Eu nem me demoro muito a sair desse bar – que não é um bar, é uma pequena casa de shows – e ir para um bar autêntico, por assim dizer, só para beber, e hoje, como saí de casa sem moto, eu iria beber bastante, e foi isso que fiz, bebi até ficar meio tonto como há tempos não fazia.
TEM QUANTOS QUISER, RAPÁ, é o que me diz o garçom, e ri para os amigos.
Outros ainda continuam me enchendo o saco.
POR QUE TÁ BEBENDO, BICHO?, pergunta um cara na mesa ao lado pendendo a cabeça na minha direção, mas sem me olhar. GAROTAS? TRABALHO?
ESQUECE... ELE NÃO DEVE TER NEM UMA COISA NEM OUTRA, diz seu companheiro de mesa, e começa a rir, sendo logo acompanhado pelos colegas.
Eu ignorei todos os que me torravam a paciência e bebi até agora há pouco, só parei quando vi que já era meia-noite e pensei que não teria mais condução para o meu bairro. Quando paguei a conta e me levantei, eu ainda tropecei sem querer e caí na pavimentação, caí sobre o joelho e o braço direito. Tentei me levantar logo mas não me sentia totalmente forte, fiquei lá de quatro ouvindo a risada dos caras e com vergonha de mim mesmo, a diverti-los como se fosse um palhaço. Então, levantei-me e ainda lhes lancei um olhar astuto, e saí andando altivamente, como se eu, bêbado e sozinho, tivesse mais poder que dez mil deuses juntos, todavia enquanto caminhava eu ainda escutava risadas.
E agora aqui estou nesta Rodoviária, e poucos minutos depois da minha chegada começam a cair alguns pingos do céu, um chuvisco que gradativamente vai tomando força. Eu ainda me mantenho protegido, afinal essa parada de ônibus é a parada-modelo que a Prefeitura lançou não tem nem dois anos, de um metálico até bonito, colorido, além de ser coberta. Só que o teto é muito alto e a chuva muito intensa, e logo começa uma ventania, daquelas que fazem a chuva vir de lado. Não demora e estou ensopado.
O tempo passa e agora começo a ficar enfadado, porque ainda não vislumbro nenhum ônibus, mas que ônibus?, eu sei que não passa mais ônibus algum a essa hora. Minha única opção vai ser pegar algum tipo de transporte alternativo, qualquer um que tome outro rumo, qualquer intermunicipal, e descerei na BR 101, lá perto do Aeroporto Internacional Augusto Severo para caminhar a pé sob muita chuva e sobre muita lama durante uns dois ou três quilômetros pra chegar em casa. Isso me faz rememorar os primeiros dias em que fui morar naquele bairro, que tem o lindo nome de PARQUE INDUSTRIAL. E isso é engraçado, porque Natal não tem indústria nenhuma, o Rio Grande do Norte também não tem. Porra, se nem o Brasil tem indústrias direito, como é que esse estado se põe na prerrogativa de batizar assim um de seus bairros mais pobres e encardidos? Mas pois é, é isso que os caras fazem, e esse bairro até que mudou desde que fui morar nele, eu tinha coisa de dez ou onze anos, e isso me vem à mente agora porque naquela época não havia ônibus pra lá, e a situação me fez lembrar das minhas longas caminhadas na infância. Na verdade, não havia quase nada, para ser franco. Sequer água e luz tivemos durante os dois primeiros meses. A única coisa que não mudou é o fato de ainda não ter nenhuma indústria lá. Até puseram uma pedreira, uma marmoraria aqui, uma serralharia ali, para se unirem aos galpões antigos e abandonados e dar razão de existir ao pomposo nome de PARQUE INDUSTRIAL.
Pensar nessas coisas é ao mesmo tempo trágico e engraçado, contudo eu não tenho nada mais a fazer, fico pensando nisso até que venha o transporte, e, claro, que seja clandestino, pois estes são os mais baratos e têm aos montes.
