segunda-feira, 30 de março de 2009

Passeio pelo lado selvagem

Estava passando de moto em frente a uma borracharia que tem na Rua Auris Coelho, logo em frente a uma grande praça, meio descuidada mas até agradável, e decidi dar uma parada. Sentei-me num dos bancos, ao lado de uma banca de revista fechada, e fiquei fitando a borracharia. Próximo à praça, havia um Batalhão do Exército, também o observei um pouco, a sua arquitetura rígida militar, o sentinela que ficava na portaria de armas em punho fixamente, durante horas e horas. Atrás de mim, no parquinho infantil que havia na praça, ouvia vozes de meninas de sete anos que brincavam no escorrego.

Lembrei-me de outra vez que estive sentado naquele mesmo banco, só que a lembrança não era tão bucólica quanto o momento que eu agora vivia. Ocorreu numa madrugada distante. Estava bêbado nessa madrugada, vinha de uma festa pilotando uma moto, carregado de muito uísque na cabeça, alucinado, completamente louco, sem a menor carga de noção e em altíssima velocidade. Não sentia vento no corpo, não sentia frio nem cansaço, só sentia o desejo de correr, na minha pouca lucidez. Já sofri vários acidentes de moto, a maioria deles acidentes bobos, mas sem dúvida o momento em que estive mais suscetível a um acidente fatal foi nesse dia, que se deu alguns anos atrás, não muitos. Meu desvario completo ia passando na medida em que eu perseguia o nada a bordo de duas rodas a mais de 100 por hora numa via urbana, rompendo sinais vermelhos, pensando que a cidade era minha às quatro da madrugada, cantando, gritando.

Eu não tenho saudades dessa época, eu barbarizava, mas não sinto saudades, porque eu sabia que não ia me dar bem, bastava lembrar dos caras com quem dividia as aventuras, e eu me lembro de dois em especial, dois cocainômanos inveterados: um deles era o negrinho Josias que morava no bairro de Mãe Luiza, uma vez levou um tiro quando foi comprar uma sacolinha de pó no bairro de Petrópolis e não sabia o código, existia um código pra poder comprar o papelote, se você não soubesse estava condenado, mesmo que fosse uma cara conhecida. E ele era sim, uma cara muito conhecida. Josias era o cara que trazia todas as merdas ilícitas para maníacos covardes como eu, que gostavam e precisavam disso, mas nunca iam ao comércio negro, só em último caso. Josias sobreviveu, mas não sei mais por onde anda. Lembro-me também do Eric, um mauricinho que era amigo dos caras do morro, com quem eu me encontrava pra falar merda e fazer música, chegamos a montar uma banda que durou vários meses, mas ele foi mandado embora pro Rio Grande do Sul pelos pais, pra livrar-se de nossas más influências, antes que virasse mais um nas estatísticas de drogas e morte. Antes disso, porém, ele sofreria um acidente de carro, e por muito pouco não perderia a voz. Nenhum de nós, porém, ascendeu para além do que esperava, e nunca nos ligamos mesmo muito nisso. De que serviria? Não lembro quem foi que escreveu que, no nosso século, o "grande homem" pode, ao mesmo tempo, ser uma boa besta. Por que se importar muito então? Assim, ficávamos nessas aventuras malditas, pensando que éramos personagens das canções marginais de Lou Reed, envolvidos em viagens depressivas que em nada lembravam os paraísos artificiais baudelaireanos, sempre cheirando e sempre bebendo, e isso é foda, lembro-me de um velho amigo, que já esteve à beira de uma overdose, que dizia que cocaína e álcool são realmente o casal perfeito, duas drogas que se merecem.

