quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Da estupidez

É sempre muito tarde quando eu percebo que me meto num programa-de-índio, é justamente esse maldito pensamento que me passa agora. A madrugada ainda está no seu início, acabo de me sentar numa parada de ônibus na Rodoviária Velha, muito bêbado e cansado. Isso tudo porque eu saí de casa horas atrás, ainda era dia, pra vir em um desses bares da Ribeira assistir a uma banda que tem um som meio setentista, meio rock progressivo, umas influências sinfônicas, enfim... Vi o anúncio no jornal, achei bacana, e vim ver, na maior boa vontade. A banda de fato era até legal, entretanto nem teve muito tempo, teve coisa de trinta minutos. No final das contas, o que rolava era apenas um desses festivais de merda onde as mesmas sete ou oito bandas se revezam todos os fins-de-semana, com mais uma banda fantoche pra dizer que há alguma renovação, e o dono do bar lucra e os caras das bandas se acham os sujeitos mais pops do estado, e eu pinto de idiota, de néscio, porque sou o único por ali que não está acompanhado. Sou o único que está ali só pela música, só pela arte, porque queria ouvir algo, e fiquei meio triste e meio puto porque essas coisas sempre acontecem comigo. Antes, eu me aborrecia muito por estar sempre desacompanhado nessas horas, porém há algum tempo me dei conta de que é melhor assim, pois basta apenas eu me enfiar nessas aventurinhas grotescas. Antes um a dois tolos.

Eu nem me demoro muito a sair desse bar – que não é um bar, é uma pequena casa de shows – e ir para um bar autêntico, por assim dizer, só para beber, e hoje, como saí de casa sem moto, eu iria beber bastante, e foi isso que fiz, bebi até ficar meio tonto como há tempos não fazia.

TEM QUANTOS QUISER, RAPÁ, é o que me diz o garçom, e ri para os amigos.

Outros ainda continuam me enchendo o saco.

POR QUE TÁ BEBENDO, BICHO?, pergunta um cara na mesa ao lado pendendo a cabeça na minha direção, mas sem me olhar. GAROTAS? TRABALHO?

ESQUECE... ELE NÃO DEVE TER NEM UMA COISA NEM OUTRA, diz seu companheiro de mesa, e começa a rir, sendo logo acompanhado pelos colegas.

Eu ignorei todos os que me torravam a paciência e bebi até agora há pouco, só parei quando vi que já era meia-noite e pensei que não teria mais condução para o meu bairro. Quando paguei a conta e me levantei, eu ainda tropecei sem querer e caí na pavimentação, caí sobre o joelho e o braço direito. Tentei me levantar logo mas não me sentia totalmente forte, fiquei lá de quatro ouvindo a risada dos caras e com vergonha de mim mesmo, a diverti-los como se fosse um palhaço. Então, levantei-me e ainda lhes lancei um olhar astuto, e saí andando altivamente, como se eu, bêbado e sozinho, tivesse mais poder que dez mil deuses juntos, todavia enquanto caminhava eu ainda escutava risadas.

E agora aqui estou nesta Rodoviária, e poucos minutos depois da minha chegada começam a cair alguns pingos do céu, um chuvisco que gradativamente vai tomando força. Eu ainda me mantenho protegido, afinal essa parada de ônibus é a parada-modelo que a Prefeitura lançou não tem nem dois anos, de um metálico até bonito, colorido, além de ser coberta. Só que o teto é muito alto e a chuva muito intensa, e logo começa uma ventania, daquelas que fazem a chuva vir de lado. Não demora e estou ensopado.

O tempo passa e agora começo a ficar enfadado, porque ainda não vislumbro nenhum ônibus, mas que ônibus?, eu sei que não passa mais ônibus algum a essa hora. Minha única opção vai ser pegar algum tipo de transporte alternativo, qualquer um que tome outro rumo, qualquer intermunicipal, e descerei na BR 101, lá perto do Aeroporto Internacional Augusto Severo para caminhar a pé sob muita chuva e sobre muita lama durante uns dois ou três quilômetros pra chegar em casa. Isso me faz rememorar os primeiros dias em que fui morar naquele bairro, que tem o lindo nome de PARQUE INDUSTRIAL. E isso é engraçado, porque Natal não tem indústria nenhuma, o Rio Grande do Norte também não tem. Porra, se nem o Brasil tem indústrias direito, como é que esse estado se põe na prerrogativa de batizar assim um de seus bairros mais pobres e encardidos? Mas pois é, é isso que os caras fazem, e esse bairro até que mudou desde que fui morar nele, eu tinha coisa de dez ou onze anos, e isso me vem à mente agora porque naquela época não havia ônibus pra lá, e a situação me fez lembrar das minhas longas caminhadas na infância. Na verdade, não havia quase nada, para ser franco. Sequer água e luz tivemos durante os dois primeiros meses. A única coisa que não mudou é o fato de ainda não ter nenhuma indústria lá. Até puseram uma pedreira, uma marmoraria aqui, uma serralharia ali, para se unirem aos galpões antigos e abandonados e dar razão de existir ao pomposo nome de PARQUE INDUSTRIAL.

Pensar nessas coisas é ao mesmo tempo trágico e engraçado, contudo eu não tenho nada mais a fazer, fico pensando nisso até que venha o transporte, e, claro, que seja clandestino, pois estes são os mais baratos e têm aos montes.

Depois de algumas divagações, eis que me aparece um, é uma Besta, uma dessas vans bem pequenas, e como a chuva desse uma pequena trégua, eu até penso que o dia não foi tão mal devido a essas alegrias momentâneas. Entro meio cambaleante na Besta e balbucio ao garoto de camisa do Flamengo, FICAREI NA BR!, porque o garoto, que devia ter seus quinze, com a camisa do Flamengo é o cobrador, embora não seja cobrador de fato, e sim apenas filho do motorista; está ali, àquela hora da noite, porque o pai o obriga a trabalhar, e como não tem fiscalização que cate nenhum dos dois, o pai persiste explorando o próprio filho. É nessas horas que eu me felicito por não ter pai.

Eu chego a adormecer um pouco durante a viagem, lapsos de sono, cochilos. Ainda estou muito tonto pela bebida. Fico naquele estágio de microssonos até que bato a cabeça na janela e redesperto. Percebo que a chuva voltou; aliás, a chuva não voltou, nós é que fomos em sua direção, porque as nuvens seguem para oeste, e todo nosso trajeto parece que foi correndo atrás daquela nuvem carregada, e assim que nos pusemos bem no meio, no coração dessa nuvem, é justamente quando vejo um cartaz imenso, muito maior que um out-door, anunciando que o aeroporto está a apenas algumas centenas de metros, ou seja, já de meu destino, e eu grito lá do fundo:

DESCE NO CAFÉ!

CAFÉ?, o garoto fica sem entender.

Sua confusão é compreensível porque fazem anos que não pego nenhum transporte alternativo, e na última ocasião em que o fiz o ponto de referência da minha parada ainda era um tal de Café, que na verdade nem sei o que era de fato, apenas concluí a mim mesmo ser Café porque assim que nos mudamos, eu e minha mãe, naquele longínquo 1997, ela me disse:

QUANDO VOLTAR DA ESCOLA, PEÇA SEMPRE PRA DESCER NO CAFÉ!

Então, foi esse Café o ponto de referência pra mim, mas agora o Café, fosse lá o que fosse, não existe mais, e eu não posso fazer nada, e pior, não sei de outro ponto de referência, eu poderia dizer PARA AÍ PERTO DO AEROPORTO, no entanto perto do aeroporto é uma afirmação muito vaga, perdida, sem sentido, perto do aeroporto pode ser em qualquer lugar na BR-101 entre Natal e Parnamirim, e como a visualização estava ruim pela janela, devido à forte chuva, de maneira que eu não sabia onde estava, eu canso e resolvo o problema:

PARA AGORA MESMO ESSA MERDA, AQUI, LOGO!

Quando ele pára eu dou a grana necessária e mostro minha carteira de estudante.

CADÊ O SELO?, pergunta-me o garoto.

MAS QUE SELO?

O SELO QUE AUTORIZA O USO DA CARTEIRINHA, PÔ.

A questão é que eu não sei do que ele fala, selo?, por que raios a minha carteirinha precisa de selo?, afinal eu sou estudante, paguei pela porra da carteirinha, esperei dias pra receber, sempre uso no cinema, sempre uso no teatro, sempre uso nos jogos de futebol, e até no ônibus eu já usei, e não posso usar nesse maldito transporte clandestino, e sendo clandestino nem regularizado é, por quê?

É A LEI!

HA!HA!HA!, rio cinicamente, só que não sei ser cínico, na verdade eu apenas banco novamente o palhaço, porque é isso que sou, um palhaço.

Não faço resistência alguma, aceito pagar a passagem inteira, e assim que desço, debaixo de uma chuva fortíssima, a Besta arranca. Eu poderia logo partir para minha nova peregrinação, pois terei que caminhar mais uns quinze minutos além dos trinta que já era previsto porque noto que estou pelo menos um quilômetro antes da minha parada. Será mais um fardo que terei de suportar até chegar em casa todo molhado para talvez tomar um banho rápido e dar uma requentada no café que deixei sobrar hoje pela manhã, e tudo isso para depois enfim desabar na cama. Porém, não é o que faço. Desço do alternativo e fico aqui, na beira da avenida, apreciando eles tomarem distância. Somente quando a Besta começa a se perder da minha vista na autoestrada, escondida pela neblina e pelo temporal, é que eu lhe mostro o dedo médio, achando que estou provocando alguém, mas não estou, estou apenas provando pra mim e para qualquer um que até aqui tenha duvidado, que eu sou mesmo um estúpido.

No dia seguinte, acordei enjoado, resfriado e com fortes dores no joelho direito.



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Sobre Quando Senti Saudades

Perdi alguns amigos, mas não muitos.
Alguns chegados já se foram, devido a facadas, tiros ou acidentes.
Mas poucos me deixaram boas lembranças como o saudoso Adelmário,
um velho que deixou sequelas permanentes em todos, a despeito das confusões que causou.
Republico essa postagem em sua memória... um ano depois.




Ele era divertido, sincero e despreocupado como uma criança, a despeito de seus quarenta e poucos anos. Isso, no entanto, não afetava sua vida social, por uma razão simples: ele não tinha vida social. Quando adolescente, era um visionário, carregava livros e sonhos em sua mochila. Parecia promissor, como bom estudante que era, como bom amigo, como namorado, como companhia pras diversas atividades. Um cara requisitado e considerado. Como já dito, estudioso inveterado, gostou da experiência adquirida quando do serviço militar e traçou como meta ingressar na carreira definitiva. Além disso tudo, atleta, forte e eficiente. "O melhor goleiro da Força Aérea". Adelmário era seu nome.

Os sonhos, porém, como as borboletas, morrem todos os dias. Com aquele garoto-prodígio, não foi diferente. Bastou um acidente de carro - um atropelamento, um arremesso de 30 metros que fez seu corpo outrora vigoroso e facilmente autossustentável virar um pedaço de pano seco e frágil no asfalto.

O desejo de ser um militar de carreira se foi como num estalar de dedos. Quase tão repentino quanto o acidente sofrido, foram-se embora também os amigos, a namorada, as outras tantas pretendentes, o sorriso fácil.

Apesar de tudo, sobrevivera. Isso era o mais importante, diziam-lhe os parentes e um outro aprochegado, estes nem um pouco íntimos. No entanto, para aquele jovem acidentado, a oportunidade de sobreviver se tornou simplesmente um adiamento de sua morte. É verdade que suas habilidades básicas até lhe foram devolvidas. Com ajuda de pinos e parafusos, voltou a andar, a se movimentar normalmente e a viver "como se nada de tivesse acontecido". Mas era impossível pensar que nada tivera acontecido. Considerava uma desonestidade para com seus próprios desejos que o acompanhavam até ali.

