Todos os dias, quando eu deixava a escola onde dava aula dirigindo-me ao estacionamento, uma aluna me seguia, uma em específico, mas às vezes variava, ocorria também de virem outras e outras - mas não mais de uma no mesmo dia. E me pedia uma carona.
Vamos lá, é o que dizia.
Nunca era apenas a carona. Sempre parávamos em algum lugar, geralmente na beira-mar, já que a escola ficava próxima da praia. Tomávamos um suco, enquanto elas falavam de seus problemas amorosos e ginecológicos e eu escutava atentamente. A maioria delas já era noiva, aos 16, 17, ou até mesmo ex-noiva, e me mostravam algumas manchas de pancadas no braço ou nas costas, e pediam ajuda, pelo menos companhia.
Todas as vezes que saía da escola e, ao invés de ir para qualquer outro lugar, eu ficava bebendo sozinho a poucas quadras dali, alunos apareciam e pediam para beber comigo.
Senta aí, eu convidava. Pede um refrigerante.
Quero uma gela, vamos dividir, não pode ser?
Pede, então. Uma não, duas. Não divido nada.
E eles pediam, e conversávamos bastante, no início a conversa era sempre animada, depois eles começavam a falar de seus problemas familiares e de suas amizades incômodas, e sobre pequenas cicatrizes causadas por canivete em partes do corpo, e pediam conselhos.
Certa vez, a diretora me chamou.
Nós reconhecemos sua dedicação na sala e os alunos avaliaram bem você naquela pesquisa que fizemos, mas não é ético sair com eles, ela disse.
Sair com eles?, perguntei.
É, consta que você saiu com alguns deles.
Quem lhe contou?
Isso eu não vou dizer.
Então não é ético fazer nada com eles, eu falei. Entendo o seu lado, mas eu não transo com as meninas nem bebo com os menores.
A questão não é essa.
Qual a questão?
A questão é que não pode sair com alunos.
OK, não sairei mais com quem quer que seja.
No mesmo dia, dei minhas aulas, discutimos na sala sobre os meios de orientação mais usados, os pontos cardeais, alguns alunos me surpreenderam ao demonstrar uma notável melhora na compreensão do tema, e pareciam muito empolgados em poder provar isso, outros pareciam ter esquecido solenemente tudo que eu lhes contara dentro da sala nas últimas três semanas, chegando a ignorar quando eu os convidava para o debate, pareciam distraídos, divagantes, entorpecidos.
Ao final das aulas, uma outra aluna, que nunca havia antes conversado comigo fora da sala, vem até mim e pede carona.
Não posso, não é adequado, eu digo. E faço a mesma coisa com o cara que sinaliza pra mim que me encontraria no bar dali a poucas horas.
Então eu ia embora, sozinho, ou bebia, sozinho.
Com o tempo, conversávamos pela escola e trocávamos emails, telefones. Passaram, então, a me ligar de quando em quando.
Podemos nos encontrar?, Olá, vamos sair pra beber?, cada qual fazia convites a seu modo.
OK, eu dizia.
E saía com alguns deles, geralmente nos fins-de-semana.
Novamente, a diretora me chamou.
Professor, ela disse, soubemos que foi reincidente no erro de sair com alunos. Quero dizer que estamos atentos ao que faz e que não achamos adequado. Se fizer de novo, lamento dizer mas terá que sair da escola.
Em que o meu encontro com alunos prejudica a escola?
Prejudica a reputação da escola.
A reputação da escola, repeti. O que a reputação da escola sabe sobre as condições dos alunos?
Temos uma coordenação para cuidar desses problemas. Não darei aviso normalmente. Sabemos quem são os alunos e se houver reincidência, não só você deixará a escola, mas eles também.
Saí da Direção e dirigi-me à Sala dos Professores. Lá, o assunto estava na pauta do dia. Quase em uníssono, os colegas, ou ex-colegas como alguns faziam questão de falar, me repreendiam. Diziam que eu deveria enveredar para outro trabalho, que estava rompendo a ética da profissão, que se fossem diretores já não seriam tão condescendentes com a minha permanência por lá.
Depois disso, nunca mais me demorei na Sala dos Professores. Entrava, no máximo, para pegar um café, e saía, ficava, do alto do corredor do segundo andar, olhando os alunos lá no pátio, os prédios vizinhos, as ruas, tudo numa intensa harmonia.
Na saída da escola, oferecia negativas a quem me pedia carona ou companhia em mesa de bar.
Ao telefone, em alguns fins-de-semana, recusava novamente a todos os pedidos.
Com o tempo, nem atendia mais as ligações, deixava tocar até cansarem.
