O clima do Natal é melancólico, dizem alguns. É inspirador, dizem outros poucos. Eu, em tese, estou no primeiro grupo, à medida que poderia estar em um terceiro. Todo clima pra mim é melancólico. Futebol pra mim é melancólico. Estudar, então, nem se fala. Abandonei dois ou três cursos por puro cansaço de não fazer nada. Dar aulas também é, mas parece divertido, é um trabalho que gosto mais de fazer do que todos os outros, porque faz parecer que há quem me escute. Freqüentemente me perguntam como é ser professor e, dependendo do caso, posso dar respostas positivas ou negativas. Os professores mais antigos dão somente respostas negativas, por motivos óbvios. Eu sou jovem, metido a aventureiro, carrego, dizem eles, as ilusões de um ensino transformador. Mas isso não é verdade. Sei que não mudarei nada dando aulas. Se comemoro quando um aluno se sobressai numa aula, na aula seguinte me decepciono porque esse mesmo aluno não resiste às bobagens que as demais tribos oferecem. Podia contar pelo menos uns cinqüenta dos 500 alunos que tive este ano que sabiam muito mais do que eu sabia na idade deles, e que sequer passaram de série.
Eles me lembram eu mesmo. Percebo, então, que o ensino médio não forma a pessoa - ele apenas revela a pessoa já formada. Dou aula em turmas do 1° ano. E foi no mesmo 1° ano que eu mesmo desandei, que eu me converti niilista, que meus últimos sonhos adolescentes se despedaçaram. Agora já não carrego nenhum deles. Certa vez, disse para uma garota, quando fazia o ensino médio, que "professor de Geografia é o último estágio da pessoa civilizada, a partir da qual só restaria mesmo o caminho do crime, da contravenção, das negligências... é o caminho de ladrões de bicicleta, estupradores de crianças e mendigos profissionais". E agora estou aqui, dando aulas de Geografia... é engraçado. Mas na prática, não mudou. Eu percebo que, sendo professor dessa disciplina, não sou levado a sério senão por poucos. Os caras acham-me um completo loser. As garotas acham retardado, mesmo. No mínimo, termino sendo lá meio folclórico, não só onde dou aula, mas em qualquer lugar de algum convívio social. Na faculdade, sou muito sério, mas há outras coisas que amenizam a minha imagem ríspida. Sou um tagarela, um ranzinza, para cada letra A que o professor fala, eu intervenho com uma letra B, sou impertinente, um completo pé no saco. Mas toda sala tem seu chato, e eu sou o chato da sala, ninguém me leva a sério por isso, ninguém ouve o que falo quando levanto o braço para intervir no que o professor diz. Sou baixinho, escondido lá no canto... não faço trabalhos com mais do que três almas pacientes, uma das quais está indo embora, vai desistir do curso porque não a apetece... e eu ficarei sem minha parceira. Acho que parceria é um negócio interessante e avançado. Parceria nem sempre chega a ser amizade ou algo assim, mas mesmo assim é algo do que precisamos. Eu não vou me vitimizar dizendo que não tenho amigos. Mas parceiro, de fato, não tive nos últimos tempos. Somente tive depois que entrei nesse curso e conheci essa garota, com quem discutia e batia boca, de quem discordava aqui e ali e a relação continuava muito boa. Uma pessoa que não tinha medo da sinceridade, não tinha medo de me criticar. Com ela, dava gosto discutir os trabalhos, os assuntos estudados e conversar na hora do intervalo e no fim da aula - embora ela talvez não sentisse o mesmo. De qualquer maneira, ela se vai e embora façamos alguns votos de que nos encontraremos no futuro, sei que nunca mais a verei, como daqui a cinco anos não verei mais ninguém que faça parte de meu círculo atual. E lamento porque, com isso, a disciplina que criei para tocar esse meu curso será agora deliberadamente reduzida, mas insuficiente, pelo menos, para me fazer desistir. Então levarei até o fim, é o que resta, mesmo sendo um curso de merda de Licenciatura em Geografia, que nunca me ensinou nada, onde os pedagogos tentam inculcar os pensamentos megalômanos de mudança por meio da Educação e onde os geógrafos se derramam em viagens teóricas mas se recusam a dizer em quem votam na eleição municipal, ou qual sua posição política a respeito de Hugo Chávez, Obama, a transposição do Rio São Francisco. Cansei de tanta gente medrosa junto. Mas é o que se colhe quando se faz Geografia; aliás, é o que se colhe quando faz qualquer coisa, sobretudo um curso superior.
