Tive um compromisso hoje com uma garota, uma dançarina. Fomos assistir a um espetáculo de dança guatemalteca. O que eu fui ver nesse lugar? Não sabia, mas até apreciei a dança. No começo, parecia sem-graça, mas de tanto ela me falar no ouvido, comecei a gostar.
- A dança guatemalteca é assim, parece tosca, parece chata, mas é como dançar forró... quem gosta não sabe explicar a beleza que existe no forró, né?
Eu ia acompanhando os movimentos no palco e os sussurros dela, quase adormeci durante a cena, só não cheguei a tanto porque o som era incômodo, e eu não consigo ficar totalmente à vontade com sons que me são estranhos, sobretudo quando se trata de músicas folclóricas, populares, de locais com os quais não tenho o menor elo.
Fiquei bastante pensativo, porque eu é que a tinha convidado para sair. Mas ela não queria sair por sair, e eu não tinha nenhuma idéia. Comigo é sempre assim, quando convido para sair trata-se, tão-somente, de sair mesmo, dar uma volta, sentar em algum lugar, uma praça, uma parada de ônibus, que seja. Mas ela não queria. Só sairia se fosse para algum evento, e depois voltar, necessariamente. Foi quando surgiu a idéia de ir para o espetáculo de dança. Terminado o espetáculo, conversamos um pouco, ela disse que estava tarde, teria faculdade no dia seguinte, levei-a pra casa, nos beijamos e fui embora. Ficamos juntos durante coisa de três horas, mas não tivemos nem vinte minutos de diálogo.
Na porta de sua casa, ela me disse que adorou. Eu lhe disse que também havia adorado. Mas depois que nos despedimos, senti que o dia não poderia acabar daquele jeito. Fui para um bar na Ribeira, porque é lá na Ribeira que estão alguns de meus bares favoritos. O problema é que ali os bares médios estão se tornando escassos pela proliferação de bares mais sofisticados, sobretudo nesses tempos em que a Ribeira tem se tornado mais um point turístico do que local de abrigo da boemia natalense.
Tive que me contentar com um bar novo por ali, até bem movimentado, situado na Rua Câmara Cascudo. Pedi uma cerveja e fiquei olhando ao redor. Várias pessoas falando alto em outras mesas, pessoas que se achavam muito interessantes, mesas que ocupavam toda a ruela. Muitas mulheres, já de idade bem avançadas, muitas garotas, mais novas do que eu. Todas brancas, reluzentes, limpas demais. Atraíam vários olhares, menos o meu. Eu olhava apenas para as garçonetes, como é hábito. Mas elas não davam muita atenção. Quando uma delas veio me atender, perguntei o que ela sugeriria e ela apenas me deu o cardápio, numa tentativa de ser simpática para o cliente. Não demorou, e vê-las correndo pra lá e pra cá com blocos de notas nas mãos me encheu o saco. Decidi sair de lá sem terminar de beber a cerveja e pedi a conta.
- Deseja mais alguma coisa?
- Não, obrigado...
- OK, muito obrigado e volte sempre - e virou as costas com um sorriso forçado.
Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.
Fui numa conveniência, comprei uma pequena garrafa de cachaça e fui para uma praça, um lugar sossegado, onde eu queria estar. Bebia e olhava para cima, para as estrelas por cima das árvores. Pensava em quanto estava gostosa a bebida e o momento. E matutava sobre o preço dessas tão simples benesses. Sobre a solidão e a distância que tenho das outras pessoas. Em contraponto, refletia sobre meu desejo de mudá-las, ou minha sensação de posse sobre ex-namoradas. Na verdade, com essas idéias eu apenas me distanciava delas cada vez mais.
Bebia mais algumas doses e me lembrava de outras coisas, coisas tão gerais, como economia, como política. No mesmo dia eu houvera estado numa reunião de partido, na qual fizemos mais uma avaliação negativa das eleições, conforme fazemos a cada dois anos. As eleições são um hiato na nossa história, nós, de um partido de pouca expressão local, recheado de pessoas que, como eu, se acham intelectuais, se acham militantes e se acham formadores de opiniões. A cada dois anos, mais alguns de nós "acordam" para a realidade e saem dessas tão desgastadas trincheiras de luta.
