quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Nem todas as luzes brilham na noite de Natal

O clima do Natal é melancólico, dizem alguns. É inspirador, dizem outros poucos. Eu, em tese, estou no primeiro grupo, à medida que poderia estar em um terceiro. Todo clima pra mim é melancólico. Futebol pra mim é melancólico. Estudar, então, nem se fala. Abandonei dois ou três cursos por puro cansaço de não fazer nada. Dar aulas também é, mas parece divertido, é um trabalho que gosto mais de fazer do que todos os outros, porque faz parecer que há quem me escute. Freqüentemente me perguntam como é ser professor e, dependendo do caso, posso dar respostas positivas ou negativas. Os professores mais antigos dão somente respostas negativas, por motivos óbvios. Eu sou jovem, metido a aventureiro, carrego, dizem eles, as ilusões de um ensino transformador. Mas isso não é verdade. Sei que não mudarei nada dando aulas. Se comemoro quando um aluno se sobressai numa aula, na aula seguinte me decepciono porque esse mesmo aluno não resiste às bobagens que as demais tribos oferecem. Podia contar pelo menos uns cinqüenta dos 500 alunos que tive este ano que sabiam muito mais do que eu sabia na idade deles, e que sequer passaram de série.

Eles me lembram eu mesmo. Percebo, então, que o ensino médio não forma a pessoa - ele apenas revela a pessoa já formada. Dou aula em turmas do 1° ano. E foi no mesmo 1° ano que eu mesmo desandei, que eu me converti niilista, que meus últimos sonhos adolescentes se despedaçaram. Agora já não carrego nenhum deles. Certa vez, disse para uma garota, quando fazia o ensino médio, que "professor de Geografia é o último estágio da pessoa civilizada, a partir da qual só restaria mesmo o caminho do crime, da contravenção, das negligências... é o caminho de ladrões de bicicleta, estupradores de crianças e mendigos profissionais". E agora estou aqui, dando aulas de Geografia... é engraçado. Mas na prática, não mudou. Eu percebo que, sendo professor dessa disciplina, não sou levado a sério senão por poucos. Os caras acham-me um completo loser. As garotas acham retardado, mesmo. No mínimo, termino sendo lá meio folclórico, não só onde dou aula, mas em qualquer lugar de algum convívio social. Na faculdade, sou muito sério, mas há outras coisas que amenizam a minha imagem ríspida. Sou um tagarela, um ranzinza, para cada letra A que o professor fala, eu intervenho com uma letra B, sou impertinente, um completo pé no saco. Mas toda sala tem seu chato, e eu sou o chato da sala, ninguém me leva a sério por isso, ninguém ouve o que falo quando levanto o braço para intervir no que o professor diz. Sou baixinho, escondido lá no canto... não faço trabalhos com mais do que três almas pacientes, uma das quais está indo embora, vai desistir do curso porque não a apetece... e eu ficarei sem minha parceira. Acho que parceria é um negócio interessante e avançado. Parceria nem sempre chega a ser amizade ou algo assim, mas mesmo assim é algo do que precisamos. Eu não vou me vitimizar dizendo que não tenho amigos. Mas parceiro, de fato, não tive nos últimos tempos. Somente tive depois que entrei nesse curso e conheci essa garota, com quem discutia e batia boca, de quem discordava aqui e ali e a relação continuava muito boa. Uma pessoa que não tinha medo da sinceridade, não tinha medo de me criticar. Com ela, dava gosto discutir os trabalhos, os assuntos estudados e conversar na hora do intervalo e no fim da aula - embora ela talvez não sentisse o mesmo. De qualquer maneira, ela se vai e embora façamos alguns votos de que nos encontraremos no futuro, sei que nunca mais a verei, como daqui a cinco anos não verei mais ninguém que faça parte de meu círculo atual. E lamento porque, com isso, a disciplina que criei para tocar esse meu curso será agora deliberadamente reduzida, mas insuficiente, pelo menos, para me fazer desistir. Então levarei até o fim, é o que resta, mesmo sendo um curso de merda de Licenciatura em Geografia, que nunca me ensinou nada, onde os pedagogos tentam inculcar os pensamentos megalômanos de mudança por meio da Educação e onde os geógrafos se derramam em viagens teóricas mas se recusam a dizer em quem votam na eleição municipal, ou qual sua posição política a respeito de Hugo Chávez, Obama, a transposição do Rio São Francisco. Cansei de tanta gente medrosa junto. Mas é o que se colhe quando se faz Geografia; aliás, é o que se colhe quando faz qualquer coisa, sobretudo um curso superior.

Eu já teria abandonado o curso se fosse levar em conta o quanto sou ignorado na sala; ser ignorado, contudo, já é algo com que estou acostumado. Desde o ensino médio eu já era o "sério" (termo que usavam quando queriam ser simpáticos). Depois do ensino médio não conheci mais uma pessoa sequer com quem cultivasse algo que se assemelhasse a uma amizade. Todos aqueles que compartilharam coisas comigo depois dessa época não o fizeram de graça. Nem amigos, nem garotas, nem ninguém. O que não me torna um completo sociopata é o fato de eu ser da geração abençoada pela Internet, então virei um assíduo freqüentador de batepapos e quetais, lugares, para mim, relativamente mais apropriados para conhecer pessoas, um lugar no qual os preconceitos físicos são mais dissimulados, o que é perfeito. Eu nunca precisava dizer que era musculoso, alto e loiro, apesar disso. Apenas conversava, e desconstruía qualquer má imagem que fosse feita de mim sem precisar mentir. Conheci tanta gente na Internet, mas tanta gente, e perdi contato com quase todos. Mas nunca foi um intento meu fazer amizades ou conquistar namoradas. Eu sempre soube que a net é um espaço bastante paliativo e breve. Eu gostava da sensação de ter um amigo agora ou uma garota que dizia estar louca para me conhecer agora. Eu sabia que quando nos conhecêssemos, os amigos já não teriam mais tanto tempo para uma prosa e as garotas já não estariam mais tão oferecidas, senão no primeiro encontro, para os dois casos.

Isso ainda persiste um pouco até hoje, embora já não como antes. Os batepapos ruíram, hoje não existem mais bons chats virtuais. Só se usa o msn, e o msn não tem a menor graça porque batemos sempre com os conhecidos, batemos sempre com pessoas medrosas, pessoas para quem se discordamos de algo, a resposta adequada é um "cada um com sua opinião", pessoas que evitam uma discussão, mesmo aquelas mais bobas, como o diabo evita a cruz, se escondem em termos vazios como "ok" e "ah tá"... que horror! Que fracasso! Fico catando comunidades no orkut onde se fale sério, onde se discuta sério e onde se xingue sério, mas isso não existe. Fico procurando as outras pessoas ranzinzas, e parecem não existir mais. Todas apenas sorriem. Todas vêem esta minha foto e vêem apenas a pose, o cara relativamente charmoso, de óculos escuros e ar intimidador, quando não é isto que sou. A foto está aí por mera propaganda, da mesma forma que o nome do blog é uma antipropaganda, mas que até tem dado certo, talvez porque muita gente não saiba o que significa vil ou não acredite que aqui tenha, de fato, uma literatura vil. No final das contas, essa auto-ironia termina sendo a maior constante deste blog e da minha vida, porque a auto-ironia é a única coisa que faz com que nós, os chatos, suportemos a nós mesmos. Só não sei até quando.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Tão fugaz

Eu acordei na madrugada com os olhos ardentes, sentado diante do computador... estava escrevendo algo novo, trabalhando um conto, mas fui além dos limites esperados, o texto estava muito extenso, e é sempre assim quando eu escrevo depois de beber em excesso... eu estava com bastantes doses de aguardente no sangue, voltei para essa bebida porque é a mais barata, porém ela tem me deixado com uma dor-de-cabeça enorme logo depois, e foi com essa dor latejante que acordei e notei que sequer havia terminado o conto... não gosto de produzir nada bêbado, não gosto de escrever no piloto automático, então selecionei todo o texto e em um clique deletei tudo...

Levantei meio tonto, acendi as luzes e olhei para a hora... eram 4 da manhã. E o dia era o meu aniversário, um sábado. Eu havia preparado um bolo de ovos na noite anterior para comer quando o sol raiasse, comemorar no café-da-manhã para dormir o resto do dia. Entretanto, preferi não esperar o sol e fui catar uns pedaços. Ainda estava muito tonto e não conseguia partí-lo de forma coesa, ficando muitos farelos jogados pela mesa e pelo chão. Comi um pequeno pedaço e fiz uma careta, porque o bolo estava ruim, as bordas estavam queimadas. Tudo bem, amanhã peço à minha mãe para me trazer, quem sabe, um bolo de verdade, eu pensei. Na geladeira só tinha água e outras amenidades, como vinagre, tomates, presuntos e margarinas, coisas que não uso muito e só compro quando penso em trazer alguma garota pra casa. Como fazia tempo que isso não acontecia, então os produtos ali já não deviam mais estar dentro de seu prazo, e o mal cheiro começava a se apoderar da cozinha. Eu ia juntar tudo e pôr numa sacola e na lixeira, mas retardei o processo para a manhã seguinte. O cacho de bananas preso na parede também já estava apodrecido, chegando até a pingar no chão, como se os fungos nascentes das bananas começassem a pesar, sendo, assim, expelidos, tudo sob a forma de um líquido meio mucoso, que grudava no chão, e eu percebi que parecia um muco quando passei o dedão em cima para dispersar o líquido e tentar diluir um pouco o fedor - sem sucesso.

Sentei-me à janela até o dia amanhecer.

Quando já eram umas 8 horas, o sol forte me batendo na cara, e eu ainda impassível olhando pela janela a rua vazia, ouvi o telefone tocar. Era Mariana, uma amiga doutros tempos querendo saber se eu organizaria algo, se cantaria parabéns. - Não, não vai ter nada disso - eu lhe falei. Como ela quisesse sair, e se importava mais comigo hoje do que se importara nos anos anteriores em que nos conhecíamos, eu topei. Mas o programa terá que acabar cedo, porque eu já havia combinado outro, com outra garota, para mais tarde. Ela aceitou.

Fomos ver uma peça de teatro dos meus alunos, que estavam em temporada, se apresentando toda semana numa casa de cultura da Ribeira. Eu já havia assistido na noite de estréia, e havia achado muito bom. Porém, assistir pela segunda vez não foi tão bom assim. Vários erros, cortes de luzes, falta de sincronia na cenografia, o espetáculo foi um fracasso tão grande que achei que a razão era o fato de ser meu aniversário, eu, um pé-frio dos piores.

Quando comentei a peça depois com a minha amiga, ela disse que não havia notado nada disso. Fiquei pensando se esses erros não foram frutos da minha imaginação. Embora ela discordasse, eu insistia:

- Pois eu vi muitos erros.

- É que sua chatice é potencializada no seu aniversário, seu bobo - disse.

Talvez tivesse razão.

- Estou brincando, viu - disse-me rindo.

Eu sei que ela não estava brincando.

Apesar do meu ar abusado, ainda conversamos algum tempo. Fomos comer uns sanduíches em alguma lanchonete. Ela me contou que dali estava pensando em visitar o namorado e me perguntou o melhor caminho para ir à casa dele. Eu não disse. Proseamos bastante até que chegasse sua hora, e eu agradeci pela companhia. Antes de sair, ressaltoub que ninguém mais aceitaria um convite meu para sair no dia do aniversário, e eu concordei, porque ela dizia mesmo a verdade.

Depois que ela foi embora, fui para um barzinho no meu bairro ver se encontrava lá uma outra garota, essa um pouco mais velha que a Mariana, inclusive mais velha também do que eu. Ela dançava no boteco e eu, cliente velho, talvez ganhasse umas carícias a mais sem precisar pagar, por ser aniversariante.

Como ela não apareceu e um trio de alcóolatras me viu ali sozinho, fui convidado a me sentar com eles. Eu preferia ficar na minha, contudo tanto insistiram que fui lá e troquei uma conversa rápida com o grupo. Eles já sabiam que eu esperava a rapariga do bar. Estava mesmo na cara.