Eu já teria abandonado o curso se fosse levar em conta o quanto sou ignorado na sala; ser ignorado, contudo, já é algo com que estou acostumado. Desde o ensino médio eu já era o "sério" (termo que usavam quando queriam ser simpáticos). Depois do ensino médio não conheci mais uma pessoa sequer com quem cultivasse algo que se assemelhasse a uma amizade. Todos aqueles que compartilharam coisas comigo depois dessa época não o fizeram de graça. Nem amigos, nem garotas, nem ninguém. O que não me torna um completo sociopata é o fato de eu ser da geração abençoada pela Internet, então virei um assíduo freqüentador de batepapos e quetais, lugares, para mim, relativamente mais apropriados para conhecer pessoas, um lugar no qual os preconceitos físicos são mais dissimulados, o que é perfeito. Eu nunca precisava dizer que era musculoso, alto e loiro, apesar disso. Apenas conversava, e desconstruía qualquer má imagem que fosse feita de mim sem precisar mentir. Conheci tanta gente na Internet, mas tanta gente, e perdi contato com quase todos. Mas nunca foi um intento meu fazer amizades ou conquistar namoradas. Eu sempre soube que a net é um espaço bastante paliativo e breve. Eu gostava da sensação de ter um amigo agora ou uma garota que dizia estar louca para me conhecer agora. Eu sabia que quando nos conhecêssemos, os amigos já não teriam mais tanto tempo para uma prosa e as garotas já não estariam mais tão oferecidas, senão no primeiro encontro, para os dois casos.
Isso ainda persiste um pouco até hoje, embora já não como antes. Os batepapos ruíram, hoje não existem mais bons chats virtuais. Só se usa o msn, e o msn não tem a menor graça porque batemos sempre com os conhecidos, batemos sempre com pessoas medrosas, pessoas para quem se discordamos de algo, a resposta adequada é um "cada um com sua opinião", pessoas que evitam uma discussão, mesmo aquelas mais bobas, como o diabo evita a cruz, se escondem em termos vazios como "ok" e "ah tá"... que horror! Que fracasso! Fico catando comunidades no orkut onde se fale sério, onde se discuta sério e onde se xingue sério, mas isso não existe. Fico procurando as outras pessoas ranzinzas, e parecem não existir mais. Todas apenas sorriem. Todas vêem esta minha foto e vêem apenas a pose, o cara relativamente charmoso, de óculos escuros e ar intimidador, quando não é isto que sou. A foto está aí por mera propaganda, da mesma forma que o nome do blog é uma antipropaganda, mas que até tem dado certo, talvez porque muita gente não saiba o que significa vil ou não acredite que aqui tenha, de fato, uma literatura vil. No final das contas, essa auto-ironia termina sendo a maior constante deste blog e da minha vida, porque a auto-ironia é a única coisa que faz com que nós, os chatos, suportemos a nós mesmos. Só não sei até quando.
Eles me lembram eu mesmo. Percebo, então, que o ensino médio não forma a pessoa - ele apenas revela a pessoa já formada. Dou aula em turmas do 1° ano. E foi no mesmo 1° ano que eu mesmo desandei, que eu me converti niilista, que meus últimos sonhos adolescentes se despedaçaram. Agora já não carrego nenhum deles. Certa vez, disse para uma garota, quando fazia o ensino médio, que "professor de Geografia é o último estágio da pessoa civilizada, a partir da qual só restaria mesmo o caminho do crime, da contravenção, das negligências... é o caminho de ladrões de bicicleta, estupradores de crianças e mendigos profissionais". E agora estou aqui, dando aulas de Geografia... é engraçado. Mas na prática, não mudou. Eu percebo que, sendo professor dessa disciplina, não sou levado a sério senão por poucos. Os caras acham-me um completo loser. As garotas acham retardado, mesmo. No mínimo, termino sendo lá meio folclórico, não só onde dou aula, mas em qualquer lugar de algum convívio social. Na faculdade, sou muito sério, mas há outras coisas que amenizam a minha imagem ríspida. Sou um tagarela, um ranzinza, para cada letra A que o professor fala, eu intervenho com uma letra B, sou impertinente, um completo pé no saco. Mas toda sala tem seu chato, e eu sou o chato da sala, ninguém me leva a sério por isso, ninguém ouve o que falo quando levanto o braço para intervir no que o professor diz. Sou baixinho, escondido lá no canto... não faço trabalhos com mais do que três almas pacientes, uma das quais está indo embora, vai desistir do curso porque não a apetece... e eu ficarei sem minha parceira. Acho que