domingo, 23 de dezembro de 2007

"... Até que dava para beijá-la..."

O Pernil do Zé Roberto, um botequim localizado numa daquelas difíceis ruelas enfiadas por trás do CEFET e escondida no meio dos casarões, sempre foi altar de confissões, desentendimentos, desilusões e novas idéias. Quando eu fazia o ensino médio na citada escola, já freqüentava o local e aprontava das minhas, além de beber do álcool e das tantas histórias lá expostas. Hoje, duas faculdades incompletas depois, já nem o freqüento mais, e, até onde sei, é quase zero o número de remanescentes daqueles áureos tempos, que se vão bem distantes da seriedade que hoje se vê - e que passou a ser regra desde que a irmã do Zé Roberto passou a gerir o local.

Esse novo feitio eu só pude constatar há coisa de semanas, quando senti vontade de voltar pra ver que marcas deixou o tempo naquelas paredes mal-rebocadas que eram a vergonha do bairro, e tive essa indigna surpresa. Convenhamos, não sou do tipo que acha que todo boteco precisa ser ligeiramente sujo, mas as exageradas decorações e as combinações de cores, organizadas de forma infantil, e a obsessão por fazer daquilo um lugar "decente" explicavam bem porque aquilo tinha deixado de ser um ambiente de longas discussões para se tornar, hoje, um ponto monótono onde quase só vende cachorro-quente, e pernil mesmo só existe no nome do estabelecimento.

Para minha sorte, no entanto, cheguei lá e encontrei um velho no alto de seus setenta anos, quase um retirante deste lado da vida, bebericando uma pinga enquanto a moça do balcão o fuzilava com os olhos, louca para que ele fosse embora. Era Cortez, um espanhol alto, magrelo e desdentado, que veio para este lado do Atlântico na infância fugidio da guerra que varria a Europa, e agora era quase um mendigo, sequer lembrava uma frase em sua língua nativa. Morava numa pensão ali perto, desde trinta anos antes. Era o profeta da turma, o nosso sábio, o nosso mestre. Ele me explicaria, calmamente, o rumo que levou à decadência daquele local enquanto estive ausente, período que conta aí uns três anos. O marco inicial daquela derrocada, como eu soube, foi uma briga entre Zé Roberto e sua esposa, por quem ele nutria uma intensa necessidade. A causa da discórdia foi a descoberta das escapadas da mulher às escondidas, enquanto trabalhava como manicure numa grande loja feminina. A Líria (Líria Vale, eis seu belo nome) era tudo em sua vida. Depois dela - a briga se mostrou definitiva - a vida do nosso querido Zé já era, ainda que aos 35, e com ela se foi também o nosso ponto de encontro, do qual a irmã dele tentou se aproveitar, passando a gerir após um tempo e oferecendo "cara nova", subjugando o velho dono, que agora estava depressivo e fraco. Zé Roberto, no entanto, ainda morava ali, de favor, graças à "bondade" da mana, e, ao ser informado de que dois de seus velhos clientes estavam ali tomando um trago e jogando conversa fora, não hesitou em vir nos encontrar. Ele, cuja feição guardada em minha mente mostrava um rapaz alvo de aparência jovial, forte e imponente, estava, agora, emagrecendo e barbado, claramente desajeitado, muitíssimo longe de exprimir o astral elevadíssimo de outrora, porém seu semblante denunciava uma indisfarçável satisfação em nos rever.

Pacientemente, ele sentou-se conosco e demos continuidade à nossa conversa. Falamos sobre aquele passado recente do boteco, sobre a maravilhosa sensação de nos sentirmos tão iguais mesmo sendo de distintíssimas gerações, contudo o papo da noite não poderia ser outro senão as mulheres; sobretudo, aquelas que despedem-se de nós e nos deixam ao relento - isso quando ao menos chegamos a provar de fato o que elas têm a oferecer.