Aos emails e recados, eu também fui deixando de responder.
"Eles estariam melhor assim", é o que pensava sempre.
Era desse modo que eu enganava a mim mesmo.
Vamos lá, é o que dizia.
Nunca era apenas a carona. Sempre parávamos em algum lugar, geralmente na beira-mar, já que a escola ficava próxima da praia. Tomávamos um suco, enquanto elas falavam de seus problemas amorosos e ginecológicos e eu escutava atentamente. A maioria delas já era noiva, aos 16, 17, ou até mesmo ex-noiva, e me mostravam algumas manchas de pancadas no braço ou nas costas, e pediam ajuda, pelo menos companhia.
Todas as vezes que saía da escola e, ao invés de ir para qualquer outro lugar, eu ficava bebendo sozinho a poucas quadras dali, alunos apareciam e pediam para beber comigo.
Senta aí, eu convidava. Pede um refrigerante.
Quero uma gela, vamos dividir, não pode ser?
Pede, então. Uma não, duas. Não divido nada.
E eles pediam, e conversávamos bastante, no início a conversa era sempre animada, depois eles começavam a falar de seus problemas familiares e de suas amizades incômodas, e sobre pequenas cicatrizes causadas por canivete em partes do corpo, e pediam conselhos.
Certa vez, a diretora me chamou.
Nós reconhecemos sua dedicação na sala e os alunos avaliaram bem você naquela pesquisa que fizemos, mas não é ético sair com eles, ela disse.
Sair com eles?, perguntei.
É, consta que você saiu com alguns deles.
Quem lhe contou?
Isso eu não vou dizer.
Então não é ético fazer nada com eles, eu falei. Entendo o seu lado, mas eu não transo com as meninas nem bebo com os menores.
A questão não é essa.
Qual a questão?
A questão é que não pode sair com alunos.
OK, não sairei mais com quem quer que seja.
No mesmo dia, dei minhas aulas, discutimos na sala sobre os meios de orientação mais usados, os pontos cardeais, alguns alunos me surpreenderam ao demonstrar uma notável melhora na compreensão do tema, e pareciam muito empolgados em poder provar isso, outros pareciam ter esquecido solenemente tudo que eu lhes contara dentro da sala nas últimas três semanas, chegando a ignorar quando eu os convidava para o debate, pareciam distraídos, divagantes, entorpecidos.
Ao final das aulas, uma outra aluna, que nunca havia antes conversado comigo fora da sala, vem até mim e pede carona.
Não posso, não é adequado, eu digo. E faço a mesma coisa com o cara que sinaliza pra mim que me encontraria no bar dali a poucas horas.
Então eu ia embora, sozinho, ou bebia, sozinho.
Com o tempo, conversávamos pela escola e trocávamos emails, telefones. Passaram, então, a me ligar de quando em quando.
Podemos nos encontrar?, Olá, vamos sair pra beber?, cada qual fazia convites a seu modo.
OK, eu dizia.
E saía com alguns deles, geralmente nos fins-de-semana.
Novamente, a diretora me chamou.
Professor, ela disse, soubemos que foi reincidente no erro de sair com alunos. Quero dizer que estamos atentos ao que faz e que não achamos adequado. Se fizer de novo, lamento dizer mas terá que sair da escola.
Em que o meu encontro com alunos prejudica a escola?
Prejudica a reputação da escola.
A reputação da escola, repeti. O que a reputação da escola sabe sobre as condições dos alunos?
Temos uma coordenação para cuidar desses problemas. Não darei aviso normalmente. Sabemos quem são os alunos e se houver reincidência, não só você deixará a escola, mas eles também.
Saí da Direção e dirigi-me à Sala dos Professores. Lá, o assunto estava na pauta do dia. Quase em uníssono, os colegas, ou ex-colegas como alguns faziam questão de falar, me repreendiam. Diziam que eu deveria enveredar para outro trabalho, que estava rompendo a ética da profissão, que se fossem diretores já não seriam tão condescendentes com a minha permanência por lá.
Depois disso, nunca mais me demorei na Sala dos Professores. Entrava, no máximo, para pegar um café, e saía, ficava, do alto do corredor do segundo andar, olhando os alunos lá no pátio, os prédios vizinhos, as ruas, tudo numa intensa harmonia.
Na saída da escola, oferecia negativas a quem me pedia carona ou companhia em mesa de bar.
Ao telefone, em alguns fins-de-semana, recusava novamente a todos os pedidos.
Com o tempo, nem atendia mais as ligações, deixava tocar até cansarem.
Aos emails e recados, eu também fui deixando de responder.