parceria é um negócio interessante e avançado. Parceria nem sempre chega a ser amizade ou algo assim, mas mesmo assim é algo do que precisamos. Eu não vou me vitimizar dizendo que não tenho amigos. Mas parceiro, de fato, não tive nos últimos tempos. Somente tive depois que entrei nesse curso e conheci essa garota, com quem discutia e batia boca, de quem discordava aqui e ali e a relação continuava muito boa. Uma pessoa que não tinha medo da sinceridade, não tinha medo de me criticar. Com ela, dava gosto discutir os trabalhos, os assuntos estudados e conversar na hora do intervalo e no fim da aula - embora ela talvez não sentisse o mesmo. De qualquer maneira, ela se vai e embora façamos alguns votos de que nos encontraremos no futuro, sei que nunca mais a verei, como daqui a cinco anos não verei mais ninguém que faça parte de meu círculo atual. E lamento porque, com isso, a disciplina que criei para tocar esse meu curso será agora deliberadamente reduzida, mas insuficiente, pelo menos, para me fazer desistir. Então levarei até o fim, é o que resta, mesmo sendo um curso de merda de Licenciatura em Geografia, que nunca me ensinou nada, onde os pedagogos tentam inculcar os pensamentos megalômanos de mudança por meio da Educação e onde os geógrafos se derramam em viagens teóricas mas se recusam a dizer em quem votam na eleição municipal, ou qual sua posição política a respeito de Hugo Chávez, Obama, a transposição do Rio São Francisco. Cansei de tanta gente medrosa junto. Mas é o que se colhe quando se faz Geografia; aliás, é o que se colhe quando faz qualquer coisa, sobretudo um curso superior.
Eu já teria abandonado o curso se fosse levar em conta o quanto sou ignorado na sala; ser ignorado, contudo, já é algo com que estou acostumado. Desde o ensino médio eu já era o "sério" (termo que usavam quando queriam ser simpáticos). Depois do ensino médio não conheci mais uma pessoa sequer com quem cultivasse algo que se assemelhasse a uma amizade. Todos aqueles que compartilharam coisas comigo depois dessa época não o fizeram de graça. Nem amigos, nem garotas, nem ninguém. O que não me torna um completo sociopata é o fato de eu ser da geração abençoada pela Internet, então virei um assíduo freqüentador de batepapos e quetais, lugares, para mim, relativamente mais apropriados para conhecer pessoas, um lugar no qual os preconceitos físicos são mais dissimulados, o que é perfeito. Eu nunca precisava dizer que era musculoso, alto e loiro, apesar disso. Apenas conversava, e desconstruía qualquer má imagem que fosse feita de mim sem precisar mentir. Conheci tanta gente na Internet, mas tanta gente, e perdi contato com quase todos. Mas nunca foi um intento meu fazer amizades ou conquistar namoradas. Eu sempre soube que a net é um espaço bastante paliativo e breve. Eu gostava da sensação de ter um amigo agora ou uma garota que dizia estar louca para me conhecer agora. Eu sabia que quando nos conhecêssemos, os amigos já não teriam mais tanto tempo para uma prosa e as garotas já não estariam mais tão oferecidas, senão no primeiro encontro, para os dois casos.
Isso ainda persiste um pouco até hoje, embora já não como antes. Os batepapos ruíram, hoje não existem mais bons chats virtuais. Só se usa o msn, e o msn não tem a menor graça porque batemos sempre com os conhecidos, batemos sempre com pessoas medrosas, pessoas para quem se discordamos de algo, a resposta adequada é um "cada um com sua opinião", pessoas que evitam uma discussão, mesmo aquelas mais bobas, como o diabo evita a cruz, se escondem em termos vazios como "ok" e "ah tá"... que horror! Que fracasso! Fico catando comunidades no orkut onde se fale sério, onde se discuta sério e onde se xingue sério, mas isso não existe. Fico procurando as outras pessoas ranzinzas, e parecem não existir mais. Todas apenas sorriem. Todas vêem esta minha foto e vêem apenas a pose, o cara relativamente charmoso, de óculos escuros e ar intimidador, quando não é isto que sou. A foto está aí por mera propaganda, da mesma forma que o nome do blog é uma antipropaganda, mas que até tem dado certo, talvez porque muita gente não saiba o que significa vil ou não acredite que aqui tenha, de fato, uma literatura vil. No final das contas, essa auto-ironia termina sendo a maior constante deste blog e da minha vida, porque a auto-ironia é a única coisa que faz com que nós, os chatos, suportemos a nós mesmos. Só não sei até quando.