- Pois é garoto, deu azar hoje! - Disse, gritando, o mais velho deles, o que tinha mais mal-hálito.

- Dizem que ela é uma grande chupadora, é verdade?, perguntou-me um outro.

- Ela é uma tagarela, eu falei. Isso faz com que pratique mais a língua que a maioria das mulheres.

Depois de umas risadas, um dos três velhos ainda sentenciou: - é, só que as mulheres que falam muito geralmente pensam pouco.

- Isso também vale para os homens, respondi.

Não fiquei muito tempo no bar. Tomei apenas umas pequenas doses de cachaça e fui embora, comprei uma pequena garrafa da mesma cachaça para continuar a beber sozinho em casa. Quando estava me acomodando, percebi, na cozinha, que haviam duas pizzas lá, e um bilhete. A minha mãe havia passado enquanto eu estava ausente, e como ela tem a chave - não sei como, eu nunca dei -, deixara essa pequena surpresa. Deixei para comer no dia seguinte, peguei um copo e me sentei à mesa, com os dois braços sobre ela, à luz baixa do abajur. Sorvia o álcool em doses homeopáticas e silenciosas. Lamentava cada gota que tragava, ao ver a bebida sumindo e sumindo e sumindo. Quanto mais eu a possuía, mais eu a perdia, como foi também com todas as garotas que tive. Depois de um momento impassível, passei a beber num ritmo cavalar, desfocando minha atenção de todas as outras coisas do mundo, ignorando meus sentidos que começavam a perder forças, mas sentindo um prazer inebriante e incomparável. Até que só me restassem, no fim, o copo vazio e a solidão.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Outsider post

Bem, enquanto não vem um novo conto no Literatura Vil (estou trabalhando nos textos inéditos para a revista que produzo, fase em que fico mais negligente no blog), postarei uma brincadeira que me foi enviada pela Ingrid Caroline, uma doce companhia virtual, além de dona do blog Enjoy of Silence (aprecie o silêncio), apontado logo ali no menu lateral.

A brincadeira consiste em responder um pequeno questionário... friso que, como não costumo distribuir selos, desafios ou afins aqui no blog, darei fim a esta corrente, ignorando a última regra, que pedia para distribuir para outros dois blogueiros.

Ademais, eis os temas:

I. colocar uma foto individual nossa;

II. escolher uma banda/artista;

III. responder às questões somente com títulos de canções da banda/artista escolhido;


I - A foto
É verdade que nunca postei uma foto minha aqui, à exceção daquela que fica exposta no perfil... contudo, não tenho mesmo muitas fotos... mas já que a idéia é fazer um momento de descontração e quebrar o clima rabugento do blog, vai uma foto fofa e sorridente:


II - escolher uma banda/artista
Não tem segredo... a minha banda favorita são os Engenheiros do Hawaii (ênfase para a formação clássica, 1987-94)...

III - as respostas (com nomes de músicas, lembrando)

3.1- Es Homem ou Mulher? Humano Demais

3.2- Se Descreva: Nau à Deriva

3.3- O que as pessoas acham de vc? Nuvem Passageira

3.4- Onde queria estar agora? Longe Demais das Capitais

3.5- Uma frase: Somos quem Podemos Ser

3.6- Como é a sua vida? Cinza

3.7- Namorando, Casado ou Solteiro? Ando só

3.8- O que pedirias se tivesse só um desejo? Luz.




terça-feira, 25 de novembro de 2008

Fim do expediente

Hoje eu vi um velho feio, cabeludo e desdentado, e me lembrei de um outro velho, igualmente cabeludo e desdentado, mas bastante mais feio, o Seu Dinei, um funcionário público aposentado que conheci há uns anos. Eu trabalhava, na ocasião, em um balcão de empréstimo pessoal. Na verdade, isso foi no meu primeiro dia de trabalho. Durante algum tempo, meu lugar era na rua, distribuindo panfletos de uma firma que trabalhava nesse esquema, até ganhar a oportunidade de trabalhar lá dentro, fazendo os negócios, um relativo avanço, trabalharia sentado, no ar condicionado. O Seu Dinei, o meu primeiro cliente, por assim dizer, estava perdido na vida, atolado de dívidas e pensões. Até que ele entrou no salão onde eu trabalhava e se dirigiu à minha pequena cabina.

Eu me lembro de quando cheguei no primeiro dia e sentei na cadeira que seria minha a partir dali, no computador que seria meu, no balcão onde eu passaria a maior parte das horas do meu dia. Umas sete, oito, nove, ou mais, dependendo das horas extras. Ainda estava em fase de testes. Passaria umas duas semanas nessa. Poderiam me tirar a qualquer momento se lhes desagradasse. Mas, estava decidido a tentar. Enquanto não começava o serviço, ficava na internet, onde o histórico das navegações e as pastas salvas ainda denunciava parte da personalidade da garota que ocupava o lugar até o dia anterior, a Fabiana. Sites de perfumes, loções e fofocas, episódios de novelas gravados, música de araque. Até o banco ainda me parecia quente. Não pensei mais nela depois disso. A dita cuja havia sido demitida acusando o patrão - um galante de 1,90m chamado Vasconcelos, um nome de velho, mas ele era bem jovem, devia ter menos de trinta, talvez uns três anos a mais que eu - de assédio sexual e sendo ridicularizada pelas que outrora se auto-afirmavam as melhores amigas da "Bibi".

Aproveitei e dei uma personalizada na mesa, tinha um porta-retrato vazio e eu coloquei nele uma foto, uma 3x4, era a única que tinha... e fiquei lá navegando por sites de literatura e notícias. Ainda não estava acostumado à idéia de trabalhar com essas negociações, mas era uma oportunidade qualquer e eu tava lá tentando tascá-la. Enquanto lia bobagens no computador, ouvi uma voz fanha vindo de cima pra baixo, a me dizer bom dia.

Quero dinheiro, prosseguiu, e quero agora. Era o Seu Dinei, a quem depois conheceria melhor. Parecia nervoso, mas mantinha o estilo coronel, me fazia lembrar um velho tio, que vivia no sítio. Aguarde um pouco, basta passarmos por alguns procedimentos, eu falei. Eu estava empolgado em conseguir fácil fácil a minha primeira comissão. Mas depois de consultar a vida financeira do velho, percebi que não havia margem para muita coisa. Mas é por estar fudido que eu venho pedir dinheiro emprestado!, ele falava, meio cochichado, mas quase elevando a voz. A minha única alternativa foi oferecer-lhe um plano onde ele receberia menos dinheiro, mas concordaria em pagar mais parcelas e juros mais elevados. Era um plano muito desvantajoso - como todos os outros - para o pobre coitado, mas absurdamente mais proveitoso para mim, que não lhe ofereci na primeira oportunidade por não sentir ainda a devida confiança em manobrar a baixa auto-estima alheia. Mas ele não concordou e foi embora, levando apenas um panfleto da firma e meu cartão com a oferta anotada.

Instantes depois, viriam outras pessoas, entre professores, assistentes administrativos, militares, ex-professores, ex-assistentes administrativos e ex-militares, alguns fazendo planos, alguns não. Percebi que o negócio se encaixava para mim perfeitamente. Faria sucesso trabalhando com empréstimos. Depois do almoço, quando voltei para a minha cadeira de um azul fubento, o velho reapareceu. Pensei muito, ele gritou ainda da porta do salão e continuava a falar enquanto se aproximava do balcão. Acho que vou aceitar a oferta sim, dizia. Vai se dar muito bem, senhor!, menti, na maior sem-cerimônia. Ele era rápido na assinatura de papéis, e à medida em que assinava os vários formulários, eu sentia em paralelo o mesmo que senti com os outros, um êxtase profundo, uma sensação de conquista! Depois que ele se foi, eu não quis atender mais ninguém. Até veio uma loura deficiente física, tinha uma escoliose acentuada, andava curvada em quase 30 graus, algum absurdo assim. Mas eu já tinha me decidido não atender mais uma pessoa sequer. Danielle, pega essa aqui, pedi, apontando para a cliente. Já estava dado por satisfeito fazendo hora lá quando o Seu Dinei apareceu mais uma vez na porta, e disse, se dirigindo até mim, você é um bom garoto, venha beber algo em minha casa quando terminar o expediente, moro aqui perto, e falou o endereço.

Eu, claro, aceitei o convite e fui visitá-lo. No endereço especificado, não tinha quase nada. Só tinha resto. Resto de um casebre. Nem se compara aos casarões daquela rua, a Rua Princesa Isabel, uma rua muito antiga do Centro. Foi o que me restou, a mulher me fudeu, lembra que eu falei que estava fudido?, apressou-se em dizer, me convidando para entrar. Lá, me ofereceu um conhaque, nunca fui lá muito chegado a conhaque, no entanto esse era até bom - aliás, muito bom -, um tal V. Brandy, mas depois que eu conheci o Macieira através de um amigo, não alterei mais a preferência. Enquanto o Brandy descia oleoso pela garganta, o pobre Dinei falava de sua coleção de fracassos. Estávamos sentados na sala, eu no sofá, meio perplexo com alguma coisa, segurando a caneca um pouco inclinada e olhando fixamente para a bebida, como se tivesse algum receio surreal de que ela desapareceria dali, e ele na sua poltrona rasgada largado. O ambiente era hostil, as paredes estavam todas rachadas e o lodo verde vinha subindo pelo lado que recebia água da chuva. Faltava até reboco em algumas partes, a infiltração era absurda. Seu Dinei era professor universitário, mas foi escanteado e expulso da Universidade por cometer algumas contravenções, e estava aposentado por lecionar nas modestas escolas públicas do município. A ex-mulher e o filho lhe comem, com a pensão e outros pormenores, 80% de sua renda. Seu Dinei nunca poderia pagar a dívida do empréstimo. Provavelmente, já nem lembrava onde estava algumas poucas centenas de reais que lhe ofereci astutamente. Cheguei a lhe oferecer o cancelamento do contrato; ele não deu atenção. Continuou em seu delírio particular. De seu passado, só restava um cachorro pulguento lambendo-lhe os pés. Seu Dinei dizia ser feliz. Quando chegar o fim, darei os olhos, os cabelos e o sangue para quem precisar, falava.

Eu não acreditava nessa dita felicidade. E não fui trabalhar no dia seguinte, nem nos demais.


quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Com um nó no estômago

Acordei no sofá, com as costas doendo, como sempre. Era o prenúncio de um mau dia, como são todos os outros dias. A TV estava ligada, e eu vi o viaduto por onde passo todo dia em direção aos trabalhos, faculdades e outros tormentos. O viaduto estava em segundo plano, em primeiro estava uma repórter bonita mas totalmente sem sal dizendo que o tempo estava nublado, mas que não choveria. Eu me levantei com muito esforço, sendo meu sofá bem rústico e duro, é péssimo para dormir... todo o corpo estava em cacos... peguei um copo de água e fui para a janela ver as pessoas passando na rua... fico olhando a rua em frente, os estudantes, os operários, as mães com suas crianças, todos seguindo em direção a algum lugar, seguindo até o fim da rua, seguindo até sumirem no horizonte, e eu quase morri nesse tédio.

Tomei um banho rápido e enquanto me vestia silenciosamente, o telefone tocou. O telefone residencial. Nunca havia passado o número para ninguém e ele agora estava tocando. Levei um susto, fiquei meio paralisado por segundos. Depois, ignorei. Continuei a vestir-me. Não queria atender. Não tinha nada a dizer, não queria ouvir nada, também não queria sair de casa. Por que era obrigado a atender essas exigências bobas? Tentei pôr mais pressa enquanto me arrumava, pois o telefone não parava de tocar e eu já estava incomodado. Mas antes que eu saísse de casa, ouvi o ônibus passando à frente. Foi-se rapidamente, e eu teria que esperar o próximo. O próximo, eu sabia, não passaria nos 40 minutos seguintes. Sentei-me no sofá com as mãos tapando o rosto... estava puto! Perdi a hora justo quando não devia... tinha uns exames de sangue para fazer. Tive que ligar para a moça do consultório.

