quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Enfrentando a onda onde muita gente naufragou

Vi há pouco no blog da minha parceira Iza que estava marcado pra hoje uma "blogagem coletiva em defesa do voto consciente". Eu acho meio estranho essa coisa do voto consciente, porque parece ser uma proposta no escuro. O que é votar consciente? Não há resposta pra isso. É como aquela velho movimento: Basta, Eu quero paz!, tão disseminado pela classe média branca na orla carioca. Pra quem é esse "basta"? Ninguém sabe. Mas alguns se contentam com o discurso "politizado".

Não farei desta postagem parte desse movimento coletivo de blogs, mas aproveito a deixa para postar uma entrevista que três estudantes do 3º ano na escola onde dou aula (Atheneu Norte-Riograndense) fizeram a este que vos escreve. A entrevista, naturalmente, é sobre eleições.

Estou pondo o questionário pelo fato de estarmos no clima da política... Mas em dias devo estar postando um conto novo e jogando essa postagem lá atrás nos arquivos... Quanto à entrevista, ela foi um pouco mais extensa do que está aqui, mas eu cortei algumas perguntas menos relevantes. Ei-la:

Pergunta - Primeira pergunta: o que você acha mais importante nas propostas de um candidato? A defesa da educação?

Resposta - De modo algum! Meu primeiro critério é analisar o vínculo do cara com os movimentos sociais... Desde a primeira vez que votei. Aliás, o discurso da educação como mecanismo de mudança, como "único meio para salvar o Brasil" é uma farsa, devo dizer, muito bem cooptada pelo sistema. A educação não muda nada. Porque o problema da educação é, antes de tudo, parte de um problema político e econômico. Então, sou eternamente desconfiado quando vejo discursos ignorando os fatores político-econômicos e defendendo a prioridade do olhar gestor sobre a educação. Geralmente, é pura bravata, demagogia. Em outros casos, prefiro acreditar que é má-fé mesmo.

P - E no caso de Cristóvão Buarque?

R - O que você acha? O cara era Ministro da Educação. Depois se candidatou à Presidência com um discurso voltado novamente para a Educação... O que ele faria como presidente que não fez como ministro? Era muito mais fácil para ele fazer um bom trabalho na educação tendo o Lula, seu velho companheiro de partido, como presidente do que sozinho. Mas não; preferiu o caminho mais fácil e cômodo: a oposição. Hoje tá aí, voltou a votar com o PT em tudo que é matéria no Congresso, mas nem de longe tem a oportunidade que tinha antes.

P - Você não acha que a educação é importante?

R - Acho, mas acho que há questões mais importantes que a educação, porque a educação ruim não é a causa do problema, é a conseqüência.

P - Você não acha que os governantes precisam de pessoas analfabetas e sem qualificação para que eles continuem no poder manipulando-as?

R - Não existe isso. Desde quando boa formação acadêmica denota esclarecimento político? As teses mais conservadoras de nosso país existem justamente no seio das pessoas esclarecidas, na classe média alta, nos ricos. É risível esse tipo de coisa: "o governo quer todo mundo analfabeto para continuar controlando o povo". Ué, o povo é quem é menos controlável... Vê aí, os maiores movimentos que esse país já viu foram organizados pelas ralés... Hoje em dia, a classe média não organiza um movimento de futuro... Não consegue reunir nem 30 pessoas para gritar "Fora Lula". Onde estão esses críticos? A educação forma milhares de médicos, advogados, professores e engenheiros anualmente, mas esse pessoal é todo cooptado, é todo parte do sistema, o senso crítico deles também é zero, tão ou mais nulo quanto o do povo que chamam de analfabeto.

P - O que você acha de o presidente do país ter apenas ensino médio enquanto várias profissões exigem curso superior?

