Hoje eu vi um velho feio, cabeludo e desdentado, e me lembrei de um outro velho, igualmente cabeludo e desdentado, mas bastante mais feio, o Seu Dinei, um funcionário público aposentado que conheci há uns anos. Eu trabalhava, na ocasião, em um balcão de empréstimo pessoal. Na verdade, isso foi no meu primeiro dia de trabalho. Durante algum tempo, meu lugar era na rua, distribuindo panfletos de uma firma que trabalhava nesse esquema, até ganhar a oportunidade de trabalhar lá dentro, fazendo os negócios, um relativo avanço, trabalharia sentado, no ar condicionado. O Seu Dinei, o meu primeiro cliente, por assim dizer, estava perdido na vida, atolado de dívidas e pensões. Até que ele entrou no salão onde eu trabalhava e se dirigiu à minha pequena cabina.
Eu me lembro de quando cheguei no primeiro dia e sentei na cadeira que seria minha a partir dali, no computador que seria meu, no balcão onde eu passaria a maior parte das horas do meu dia. Umas sete, oito, nove, ou mais, dependendo das horas extras. Ainda estava em fase de testes. Passaria umas duas semanas nessa. Poderiam me tirar a qualquer momento se lhes desagradasse. Mas, estava decidido a tentar. Enquanto não começava o serviço, ficava na internet, onde o histórico das navegações e as pastas salvas ainda denunciava parte da personalidade da garota que ocupava o lugar até o dia anterior, a Fabiana. Sites de perfumes, loções e fofocas, episódios de novelas gravados, música de araque. Até o banco ainda me parecia quente. Não pensei mais nela depois disso. A dita cuja havia sido demitida acusando o patrão - um galante de 1,90m chamado Vasconcelos, um nome de velho, mas ele era bem jovem, devia ter menos de trinta, talvez uns três anos a mais que eu - de assédio sexual e sendo ridicularizada pelas que outrora se auto-afirmavam as melhores amigas da "Bibi".
Aproveitei e dei uma personalizada na mesa, tinha um porta-retrato vazio e eu coloquei nele uma foto, uma 3x4, era a única que tinha... e fiquei lá navegando por sites de literatura e notícias. Ainda não estava acostumado à idéia de trabalhar com essas negociações, mas era uma oportunidade qualquer e eu tava lá tentando tascá-la. Enquanto lia bobagens no computador, ouvi uma voz fanha vindo de cima pra baixo, a me dizer bom dia.
Quero dinheiro, prosseguiu, e quero agora. Era o Seu Dinei, a quem depois conheceria melhor. Parecia nervoso, mas mantinha o estilo coronel, me fazia lembrar um velho tio, que vivia no sítio. Aguarde um pouco, basta passarmos por alguns procedimentos, eu falei. Eu estava empolgado em conseguir fácil fácil a minha primeira comissão. Mas depois de consultar a vida financeira do velho, percebi que não havia margem para muita coisa. Mas é por estar fudido que eu venho pedir dinheiro emprestado!, ele falava, meio cochichado, mas quase elevando a voz. A minha única alternativa foi oferecer-lhe um plano onde ele receberia menos dinheiro, mas concordaria em pagar mais parcelas e juros mais elevados. Era um plano muito desvantajoso - como todos os outros - para o pobre coitado, mas absurdamente mais proveitoso para mim, que não lhe ofereci na primeira oportunidade por não sentir ainda a devida confiança em manobrar a baixa auto-estima alheia. Mas ele não concordou e foi embora, levando apenas um panfleto da firma e meu cartão com a oferta anotada.
Instantes depois, viriam outras pessoas, entre professores, assistentes administrativos, militares, ex-professores, ex-assistentes administrativos e ex-militares, alguns fazendo planos, alguns não. Percebi que o negócio se encaixava para mim perfeitamente. Faria sucesso trabalhando com empréstimos. Depois do almoço, quando voltei para a minha cadeira de um azul fubento, o velho reapareceu. Pensei muito, ele gritou ainda da porta do salão e continuava a falar enquanto se aproximava do balcão. Acho que vou aceitar a oferta sim, dizia. Vai se dar muito bem, senhor!, menti, na maior sem-cerimônia. Ele era rápido na assinatura de papéis, e à medida em que assinava os vários formulários, eu sentia em paralelo o mesmo que senti com os outros, um êxtase profundo, uma sensação de conquista! Depois que ele se foi, eu não quis atender mais ninguém. Até veio uma loura deficiente física, tinha uma escoliose acentuada, andava curvada em quase 30 graus, algum absurdo assim. Mas eu já tinha me decidido não atender mais uma pessoa sequer. Danielle, pega essa aqui, pedi, apontando para a cliente. Já estava dado por satisfeito fazendo hora lá quando o Seu Dinei apareceu mais uma vez na porta, e disse, se dirigindo até mim, você é um bom garoto, venha beber algo em minha casa quando terminar o expediente, moro aqui perto, e falou o endereço.