Como é o destino de todo indivíduo malogrado e arruinado, ele afundou no mundo noir do álcool e do tabaco. Fumava como uma chaminé e bebia a ponto de esquecer o nome do planeta em que vivia. Nos trabalhos que arrumou depois da recuperação, não se mantinha por mais que algumas semanas. Nos estudos que tentou prosseguir, já não sentia mais nenhum ânimo em se concentrar. Tornou-se um baderneiro. Roubava. Quebrava bares e batia em pessoas. Em casa, virou um parasita na família, morando com a mãe - agora já uma senhora, atormentada com as constantes notícias de seus escândalos. Ela que já era avó, graças a seus outros irmãos. Seus irmãos, aliás, todos bem-sucedidos, o humilhavam constantemente, quase como esporte. Freqüentemente convidavam-no a dar fim à própria vida: "te dou o funeral que dos seus sonhos, mas vá embora e deixe nossa mãe em paz".

Foi nessa época turbulenta que o conheci. Ele era tio de um amigo dos tempos do jardim de infância que me convidava nas sextas para sua casa, e eu ia, quase empurrado pela minha mãe. Como conversávamos bastante, nós três, passei-me a aproximar-me mais dele. Com o tempo, tornou-se mais que apenas o tio de meu amigo; com ele próprio eu criaria um laço de amizade. Então passei a, eventualmente, visitá-lo. Era um ótimo parceiro pra conversar sobre minhas vivências de adolescente. Bem se notava que ele ainda guardava a alegria e a pureza doutros tempos. Com sua companhia, assistia aos jogos da Seleção, embora fosse difícil, uma vez que ele só gostasse de jogos onde Ronaldo estava escalado (ao contrário de mim). Também conversávamos sobre bebidas, ainda que ele já não pudesse beber nesse período, pois seu organismo estava muito debilitado. A primeira vez que o vi beber e cair no chão sem conseguir se levantar, senti uma vontade brutal de chorar. Apesar da condição física deteriorada, ele ainda bebia às escondidas.

Além disso, proseávamos longamente sobre planos... mas isso não levava a nada, afinal ele já não tinha planos. E eu apenas pensava que tinha.

O tempo, esse traiçoeiro, fez com que nos víssemos em cada vez mais fugazes oportunidades. A esse tempo obedecemos vergonhosamente, e já fazia dois anos que não via nem falava com esse bom e velho amigo.

Então, senti saudades.

Passado o último Carnaval, numa bondosa tentativa de prosear e marcar uma hora para nos reencontramos pessoalmente, eu lhe telefonei. E qual não foi a minha ingrata surpresa quando recebi a acanhada informação de que poucas horas depois, seria celebrada uma missa pelo sétimo dia de seu falecimento...

Não acreditei. Não me situei no princípio. Apenas parei e me lembrei dele. Lembrei de seu sorriso trôpego, já sem a maior parte dos dentes. Das piadas e dos xingamentos. Das peladas que batíamos, embora ele não tivesse fôlego nem pra correr cinco passos. Pensei o que ocorre a todo mundo que perde seus entes; eu não o veria mais. Fiquei acometido de um arrepiamento, um calafrio. E do retorno daquela vontade de chorar.

Esse cara estragou a sua vida, foi o que pensei na hora. Mas isso era besteira. Era um julgamento indevido de minha parte. Estragar sua vida, afinal, todos fazem. Mesmo quem acredita estar cuidando refinadamente da sua. Ele apenas estragou à sua maneira. Estava no seu direito. A minha tristeza estava contida, como todos os fortes sentimentos assim estão, no meu comportamento reservado. Em menos de um mês, eu iria novamente a uma missa de sétimo dia, pois semanas antes falecera a avó da minha irmã, que, segundo minha mãe, também era minha avó. Mas a despedida dessa desolada senhora, néscia e delirante em seus últimos dias, para mim, foi mera burocracia familiar; a despedida deste camarada, todavia, sim, me abalava. E novamente eu segurei as lágrimas por ele.

Fui à casa de meu velho amigo da escola no dia da missa. Entre nós, parecia já não haver mais nenhuma intimidade - nós que, não muitos anos antes, havíamos feito juras de amizade. Não me demorei na sua casa. Trocamos poucas palavras. "Ele estava muito magro... você não ia querer ver...", foi uma das poucas coisas que me disse.

Adelmário bebeu muito, mas, de fato, morreu de tanto fumar. O cigarro, que mata centenas de milhares de pessoas anualmente, estatísticas que não abrangem aqueles que merecem, aqueles que vivem simplesmente por inércia e dinheiro, mas leva outras boas pessoas que já não querem nada da vida, porque não podem querer nada.

E eu sequer pude ir a seu funeral, vê-lo pela última vez, ainda que pelo visor do caixão, sob a pele ossuda e horripilante de uma vítima de câncer de faringe. Precisei conter meu choro novamente, pois não gosto de despedidas, mas não fujo delas. As despedidas são os momentos mais importantes das nossas vidas. Despedida da faculdade, do namoro, do emprego, da rua onde moramos, da vida. Elas são um resumo de tudo que conquistamos ou deixamos de conquistar.

Na missa, sob um olhar trêmulo, sua mãe me disse que ele, nos seus últimos momentos, queria ver montado um quadro com a foto de todos os seus amigos, desde aqueles do tempo de sua juventude até aquela fase de meia-idade (essa meia-idade, para muitos um novo começo, para ele um novo fim). Então, ele fez uma lista de quem deveria estar. Eu estava na lista, é claro... não era o primeiro nem o último, mas estava lá - isso é o mais importante. Porém, a comoção daquela velhinha de oitenta anos me contagiou em definitivo quando eu soube que meu retrato era o único não incluído no dito quadro. Era impossível, ela disse, pois não tinham nenhuma foto minha.

Pela última vez, eu segurei o choro. Até chegar em casa.



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Olhando para trás

Não havia nada a ser invejado na minha infância. Eu não viajava; não visitava parques aquáticos; não brincava na rua. Tudo isso devido à disciplina com a qual minha mãe tentava me fazer habituar, embora ela mesma nunca fosse disciplinada. Mas, em outra parte, pelo meu próprio desinteresse em participar de tais frivolidades.

Até os quatro anos de idade, eu não tinha nome. Ou poderia dizer que tinha vários. Certa vez, há muito tempo atrás, vi uma foto minha num campo aberto, parecia um deserto, e no verso dizia “hoje é 6 de dezembro de 1986, Carlos Alberto fez um ano”, acompanhado de algumas declarações de felicidade, da benção de ser mãe, entre outras anotações. Através dessa e de outras fotos antigas, além do que ela já me contou, soube com o tempo que já me chamei Juan, Ricardo, Roberto, Raoni, Pablo, Leonardo e Leonel, até que se decidisse por Leon. Todos esses nomes acompanhado de Carlos. Claro que eu não era registrado.

Então, para facilitar as coisas, os parentes me chamavam apenas de Ninho. Era mais fácil. Assim foi até que chegou a idade de eu entrar na escola, e ela enfim fez a minha certidão, decidindo de uma vez por todas qual seria o meu nome: Leon.

A minha pobre mãe tinha suas vicissitudes, que a faziam me valorizar. Ela era a mais nova entre sete irmãos, a garota-prodígio, se saía bem nos cursos de inglês, tirava notas bastante elevadas na escola, entrou facilmente na universidade, tinha um caminho aparentemente traçado com linhas coloridas e brilhantes. Mas, aos dezoito anos, esteve grávida, o que não era recomendável em sua situação: devido a um atropelamento sofrido aos nove anos, os órgãos componentes de seu útero tinham dificuldade em se desenvolver, de maneira que o embrião atrofiou-se logo no princípio de sua formação, e ela veio a abortar. Esse trauma, ao que consta, foi gigantesco. No mesmo ano, engravidou novamente, e abortou novamente. Deixou curso de idiomas e faculdade. Foi viver com o namorado. Engravidou pela terceira vez. E por algum milagre, conseguiu ver nascer seu primeiro filho. Na verdade, uma garota. Kaline, minha irmã. Eu nasceria dois anos depois, e entre nós haveria um terceiro aborto. Um dia depois que eu vim ao mundo, minha mãe fugiu do hospital. Não tinha pra onde ir, não sabia o que fazer. Só sabia que não queria levar a vida que tinha até ali. Vivia na casa dos sogros há cinco anos, e mesmo assim todos eles diziam que meu pai era outro. Quando foi encontrada, o médico – de confiança da família – disse que ela sofreria sérios abalos psicológicos se tivesse um novo filho, e ligou suas trompas, ao que ela somente soube na manhã seguinte.

Minha mãe deixou a casa onde vivia e voltou a morar com sua mãe, sem dinheiro, sem trabalho, sem estudo e com um filho no braço – a filha ficara na casa dos sogros, por insistência deles.

Cresci, então, com a mãe sempre me lembrando que as pessoas são máquinas incompreensíveis, difíceis de entender e indignos de confiança até que provem o contrário. A despeito do nome que eu não tinha e de outros detalhes menos interessantes, ela me ensinou a ler, a falar inglês, a calcular, tudo antes de ir para a escola. Queria fazer de mim a pessoa importante que não se tornara, talvez. Mas a compreensão de importante, para minha mãe, se reproduzia em termos monetários. Desde cedo, eu lia os livros que depois ocupariam a lista de mais vendidos; aprendia sobre as leis da autoestima, sobre o poder do pensamento positivo, lia os manuais e as biografias dos milionários. Achava que Napoleon Hill era meu ídolo. Tios e avós me davam tapinha nas costas, sempre aclamando o futuro "doutor da família". Esse tipo de pensamento povoou meu imaginário durante uns dez anos. Olhava para os vizinhos de minha idade jogando bola, xingando-se e esbofeteando-se, e lamentava pela crescente pequenez de suas mentes.

Apesar de tudo, eu ainda tentava criar alguma amizade. Quando era convidado a jogar futebol, eu ia junto. Ainda que não suportasse a gritaria, as ordens. No final, quando perdíamos, era a mim que todos cercavam. Diziam que eu devia ir embora, que se arrependeram por terem me chamado. E eu ia embora, esperando que eles chamassem de volta e dissessem "escuta bicho, desculpa pela grosseria". No entanto, nunca chamavam. Às vezes, me jogavam pedra pra que eu saísse correndo.

Essas e outras coisas, vindas com o tempo, me tornou diferente. Chegou um momento que eu percebi que as coisas não eram assim tão simples quando supunha. Nessa época, eu já ia sozinho para a escola, transportava-me de ônibus, pegava dois deles, um para atravessar a ponte, outro para chegar aonde estudava. Viajava de um lado da cidade até o outro. E por essa época eu já sofria assaltos, já via a mendicância a dormir nas ruas, já tomava sopapo dos moleques da escola, já levava foras de garotas. Eu não estava preparado para tudo isso. E então tentava fugir. Decidi não ir mais para a escola. Aliás, mais do que isso, convenci-me de que vivia uma vida errada, aquilo que aprendia e pensava não tinha conexão com as coisas reais. Pegava um ônibus e, enquanto a escola ficava numa direção, eu me dirigia à outra. Ia para a praia, e ficava lá o dia todo. Ou para um bosque, ou simplesmente ia para o centro da cidade e me punha sentado numa parada de ônibus durante quatro ou cinco horas. Até que caísse a noite e chegasse a hora de eu ir pra casa.

Minha mãe descobriria meses depois. E seria um novo trauma pra ela, que, aliado a outras decepções que teria comigo, que já não era mais uma criança, buscaria seus próprios subterfúgios. Passaria a beber excessivamente. Eu seria colocado numa escola pública periférica. Ela decidira que não mais pagaria estudos pra mim. Nunca mais me perguntou como estavam minhas notas. Nunca mais perguntou por onde eu andava ou com quem estava saindo. Nunca mais me deu livros ou me ensinou nada. Seu passatempo favorito era sair e conhecer caras que no mês seguinte viriam morar conosco e três meses depois iriam embora depois de brigas e brigas, e tantos socos e palavrões trocados entre eles.

