Onde está o apetite que um dia tive por todas essas coisas?, eu me pergunto de quando em quando. Passo todo o dia dessas férias sentado na frente da janela, observando as pessoas passarem em prosas animadas e às vezes até escuto parte da conversa delas, algumas perguntas que uns fazem aos outros, e eu fico respondendo imaginativamente, como se a pergunta fosse pra mim, mas não é.
Assim, diariamente me quedo nesse exercício puramente cerebral que ao menos talvez seja melhor do que passar várias horas do dia em frente à TV - coisa que também adoro fazer, por sinal, e nunca me demoro a religá-la -, porque são esses parcos exercícios que mantêm a minha mente em atividade. Minhas cordas vocais, no entanto, estão cada vez mais enrijecidas porque eu não as tenho usado muito, no máximo quando ia ali na padaria e dizia quero quatro pães e nada mais!, mas agora já nem preciso mais falar porque a garota que atende, conhecida por Cleidinha, já sabe o que vou pedir quando chego lá (e faz questão de dizer: já sei!), sempre com um sorriso no rosto que eu não entendo muito bem, e termino oferecendo um pretenso sorriso também mas que na verdade não passa de um franzido labial, e depois que saio tanto do balcão como do caixa da padaria esvaece a última chance de utilizar a minha voz no dia, às vezes eu até esqueço como é seu som e quando estou tomando banho e começo a cantar alguma música dos Engenheiros do Hawaii eu chego a me espantar por um instante por não a reconhecer, e esse espanto, por sua vez, me faz perder o prumo da canção e então desisto de cantar...
Mas não são só vozes e mente que estão cada vez mais mirrando, todo meu corpo segue nesse rumo porque eu não faço nada, não caminho, não pratico esportes nem nada assim, e vou sentindo que todos os membros vão se enfraquecendo de maneira tal que às vezes até pra levantar a caneca de café eu sinto um desconforto e preciso derramar uma pequena parte da bebida ainda quente na pia, e depois assopro bastante porque o meu paladar também já não está lá essas coisas, tanto que já nem faço mais questão de aditivos nas comidas aqui em casa, como temperos no almoço, ou margarina no pão, ou sei lá o que, porque quando como nem sinto isso, não me lembro mais a última vez que fiz hmmmmmmm! para alguma guloseima que ingeri.
Até mesmo pra segurar livros eu andava meio preguiçoso e passei a ler mais no computador, onde eu poderia ficar estático, mas não totalmente estático né, já que é preciso descer a barra de rolagem, e depois que me acostumei com isso já cansei também, e então voltei pra velha leitura de papel, e pra não precisar ficar catando livros pela casa eu tenho acumulado todos eles aqui no quarto, já não bastavam as duas estantes de livros aqui, eu fui lá numa salinha de despensa que tem nos fundos e peguei uma caralhada de livros velhos e empoeirados e trouxe, porque vez ou outra os folheio e agora não preciso mais ir até os fundos de casa e abrir um cadeado para pegar gripe com essa papelada envelhecida...
Às vezes ocorre de eu tentar ir na contramão dessa tendência, saio de casa, vou assistir algum espetáculo, algum show, um jogo de futebol, vou pra umas reuniões ou sair com uma garota, vou ver uns amigos, assistir a algum filme, vou viajar de moto pra algum lugar, e na verdade só quando me entrego a essas coisas percebo que às vezes cometi alguns enganos, porque há certas coisas que não temos como mudar ou pelo menos não cabe a nós mudar, então fico com pena das meninas que saem comigo, como lamento aos amigos que me convidam para beber e fazer umas rodinhas idiotas de violão na praia (sempre vou embora quando aparece um violão na parada), e percebo que conhecer gente já não é mais o foco das minhas viagens como antes, agora quero só deixar que alguns aperreios se dissipem com o vento que bate e se vai, e os shows também não frequento, vou tentando resistir às tentações, porque sei que sempre me empolgo antes de shows mas na hora é que sinto que aquilo não mais me contagia, de modo que eu percebo que existe uma luta intensa dentro de mim entre um lado que deseja se socializar, se soltar e besteiras assim e outro que já sentiu um cansaço de todas essas coisas e que agora quer mesmo é sossegar sem ter que ouvir vozes alheias quando acorda nem antes de dormir, sem ter que atender telefones e é este meu lado que eu premio, deixando todo o resto pra lá, e se me pergunto onde andava todo aquele meu pique de alguns anos atrás (em verdade, eu já nem lembro se tinha mesmo ou se é uma memória forjada pelo meu inconsciente) é por uma trivial curiosidade e não por depressão ou lamento pelo que sou hoje, pois gosto de ser assim, gosto de ficar apenas escrevendo porque é a atividade fisiologicamente mais econômica que posso fazer, já que trabalho apenas com os dedos, permanecendo todo o resto do corpo num transe absoluto, e até o conteúdo escrito não é fruto de conclusão nem de reflexão qualquer que seja, e sim tão-somente um derramamento de palavras cuja leitura se configura numa ordinária perda de tempo, mas constatar isso somente agora já é tarde demais para quem leu até aqui... Só que não pedirei desculpas.