"Eles estariam melhor assim", é o que pensava sempre.
Era desse modo que eu enganava a mim mesmo.
17 comentários:
Estariam mesmo?
Talvez sim. Odeio as instituições de ensino que na verdade não ensinam porra nenhuma!
E odeio pontos cardeais, nunca os compreeendi!
aê leon! não sei porque hj eu acordei com a bolsa testicucar um pouco maior que a do comum, e resolvi ler TODA a postagem de hj... rs...
enfim. o dito assunto me chamou muito a atenção pq eu tb sou professor (só que de história) e prezo muito a companhia extra classe dos meus alunos. em minha cidade os alunos de 16, 17 e quase dezoito não possuem tanta afinidade alcólica, mas somos companheiros extra classe sim... sempre. há tambem aquelas que pedem conselhos vendo em nós não só uma inconsiente figura materna, mas tb uma figura mestra para solucionar ou aconselhar os problemas amorosos delas (não que a solução seja "nós com elas", mas seja elas encontrando o par perfeito para elas mesmas... daí o fato de elas pedirem os conselhos). isso me fascina muito (o fato desses seres que não possuem nem 10 anos a menos que nós, olharem para cima para conversar conosco!)...
agora quanto os professores, meu relacionamento com a "sala dos professores" (ou mortuário como costumo chamar) é muito parecido. as reclamações do dia a dia de trabalho, as veiarada "mau-cumida" e os problemas financeiros deles estão aos montes, preenchidos nos sagrados 15mim de descanso... por disso faço o mesmo que vc.. entro e saio rápido. vou curtir o recreio como um jovem mesmo que sou!
já a diretoria.... cabada de vacilão! não entendem nunca que um professor próximo é um aluno mais próximo! e não é só de nós... mas da escola tb! saca?
se grana não fosse o meu problema numa situação dessas tinha mandado a diretoria toda pra PQP...
bom....
eu acho que é isso!
um abrá!
Concordo, enganando a você, aos alunos e à escola. Que instituição é essa que quer cuidar da educação dos alunos se nem mesmo se preocupa com a situação pessoal deles? E se alguém for se preocupar, como você, acontece de lhe repreenderem.
O que aconteceu? Você saiu da escola e continuou amigo dos alunos? Ou o contrário?
Ansiosa para o capítulo dois...
;*
As instituições de ensino me dão nojo!
Não saio com alunos, pq só lecionei até hoje de 5ª a 8ª, e quando as aulas acabam eu quero sossego dos pestinhas, mas ouvi dizer que no ensino medio é outra coisa.
Lembro que, nesta fase de minha vida, eu era uma adolescente muito sozinha e sentia falta de conversar com alguem mais velho.
Os tempos são outros, mas as escolas agem como se estivessem na sociedade de 100 anos atrás.
Pois e. A simples condição de um jovem de ser seu aluno, lhe tira o direito de ser seu amigo, companheiro.
Estranho isso, ja que todos concordamos que aprendemos melhor com aqueles professores que nos identificamos...
Mas, infelizmente algumas escolas acham melhor repreender esse contato professor-aluno pelo medo constante de uma possivel relaçao amorosa ou somente sexual entre eles.
Acaba sobrando para aqueles bem intencionados que so querem dar um suporte maior aos seus alunos...
Parabens por mais um post muito bem escrito.
E VAMOS A LUTA!
REVOLTA DA GOROBAAAAAAAA
Como diz o R!, a maioria dos professores são mulheres, um saco, mau-humoradas, sem graça etc.. então, quando há um prof. que anima os alunos, que é diferente, que é jovem, eles (a diretoria) reclama e acha que está errado, que prof. não pode ser legal, que tem que ser um porre na sala de aula e tals.. mas eu acredito que o método de ensino de professores jovens como o R! e vc é o que tem salvado as monotonas aulas do dia-a-dia. E, eles não deveriam proibir de sair com os alunos fora da escola, então quer dizer que vc não pode ser amigo de um aluno seu?! fala serio!
Abraço.
É tão estranho pensar que poderiam elas estar melhores. Passamos mais tempo com nos nossos professores do que com os nossos pais. Temos um vínculo com quem nos ensina, formamos laços com essas pessoas. É inevitável não compartilhar sentimentos, angústias com aqueles que muitas vezes refletem nossa própria imagem. Eu mesma estive do outro lado, na posição de aluna escutava diariamente duas professoras cujas quais até hoje mantemos contato. E sinto sinceramente que fui importante para elas naquela determinada época. Mas tenho certeza de que elas foram muito mais essenciais pra mim porque elas me ensinaram, com suas dores, coisas que escola alguma ensina: viver, me importar com o próximo, e principalmente saber ouvir.