Eu passei a me confinar ainda mais no meu quarto. Decidi que o tempo que ficaria em casa seria o mínimo possível. Conhecia alguns amigos, entre malandros aqui e bem-intencionados ali. Fiz uma banda de garagem e nos apresentamos algumas vezes. Havia uns sempre de prontidão a nos presentear com benzina para que cheirássemos a madrugada toda. Existia também um bocado de garotas que ofereciam seu corpo como se não fosse nada – uma maneira boba de sair da rotina, talvez. Ainda havia o movimento estudantil, que, à parte das garotas e drogas fáceis que também proporcionava, me ajudou a observar o mundo com outros olhos, a perceber que estamos todos num permanente conflito, numa tensão inacabável, para além daqueles dilemas existenciais. Para desfrutar essas aventuras, eu tinha uns trocados; minha mãe não conversava mais comigo como antes, mas tentava comprar minha amizade dando computador, violão, mesada e coisas assim. E eu aproveitava para tentar fazer uso disso da maneira que eu achasse mais escrota.

Entretanto, garotas, drogas, malandragem, banda de rock, foi tudo passageiro. Como todas as coisas que já fizeram parte de minha vida, logo cansei delas. Tive menos garotas a cada ano, já não tocava mais rock, ainda que assistisse algumas apresentações e também não andava mais acompanhado de substâncias estranhas, apesar de ainda continuar a beber depois dessa fase.

Em casa, quando era madrugada, eu notava pela luz que vinha por baixo da porta que a sala estava iluminada pelo abajur. Era a minha pobre e solitária mãe, escrevendo em sua agenda e bebendo cerveja, ouvindo música bem baixinho. Ocasionalmente, eu saía do quarto, ela parava de escrever, eu ia beber uma água ou comer alguma coisa, e depois sentava e conversávamos um pouco. Nessas horas, ela era mais boa companhia que em qualquer outro momento, antes ou depois dessa fase. Depois, eu voltaria para o quarto e ela voltaria a escrever e a beber, um ritual quase diário. Ela talvez confidenciasse a si mesma que havia cometido muitos erros comigo, erros que não poderiam ser mudados, e teria de viver com isso para sempre.

E eu roubei esse hábito dela. Quando é noite, eu tento ver TV ou, como é mais frequente, fico conversando na internet. Às vezes, recebo um telefonema dela, que agora está noiva e pelo menos desta vez não é um cara problemático, tanto que estão juntos há sete ou oito anos. A conversa com ela é sempre breve. Na TV, a programação vazia de conteúdo logo nos convida a desligá-la. E as companhias virtuais, o último escape que resta, também não se demoram a ir embora. É um momento em que não sobra mais nada, senão pegar algo para beber e colocar uma música para soar, só que bem baixo, quase inaudivelmente. E pensar nos tantos erros que cometi – e cometeria de novo se preciso fosse –, mas principalmente nos erros que cometeram ela e todos os outros que já esperaram algo de mim.



quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Camas desfeitas

Ainda me recordo de quando, jubilado da faculdade e procurando trabalho, cogitei sair de casa a primeira vez.

- Não, não, não e não!

Era sempre uma negativa aos colegas que, recém-ingressados na Universidade, queriam alguém pra dividir quarto, apartamento, ou o que lá fosse. Mas eu não queria. Estava saindo de casa não por uma incompatibilidade de interesses somente com a minha mãe, e sim por uma impossibilidade de permanecer dividindo vida com alguém. Não conseguia, e não consigo, me sentir confortável sabendo que chegarei em casa e lá haverá outra alma atormentada que, de alguma maneira, roubará a minha paz, a minha solidão - sem oferecer verdadeiramente companhia.

Sendo assim, a única opção que me restava era procurar outros lugares, tipo hotéis ou pensões. O primeiro que experimentei foi um hotel barato, infiltrado numa movimentada rua da Cidade Alta, mas tão decadente que poucos já lhe deram atenção ao passar por ali. Não trazia consigo nenhum charme daqueles de filmes, nenhum letreiro de neon piscante. O nome do recinto - Hotel Nordeste - estava mal pintado na parede, bem como toda sua tabela de preços. Uma noite custava 10 ou 12 reais; um mês, 200 reais. Dormi lá só uma noite. Mas é horrível dormir em hotel barato; ao menos, se considerar que todos os hotéis baratos são como esse. Em primeiro lugar, o quarto já não me oferecia muito. Havia dois beliches, um deles sem qualquer cobertor, e uma parede descascada, rachada e rabiscada até o último centímetro. Mas isso não era o pior. O pior era não ter o banheiro no quarto. O assistente me houvera acompanhado até o segundo andar, onde eu ficaria hospedado, e me apontara o no fim do corredor. Esperei que ele descesse para poder ver como era o interior, e notei que aquele lugar poderia servir para tudo, e tudo mesmo, considerando que ali deve ser também ponto de atuação de boa parte das meretrizes da Cidade Alta, menos para a higiene ou qualquer coisa que o valha. O banheiro é muito importante. Às vezes, quando a própria residência nos representa um peso, o banheiro é o único lugar que pode servir de refúgio. Nesse hotel, entretanto, eu não teria esse refúgio.

Num hotel desses, fatalmente aparecerá um bêbado mexendo no trinco da porta pela madrugada. Foi o que de fato aconteceu; no final da madrugada, desperto e ouço uma voz rangente e uma insistente luta para abrir a fechadura. Sem sucesso, é lógico. Nem o bêbado nem eu, que decidi procurar outro lugar.

Quando, depois, fui procurar um kit-net nos fundos de uma casa, num bairro nobre, a coisa só pioraria. Ainda me lembro de entrar no quarto, um entre quatro, sem nada lá dentro senão um guarda-roupa, uma cama e um criado-mudo, enquanto eu só carregava umas roupas e livros na mochila e um violão; mas este eu nem sei porque carregava, fazia mais de um ano que não o tocava, hoje faz muito mais. Também não sei mais por onde ele anda, emprestei a alguém que precisava de um violão de papelão e cordas de nylon pra aprender uns abjetos acordes e nunca mais pedi de volta.

Como foi dito, o kit-net ficava nos fundos da casa de um casal de senhores, que eu pensei que facilmente dobraria, só que não foi bem assim. Eu era iniciante na coisa de garimpar noites em quartos estranhos, era mais fácil dormir na rua - e foi o que realmente me ocorreu nessa época, por uma ou duas vezes. Por outro lado, o coroa parecia já ser bem esperto a ponto de enrolar sua clientela. Nos dias em que lá estive, em todos ele vinha me encher o saco, dizendo o que poderia ou não fazer, reclamando de todas as coisas, não importava se eu fechasse a porta (ele mandava uns bilhetes por baixo dando orientações disso e daquilo). Eram um casal de pentelhos coroas, só então entendi por que ninguém dos outros quartos estava lá a maior parte do tempo. Maldito velho, senti vontade de matá-lo quando estava na terceira noite, mas desisti e fui apenas embora, deixando pra trás a solidão de uma cama desfeita, uma cueca suja e o aluguel de um mês pago adiantado... aquele dinheiro não faria falta se eu encontrasse o sossego em qualquer outro lugar, nem que fosse num banco de praça.

Talvez as piores experiências fossem com mulheres, a maior parte delas com uns anos a mais do que eu. Eu lembro que recorri a algumas nos momentos mais difíceis. Era sempre bem-recebido, não só como visita. Elas sempre queriam que ficasse mais. E mais. Devia haver algo que as afligia, porque eu notei que era comum que tais mulheres, depois de uma certa idade, sei lá, vinte e cinco, vinte e seis anos, não conseguissem mais suportar a idéia de serem sós, de viverem sós. A carência era absurdamente grande, e para elas era plenamente natural que eu lhes oferecesse amor em troca de um teto. Mas para mim não era, porque nunca supri carência de ninguém. Ainda mais de pessoas nesta situação... para elas, estar com alguém ia muito além da necessidade natural e animal que todos temos, era uma necessidade doentia, viciosa, sobre a qual elas não tinham nenhum controle.

Era difícil ir embora, porque a despedida nunca era algo cortês e sempre ficava a sensação de que ela cortaria a garganta assim que eu dobrasse a esquina - certamente nenhuma delas faria isso, mas só a sensação me cortava por dentro.

Mais de uma vez, aceitei convites de colegas para dormir na casa deles. Acho que dormir na casa de conhecidos me faria diminuir essa zanha misantrópica que carrego. E era bom, conversávamos muito. Mas como eu nunca via o meu hospedeiro ao dia - eu havia conseguido um trabalho, saía cedo e voltava no início da noite, nas quatro ou cinco vezes que dormi por aí de favor - nunca conversávamos muito. Quando o fazíamos, a conversa era sempre contida por necessidades outras.

- Vou dormir, boa noite - diziam, e se iam.

Eu nunca compreendi como dormir poderia ser um ato tão burocrático para as pessoas. Dava uma certa hora e diziam "vou dormir" para si e para quem mais fosse necessário, e se acomodavam, houvesse ou não compromissos na manhã do dia seguinte para justificar seu ato. Para mim, dormir era difícil. A menos que eu já estivesse tomado de sono a ponto de apagar assim que me deitasse, geralmente o que me ocorria eram perturbações sempre que eu me deitava. É por isso que fujo da cama, fujo porque ela me traz pesadelos enquanto ainda estou desperto. Não me deito nela de bobeira, esperando pegar no sono. Prefiro ler livros na poltrona e adormecer, ver TV no sofá e adormecer, ficar na internet e adormecer. Não consigo dizer nem pensar "vou dormir". Apenas adormeço, quando o corpo assim exige, sendo mais forte do que eu.

Essas e outras experiências se intercalaram com retornos turbulentos à casa de minha família por cerca de um ano. É demais, para qualquer um. Delas, ficaram alguns traumas meio difíceis de sanar, e uma necessidade potencializada de ficar distante das pessoas nas horas mais importantes - aquelas, perdidas no meio da madrugada. Assim, vou levando. Vez ou outra, ainda recebo telefonemas de velhas - e novas - garotas querendo conversar. Eu gosto, as conversas são revigorantes. Quem dera uma relação a dois se compusesse apenas de conversa. Também continuo a receber convites de amigos desejosos de dividir apartamentos. Permaneço recusando a todos.

Por outro lado, já não recebo visitas, senão de algumas baratas quando esqueço o ralo aberto, porque ninguém sabe onde moro. E ao menos isso já é garantia de que estarei livre de fantasmas estranhos quando me dirijo pra casa. Já basta o meu próprio.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Nesses próximos dias, devo postar um conto novo. De fato, estive relativamente distante da tal "blogosfera", ative-me mais a emails e recados ultimamente. Nem escrevia neste blog nem comentava nos blogs amigos, mas lia todos - sobretudo o Literatura Vil, é claro.

Antes de qualquer coisa, lembro que meu maior fator de ausência se deu em virtude de eu estar em campanha à presidência do DCE do CEFET-RN (agora Instituto Federal de Tecnologia). Contudo, perdemos por algumas dezenas entre centenas de votos, mas enfim... tropeços iguais são vicissitudes comuns a todos. Mas que o resultado final foi lamentável... foi sim.


***

A Dina, do blog Acorda pra Vida, ofereceu gentilmente um selo para este blog, cuja menção está colocada no link de selos, do menu lateral... infelizmente, eu a imagem do selo não apareceu lá, não sei porque, acho que desaprendi, sério mesmo... de qualquer maneira, ajeitarei depois.


***

Como disse, em alguns dias postarei um conto novo... Por ora, deixo um poema, pedindo desde já desculpas, afinal nunca tive lá muito jeito com versos, e confesso que nem gosto muito deles. Mas como experimentalismo nunca é mau, segue...


O Emoldurador

Enquanto estávamos sempre assim, sem que ninguém soubesse
Sob a aura colorida de uma luz que te obedece
Eu era tão fogo ao te ver, mesmo que pouco tempo tivesse
E agora já é tudo passado, mas a lembrança ainda floresce

... como num campo tão cultivado, num conto bem escrito
Num rio muito mergulhado e vivo
Num ambiente tão vivido, pelo mundo em que habito

É tudo tão bonito mas agora é tão duro, mesmo quando posso te ver
Pois pelos teus olhos escuros, hoje é como se visse um muro
Não deixar os pés distantes do chão já é um dever
Mas, tão vago e violável, desobedeço-o
e, no ponto mais alto,
te emolduro.