Mas eu agora estava sozinho, não tinha mais amigos nesse meio, mas continuava fazendo merda, conheci depois uns malucos no movimento estudantil, mas eles eram uns tolos que fumavam maconha pra ficar estereotipado, nunca me senti bem nessa coisa de colocar na testa "sou drogado", além do que nunca usava drogas em grupo, no máximo na companhia do Josias e do Eric, e então gradativamente fui abandonando tudo, embora vez ou outra ainda enchesse a cara e cometesse loucuras como essa de voar pela cidade no meio da madrugada me achando dono do mundo. Nesse meu delírio a mais de 100 por hora, meus sentidos logo começariam a adormecer, então eu dei um pequeno cochilo, coisa de três segundos apenas, mas quando dei por mim já estava derrapando na estrada, com os dois pneus furados; eu provavelmente havia invadido algum meio-fio por um instante, ou passado por cima de várias tartarugas, aqueles troços fincados no chão que servem de divisória de uma rua para outra, e mesmo no aperreio do deslize e na lentidão de meus reflexos, tentei recuperar o controle da moto, sem sucesso, até que, depois de vários metros deslizando, enfim caí, com a sorte de que já havia perdido bastante velocidade e não me restaram nada mais que alguns arranhões e um deslocamento no braço, além do que, como não havia mais ninguém na estrada, não havia maiores riscos em levar uma relativamente pequena queda naquele chão frio da BR 101, vez que não passaria outro veículo pelo menos nos cinco minutos seguintes...

Eu me lembrei dessa ocasião porque isso ocorreu justo perto da borracharia a que me referia, e foi até ela que empurrei a moto com o sangue quase gelado descendo por dentro da calça suja, e aguardei até que o estabelecimento abrisse, e demorou muito para abrir. Quando me sentei no banco da praça, o céu ainda começava a ver seus primeiros filetes de luz, então logo adormeci. Eu acordaria às 10 da manhã, bem encardido, e foi justo quando a borracharia estava abrindo. Depois que os pneus foram remendados me mandei pra casa, eu permanecia bêbado, porém estava bastante mais precavido, senti-me muito mal o dia todo, vomitei pra caramba na privada, e lá mesmo no banheiro eu fiquei por um bom tempo, não comi nada nesse dia nem nos três seguintes, fiquei muito fraco, porque estava com medo, ainda que eu suspeitasse que meu fim se daria assim mesmo, estatelado numa autoestrada, provavelmente com partes do meu corpo jogadas de lado a lado da avenida.

De qualquer modo, depois dessa ocasião relevei mais certas coisas, nunca mais saí para festas afins, e em raras vezes eu bebo qualquer coisa fora de casa, aliás, tenho passado mais tempo em minha casa que em qualquer outro lugar, coisa que não me ocorria há pelo menos dez anos, e isso tem sido muito bom, tenho gostado de passar menos tempo correndo atrás de outras coisas. Os vícios do passado não se foram, não fiz maiores autocríticas porque nunca mudei efetivamente a visão que eu tinha do mundo, hoje meus hábitos são mais caseiros, mas meus gostos são os mesmos de anos atrás.

E todos esses pensamentos se misturavam na minha cabeça enquanto eu ainda estava sentado no banco da praça, ao lado da revistaria que permanecia fechada, tomado de um sentimento de comiseração comigo mesmo. A essa altura, as meninas de sete anos ainda brincavam no parquinho, o sentinela permanecia fixo no seu lugar. Apesar de ainda ser cedo, umas três da tarde de domingo, comecei a sentir um pouco de dormência, decidi que tiraria uma soneca por ali mesmo, e eu continuava pensando, a vida não é tão boa assim, mas acho que ainda não é o momento de ir embora. Pela segunda vez, adormeci no mesmo lugar.



segunda-feira, 16 de março de 2009

Sem gosto de despedida

Já estava no fim da tarde, e eu estava deitado no sofá dividindo minha atenção entre o cochilo e a TV ligada no modo silencioso, quando escutei alguém me chamando lá fora, uma voz feminina, e me espantei porque raramente alguém me procura aqui, essa casa só tem algum tipo de movimento quando a minha mãe aparece, e isso ocorre com mais frequência nos domingos. Eu olhei pela janela do quarto e vi que era Cinthia, uma ex-namorada, e disse que poderia entrar, que o portão estava aberto.