Depois de algumas divagações, eis que me aparece um, é uma Besta, uma dessas vans bem pequenas, e como a chuva desse uma pequena trégua, eu até penso que o dia não foi tão mal devido a essas alegrias momentâneas. Entro meio cambaleante na Besta e balbucio ao garoto de camisa do Flamengo, FICAREI NA BR!, porque o garoto, que devia ter seus quinze, com a camisa do Flamengo é o cobrador, embora não seja cobrador de fato, e sim apenas filho do motorista; está ali, àquela hora da noite, porque o pai o obriga a trabalhar, e como não tem fiscalização que cate nenhum dos dois, o pai persiste explorando o próprio filho. É nessas horas que eu me felicito por não ter pai.
Eu chego a adormecer um pouco durante a viagem, lapsos de sono, cochilos. Ainda estou muito tonto pela bebida. Fico naquele estágio de microssonos até que bato a cabeça na janela e redesperto. Percebo que a chuva voltou; aliás, a chuva não voltou, nós é que fomos em sua direção, porque as nuvens seguem para oeste, e todo nosso trajeto parece que foi correndo atrás daquela nuvem carregada, e assim que nos pusemos bem no meio, no coração dessa nuvem, é justamente quando vejo um cartaz imenso, muito maior que um out-door, anunciando que o aeroporto está a apenas algumas centenas de metros, ou seja, já de meu destino, e eu grito lá do fundo:
DESCE NO CAFÉ!
CAFÉ?, o garoto fica sem entender.
Sua confusão é compreensível porque fazem anos que não pego nenhum transporte alternativo, e na última ocasião em que o fiz o ponto de referência da minha parada ainda era um tal de Café, que na verdade nem sei o que era de fato, apenas concluí a mim mesmo ser Café porque assim que nos mudamos, eu e minha mãe, naquele longínquo 1997, ela me disse:
QUANDO VOLTAR DA ESCOLA, PEÇA SEMPRE PRA DESCER NO CAFÉ!
Então, foi esse Café o ponto de referência pra mim, mas agora o Café, fosse lá o que fosse, não existe mais, e eu não posso fazer nada, e pior, não sei de outro ponto de referência, eu poderia dizer PARA AÍ PERTO DO AEROPORTO, no entanto perto do aeroporto é uma afirmação muito vaga, perdida, sem sentido, perto do aeroporto pode ser em qualquer lugar na BR-101 entre Natal e Parnamirim, e como a visualização estava ruim pela janela, devido à forte chuva, de maneira que eu não sabia onde estava, eu canso e resolvo o problema:
PARA AGORA MESMO ESSA MERDA, AQUI, LOGO!
Quando ele pára eu dou a grana necessária e mostro minha carteira de estudante.
CADÊ O SELO?, pergunta-me o garoto.
MAS QUE SELO?
O SELO QUE AUTORIZA O USO DA CARTEIRINHA, PÔ.
A questão é que eu não sei do que ele fala, selo?, por que raios a minha carteirinha precisa de selo?, afinal eu sou estudante, paguei pela porra da carteirinha, esperei dias pra receber, sempre uso no cinema, sempre uso no teatro, sempre uso nos jogos de futebol, e até no ônibus eu já usei, e não posso usar nesse maldito transporte clandestino, e sendo clandestino nem regularizado é, por quê?
É A LEI!
HA!HA!HA!, rio cinicamente, só que não sei ser cínico, na verdade eu apenas banco novamente o palhaço, porque é isso que sou, um palhaço.
Não faço resistência alguma, aceito pagar a passagem inteira, e assim que desço, debaixo de uma chuva fortíssima, a Besta arranca. Eu poderia logo partir para minha nova peregrinação, pois terei que caminhar mais uns quinze minutos além dos trinta que já era previsto porque noto que estou pelo menos um quilômetro antes da minha parada. Será mais um fardo que terei de suportar até chegar em casa todo molhado para talvez tomar um banho rápido e dar uma requentada no café que deixei sobrar hoje pela manhã, e tudo isso para depois enfim desabar na cama. Porém, não é o que faço. Desço do alternativo e fico aqui, na beira da avenida, apreciando eles tomarem distância. Somente quando a Besta começa a se perder da minha vista na autoestrada, escondida pela neblina e pelo temporal, é que eu lhe mostro o dedo médio, achando que estou provocando alguém, mas não estou, estou apenas provando pra mim e para qualquer um que até aqui tenha duvidado, que eu sou mesmo um estúpido.
No dia seguinte, acordei enjoado, resfriado e com fortes dores no joelho direito.