Novas doses e decidi que não daria a mínima para mais nada. Eu não era parte disso. "mal consigo diferenciar um Corsa de um Palio", disse-me certa vez um amigo, em forma de versos. Ele não era o único.
Senti vontade de chorar. Mas eu não choro há anos, e não seria ali que eu choraria, apesar da noite, apesar das estrelas, apesar da bebida.
Recebi uma mensagem no celular, um bip a quebrar o silêncio da nascente madrugada. Uma mensagem alegre, animada, alto-astral... era da garota com quem eu havia saído há pouco, a mandar beijos e abraços, a propor novos joguinhos de relacionamento. Eu sabia que essa euforia de sua parte duraria pouco.
Não me entristeciam nem me enraiveciam tais coisas. Eu não poderia me incomodar desse modo. A raiva não se ocupava de mim porque sei que nada ganho com isso. Não ficava triste porque triste já sou por natureza, a todo tempo. Apenas estou cansado disso tudo. Estou cansado de danças e de sorrisos à toa. Cansado das pessoas que se acham interessantes. E também estou cansado de jogos que não posso ganhar.
- A dança guatemalteca é assim, parece tosca, parece chata, mas é como dançar forró... quem gosta não sabe explicar a beleza que existe no forró, né?
Eu ia acompanhando os movimentos no palco e os sussurros dela, quase adormeci durante a cena, só não cheguei a tanto porque o som era incômodo, e eu não consigo ficar totalmente à vontade com sons que me são estranhos, sobretudo quando se trata de músicas folclóricas, populares, de locais com os quais não tenho o menor elo.
Fiquei bastante pensativo, porque eu é que a tinha convidado para sair. Mas ela não queria sair por sair, e eu não tinha nenhuma idéia. Comigo é sempre assim, quando convido para sair trata-se, tão-somente, de sair mesmo, dar uma volta, sentar em algum lugar, uma praça, uma parada de ônibus, que seja. Mas ela não queria. Só sairia se fosse para algum evento, e depois voltar, necessariamente. Foi quando surgiu a idéia de ir para o espetáculo de dança. Terminado o espetáculo, conversamos um pouco, ela disse que estava tarde, teria faculdade no dia seguinte, levei-a pra casa, nos beijamos e fui embora. Ficamos juntos durante coisa de três horas, mas não tivemos nem vinte minutos de diálogo.
Na porta de sua casa, ela me disse que adorou. Eu lhe disse que também havia adorado. Mas depois que nos despedimos, senti que o dia não poderia acabar daquele jeito. Fui para um bar na Ribeira, porque é lá na Ribeira que estão alguns de meus bares favoritos. O problema é que ali os bares médios estão se tornando escassos pela proliferação de bares mais sofisticados, sobretudo nesses tempos em que a Ribeira tem se tornado mais um point turístico do que local de abrigo da boemia natalense.
Tive que me contentar com um bar novo por ali, até bem movimentado, situado na Rua Câmara Cascudo. Pedi uma cerveja e fiquei olhando ao redor. Várias pessoas falando alto em outras mesas, pessoas que se achavam muito interessantes, mesas que ocupavam toda a ruela. Muitas mulheres, já de idade bem avançadas, muitas garotas, mais novas do que eu. Todas brancas, reluzentes, limpas demais. Atraíam vários olhares, menos o meu. Eu olhava apenas para as garçonetes, como é hábito. Mas elas não davam muita atenção. Quando uma delas veio me atender, perguntei o que ela sugeriria e ela apenas me deu o cardápio, numa tentativa de ser simpática para o cliente. Não demorou, e vê-las correndo pra lá e pra cá com blocos de notas nas mãos me encheu o saco. Decidi sair de lá sem terminar de beber a cerveja e pedi a conta.
- Deseja mais alguma coisa?
- Não, obrigado...
- OK, muito obrigado e volte sempre - e virou as costas com um sorriso forçado.
Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.
Fui numa conveniência, comprei uma pequena garrafa de cachaça e fui para uma praça, um lugar sossegado, onde eu queria estar. Bebia e olhava para cima, para as estrelas por cima das árvores. Pensava em quanto estava gostosa a bebida e o momento. E matutava sobre o preço dessas tão simples benesses. Sobre a solidão e a distância que tenho das outras pessoas. Em contraponto, refletia sobre meu desejo de mudá-las, ou minha sensação de posse sobre ex-namoradas. Na verdade, com essas idéias eu apenas me distanciava delas cada vez mais.