Não, não está aberto, foi o que ela disse.

Que merda, pensei.

Eu estava encardido, não havia tomado banho ainda e vestia a mesma roupa do dia anterior, porque nesses tempos eu não faço nada, estou de férias das escolas onde dou aula e da faculdade, passo o dia bebericando, escrevendo, e comendo pão ou biscoito recheado, no máximo peço alguma comida pelo telefone.

Esperaí, falei, e lhe joguei a chave pela janela. Abre aí e entra, disse num grito, eu vou tomar um banho rápido.

Quando saí do banho, a Cinthia estava no sofá, lendo umas cartas que estavam jogadas na mesinha de centro. Eu recebo muitas cartas, porque nas últimas semanas estava participando de um grupo informal de trocas de correspondências, e não chegava a ser exatamente divertido, a maioria dos correspondentes eram mulheres carentes de meia-idade que tentavam nos enganar e se enganar dizendo que queriam apenas amizade, mas era bacana se corresponder, de modo que eu passava o dia lendo e escrevendo cartas, escrevia em média catorze nos últimos dias. Expliquei essas coisas a Cinthia e ela achou tudo isso uma grande bobagem.

A razão de sua visita era para fazer um pedido. Ela estava terminando o curso de Turismo, estava no relatório final, dissertação, TCC, ou algo assim, e me pediu para ajudá-la. Faltavam apenas três semanas e ela só tinha esboços do que queria fazer, e – como nos seus primeiros anos de curso, quando nos conhecemos – pediu que eu a ajudasse de alguma maneira.

Cinthia era uma ex-namorada por quem eu mantinha não somente uma grande consideração, mas um respeito pleno. Ela sempre fora a minha meta inalcançável. O meu ponto fraco. Por ela, eu não era apenas apaixonado, era obcecado, era viciado. Talvez isso, de lado a lado, gerasse o clima de turbulência que era constante entre nós. A vitalidade e a personalidade forte que eu via nela e que se mesclava com sua meiguice, nunca vi jamais em qualquer outra garota, quase todas com quem estive se reduzia a paparicações, passividade e voz extremamente aguda e recatada, e eu pensava nisso mesmo agora, depois dois anos que passamos distantes, e que eu sequer a beijava, pois ela já estava em outra, com outras metas, agora era uma moça evangélica, microempresária, e já próxima de noivar. Mesmo com tudo isso, ela ainda era presença constante em meus pensamentos, de maneira que eu continuava a sentir seu corpo, seus lábios, seu calor em qualquer outra garota com quem eu estivesse depois dela. Isso, no início, era um grande tormento para mim, mas depois de algum tempo já me faria estar conformado: eu estaria sempre acompanhado do fantasma dessa garota, marcado pelo seu estigma. E pra ser sincero, não achava uma má idéia.

Então passei a ajudá-la na pesquisa nesse dia, em que ela ficou umas quatro horas, e no dia seguinte, quando ela voltou. A Cinthia tinha meu endereço há anos, mas nunca me havia visitado, o que me surpreendeu bastante. E eu nunca tive muito em casa para oferecer, e estavam o quarto e a cozinha bagunçados e empoeirados. Era engraçado eu tentando arrumar rapidamente alguma coisa da maneira que desse. Ia comprar um refrigerante e preparar uma comida, talvez um macarrão, pra ser simpático, porque eu só tinha água e conhaque em casa, talvez uns camarões empanados, pré-prontos, mas ela disse que não precisava.