R - Acho uma bobagem se questionar isso. O cargo de presidente é um cargo público, o mais público do país, portanto qualquer um pode ter livre acesso. Além do mais, o que é o curso superior? Uma farsa, igual à educação... Vocês podem achar que é irresponsabilidade, mas praticamente 90% do conteúdo que dou nas salas de aula eu já sabia antes de entrar no curso de Geografia... A faculdade torna aquele nerd um analista de sistemas... A faculdade torna um cara como eu, com vivência de movimento estudantil, discussão política, um professor de Geografia... Ou seja, a faculdade só dá seu título e nada mais. Eu sempre digo para todos, inclusive meus alunos: não se preocupem com a faculdade enquanto não ingressarem nela, e depois que ingressarem, preocupem-se menos ainda!

P - Então você acha normal ter professores dando aula sem curso superior?

R - Não foi o que eu falei... A pergunta havia sido sobre a cadeira de presidente... Quanto às outras questões, a universidade, como disse, dá a titulação... A solução, portanto, não é acabar com a universidade, mas melhorá-la. Hoje, a universidade permanece com o mesmo propósito de antes: excluir os miseráveis.

P - Vamos falar um pouco sobre essa vivência de movimentos que você disse...

R - Eu fui, durante uns anos, do Grêmio e do DCE do CEFET... Organizamos grandes movimentos... Hoje, sou presidente do CA de Geografia... Não atuo mais tanto quanto antes, mas não me abstenho de debates importantes, que ocorrem lá ou em âmbito geral.

P - Por que você não atua mais como antes? Falta de tempo?

R - Em tese... Falta de tempo não é desculpa. Na verdade, mesmo tendo poucos anos de estrada, eu lembro que, na época em que comecei, as discussões no movimento estudantil ainda tinham origem partidária, aprendemos a discutir não somente propostas pra melhorar a escola, mas programas para o país... Mas depois, nesses últimos anos, surgiu uma mania, uma modinha de se fazer movimento apartidário, ou seja, movimento sem (na verdade, contra) os partidos, né? Quer dizer, o cara atuar politicamente sem partido sempre houve, mas movimentos pretensamente organizados fora do âmbito dos partidos ainda era algo relativamente novo aqui no estado... E aí quando veio isso, essa tendência, que coloca todos os partidos no mesmo balaio de gatos, não só eu me desestimulei a participar como todo o movimento estudantil morreu nesse estado.

P - Por que você não combateu?

R - Porque estava num momento de enfraquecimento dentro de meu partido. Então, com a casa desarrumada, não dava para tentar ajeitar as coisas do lado de fora... Mesmo assim, diante do que fizemos no movimento universitário, as organizações apartidárias não se sustentaram, hoje elas praticamente inexistem... Mas o estrago que causaram continua aí: uma descrença infinita...

P - Qual era o seu partido?

R - PCdoB.

P - Ainda é?

R - Não, eu saí do Partido Comunista depois de cinco anos lá dentro... A direção estadual do partido capitulou, virou institucional demais, ficaram todos engravatados... Então eles colocaram aqueles que tinham mais elo com os movimentos na geladeira... Fiquei, junto com uns camaradas, incapaz de organizar qualquer coisa em nome de meu próprio partido... A solução foi sair.

SPL - E pensa em entrar em algum outro partido?

R - Eu saí do PCdoB e passei seis meses sem partido. Até que, naquela onda de crise do PT, pensei algo como "putz, seria massa entrar agora no PT, bem no meio da crise, pra tentar mudar, melhorar tudo o que tá aí"... E foi o que fiz. Entrei no PT junto a alguns camaradas, menos de dez. Criamos uma corrente e já somos a terceira mais influente do partido em nossa capital.

P - Vai votar em Fátima (PT) para prefeita?

L - Obviamente.

P - O que acha das pessoas que dizem que não ligam pra política?

R -
Tem uma canção de um gaúcho que diz: "eu sigo enfrentando a onda onde muita gente naufragou". Acho que é por aí; não acredito que a via eleitoral proporcione alterações muito grandes, estruturais. Mas elas permitem haver um certo avanço. Enquanto não existem outros caminhos, eu sigo nessa onda, virando sempre à esquerda.

P - E o que acha daquelas que não têm partido?