- O que deseja?

- Quero remarcar o meu exame de sangue para amanhã.

- Para amanhã não será possível, pois...

- Então - interrompi -, quero remarcar para depois-de-amanhã.

- Também não será possível, senhor.

- Tudo bem, quando há uma data disponível?

- Infelizmente, não há mais datas disponíveis. O doutor fará exames até sexta e entrará em licença até o ano que vem. Você pode tentar...

- Não, não vou tentar mais nada, obrigado.

Eu estava agora com uma pilha de exames incompletos, e para tê-los todos teria que esperar até o ano que vem... horas e horas marcando consultas e fazendo exames de raios X para terminar nisso... desisti. Como já estava com a necessidade de sair de casa para compromissos outros, como dar aulas, e precisaria me deslocar mesmo assim até o Centro, decidi ficar vestido como estava, mesmo que só fosse sair depois do meio-dia, portanto dali a umas quatro horas. Cochilei no sofá enquanto isso e pus o despertador para alarmar exatamente ao meio dia.

Nesse dia, só duas aulas. Daria cinco, mas só dei duas, o restante das turmas saíram, foram participar de alguma atividade interativa da escola, e eu fiquei livre mais cedo. Ao menos algo para agradar o meu dia. Saí de lá e fui para a parada de ônibus. Mas estava havendo uma passeata de uns servidores públicos, funcionários da Saúde, e estavam fechando a avenida pela qual os carros vinham. Como o trânsito estava desregulado, precisei pegar a condução em outro lugar. Escolhi uma outra parada, mas não tinha certeza de que o ônibus passava lá. Esperei dez minutos e saí. Fui para uma outra parada, onde esperei mais dez minutos e nada. Cheguei na Avenida Rio Branco, onde tem mais quase quinze paradas de ônibus, e eu tinha que adivinhar em qual delas o meu ônibus parava... Como vi que seria difícil, decidi aproveitar o tempo que estava no Centro para fazer algo. Fui à biblioteca do Sesc, ali por perto.

Apresentei minha carteira de sócio na entrada e fui procurar uns livros. Procurei, procurei e nada encontrei. Decidi ir para a mesa de revistas. Enquanto folheava lá algo sobre a rodada do Campeonato Brasileiro no fim-de-semana anterior, uma funcionária veio ao meu encontro:

- Com licença, este é você? - perguntou, mostrando-me um formulário que continha meu nome, foto, dados e uma listagem de dois livros que eu tomara emprestado meses antes.

- Sim, sou eu. Apresentei minha carteira de sócio ao entrar.

- Claro, senhor. É que há dois livros da biblioteca que estão emprestados a você, e estão atrasados.

- É mesmo?

- É sim, um do Rubem Fonseca e um do... deixe-me ver, Ernesto...

- Ernest. Ernest Hemingway.

- Pois é isso mesmo.

- Olha, eu mandei um email recentemente para saber a quantas andava a minha situação aqui.

- E não obteve resposta? - ela parecia intrigada.

- Claro que não... Ninguém responde nada. As pessoas só ouvem o que querem ouvir, e dizem o que querem dizer. Ninguém mais sabe perguntar nada, assim como ninguém responde nada também.

- Mas, veja bem, os livros não são seus e...

- Ué, claro que são! Sou eu naquelas histórias! Hemingway me roubou, roubou a minha história e a minha personalidade para fazer aqueles contos! Acredite, boa moça, se ama mesmo a Literatura, aqueles livros estão melhores comigo do que aqui esquecidos nessa biblioteca decadente.

- Você tem dez dias para trazê-los, não digo mais nada - e me deixou em paz.

Depois que li todos os comentários sobre o economia e o futebol contemporâneos, saí, meio indisposto de continuar vagando, fui para uma parada de ônibus na qual sabia que meu ônibus pararia; para tanto tive que andar muito, cerca de meia hora. Peguei o ônibus e cheguei em casa, cochilei, bebi mais água, abri uns emails, li emails antigos, e percebi que havia muito mais emails ainda para trás... emails que nunca deletei em quatro ou cinco anos de uso ininterrupto de internet.

Comecei a ler e a deletar, e deletar, e deletar. Enquanto deletava ainda relembrava muitos, ainda via neles boas e más lembranças, sentia que estava estourando bolas de encher, preenchidas de emoção. Enquanto deletava, imaginava isso como uma versão moderna da coisa de queimar cartas, lê-las e jogá-las na lareira enquanto o rosto expõe faces de alegrias e decepções. Passei coisa de seis ou sete horas nesse rito, do fim da tarde ao início da madrugada, e já me sentia muito pesado por tanta carga emocional reavivada nesse momento - uma carga pesadíssima, registrada em doses homeopáticas, agora rememorada em escala industrial. Desisti de deletar os emails, só sobraram alguns poucos do passado. Estava querendo dormir, e fiquei com isso na cabeça. Reconhecia o meu rosto íntimo, dissimulado, de quem sai para a rua disfarçado com o próprio corpo. Pensei em refazer coisas, mas era impossível, a vida é uma permanente construção; mesmo quando se destrói, ela se está construindo. Eu pensei nisso depois que li um deles, que escrevi há bastante tempo não lembro para quem e nem cheguei a enviar, ainda que fosse um email-resposta. Estava lá salvo na caixa de rascunhos do servidor. Em letras mal-formatadas, eu só adormeci depois de pensar bastante após reler tais palavras:

eu estava vendo e aprendendo algo sobre o escorpião, sobre a tendência regenerativa desse ser que se manifesta num impulso destrutivo, para reconstruir a vida permanentemente, e fiquei pensando nisso que você falou, que a vida é sempre um andar para a frente,mesmo que trôpego e cambaleante, e já não dá retorno possível para o passado. fica tudo se acumulando no altar do esquecimento. eu que só queria acordar sem esse nó no estômago. queria qualquer coisa doce, já que ando cada dia mais azedo. qualquer coisa que fosse como um deslumbramento ou um abraço. mas nada disso virá, a gente sabe. tudo se vai.

que merda.

até amanhã... quanto a depois, logo se vê.


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

30 dias na escuridão

Eu bebia muita água quando acordava. Não tinha mais nada na geladeira. Além disso, a água era quente; toda noite eu passva no escuro, pois constantemente faltava energia no meu quarteirão, numa freqüência diária rigorosíssima. Isso se deu durante um mês. A energia acabava no início da noite e voltava pouco antes do amanhecer. Não era tempo, portanto, de a água da geladeira sequer ficar gelada.

Nessa época, eu trabalhava numa peixaria. Descarregava caminhões levando sacolas e sacolas enormes de peixes nas costas para um galpão na Rua Rio Madeira. Não me restava nada além. Não tinha outro emprego, não estudava, tinha saído de casa e não me restavam alternativas. Dentro daquelas condições, aquele emprego me parecia precioso. Fui cínico às alturas na primeira conversa que tive com o tal do Correia, Senhor Correia, que comandava o negócio ao lado de sua mulher.

- Qual sua experiência? - Perguntou-me.

- Toda.

- Já tem experiência nisso, em transporte e guarda de carga?

- Claro. Mas aqui não se trata de carga, e sim de peixe.

- É a mesma coisa, garoto.

Parou, deu uma telefonada, e uma mulher baixinha e formosa - sua esposa - entrou, forneceu-lhe uma cartela de cigarros, e, sempre olhando de soslaio para mim, saiu. O chefe chegou a me oferecer, ao que recusei, e acendeu um para si, dando uns cinco tragos antes de voltar à conversa.

- Você não me parece um cara forte - disse, com cabeça virada para o teto e os olhos voltados para mim.

- É verdade, mas dou conta.

- Não aceitamos aventureiros de primeira viagem. Você já tem experiência em carteira assinada antes?

- Tenho sim.

- OK, entraremos em contato.

Fui embora com a certeza de que não entrariam em contato, e que essa entrevista seria somente uma a mais na minha lista. Mas ao acordar no dia seguinte, às 9 horas, percebi que havia acabado de receber uma mensagem de celular:

VOCÊ FOI ACEITO PRO CARGO, TERA UM MES DE ESPERIENCIA E DEPOIS ASSINAMOS SUA CARTEIRA. COMPARESSA AS 8H DESTA QUARTAFEIRA NA CASA DO PEIXE, RUA RIO MADEIRA, 481.

A mensagem havia chegado de madrugada. Fiquei me perguntando porque aquela convocação tão impessoal. Poderiam ter mandado carta, ou telefonado, ou qualquer outra coisa. Uma mensagem de celular, com todos aqueles erros gramaticais? Sem falar que, à hora que li, já estava atrasado em uma hora. Só fiz beber água e fui, não escovei os dentes nem tomei banho, apenas lavei o rosto e me dirigi ao galpão onde trabalharia.

- Está uma hora e meia atrasado - disse-me o Sr. Correia, na porta do galpão.

- Desculpe, só recebi a mensagem agora há pouco... sabe como é essa tecnologia...

- Você só me verá novamente no dia da assinatura de contrato. Minha esposa cuidará de tudo que precisar. Ao trabalho.

- Responda-me uma coisa, por favor: por que me mandou a mensagem de madrugada?

- Porque foi à madrugada que decidi contratá-lo.

Ainda me questionei o que o houvera feito decidir, à madrugada, pela minha contratação, ele que deveria ter recebido pelo menos uns vinte perdedores no dia anterior. Fui ao trabalho, pesadíssimo demais, hei de considerar. Os outros rapazes não compreendiam bem a minha presença ali. Eram praticamente todos másculos, velhos, casados e banguelas. Eu não era nada disso. Era pequeno, truncado, notava-se pelas minhas mãos que nunca havia pego no pesado. No início me ignoravam. Diziam, soube depois, que achavam que eu era algum funcionário do patronato, uma espécie de espião. Passaram a ser mais rigorosos comigo, só pela maldade. Quando chegou a primeira camionete com peixes, fui ao estacionamento descarregar. Só tinha três caras pra fazer isso aquela hora.

- Espera o caminhão que vai trazer os cantilados, é dele que você vai descarregar - disse-me um dos outros dois.

Fiquei sentado e em menos de dez minutos viria um caminhão com novo carregamento. Mas se tratava de carregamento mais pesado - era por "cantilado" que chamavam. Sofria para carregar os sacolões nas costas, enquanto escutava pequenas risadas dos demais, risadas que passaram a ser altas e propositalmente constrangedoras com o passar dos dias.

Os funcionários reclamavam que eu era lento e não acompanhava o serviço deles. E realmente era impossível para mim. Fui, então, chamado à administração, já no terceiro dia.

- Estou fazendo um ótimo serviço - falei.

- Tenho certeza - falou a mulher do outro lado do balcão, a Sra. Correia - "mas pode me chamar de Marta, ou Martinha!". Ficou parada me analisando e depois fui dispensado.

Nos dias seguintes, tentei ser mais veloz no trabalho, mas ainda sentia muito o peso do peixe. Além do que, também me alimentava muito mal. Bebia água de manhã, trabalhava nove horas por dia, sem almoçar, pois não tinha dinheiro suficiente até receber pelo primeiro mês e aproveitava a hora do almoço pra tirar um cochilo. No fim do expediente, ia tomar um café em algum bar, comprava uns biscoitos e comia em casa, no sofá, enquanto vislumbrava a sala escura, praticamente todos os dias, pois nunca houve luz à noite nesse período.

Fui chamado outras duas vezes à administração. A segunda delas, no 28° dia. Até que eu tinha suportado demais.

- Eu gosto de você. Mas você precisa colaborar - disse-me, com ar de compreensão, a Marta, ou Martinha. Eu não sabia que ela gostava de mim, mas ela devia gostar de todos os outros caras que trabalhavam no galpão, imaginei.

