Eu poderia, - ou deveria - inicialmente, expressar minha civilidade elogiando o trabalho prestado por Vossa Senhoria e pela pretensamente conceituada empresa à qual estive vinculado por, é verdade, 24h. No entanto, pularei essa parte.
A carta que vos envio, compreenda, não tem o objetivo de justificar nada, tampouco explicar. Sou sincero: não quero nada com essa carta, senão matar a minha vontade de escrever algo com a certeza de que será lido, o que vai além de um hobby; é uma das coisas que me mantêm vivo. É sempre possível, contudo, que ela não seja lida. Mas bem sei que com o pouco trabalho que cabe à supervisão diariamente, lê-la torna-se até um passatempo.
Não questiono o ócio a que os supervisores desta empresa têm direito, mesmo porque o trabalho que me foi confiado também não era nem um pouco pesado. Até agradeço por ele. Porém, no meu primeiro dia no emprego, sentado atrás daquele birô, - "um birô só meu", como vocês bem prometeram - naquela salinha de fraca iluminação, paredes azuladas, crucifixos tortos na parede e aparência decadente, vez ou outra recebendo telefonema de algum desinformado, estive pensando. Pensando sobre mim, sobre este trabalho. Respondendo perguntas, preenchendo formulários e divagando a maior parte do tempo. Senti-me mal. Muito mal. A estranheza que se apoderou de mim quando me dei conta de onde estava me fez entender que um salário mínimo era insuficiente para me manter na mesma situação. Faço aqui uma ponderação: a crítica não se pestra ao fato de eu receber um salário mínimo. Afinal, na situação em que me vejo, isso é mais do que suficiente.
Eu bem creio que Sua resposta a essa carta, se houvesse alguma, enfatizaria a questão da experiência; conheço as exigências de quaisquer empresas para com a experiência profissional anterior de qualquer candidato a qualquer cargo. Mas não quero ser escravo de tais exigências. Não é o primeiro emprego de quinta que largo. É provável que eu não esteja certo em agir dessa maneira. Estar certo, porém, em tais condições, é o que menos me interessa.
Outra resposta chamaria a atenção para a crescente e desigual disputa no campo de trabalho. Temos que nos adaptar ao que diz o mercado, e não guardar ilusões em querer seguir somente aquilo para que nossos sonhos apontam. Eu não discordaria completamente dessa tese. Gosto de escrever, e Vossa Senhoria bem sabe, porque no dia em que me apresentei à empresa lhe mostrei, em particular, umas impressões que tenho, e percebi que meu interesse havia sido correspondido. De qualquer modo, não tenho devaneios ou ilusões. Não espero, embora seja um desejo, viver com dinheiro adquirido a partir de meus escritos. Nem isso justificaria, ainda assim, eu me manter num trabalho que só violenta a minha inspiração, alveja minha imaginação e me torna claustrofóbico.
No dia em que fui contratado, isso até anotei em uma agenda antiga que carrego, ouvi suas palavras alertarem para o fato de que o desemprego é culpa do desempregado, não do empregador. Tais palavras nada me mudaram o pensamento. Tenho convicção de que o desemprego pode ser culpa de qualquer um, menos do desempregado. Entretanto, como já disse, não sou um sonhador (senão quando diante de um papel em branco). Sei que cedo ou tarde terei de me render à escrota lista de requisitos que tantos pedem por aí, se eu quiser manter meu direito a algumas migalhas de pão e um teto para morar.
Isso pode não estar distante, mas faço eu meu tempo, como puder. A partir da noção que desenho na cabeça - e das minhas necessidades instintivas de fome e frio -, vou, como se diz, "levando como dá". Enquanto permanecer intacta a lógica corrupta e sacana da sociedade na qual vivemos nós, o endinheirado e o falido, o farto e o faminto, vou fazendo parte de sua lista de bestialidades, sigo tornando-me mau exemplo, permaneço bancando o insano largando empregos. Eventualmente tenho conseguido me manter uma semana em uns trabalhos informais, o que me permite pagar umas contas aqui enquanto minha desesperançosa mãe me ajuda em outras ali, e, pelo menos, dá pra pagar minhas garrafas de cerveja e cachaça, já que de bebidas mais requintadas não tenho tido condições de comprar a companhia.
Peço perdão, portanto, pelo tom talvez agressivo e descortês que expressei nessas últimas linhas. É que, enquanto escrevo, a noite avança, e com ela vai-se embora qualquer compostura que eu tente manter, como aquela que até o surpreendeu. Bem sei, de qualquer modo, que sou bom demais para o trabalho oferecido, e para qualquer trabalho que hei de ter em minhas mãos nessa efêmera aventura que é o período em que estarei vivo. Por isso, afirmo que jamais me empolgarei com nenhum deles. E isso não quer dizer que o ato de trabalhar, em especial, me desagrade. A razão é que, simplesmente, são todas as coisas que me desagradam.
