segunda-feira, 1 de março de 2010

Manuscrito

Tive um compromisso hoje com uma garota, uma dançarina. Fomos assistir a um espetáculo de dança guatemalteca. O que eu fui ver nesse lugar? Não sabia, mas até apreciei a dança. No começo, parecia sem-graça, mas de tanto ela me falar no ouvido, comecei a gostar. Sobretudo porque o evento para mim não me interessava. Era mero pretexto para ter a companhia.

A dança guatemalteca é assim, me dizia ela baixinho, parece tosca, parece chata, mas é como dançar forró... quem gosta não sabe explicar a beleza que existe no forró, né?

Eu ia acompanhando os movimentos no palco e os sussurros dela, quase adormecia durante algumas cenas cena, só não cheguei a tanto porque o som era incômodo, e eu não consigo ficar totalmente à vontade com sons que me são estranhos, principalmente quando se trata de músicas folclóricas, populares, de locais com os quais não tenho o menor elo.

Fiquei bastante pensativo porque eu é que a tinha convidado para sair. Mas ela não queria sair por sair, e eu não tinha nenhuma idéia. Quando a convido para sair trata-se, tão-somente, de sair mesmo, dar uma volta, sentar em algum lugar, uma praça, uma parada de ônibus, que seja. Eu queria só conversar, mas ela só sairia se fosse para ir a algum algum evento, como se sair sem ter um destino fosse algum pecado imperdoável. Foi quando lhe surgiu a idéia de ir para o espetáculo de dança. Terminado o espetáculo, conversamos um pouco, ela disse que estava tarde, teria faculdade no dia seguinte, levei-a pra casa, nos beijamos e fui embora. Ficamos juntos durante coisa de três horas, mas não tivemos nem vinte minutos de diálogo.

Na porta de sua casa, ela me disse que adorou. Eu lhe menti a mesma coisa. Mas depois que nos despedimos, senti que o dia não poderia acabar daquele jeito. Fui para um bar na Ribeira, porque é lá na Ribeira que estão alguns de meus bares favoritos. O problema é que ali os bares médios estão se tornando escassos pela proliferação de bares mais sofisticados, sobretudo nesses tempos em que a Ribeira tem se tornado mais um point turístico do que local de abrigo da boemia natalense.

Tive que me contentar com um bar novo - na época - por ali, até bem movimentado, situado na Rua Câmara Cascudo. Pedi uma cerveja e fiquei olhando ao redor. Várias pessoas falando alto em outras mesas, pessoas que se achavam muito interessantes, mesas que ocupavam toda a ruela. Muitas mulheres, já de idade bem avançadas, muitas garotas, mais novas do que eu. Todas brancas, reluzentes, limpas demais. Atraíam vários olhares, menos o meu. Eu olhava apenas para as garçonetes, como é hábito. Mas estas não davam muita atenção. Quando uma delas veio me atender, perguntei o que ela sugeriria e ela apenas me deu o cardápio, numa tentativa de ser simpática para o cliente. Não demorou, e vê-las correndo pra lá e pra cá com blocos de notas nas mãos me encheu o saco. Decidi sair de lá sem terminar de beber a cerveja e pedi a conta.

Deseja mais alguma coisa?, perguntou-me a garçonece por fim.

Não, obrigado...

OK, muito obrigado e volte sempre, disse, virando as costas com um sorriso forçado.

Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.

Como ainda quisesse beber mais um quebrado, fui numa conveniência, comprei um litrinho e fui para uma praça lá mesmo no Centro, um lugar sossegado, onde eu queria estar. Bebia e olhava para cima, para as estrelas por cima das árvores, dos prédios, das luzes da cidade, da fonte que jorrava água para o alto e que me fazia sentir alguns respingos bem finos. Pensava em quanto estava gostosa a bebida e o momento. E matutava sobre o preço dessas tão simples benesses. Sobre a solidão e a distância que tenho das outras pessoas. Em contraponto, refletia sobre meu desejo de mudá-las. Pensava na garota com quem estava saindo, e na sensação de posse que eu nutro mesmo sobre ex-namoradas. Pensava em como essas idéias apenas me distanciavam de todas elas cada vez mais.

Também pensava no meu trabalho, em como era bom dar aulas, aliás a única coisa que eu sabia fazer, já que não tenho talento para mais nada e nem gosto de carregar peso, mas ficava reflexivo porque percebia que isso não me nutria, como nenhum trabalho ou nenhuma prática permite.

Essas coisas me deixavam sempre meio triste, o trabalho, as garotas, a revista para a qual eu escrevia, o meu partido, as minhas conquistas tão facilmente desmoronadas, dava até certa vontade de chorar, mas eu não choro há anos, e não seria ali que eu choraria, apesar da noite, apesar das estrelas, apesar da bebida.

Recebi uma mensagem no celular em dois bips que quebraram o silêncio da incipiente madrugada. Era uma mensagem alegre, animada, alto-astral, vinha da garota com quem eu havia saído há pouco, a mandar beijos e abraços, a propor novos joguinhos de relacionamento. Eu sabia que essa euforia de sua parte duraria pouco tempo.

Depois de algum tempo de divagação, eu já não alimentava nenhuma tristeza nem raiva por tais coisas. Eu não poderia me incomodar desse modo. A raiva não se ocupava de mim porque sei que nada ganho com isso. Não havia razão para ficar triste porque triste já sou por natureza, a todo tempo. Apenas senti que meu problema era o cansaço disso tudo. Estou cansado de danças e de sorrisos à toa. Cansado dos projetos pessoais que temos que carregar, dos trabalhos que temos que achar interessantes. E também estou cansado de jogos que não posso ganhar.



10 comentários:

Alessandra Santos disse...