- Olha, não gosto de nenhum dos outros, só de você. Esses coroas musculosos, nojentos e mal-educados também não trabalham direito, apenas reclamam de alguns bobos como você, e eu preciso chamá-lo para dar a entender que estou dando bronca. Mas eu não estou dando bronca, entende?

- Entendo.

- Mas eu percebo que você tem alguma classe, você não fala com esses brutamontes - disse, e sorria enquanto falava. Eu estava impassível.

- Escute - prosseguiu - foi graças a mim que você entrou aqui, eu quem pedi para meu marido.

Enquanto dizia isso, Martinha se levantou da sua cadeira. Tinha abandonado o ar maternal e agora estava mais cortejadora.

- Não quer sair comigo na próxima sexta, no fim do expediente? Podemos ir a algum bar, e depois lhe dou uma carona até sua casa.

Tava muito claro que a Martinha estava se oferecendo pra mim, mas eu não queria. Não gosto de mulheres mais velhas, e ela era bem mais velha, tinha uns 48, conforme bisbilhotei no primeiro dia numa ficha que tinha na mesa de seu marido, contendo dados dos dois. Esqueci tudo, menos a idade deles: ela tinha 48, e ele também. Ainda que no caso dela parecesse menos, bem menos.

Eu não queria recusar o convite da Martinha, pois sabia que fatalmente perderia a minha vaga se o fizesse. Topei, então, de maneira bastante convicta e efusiva, como quem sabe que a noite iria além de uma carona. Ela ficou empolgada.

Mas a sexta seria meu 30° dia na empresa e o Sr. Correia apareceu e mandou me chamar. Eu estava com documentos em punho, e até esperava que o lobby da Martinha ajudasse algo na minha contratação. Mas eu sabia que seria difícil.

- Espera aí, cadê sua experiência? Sua carteira de trabalho está em branco!

- Bom, na verdade não tenho experiência alguma.

- Como assim? E mentiu pra mim? E minha mulher falando tão bem de você...

- É uma boa mulher.

O Sr. Correia provavelmente não gostou do meu comentário e me mandou embora. Finalizou a conversa com uma indelicada despedida, não sem antes oferecer um cigarro, novamente recusado.

- Pegue um cheque com o pagamento desse mês e saia daqui, suma, não volte nunca mais.

Fui embora sem sequer terminar o expediente. A Martinha devia ter me procurado um bocado no galpão, sem sucesso. Fugi dela, literalmente. Não tava pra romances clandestinos. Recebi muitas mensagens de celular e alguns telefonemas, todos ignorados. Pouco depois dos 30 dias que passei na peixaria, curiosamente o problema da energia elétrica no meu quarteirão seria definitivamente resolvido. Isso me leva a pensar que essa foi uma fase bem negra e obscura da minha vida. Com toda razão.

domingo, 2 de novembro de 2008

Tá na Cara!, uma ode à Literatura

Em resumo, minha relação com garotas não se compõe de parcerias, mas de cumplicidades. Noventa por cento delas me afirmou, com doce voz, que pretendia esquecer o que ocorrera. Já eu, eu sou homem e, como tal, jamais afirmarei para a garota que a esquecerei. Contudo, tampouco a questionarei se essa for sua vontade.


O recorte acima foi retirado do conto inédito "Acompanhados e Sozinhos", exposto na revista Tá na Cara!, cuja segunda edição foi lançada essa semana com louvor. Nosso projeto (meu, de Ângelo Girotto, de Maíra Mendonça e outros amigos e aprochegados) de criar uma mídia própria que apresente um jornalismo experimental, uma revista de arte, de Literatura, um meio de comunicação artesanal e respeitoso para com a inteligência do leitor, tem avançado a passos largos.

Em questão de meses depois de publicada nossa primeira edição (a revista é trimestral), a Tá na Cara! já foi protagonista de matérias televisivas locais (na TV Cultura e na TV Assembléia) e já mereceu uma palestra na UFRN, onde o conhecido e carismático "professor Bira", um dos ícones do curso de Comunicação Social, destacou nosso trabalho como a "principal revista de jornalismo literário do estado".

Essa revista traz ainda novos colaboradores, como a ilustradora Ana Luísa "Analoo" Medeiros, estudante de Arquitetura, e o Pablo Capistrano, professor de Filosofia do Direito e Ética da FARN (Faculdade para o Desenvolvimento do RN) autor de alguns destacados livros, sendo o principal Pequenas Catástrofes, re-editado pela Editora Rocco.

Nesta edição, produzo, entre matérias e contos:


Natal, a Cidade do Sol e dos Supermercados
- artigo sobre a invasão das lojas de departamentos, nacionais e estrangeiras, nas incautas terras papa-jerimuns.

As Antigas Faces de Natal - Matéria onde falo de bairros e lugares malditos da cidade (Ribeira, Rocas, Cidade Alta, Rua Chile, Beco da Lama...), escrita numa seqüência de dias onde me fiz presente no cotidiano de tais pontos gradativamente esquecidos, em longas conversas com bebuns e donas de bares.

Acompanhados e Sozinhos - Conto inédito publicado em minha coluna fixa, que, por falta de imaginação ou por qualquer outra coisa, leva o nome deste blog.

Aos natalenses que freqüentam este blog, a revista custa 5 reais e tá presente nas principais bancas da cidade, bem como nas livrarias Potylivros e Siciliano. Aos não-natalenses, infelizmente não temos ainda um sistema eficiente para envio das revistas, por isso não trabalhamos além da Região Metropolitana de Natal e Mossoró por ora. Qualquer coisa, no entanto, se houver alguém que tenha interesse ainda assim, podem entrar em contato (leonknunes@yahoo.com.br) que discutiremos uma forma de pagamento e o envio.



PS: a matéria de capa (Operação Impacto - nossa grande vergonha municipal), escrita por Ângelo Girotto, trata do escândalo municipal protagonizado pelos vereadores (13 dos 21 foram comprados pelas construtoras no ano passado e estão sendo investigados pelo Ministério Público na chamada Operação Impacto. 6 deles foram reeleitos).

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Solução para concluir um roteiro

Por que eu não consigo escrever nada?

Comecei a trabalhar em mais um roteiro, solicitado por um amigo, um estudante de Cinema, um diretor amador, em troca de algumas notas. Tava tudo pronto, até comecei a escrever uma boa história de início, era para um média-metragem, onde eu explorava o comportamento masculino depois de uma noite de amores quentes com mulheres conhecidas ou desconhecidas. Escrevi o primeiro caso, um homem que se divorciava e, após oito meses sem contato com o mundo feminino, cuidando para adquirir novos hábitos, deixou de fumar, de beber, ele então encontra a ex-mulher num metrô e, nessa primeira noite, ele volta para sua antiga casa. Todo o serviço sexual é completo, os dois transam como felinos irritados durante toda a madrugada, até que, num dado momento, naturalmente, ele cansa. E se vê deitado na cama com sua ex-mulher, figura feminina que ele passou a odiar com o passar dos anos. Ele bem sabia que o que sustentara seu casamento durante oito anos foi justo a bebida, o cigarro, um baseado depois da foda; e agora, ele não tinha nada disso. Foi o pior momento de sua vida.

Parei por aí. Não me lembrava, na verdade, do que havia escrito, e não lembrava se estava bebendo enquanto digitava. Mas quando acordei e notei o computador ligado, percebi isso, que não havia avançado muito na história. É incrível, tudo não passava de duas páginas de texto. Eu só poderia ter sido sacaneado, alguém roubou meus textos.

Fiquei irritado e chamando palavrões pela casa! Como eu não conseguiria ter passado de duas míseras páginas de roteiro? - e, destacando que o roteiro tem uma formatação diferente do usual, então eu sequer havia chegado em duas páginas! Sentei-me para dar continuidade à história puto da vida! Mas... Nada saiu!

Fiquei pensando no que me teria me causado aquela procrastinação. Percebi que há tempos eu não escrevia. Nem roteiros, nem contos, nem absolutamente nada! Não tinha nenhum estímulo. Pensei em beber, mas não tinha dinheiro, e fatalmente no bar da esquina, onde eu havia pego uma briga na noite anterior, eu não seria bem recebido - talvez no dia seguinte. Pensei também em fumar, mas por que fumar? Eu nem fumo! Detesto cigarros... fiquei, então, com esse bloqueio perdurando toda a manhã, com a barriga vazia e as mãos sustentando minha cabeça que tentava se aninhar nos meus braços por uma vergonha própria!

Então começaram a gritar, bater palmas, lá na porta da frente. Já era meio-dia e eu não tinha aberto uma fresta sequer de janela porque não queria ser incomodado, mas é incrível como as pessoas não respeitam uma casa fechada! Abri a porta e, com os olhos quase fechados, ofuscados pelo dia claro e reluzente, vi duas garotas: uma morena clara, muito charmosa, de cabelo curto, acima do pescoço, e uma branca, com um longo cabelo loiro, que não era tão bonita, ficava com a cara fechada todo o tempo. Do outro lado do portão, elas estendiam a mão e me chamavam para oferecer uma pequena papeleta.

- Oi! - disse a morena - Sou Juliana, esta é Lúcia, queríamos convidá-lo para a inauguração da Igreja do Jardim, terá uma festa para a comunidade, que fica ali no...

- Igreja? - Interrompi. - Desculpe, não sou cristão...

- Mas venha, venha sem compromisso, é uma festa, você vai gostar - até agora somente a Juliana havia falado.

- O que é isso, um grupo de jovens? - perguntei, apontando para uma foto que tinha no panfleto, com várias crianças e adolescentes sorridentes.

- Sim, é o nosso grupo - disse a outra - , você também pode participar, eu acho. Quantos anos tem? 25? Olha, então acho que pode participar sim...

Eu respondi que tinha 25 para me livrar do convite, não passo de 22 de fato... mas o plano não deu certo.

- Apareça! É ainda hoje, lá pelas 19h. Esperamos você! - disse a morena, dando uma piscadinha e saindo sem olhar para trás, mas com a certeza - eu aposto - de que sua bela nuca seria seguida atentamente até onde minha vista alcançasse.

Entrei e tranquei tudo novamente. Joguei a papeleta e fui procurar algumas coisas que me fizessem abrir a mente para escrever. Procurei numa estante alguns filmes que ainda não tinha assistido. Saquei um filme alemão, que comprei quando comecei a estudar esse idioma. "Vamos ver o que temos aqui?"

O filme não tinha legendas, e eu já tinha perdido muito da minha habilidade com o alemão. Mas dava para entender perfeitamente o conflito na história. Homens amedrontados e uma bela mulher que tinha uma deficiência física natural - ela tinha dentes na vagina, argh! Na minha inércia, terminei assistindo todo o filme e ficando ainda mais atordoado...

Peguei um livro pra ler, mas o livro não ajudava... estava cansado de ler e reler os mesmos livros. Peguei um do Fante, Pergunte ao Pó... que péssima escolha! Não bastasse eu estar em um tumulto por não conseguir nada escrever, o Arturo Bandini, personagem do livro, estava nitidamente com um interior mais tumultuado do que eu!

Às 19h, eu ainda andava para lá e para cá pela casa, quando reparei no pequeno cartaz de convite para a festa. Estaria meio atrasado se fosse para a inauguração da igrejinha, mas acho que valeria a pena. Fiquei pensando em reencontrar lá a Juliana, ela devia ter o quê?, uns 17, 18 anos talvez, era muito atraente e convidativa. Não poderia perder a oportunidade de reencontrá-la, eu mal saía pelas ruas do bairro, meu trajeto ali era só até o barzinho, não sabia nem se ela morava a um quarteirão de mim ou se era de outro estado. Quando pensei que meu problema para o bloqueio tinha um nome - garotas -, decidi me trocar e ir para a celebração.