Portanto, contenha-se: se fui desrespeitoso em minha atitude, não é uma exclusividade para com esta empresa nem, muito menos, algo pessoal para convosco. Tenho certeza de que minha demissão já está assinada, por eu estar me ausentando já em meu segundo dia de serviço, de modo que nem precisarei solicitá-la. Numa tentativa de ser educado, nestas palavras finais, aceite meu convite para prosearmos, qualquer hora dessas, numa mesa de bar, único lugar em que posso receber um grosso xingamento ou um acalorado elogio e reagir da mesma maneira. Escreva-me.
Sem mais, despeço-me com um enorme alívio da ... Empreendimentos.
A carta que vos envio, compreenda, não tem o objetivo de justificar nada, tampouco explicar. Sou sincero: não quero nada com essa carta, senão matar a minha vontade de escrever algo com a certeza de que será lido, o que vai além de um hobby; é uma das coisas que me mantêm vivo. É sempre possível, contudo, que ela não seja lida. Mas bem sei que com o pouco trabalho que cabe à supervisão diariamente, lê-la torna-se até um passatempo.
Não questiono o ócio a que os supervisores desta empresa têm direito, mesmo porque o trabalho que me foi confiado também não era nem um pouco pesado. Até agradeço por ele. Porém, no meu primeiro dia no emprego, sentado atrás daquele birô, - "um birô só meu", como vocês bem prometeram - naquela salinha de fraca iluminação, paredes azuladas, crucifixos tortos na parede e aparência decadente, vez ou outra recebendo telefonema de algum desinformado, estive pensando. Pensando sobre mim, sobre este trabalho. Respondendo perguntas, preenchendo formulários e divagando a maior parte do tempo. Senti-me mal. Muito mal. A estranheza que se apoderou de mim quando me dei conta de onde estava me fez entender que um salário mínimo era insuficiente para me manter na mesma situação. Faço aqui uma ponderação: a crítica não se pestra ao fato de eu receber um salário mínimo. Afinal, na situação em que me vejo, isso é mais do que suficiente.
Eu bem creio que Sua resposta a essa carta, se houvesse alguma, enfatizaria a questão da experiência; conheço as exigências de quaisquer empresas para com a experiência profissional anterior de qualquer candidato a qualquer cargo. Mas não quero ser escravo de tais exigências. Não é o primeiro emprego de quinta que largo. É provável que eu não esteja certo em agir dessa maneira. Estar certo, porém, em tais condições, é o que menos me interessa.
Outra resposta chamaria a atenção para a crescente e desigual disputa no campo de trabalho. Temos que nos adaptar ao que diz o mercado, e não guardar ilusões em querer seguir somente aquilo para que nossos sonhos apontam. Eu não discordaria completamente dessa tese. Gosto de escrever, e Vossa Senhoria bem sabe, porque no dia em que me apresentei à empresa lhe mostrei, em particular, umas impressões que tenho, e percebi que meu interesse havia sido correspondido. De qualquer modo, não tenho devaneios ou ilusões. Não espero, embora seja um desejo, viver com dinheiro adquirido a partir de meus escritos. Nem isso justificaria, ainda assim, eu me manter num trabalho que só violenta a minha inspiração, alveja minha imaginação e me torna claustrofóbico.
No dia em que fui contratado, isso até anotei em uma agenda antiga que carrego, ouvi suas palavras alertarem para o fato de que o desemprego é culpa do desempregado, não do empregador. Tais palavras nada me mudaram o pensamento. Tenho convicção de que o desemprego pode ser culpa de qualquer um, menos do desempregado. Entretanto, como já disse, não sou um sonhador (senão quando diante de um papel em branco). Sei que cedo ou tarde terei de me render à escrota lista de requisitos que tantos pedem por aí, se eu quiser manter meu direito a algumas migalhas de pão e um teto para morar.
Isso pode não estar distante, mas faço eu meu tempo, como puder. A partir da noção que desenho na cabeça - e das minhas necessidades instintivas de fome e frio -, vou, como se diz, "levando como dá". Enquanto permanecer intacta a lógica corrupta e sacana da sociedade na qual vivemos nós, o endinheirado e o falido, o farto e o faminto, vou fazendo parte de sua lista de bestialidades, sigo tornando-me mau exemplo, permaneço bancando o insano largando empregos. Eventualmente tenho conseguido me manter uma semana em uns trabalhos informais, o que me permite pagar umas contas aqui enquanto minha desesperançosa mãe me ajuda em outras ali, e, pelo menos, dá pra pagar minhas garrafas de cerveja e cachaça, já que de bebidas mais requintadas não tenho tido condições de comprar a companhia.
Peço perdão, portanto, pelo tom talvez agressivo e descortês que expressei nessas últimas linhas. É que, enquanto escrevo, a noite avança, e com ela vai-se embora qualquer compostura que eu tente manter, como aquela que até o surpreendeu. Bem sei, de qualquer modo, que sou bom demais para o trabalho oferecido, e para qualquer trabalho que hei de ter em minhas mãos nessa efêmera aventura que é o período em que estarei vivo. Por isso, afirmo que jamais me empolgarei com nenhum deles. E isso não quer dizer que o ato de trabalhar, em especial, me desagrade. A razão é que, simplesmente, são todas as coisas que me desagradam.