Assim eternizo teu brilho, tua cor, teus traços, teu valor
E finalizo meus anseios, pois de mais que isso não sou merecedor.
Fico somente a admirar-te, como diante de um altar suntuoso
E agora este meu coração conflituoso
para sempre abrigará uma dor.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Acompanhados e sozinhos

Ofereci mais de mil vezes o meu sorriso, notadamente cada vez que era questionado sobre como estava meu humor naquela roda de conversa. À mesa frívola de uma praça de alimentação, meia dúzia de amigos, todos bastante risonhos e afáveis, acompanhando-me numa embriaguez pequeno-burguesa de pizza e refrigerante. Em geral, todos conhecidos meus há pelo menos um lustro. Três casais. Falávamos alto, como todo mundo por ali. Eu ficava, entre uma alocução e outra, olhando para o céu, observando a boca da noite a eliminar um a um os elementos do dia corrido, já sentindo um pouco o cansaço de estar ali e sendo comiserativo comigo mesmo, pois parece que não é fácil se manter sozinho depois que se passa dos vinte e poucos anos. Um dueto entre os que compõem a mesa, afinal, já é casado; outro já se namora há anos e o terceiro tem uma relação menos estável que os restantes, ainda que haja uma insistente paciência entre ele e ela, de modo que os dois se mantêm juntos assim e assim parece que irão permanecer por algum tempo. De minha parte, apenas imagino como deve ser penosa e confusa a vida a dois, compartilhando cada momento. No meu caso, sujeito de amores impetuosos e faltos, nunca compartilhei nada com ninguém.

Um dos últimos momentos de intimidade que tive com uma garota se esmiuçou por completo quando ela acordou e percebeu pasmada que estava nua e seu banheiro todo vomitado - vômito dela, naturalmente. Havíamos bebido um pouco, mas isso lhe fizera mal. Eu lembro que permaneci desperto durante toda a madrugada, quase sem mexer um milímetro do meu corpo, e a observei pegando no sono, como também a notei acordando algum tempo depois, após um intervalo de três ou quatro horas. Era como se uma pessoa adormecesse a meu lado e outra pessoa acordasse. Em resumo, minha relação com garotas não se compõe de parcerias, mas de cumplicidades. Noventa por cento delas me afirmou, com doce voz, que pretendia esquecer o que tivemos e solicitava que eu fizesse o mesmo. Eu sou homem, e nunca afirmarei para uma garota que tentarei esquecê-la - contudo, tampouco a questionarei se essa for sua vontade.

Eram memórias tumultuadas como essa que me vinham à mente quando eu fitava meus amigos e suas fiéis companheiras a se beijarem romanticamente a cada espaço vazio no colóquio; espaços parcos, aliás, pois na pauta estão acaloradas e orgulhosas discussões, com histórias heróicas de conquistas pessoais, análises políticas, bisbilhotices, dinheiro. Por essência, assuntos igualmente discutidos em ambientes quaisquer, seja naquele em que nos situávamos, seja numa mesa de boteco de alguma megalópole ou até mesmo numa sala de bate-papo na internet. Delongas que não levariam a lugar algum, portanto. Todavia, nós, justificando nossa postura salvadora e presunçosa, demarcávamos nosso espaço. E eu não ficava para trás, embora, ao contrário de meus camaradas, eu não tivesse uma pequena para aplaudir meu discurso na confraria.

Quando é chegada a hora de partir, todos optam por ir à casa de um deles, para prolongar a noite e a madrugada num passatempo qualquer. Por mais que eu expressasse desinteresse, a minha presença pelo restante da noite, claro, foi requisitada, com muita piedade e compaixão. Sendo o primo pobre do grupo, sou permanentemente acolhido pelos bons samaritanos, sempre dispostos a oferecer dinheiro e abrigo nas horas complicadas, além de serem, cada qual na sua individualidade, agradáveis companhias. Como não tenho nada para lhes retribuir, não faria, logo, mais essa desfeita, e aceito acompanhá-los. Entretanto, a essa altura o convite já não se sustentava mais - alguém lembrara que estaria ocupado no dia seguinte. "Preciso resolver aquela bronca, senão blá-blá-blá". Repentinamente, parece que surge do nada uma competição para ver quem está mais atarefado: "é mesmo, também preciso fazer aquele blá-blá-blá", diz mais um. "E eu preciso fazer aquilo", diz uma terceira voz. Nem adiantou que um entre nós lembrasse que o dia seguinte seria sábado. Todos já haviam se convencidos de que deveriam estar ocupados no dia seguinte.

Então, feita a despedida, voltei para casa sozinho, quieto e pouco pensativo. Todos eles também se foram, preocupados e confusos em suas vidas de gente grande, cheias de preocupações conjugais, profissionais, universitárias e monetárias. Meros subterfúgios para a fadiga existencial que se acomete sobre nós, enquanto tentamos fingir que não sofremos disso.



Conto originalmente publicado na segunda
edição da revista Tá na Cara!, lançada em novembro,
e que permanecia inédito no blog.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Quando até os iogurtes fazem falta

Pegue um lápis e marque um ponto
no centro de uma folha
a solidão é tudo o que está em volta

Alice Sant'Anna


Deitada ao meu lado, ela ainda insistia em conversar.

- Você parece até que não gostou...

Dei uma risadinha e não respondi.

- Li uma vez - prosseguiu - um texto seu em que você dizia que gostava de mulheres que transavam bem e que tinham um bom papo.

Olhei pra ela e a corrigi: - não, eu dizia que gostava de mulheres que tinham apenas um bom papo.

- E saber transar bem não é importante pra você?

- Não.

- Por que não?

- Porque também não transo bem e nem gosto disso.

- Por quê? Você é fresco?

Ignorei o comentário e percebi que o melhor que eu fazia era cair no sono Virei para o outro lado e fechei os olhos enquanto ela foi tomar banho, no entanto ela logo voltaria sem que eu conseguisse adormecer, e como ela bebesse ainda bastantes tragos de vinho - bebia sozinha, pois eu detesto vinho -, suas delongas não pararam. Eu preferi beber um iogurte pra ver se me distraía... sem sucesso.

- Tenho um bom papo - insistiu -, por que não conversa comigo?

- Você não tem um bom papo, você apenas transa bem.

- Mas você disse que mulher que transa bem não faz o seu tipo.

- E não faz mesmo.

- Ha!Ha!

Ela riu, ainda que tenha detestado o comentário. Sentou na cama, entoando uma enrolação atrás da outra. Eu demorei mas enfim percebi que fora um erro ir pra casa dela, que fora um erro ter pego aquele ônibus no qual a reencontrei; que fora um erro ter bebido conhaque depois do expediente com um amigo, o que me levou a pegar aquele ônibus; que fora um erro ir trabalhar naquele dia, o que me levou a encontrar esse amigo; que fora um erro acordar, o que me levou a ir trabalhar. Tudo no dia foi um erro, notei que me sentia muito melhor horas antes, mesmo estando há oito meses sem deitar com uma garota, do que nesse momento pós-êxtase, sendo obrigado a ouvir tamanhas tagarelices sem possibilidade de pagar a conta e ir embora. Eu pus as duas mãos na cabeça, esperando um apagar repentino que não vinha, enquanto ainda ouvia sua voz rinitente a me roubar a paz e a serenidade.

- Você deve ter um amor recalcado por mim, só pode.

- Não... - disse-lhe - O meu amor recalcado passou hoje no vestibular da Universidade Federal, e nunca mais a verei.

- Por que não?

- Porque ela vai se enfurnar naquela universidade, e eu tenho asco daquele lugar.





Quando estava, uma hora e meia depois, pegando outro ônibus, um corujão, à madrugada, voltando à minha rota normal, indo para casa, ainda pensava nos erros. No erro de ter vendido a moto, o que me faz andar de ônibus. No erro de ter amores recalcados, o que me faz suscetível a boas ofertas como a dessa ex-vizinha que encontrei na condução e me ofereceu uma noite de prazer.

Falando em recalques, então, terminei por ficar travado por vários dias depois desse sem conseguir escrever - lamentavelmente. Meu editor aguardava os meus textos, meu blog aguardava outros textos, meu espírito também os aguardava, tudo ansiava por novas manifestações que não vinham, e até o iogurte agora me fazia falta. Estava tudo ao meu redor tão abafado, eu tentava de todas as formas me estimular, convencia-me de que Hemingway, Bukowski e Dostoievski também deviam se sentir igualmente abafados em seus quartos sem mulheres, comida ou esperança.

Olhava para as flores de plástico penduradas na janela, que minha irmã deixou quando veio aqui há três semanas, e as tirei, porque imaginei que elas é quem me estavam sufocando, de alguma maneira. De fato, tirá-las de lá me fez melhor, percebi que o ar voltou a fluir, que voltei a escrever, escrever bem. Quanto às flores, deixei-as no chão, num canto do quarto, bastante visível para mim quando estou escrevendo no computador, e cada vez que as vejo sinto um respingo de expectativa, por um email, uma carta, ou qualquer coisa que diga "estou aqui, gosto de você", porque às vezes parece que a necessidade disso é tamanha, e as conseqüências tão úmidas...

Decidi devolver as flores para minha irmã, porque ninguém quer ser julgado pelo que guarda no peito, e eu também fujo disso. Sem querer.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Nem todas as luzes brilham na noite de Natal

O clima do Natal é melancólico, dizem alguns. É inspirador, dizem outros poucos. Eu, em tese, estou no primeiro grupo, à medida que poderia estar em um terceiro. Todo clima pra mim é melancólico. Futebol pra mim é melancólico. Estudar, então, nem se fala. Abandonei dois ou três cursos por puro cansaço de não fazer nada. Dar aulas também é, mas parece divertido, é um trabalho que gosto mais de fazer do que todos os outros, porque faz parecer que há quem me escute. Freqüentemente me perguntam como é ser professor e, dependendo do caso, posso dar respostas positivas ou negativas. Os professores mais antigos dão somente respostas negativas, por motivos óbvios. Eu sou jovem, metido a aventureiro, carrego, dizem eles, as ilusões de um ensino transformador. Mas isso não é verdade. Sei que não mudarei nada dando aulas. Se comemoro quando um aluno se sobressai numa aula, na aula seguinte me decepciono porque esse mesmo aluno não resiste às bobagens que as demais tribos oferecem. Podia contar pelo menos uns cinqüenta dos 500 alunos que tive este ano que sabiam muito mais do que eu sabia na idade deles, e que sequer passaram de série.

