segunda-feira, 30 de março de 2009

Passeio pelo lado selvagem

Estava passando de moto em frente a uma borracharia que tem na Rua Auris Coelho, logo em frente a uma grande praça, meio descuidada mas até agradável, e decidi dar uma parada. Sentei-me num dos bancos, ao lado de uma banca de revista fechada, e fiquei fitando a borracharia. Próximo à praça, havia um Batalhão do Exército, também o observei um pouco, a sua arquitetura rígida militar, o sentinela que ficava na portaria de armas em punho fixamente, durante horas e horas. Atrás de mim, no parquinho infantil que havia na praça, ouvia vozes de meninas de sete anos que brincavam no escorrego.

Lembrei-me de outra vez que estive sentado naquele mesmo banco, só que a lembrança não era tão bucólica quanto o momento que eu agora vivia. Ocorreu numa madrugada distante. Estava bêbado nessa madrugada, vinha de uma festa pilotando uma moto, carregado de muito uísque na cabeça, alucinado, completamente louco, sem a menor carga de noção e em altíssima velocidade. Não sentia vento no corpo, não sentia frio nem cansaço, só sentia o desejo de correr, na minha pouca lucidez. Já sofri vários acidentes de moto, a maioria deles acidentes bobos, mas sem dúvida o momento em que estive mais suscetível a um acidente fatal foi nesse dia, que se deu alguns anos atrás, não muitos. Meu desvario completo ia passando na medida em que eu perseguia o nada a bordo de duas rodas a mais de 100 por hora numa via urbana, rompendo sinais vermelhos, pensando que a cidade era minha às quatro da madrugada, cantando, gritando.

Eu não tenho saudades dessa época, eu barbarizava, mas não sinto saudades, porque eu sabia que não ia me dar bem, bastava lembrar dos caras com quem dividia as aventuras, e eu me lembro de dois em especial, dois cocainômanos inveterados: um deles era o negrinho Josias que morava no bairro de Mãe Luiza, uma vez levou um tiro quando foi comprar uma sacolinha de pó no bairro de Petrópolis e não sabia o código, existia um código pra poder comprar o papelote, se você não soubesse estava condenado, mesmo que fosse uma cara conhecida. E ele era sim, uma cara muito conhecida. Josias era o cara que trazia todas as merdas ilícitas para maníacos covardes como eu, que gostavam e precisavam disso, mas nunca iam ao comércio negro, só em último caso. Josias sobreviveu, mas não sei mais por onde anda. Lembro-me também do Eric, um mauricinho que era amigo dos caras do morro, com quem eu me encontrava pra falar merda e fazer música, chegamos a montar uma banda que durou vários meses, mas ele foi mandado embora pro Rio Grande do Sul pelos pais, pra livrar-se de nossas más influências, antes que virasse mais um nas estatísticas de drogas e morte. Antes disso, porém, ele sofreria um acidente de carro, e por muito pouco não perderia a voz. Nenhum de nós, porém, ascendeu para além do que esperava, e nunca nos ligamos mesmo muito nisso. De que serviria? Não lembro quem foi que escreveu que, no nosso século, o "grande homem" pode, ao mesmo tempo, ser uma boa besta. Por que se importar muito então? Assim, ficávamos nessas aventuras malditas, pensando que éramos personagens das canções marginais de Lou Reed, envolvidos em viagens depressivas que em nada lembravam os paraísos artificiais baudelaireanos, sempre cheirando e sempre bebendo, e isso é foda, lembro-me de um velho amigo, que já esteve à beira de uma overdose, que dizia que cocaína e álcool são realmente o casal perfeito, duas drogas que se merecem.

Mas eu agora estava sozinho, não tinha mais amigos nesse meio, mas continuava fazendo merda, conheci depois uns malucos no movimento estudantil, mas eles eram uns tolos que fumavam maconha pra ficar estereotipado, nunca me senti bem nessa coisa de colocar na testa "sou drogado", além do que nunca usava drogas em grupo, no máximo na companhia do Josias e do Eric, e então gradativamente fui abandonando tudo, embora vez ou outra ainda enchesse a cara e cometesse loucuras como essa de voar pela cidade no meio da madrugada me achando dono do mundo. Nesse meu delírio a mais de 100 por hora, meus sentidos logo começariam a adormecer, então eu dei um pequeno cochilo, coisa de três segundos apenas, mas quando dei por mim já estava derrapando na estrada, com os dois pneus furados; eu provavelmente havia invadido algum meio-fio por um instante, ou passado por cima de várias tartarugas, aqueles troços fincados no chão que servem de divisória de uma rua para outra, e mesmo no aperreio do deslize e na lentidão de meus reflexos, tentei recuperar o controle da moto, sem sucesso, até que, depois de vários metros deslizando, enfim caí, com a sorte de que já havia perdido bastante velocidade e não me restaram nada mais que alguns arranhões e um deslocamento no braço, além do que, como não havia mais ninguém na estrada, não havia maiores riscos em levar uma relativamente pequena queda naquele chão frio da BR 101, vez que não passaria outro veículo pelo menos nos cinco minutos seguintes...