Portanto, contenha-se: se fui desrespeitoso em minha atitude, não é uma exclusividade para com esta empresa nem, muito menos, algo pessoal para convosco. Tenho certeza de que minha demissão já está assinada, por eu estar me ausentando já em meu segundo dia de serviço, de modo que nem precisarei solicitá-la. Numa tentativa de ser educado, nestas palavras finais, aceite meu convite para prosearmos, qualquer hora dessas, numa mesa de bar, único lugar em que posso receber um grosso xingamento ou um acalorado elogio e reagir da mesma maneira. Escreva-me.
Sem mais, despeço-me com um enorme alívio da ... Empreendimentos.
19 comentários:
Leon, é uma das poucas e rara vezes que eu leio um texto seu e digo, não foi em vão ! adorei, não sei se era pra ser sério ou engraçado, mas eu consegui rir em algumas partes ! Espero que você continue a escrever e eu continue a vir aqui sempre. Qualquer dia desses eu te arranjo dinheiro (quando eu arranjar pra mim,claro) pra você ter a companhia de outra bebida, visse?? Tomara que meu comentário te agrade, mas eu espero grandes coisas de uma pessoa imprevisivel como você 8D
Feliz ano novo ! que 2008 seja muito edificante pra você :D
Veja só que coincidência!
Eu larguei meu emprego também. Na verdade era uma "sociedade". Muitos chamam de sociedade cara-cú.
E eu não estava muito feliz em só entrar com a face por 5 anos.
Acredito que já trabalhei em mais de 30 locais, e em muitos deles só permaneci por algumas horas.
Estou ficando velho... Consegui suportar esse ultimo por 5 anos.
Humm... a viagem era desejada sim, tanto que, mal saí da rodoviária, já estava em lágrimas... mas só depois dessa visita na net que pude aproveitar melhor ainda. Estava em Floripa fazia poucos dias quando escrevi aquele post.
Curioso o post novo... assim que voltei, virei estagiária de primeira viagem :P
Um lindo 2008!
Beijão!
Ola To passando pra dizer que seu Blog Ta massa!!Agora passa la no meu e da sua nota blz?!Um abracao e me add aos favoritos
www.marcelomauricio.com
Acessa e comenta!aguardo vc
Marcelo Mauricio
Nossa, acho que vou pedir tua carta emprestada quando quiser me demitir dos meus futuros empregos. Está ótima :D
Só fiquei na dúvida se ela é fictícia ou se realmente você se demitiu.
Beijão!
rs.. eu me demiti sim, em 14 de novembro. Somente ocultei, na carta, o nome da empresa.
Não sabia de sua demissão, nem sabia que estava trabalhando. Bem, tá massa. Quero publicar dois textos seus nas revistas que estou fazendo. Se autorizar, seleciono eles no blogue, que tem excelentes opções ou esceva um exclusivo, caso prefira. Estou esprando sua resposta.
Feliciades, camarada.
Bem, bem... É uma grata surpresa seu blog. Podemos trocar links? Dá uma passada no meu blog. Se gostar ficaria feliz em ter ele linkado numa página de qualidade como a sua.Até mais!
O endereço é este: www.oidiota.net
Até mais!
no momento, estou com uma fobia a palavra demissão.... ui que calafrio!
Não queria ser flamer... mas
Oi, vamos trocar os links!
Hahahahahahahh!
Meu filho, o link é seu, faça com ele o que bem entender!
R*** no link dos outros é refresco!
Hahahahah!
[Desculpa, não resisti!]
nossa! os posts atuais teu e do chantinon, são o começo e um fim de um ciclo!!!
no dele é um anúncio pedindo emprego... e o teu aqui é a carta de demissão... a vida das pessoas escritas por blogueiros, hum, tese interessante, hahahahaha
bjus!
Ei, aquele texto pedindo emprego não é meu!
Mas bem que preciso de um :)
Tá, muda aquele negócio de vendedor de soja para vendedor de tecnologia. Pronto, é meu curriculun!
vi tomar meu whisky tbm x)
lendo as lendas de quando você fazia ensino médio por aqui .
te linkei aqui leon , linka aê tbm x)
se num souber quem é , é kokão . seu puto (L)
Dizem que a má sorte alheia nos causa felicidade, de fato não conheço a veracidade desta frase clichê, sei apenas que soltei boas gargalhadas deste seu texto e não mais me assusta a forma de como irei pedir demissão no meu primeiro emgrego! Hahhahahaha
Muito bom, garoto!
Nossa, adorei!
E concordo com o que a gaby disse... realmente é possível rir em algumas partes.
Muito bom o texto cara!
Obrigado pelo comentário!
=*
Leon, eu fico tão feliz toda vez q vejo q vc comenta no meu blog...
:D
ADoro passar por aqui! Tambem adoro escrever, mesmo que nao seja textos tao literarios como os seus.
To pensando em fazer vestibular pra letras, q q vc acha?
beijos
tô na espera de um novo post :D
hehehehehehhe. Genial!
Pelo menos por aqui eu sei o que está acontecendo... e me divirto.
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