- Hoje, senhores, - disse, quase gritando, o ex-dono do Pernil - tenho certeza de uma coisa: a vida sem vírus não é vida. E o melhor vírus que pode nos infectar é mesmo aquele que nos prende a uma mulher. Depois que nos vemos ligados a uma, não tem jeito. Não há como cortar o cordão. Estaremos presos a ele para sempre.

Cortez, com seu eterno ar de convicção, não pensava lá tão diferente. Porém, foi mais sintomático:

- Eu tenho décadas de vida a mais que vocês, mas não digo isso como superlativo, digo agora aquilo que eu pensava há cinqüenta anos: pra mim, o único amor sincero que temos é o primeiro. Aquele quando somos moleques, quando suamos a primeira vez. Todos os que vêm depois podem ser mais intensos e mais duradouros, mas não valem nada. É tudo caso perdido. O único realmente sincero é o primeiro. Afinal, o primeiro é o primeiro, porra!

- Conte aí como foi seu primeiro amor, pois então! - esbravejou o Zé Roberto, aparentemente restabelecido de ânimo. Eu me mantinha falando pouco, como sempre. Cortez começou.

- Ah, guris, meu primeiro amor foi há muito tempo. Eu me lembro, foi algo como dois anos depois de eu ter chegado aqui. Eu tinha uns catorze anos. Quando eu cheguei, morávamos no bairro do Alecrim, e lá, onde hoje é a Praça Gentil Ferreira, havia um hotel... um hotel que não era um hotel, vocês sabem, né?

Eu e o Zé rimos. Realmente, o hotel da Gentil Ferreira não era um hotel. Ao contrário, era um puteiro mesmo, a festa da molecada; 80% dos jovens dessa cidade haviam tido, nesse hotel, aulas grátis disso-e-daquilo no seu 13º aniversário.

Porém, nosso querido coroa lembrava com inacreditável riqueza de detalhes sua experiência:

- Pois é, vou lhes contar. Eu tinha, como falei, 14 anos, e visitei aquele antro a primeira vez por opção de meu pai. Naquela época, vocês sabem... era tradição familiar que nossos pais nos apresentassem a vida, inclusive nos levando para o cabaré. E tá viva na minha memória a face daquela garota, que não devia ter mais que seus dezesseis, dezessete. Seu rosto era branquinho, com um rosa presente em sua pele, além dos seus olhos castanhos, quase de um dourado bem polido, que eram a coisa mais linda que já tinha visto na minha curta vida. E, posso dizer, a certeza que eu tive naquele dia eu mantenho até hoje, mais de meio século depois!

Nossa atenção já estava presíssima à descrição que ele faria da garota, do ambiente, da relação que teriam e de tudo que se passava em sua mente de moleque.

- Meu pai - continuou - me ofereceu a liberdade de escolher a garota que quisesse para passar a noite, e eu não hesitei em escolhê-la! Ela me disse que se chamava Cecília, me levou rapidamente a um quarto, e, por mais que eu tentasse, entre gaguejos e limpadas na testa, engatar uma conversa, ela não tava afim de papo. Mantinha um sorriso no canto dos belos lábios avermelhados e carnudos feito massa corrida, no entanto provavelmente recebera a proibição expressa em conversar qualquer coisa com qualquer um, embora aos poucos ela fosse se abrindo. Isso me deixou melancólico, mas eu devia estar feliz, oras, ia transar com o primeiro amor da minha vida, isso não é o desejo de todos??

- Não exatamente... - discordei - talvez aquela sinceridade de que tínhamos falado consiste justamente no fato de que o primeiro amor é quase sempre mais platônico que, necessariamente, carnal...

