Uma de minhas alunas gosta de gravar o áudio de todas as aulas, talvez para dar alguma razão de existir a seu quase invisível mp3. Ela me enviou um pedaço da minha aula, da qual eu transcrevo (levemente adaptado) um trecho onde eu fujo um pouco do assunto (coordenadas geográficas) para tecer alguns comentários pertinentes - ou nem tanto:
Bem, pessoal, eu estava corrigindo as redações de vocês numa dessas madrugadas, ouvindo Joni Mitchell, quando vi este trabalho (exponho uma pesquisa colorida, supercriativa, pintada a spray), que me fez maquinar sobre várias coisas. Eu fiquei pensando que outros professores não aceitariam este trabalho, isso é um fato. Simplesmente porque ele foge a vários padrões elementares na concepção de capa, de desenvolvimento, tudo desenvolvido com um toque muito mais artístico do que sob qualquer outro modo.
Mais do que isso, eu fiquei pensando em como a gente é educado para essa padronização, numa espécie de lavagem, numa espécie de adestramento. Passamos dezoito anos estudando para chegar no vestibular e escrever um artigo bem-dividido em introdução, desenvolvimento e conclusão, num simplismo extremo, que chega a ser aterrorizante, surpreendente. Então a nossa mente emperra, a nossa criatividade fica atrofiada, aleijada. Por que não podemos fugir dessas prisões, essas coisas restritivas, esses paradigmas? Por que eu tenho que começar um texto pela letra maiúscula? Porque tenho que fazer um artigo apresentando a idéia, para depois mostrar meus argumentos e, só no fim, expor minha conclusão? "Você tem que facilitar o entendimento do leitor" (voz fina). Mas por que eu tenho que facilitar o entendimento do leitor? Por que não posso complicar esse entendimento, por que não posso desafiar o leitor a entender o que quero dizer?
Ninguém tem resposta para perguntas assim. Percebia isso no ensino médio e, mais ainda, na faculdade. A vida universitária é um saco, que todos carregam, mas que cheira muito mal. E infelizmente temos que passar por isso. A alternativa é tentar mudar tudo isso. Cada um à sua maneira. Há um livro da Clarice Lispector em que ela começa com uma vírgula e termina com dois pontos, sem nenhuma pretensão de ter sentido. Foi uma critica severa a essas técnicas tolas. A Clarice se foi, faleceu há vários anos, e esses padrões permanecem aí; acho que cabe a nós lutar contra eles também, não é?
O que digo, então, não é que todos devem daqui por diante escrever textos sem sentido, sem organização e sem coerência... se assim fizerem, se darão mal, seja na minha redação, no vestibular, ou em qualquer publicação futura. Pelo contrário: sugiro que vocês conheçam bem esses padrões, aprendam a escrever, a produzir, porque só quando entendemos algo podemos conhecer a sua raiz, e só pela raiz podemos acabar com a opressão que ele cria. As técnicas de escrita são só uma mostra de um mundo totalmente teleguiado que é esse em que vivemos.
Portanto, eu somente digo aquilo que penso sobre esses padrões, pois acho que eles vão na contramão da inteligência humana, e o que afirmo é uma tentativa de romper com essas estruturas... Pois abalar as estruturas, quebrar esses paradigmas, superar limites, mudar a realidade, são a essas coisas que me dedico, e são algumas das poucas coisas pelas quais eu penso que vale a pena viver.
*Slogan dos jovens franceses que organizaram históricos protestos em maio de 1968
13 comentários:
Comentávamos na escola sobre a nossa insistência para que as crianças escrevam com a letra cursiva. Não damos ênfase para a letra de forma e é exatamente o tipo de letra mais usado.
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Tenho ganas pera corrigir ou modificar a escrita da língua portuguesa. São regras arcaicas que existem e só atrapalham o grau de compreensão de um texto pelos alunos.
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Não te preocupes quando não conseguires muito tempo para comentar lá no blog. Eu entendo esta vida corrida que levamos. As vezes eu só passo correndo pelos blos que conheço., guardo as palavras que disseram mas, não consigo comentar.
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Beijos!
Leon, cada vez que leio algo escrito por você me apaixono ainda mais.
Há uns dias atrás tinha visto no seu perfil que és professor. E desde então, sinceramente, comecei a te olhar e encarar os seus textos de um jeito diferente. O professor é um mestre que tem o dom de fazer com a sabedoria se perpetue; infelizmente muito pouco reconhecido.
O fato é que são pouquissímos que utilizam desse dom pro bem. Quero dizer que são poucos os professores que ensinam pra prazer, que sabem o que é ensinar. Enfim, depois deste pequeno comentário tecido por você em uma de suas aulas, tenha a certeza que tens não só uma fã, mas exageradamente uma seguidora. :)
É de uma cabeça dessas que precisamos. Abaixo a opressão, e a essas regras que só nos robotizam e nada mais.