Eu me lembrei dessa ocasião porque isso ocorreu justo perto da borracharia a que me referia, e foi até ela que empurrei a moto com o sangue quase gelado descendo por dentro da calça suja, e aguardei até que o estabelecimento abrisse, e demorou muito para abrir. Quando me sentei no banco da praça, o céu ainda começava a ver seus primeiros filetes de luz, então logo adormeci. Eu acordaria às 10 da manhã, bem encardido, e foi justo quando a borracharia estava abrindo. Depois que os pneus foram remendados me mandei pra casa, eu permanecia bêbado, porém estava bastante mais precavido, senti-me muito mal o dia todo, vomitei pra caramba na privada, e lá mesmo no banheiro eu fiquei por um bom tempo, não comi nada nesse dia nem nos três seguintes, fiquei muito fraco, porque estava com medo, ainda que eu suspeitasse que meu fim se daria assim mesmo, estatelado numa autoestrada, provavelmente com partes do meu corpo jogadas de lado a lado da avenida.

De qualquer modo, depois dessa ocasião relevei mais certas coisas, nunca mais saí para festas afins, e em raras vezes eu bebo qualquer coisa fora de casa, aliás, tenho passado mais tempo em minha casa que em qualquer outro lugar, coisa que não me ocorria há pelo menos dez anos, e isso tem sido muito bom, tenho gostado de passar menos tempo correndo atrás de outras coisas. Os vícios do passado não se foram, não fiz maiores autocríticas porque nunca mudei efetivamente a visão que eu tinha do mundo, hoje meus hábitos são mais caseiros, mas meus gostos são os mesmos de anos atrás.

E todos esses pensamentos se misturavam na minha cabeça enquanto eu ainda estava sentado no banco da praça, ao lado da revistaria que permanecia fechada, tomado de um sentimento de comiseração comigo mesmo. A essa altura, as meninas de sete anos ainda brincavam no parquinho, o sentinela permanecia fixo no seu lugar. Apesar de ainda ser cedo, umas três da tarde de domingo, comecei a sentir um pouco de dormência, decidi que tiraria uma soneca por ali mesmo, e eu continuava pensando, a vida não é tão boa assim, mas acho que ainda não é o momento de ir embora. Pela segunda vez, adormeci no mesmo lugar.



12 comentários:

Adriana Hanna disse...

Pelo jeito esse banco de praça funciona como uma espécie de divã limítrofe do que foi, é e será em sua vida.
Revisitar certos lugares (passagens) é um exercício consciente e inconsciente de auto-afirmação, redefinição, morte, renascimento...
Isso faz um bem danado (ou não).

A propósito, tem uma frase de Schopenhauer que gosto muito, e diz assim: "O que um indivíduo pode ser para o outro, não significa grande coisa, no fim cada qual acaba só. Ser feliz, diz Aristóteles, é bastar-se a si mesmo."

Um abraço e boa semana, Leon!

Mic disse...

Relembrar loucuras as vezes nos deixam confusos, não sei bem explicar, as vezes é bom outras ruim..
e ficar em casa sozinha me faz bem..

Tatiana Pinheiro disse...

Eu sinto falta sim dos meus dias de loucura, mas seria incapaz de vivenciá-los de novo...

Encaretei hahaha...e a minha casa é hoje em dia meu reino de entretenimento...

;*

Thaís. disse...

aaai qe saudade de ti pessoa!
há um tempinho tb que nao apareço por aqui, mas percebo que continua encantando muita gente com teus textos né? rs

o meu blog tu sabe que SEMPRE estará aberto pra ti, e muito obrigada pela força em relação ao assunto da minha mãe, torço pra que aconteça o que for melhor pra ela!

um beeeeeijo!

Ariane disse...

Fiquei muito feliz com o seu comentário. E posso dizer que gostei muitíssimo do seu blog.
Lembrar minhas loucuras, me traz uma saudade de quem eu fui, de tudo que se foi, e até das feridas que não doem mais.
Fique bem!
E volte sempre!
Beijos

Anônimo disse...

Dá pra entender porque você não consegue escrever algo que não viveu: é que você vive tanta coisa, com tanta intensidade, que se não colocar pra fora, é capaz de explodir, e se for inventar é capaz de duplicar o que já fez/faz.

Mas o final ficou meio estranho, você dormiu apoiado na moto ou no banco da praça?


Mas adoro seu estilo, cara, sério!

;***

oddie disse...

estranho, tive a nítida sensação de estar lendo J.D.Ballard , mais precisamente em Crash...
muito bom texto, me fez remeter as minhas próprias bebedeiras homéricas....

Anônimo disse...

Sensacional, história incrível, intensa, controversa e complicada mesmo, não é qualquer um que tem a sua coragem de viver assim e de contar isso. Parabéns pela maneira como consegue viver tanto sem sair da linha, mantendo a lucidez por trás disso tudo. Seu estilo é singular, mas gosto das referências que tem, tipo Rubem Fonseca que tu j´a disse que gosta né... Beijos!

Naty disse...

Nós amadurecemos e nos tornamos menos inconseqüentes, e o que faziamos antes se torna algo distante de nossa realidade. Acho que é a propria noção de como é a realidade que noa faz mudar.

Bjos!
^^

Naty disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Chantinon disse...

A Naty falou por mim.
Tem faltado um pouco de limite nas loucuras da galera mais nova.
Não é o seu caso, mas hoje em dia todos querem ser roqueiros, Madonnas ou Angelinas, mas é bom lembrar que esses nomes são personagens deles mesmo. E que parte desses terminam a 7 palmos muito cedo.

Abraços

Ind Caroline x) disse...

Pelo que me consta faltava por aqui um comentário meeu.. ;)
consegui ler mais um..
dsculpe pelo atrazo, mas vc sabe né?
o q importa é aparecer...
realmente, não me ocorre a possibilidade de te ver dormindo na praça, nem sóbrio nem bêbado.. aehuaheuaeh (brincadeiras a parte).
Beijãao