Zé concordou comigo. Cortez balançou a cabeça complacente, como se já discordasse do que acabara de dizer. E daria seqüência:

- Porra, acho que foi por isso que não rolou... eu não consegui, entende? Não consegui, na minha primeira vez! Jurei pra ela que aquilo não importava, que todo meu amor era maior que aquilo tudo, até que minha brocha, mas o som alto de música ruim - era um fado português que invadia todos os cubículos do bordel - impedia a gente de sentar na cama e conversar à vontade. Mas sabe o que é mais incrível? Ela aos poucos foi se abrindo, talvez porque eu tenha sido o único cara que se interessou mais em ouvir sua voz que em vê-la nua, e o único a não ter-lhe dado uns tapas na cara. Cecília me disse que esperaria, até o último de seus dias, a vinda daquele que a tiraria daquela vida e com quem dividiria o maior amor já visto!

Cortez nos contou que, dez anos depois, quando já era um poeta conhecido nos círculos literários da Cidade Alta, voltaria ao bordel e a pediria em casamento. Porém, Carmem (esse foi o nome que ela disse ter, desta vez, e afirmou que nunca se chamou Cecília na vida) já estava casada com o "Anel Prateato", apelido do seu cafetão, e ela tinha se tornado, na prática, a dona do cabaré; de modo algum ela pretenderia largar a boquinha que tinha nessa condição pelo risco de sair e viver um romance com um poeta que só ganhava uns trocados com a publicação de elegias nos parcos semanários locais.

Após o fim de sua história, permanecemos, assim, uns três minutos calados, nós três.

- É foda... - disse alguém, tão baixinho que eu nem pude saber de onde veio, eu mesmo que poderia ter resmungado e não percebi.

- Agora minha vez... vou lhes contar a minha história, que se deu nessas mesmas ruas, anos e anos atrás - disse o trintão!

Bebeu de um só gole o copo de cerveja que eu lhe oferecera, passou as mãos nos lábios, esfregou-as e começou:

- Houve uma garota que cresceu comigo, na rua onde morei quando moleque, há coisa de umas cinco quadras daqui. Ela se chamava Alícia, e era a única criança da rua, além de mim. Ou seja: era com ela que eu brincava, com ela que dançava nas festinhas do bairro, etc. Mas nunca demonstrei maiores interesses.

Vez ou outra, ele pausava para reordenar a história, aparentemente organizadas de forma confusa em sua cabeça, e continuava:

- Ela sempre dizia que a gente era tão chegados, que merecíamos nos casar no futuro. E claro que eu nunca gostei daquilo, a gente, quando criança, nunca gosta, né? Mesmo que eu não tivesse vivido num círculo de garotos eu também tinha esse preconceito, e pá...

Nova pausa, novos goles de cerveja e um estalo, como quem pensa "ah, lembrei!":

- Assim foi até nossos doze, treze anos, cara... ela sempre muito gentil, muito doce, muito tudo e eu desdenhando. Até que, mais ou menos por essa fase, chegou um cara no bairro, o Herbert, de nossa idade, menino de uma família de porte mais apresentável, era um abobado engomadinho, mas que logo chamou a atenção da Alícia. E, meus amigos, o maior nó que já tive na garganta foi quando ela recusou a idéia de dançar comigo para dançar com ele! Que droga, vocês imaginam o abalo que isso fez na minha cabeça? Passou um filme, caras, completo, do início ao fim!

Cortez acompanhava atentamente cada movimento nos olhos do nosso contador. Sua atenção o fazia até esquecer de sua bebida e do suor que tomava praticamente todos os poros de seu rosto. Não seria exagero, se, na verdade, aquilo tudo não fosse suor, e sim lágrimas, cuja quantidade seria impossível sair somente dos olhos...

- Eu solucei e chorei na mesma hora - continuou Zé -, me lembrei de tudo que passamos e, mais ainda, de tudo que a gente DEVERIA passar juntos! Me senti o mais filha-da-puta dos homens. Depois daquilo, eu bem que tentaria, mas nunca mais teria a completa atenção da Alícia. Aliás, menos de três meses depois, ela e o novato do bairro já eram namoradinhos, e, três anos depois, se casariam. Vocês acreditam?