Imressionante como me vejo nos seus textos, talvez por isso sempre volto aqui.

Vez ou outra também me pego pensando na vida e o que sinto é uma angústia danada. A vontade que dá é de sumir. Fugir de tudo e de todos. Daí corro para o computador e escrevo. Escrever e ler aliviam, né? Parace que ajuda a nos entender...

Ultimamente tenho tentado não pensar tanto assim nos problemas, tô deixando a vida me levar mesmo. Sem planos, sem pressa, sem preocupação...

Até que a maldita TPM volta!

Espero que isso tudo seja só uma fase, que ela passe logo e que você encontre a melhor forma de lidar com essas questões, se é que já não a encontrou.

Permita-me uma coisa...UHU! Finalmente consegui chegar aqui primeiro! =D

marcelo grejio cajui disse...

grande Leon!
existem coisas que simplesmente devemos deixar passar. O estado de angustia um dia é substituido por outro sentimento, seja para melhor ou pior.
Como assistir a um espetáculo de dança que simplesmente estamos lá. Tudo causa reações. Com elas sabemos que estamos vivos.

abraço!

Anônimo disse...

Porque a vida não pode ser mais interessante, não é?

Estamos todos cansados e não percebemos quão fadados ficamos a ter que aguentar e se interessar por tudo ao nosso redor. Há tanta coisa melhor fora do nosso meio, fora do nosso mundo, e ninguém parece notar ou se importar. Só voltam seus olhares para seus próprios umbigos e está tudo bem.


A vida deveria ser mais interessante.

;**

Anônimo disse...

Eu tenho a impressão que já li esse texto seu. Não sei porque, assim que lia, expressões me pareciam familiares.

Quanto a músicas, tenho uma séria dificuldade com músicas com ritmo estridente. Eu prefiro o som de uma árvore balançando ou as melodias suaves.

Ainda bem que você ainda é jovem. Muitas oportunidades pela frente. Encontrar quem realmente se adapte a você.

Eu e meu marido somos diferentes em muitos aspectos mas, no geral, preferimos as mesmas coisas, os mesmos lugares e na maioria das vezes, a mesma música. O que já basta para uma relação estável.

Gostaria que com você acontecesse o mesmo. E como ainda tens uns vinte e poucos anos. Alguém que te complete pode estar a caminho.

Meu computador ainda está precisando de reparos. iz escrever no blog sobre isso mas, se tornaria repetitivo demais.

Beijos, menino da escrita que me encanta.

Ind Caroline x) disse...

Hmmm... como vc se acostumou mesmo? A Ingrid tarda mas não falha né? aeuhaeuh
então... como sempre, a noite não pode terminar assim, então termina afundado em uma garrafa... aehuhauehae
Aaaah as garçonetes! Inclusive, tenho a impressão de me lembrar de alguma coisa parecida com essa citação, relacionada às garçonetes, rsrs... Seu ponto fraco!?
"Estou cansado de danças e de sorrisos à toa. Cansado dos projetos pessoais que temos que carregar, dos trabalhos que temos que achar interessantes. E também estou cansado de jogos que não posso ganhar." Sem comentários a mais, me retiro! xD
kisses

Chantal Garrett disse...

Cansada de esperar pela mágica do mercado literário, resolvi publicar o livro via blog!

o endereço é www.cafecomdiazepam.blogspot.com

um beijo!

ps: eh a Tinha, do extravios e roubos.

Anônimo disse...

Sinto falta dos seus textos e do modo como eles falam comigo. Como eles tomam um pouco da minha voz e me descrevem, e amenizam tudo. Sinto falta da complacência deles comigo. :/

Arlan Souza disse...

Apesar de não parecer, isso é bem comum.
Eu já me peguei varias vezes assim, pensando e pesando a vida. é uma balança injusta.
Mas isso passa e volta. Considere esses momentos bons e tente tirar o melhor deles. Talvez seja hora de mudanças, grandes mudanças.
Bom texto!

Passa lá em casa.
http://arlansouza6.blogspot.com/

Anônimo disse...

Adorei! ^^

nayara xavier disse...

Gostaria de derramar algumas coisas aqui - no lugar dessas palavras, que diante das lágrimas, não são muita coisa.

Muito, muito parecido comigo – na versão masculina. Acho que foi bom eu ter nascido mulher. Eu, numa altura dessas, estaria estragada nas bebidas, em cigarros e mulheres. Acho realmente que homens tem problemas em descarregar sentimentos. Evitam choros, declarações, "eu te amo's", gritos, revolta... coisas e tal. Coisas que o povo diz "Isso é frescura de mulher", né? Por isso entendo o pq de ser mais fácil encontrar homens bêbados, sentados num bar, num cabaré, ouvindo bregas que falam de amores "derrotados". Sou curiosa demais pra essas coisas. Acho motivo pra pesquisa científica e tudo mais. rs...

Digo que se eu fosse homem, estaria assim... feito esses homens de bares e esquinas, do conto, de mulheres... enfim, dessas válvulas de escape da vida - que ficaram mais pros homens ( não me pergunte "por que pra gente?"... Eu não sei).

Gosto do rumo que essas mulheres tomam, em alguns contos...
Não gosto muito do rumo que, geralmente, o(s) moço(s) dos contos toma(m)... Mas acho que é necessário, pra ele. Apesar de que ele, hoje, não deve sair assim... à encontrar mulheres “quaisquer”.. à usar mulheres para aliviar(?) dor, beber etc... Também não importa se ele ainda o faz, mas quero acreditar que não. Que não faz. Acho que existem outros meios de alegria, desopilação, prazer blábláblá...

Mas eu não sei de muita coisa mesmo. E já estou voando demais na estória. =P

Cheiros!