Eles me lembram eu mesmo. Percebo, então, que o ensino médio não forma a pessoa - ele apenas revela a pessoa já formada. Dou aula em turmas do 1° ano. E foi no mesmo 1° ano que eu mesmo desandei, que eu me converti niilista, que meus últimos sonhos adolescentes se despedaçaram. Agora já não carrego nenhum deles. Certa vez, disse para uma garota, quando fazia o ensino médio, que "professor de Geografia é o último estágio da pessoa civilizada, a partir da qual só restaria mesmo o caminho do crime, da contravenção, das negligências... é o caminho de ladrões de bicicleta, estupradores de crianças e mendigos profissionais". E agora estou aqui, dando aulas de Geografia... é engraçado. Mas na prática, não mudou. Eu percebo que, sendo professor dessa disciplina, não sou levado a sério senão por poucos. Os caras acham-me um completo loser. As garotas acham retardado, mesmo. No mínimo, termino sendo lá meio folclórico, não só onde dou aula, mas em qualquer lugar de algum convívio social. Na faculdade, sou muito sério, mas há outras coisas que amenizam a minha imagem ríspida. Sou um tagarela, um ranzinza, para cada letra A que o professor fala, eu intervenho com uma letra B, sou impertinente, um completo pé no saco. Mas toda sala tem seu chato, e eu sou o chato da sala, ninguém me leva a sério por isso, ninguém ouve o que falo quando levanto o braço para intervir no que o professor diz. Sou baixinho, escondido lá no canto... não faço trabalhos com mais do que três almas pacientes, uma das quais está indo embora, vai desistir do curso porque não a apetece... e eu ficarei sem minha parceira. Acho que parceria é um negócio interessante e avançado. Parceria nem sempre chega a ser amizade ou algo assim, mas mesmo assim é algo do que precisamos. Eu não vou me vitimizar dizendo que não tenho amigos. Mas parceiro, de fato, não tive nos últimos tempos. Somente tive depois que entrei nesse curso e conheci essa garota, com quem discutia e batia boca, de quem discordava aqui e ali e a relação continuava muito boa. Uma pessoa que não tinha medo da sinceridade, não tinha medo de me criticar. Com ela, dava gosto discutir os trabalhos, os assuntos estudados e conversar na hora do intervalo e no fim da aula - embora ela talvez não sentisse o mesmo. De qualquer maneira, ela se vai e embora façamos alguns votos de que nos encontraremos no futuro, sei que nunca mais a verei, como daqui a cinco anos não verei mais ninguém que faça parte de meu círculo atual. E lamento porque, com isso, a disciplina que criei para tocar esse meu curso será agora deliberadamente reduzida, mas insuficiente, pelo menos, para me fazer desistir. Então levarei até o fim, é o que resta, mesmo sendo um curso de merda de Licenciatura em Geografia, que nunca me ensinou nada, onde os pedagogos tentam inculcar os pensamentos megalômanos de mudança por meio da Educação e onde os geógrafos se derramam em viagens teóricas mas se recusam a dizer em quem votam na eleição municipal, ou qual sua posição política a respeito de Hugo Chávez, Obama, a transposição do Rio São Francisco. Cansei de tanta gente medrosa junto. Mas é o que se colhe quando se faz Geografia; aliás, é o que se colhe quando faz qualquer coisa, sobretudo um curso superior.

Eu já teria abandonado o curso se fosse levar em conta o quanto sou ignorado na sala; ser ignorado, contudo, já é algo com que estou acostumado. Desde o ensino médio eu já era o "sério" (termo que usavam quando queriam ser simpáticos). Depois do ensino médio não conheci mais uma pessoa sequer com quem cultivasse algo que se assemelhasse a uma amizade. Todos aqueles que compartilharam coisas comigo depois dessa época não o fizeram de graça. Nem amigos, nem garotas, nem ninguém. O que não me torna um completo sociopata é o fato de eu ser da geração abençoada pela Internet, então virei um assíduo freqüentador de batepapos e quetais, lugares, para mim, relativamente mais apropriados para conhecer pessoas, um lugar no qual os preconceitos físicos são mais dissimulados, o que é perfeito. Eu nunca precisava dizer que era musculoso, alto e loiro, apesar disso. Apenas conversava, e desconstruía qualquer má imagem que fosse feita de mim sem precisar mentir. Conheci tanta gente na Internet, mas tanta gente, e perdi contato com quase todos. Mas nunca foi um intento meu fazer amizades ou conquistar namoradas. Eu sempre soube que a net é um espaço bastante paliativo e breve. Eu gostava da sensação de ter um amigo agora ou uma garota que dizia estar louca para me conhecer agora. Eu sabia que quando nos conhecêssemos, os amigos já não teriam mais tanto tempo para uma prosa e as garotas já não estariam mais tão oferecidas, senão no primeiro encontro, para os dois casos.

Isso ainda persiste um pouco até hoje, embora já não como antes. Os batepapos ruíram, hoje não existem mais bons chats virtuais. Só se usa o msn, e o msn não tem a menor graça porque batemos sempre com os conhecidos, batemos sempre com pessoas medrosas, pessoas para quem se discordamos de algo, a resposta adequada é um "cada um com sua opinião", pessoas que evitam uma discussão, mesmo aquelas mais bobas, como o diabo evita a cruz, se escondem em termos vazios como "ok" e "ah tá"... que horror! Que fracasso! Fico catando comunidades no orkut onde se fale sério, onde se discuta sério e onde se xingue sério, mas isso não existe. Fico procurando as outras pessoas ranzinzas, e parecem não existir mais. Todas apenas sorriem. Todas vêem esta minha foto e vêem apenas a pose, o cara relativamente charmoso, de óculos escuros e ar intimidador, quando não é isto que sou. A foto está aí por mera propaganda, da mesma forma que o nome do blog é uma antipropaganda, mas que até tem dado certo, talvez porque muita gente não saiba o que significa vil ou não acredite que aqui tenha, de fato, uma literatura vil. No final das contas, essa auto-ironia termina sendo a maior constante deste blog e da minha vida, porque a auto-ironia é a única coisa que faz com que nós, os chatos, suportemos a nós mesmos. Só não sei até quando.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Tão fugaz

Eu acordei na madrugada com os olhos ardentes, sentado diante do computador... estava escrevendo algo novo, trabalhando um conto, mas fui além dos limites esperados, o texto estava muito extenso, e é sempre assim quando eu escrevo depois de beber em excesso... eu estava com bastantes doses de aguardente no sangue, voltei para essa bebida porque é a mais barata, porém ela tem me deixado com uma dor-de-cabeça enorme logo depois, e foi com essa dor latejante que acordei e notei que sequer havia terminado o conto... não gosto de produzir nada bêbado, não gosto de escrever no piloto automático, então selecionei todo o texto e em um clique deletei tudo...

Levantei meio tonto, acendi as luzes e olhei para a hora... eram 4 da manhã. E o dia era o meu aniversário, um sábado. Eu havia preparado um bolo de ovos na noite anterior para comer quando o sol raiasse, comemorar no café-da-manhã para dormir o resto do dia. Entretanto, preferi não esperar o sol e fui catar uns pedaços. Ainda estava muito tonto e não conseguia partí-lo de forma coesa, ficando muitos farelos jogados pela mesa e pelo chão. Comi um pequeno pedaço e fiz uma careta, porque o bolo estava ruim, as bordas estavam queimadas. Tudo bem, amanhã peço à minha mãe para me trazer, quem sabe, um bolo de verdade, eu pensei. Na geladeira só tinha água e outras amenidades, como vinagre, tomates, presuntos e margarinas, coisas que não uso muito e só compro quando penso em trazer alguma garota pra casa. Como fazia tempo que isso não acontecia, então os produtos ali já não deviam mais estar dentro de seu prazo, e o mal cheiro começava a se apoderar da cozinha. Eu ia juntar tudo e pôr numa sacola e na lixeira, mas retardei o processo para a manhã seguinte. O cacho de bananas preso na parede também já estava apodrecido, chegando até a pingar no chão, como se os fungos nascentes das bananas começassem a pesar, sendo, assim, expelidos, tudo sob a forma de um líquido meio mucoso, que grudava no chão, e eu percebi que parecia um muco quando passei o dedão em cima para dispersar o líquido e tentar diluir um pouco o fedor - sem sucesso.

Sentei-me à janela até o dia amanhecer.

Quando já eram umas 8 horas, o sol forte me batendo na cara, e eu ainda impassível olhando pela janela a rua vazia, ouvi o telefone tocar. Era Mariana, uma amiga doutros tempos querendo saber se eu organizaria algo, se cantaria parabéns. - Não, não vai ter nada disso - eu lhe falei. Como ela quisesse sair, e se importava mais comigo hoje do que se importara nos anos anteriores em que nos conhecíamos, eu topei. Mas o programa terá que acabar cedo, porque eu já havia combinado outro, com outra garota, para mais tarde. Ela aceitou.

Fomos ver uma peça de teatro dos meus alunos, que estavam em temporada, se apresentando toda semana numa casa de cultura da Ribeira. Eu já havia assistido na noite de estréia, e havia achado muito bom. Porém, assistir pela segunda vez não foi tão bom assim. Vários erros, cortes de luzes, falta de sincronia na cenografia, o espetáculo foi um fracasso tão grande que achei que a razão era o fato de ser meu aniversário, eu, um pé-frio dos piores.

Quando comentei a peça depois com a minha amiga, ela disse que não havia notado nada disso. Fiquei pensando se esses erros não foram frutos da minha imaginação. Embora ela discordasse, eu insistia:

- Pois eu vi muitos erros.

- É que sua chatice é potencializada no seu aniversário, seu bobo - disse.

Talvez tivesse razão.

- Estou brincando, viu - disse-me rindo.

Eu sei que ela não estava brincando.

Apesar do meu ar abusado, ainda conversamos algum tempo. Fomos comer uns sanduíches em alguma lanchonete. Ela me contou que dali estava pensando em visitar o namorado e me perguntou o melhor caminho para ir à casa dele. Eu não disse. Proseamos bastante até que chegasse sua hora, e eu agradeci pela companhia. Antes de sair, ressaltoub que ninguém mais aceitaria um convite meu para sair no dia do aniversário, e eu concordei, porque ela dizia mesmo a verdade.

Depois que ela foi embora, fui para um barzinho no meu bairro ver se encontrava lá uma outra garota, essa um pouco mais velha que a Mariana, inclusive mais velha também do que eu. Ela dançava no boteco e eu, cliente velho, talvez ganhasse umas carícias a mais sem precisar pagar, por ser aniversariante.

Como ela não apareceu e um trio de alcóolatras me viu ali sozinho, fui convidado a me sentar com eles. Eu preferia ficar na minha, contudo tanto insistiram que fui lá e troquei uma conversa rápida com o grupo. Eles já sabiam que eu esperava a rapariga do bar. Estava mesmo na cara.

- Pois é garoto, deu azar hoje! - Disse, gritando, o mais velho deles, o que tinha mais mal-hálito.

- Dizem que ela é uma grande chupadora, é verdade?, perguntou-me um outro.

- Ela é uma tagarela, eu falei. Isso faz com que pratique mais a língua que a maioria das mulheres.

Depois de umas risadas, um dos três velhos ainda sentenciou: - é, só que as mulheres que falam muito geralmente pensam pouco.

- Isso também vale para os homens, respondi.

Não fiquei muito tempo no bar. Tomei apenas umas pequenas doses de cachaça e fui embora, comprei uma pequena garrafa da mesma cachaça para continuar a beber sozinho em casa. Quando estava me acomodando, percebi, na cozinha, que haviam duas pizzas lá, e um bilhete. A minha mãe havia passado enquanto eu estava ausente, e como ela tem a chave - não sei como, eu nunca dei -, deixara essa pequena surpresa. Deixei para comer no dia seguinte, peguei um copo e me sentei à mesa, com os dois braços sobre ela, à luz baixa do abajur. Sorvia o álcool em doses homeopáticas e silenciosas. Lamentava cada gota que tragava, ao ver a bebida sumindo e sumindo e sumindo. Quanto mais eu a possuía, mais eu a perdia, como foi também com todas as garotas que tive. Depois de um momento impassível, passei a beber num ritmo cavalar, desfocando minha atenção de todas as outras coisas do mundo, ignorando meus sentidos que começavam a perder forças, mas sentindo um prazer inebriante e incomparável. Até que só me restassem, no fim, o copo vazio e a solidão.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Outsider post

Bem, enquanto não vem um novo conto no Literatura Vil (estou trabalhando nos textos inéditos para a revista que produzo, fase em que fico mais negligente no blog), postarei uma brincadeira que me foi enviada pela Ingrid Caroline, uma doce companhia virtual, além de dona do blog Enjoy of Silence (aprecie o silêncio), apontado logo ali no menu lateral.

A brincadeira consiste em responder um pequeno questionário... friso que, como não costumo distribuir selos, desafios ou afins aqui no blog, darei fim a esta corrente, ignorando a última regra, que pedia para distribuir para outros dois blogueiros.