O projeto que ela elaborara previa também uma viagem, da qual ela havia aberto mão, por não lhe ser viável, mas eu ofereci a idéia de irmos juntos, afinal eu tinha na época uma pequena moto, era uma Biz, bem modesta, mas certamente a levaria aos lugares que são seu objeto de estudo: algumas cidades parcamente visitadas do interior do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Ela aceitou a ideia e dentro em uma semana, saímos para passar dois dias viajando pelos quinhões sertanejos que ficam aqui do lado. E enquanto viajávamos, visitávamos os locais e ela fazia o seu estudo, e eu apenas permanecia contemplativo, só quebrando o galho em alguns momentos, e redescobri dois prazeres, que eram a companhia da Cinthia e o deleite de uma viagem de moto, sentindo o vento no corpo, ver a estrada e as paisagens e tudo o mais que houver ficando para trás.

Passamos duas noites na mesma pousada. Na primeira, ainda como viagem de ida, conversamos bastante, relembramos fatos de nosso passado, e as coisas que vivemos quando já estávamos distantes um do outro.

Você não mudou nada, era o que mais se ouvia dos dois lados.

Apesar de estarmos nos dando bem nessa viagem, a cada momento ela dava um jeito de lembrar que não havia mais possibilidade para nós dois. Ela gostava agora de se dedicar a algumas coisas de sua igreja, já estava se estabilizando e contava várias coisas da loja de roupas que havia montado, que eu simpaticamente disse que conheceria no futuro, e de seu namorado, um detetive particular. Eu lhe contava que agora dava aulas, tinha uma revista, mas ela não se interessou muito, lembrou que quando namorávamos eu já escrevia mal e porcamente. Talvez não estivesse errada - relendo algumas coisas da época, eu mesmo concordo -, mas ela também nunca fora eficiente nos seus projetos; a loja não era o primeiro.

Na mesma pousada, no dia seguinte, quando já fazíamos trajeto de volta, não conversamos muito. Ela foi dormir rápido, se dizia cansada, mas bem. Eu até pensei que ela talvez quisesse romancear um pouco tudo aquilo. Que tal se aproveitássemos essa noite?, lhe perguntei. Ela deu um sorrisinho irônico e foi se deitar sem responder, e isso me lembrou a época em que namorávamos. Ela sempre teve uma personalidade muito forte, e eu também sempre fui de convivência difícil, e, como foi dito, frequentemente nosso relacionamento era acompanhado de momentos de tensão. Cada um tentava se impor sobre o outro, não era uma relação com mandante. De qualquer modo, na nossa rivalidade existia uma parceria involuntária, uma cumplicidade, um duobanditismo. Agora, muitos meses depois, éramos os mesmos, mas ninguém tomava postura sobre o outro, estávamos cada um na sua, mais assépticos, mais vazios, menos personalistas - nossa cumplicidade hoje se resumia a troca de gentilezas, transformamo-nos naquilo de que sempre tínhamos medo de nos tornar. Isso me deixou meio puto na hora, mas eu relevei, porque não sou do tipo que tenta deixar as coisas pra trás, que tenta esquecer o passado achando ser a melhor solução. Gosto demais da minha vida, em todos os seus impropérios, pra tentar apagar um minuto que seja da memória. Eu sabia que esses momentos seriam os últimos que passaríamos juntos - e era melhor que fossem mesmo -, mas mesmo assim eu o notava mais como reencontro que como despedida. Foi acompanhado dessas divagações que, enquanto ela se dirigia à cama em silêncio, eu ia dar uma volta pelas ruas escuras, até comprar umas cervejas em lata no posto de gasolina mais próximo e bebê-las solitário num ponto de ônibus com a boca franzida feito um bebê chorão.





Depois desse dia, só tive chance de revê-la na sua apresentação, que foi aprovada com louvor. E eu raramente fico orgulhoso por alguém, mas fiquei muito por ela. A Cinthia havia me marcado tanto, e mesmo que estudássemos no mesmo lugar já não nos víamos mais, porque ela estudava pela manhã e eu à noite. E quando eu pensava nela antes da sua visita-surpresa, a única coisa que eu desejava era poder participar de sua vida uma última vez, participar de algo que lhe fosse importante. E eu consegui, mesmo não tendo oportunidade para algo como um novo último beijo, mas ainda assim me senti contemplado.