Cheguei lá e enfim comi qualquer coisa, uns salgados, bebi algum refrigerante... Não sabia se já tinha ocorrido alguma solenidade, tipo missa ou sei lá o quê, mas estava rodando lá entre as mesas quando encontrei a morena, que já estava me olhando, com um sorriso maroto nos lábios. Eu me aproximei meio sem saber como fazer, mas já que estava ali não deixaria para depois... Conversamos um bocado, coisa de meia hora. Estava exageradamente perfumada. Como eu notasse que ela tinha um olhar de esfomeada quando olhava para meus lábios, decidi chamá-la para sair dali.

- Mora por aqui?

- Não moro não! Tenho até uma tia que mora aqui, mas hoje só vim para ajudar os irmãos na organização, sabe...

- Ah... devia aproveitar a estadia. A gente pode passear um pouco, o bairro tem uma praça bem legal ali...

- Prefiro ir a outro lugar!

- É? Onde? - eu sou mesmo um bocó...

- Sua casa, oras! Está vazia?

- Hmmmmmmmm, então vamos!

Na minha casa, ainda conversamos mais outro bocado. Ela estranhou chegar e ver o pc ligado, a música de Brahms a soar alto, papéis de texto impresso jogados no chão e livros na cama... Fomos pro sofá, era o jeito.

- Por que seu computador fica ligado?

- Porque se eu tiver uma idéia para escrever algo, não vou perder meu tempo ligando-o para digitar.

- E tá escrevendo algo?

- Sim, um roteiro sobre o comportamento masculino depois do sexo.

Ela ficou um pouco embaraçada, mas ficou curiosa:

- Qual é seu comportamento depois do sexo? - Perguntou.

- Eu pago a conta e vou embora.

Ela riu.

- Hoje não será preciso - disse, terminando o papo com esse cochicho, e subindo em meu colo, e me beijando, e tirando minha camisa. Quando tirei sua blusa e abri a fivela de seu sutiã, senti-me eufórico, logo me surgiram ótimas idéias, he!he!

A noite de transas e volúpias se estenderia por umas três horas, e terminou repentinamente quando, logo após chegarmos ao segundo clímax, ela recebeu um telefonema da tutora e no início da madrugada eu, ainda ensopado pelo nosso suor, precisei acompanhá-la até a Igreja, onde ela estava hospedada junto com parte do grupo. Voltei pra casa, ainda com idéias muito efervescentes na cabeça, dei uma relaxada na poltrona, fiquei a olhar para o teto uns instantes e depois me levantei, fui para computador e terminei o roteiro rapidamente - só o que me faltava mesmo era desopilar. Já totalmente saciado, fui tomar um banho, ainda estava com o corpo umedecido, e, enquanto me ensaboava tomado por uma agradável sensação de bem-estar, me veio uma dúvida, eu fiquei pensando quantos anos demoraria até que eu tivesse novo contato com uma garota. Foi o suficiente para fazer toda minha euforia descer pelo ralo junto com o suor e o perfume da Juliana.





quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Manuscritos

Tive um compromisso hoje com uma garota, uma dançarina. Fomos assistir a um espetáculo de dança guatemalteca. O que eu fui ver nesse lugar? Não sabia, mas até apreciei a dança. No começo, parecia sem-graça, mas de tanto ela me falar no ouvido, comecei a gostar.

- A dança guatemalteca é assim, parece tosca, parece chata, mas é como dançar forró... quem gosta não sabe explicar a beleza que existe no forró, né?

Eu ia acompanhando os movimentos no palco e os sussurros dela, quase adormeci durante a cena, só não cheguei a tanto porque o som era incômodo, e eu não consigo ficar totalmente à vontade com sons que me são estranhos, sobretudo quando se trata de músicas folclóricas, populares, de locais com os quais não tenho o menor elo.

Fiquei bastante pensativo, porque eu é que a tinha convidado para sair. Mas ela não queria sair por sair, e eu não tinha nenhuma idéia. Comigo é sempre assim, quando convido para sair trata-se, tão-somente, de sair mesmo, dar uma volta, sentar em algum lugar, uma praça, uma parada de ônibus, que seja. Mas ela não queria. Só sairia se fosse para algum evento, e depois voltar, necessariamente. Foi quando surgiu a idéia de ir para o espetáculo de dança. Terminado o espetáculo, conversamos um pouco, ela disse que estava tarde, teria faculdade no dia seguinte, levei-a pra casa, nos beijamos e fui embora. Ficamos juntos durante coisa de três horas, mas não tivemos nem vinte minutos de diálogo.

Na porta de sua casa, ela me disse que adorou. Eu lhe disse que também havia adorado. Mas depois que nos despedimos, senti que o dia não poderia acabar daquele jeito. Fui para um bar na Ribeira, porque é lá na Ribeira que estão alguns de meus bares favoritos. O problema é que ali os bares médios estão se tornando escassos pela proliferação de bares mais sofisticados, sobretudo nesses tempos em que a Ribeira tem se tornado mais um point turístico do que local de abrigo da boemia natalense.

Tive que me contentar com um bar novo por ali, até bem movimentado, situado na Rua Câmara Cascudo. Pedi uma cerveja e fiquei olhando ao redor. Várias pessoas falando alto em outras mesas, pessoas que se achavam muito interessantes, mesas que ocupavam toda a ruela. Muitas mulheres, já de idade bem avançadas, muitas garotas, mais novas do que eu. Todas brancas, reluzentes, limpas demais. Atraíam vários olhares, menos o meu. Eu olhava apenas para as garçonetes, como é hábito. Mas elas não davam muita atenção. Quando uma delas veio me atender, perguntei o que ela sugeriria e ela apenas me deu o cardápio, numa tentativa de ser simpática para o cliente. Não demorou, e vê-las correndo pra lá e pra cá com blocos de notas nas mãos me encheu o saco. Decidi sair de lá sem terminar de beber a cerveja e pedi a conta.

- Deseja mais alguma coisa?

- Não, obrigado...

- OK, muito obrigado e volte sempre - e virou as costas com um sorriso forçado.

Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.

Fui numa conveniência, comprei uma pequena garrafa de cachaça e fui para uma praça, um lugar sossegado, onde eu queria estar. Bebia e olhava para cima, para as estrelas por cima das árvores. Pensava em quanto estava gostosa a bebida e o momento. E matutava sobre o preço dessas tão simples benesses. Sobre a solidão e a distância que tenho das outras pessoas. Em contraponto, refletia sobre meu desejo de mudá-las, ou minha sensação de posse sobre ex-namoradas. Na verdade, com essas idéias eu apenas me distanciava delas cada vez mais.

Bebia mais algumas doses e me lembrava de outras coisas, coisas tão gerais, como economia, como política. No mesmo dia eu houvera estado numa reunião de partido, na qual fizemos mais uma avaliação negativa das eleições, conforme fazemos a cada dois anos. As eleições são um hiato na nossa história, nós, de um partido de pouca expressão local, recheado de pessoas que, como eu, se acham intelectuais, se acham militantes e se acham formadores de opiniões. A cada dois anos, mais alguns de nós "acordam" para a realidade e saem dessas tão desgastadas trincheiras de luta.

Novas doses e decidi que não daria a mínima para mais nada. Eu não era parte disso. "mal consigo diferenciar um Corsa de um Palio", disse-me certa vez um amigo, em forma de versos. Ele não era o único.

Senti vontade de chorar. Mas eu não choro há anos, e não seria ali que eu choraria, apesar da noite, apesar das estrelas, apesar da bebida.

Recebi uma mensagem no celular, um bip a quebrar o silêncio da nascente madrugada. Uma mensagem alegre, animada, alto-astral... era da garota com quem eu havia saído há pouco, a mandar beijos e abraços, a propor novos joguinhos de relacionamento. Eu sabia que essa euforia de sua parte duraria pouco.

Não me entristeciam nem me enraiveciam tais coisas. Eu não poderia me incomodar desse modo. A raiva não se ocupava de mim porque sei que nada ganho com isso. Não ficava triste porque triste já sou por natureza, a todo tempo. Apenas estou cansado disso tudo. Estou cansado de danças e de sorrisos à toa. Cansado das pessoas que se acham interessantes. E também estou cansado de jogos que não posso ganhar.


quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Enfrentando a onda onde muita gente naufragou

Vi há pouco no blog da minha parceira Iza que estava marcado pra hoje uma "blogagem coletiva em defesa do voto consciente". Eu acho meio estranho essa coisa do voto consciente, porque parece ser uma proposta no escuro. O que é votar consciente? Não há resposta pra isso. É como aquela velho movimento: Basta, Eu quero paz!, tão disseminado pela classe média branca na orla carioca. Pra quem é esse "basta"? Ninguém sabe. Mas alguns se contentam com o discurso "politizado".

Não farei desta postagem parte desse movimento coletivo de blogs, mas aproveito a deixa para postar uma entrevista que três estudantes do 3º ano na escola onde dou aula (Atheneu Norte-Riograndense) fizeram a este que vos escreve. A entrevista, naturalmente, é sobre eleições.

Estou pondo o questionário pelo fato de estarmos no clima da política... Mas em dias devo estar postando um conto novo e jogando essa postagem lá atrás nos arquivos... Quanto à entrevista, ela foi um pouco mais extensa do que está aqui, mas eu cortei algumas perguntas menos relevantes. Ei-la:

Pergunta - Primeira pergunta: o que você acha mais importante nas propostas de um candidato? A defesa da educação?

Resposta - De modo algum! Meu primeiro critério é analisar o vínculo do cara com os movimentos sociais... Desde a primeira vez que votei. Aliás, o discurso da educação como mecanismo de mudança, como "único meio para salvar o Brasil" é uma farsa, devo dizer, muito bem cooptada pelo sistema. A educação não muda nada. Porque o problema da educação é, antes de tudo, parte de um problema político e econômico. Então, sou eternamente desconfiado quando vejo discursos ignorando os fatores político-econômicos e defendendo a prioridade do olhar gestor sobre a educação. Geralmente, é pura bravata, demagogia. Em outros casos, prefiro acreditar que é má-fé mesmo.

P - E no caso de Cristóvão Buarque?

R - O que você acha? O cara era Ministro da Educação. Depois se candidatou à Presidência com um discurso voltado novamente para a Educação... O que ele faria como presidente que não fez como ministro? Era muito mais fácil para ele fazer um bom trabalho na educação tendo o Lula, seu velho companheiro de partido, como presidente do que sozinho. Mas não; preferiu o caminho mais fácil e cômodo: a oposição. Hoje tá aí, voltou a votar com o PT em tudo que é matéria no Congresso, mas nem de longe tem a oportunidade que tinha antes.

P - Você não acha que a educação é importante?

R - Acho, mas acho que há questões mais importantes que a educação, porque a educação ruim não é a causa do problema, é a conseqüência.

P - Você não acha que os governantes precisam de pessoas analfabetas e sem qualificação para que eles continuem no poder manipulando-as?

R - Não existe isso. Desde quando boa formação acadêmica denota esclarecimento político? As teses mais conservadoras de nosso país existem justamente no seio das pessoas esclarecidas, na classe média alta, nos ricos. É risível esse tipo de coisa: "o governo quer todo mundo analfabeto para continuar controlando o povo". Ué, o povo é quem é menos controlável... Vê aí, os maiores movimentos que esse país já viu foram organizados pelas ralés... Hoje em dia, a classe média não organiza um movimento de futuro... Não consegue reunir nem 30 pessoas para gritar "Fora Lula". Onde estão esses críticos? A educação forma milhares de médicos, advogados, professores e engenheiros anualmente, mas esse pessoal é todo cooptado, é todo parte do sistema, o senso crítico deles também é zero, tão ou mais nulo quanto o do povo que chamam de analfabeto.

P - O que você acha de o presidente do país ter apenas ensino médio enquanto várias profissões exigem curso superior?