Bebia mais algumas doses e me lembrava de outras coisas, coisas tão gerais, como economia, como política. No mesmo dia eu houvera estado numa reunião de partido, na qual fizemos mais uma avaliação negativa das eleições, conforme fazemos a cada dois anos. As eleições são um hiato na nossa história, nós, de um partido de pouca expressão local, recheado de pessoas que, como eu, se acham intelectuais, se acham militantes e se acham formadores de opiniões. A cada dois anos, mais alguns de nós "acordam" para a realidade e saem dessas tão desgastadas trincheiras de luta.
Novas doses e decidi que não daria a mínima para mais nada. Eu não era parte disso. "mal consigo diferenciar um Corsa de um Palio", disse-me certa vez um amigo, em forma de versos. Ele não era o único.
Senti vontade de chorar. Mas eu não choro há anos, e não seria ali que eu choraria, apesar da noite, apesar das estrelas, apesar da bebida.
Recebi uma mensagem no celular, um bip a quebrar o silêncio da nascente madrugada. Uma mensagem alegre, animada, alto-astral... era da garota com quem eu havia saído há pouco, a mandar beijos e abraços, a propor novos joguinhos de relacionamento. Eu sabia que essa euforia de sua parte duraria pouco.
Não me entristeciam nem me enraiveciam tais coisas. Eu não poderia me incomodar desse modo. A raiva não se ocupava de mim porque sei que nada ganho com isso. Não ficava triste porque triste já sou por natureza, a todo tempo. Apenas estou cansado disso tudo. Estou cansado de danças e de sorrisos à toa. Cansado das pessoas que se acham interessantes. E também estou cansado de jogos que não posso ganhar.
13 comentários:
olá... o q dizer de mais uma de suas maravilhosas obras?? rsrs.. me faltam palavras!! Mas, observo mais um texto com citações das sofridas garçonetes... Imprensão minha ou temos alguém facinado pela profissão (ou pelas profissionais, que seja)...?? hahaha.
Ah! Obrigado pela visita, é sempre uma honra ter comentários de alguém como você.. apesar de achar q naum merecia tantos elogios. É verdade, eu sempre atualizo mesmo, é claro pq meus textos são pequenos e praticamente sem criatividade, mas vc, com textos tão ricos, nem precisa se preocupar... rsrsrs.
BeeijOs...
Leon,
sinto em todos os seus textos uma solidão muito presente. A solidão não é de toda mal. Muitas vezes precisamos mesmo dela, principalmente quando nos cansamos de certas coisas tão banais e fúteis da vida. Já me cansei de muita coisa e continuo cansando a cada dia que passa. Mas o que mais me cansa, é a superficialidade em todos os seus ângulos. A cada dia que passa, procuro motivos pra viver da forma que acho que me convém!
Espero que esteja tudo bem contigo!
Não some não, sinto falta dos seus comentários!
Beijos e até mais.
O legal de ler seus textos é que sempre me sinto protagonista. Hahah!
Eu sempre termino achando garçonetes mais interessantes que as minas que se acham interessantes.
Eu já deveria até ter cansado de jogos e da luta contra o sistema... mas isso já não tem mais cura.
Apesar de ser um capitalista, nesses dias de crise global, eu não posso negar minha felicidade em ver o mundo da fantasia ruir.
Não desista da esquerda, ela tem que continuar existindo (se é que ainda existe).
Abraços
Quando leio teus textos me vejo querendo entrar dentro deles, talvez como mãe do personagem e poder acalmar toda a dor. É sempre assim quando leio livros, quero entrar na história, desde quando era pequena. E neste caso, me imagino como mãe ou amiga do personagem tentando acalmar toda a angústia de seu pensamento triste.
Este personagem está triste demais, chega a me emocionar...
E não consegue afirmar um relacionamento amoroso e se sente nas sombras...
Pior é que este personagem pode ser qualquer um de nós... um amigo, por exemplo.
Beijos e saibas que adoro ler o que escreves... mas, isso, já sabes...