R - É uma opção... Não vejo problema em a pessoa não ter partido, ou mesmo em discutir política sem ter partido... Mas a partir do momento em que a pessoa busca fazer política sem partido, acho isso uma irresponsabilidade que não é pequena... Política se faz coletivamente. Todas as minhas concepções foram levadas a debates internos, e ou venci ou fui vencido. Não acredito em política feita individualmente. Não formulo minhas idéias num quarto fechado. Formulo no calor da discussão. Quem faz política solitário está cometendo, pra mim, um grave equívoco. Eu não acredito nisso. Ainda que eu esteja ocasionalmente errado. Quando acerto, o partido acerta. Quando erro, o partido erra e aprendemos com isso. Quando se está sozinho, não se tem esse parâmetro e esse senso de coletividade. Suas "conquistas" só servem a si mesmo, a seu ego. Prefiro errar com o partido do que acertar sozinho.

P - Onde estão os caras que fazia movimento contra seu partido?

R - Um deles, líder do PSB, é candidato a vereador, temos boa relação. Outros continuam participando, em maior ou menor intensidade, no PT, PSTU, PV ou PCdoB... Os que faziam movimento sem partido, porém, hoje estão mais preocupados com a prova que terão no final do período em suas faculdades ou com o estágio não-remunerado em algum escritório de advocacia que os fazem pensar que estão fazendo algo importante.

P - Você acha que eles eram radicais?

R - Acho que eles eram uns bostas.

P - Mas eles respeitavam a decisão de vocês de ter partido?

R - Não sei, mas isso não é importante... Não quero que o cara respeite minha opinião. Respeito é um negócio inerente, presente em tudo, está no ar, como as borboletas. Não preciso vir dizer pra você que respeito a sua opinião, afinal nosso senso de coletivo, de animal social, prenuncia isso. Agora, se eu tenho uma opinião, coloco em debate, lanço minhas idéias dentro de uma entidade, de um movimento, e o cara vem dizer que respeita minha opinião mas ele tem a dele, só pode estar tirando onda com a minha cara... Eu dizia: não quero que você respeite minha opinião, quero que você venha descontruí-la, venha dizer onde estou errado, exatamente como estou fazendo com você, que está errado nisso e naquilo. Mas, hoje em dia, criticar uma opinião, uma idéia, virou crime. Todo mundo se esconde, fica blindado, na velha frase: "respeite minha opinião que eu respeito a sua". Pô, por que um cara desses ainda sai de casa? Por que um cara desses ainda tem opinião?

P - Em quem vão votar os professores daqui do Atheneu?

R - Os mais inteligentes votarão em Fátima.


8 comentários:

Laluia disse...

quando eu vejo esse tipo de coisa eu me lembro... "os jovens sonharão"
parece que dentro de nós existe o mesmo desejo de realizar, de marcar época, mesmo que seja de lados opostos.
concordo com vc a respeito da educação. na escola e nas universidades aprendemos as matérias, só não aprendemos a ter opinião, a empreender, a ser diferente...
bem, disso tudo vc já sabe!!
gostei do post!
só não gostei de não ter me aceitado no orkut rsrs sem máscara!

Anônimo disse...

Bela entrevista! Ô aula! Engraçado como dar pra sacar tuas respostas para cada pergunta antes de lê-las ao imaginar a tua cara para cada uma!!! hehehe

Anônimo disse...

Desceu a lenha lá no meu blog quanto a minha postagem comportadinha sobre as eleições. Mas tu sabes que lá o espaço é aberto para o debate.

Sobre a entrevista achei previsível tuas respostas. Deveria ter colado aqui teu comentário feito lá.

Quanto ao governo daqui estão a nos sufocar e a mídia a tapar o sol com a peneira.

Na universidade tranquei a matrícula neste semestre. Não aguentava mais trabalhar e depois ir para a faculdade escutar as palestras intermináveis dos professores. Seria muito mais proveitoso se ao invés de estar lá eu estivesse lendo um livro referente ao assunto que os professores falam...

Os professores de filosofia, alguns , falam por quatro horas, sem parar... e pensam que estão agradando a todos. A maioria de nós só entende o conteúdo depois de ler um livro referente.

Beijão!