é de um cara desses que os nossos conceitos precisam conheceR!
Como é bom voltar!!!!!!!
Beijão!
Eu só queria saber quantos alunos entenderam! E fico imaginando os que entenderam, os que se encheram de esperança por seu discurso apaixonado.
Você consegue definir isso enquanto fala? Saber quais daqueles jovens sentados, te olhando, entenderam e se motivaram?
O dia que uma sala inteira de aula ouvir discursos como o seu, entenderam e se apaixonarem...teremos mudanças e para melhor!
Ah, a aula que eu pedi a Zeus!
Muito bom, profº Brown. Muito bom mesmo.
Posso divulgar esse teu post (com referência logicamente)???
Valeu!
Se eu conheço bem o ser humano, nas suas próximas correções de provas, 90% dos textos começarão com vírgula e terminarão com ponto e vírgula (eles não lembrarão que a Clarice usou dois pontos).
Somos guerrilheiros, eu na verdade só um soldado, mas continue na luta...
Uma recente descoberta desse mundo de professores blogueiros...
Heheheheh
Cuidado... quem começa a ler um post dessa mina, termina lendo todos!
http://sunflowerrecords.blogspot.com/2008/04/ensinando-o-inapropriado.html
Stone Temple Pilots, No.4
Procura esse disco...
Não sei pq, ele combina com whisky e leitura do vosso blog!
Primoroso!!! Nem havia terminado de ler o texto mas já me apaixonei. A leitura dos seus textos é sempre prazerosa, mas esse foi um dos que eu mais gostei.
Parabéns, Leon!
Uma semente foi plantada nos meus pensamentos!
Beijos :**
Leon! Nossa, tão bom esse feriado, acho que só agora posso ler com calma os blogs que costumava ler nas férias...
e é tão bom chegar aqui e ler algo assim, teu, sabe? Porque pelo menos eu me sinto mais "normal" em pensar que essa coisa de padrão é super chata. Estou fazendo curso pré vestibular, juntamente com o 3º ano, e nossa, tu não tens noção da loucura que é, principalmente na parte de redação. A minha ausência lá no blog é proporcional as horas que fico sentada, pensando em uma dissertação bacana para, depois, receber uma nota baixa. Nunca tive problemas em fazer redações, e agora vejo que todos estes anos de escola não me ajudaram em "nada". Digo, nos textos de vestibular, é um ERRO a banca avaliar a pontuação, a organização do texto, etc e tal, sem considerar a criatividade do canditado. Sabe porque? No futuro, não é uma virgula ou um ponto de interrogação no lugar errado que fará diferença, mas sim o senso criativo do empresário, designer, professor, jornalista...
Talvez por isso eu pense que as redações de vestibulares deveriam de ser crônicas, permitindo que o cidadão explorasse mais sua criatividade, imaginasse, criasse, em vez de se preocupar demais com a parte estética e certinha que dissertação exige.
Eu fico de cara quando pego minha folha de texto e vejo que me tiraram 4 pontos por ele não estar alinhado (digo, coladindo no canto da folha). E o que eu escrevi, não vale nada?
E olha, te digo que os melhores textos são aqueles que tu leva mais um pouco de tempo para entendê-los, pois tu sente vontade de mergulhar nas idéias do autor. Além de ser um desafio para a nossa mente, tiramos inúmeros pontos de vista, suposições, dentre outras coisas a mais de um único conto.
Nunca me esqueci quando um professor me disse que leria novamente dois contos do Machado devido a comparação que tracei entre os personagens.
Até porque, quando lemos um texto, tiramos algo muito próprio dele. O que eu posso ter entendido pode ser bem diferente do que o fulaninho entendeu.
Beijo, beijo! Agora vou ler as outras postagens, que saudade daqui ;D
Uma salva de palmas! Nunca gostei de escrever dissertações. Tanta regra. Isso limita a nossa imaginação, poda toda faísca de criatividade. Eu sou do tipo que não consigo restringir meu pensamento de 25 a 30 linhas. E não consigo entender a causa de no final ter que deixar claro minha opinião. Foi uma luta pra mim conseguir largar a mania de terminar minha redação com uma pergunta filosófica. Sempre quis levar o leitor a pensar, e esse negócio de dar a ele tudo mastigado, pronto, não me deixa nada feliz. Não é que eu queira escrever um texto sem coerência, sem início, nem meio e fim, só quero liberdade de criação. Tanto no cotidiano, quanto nos vestibulares.
o carl sagan disse que todos nós somos uma máquina de procurar padrões... e com isso, seguí-los...
mas a diferença sempre se sobressairá!
slas mrcs irns dined falling vitae horowitz important sweeping counting andrew
semelokertes marchimundui
eu acho estranhu demais como tu pega uma lembrança ou fato q acontece q pode passar desapercebido um trabalho enfenitado de uma aluna e virar isso um texto revolucioanariamente brilhane :p
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