Ademais, eis os temas:

I. colocar uma foto individual nossa;

II. escolher uma banda/artista;

III. responder às questões somente com títulos de canções da banda/artista escolhido;


I - A foto
É verdade que nunca postei uma foto minha aqui, à exceção daquela que fica exposta no perfil... contudo, não tenho mesmo muitas fotos... mas já que a idéia é fazer um momento de descontração e quebrar o clima rabugento do blog, vai uma foto fofa e sorridente:


II - escolher uma banda/artista
Não tem segredo... a minha banda favorita são os Engenheiros do Hawaii (ênfase para a formação clássica, 1987-94)...

III - as respostas (com nomes de músicas, lembrando)

3.1- Es Homem ou Mulher? Humano Demais

3.2- Se Descreva: Nau à Deriva

3.3- O que as pessoas acham de vc? Nuvem Passageira

3.4- Onde queria estar agora? Longe Demais das Capitais

3.5- Uma frase: Somos quem Podemos Ser

3.6- Como é a sua vida? Cinza

3.7- Namorando, Casado ou Solteiro? Ando só

3.8- O que pedirias se tivesse só um desejo? Luz.




terça-feira, 25 de novembro de 2008

Fim do expediente

Hoje eu vi um velho feio, cabeludo e desdentado, e me lembrei de um outro velho, igualmente cabeludo e desdentado, mas bastante mais feio, o Seu Dinei, um funcionário público aposentado que conheci há uns anos. Eu trabalhava, na ocasião, em um balcão de empréstimo pessoal. Na verdade, isso foi no meu primeiro dia de trabalho. Durante algum tempo, meu lugar era na rua, distribuindo panfletos de uma firma que trabalhava nesse esquema, até ganhar a oportunidade de trabalhar lá dentro, fazendo os negócios, um relativo avanço, trabalharia sentado, no ar condicionado. O Seu Dinei, o meu primeiro cliente, por assim dizer, estava perdido na vida, atolado de dívidas e pensões. Até que ele entrou no salão onde eu trabalhava e se dirigiu à minha pequena cabina.

Eu me lembro de quando cheguei no primeiro dia e sentei na cadeira que seria minha a partir dali, no computador que seria meu, no balcão onde eu passaria a maior parte das horas do meu dia. Umas sete, oito, nove, ou mais, dependendo das horas extras. Ainda estava em fase de testes. Passaria umas duas semanas nessa. Poderiam me tirar a qualquer momento se lhes desagradasse. Mas, estava decidido a tentar. Enquanto não começava o serviço, ficava na internet, onde o histórico das navegações e as pastas salvas ainda denunciava parte da personalidade da garota que ocupava o lugar até o dia anterior, a Fabiana. Sites de perfumes, loções e fofocas, episódios de novelas gravados, música de araque. Até o banco ainda me parecia quente. Não pensei mais nela depois disso. A dita cuja havia sido demitida acusando o patrão - um galante de 1,90m chamado Vasconcelos, um nome de velho, mas ele era bem jovem, devia ter menos de trinta, talvez uns três anos a mais que eu - de assédio sexual e sendo ridicularizada pelas que outrora se auto-afirmavam as melhores amigas da "Bibi".

Aproveitei e dei uma personalizada na mesa, tinha um porta-retrato vazio e eu coloquei nele uma foto, uma 3x4, era a única que tinha... e fiquei lá navegando por sites de literatura e notícias. Ainda não estava acostumado à idéia de trabalhar com essas negociações, mas era uma oportunidade qualquer e eu tava lá tentando tascá-la. Enquanto lia bobagens no computador, ouvi uma voz fanha vindo de cima pra baixo, a me dizer bom dia.

Quero dinheiro, prosseguiu, e quero agora. Era o Seu Dinei, a quem depois conheceria melhor. Parecia nervoso, mas mantinha o estilo coronel, me fazia lembrar um velho tio, que vivia no sítio. Aguarde um pouco, basta passarmos por alguns procedimentos, eu falei. Eu estava empolgado em conseguir fácil fácil a minha primeira comissão. Mas depois de consultar a vida financeira do velho, percebi que não havia margem para muita coisa. Mas é por estar fudido que eu venho pedir dinheiro emprestado!, ele falava, meio cochichado, mas quase elevando a voz. A minha única alternativa foi oferecer-lhe um plano onde ele receberia menos dinheiro, mas concordaria em pagar mais parcelas e juros mais elevados. Era um plano muito desvantajoso - como todos os outros - para o pobre coitado, mas absurdamente mais proveitoso para mim, que não lhe ofereci na primeira oportunidade por não sentir ainda a devida confiança em manobrar a baixa auto-estima alheia. Mas ele não concordou e foi embora, levando apenas um panfleto da firma e meu cartão com a oferta anotada.

Instantes depois, viriam outras pessoas, entre professores, assistentes administrativos, militares, ex-professores, ex-assistentes administrativos e ex-militares, alguns fazendo planos, alguns não. Percebi que o negócio se encaixava para mim perfeitamente. Faria sucesso trabalhando com empréstimos. Depois do almoço, quando voltei para a minha cadeira de um azul fubento, o velho reapareceu. Pensei muito, ele gritou ainda da porta do salão e continuava a falar enquanto se aproximava do balcão. Acho que vou aceitar a oferta sim, dizia. Vai se dar muito bem, senhor!, menti, na maior sem-cerimônia. Ele era rápido na assinatura de papéis, e à medida em que assinava os vários formulários, eu sentia em paralelo o mesmo que senti com os outros, um êxtase profundo, uma sensação de conquista! Depois que ele se foi, eu não quis atender mais ninguém. Até veio uma loura deficiente física, tinha uma escoliose acentuada, andava curvada em quase 30 graus, algum absurdo assim. Mas eu já tinha me decidido não atender mais uma pessoa sequer. Danielle, pega essa aqui, pedi, apontando para a cliente. Já estava dado por satisfeito fazendo hora lá quando o Seu Dinei apareceu mais uma vez na porta, e disse, se dirigindo até mim, você é um bom garoto, venha beber algo em minha casa quando terminar o expediente, moro aqui perto, e falou o endereço.

Eu, claro, aceitei o convite e fui visitá-lo. No endereço especificado, não tinha quase nada. Só tinha resto. Resto de um casebre. Nem se compara aos casarões daquela rua, a Rua Princesa Isabel, uma rua muito antiga do Centro. Foi o que me restou, a mulher me fudeu, lembra que eu falei que estava fudido?, apressou-se em dizer, me convidando para entrar. Lá, me ofereceu um conhaque, nunca fui lá muito chegado a conhaque, no entanto esse era até bom - aliás, muito bom -, um tal V. Brandy, mas depois que eu conheci o Macieira através de um amigo, não alterei mais a preferência. Enquanto o Brandy descia oleoso pela garganta, o pobre Dinei falava de sua coleção de fracassos. Estávamos sentados na sala, eu no sofá, meio perplexo com alguma coisa, segurando a caneca um pouco inclinada e olhando fixamente para a bebida, como se tivesse algum receio surreal de que ela desapareceria dali, e ele na sua poltrona rasgada largado. O ambiente era hostil, as paredes estavam todas rachadas e o lodo verde vinha subindo pelo lado que recebia água da chuva. Faltava até reboco em algumas partes, a infiltração era absurda. Seu Dinei era professor universitário, mas foi escanteado e expulso da Universidade por cometer algumas contravenções, e estava aposentado por lecionar nas modestas escolas públicas do município. A ex-mulher e o filho lhe comem, com a pensão e outros pormenores, 80% de sua renda. Seu Dinei nunca poderia pagar a dívida do empréstimo. Provavelmente, já nem lembrava onde estava algumas poucas centenas de reais que lhe ofereci astutamente. Cheguei a lhe oferecer o cancelamento do contrato; ele não deu atenção. Continuou em seu delírio particular. De seu passado, só restava um cachorro pulguento lambendo-lhe os pés. Seu Dinei dizia ser feliz. Quando chegar o fim, darei os olhos, os cabelos e o sangue para quem precisar, falava.

Eu não acreditava nessa dita felicidade. E não fui trabalhar no dia seguinte, nem nos demais.


quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Com um nó no estômago

Acordei no sofá, com as costas doendo, como sempre. Era o prenúncio de um mau dia, como são todos os outros dias. A TV estava ligada, e eu vi o viaduto por onde passo todo dia em direção aos trabalhos, faculdades e outros tormentos. O viaduto estava em segundo plano, em primeiro estava uma repórter bonita mas totalmente sem sal dizendo que o tempo estava nublado, mas que não choveria. Eu me levantei com muito esforço, sendo meu sofá bem rústico e duro, é péssimo para dormir... todo o corpo estava em cacos... peguei um copo de água e fui para a janela ver as pessoas passando na rua... fico olhando a rua em frente, os estudantes, os operários, as mães com suas crianças, todos seguindo em direção a algum lugar, seguindo até o fim da rua, seguindo até sumirem no horizonte, e eu quase morri nesse tédio.

Tomei um banho rápido e enquanto me vestia silenciosamente, o telefone tocou. O telefone residencial. Nunca havia passado o número para ninguém e ele agora estava tocando. Levei um susto, fiquei meio paralisado por segundos. Depois, ignorei. Continuei a vestir-me. Não queria atender. Não tinha nada a dizer, não queria ouvir nada, também não queria sair de casa. Por que era obrigado a atender essas exigências bobas? Tentei pôr mais pressa enquanto me arrumava, pois o telefone não parava de tocar e eu já estava incomodado. Mas antes que eu saísse de casa, ouvi o ônibus passando à frente. Foi-se rapidamente, e eu teria que esperar o próximo. O próximo, eu sabia, não passaria nos 40 minutos seguintes. Sentei-me no sofá com as mãos tapando o rosto... estava puto! Perdi a hora justo quando não devia... tinha uns exames de sangue para fazer. Tive que ligar para a moça do consultório.

- O que deseja?

- Quero remarcar o meu exame de sangue para amanhã.

- Para amanhã não será possível, pois...

- Então - interrompi -, quero remarcar para depois-de-amanhã.

- Também não será possível, senhor.

- Tudo bem, quando há uma data disponível?

- Infelizmente, não há mais datas disponíveis. O doutor fará exames até sexta e entrará em licença até o ano que vem. Você pode tentar...

- Não, não vou tentar mais nada, obrigado.

Eu estava agora com uma pilha de exames incompletos, e para tê-los todos teria que esperar até o ano que vem... horas e horas marcando consultas e fazendo exames de raios X para terminar nisso... desisti. Como já estava com a necessidade de sair de casa para compromissos outros, como dar aulas, e precisaria me deslocar mesmo assim até o Centro, decidi ficar vestido como estava, mesmo que só fosse sair depois do meio-dia, portanto dali a umas quatro horas. Cochilei no sofá enquanto isso e pus o despertador para alarmar exatamente ao meio dia.

Nesse dia, só duas aulas. Daria cinco, mas só dei duas, o restante das turmas saíram, foram participar de alguma atividade interativa da escola, e eu fiquei livre mais cedo. Ao menos algo para agradar o meu dia. Saí de lá e fui para a parada de ônibus. Mas estava havendo uma passeata de uns servidores públicos, funcionários da Saúde, e estavam fechando a avenida pela qual os carros vinham. Como o trânsito estava desregulado, precisei pegar a condução em outro lugar. Escolhi uma outra parada, mas não tinha certeza de que o ônibus passava lá. Esperei dez minutos e saí. Fui para uma outra parada, onde esperei mais dez minutos e nada. Cheguei na Avenida Rio Branco, onde tem mais quase quinze paradas de ônibus, e eu tinha que adivinhar em qual delas o meu ônibus parava... Como vi que seria difícil, decidi aproveitar o tempo que estava no Centro para fazer algo. Fui à biblioteca do Sesc, ali por perto.

Apresentei minha carteira de sócio na entrada e fui procurar uns livros. Procurei, procurei e nada encontrei. Decidi ir para a mesa de revistas. Enquanto folheava lá algo sobre a rodada do Campeonato Brasileiro no fim-de-semana anterior, uma funcionária veio ao meu encontro:

- Com licença, este é você? - perguntou, mostrando-me um formulário que continha meu nome, foto, dados e uma listagem de dois livros que eu tomara emprestado meses antes.