Talvez, essa diretora é tão mais carente que todos esses alunos que te procuraram. Talvez ela quisesse ter essa aproximação com algum professor e ele a rejeitou por achar-se superior a ela. Talvez ela desconheça o significado de solidariedade. Talvez ela desconheça solidão. E tomara que ela continue desconhecendo a solidão. Por que se ela sentir esse gosto amargo na boca e um aluno for sensível a essa dor, ela certamente lembrará-se de ti, Leon, e reconhecerá sua importância na vida daqueles jovens e do quanto se é possível aprender com eles.
OOOu... eu li a sua postagem e o coment do Renê.. e eu sou aluna dele.. ;)
Vamos analisar os dois lados... Se chega na escola um professor jovem (como vcs), alegre, (não tanto como vc, kkk³), que interage com os alunos, domina mais (como o Rene faz na minha sala), e tal... as velhas, mal amadas, quase na hora de aposentar e cm vontade de... lalala... fica doidona... isso chama INVEJA... SAKA?
É isso aii... mas não desista..
se eu fosse sua aluna, eu enfrentava a diretoria.. qual é brow? o que agnt faz extra classe não diz respeito a vcs.. =P
BJO
Que merda, bicho, que merda!
Ah, lembra do episódio com Ricardo?! Não foi a diretora que falou com eles, e, sim, uma professora.
eu estou tão feliz por vc se dar o trabalho de comentar os meus textos... Obrigada, mesmo!
estou com vontade de ler um novo seu! quando sai? estarei aqui esperando...
Instituições de ensino não são nem um pouco humanas. Parece que existe uma vontade de criar intelectuais daqueles fechados e carrancudos. Pra estes profissionais intocáveis, uma nota alta é infinitamente mais importante que um sorriso no rosto...
Incrível como as pessoas estão acostumadas a certas "doutrinas" e tudo que fuja daquilo pode manchar a reputação, mesmo que a fórmula dê certo. Você pode fazer nada, mas está errado se estiver fora dos padrões. Parece que a sociedade é programada para temer o novo.
Gostei do seu blog e da forma como você escreve, posso acompanha-lo?
Tenha uma boa semana!
realmente essa coisa de manter a "reputação" apenas serve para distanciar-nos uns dos outros...
Acho que as instuituções acreditam, de forma retrógrada é lógico, que o contato aluno-professor fora das salas de aula seria prejudicial ao suposto "respeito" que estes teriam obrigação para com o professor...
ledo engano...
se o professor é visto como amigo, e não como um ser frio e distante, aí é que mora o coração do respeito...
o respeito vem da admiração e da troca de experiências...só um contato mais profundo entre pessoas causa um respeito verdadeiro.
enfim...
é triste enganarmos a nós mesmos...
oi Léon!
obrigada pelo seu comentário!
É realmente engraçada essa coisa da gente não mostrar realmente tudo o que é, principalmente para as pessoas com quem convivemos...
as vezes é mais fácil sermos nós mesmos com estranhos, porque os estranhos não nos julgam pelo passado...
o fato é que estamos mudando continuamente, e aqueles que estão proximos nem sempre enxergam isso tão claramente...
isso me faz lembrar de uma frase do Bernard Shaw:
“De todos os homens que conheço, o mais sensato é o meu alfaiate. Cada vez que vou a ele, toma novamente as minhas medidas. Quanto aos outros, tomam a medida apenas uma vez e pensam que sou sempre do tamanho do seu julgamento”
e pensando bem,muitas vezes nós somos responsáveis por esses julgamentos, não?
enfim...perceba que a prolixidade não é apenas uma característica sua amigo, hehehe...
saudações para ti também!
é triste isso.
acho que quando o aluno tem uma relação bacana com professor melhora a qualidade das aulas, é como se unisse com um amigo pra estudar, a aula vai longe cara. outra que é bem mais gotoso trabalhar a didática num local agradável. bem, nem entendo muito sobre isso, mas admiro muito a profissão. eu acredito mesmo é que onde você trabalhava existiam duas espécies: os professores e os educadores. entende a diferença entre estes? entre muitos que aqui no Brasil é bem comum, os que apenas tem a roupinha de "Professor", outros tem em mente a educação, e leva isso a sério. é o que falta, intuito de educar, e não de apenas dar aula e ser chamado de professor. e você, colega, foi um educador e não só mais um professorzinho copiando o conteúdo do livro no quadro-branco brincando de aprovar e reprovar alunos.
GRANDE abraço, e bom final de semana. ;)
ps.: lá da comunidade "blogueiros fracassados"
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