Eu, claro, aceitei o convite e fui visitá-lo. No endereço especificado, não tinha quase nada. Só tinha resto. Resto de um casebre. Nem se compara aos casarões daquela rua, a Rua Princesa Isabel, uma rua muito antiga do Centro. Foi o que me restou, a mulher me fudeu, lembra que eu falei que estava fudido?, apressou-se em dizer, me convidando para entrar. Lá, me ofereceu um conhaque, nunca fui lá muito chegado a conhaque, no entanto esse era até bom - aliás, muito bom -, um tal V. Brandy, mas depois que eu conheci o Macieira através de um amigo, não alterei mais a preferência. Enquanto o Brandy descia oleoso pela garganta, o pobre Dinei falava de sua coleção de fracassos. Estávamos sentados na sala, eu no sofá, meio perplexo com alguma coisa, segurando a caneca um pouco inclinada e olhando fixamente para a bebida, como se tivesse algum receio surreal de que ela desapareceria dali, e ele na sua poltrona rasgada largado. O ambiente era hostil, as paredes estavam todas rachadas e o lodo verde vinha subindo pelo lado que recebia água da chuva. Faltava até reboco em algumas partes, a infiltração era absurda. Seu Dinei era professor universitário, mas foi escanteado e expulso da Universidade por cometer algumas contravenções, e estava aposentado por lecionar nas modestas escolas públicas do município. A ex-mulher e o filho lhe comem, com a pensão e outros pormenores, 80% de sua renda. Seu Dinei nunca poderia pagar a dívida do empréstimo. Provavelmente, já nem lembrava onde estava algumas poucas centenas de reais que lhe ofereci astutamente. Cheguei a lhe oferecer o cancelamento do contrato; ele não deu atenção. Continuou em seu delírio particular. De seu passado, só restava um cachorro pulguento lambendo-lhe os pés. Seu Dinei dizia ser feliz. Quando chegar o fim, darei os olhos, os cabelos e o sangue para quem precisar, falava.
Eu não acreditava nessa dita felicidade. E não fui trabalhar no dia seguinte, nem nos demais.
Eu me lembro de quando cheguei no primeiro dia e sentei na cadeira que seria minha a partir dali, no computador que seria meu, no balcão onde eu passaria a maior parte das horas do meu dia. Umas sete, oito, nove, ou mais, dependendo das horas extras. Ainda estava em fase de testes. Passaria umas duas semanas nessa. Poderiam me tirar a qualquer momento se lhes desagradasse. Mas, estava decidido a tentar. Enquanto não começava o serviço, ficava na internet, onde o histórico das navegações e as pastas salvas ainda denunciava parte da personalidade da garota que ocupava o lugar até o dia anterior, a Fabiana. Sites de perfumes, loções e fofocas, episódios de novelas gravados, música de araque. Até o banco ainda me parecia quente. Não pensei mais nela depois disso. A dita cuja havia sido demitida acusando o patrão - um galante de 1,90m chamado Vasconcelos, um nome de velho, mas ele era bem jovem, devia ter menos de trinta, talvez uns três anos a mais que eu - de assédio sexual e sendo ridicularizada pelas que outrora se auto-afirmavam as melhores amigas da "Bibi".
Aproveitei e dei uma personalizada na mesa, tinha um porta-retrato vazio e eu coloquei nele uma foto, uma 3x4, era a única que tinha... e fiquei lá navegando por sites de literatura e notícias. Ainda não estava acostumado à idéia de trabalhar com essas negociações, mas era uma oportunidade qualquer e eu tava lá tentando tascá-la. Enquanto lia bobagens no computador, ouvi uma voz fanha vindo de cima pra baixo, a me dizer bom dia.