Balancei a cabeça negativamente, e olhando pra baixo, como se estivesse interpretando a decepção do próprio Zé em sua história...

- Pô, eu cometi a maior besteira da minha vida - prosseguiu -, mas eu tentei corrigir, da pior forma possível, vocês podem até dizer. A Alícia tinha uma irmã dez anos mais nova, a Líria, que quando tinha seus treze, catorze, eu contava já quase vinte e cinco. Mas eu via nessa garotinha a própria expressão de meu amor perdido. Foi por isso que namoramos escondidos (tá louco se alguém descobre que eu tava namorando aquela guria?), e nos casaríamos um bocado de anos depois...

O ar de estupefação agora tomava conta de minha face e da do Cortez...

- Quer dizer então que a Líria...?

- Exato! A Líria... pô, nunca gostei tanto assim da Líria, mas sabe aquela sensação de você querer ter algo da pessoa que ama, sei lá, nem que seja uma lembrança, um clone... no caso, optei pela irmã. A Líria era uma bela garota e até uma ótima companhia... mas tudo que sinto por ela, não se iguala a tudo que já senti e que ainda sinto por sua irmã, que hoje não fala mais comigo e, provavelmente, foi a arquiteta de nossa separação... ela não queria que seu cunhado fosse um dono de boteco, né?

Cortez ficou puto.

- O que você fez não se faz com uma mulher, seu imbecil!

Zé Roberto apenas abaixou a cabeça e disse, como uma criança que chora:

- Poxa, eu só queria...

Mais minutos de silêncio entre nós.

- Tudo bem, tudo bem - disse eu -, avaliar as coisas sem levar em conta o contexto, as opções envolvidas e afins é, às vezes, uma atitude mais filha-da-puta que a atitude propriamente dita do Zé Roberto em traçar - sem trocadilhos, por favor - seu plano B, em casando com a irmã da garota que é objeto de seu desejo.

Agora era a minha vez.

- Minha história há de ser mais boba que a de vocês, talvez. É uma necessidade dos tempos modernos, né? Tudo hoje é bobagem... até as histórias de amor. De qualquer modo, a primeira vez que me perguntaram se eu acreditava em coisas como "amor à primeira vista" foi lá pelos quinze, dezesseis anos. E eu não hesitava em dizer que SIM, porque eu já tive, antes de tudo, o meu amor à primeira vista...

Com o maior dos respeitos, os dois agora me ouviam cuidadosamente, pegando cada palavra.

- Bem, o começo de tudo, caras, foi num ônibus. Eu estava lá, indo sozinho para a escola, tinha exatos treze anos, condução lotada, muita gente falando, até que de repente... de repente, cara, subiu uma garota que me prendeu a atenção no mesmo instante! Sabe o que dá..? Não sei o que vi de tão especial assim... porque ela era linda, mas lindas muitas garotas eram e nunca me fizeram sentir aquilo... mas ela, com seu nariz arrebitado, sua boca pequena, seus cabelos curtos, a coisa mais bela que já vi na vida, terminando pouco abaixo do pescoço, seus olhos claros, sua nuca que exalava um perfume que, tenho certeza, nunca mais sentirei nunca noutra garota, sua perfeição em formas ia muito além da beleza vaga das demais meninas... ela realmente tinha um quê de especial.

Bebi um gole e continuei rapidamente... estava revivendo a história, ali, diante de mim, e não queria parar um segundo sequer!

- Cara, nessa primeira vez, ela sentou-se do outro lado do ônibus, bem longe de mim... eu segui a viagem toda olhando para a janela, não ousava virar para contemplá-la... mas teve um momento que eu disse: "vou olhar".. e na hora que virei, no exato instante, ela olhava pra mim - e desviou o olhar desesperadamente! Cara, ela estava olhando pra mim!! Tem idéia da sensação de poder e conquista que se instalou em mim quando saquei isso?!?