R - Acho uma bobagem se questionar isso. O cargo de presidente é um cargo público, o mais público do país, portanto qualquer um pode ter livre acesso. Além do mais, o que é o curso superior? Uma farsa, igual à educação... Vocês podem achar que é irresponsabilidade, mas praticamente 90% do conteúdo que dou nas salas de aula eu já sabia antes de entrar no curso de Geografia... A faculdade torna aquele nerd um analista de sistemas... A faculdade torna um cara como eu, com vivência de movimento estudantil, discussão política, um professor de Geografia... Ou seja, a faculdade só dá seu título e nada mais. Eu sempre digo para todos, inclusive meus alunos: não se preocupem com a faculdade enquanto não ingressarem nela, e depois que ingressarem, preocupem-se menos ainda!

P - Então você acha normal ter professores dando aula sem curso superior?

R - Não foi o que eu falei... A pergunta havia sido sobre a cadeira de presidente... Quanto às outras questões, a universidade, como disse, dá a titulação... A solução, portanto, não é acabar com a universidade, mas melhorá-la. Hoje, a universidade permanece com o mesmo propósito de antes: excluir os miseráveis.

P - Vamos falar um pouco sobre essa vivência de movimentos que você disse...

R - Eu fui, durante uns anos, do Grêmio e do DCE do CEFET... Organizamos grandes movimentos... Hoje, sou presidente do CA de Geografia... Não atuo mais tanto quanto antes, mas não me abstenho de debates importantes, que ocorrem lá ou em âmbito geral.

P - Por que você não atua mais como antes? Falta de tempo?

R - Em tese... Falta de tempo não é desculpa. Na verdade, mesmo tendo poucos anos de estrada, eu lembro que, na época em que comecei, as discussões no movimento estudantil ainda tinham origem partidária, aprendemos a discutir não somente propostas pra melhorar a escola, mas programas para o país... Mas depois, nesses últimos anos, surgiu uma mania, uma modinha de se fazer movimento apartidário, ou seja, movimento sem (na verdade, contra) os partidos, né? Quer dizer, o cara atuar politicamente sem partido sempre houve, mas movimentos pretensamente organizados fora do âmbito dos partidos ainda era algo relativamente novo aqui no estado... E aí quando veio isso, essa tendência, que coloca todos os partidos no mesmo balaio de gatos, não só eu me desestimulei a participar como todo o movimento estudantil morreu nesse estado.

P - Por que você não combateu?

R - Porque estava num momento de enfraquecimento dentro de meu partido. Então, com a casa desarrumada, não dava para tentar ajeitar as coisas do lado de fora... Mesmo assim, diante do que fizemos no movimento universitário, as organizações apartidárias não se sustentaram, hoje elas praticamente inexistem... Mas o estrago que causaram continua aí: uma descrença infinita...

P - Qual era o seu partido?

R - PCdoB.

P - Ainda é?

R - Não, eu saí do Partido Comunista depois de cinco anos lá dentro... A direção estadual do partido capitulou, virou institucional demais, ficaram todos engravatados... Então eles colocaram aqueles que tinham mais elo com os movimentos na geladeira... Fiquei, junto com uns camaradas, incapaz de organizar qualquer coisa em nome de meu próprio partido... A solução foi sair.

SPL - E pensa em entrar em algum outro partido?

R - Eu saí do PCdoB e passei seis meses sem partido. Até que, naquela onda de crise do PT, pensei algo como "putz, seria massa entrar agora no PT, bem no meio da crise, pra tentar mudar, melhorar tudo o que tá aí"... E foi o que fiz. Entrei no PT junto a alguns camaradas, menos de dez. Criamos uma corrente e já somos a terceira mais influente do partido em nossa capital.

P - Vai votar em Fátima (PT) para prefeita?

L - Obviamente.

P - O que acha das pessoas que dizem que não ligam pra política?

R -
Tem uma canção de um gaúcho que diz: "eu sigo enfrentando a onda onde muita gente naufragou". Acho que é por aí; não acredito que a via eleitoral proporcione alterações muito grandes, estruturais. Mas elas permitem haver um certo avanço. Enquanto não existem outros caminhos, eu sigo nessa onda, virando sempre à esquerda.

P - E o que acha daquelas que não têm partido?

R - É uma opção... Não vejo problema em a pessoa não ter partido, ou mesmo em discutir política sem ter partido... Mas a partir do momento em que a pessoa busca fazer política sem partido, acho isso uma irresponsabilidade que não é pequena... Política se faz coletivamente. Todas as minhas concepções foram levadas a debates internos, e ou venci ou fui vencido. Não acredito em política feita individualmente. Não formulo minhas idéias num quarto fechado. Formulo no calor da discussão. Quem faz política solitário está cometendo, pra mim, um grave equívoco. Eu não acredito nisso. Ainda que eu esteja ocasionalmente errado. Quando acerto, o partido acerta. Quando erro, o partido erra e aprendemos com isso. Quando se está sozinho, não se tem esse parâmetro e esse senso de coletividade. Suas "conquistas" só servem a si mesmo, a seu ego. Prefiro errar com o partido do que acertar sozinho.

P - Onde estão os caras que fazia movimento contra seu partido?

R - Um deles, líder do PSB, é candidato a vereador, temos boa relação. Outros continuam participando, em maior ou menor intensidade, no PT, PSTU, PV ou PCdoB... Os que faziam movimento sem partido, porém, hoje estão mais preocupados com a prova que terão no final do período em suas faculdades ou com o estágio não-remunerado em algum escritório de advocacia que os fazem pensar que estão fazendo algo importante.

P - Você acha que eles eram radicais?

R - Acho que eles eram uns bostas.

P - Mas eles respeitavam a decisão de vocês de ter partido?

R - Não sei, mas isso não é importante... Não quero que o cara respeite minha opinião. Respeito é um negócio inerente, presente em tudo, está no ar, como as borboletas. Não preciso vir dizer pra você que respeito a sua opinião, afinal nosso senso de coletivo, de animal social, prenuncia isso. Agora, se eu tenho uma opinião, coloco em debate, lanço minhas idéias dentro de uma entidade, de um movimento, e o cara vem dizer que respeita minha opinião mas ele tem a dele, só pode estar tirando onda com a minha cara... Eu dizia: não quero que você respeite minha opinião, quero que você venha descontruí-la, venha dizer onde estou errado, exatamente como estou fazendo com você, que está errado nisso e naquilo. Mas, hoje em dia, criticar uma opinião, uma idéia, virou crime. Todo mundo se esconde, fica blindado, na velha frase: "respeite minha opinião que eu respeito a sua". Pô, por que um cara desses ainda sai de casa? Por que um cara desses ainda tem opinião?

P - Em quem vão votar os professores daqui do Atheneu?

R - Os mais inteligentes votarão em Fátima.


quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Subproduto do esquecimento

Foi quando me olhei no espelho que percebi o quanto estava apreensivo. Eu conseguia ver embaçada minha imagem refletida mesmo estando o vidro total e perfeitamente polido. Eu estava na sala, estava sozinho no cômodo, lá na cozinha havia uma mulher, a cantar alto, freqüentemente me convidando para acompanhá-la no rito, sem sucesso.

Sendo tímido como sempre fui, não foram de se estranhar meus gestos contidos, ainda que estivesse sendo compelido a me sentir completamente à vontade. Estava com coisa de dezenove anos, e vivia ainda tempos bastante movimentados, conforme era comum naquela fase de minha vida, talvez por uma tentativa inconsciente de apagar de minha memória a infância, a pré-adolescência, períodos lembrados sempre como coisas uniformes e mortas em mim.

Eu sempre me esquecia de todas as garotas com quem ficava, todas com quem houvera transado ou a quem tenha beijado, quando estava me relacionando com uma outra. Esquecia de forma tão latente que todas, para mim, eram como se fossem a primeira. Neste caso, acrescenta-se a isso o fato de eu estar na casa não de uma garota de minha idade, mas de uma mulher, que tinha sua vida feita, que já fora até casada, que já tinha 35 anos.

"Você que é um cara de sorte", disse-me um amigo horas antes, ao saber com quem eu me encontraria. Ainda prevalecia um fetiche, como em todo jovem, pelo desejo de estar com uma mulher mais madura e experiente.

Eu a conheci na Internet, fui suficientemente dissimulado, não de propósito, para que ela visse em mim não um moleque vazio, mas um garoto com jeito mais prudente, experimentado. Agora estava em sua casa, olhando para um pequeno birô, bastante rústico, que enfeitava sua sala. Nele, havia muitos porta-retratos. Em alguns deles, fotos dela quando casada - Cristina, seu nome, junto com o marido e o filho de dois ou três anos.

- Esse fim-de-semana ele foi para casa do pai - foi o que ela me disse ao me ver observando a foto do rebento.

Ela me ofereceu um vinho e eu traguei, ainda a observar mais a casa do que a lhe dar atenção. Por todos os lugares, eu ainda percebia coisas que não pertenciam a ela. Quadros na garagem, discos na sala, roupas no quarto. Pertences dele que só pegava quando, de repente, sentia falta.

- Essa semana ele veio pra pegar uma coleção de atlas que compramos certa vez em viagem. Muito bonitos.

Lembrei-me de uma poesia de Bukowski, em que ele se questiona se alguma vez precisará ir visitar alguma mulher de seu passado em busca de uma bermuda. As mulheres de seu passado, ele dizia, pareciam-lhe inexistentes. E para mim também.

Acaso para onde foram todas elas, para onde foram as Cinthias, as Claras, Priscilas, Adrianas, Ianas, Gabrielas, e outras, tantas outras, que não são infinitas, mas, certamente, incontáveis, visto que aos poucos elas têm se deletado de minha mente?! Decerto, poucas ainda se lembrariam de mim se eu lhes telefonasse. São nomes e rostos que ainda povoam minha cabeça. Com elas, compartilhei alguns bons momentos, mas nunca os momentos mais necessários. O prazer que se acometia de mim quando estava em suas companhias não se sobrepunha à solidão que eu sentia quando me despedia de cada uma na porta de suas casas, e saía a vagar sozinho pela madrugada.

Contei para a Cristina que estava um pouco apreensivo, e, certamente, poderíamos nos encontrar numa segunda ocasião. Ela me deixou cochilar um pouco em sua casa. Devo ter sido tolo em não poder aproveitar tamanho filão, considerando que ela era mesmo muito atraente e, como todas as mulheres solteiras em sua idade, muito carente. Seu jeito maternal, porém, não me deixava à vontade. Esses tantos pensamentos que me vieram à mente só serviam para me deixar ainda mais oscilante. Depois do breve cochilo que eu dei, disse-lhe que preferia ir embora. Falei que havia bebido demais, estava desanimado. Ela entendeu. Ainda me ofereceu carona, disse que estava tarde, mas eu lhe deixei claro que não precisava. De fato, eu não queria. E jamais voltaria a vê-la.

Depois de sair de sua casa, mais uma vez segui sozinho e taciturno, numa caminhada extensa e duradoura. Sabia que estava acompanhado somente pela solidão. Pensei na hora que o melhor de mim, corro o risco de ter perdido nessas incompletas aventuras a dois. Agora, somente o meu resto é que passeava calado pela noite escura.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Continue a Brilhar, Richard

Eu sou jovem. Tenho 22 anos. Sou de uma das gerações mais violentadas da História. Digo isso, porque eu sei que há algo que todo jovem tem, e teve, fosse na época dos faraós egípcios, na educação feroz dos bárbaros, na disciplina rígida das distancias chinesas, no altar de liberdade norte-americano ou em alguns conturbados anos passados no Brasil.

Os jovens tinham ídolos.

Mas minha geração não teve esse direito.

Há pouco tempo atrás, para cada arte, para cada campo do conhecimento, existiam ícones. Existiam referências. Marx era uma referência na Filosofia. Dali era uma referência na arte. Brizola era uma referência na política. Cada um cometia suas cagadas; mas estava-lhes reservado um lugar, uma cadeira simbólica, que os taxava de incontestáveis para gerações.

Eu sempre digo que sou um jovem velho; sou um jovem muito século XX. Digo isso, talvez, com uma inconsciente amargura. Talvez por saber que eu, que sempre pensei ter princípios, não tinha a sustentação ideológica que tinham os jovens antes de mim.