Quão familiares são suas palavras!
Eu pareço ver estas cenas todos os dias... Tantas pessoas solitárias cercadas de outras tantas pessoas solitárias e a solidão chega ser compartilhada, mas nunca tratada! E nós somos obrigados a conversar com estrelas que não dizem que sim nem que não.
Eu entendo esse sentimento, mas me pergunto: a que ponto chegamos? Onde estão as vozes jovens, sonhadoras, errantes, espalhafatosas, o banco da praça, duas ou três pessoas conversando sobre o que se sente quando as luzes se apagam...?
Eu sinto falta dos humanos de verdade, possuidores de um coração. Acho que eles foram trocados por robôs que hora se vestem de garçonetes, hora de 'boys and girls', ora de companhias para assistir a quem realmente vive... (ou não).
Vou parar de falar, seu post me empolgou rsrs
adorei!
eu não desisto de comentar aqui!!!
beijos
Poxa, você falou muitas coisas em que eu já pensei, e das quais eu já estava me esquecendo... Tocou fundo esse texto... Você tá realmente numa fase inspirada, muito bom.
Talvez a cerveja tenha sobre vc o mesmo efeito do conhaque sobre o Drummond... "mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo".
Se conseguir lutar até o fim, verá quão delicioso é ser derrotado por um oponente de peso...
Leon, sou nova no pedaço, nem sei como cheguei aqui, mas cheguei. E que bom por isso.
No último domingo, ao cruzar a calçada do Masp, estava a pensar justamente nisso: pra quê???
Se pudesse escolher, não escolheria, não faria... cansaço sem fim.
Abraxx!
Leon, se possível, me adiciona no msn - magalybarbosa_@hotmail.com -, quero conversar com você! (:
Ingrid Carolline
Sua impressão não é lá errônea, hehe... Quanto a seu comentário final: quanta bondade, ó Diós... rs... Beijos!
Camilla
Desculpe, realmente estive sumido, pecado que freqüentemente cometo, e só depois percebo o quanto sou o maior prejudicado com isso... obrigado pela lembrança e preocupação... logo mais entrarei em seu blog.. Beijos!
Chantinon
Sobre as crises econômicas e as garçonetes, concordamos em tudo... hehehe! Mas peixe, não desistirei da esquerda - mas ó, não desista da direita também (tá faltando gente que assuma posição dos dois lados hoje em dia...). Abração!
Iza
As minhas desilusões diárias são muito tristes, mas mais condolente ainda eu fico quando sei que as desilusões não são apenas minhas, o fardo é geral... Que fazer? Pergunto-me... Beijos.
Arlequina
Em tão poucas palavras (não deveria ter reprimido a empolgação), você disse tudo o que eu precisava ler e não sabia... Tens razão. Nesses dias que se passaram da leitura de seu comentário a esta resposta, pensei bastante... ainda não concluí nada, mas continuo pensando... qualquer hora chego a algum lugar, graças a seu empurrão... valeu mesmo, beijos!
Victor
Ouvir tal depoimento parcamente emocionado de um militar durão como você demonstra que tive certo mérito nessa produção... talvez a sua solidão de caserna o tenha aberto mais a essa literatura... Apareça!
Katarina
Se não sou um vencedor, ao menos sei que a batalha, por difícil que seja, tem valido a pena...
Annah
Foi bom recebê-la. Muito reflexivo seu curto comentário... Será sempre um prazer, venha mais vezes!
Magaly
Por aqui novamente... Que bom ver. Adicionei sim, até logo...!
Saudações a todos!
Literatura Vil
Leon,
Cara, juro que não sei te falar se sou de direita. Até votei no Lula na primeira, não por gostar dele, mas eu odiava o José Serra... É o típico cara que não tem idéias e compra a dos outros.
Espero que o mundo afunde nessa crise, mas pelo jeito só o lado pobre continua pagando.
Ah, sim. Recordo-me de ter lido em algum lugar que você se autoproclamava de direita. Se não falava totalmente sério, só agora percebo que não saquei isso... rs. Quanto à crise, é verdade: quem tá embaixo na pirâmide é que sempre paga a conta. Nisso, nada mudou.
Mas a pizza foi boa?
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