- hehehehehehehehehe... sorriu vagarosamente o Cortez, com jeito de quem entende aquilo que senti.

- Sabe, bicho.. durante dias, foi assim... maior prazer maior era somente poder apreciá-la no ônibus. Mas decidi fazer mais! Então eu a segui... segui pra saber pra aonde ela ia... e saquei que ela cuidava duma loja de bombons que depoius soube que era da mãe dela, lá perto do antigo cinema Rio Verde, onde as pessoas compravam guloseimas quando iam pra sessão.

- Tá, já sei... você passou a comprar bombons lá, né? - perguntou sabiamente o Zé. Ele estava certo.

Relatei então, o primeiro encontro que tive com ela nessa loja, que tentei demonstrar ser por acaso, né?... Ao que entrei na lojinha, ela pareceu tão nervosa quanto eu por me ver ali. Eu cheguei e, meio nervoso, disse somente:

- Olá.

- Olá...

- Você tem...? - pensei em alguma coisa, qualquer coisa, e lhe pedi, sob tremedeiras, suor e frio na espinha...

- Hmmm... tenho. Vai ver um filme com alguém, é?

- Bom... vou ver um filme sim... mas vou ver sozinho.

- Ah...

Passei a ir ao cinema (e por conseqüência, a loja) com certa freqüência, coisa de uma vez por semana, para poder conversar com a Fernanda - taí seu nome... sempre passava poucos minutos, no entanto. Eu já não a via, porém, nos ônibus. Isso, ela me explicaria.

- Sabe, eu morava com meus tios, lá no seu bairro... é o seu bairro, né? Pois é... estive morando com eles, meus pais são separados, meu pai mora em Curitiba, e minha mãe aqui, mas já tá se restabelecendo e tô com ela... mas em breve, terei que optar com qual dos dois vou querer morar em definitivo...

Essas coisas me violentavam, somente a suspeita de que ela poderia ir embora e eu nunca mais a veria. Enquanto eu contava a história, Cortez dava umas interrupções, comentando que com ele acontecera caso parecido. Mas não tomou a vez...

- Até que aconteceu uma coisa - continuei - que eu não esperava: nos reencontramos na condução. Foi o maior momento de minha vida, quando a pude ver sorrindo e vindo em minha direção, lá nos fundos do ônibus, e sentando a meu lado, no banco que fica logo ao lado da porta. Eu estava no céu, caras...

- No céu! - repetiu Zé Roberto.

- Vocês sabem o que é? Puxa, nossa conversa foi longuíssima durante a viagem, mas eu, um moleque idiota, não conseguia expressar nada do que eu realmente queria... durante o trajeto trocamos cortejantes olhares, e cheguei a ensaiar a possibilidade de pegar na sua mão... puts, como eu era um babaca!

- E sobre o que conversavam?

- Essa é a questão... ela disse que voltou a pegar o ônibus por uma razão lá não tão positiva... ela estava indo à casa dos tios, ia pegar as suas coisas, e provavelmente embarcaria pra Curitiba...

- Puta-que-pariu! - gritou Cortez, dando um murro na mesa...

- Pois é, cara... ela falou tanta coisa, sabe, mas eu não me liguei em conteúdo, só na forma... eu não me lembro mais de suas palavras, porém sua voz tá viva em minha cabeça, isso é curioso... passei a viagem contemplando-a alegremente... isso até saber que ela estava indo embora. Mas ela me disse que a decisão não era definitiva. Que poderia ficar, se fosse seu desejo. Nunca me esquecerei, porém, de suas últimas palavras, já perto do ponto em que desceria, quando me falou: "... e eu poderia até permanecer aqui... com certeza ficaria, se houvesse algo que me pedisse pra ficar..."

Eu não consegui lhe responder uma palavra.