- Sim, sou eu. Apresentei minha carteira de sócio ao entrar.

- Claro, senhor. É que há dois livros da biblioteca que estão emprestados a você, e estão atrasados.

- É mesmo?

- É sim, um do Rubem Fonseca e um do... deixe-me ver, Ernesto...

- Ernest. Ernest Hemingway.

- Pois é isso mesmo.

- Olha, eu mandei um email recentemente para saber a quantas andava a minha situação aqui.

- E não obteve resposta? - ela parecia intrigada.

- Claro que não... Ninguém responde nada. As pessoas só ouvem o que querem ouvir, e dizem o que querem dizer. Ninguém mais sabe perguntar nada, assim como ninguém responde nada também.

- Mas, veja bem, os livros não são seus e...

- Ué, claro que são! Sou eu naquelas histórias! Hemingway me roubou, roubou a minha história e a minha personalidade para fazer aqueles contos! Acredite, boa moça, se ama mesmo a Literatura, aqueles livros estão melhores comigo do que aqui esquecidos nessa biblioteca decadente.

- Você tem dez dias para trazê-los, não digo mais nada - e me deixou em paz.

Depois que li todos os comentários sobre o economia e o futebol contemporâneos, saí, meio indisposto de continuar vagando, fui para uma parada de ônibus na qual sabia que meu ônibus pararia; para tanto tive que andar muito, cerca de meia hora. Peguei o ônibus e cheguei em casa, cochilei, bebi mais água, abri uns emails, li emails antigos, e percebi que havia muito mais emails ainda para trás... emails que nunca deletei em quatro ou cinco anos de uso ininterrupto de internet.

Comecei a ler e a deletar, e deletar, e deletar. Enquanto deletava ainda relembrava muitos, ainda via neles boas e más lembranças, sentia que estava estourando bolas de encher, preenchidas de emoção. Enquanto deletava, imaginava isso como uma versão moderna da coisa de queimar cartas, lê-las e jogá-las na lareira enquanto o rosto expõe faces de alegrias e decepções. Passei coisa de seis ou sete horas nesse rito, do fim da tarde ao início da madrugada, e já me sentia muito pesado por tanta carga emocional reavivada nesse momento - uma carga pesadíssima, registrada em doses homeopáticas, agora rememorada em escala industrial. Desisti de deletar os emails, só sobraram alguns poucos do passado. Estava querendo dormir, e fiquei com isso na cabeça. Reconhecia o meu rosto íntimo, dissimulado, de quem sai para a rua disfarçado com o próprio corpo. Pensei em refazer coisas, mas era impossível, a vida é uma permanente construção; mesmo quando se destrói, ela se está construindo. Eu pensei nisso depois que li um deles, que escrevi há bastante tempo não lembro para quem e nem cheguei a enviar, ainda que fosse um email-resposta. Estava lá salvo na caixa de rascunhos do servidor. Em letras mal-formatadas, eu só adormeci depois de pensar bastante após reler tais palavras:

eu estava vendo e aprendendo algo sobre o escorpião, sobre a tendência regenerativa desse ser que se manifesta num impulso destrutivo, para reconstruir a vida permanentemente, e fiquei pensando nisso que você falou, que a vida é sempre um andar para a frente,mesmo que trôpego e cambaleante, e já não dá retorno possível para o passado. fica tudo se acumulando no altar do esquecimento. eu que só queria acordar sem esse nó no estômago. queria qualquer coisa doce, já que ando cada dia mais azedo. qualquer coisa que fosse como um deslumbramento ou um abraço. mas nada disso virá, a gente sabe. tudo se vai.

que merda.

até amanhã... quanto a depois, logo se vê.


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

30 dias na escuridão

Eu bebia muita água quando acordava. Não tinha mais nada na geladeira. Além disso, a água era quente; toda noite eu passva no escuro, pois constantemente faltava energia no meu quarteirão, numa freqüência diária rigorosíssima. Isso se deu durante um mês. A energia acabava no início da noite e voltava pouco antes do amanhecer. Não era tempo, portanto, de a água da geladeira sequer ficar gelada.

Nessa época, eu trabalhava numa peixaria. Descarregava caminhões levando sacolas e sacolas enormes de peixes nas costas para um galpão na Rua Rio Madeira. Não me restava nada além. Não tinha outro emprego, não estudava, tinha saído de casa e não me restavam alternativas. Dentro daquelas condições, aquele emprego me parecia precioso. Fui cínico às alturas na primeira conversa que tive com o tal do Correia, Senhor Correia, que comandava o negócio ao lado de sua mulher.

- Qual sua experiência? - Perguntou-me.

- Toda.

- Já tem experiência nisso, em transporte e guarda de carga?

- Claro. Mas aqui não se trata de carga, e sim de peixe.

- É a mesma coisa, garoto.

Parou, deu uma telefonada, e uma mulher baixinha e formosa - sua esposa - entrou, forneceu-lhe uma cartela de cigarros, e, sempre olhando de soslaio para mim, saiu. O chefe chegou a me oferecer, ao que recusei, e acendeu um para si, dando uns cinco tragos antes de voltar à conversa.

- Você não me parece um cara forte - disse, com cabeça virada para o teto e os olhos voltados para mim.

- É verdade, mas dou conta.

- Não aceitamos aventureiros de primeira viagem. Você já tem experiência em carteira assinada antes?

- Tenho sim.

- OK, entraremos em contato.

Fui embora com a certeza de que não entrariam em contato, e que essa entrevista seria somente uma a mais na minha lista. Mas ao acordar no dia seguinte, às 9 horas, percebi que havia acabado de receber uma mensagem de celular:

VOCÊ FOI ACEITO PRO CARGO, TERA UM MES DE ESPERIENCIA E DEPOIS ASSINAMOS SUA CARTEIRA. COMPARESSA AS 8H DESTA QUARTAFEIRA NA CASA DO PEIXE, RUA RIO MADEIRA, 481.

A mensagem havia chegado de madrugada. Fiquei me perguntando porque aquela convocação tão impessoal. Poderiam ter mandado carta, ou telefonado, ou qualquer outra coisa. Uma mensagem de celular, com todos aqueles erros gramaticais? Sem falar que, à hora que li, já estava atrasado em uma hora. Só fiz beber água e fui, não escovei os dentes nem tomei banho, apenas lavei o rosto e me dirigi ao galpão onde trabalharia.

- Está uma hora e meia atrasado - disse-me o Sr. Correia, na porta do galpão.

- Desculpe, só recebi a mensagem agora há pouco... sabe como é essa tecnologia...

- Você só me verá novamente no dia da assinatura de contrato. Minha esposa cuidará de tudo que precisar. Ao trabalho.

- Responda-me uma coisa, por favor: por que me mandou a mensagem de madrugada?

- Porque foi à madrugada que decidi contratá-lo.

Ainda me questionei o que o houvera feito decidir, à madrugada, pela minha contratação, ele que deveria ter recebido pelo menos uns vinte perdedores no dia anterior. Fui ao trabalho, pesadíssimo demais, hei de considerar. Os outros rapazes não compreendiam bem a minha presença ali. Eram praticamente todos másculos, velhos, casados e banguelas. Eu não era nada disso. Era pequeno, truncado, notava-se pelas minhas mãos que nunca havia pego no pesado. No início me ignoravam. Diziam, soube depois, que achavam que eu era algum funcionário do patronato, uma espécie de espião. Passaram a ser mais rigorosos comigo, só pela maldade. Quando chegou a primeira camionete com peixes, fui ao estacionamento descarregar. Só tinha três caras pra fazer isso aquela hora.

- Espera o caminhão que vai trazer os cantilados, é dele que você vai descarregar - disse-me um dos outros dois.

Fiquei sentado e em menos de dez minutos viria um caminhão com novo carregamento. Mas se tratava de carregamento mais pesado - era por "cantilado" que chamavam. Sofria para carregar os sacolões nas costas, enquanto escutava pequenas risadas dos demais, risadas que passaram a ser altas e propositalmente constrangedoras com o passar dos dias.

Os funcionários reclamavam que eu era lento e não acompanhava o serviço deles. E realmente era impossível para mim. Fui, então, chamado à administração, já no terceiro dia.

- Estou fazendo um ótimo serviço - falei.

- Tenho certeza - falou a mulher do outro lado do balcão, a Sra. Correia - "mas pode me chamar de Marta, ou Martinha!". Ficou parada me analisando e depois fui dispensado.

Nos dias seguintes, tentei ser mais veloz no trabalho, mas ainda sentia muito o peso do peixe. Além do que, também me alimentava muito mal. Bebia água de manhã, trabalhava nove horas por dia, sem almoçar, pois não tinha dinheiro suficiente até receber pelo primeiro mês e aproveitava a hora do almoço pra tirar um cochilo. No fim do expediente, ia tomar um café em algum bar, comprava uns biscoitos e comia em casa, no sofá, enquanto vislumbrava a sala escura, praticamente todos os dias, pois nunca houve luz à noite nesse período.

Fui chamado outras duas vezes à administração. A segunda delas, no 28° dia. Até que eu tinha suportado demais.

- Eu gosto de você. Mas você precisa colaborar - disse-me, com ar de compreensão, a Marta, ou Martinha. Eu não sabia que ela gostava de mim, mas ela devia gostar de todos os outros caras que trabalhavam no galpão, imaginei.

- Olha, não gosto de nenhum dos outros, só de você. Esses coroas musculosos, nojentos e mal-educados também não trabalham direito, apenas reclamam de alguns bobos como você, e eu preciso chamá-lo para dar a entender que estou dando bronca. Mas eu não estou dando bronca, entende?

- Entendo.

- Mas eu percebo que você tem alguma classe, você não fala com esses brutamontes - disse, e sorria enquanto falava. Eu estava impassível.

- Escute - prosseguiu - foi graças a mim que você entrou aqui, eu quem pedi para meu marido.

Enquanto dizia isso, Martinha se levantou da sua cadeira. Tinha abandonado o ar maternal e agora estava mais cortejadora.

- Não quer sair comigo na próxima sexta, no fim do expediente? Podemos ir a algum bar, e depois lhe dou uma carona até sua casa.

Tava muito claro que a Martinha estava se oferecendo pra mim, mas eu não queria. Não gosto de mulheres mais velhas, e ela era bem mais velha, tinha uns 48, conforme bisbilhotei no primeiro dia numa ficha que tinha na mesa de seu marido, contendo dados dos dois. Esqueci tudo, menos a idade deles: ela tinha 48, e ele também. Ainda que no caso dela parecesse menos, bem menos.

Eu não queria recusar o convite da Martinha, pois sabia que fatalmente perderia a minha vaga se o fizesse. Topei, então, de maneira bastante convicta e efusiva, como quem sabe que a noite iria além de uma carona. Ela ficou empolgada.

Mas a sexta seria meu 30° dia na empresa e o Sr. Correia apareceu e mandou me chamar. Eu estava com documentos em punho, e até esperava que o lobby da Martinha ajudasse algo na minha contratação. Mas eu sabia que seria difícil.

- Espera aí, cadê sua experiência? Sua carteira de trabalho está em branco!

- Bom, na verdade não tenho experiência alguma.

- Como assim? E mentiu pra mim? E minha mulher falando tão bem de você...

- É uma boa mulher.

O Sr. Correia provavelmente não gostou do meu comentário e me mandou embora. Finalizou a conversa com uma indelicada despedida, não sem antes oferecer um cigarro, novamente recusado.

- Pegue um cheque com o pagamento desse mês e saia daqui, suma, não volte nunca mais.