Quem tem minha idade não viveu grandes movimentos literários, nem grandes mobilizações políticas, não participou de festivais de rock revolucionários, quem tem minha idade não viveu nada que desse a impressão de que estávamos, através disso ou daquilo, mudando o mundo.

Eu penso, todos os dias, em mudar o mundo. Mas mudar o mundo, pra mim, é, antes de tudo, pensar que posso mudá-lo. Antes, a juventude pensava que podia mudar e pensava que estava mudando. Hoje, eu penso que posso. Mas sei que isso não tem futuro, o mundo não pode ser mudado. Penso algo com a consciência de que estou dando à minha existência um sentido que não existe. Esse dilema persiste na minha cabeça, e vai persistir até o dia da minha morte.

Como eu disse que era um jovem muito século XX, um subproduto do passado, eu me detive, talvez num ato (novamente) inconsciente, a tomar como referência os ícones do passado. Assim o foi com o próprio Marx, com Buñuel, com Huxley, com John Lennon, com Jack Kerouac. Chegou um tempo em que eu percebi que nada do que eu lia, via ou escutava era produzido por gente viva. Senti-me deslocado. Senti-me culpado, por não prezar por aquilo que a minha geração produz - logo eu, que sempre defendi tanto a minha geração. Ora, eu sei que a minha geração não é pior que as anteriores, não é mais burra, não é mais alienada que qualquer outra.

Mas o problema não está na minha geração. O problema está no mundo que nos é oferecido. Um mundo insosso, cruel, deprimente. Sinto uma tristeza só de pensar na condição humana. Pobre ser homem, ser solitário e carente de ídolos, de deuses, de tudo. Pobre de mim, de nós. Pobre de todos nós, porque somos humanos, e o ser humano é, antes de tudo, um ser carente.

Já matutei muito sobre todas essas questões. Mas não dá; minha cabeça permanece lá atrás. Permaneço roubando ídolos de outrem. Na minha cabeça, efervescem os sonhos dos moleques dos anos 1960, 70, 80. E hoje sei que, como eles, eu também estou cada vez mais carente de ídolos.

Tudo isso é só pra dizer o quanto me doeu ler hoje as notas sobre o falecimento de Richard Wright, o Rick, tecladista do Pink Floyd, banda que durante um bom tempo fez a minha cabeça, deliberou o que eu pensava e defendia, não só na música, mas na arte em geral, na política, no comportamento. Pink Floyd foi a banda que me abriu a cabeça depois de 15 anos perdidos. Eu, um moleque punk, que passei a vislumbrar um mundo de possibilidades quando descobri os teclados do Rick. Um teclado é um mundo de imaginações mil para quem vem da escola punk. Hoje tenho um teclado, aprendi uns truques nele, algumas coisas; mas, claro, nada que se compare ao que Rick faria dormindo. Mesmo assim, já é grande coisa.

Richard Wright era, na briga de egos do Pink Floyd, o cara que dava a alma na música e que menos exigia os holofotes. Amava tanto sua banda que, mesmo quando foi injustamente demitido dela, continuou sendo seu tecladista, sem receber os grandes lucros a que os outros membros tinham direito.

O Pink Floyd, quando surgiu, trazia uma autenticidade e originalidade tão veementes que causou impacto em todo o meio musical. Autenticidade e originalidade são virtudes bastante relegadas a segundo plano a quem faz arte hoje. No teatro, o que vale é o humor vazio. No cinema, o que dá a nota são os efeitos especiais. Na música, o hiato é ainda maior. Procuro e só vejo qualidade em bandas de metal - e mesmo assim, a qualidade técnica é imensa, mas a criatividade é quase zero. Falta perceberem que a beleza das coisas não está na técnica, não está no "fazer certo"; está, sim, no feeling, no subjetivo, no conceito.

Ao contrário dos camaradas mais velhos, não tive a oportunidade de ver o Pink Floyd juntos, nem, muito menos, de acompanhar a obra desta banda em momento presente. Para mim, tudo que conheço deles, assim como tudo que vejo agora na minha estante de livros, filmes e discos é passado. Hoje, se tornou ainda mais passado.



"E eu não estou com medo de morrer,
a qualquer hora pode acontecer, eu não me importo.
Porque estaria com medo de morrer?
Não há razão para isso,
você tem que ir algum dia."

"Eu nunca disse que estava com medo de morrer."

"Se você pode ouvir este sussurro, então você está morrendo..."

The Great Gig on The Sky (Richard Wrhight)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Pausa para a Literatura

Hoje é 11 de setembro. Neste dia, devemos nos lembrar de outros dias chocantes. Um deles foi aquele 11 de setembro de 2001; uma data, aliás, que poucos e muitos esquecem. Muitos lembram-se dos 3.000 e tantos mortos no WTC. Mas se esquecem de outros tantos, muito mais que 3.000. São as vítimas da fome.

Segue algo mais preciso.

Em 11 de setembro, morreram 35.615 crianças de fome. FOME.

Lugar: países pobres.

Artigos na imprensa: zero.

Edições especiais na TV: zero.

Mensagens de presidentes de repúblicas: zero.

Convocatória de uma unidade de crise: zero.

Manifestações de solidariedade: zero.

Minutos de silêncio: zero.

Manifestações pelas vítimas: zero.

Fóruns sociais organizados: zero.

Mensagens do Papa: zero.

Nível de alerta: zero.

Mobilização do Exército: zero.

Hipóteses sobre a identidade dos inimigos: zero.

Prováveis autores dos crimes: países ricos.





O 11 de setembro também serve de lição em solo latino-americano. Há 35 anos, morria - era assassinado - no Chile, um líder chamado Salvador Allende. Um líder de muita hombridade, que abriu mão da própria vida pela lealdade de se colocar do lado do povo. Salvador Allende era o presidente do Chile, e foi obrigado a renunciar, porque em seu governo, não havia lugar para "aritocratismo". Vinculava seu governo à inclusão dos miseráveis, estes miseráveis latinos, eternos explorados do Império - do Império norte-americano, vale frisar.

Há quem diga que os latino-americanos têm mania de perdedor. Dizem, esses tais, que nós, latino-americanos, nós, latino-americanos de esquerda, creditamos, comodamente, os nossos prejuízos à gula dos ricos, como se fosse fácil e cômodo ficar sentado e reclamando da exploração advinda do norte, como de fato é.

Mas isso tem sido mudado. Afinal, governos no nosso continente estão buscando alternativas. Estão buscando caminhos que fogem ao pensamento único neoliberal. Nesse sentido, governos latinos estão criando fundos próprios, políticas próprias, estão formulando as próprias prioridades, e não mais atendendo às prioridades do Banco Mundial e FMI.

Mas eles - eles, os países ricos - não gostam.

E eles promovem, direta ou indiretamente, violência e instabilidade em nossos países. Pregam a desunião. Pregam a agitação política de direita. Financiam o terrorismo. Foi assim no passado; aqui no Brasil, tivemos claros exemplos nos anos 1950 e 1960. Na Argentina, igualmente. No Chile, o exemplo já foi citado.

Mas, Marx dizia, a História se repete. Na primeira vez, ela acontece como tragédia. Na segunda, acontece como farsa.

O golpe de 1964 no Brasil foi uma tragédia. Como o foram os golpes em países irmãos. Foram 30 anos de submissão total e inconteste aos States. Hoje, o filme se repete, não por falta aviso. Já foi neste século que os EUA financiaram novo golpe, contra as forças chavistas na Venezuela. Hoje, vemos outra onda de violência e caos. Agora, ocorrente na Bolívia, com o aval e a conivência acrítica de toda a imprensa do continente, como já nos acostumamos a ver.

Essa postagem é para lembrarmo-nos sempre da condição a que nos impõem os eternos donos do poder. Devemos ser sempre lacaios dos euro-americanos. Devemos sempre baixar a cabeça para aqueles que nos colonizaram. Mas isso tem começado a mudar. Tem começado a mudar na Venezuela, na Bolívia, na Argentina. No Brasil, isso está ainda bastante incipiente, em grande parte pela nossa esquerda academicista e cor-de-rosa, afeita aos radicalismos de PSTU da vida.

Será que vamos esperar novos golpes para organizarmos novas manifestações na clandestinidade?

domingo, 24 de agosto de 2008

Domingo de sonhos e frustrações

Acordei cedo no domingo. A manhã estava bastante ensolarada, mas isso eu só vim descobrir depois, já que mantive a casa totalmente fechada e só abri as janelas quando o calor começava a se tornar insuportável. Eu gostava de acordar cedo no domingo, pois nada nem ninguém me cortava a paz nessas ocasiões. Não havia telefonemas, nem mendigos batendo a porta. Não havia garotas gritantes indo para a escola nas ruas. Nas calçadas, só se somava lixo. No asfalto, somente a poeira trazida de outros confins pelos carros. No ar, nada mais além do fedor da noite cheia de sábado, dos bares, traillers, dos transeuntes fumantes, maconheiros, das garrafas de álcool quebradas. A madrugada de sábado era movimentada na rua onde morava. A manhã de domingo, contudo, era o completo inverso. Todos estavam ressacados em suas casas. Na rua, só sobravam os estragos da noite.

O sossego das manhãs dominicais me permitia escrever livremente. E eu me sentia muito entusiasmado para escrever. Escrevia para blogs, escrevia para uma revista, era publicado em jornais, mandava meus contos para páginas na internet. A maioria publicava de graça, quando muito. Mas eu sabia, era um desejo, era, talvez, uma meta - ainda que não fosse uma meta tão bem traçada, mas era uma meta -, eu ainda haveria de receber pelo que compunha, sabia que ainda haveria de me tornar um escritor. Não um escritor amador, pois isto já sou, não um escritor de amenidades, mas um escritor profissional, destacado, eu apenas viveria para escrever e seria remunerado por isso. E não demoraria. Mas mesmo meu enstusiasmo não foi suficiente para que eu desse seqüência ao conto que estava produzindo. Isso porque eu teria um compromisso pela tarde, e eu não consigo começar a escrever sabendo que terei de parar num determinado momento. Não conseguia me recordar de que se tratava o compromisso. Fiquei tentando me lembrar. Enquanto isso, não tinha comida nem bebida em casa, não tinha sequer água. Peguei o copo e fui a uma torneira nos fundos para matar a sede. Precisava de dinheiro. Eu ainda estava muito emputecido, pois dois dias antes fora depositado em minha conta 1200 reais, contemplando três meses de salários atrasados. O meu saldo no banco, porém, era negativo e o valor da dívida se sobrepunha ao do depósito. Sendo assim, eles comeram todo o meu dinheiro, sem dó - e ainda permaneci devendo.

As minhas fontes de renda foram sempre muito incertas. Quando trabalhava, não recebia. Quando trabalhava e recebia, o valor era baixo. Quando não trabalhava, ralava com o que fosse possível. Não conseguia empregos em lugar nenhum; vivia pulando de estágio em estágio, não importa para que atividade fosse. No momento em que me vi outra vez com tão pouco dinheiro, não tinha muito a fazer. Só existia um lugar onde eu poderia comer e beber naquela situação. Fui, então, procurar um bar, poderia satisfazer minhas necessidades, claro, dependente da cortesia dos presentes ou do dono do estabelecimento.

Os bares estavam fechados.

Voltei pra casa extremamente contrariado. Queria beber ou comer algo, mas não havia nada. Só uma coisa poderia suprir minha míngua: a leitura. Mas em casa não seria possível. Todos os livros da estante já haviam sido lidos - e, boa parte, relidos -, ainda que o conteúdo nem sempre me agradasse. Eu não tinha dinheiro para comprar bons livros, quase todos eles haviam sido adquiridos em sebos - ainda assim, os bons livros disponíveis em sebos estão estrategicamente com valores mais elevados. Eu comprava, então, qualquer coisa que parecesse minimamente interessante às primeiras folheadas, e só em casa em descobriria que nada valia. Escritores americanos, asiáticos, europeus - quanta bobagem! Ou mesmo os brasileiros - mais ainda meus conterrâneos potiguares, dos quais ainda comprei algo esperando ver coisas boas. No fim das contas, tinha vários livros, talvez umas três centenas, mas nada que me alimentasse a inteligência. Quando eu achava que estava escrevendo mal, perdendo o jeito para a coisa, bastava que eu lesse tais escritores; eu veria que não tinha com que me preocupar. Ninguém tinha nada a dizer.