Assim, diariamente me quedo nesse exercício puramente cerebral que ao menos talvez seja melhor do que passar várias horas do dia em frente à TV - coisa que também adoro fazer, por sinal, e nunca me demoro a religá-la -, porque são esses parcos exercícios que mantêm a minha mente em atividade. Minhas cordas vocais, no entanto, estão cada vez mais enrijecidas porque eu não as tenho usado muito, no máximo quando ia ali na padaria e dizia quero quatro pães e nada mais!, mas agora já nem preciso mais falar porque a garota que atende, conhecida por Cleidinha, já sabe o que vou pedir quando chego lá (e faz questão de dizer: já sei!), sempre com um sorriso no rosto que eu não entendo muito bem, e termino oferecendo um pretenso sorriso também mas que na verdade não passa de um franzido labial, e depois que saio tanto do balcão como do caixa da padaria esvaece a última chance de utilizar a minha voz no dia, às vezes eu até esqueço como é seu som e quando estou tomando banho e começo a cantar alguma música dos Engenheiros do Hawaii eu chego a me espantar por um instante por não a reconhecer, e esse espanto, por sua vez, me faz perder o prumo da canção e então desisto de cantar...
Mas não são só vozes e mente que estão cada vez mais mirrando, todo meu corpo segue nesse rumo porque eu não faço nada, não caminho, não pratico esportes nem nada assim, e vou sentindo que todos os membros vão se enfraquecendo de maneira tal que às vezes até pra levantar a caneca de café eu sinto um desconforto e preciso derramar uma pequena parte da bebida ainda quente na pia, e depois assopro bastante porque o meu paladar também já não está lá essas coisas, tanto que já nem faço mais questão de aditivos nas comidas aqui em casa, como temperos no almoço, ou margarina no pão, ou sei lá o que, porque quando como nem sinto isso, não me lembro mais a última vez que fiz hmmmmmmm! para alguma guloseima que ingeri.
Até mesmo pra segurar livros eu andava meio preguiçoso e passei a ler mais no computador, onde eu poderia ficar estático, mas não totalmente estático né, já que é preciso descer a barra de rolagem, e depois que me acostumei com isso já cansei também, e então voltei pra velha leitura de papel, e pra não precisar ficar catando livros pela casa eu tenho acumulado todos eles aqui no quarto, já não bastavam as duas estantes de livros aqui, eu fui lá numa salinha de despensa que tem nos fundos e peguei uma caralhada de livros velhos e empoeirados e trouxe, porque vez ou outra os folheio e agora não preciso mais ir até os fundos de casa e abrir um cadeado para pegar gripe com essa papelada envelhecida...
Às vezes ocorre de eu tentar ir na contramão dessa tendência, saio de casa, vou assistir algum espetáculo, algum show, um jogo de futebol, vou pra umas reuniões ou sair com uma garota, vou ver uns amigos, assistir a algum filme, vou viajar de moto pra algum lugar, e na verdade só quando me entrego a essas coisas percebo que às vezes cometi alguns enganos, porque há certas coisas que não temos como mudar ou pelo menos não cabe a nós mudar, então fico com pena das meninas que saem comigo, como lamento aos amigos que me convidam para beber e fazer umas rodinhas idiotas de violão na praia (sempre vou embora quando aparece um violão na parada), e percebo que conhecer gente já não é mais o foco das minhas viagens como antes, agora quero só deixar que alguns aperreios se dissipem com o vento que bate e se vai, e os shows também não frequento, vou tentando resistir às tentações, porque sei que sempre me empolgo antes de shows mas na hora é que sinto que aquilo não mais me contagia, de modo que eu percebo que existe uma luta intensa dentro de mim entre um lado que deseja se socializar, se soltar e besteiras assim e outro que já sentiu um cansaço de todas essas coisas e que agora quer mesmo é sossegar sem ter que ouvir vozes alheias quando acorda nem antes de dormir, sem ter que atender telefones e é este meu lado que eu premio, deixando todo o resto pra lá, e se me pergunto onde andava todo aquele meu pique de alguns anos atrás (em verdade, eu já nem lembro se tinha mesmo ou se é uma memória forjada pelo meu inconsciente) é por uma trivial curiosidade e não por depressão ou lamento pelo que sou hoje, pois gosto de ser assim, gosto de ficar apenas escrevendo porque é a atividade fisiologicamente mais econômica que posso fazer, já que trabalho apenas com os dedos, permanecendo todo o resto do corpo num transe absoluto, e até o conteúdo escrito não é fruto de conclusão nem de reflexão qualquer que seja, e sim tão-somente um derramamento de palavras cuja leitura se configura numa ordinária perda de tempo, mas constatar isso somente agora já é tarde demais para quem leu até aqui... Só que não pedirei desculpas.
14 comentários:
Hehe, nem precisa pedir.
Foi gostoso de ler, apesar de triste, porque não tem nada pior do que se "acostumar" e, consequentemente, se cansar da vida.
Beijo.