Quero dinheiro, prosseguiu, e quero agora. Era o Seu Dinei, a quem depois conheceria melhor. Parecia nervoso, mas mantinha o estilo coronel, me fazia lembrar um velho tio, que vivia no sítio. Aguarde um pouco, basta passarmos por alguns procedimentos, eu falei. Eu estava empolgado em conseguir fácil fácil a minha primeira comissão. Mas depois de consultar a vida financeira do velho, percebi que não havia margem para muita coisa. Mas é por estar fudido que eu venho pedir dinheiro emprestado!, ele falava, meio cochichado, mas quase elevando a voz. A minha única alternativa foi oferecer-lhe um plano onde ele receberia menos dinheiro, mas concordaria em pagar mais parcelas e juros mais elevados. Era um plano muito desvantajoso - como todos os outros - para o pobre coitado, mas absurdamente mais proveitoso para mim, que não lhe ofereci na primeira oportunidade por não sentir ainda a devida confiança em manobrar a baixa auto-estima alheia. Mas ele não concordou e foi embora, levando apenas um panfleto da firma e meu cartão com a oferta anotada.
Instantes depois, viriam outras pessoas, entre professores, assistentes administrativos, militares, ex-professores, ex-assistentes administrativos e ex-militares, alguns fazendo planos, alguns não. Percebi que o negócio se encaixava para mim perfeitamente. Faria sucesso trabalhando com empréstimos. Depois do almoço, quando voltei para a minha cadeira de um azul fubento, o velho reapareceu. Pensei muito, ele gritou ainda da porta do salão e continuava a falar enquanto se aproximava do balcão. Acho que vou aceitar a oferta sim, dizia. Vai se dar muito bem, senhor!, menti, na maior sem-cerimônia. Ele era rápido na assinatura de papéis, e à medida em que assinava os vários formulários, eu sentia em paralelo o mesmo que senti com os outros, um êxtase profundo, uma sensação de conquista! Depois que ele se foi, eu não quis atender mais ninguém. Até veio uma loura deficiente física, tinha uma escoliose acentuada, andava curvada em quase 30 graus, algum absurdo assim. Mas eu já tinha me decidido não atender mais uma pessoa sequer. Danielle, pega essa aqui, pedi, apontando para a cliente. Já estava dado por satisfeito fazendo hora lá quando o Seu Dinei apareceu mais uma vez na porta, e disse, se dirigindo até mim, você é um bom garoto, venha beber algo em minha casa quando terminar o expediente, moro aqui perto, e falou o endereço.
Eu, claro, aceitei o convite e fui visitá-lo. No endereço especificado, não tinha quase nada. Só tinha resto. Resto de um casebre. Nem se compara aos casarões daquela rua, a Rua Princesa Isabel, uma rua muito antiga do Centro. Foi o que me restou, a mulher me fudeu, lembra que eu falei que estava fudido?, apressou-se em dizer, me convidando para entrar. Lá, me ofereceu um conhaque, nunca fui lá muito chegado a conhaque, no entanto esse era até bom - aliás, muito bom -, um tal V. Brandy, mas depois que eu conheci o Macieira através de um amigo, não alterei mais a preferência. Enquanto o Brandy descia oleoso pela garganta, o pobre Dinei falava de sua coleção de fracassos. Estávamos sentados na sala, eu no sofá, meio perplexo com alguma coisa, segurando a caneca um pouco inclinada e olhando fixamente para a bebida, como se tivesse algum receio surreal de que ela desapareceria dali, e ele na sua poltrona rasgada largado. O ambiente era hostil, as paredes estavam todas rachadas e o lodo verde vinha subindo pelo lado que recebia água da chuva. Faltava até reboco em algumas partes, a infiltração era absurda. Seu Dinei era professor universitário, mas foi escanteado e expulso da Universidade por cometer algumas contravenções, e estava aposentado por lecionar nas modestas escolas públicas do município. A ex-mulher e o filho lhe comem, com a pensão e outros pormenores, 80% de sua renda. Seu Dinei nunca poderia pagar a dívida do empréstimo. Provavelmente, já nem lembrava onde estava algumas poucas centenas de reais que lhe ofereci astutamente. Cheguei a lhe oferecer o cancelamento do contrato; ele não deu atenção. Continuou em seu delírio particular. De seu passado, só restava um cachorro pulguento lambendo-lhe os pés. Seu Dinei dizia ser feliz. Quando chegar o fim, darei os olhos, os cabelos e o sangue para quem precisar, falava.
Eu não acreditava nessa dita felicidade. E não fui trabalhar no dia seguinte, nem nos demais.