Tentei dormir, mas não cheguei a cair no sono. Sentia-me muito desconfortável. No momento, lembrei-me de uma velha piada, que dizia que "morar sozinho e fugir de casa era o cúmulo da rebeldia". Que asneira! Só mesmo quem nunca viveu sozinho para achar uma rebeldia o ato de querer fugir de casa nessas condições. A casa é um lugar tão sufocante... No meu caso pelo menos, já não conseguia mais me manter deitado e fingindo acreditar que estava seguro e confortável. Decidi sair.

Eu tinha uma motoca, muito econômica, que ao menos fazia com que o deslocamente não me fosse um problema. A hora já passava do meio-dia, peguei uns poucos trocados, então, e saí. Iria para o primeiro lugar que se me apresentasse.

Fui a uma livraria e detive-me a ler alguns autores consagrados, ansioso com o dia em que poderia tê-los em casa, numa biblioteca particular, sempre ali, disponíveis para oferecer seu talento à minha necessidade no momento em que eu achasse que precisava; mas, mais ainda, ansioso com o dia em que seria eu o escritor, eu o publicado, meu livro o manuseado. Meu nome não somente a enfeitar prateleiras de livrarias e bibliotecas, mas exigente de uma estante própria, de tantas edições destacadas que teriam, e de tantos ávidos leitores que entrariam no estabelecimento e seguiriam direto para ele.

Eu gostava de ler alguns clássicos, gostava da literatura marginal, e de tanta coisa. Mas até os escritores marginais de outrora são cult's hoje. O pop conseguiu embolar tudo no mesmo pacote, até mesmo aqueles que dizem nadar contra a corrente. E eu me preocupava com a banalização de meu nome, de meu belo e vigoroso nome, de minha literatura sagaz, ainda que imperfeita, sendo reduzida a um nicho cor-de-rosa, rotulado e movido a marketing de quinta categoria.

Pausei minha leitura para tirar esses pensamentos perturbadores da cabeça e fiquei a olhar para o ambiente, para os atendentes, os clientes. Notei especialmente uma garota, ali na seção de Literatura Estrangeira - eu me encontrava na seção de livros de bolso, aqueles que continham as traduções mais mixurucas, mas que eram os que eu vislumbrava adquirir. Observei a garota, cujo rosto não me parecia totalmente estranho. Era bonita, tinha o cabelo curto, bem curto, acima do pescoço, certamente muito cheiroso, e deixava a nuca à mostra. Enquanto a observava, ficava me culpando por ser tão preconceituoso com as garotas. Porque, de fato, eu o era bastante. Cresci sob um universo masculinizado. Até os 13 anos, pouco tivera contato com o mundo feminino. A única coisa que sabia - ou que pensava saber - das mulheres era a partir das revistas femininas da minha mãe. Com essa idade, recém-ingresso na vida adolescente, eu já achava que sabia de tudo delas, e já me considerava ciente de que não representavam muita coisa. Esses pensamentos somente se elevavam quando eu visitava sebos e notava que as próprias responsáveis nada sabiam de nada: "Rubem Fonseca? Olha... Não sei se tem". "Sartre? Como é?! Sar-tre? É brasileiro?" Que ignorantes!, exclamava eu em pensamento!

A garota saiu, então, da seção de Literatura e foi para as revistas. Levantei-me, então, e segui até ela, pondo-me ao seu lado. Fiquei passando as páginas de umas e outras revistas, enquanto, à espreita, a vigiava fazendo a mesma coisa. Notei que ela pegou uma revista, uma que incluía um conto meu. Isso me embaraçou num instante, fiquei nervoso, ainda que ela nem tivesse notado direito a minha presença. Mas ela era esperta.

- Está espionando o que faço? - perguntou. Achei que estivesse sendo simpática, mas sua face não nem demonstrava nenhum senso de humor. Não gosto desse ar meio enigmático, pensei na hora.

- Ah, não... É que escrevo para essa revista, essa que você está manuseando e, sabe...

- O que você escreve?

- Contos.

- Não gosto de contos; prefiro romances.

- Eu também - menti. - Mas não convinha colocar um romance numa revista...

- Você já escreveu algum romance?

- Ainda não.

Ela continuou a ler e eu não dei seqüência à conversa. Na verdade, sentia uma certa aflição. Ela ainda rompeu o mutismo entre nós, talvez tentando manter a conversa que eu imaginei morta desde o começo.

- Por que você não fala mais?

- Não tenho o que falar. Acho que por não falar tanto é que eu escrevo.

- Uma coisa tem a ver com a outra, para você?

- Claro... A Literatura é a rebelião organizada contra a fala, nunca ouviu dizer?

Ela riu e me deu um marcador de páginas com pensamentos sobre a Literatura. E me apontou um.

- Prefiro esse - disse. - "A Literatura é a confissão de que a vida não basta".

O celular dela tocou discretamente, o telefonema foi bastante breve, depois ela apenas me disse seu nome e se despediu em seguida.

Eu lhe propus acompanhá-la, mas ela assegurou não ser necessário. Permaneci na livraria, sozinho, absorto em divagações, quando foi a vez do meu celular tocar. Era uma outra garota. Lembrei-me, então, do compromisso que eu teria para o domingo! Eu sairia com essa que agora me ligava - aliás, somente sairia. O propósito do telefonema que recebi era justamente desmarcar o compromisso. Eu não fiz objeção, embora soubesse que a justificativa era falaz. Ela fez questão de que remarcássemos para algum outro dia, e assim fizemos, mas, de minha parte, sem grandes esperanças de que ele viesse a se concretizar.

Comi uma besteira barata num carrinho de lanches qualquer e fui pra casa, era o início da noite, e já estava com parte de meu apetite para comida e para leitura saciado. No longo caminho que traçava pela BR 101, eu observava as prostitutas que começavam a se acumular às margens da rodovia. Depois do compromisso cancelado via telefone, havia reflorescido em mim um desalento com as garotas. Seguia e observava agora as meretrizes e pensava o quanto eram sujas. Mas, por sujas que fossem, eram mais limpas do que eu, que tinha uma mente para vender, enquanto elas não vendiam mais do que um pobre pedaço de carne.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Na companhia do vazio

Não se preocupe com rejeições, parceiro.
Fumei 25 cigarros esta noite,
e você sabe sobre as cervejas.
O telefone tocou apenas uma vez:
era engano.

Charles Bukowski
, O Amor é um Cão dos Diabos



Já fazia quarenta minutos que eu caminhava solicitando carona a todos que passavam protegidos em seus automóveis, mas ninguém me concedia. Era alta madrugada e eu estava um pouco embriagado, mas desejava chegar logo em casa, ou, pelo menos, encontrar algo que me fizesse minimamente confortável. Pouco antes, eu bebia com os colegas de faculdade até que fechasse o bar - convenhamos, eu não esperava que fechasse, pois não tinha mais condução que me levasse até em casa, 20 quilômetros distante. Todos se foram, cada qual para seu lado, com as moradias próximas ao boteco, caronas e quetais. Eu poderia usar de minha motoca, mas a havia deixado na manhã anterior num borracheiro; estava com o pneu furado e eu teria de suportar o peso de andar a pé e, quando necessário, recorrer ao ônibus - como já disse, porém, não havia mais possibilidade na hora em questão.

Vou ligar para alguém, pensei, mas para quem eu ligaria? Fiz uma tentativa.

- Ei, posso dormir aí na tua casa?

- Porra, é quase uma da manhã - respondeu meu interlocutor deixando claro que eu lhe interrompera o sono e desligou, não sem antes xingar minha mãe.

O meu celular ainda me oferecia uma lista de pelo menos 30 pessoas a quem eu poderia ligar. Mas eu sabia que delas nada conseguiria senão aborrecidas recusas. Conformei-me em vagar na madrugada, novamente em busca de carona, ou, ao menos, de um refúgio qualquer. Foi quando vi um cyber 24h, e entrei. Pelo menos a internet poderia me entreter até que amanhecesse o dia, já que eu passei da fase de achar legal ficar dormindo na rua.

Naveguei um pouco na internet e, dentre os poucos disponíveis para conversar àquela hora, me deparei com uma garota insone, colega de curso, que recentemente conhecera. No decorrer do palavreado, ela se queixava de tantas coisas, entre as quais o tédio de estar sozinha em casa naquela madrugada. Então eu pensei, já que estava a não mais que meia hora da casa dela: seria legal se...

Papo vai e papo vem, ela sabia que eu estava por perto e me convidou para ir até sua residência, ao que imediatamente aceitei. Existia um certo flerte entre a gente, embora eu tivesse aceitado o convite na melhor das intenções, afinal, só queria um lugar para dormir.

O fato é que, quando já estávamos ambos acomodados em sua casa, ainda conversamos um bocado, e como ela soubesse que eu havia bebido há pouco, por certo bateu-lhe também uma vontade de beber, pois logo me ofereceria algo. "Tem uma vodka ainda aqui, que tal bebermos um pouco?", perguntou-me. Consenti prontamente.





Duas horas depois, a garota se mostrava bastante deprimida e desculpava-se repetidas vezes por ter sido tão oferecida justo nessa primeira vez em que nos encontramos. Nós repousávamos nus na sua cama, tínhamos feito de tudo, e eu me sentia mal com tudo aquilo, enquanto ela buscava um jeito de fazer com que não perdesse meu respeito, por mais que eu dissesse que isso não aconteceria. Como ela insistisse e eu fosse reincidente, então me pediu que lhe desse uma prova de que a continuaria respeitando pela manhã. "Vá em frente", incitei.

- Me peça em namoro - ela disse!

Eu me assustei com a proposta. Mas, como sabia que ela sequer se lembraria da conversa depois de um cochilo, cedi.

- Tá bom... Namora comigo?

Ela riu e sentenciou: - hahaha! Não, seu otário, não gosto de você!

Poucos minutos depois, a garota vomitaria todo o banheiro, tomaria um banho rápido e voltaria despida para a cama, dormindo em seguida. Já nem sabia o que estava fazendo. Eu fiquei acordado, continuava a me sentir mal, não pelo excesso de bebida, mas por aqueles momentos a dois, e eu realmente não precisava ouvir o que ela falou. Fiquei andando pela casa, sentando no sofá e levantando, começava a ver filetes do alvorecer reprimidos pelas brechas da janela e fui deitar-me na cama. Não muito tempo depois, o telefone tocava e nós dois despertávamos, ao mesmo tempo.

- Você precisa ir embora. - ela proferiu calmamente, e explicou o porquê. Fui embora, portanto.





Muitas horas depois, o colega que me houvera recusado um lugar para dormir estava a ligar, chamando para assistir um festivalzinho de rock. Aceitei o convite, para só depois compreendê-lo de fato. Meu bom camarada não tinha dinheiro para a entrada. "Arruma aí, é só dessa vez". Não, não era só dessa vez. De qualquer modo, eu não negaria. Ele sabia disso. Assistimos ao festival, e no final ele pegou carona com uma turma.

- Ainda tem um lugar, quer ir?

Mas eu não queria carona na ocasião. Embora fosse relativamente tarde, ainda teria ônibus disponível. Sendo assim, preferiria ir sozinho.

Cheguei em casa e uma impressão estranha me acometia. O silêncio parecia mais audível para mim do que nos outros dias. A escuridão era mais visível do que eu percebia normalmente. Li um pouco, ouvi música, fui para o computador. Agia por inércia, sem propósito, sem juízo. Fui logar num de meus emails, e a resposta que obtive me fez concluir que, por tanto me procurar, enfim eu havia me encontrado: "o usuário não existe mais".