Será velhice? Às vezes eu fico pensando que quando eu envelhecer vou terminar assim, morando em qualquer lugar afastado do mundo, de preferencia com muito verde e uma primavera deliciosa ao redor da casa, algum laguinho que os patos vem passear vez em quando e ainda dá pra pescar nos fins de semana... E só. Sem gastar a voz pra nada, somente ouvindo o barulho do teclado ou da máquina de escrever durante o dia todo.. no máximo uma orquestra sinfonica baixinha, só para dizer que ali existe alguma coisa ligada.
E ao mesmo tempo me imagino morando em uma cidade tipo NY, que você mesmo em casa não consegue ficar sozinho ou se desligar do mundo, tem que ter todo aquele agito de cidade grande o tempo todo, e você nunca dorme ou sossega...
Interessante esses dois lados que a gente tem, e eu acho que essa sua insistencia ou até gosto por ficar sozinho provenha do seu signo - ou talvez não tenha nada a ver e vai ver só você nasceu assim, querendo morrer sozinho e deixar-se levar pelas férias da vida.
:**
Não é a primeira vez que você escreve sobre essas coisas e não é a primeira vez que eu me identifico com o que você escreve e sente. Mas, homi, quando tu tiver sem fazer nada pode me chamar pra jogar conversa fora... eu nem sei tocar violão mesmo.
Quando os teus textos tem como finalidade "desafar", tu só coloca ponto final no fim do parágrafo. Conforme tu escreves, as palavras atropelam umas as outras, como se tu quisesse falar tudo de uma vez só (quando mais depressa, melhor). Achei isso muito curioso e interessante, não sei se esta é tua intenção.
Olha, eu não tenho sirvo muito de exemplo quando estou assim. Também fico quietinha na minha, mal abro a boca para conversar e, quando tento me distrair passeando pelas ruas, não funciona...
Como sou mulher, uma bela tarde de compras levantaria o meu astral, ahahah. Mas, como não é teu caso, te aconselho a curtir a tua casa durante esses dias. Em vez de ler um livro no sofá, vá para a varanda...Se permita acrescentar alguns temperos na comida, também. Se nada funcionar, escreva. Por que lidar com as letras nessas horas é uma coisa que "alivia"...
Besitos!
opa, quisesses*
Nha, nao vou escrever aqui um comentario mais uma vez dizendo o quanto sinto uma empatia pelas coisas que vc escreve.
Assisti um filme esses dias que materializou tão bem isso que vc escreveu, isso que sentimos...
É um filme francês..."Un homme qui dort"... se vc não encontrar, me diz que eu te mando pelo correio!
=*
Essa vidinha de férias... Ai, ai... Confesso achar uma maravilha poder ficar deitada em frente a TV, sentar na frente do PC sem ter nada importante pra fazer...
Parte de mim concorda em absoluto com a letra ♪"Nada melhor do que não fazer nada..." ♫
Quando você falou da sua voz, que já nem a reconhece bem,lembrei que eu mesma quase nem tô falando mais.
Sinto que alguém anda com sintomas de velhice precoce. Bem-vindo ao clube!
Quando li este texto não haviam tantos uísques servidos.
A personagem deste conto se parece comigo em vários detalhes. Com o diferencial de que não assisto televisão e os livros que tenho para ler são os de filosofia(obrigatórios)
Como você é um blogueiro "de antigamente" deixo um convite para deixares tua opinião neste texto:
http://diariodeizaberum.blogspot.com/2010/01/eu-nao-queria-que-os-blogs-antigos.html
Beijos!
Nossa! Seu texto começa num ritmo lento, depois os parágrafos vão aumentando, sem pontos finais, as palavras vão se jogando. Achei isso curioso, já que as férias são assim, como a organização do seu texto: você começa tranquilo, depois bate o desespero por não fazer nada e por ter tempo de pensar em tudo.
Não peça desculpas, cada um aqui leu porque quis. Se não gostou, certeza como a pessoa parou no meio!
Gostei do seu blog, não vejo muitos homens blogueiros hoje em dia, ainda mais com blogs desde 2004! :D
Adorei o texto, muito bom!
Nem precisa pedir desculpas. Estou vivendo num ócio quase totalmente improdutivo. Ontem cheguei a ligar para o chefe para perguntar quando terminam as férias.
Devo estar ficando louca...
adorei o texto e o blog, parabéns! passa la no meu :B beijo
Nada mais que um desabafo. =D não precisa se desculpar mano haha
Gostei tanto de seu comentário e crítica que fez quanto a minha posição polítiza no momento, que o transcrevi para cá.
http://deliciadelinks.blogspot.com/2010/02/comentarios-que-valem-uma-postagem-leon.html
Se você não gostar, eu retiro.
Se você puder, dá uma força lá, na minha última postagem onde critico determinadas redes sociais.
Um blogueiro que estou conhecendo agora e acha que sou uma pessoa normal, achou que o que escrevi era para ele.
Vê se dá para entender que falo sobre essas redes novas que estão surgindo e não sobre alguém em particular.
Beijos!
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