O ponto dela estava chegando e não teríamos mais que uns trinta segundos. Mesmo assim, nada dissemos. O ar permanecia cativante, ela balançava lentamente sua cabeça, mordia muito lentamente os lábios, seus olhos estavam fixos nos meus, e naquele instante, que pra mim parece nunca acabar, eu senti que realmente poderia tê-la comigo, naquele instante percebi que realmente existia um elo forte que une um casal e que explica o fato de existirem, eternamente, a todos tempo, toda sorte de artistas loucos pra falar de amor. Naquele instante, e disso tenho certeza até hoje, até que dava para beijá-la... mas assim não aconteceu. Extintos os trinta segundos, ela, quase num pulo, com olhos lacrimejantes de desapontamento, se levantou, desceu do ônibus e eu nunca mais a vi...

- E você nunca procurou saber o que houve com ela?

- Bá... procurei sim. Não faz tanto tempo, deve ter meses, eu pus seu nome num desses sites de relacionamentos, e você não vai acreditar no que vi, cara... uma comunidade com uma foto dela, dedicada à sua memória! Ela morreu, bicho!! Tem idéia do golpe que isso foi no meu peito?!

- Meu Deus... ela morreu de quê?

- Não sei... fechei na mesma hora.

Ambos balançaram a cabeça condescendentes. Fariam a mesma coisa, se fosse o caso. Permanecemos, então, em silêncio, durante muito tempo.

- É a eterna fragilidade do homem diante de qualquer mulher, seja santa ou puta - disse Cortez, relembrando um velho amigo nosso.

Tomamos lá mais um pouco de cerveja e pinga e voltaríamos para nossa vida. Cortez, em seus setenta anos de promiscuidades, mantendo sua relação com pelo menos três empregadas domésticas que moravam no mesmo pensionato que ele, Zé Roberto em sua eterna síndrome de Bandini, e eu, revolto em meu niilismo, bem distante de qualquer coisa que se aproxime de um desses romances de cinema.

Provavelmente, o Cortez encontrará o descanso em breve. Sua saúde está desgastada, por mais que ele negue isso e até demonstre vigor tendo tantas mulheres na alta idade. Zé Roberto é outro que tende a permanecer vivo somente como lembrança... em especial porque não pretendo voltar naquele recinto cor-de-rosa, nem ele gosta de receber visitas, apesar da boa conversa que tivemos. O que ficou registrado nesse papo, no fim das contas, foi, talvez, o último momento de sinceridade em relação às mulheres. Tudo que virá depois, como disse o nosso guru, é caso perdido.

14 comentários:

Gabrielle disse...

Incrível!
Realmente, o primeiro amor é sempre o mais sincero. Tem aquele toque de pureza, você sente que está no céu e um simples olhar é motivo para sentir-se feliz. É como o texto disse, o primeiro amor é mais platônico do que carnal.
Eu não tive um primeiro amor, mas sim dois. Lembro que o primeiro foi o tão patético, mas ao mesmo tempo puro. Ficamos um bom tempo um olhando para cara do outro na esquina até darmos o primeiro beijo.
O segundo amor também foi puro. Lembro que trocamos até pulserinhas para termos uma recordação um do outro.

Mas o Zé Roberto hein, foi buscar uma paixão parecida na irmã da sua amada. Não é novidade, isso acontece nos tempos de hoje.

Beijão!!!!

Gabrielle disse...

Na verdade, eu quis dizer que tive dois grandes amores, e não dois primeiros amores. É meio difícil de escolher qual dos dois foi mais bonitinho, ehê.

Andiara Moraes disse...

Texto bem envolvente e bom pra uma reflexão: aquela máxima de não deixar nada pra depois... é um pouco clichê, mas às vezes a imaturidade e a inexperiência nos impedem... e seguimos sem arriscar, sem saber se tudo o que foi arquitetado seria um sucesso ou um fracasso. Por mais que as situações sejam as mais trágicas possíveis (a morte, por exemplo), elas estão e sempre estarão aí... porque somos espíritos em evolução, citando o espiritismo.