Fui embora sem sequer terminar o expediente. A Martinha devia ter me procurado um bocado no galpão, sem sucesso. Fugi dela, literalmente. Não tava pra romances clandestinos. Recebi muitas mensagens de celular e alguns telefonemas, todos ignorados. Pouco depois dos 30 dias que passei na peixaria, curiosamente o problema da energia elétrica no meu quarteirão seria definitivamente resolvido. Isso me leva a pensar que essa foi uma fase bem negra e obscura da minha vida. Com toda razão.

domingo, 2 de novembro de 2008

Tá na Cara!, uma ode à Literatura

Em resumo, minha relação com garotas não se compõe de parcerias, mas de cumplicidades. Noventa por cento delas me afirmou, com doce voz, que pretendia esquecer o que ocorrera. Já eu, eu sou homem e, como tal, jamais afirmarei para a garota que a esquecerei. Contudo, tampouco a questionarei se essa for sua vontade.


O recorte acima foi retirado do conto inédito "Acompanhados e Sozinhos", exposto na revista Tá na Cara!, cuja segunda edição foi lançada essa semana com louvor. Nosso projeto (meu, de Ângelo Girotto, de Maíra Mendonça e outros amigos e aprochegados) de criar uma mídia própria que apresente um jornalismo experimental, uma revista de arte, de Literatura, um meio de comunicação artesanal e respeitoso para com a inteligência do leitor, tem avançado a passos largos.

Em questão de meses depois de publicada nossa primeira edição (a revista é trimestral), a Tá na Cara! já foi protagonista de matérias televisivas locais (na TV Cultura e na TV Assembléia) e já mereceu uma palestra na UFRN, onde o conhecido e carismático "professor Bira", um dos ícones do curso de Comunicação Social, destacou nosso trabalho como a "principal revista de jornalismo literário do estado".

Essa revista traz ainda novos colaboradores, como a ilustradora Ana Luísa "Analoo" Medeiros, estudante de Arquitetura, e o Pablo Capistrano, professor de Filosofia do Direito e Ética da FARN (Faculdade para o Desenvolvimento do RN) autor de alguns destacados livros, sendo o principal Pequenas Catástrofes, re-editado pela Editora Rocco.

Nesta edição, produzo, entre matérias e contos:


Natal, a Cidade do Sol e dos Supermercados
- artigo sobre a invasão das lojas de departamentos, nacionais e estrangeiras, nas incautas terras papa-jerimuns.

As Antigas Faces de Natal - Matéria onde falo de bairros e lugares malditos da cidade (Ribeira, Rocas, Cidade Alta, Rua Chile, Beco da Lama...), escrita numa seqüência de dias onde me fiz presente no cotidiano de tais pontos gradativamente esquecidos, em longas conversas com bebuns e donas de bares.

Acompanhados e Sozinhos - Conto inédito publicado em minha coluna fixa, que, por falta de imaginação ou por qualquer outra coisa, leva o nome deste blog.

Aos natalenses que freqüentam este blog, a revista custa 5 reais e tá presente nas principais bancas da cidade, bem como nas livrarias Potylivros e Siciliano. Aos não-natalenses, infelizmente não temos ainda um sistema eficiente para envio das revistas, por isso não trabalhamos além da Região Metropolitana de Natal e Mossoró por ora. Qualquer coisa, no entanto, se houver alguém que tenha interesse ainda assim, podem entrar em contato (leonknunes@yahoo.com.br) que discutiremos uma forma de pagamento e o envio.



PS: a matéria de capa (Operação Impacto - nossa grande vergonha municipal), escrita por Ângelo Girotto, trata do escândalo municipal protagonizado pelos vereadores (13 dos 21 foram comprados pelas construtoras no ano passado e estão sendo investigados pelo Ministério Público na chamada Operação Impacto. 6 deles foram reeleitos).

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Solução para concluir um roteiro

Por que eu não consigo escrever nada?

Comecei a trabalhar em mais um roteiro, solicitado por um amigo, um estudante de Cinema, um diretor amador, em troca de algumas notas. Tava tudo pronto, até comecei a escrever uma boa história de início, era para um média-metragem, onde eu explorava o comportamento masculino depois de uma noite de amores quentes com mulheres conhecidas ou desconhecidas. Escrevi o primeiro caso, um homem que se divorciava e, após oito meses sem contato com o mundo feminino, cuidando para adquirir novos hábitos, deixou de fumar, de beber, ele então encontra a ex-mulher num metrô e, nessa primeira noite, ele volta para sua antiga casa. Todo o serviço sexual é completo, os dois transam como felinos irritados durante toda a madrugada, até que, num dado momento, naturalmente, ele cansa. E se vê deitado na cama com sua ex-mulher, figura feminina que ele passou a odiar com o passar dos anos. Ele bem sabia que o que sustentara seu casamento durante oito anos foi justo a bebida, o cigarro, um baseado depois da foda; e agora, ele não tinha nada disso. Foi o pior momento de sua vida.

Parei por aí. Não me lembrava, na verdade, do que havia escrito, e não lembrava se estava bebendo enquanto digitava. Mas quando acordei e notei o computador ligado, percebi isso, que não havia avançado muito na história. É incrível, tudo não passava de duas páginas de texto. Eu só poderia ter sido sacaneado, alguém roubou meus textos.

Fiquei irritado e chamando palavrões pela casa! Como eu não conseguiria ter passado de duas míseras páginas de roteiro? - e, destacando que o roteiro tem uma formatação diferente do usual, então eu sequer havia chegado em duas páginas! Sentei-me para dar continuidade à história puto da vida! Mas... Nada saiu!

Fiquei pensando no que me teria me causado aquela procrastinação. Percebi que há tempos eu não escrevia. Nem roteiros, nem contos, nem absolutamente nada! Não tinha nenhum estímulo. Pensei em beber, mas não tinha dinheiro, e fatalmente no bar da esquina, onde eu havia pego uma briga na noite anterior, eu não seria bem recebido - talvez no dia seguinte. Pensei também em fumar, mas por que fumar? Eu nem fumo! Detesto cigarros... fiquei, então, com esse bloqueio perdurando toda a manhã, com a barriga vazia e as mãos sustentando minha cabeça que tentava se aninhar nos meus braços por uma vergonha própria!

Então começaram a gritar, bater palmas, lá na porta da frente. Já era meio-dia e eu não tinha aberto uma fresta sequer de janela porque não queria ser incomodado, mas é incrível como as pessoas não respeitam uma casa fechada! Abri a porta e, com os olhos quase fechados, ofuscados pelo dia claro e reluzente, vi duas garotas: uma morena clara, muito charmosa, de cabelo curto, acima do pescoço, e uma branca, com um longo cabelo loiro, que não era tão bonita, ficava com a cara fechada todo o tempo. Do outro lado do portão, elas estendiam a mão e me chamavam para oferecer uma pequena papeleta.

- Oi! - disse a morena - Sou Juliana, esta é Lúcia, queríamos convidá-lo para a inauguração da Igreja do Jardim, terá uma festa para a comunidade, que fica ali no...

- Igreja? - Interrompi. - Desculpe, não sou cristão...

- Mas venha, venha sem compromisso, é uma festa, você vai gostar - até agora somente a Juliana havia falado.

- O que é isso, um grupo de jovens? - perguntei, apontando para uma foto que tinha no panfleto, com várias crianças e adolescentes sorridentes.

- Sim, é o nosso grupo - disse a outra - , você também pode participar, eu acho. Quantos anos tem? 25? Olha, então acho que pode participar sim...

Eu respondi que tinha 25 para me livrar do convite, não passo de 22 de fato... mas o plano não deu certo.

- Apareça! É ainda hoje, lá pelas 19h. Esperamos você! - disse a morena, dando uma piscadinha e saindo sem olhar para trás, mas com a certeza - eu aposto - de que sua bela nuca seria seguida atentamente até onde minha vista alcançasse.

Entrei e tranquei tudo novamente. Joguei a papeleta e fui procurar algumas coisas que me fizessem abrir a mente para escrever. Procurei numa estante alguns filmes que ainda não tinha assistido. Saquei um filme alemão, que comprei quando comecei a estudar esse idioma. "Vamos ver o que temos aqui?"

O filme não tinha legendas, e eu já tinha perdido muito da minha habilidade com o alemão. Mas dava para entender perfeitamente o conflito na história. Homens amedrontados e uma bela mulher que tinha uma deficiência física natural - ela tinha dentes na vagina, argh! Na minha inércia, terminei assistindo todo o filme e ficando ainda mais atordoado...

Peguei um livro pra ler, mas o livro não ajudava... estava cansado de ler e reler os mesmos livros. Peguei um do Fante, Pergunte ao Pó... que péssima escolha! Não bastasse eu estar em um tumulto por não conseguir nada escrever, o Arturo Bandini, personagem do livro, estava nitidamente com um interior mais tumultuado do que eu!

Às 19h, eu ainda andava para lá e para cá pela casa, quando reparei no pequeno cartaz de convite para a festa. Estaria meio atrasado se fosse para a inauguração da igrejinha, mas acho que valeria a pena. Fiquei pensando em reencontrar lá a Juliana, ela devia ter o quê?, uns 17, 18 anos talvez, era muito atraente e convidativa. Não poderia perder a oportunidade de reencontrá-la, eu mal saía pelas ruas do bairro, meu trajeto ali era só até o barzinho, não sabia nem se ela morava a um quarteirão de mim ou se era de outro estado. Quando pensei que meu problema para o bloqueio tinha um nome - garotas -, decidi me trocar e ir para a celebração.

Cheguei lá e enfim comi qualquer coisa, uns salgados, bebi algum refrigerante... Não sabia se já tinha ocorrido alguma solenidade, tipo missa ou sei lá o quê, mas estava rodando lá entre as mesas quando encontrei a morena, que já estava me olhando, com um sorriso maroto nos lábios. Eu me aproximei meio sem saber como fazer, mas já que estava ali não deixaria para depois... Conversamos um bocado, coisa de meia hora. Estava exageradamente perfumada. Como eu notasse que ela tinha um olhar de esfomeada quando olhava para meus lábios, decidi chamá-la para sair dali.

- Mora por aqui?

- Não moro não! Tenho até uma tia que mora aqui, mas hoje só vim para ajudar os irmãos na organização, sabe...

- Ah... devia aproveitar a estadia. A gente pode passear um pouco, o bairro tem uma praça bem legal ali...

- Prefiro ir a outro lugar!

- É? Onde? - eu sou mesmo um bocó...

- Sua casa, oras! Está vazia?

- Hmmmmmmmm, então vamos!

Na minha casa, ainda conversamos mais outro bocado. Ela estranhou chegar e ver o pc ligado, a música de Brahms a soar alto, papéis de texto impresso jogados no chão e livros na cama... Fomos pro sofá, era o jeito.

- Por que seu computador fica ligado?

- Porque se eu tiver uma idéia para escrever algo, não vou perder meu tempo ligando-o para digitar.

- E tá escrevendo algo?

- Sim, um roteiro sobre o comportamento masculino depois do sexo.

Ela ficou um pouco embaraçada, mas ficou curiosa:

- Qual é seu comportamento depois do sexo? - Perguntou.

- Eu pago a conta e vou embora.

Ela riu.

- Hoje não será preciso - disse, terminando o papo com esse cochicho, e subindo em meu colo, e me beijando, e tirando minha camisa. Quando tirei sua blusa e abri a fivela de seu sutiã, senti-me eufórico, logo me surgiram ótimas idéias, he!he!

A noite de transas e volúpias se estenderia por umas três horas, e terminou repentinamente quando, logo após chegarmos ao segundo clímax, ela recebeu um telefonema da tutora e no início da madrugada eu, ainda ensopado pelo nosso suor, precisei acompanhá-la até a Igreja, onde ela estava hospedada junto com parte do grupo. Voltei pra casa, ainda com idéias muito efervescentes na cabeça, dei uma relaxada na poltrona, fiquei a olhar para o teto uns instantes e depois me levantei, fui para computador e terminei o roteiro rapidamente - só o que me faltava mesmo era desopilar. Já totalmente saciado, fui tomar um banho, ainda estava com o corpo umedecido, e, enquanto me ensaboava tomado por uma agradável sensação de bem-estar, me veio uma dúvida, eu fiquei pensando quantos anos demoraria até que eu tivesse novo contato com uma garota. Foi o suficiente para fazer toda minha euforia descer pelo ralo junto com o suor e o perfume da Juliana.