Anônimo disse...

ah discordo o que o entrevistado disse sobre a educação... na minha opinião é a base, o primeiro passo que deveria ser dado, e depois o restante.
Mas essa coisa do voto consciente, sei lá acho que soa redundante... Não sabemos o que tem dentro da cabeça desses políticos, não sabemos se por trás tem um lobo querendo devorar tudo ou um cordeiro que pretende salvar o país. É muito dificil essa questão...

Anônimo disse...

Oi, Leon...

=)


Acho que votar consciente é votar num candidato que você ACHA que fará algo de bom pela população, já que isso não é garantido, pelo fato dos políticos terem ganhado o estereótipo de prometedores. Nada é certo, porém, analisar as propostas e tirar nossas PRÓPRIAS conclusões, é votar consciente. Consciente do que um candidato pode ou não fazer por nós.

A defesa da educação não é o único quisito que um candidato deve defender, mas acredito que a educação é o princípio para sanar muitos outros problemas sociais. A violência por exemplo, pode ter como um de seus fatores, a falta de estudo que leva a alienação e a uma vida desviada. Mas é claro que issa é uma questão muito relativa. Grandes chefões do tr[áfico de drogas, geram a violência e são grandes mestres, pessoas verdadeiramente estudadas. Mas mesmo assim, continuo acreditando que a defesa da educação é necessária, mas não única. Um candidato deve abranger todos os setores. Como exemplo, a violência também pode ser controlada através do esporte.

É por isso que devemos analisar bastante, para então, fazer nosso "voto consciente".

Beijão!

Jariny disse...

É,Lê, eu queria que a cidade tivesse vermelha, mas...

Fiquei imaginando a cara dos seus alunos quando você disse que "Acho que eles eram uns bostas"...

Adorei!

Boa sorte ai nos próximo quatro anos, acho que não volto mais pra Natal...

rsrsrsrs


Até parece!


Beijão!

Deftones disse...

Arlequina
Cada um pode deixar sua marca, de qualquer modo... Seguimos nessa tentativa, um dia chegamos lá!

Fábio Rocha
Foi bem desse jeito que você imaginou, hehe

Iza
Você deu a liberdade de crítica e eu critiquei, rs... mas eu valorizo muito isso da discordância, do debate... já dizia N. Rodrigues que toda unanimidade é burra... não nos esqueçamos disso! Beijos!

Daniela
Creia, eu compreendo esses dilemas... É cruel, não?

Camilla
Você tem razão, se pudesse encaixaria tuas palavras na postagem... Beijo enorme!

Jariny
hehehehehehhehe.. foi engraçado mesmo... quanto às eleições, oh céus... volte logo, precisamos de você! Beijos!

Saudações a todos!

Literatura Vil

Chantinon disse...

Existe um problema mais sério que educação hoje em dia... se chama ética. Parece que vivemos em um mundo que tudo tem um preço em moedas.
Por mais que se critique, acho que o povo ainda acredita no "rouba mas faz".
E com o próximo passo que é a Dilma na presidência, o Brasil terá uma década perdida, onde só o futuro irá mostrar a quantidade de erros.

O PT está de parabéns pela estratégia. Criou um circulo fechado de informação e poder. Se acham que é mentira, mandem a ANATEL punir alguma operadora de telefonia. Ou qualquer orgão fiscalizador punir grandes empresas. Em prefeituras do PT a verba sem vai para financiar projetos de lideres comunitários, que são partidarios é claro. As alianças de hoje não são por ideologias, mas sim por poder.
Se isso não é uma clonagem do regime Bush eu não sei mais de nada.
O grande problema, é que me parece que só restaram aqueles que são profissionais da politica e os radicais... Não temos renovação. Quem é honesto não quer entrar nesse jogo, e os que entram desistem em pouco tempo.

Educação é tudo.
A 30 anos atrás a Coreia era nada. Hoje tem um dos povos mais evoluidos do mundo. O japão saiu das cinzas para o topo. A China forma 400.000 engenheiros por ano. Vamos continuar por mais 30 anos aqui no bananal, e lá na frente ainda terão brasileiros achando que o Brasil é o país do futuro.