Adorei o que tu escreveu sobre o meu post... já estou mais tranqüila, mas me deu uma boa reconfortada. É sobre uma história amorosa também. No íntimo, sei que pode dar certo (não é platônico, já ficamos, sempre estamos próximos quando nos vemos e tal), só que meu ascendente em Áries "estraga" tudo! Hahahahahha... mania de antecipar-se e de angustiar-se por pouca coisa... soma-se a isso aquela vergonha básica de puxar papo no msn... bom, tenho crises às vezes, mas descrente não sou, nem estou! :)

Beijão!

Gabrielle disse...

você não errou em pensar que ele tivesse o nome parecido com o meu. É chara (ou xará? fique na dúvida agora) se chama gabriel.

Fiquei feliz que tenha gostado dos meus posts antigos. Algumas coisas são bem fraquinhas que escrevi, aquelas bem de início, principalmente os contos. Não tava muito acostumada com o blog. Mas fico feliz mesmo.

Olha, não sei se é muito incômodo te pedir teu msn, mas eu acho que tu seria uma pessoa boa de se conversar, afinal, sempre temos longos comentários no blog, né? uhaheuhaheuh. Beijão!

Girotto disse...

Velho,

esse teu mundo é mesmo doido. É um universo bem detalhado. Reserva um pra mim, que estou ansioso pelo seu livro.

Abração

Tyler Durden disse...

Nao sei como vim parar aqui, mas gostei muito do seu blog...

E sobre o seu post, muitas vezes perdemos grandes chances na nossa vida, talvez, devido a uma suposta imaturidade, mas de vez em quando, mesmo depois de atingirmos a tal "maturidade" essas chances ainda escapam...

Acho que vc nao se importaria se eu linkasse vc ne´?

Mais uma pergunta: o CEFET em que vc estudou nao fica em Belo Horizonte, certo? Pois estudei no CEFET de BH e nao me lembro das localidades que vc citou..

Tyler Durden disse...

Nao precisa responder sobre a localizaçao do CEFET, so´ agora vi sua descriçao...

Francieli Hess disse...

Não, eu sei a senha da conta de administrador, só que ela não aparece na página de boas vindas com a outra conta, e eu não sei por onde acessá-la !

Gabriela Gomes disse...

Opa, Opa.

Escreveste um romance por aqui, foi? =) Precisarei voltar com mais tempo pra ler.

Mas quero aproveitar para agradecer os votos. Fazer aniversário no dia 24/12 é realmente complicado. Bem que o Natal poderia ser igual a Carnaval, beeeem variado. Aí daria tempo de uma festinha bem no meu dia. hehehe

Beijocas.

Chantinon disse...

Que saudade de encher a cara em Natal nas ruas escondidas.

Não sei como está hoje, mas desconheço lugar melhor no Brasil para "destruir-se" a noite. Viva os engov's.

Esses seus contos são ótimos para ex-botequeiros :)
Ou iniciantes!

Chantinon disse...

Ah! Eu tenho até um post gigante que to sem coragem de terminar, e como a Gabrielle, falo de 2 amores.

Gigis disse...

ufa!!enorme post...grande história!!

feliz ano novo...

;*

Gabriela Gomes disse...

Finalmente, consegui voltar pra te ler. =)

Todo amor dá mesmo uma grande história. Mas não é qualquer um que consegue tanto ao falar de amor. Não tenho certeza se o primeiro amor é o mais sincero, visto que, puro. Mas prefiro acreditar que sendo amor, sincero é.

Adoro a forma que escreves. Além do enredo, o ritmo é muito bom! E um português que não é formal, nem informal. É o meio-termo, o ponto certo. Gosto disso.

Aproveito pra desejar um 2008 INCRÍVEL! Cheio de boas surpresas.

Um beijo.

Juh disse...

Como os outros comentarios, tambem achei seu texto fantastico.

Época boa da vida, quando começamos a descobrir o amor! s2