do desenho, o que era bom. Talvez nem tão bom - a última coisa que eu queria, ao final do quebra-cabeças, era ver o rosto de uma criança sorridente brincando num parque. Os pensamentos iam correndo na minha mente enquanto eu movia as peças. A luz do dia já se prenunciava, clareando os ninhos de pardais do telhado empoeirado, e eu percebia a primeira figura completa do jogo: um cigarro, numa mão feminina com unhas cuidadosamente esmaltadas em vermelho. Aquilo me incomodou profundamente. Detesto cigarros. Evoluí um bocado no que tange à quantidade do jogo. Mas me sentia muito insatisfeito com o resultado parcial. Saí, tinha um compromisso, afinal. Um outro amigo não compreendeu bem meu caso.

– Somos dois os que passamos a noite na farra? he!he!he!

– Prisioneiros, é o que somos. A única coisa que temos em comum. Mas cada um em seu cenário..

Não me bateu mais o gosto de continuar aquele jogo. Quando cheguei em casa, joguei-me na cama e lá tive um sono de 14 horas. Suficiente para me perguntar, ao acordar, o que aquele jogo estava fazendo ali no chão. Mas eu o mantive lá por dias. Dias, dias, dias. Inalterado. Ao passar por ali - era meio caminho entre este computador e a TV, a minha poltrona preferida, o banheiro, etc - eu dava um salto. Estava cansado de saltar. Mas por nada eu destruiria o pouco que tinha feito no jogo. Então, decidi continuar. Com muito mais calma, com duração controlada, sem bebidas nem nada. Separei duas horas por dia para me dedicar ao jogo, e, quatro dias depois, senti que estava evoluindo rapidamente. Percebia lábios, olhos e uma pele clara e resplandecente na figura. Sentia-me bem melhor, prestativo, mais disposto. Em casa, estava inspirado para escrever, ler, para ter idéias, voltar a ouvir música deitado na cama, só pelo prazer de ouvir música. Já não passava noites em claro bebendo como um maluco insone. Foi a fase em que mais produzi, seja em estudo, trabalho, relações, seja no aspecto pessoal. Havia algum combustível invisível.

Há algum tempo eu percebi que o quebra-cabeças ia chegando ao fim. No total, creio que contavam uns quinze dias de seu começo perturbadíssimo até o momento atual, em que eu já nem me reconhecia de tanta hiper-atividade! E cada vez que chegava mais perto do fim, eu mais me empolgava comigo mesmo! Diariamente comprava sanduíches ou pizzas e refrigerantes para comer enquanto jogava! Chamava amigos para batermos um papo e mostrar-lhes como eu tinha evoluído! Chamava garotas para issos e aquilos - mas é claro que o que eu queria é que elas vissem o meu belo trabalho! Na última noite, só me faltava uma maldita máquina fotográfica para registrar o momento! A única que tive, vendi no tempo de vacas magras. Mas já bastava a minha satisfação pessoal. Quando cheguei da faculdade, vi que faltavam poucas peças, em questão de meia hora eu a terminaria, enfim! Faltavam 50 peças, 30 peças, 10 peças, uma peça...

Vitória! Levantei-me, silenciosamente, pus-me diante do meu amigo espelho e pensei como eu devia estar orgulhoso de mim mesmo. E estava, obviamente. Tinha vencido mais um obstáculo. Olhei para o chão, a figura montada – uma mulher fumando cabisbaixa com um exagerado batom vermelho num desses cafés ao meio-dia – e o estrago que eu tinha feito no quarto, com cama e estante afastados, um espaço sujo e pouco cuidado naquele tempo. Começava a perceber que o quebra-cabeça montado já não atraía tanto minha atenção, e sim o que estava à sua volta. Estive produtivo e alegre enquanto o montava, mas se tratava mais de uma reação interior esquizofrênica do que exatamente de um conjunto de fatores. Estava cego a todo o resto. Só então percebi o porquê das reações negativas dos amigos e das garotas que eu recebia; e eu não entendia essas reações! Lembrei-me das horríveis sensações de infância quando concluía esses jogos... as sensações de que não havia mais para onde ir. Para que serve um quebra-cabeça montado? Não há mesmo saída. Juntei todas as peças, pus numa caixa com o rabisco "isto é um quebra-cabeça" e joguei na rua para que o primeiro lixeiro – ou a primeira criança sem sorte – o pegasse. Abri uma garrafa de vinho barato, acionei um classic rock e decidi que não dormiria mais aquela noite.

9 comentários:

Coelho Carnívoro disse...

Quebra cabeças de 3 mil peças? cara, qualquer um que monte um desses obtém o meu respeito. mais pela paciência necessária do que pela dificuldade...

mas, meus parabéns pela façanha! aposto que era isso que tu queria que alguém dissesse né?

Anônimo disse...

rss, não foi à toa que precisei de metade de um mês para concluí-lo...
De qualquer modo, se tem algo que não recuso, são parabéns, hehe!

An@Lu disse...

adorei o teu texto. retrata a obsessão, a busca, enfim... E depois quando acaba você se pergunta se terá valido a pena as noites mal dormidas, a febre e a falta de apetite.
Agora quero ver vc acturalizar mais vezes tá?!?!?!? :)
Beijo

Let's disse...

nossa!
isso é uma metáfora pra objetivo na vida?
hehehehehe....

Andiara Moraes disse...

tô aqui imaginando o tamanho de um quebra-cabeça de 3000 peças...
nunca esqueço de um do Pato Donald que ganhei quando criança. lembro até a ocasião - supermercado com minha mãe, em alguma noite, 1995, talvez. foi o único quebra-cabeça que tive. eu, que sempre gostei... mas, estando concentrado no que tu tá fazendo, tu esquece de todo o resto. e quando acaba, fica ali, a obra pronta, mas não necessariamente a sensação de dever cumprido (apesar de, que eu me lembre, nunca ter sentido isso).

beijo grande!

Girotto disse...

Leon!
tá num bom rítmo o blogue.
Esse texto é muito bom, de novo. Temos todos um desejo de ordenar, classificar, montar e harmonizar tudo. è frustante ver que não leva a nada, que nenhuma metafísica é possível e que somos efêmeros.
Bem, vou parando, que estou sem nenhum vinho por aqui.
Abração

Samilla Fonseca disse...

er...essa história é real?
=O
se for, parabéns pela persistência.
Se fosse eu, ao final do vinho, na primeira noite, já teria montado todo o quebra cabeça, tudo de cabeça pra baixo, me aplaudindo e mostrando pra todos que crânio que eu sou! réé ;D


tá adicionado no meu blog, certo?!
beijos.

Anônimo disse...

hehehe, muito bom!!
Acho que desde os 10 anos de idade tenho um quebra-cabeça de 1.000 peças, com a imagem de dois cavalos, que uma vez no ano (acredito) decido montar... acho que nunca tenha passado mais de meia hora com ele antes de bater o tédio. Aí deixo no chão por dias e dias até que alguém se interesse por ele e comece a montar... o que incrivelmente me faz desejá-lo de volta... vou assim até terminar... e guardo esperando o próximo interesse...
Cada um com seu quebra-cabeça...

Anônimo disse...

Adorei esse, cara. Tava voltando os textos pra saber qual o último q eu tinha lido e reencontrei-me com esse. Muito bom.