Dias depois, eu comprei uma moto nova, para fazer reviver em mim o desejo de pegar a estrada – mas dessa vez, sem companhia.

Assisti à sua formatura, mas não me demorei muito tempo na cerimônia e saí sem cumprimentá-la. Sabia que era a última vez que a veria e não queria estender tanto aquele martírio, eu já estava bastante desconfortável, suado. Sentia o calor de sempre, o calor dessas ocasiões, porém mesmo esse calor insuportável não abranda o frio da alma. Fui para o Bar do Caixão, que ficava do outro lado da avenida, e passei ali as quatro horas seguintes enfiando goela abaixo uma cerveja atrás da outra. Eu me mantinha com o olhar fixado na bebida, observando o lúpulo que subia em minúcias e fazia um pequeno borbulhar no topo do copo, enquanto resmungava Cinthia... Cinthia... Cinthia... bem baixo, tão baixo que se houvesse mais alguém na minha mesa não escutaria.



sábado, 7 de março de 2009

Sobre nós e sobre os outros

Eu recebi hoje um email de um conhecido dos tempos de colégio, estava anexado com umas fotos recentes de Rodrigo, um dos caras mais arruaceiros que já conheci, quando nos falamos a primeira vez devíamos ter uns 13 anos, e mantivemos contato pelos três ou quatro seguintes. Depois que nos distanciamos, só tive notícias suas em dois momentos: um foi quando ele passou uma semana preso por estar empossado de umas muambas, que, como se não bastasse, eram roubadas; o outro momento foi agora, através dessas fotos. No corpo da mensagem, o remetente tentava convencer a mim e aos outros três ou quatro destinatários a abrir as imagens.

EI AMIGOS VEJAM O QUE ACONTECEU COM O VENTA
HAHAHAHAHA QUEM SABE ELE APRENDE
SAUDADES

Eu não tinha entendido, só entendi quando vi as fotos. Rodrigo estava acabado, havia sofrido um acidente de carro e era só cacos, com lesões que iam desde pequenos arranhões na bochecha até uma fratura horrível nos metatarsos que o impediria até de colocar o pé no chão por um tempo, mas estava vivo, e chegava até a sorrir em uma das sete fotografias, fazendo um sinal com as mãos.

Eu pensei em responder a mensagem pedindo algum contato do Rodrigo, telefone ou coisa assim, mas deixei pra lá. Ele provavelmente não se lembrava de nenhum de seus colegas do tempo da escola, sabia que no máximo era motivo de chacota para alguns que o chamavam de "venta", e eu nem sabia que ele tinha esse apelido.

Isso tudo na verdade era só algum passatempo na madrugada. Não havia mais nada a fazer, e eu não tinha sono. Não tinha bebida em casa, nem comida. Tomei banho pra passar o tempo, mas isso só me fez pior, porque a água daqui tem muito cloro, e eu sou meio alérgico, sei lá, não sei se é possível ser meio alérgico, mas o fato é que passei vinte e cinco minutos no banho, às três da manhã, e quando saí o meu corpo era só pruridos. Eu demoraria mais no banho - enquanto estou embaixo d'água, nada sinto -, mas escutei o celular apitando, era uma mensagem que havia chegado. Eu pensava quem me escreveria algo a essa hora?, e sabia que havia grande possibilidade de ser uma mensagem automática da operadora lembrando-me de minhas dívidas. Mas não, não era uma mensagem automática, era uma mensagem de um amigo chamado Silas, perdido num apartamento de alguma garota fácil dessa cidade. Ele dizia:

CARA LEMBRA QUANDO VOCE ESTAVA MAL COM AQUELA GAROTA POIS EH AGORA ESTOU ME SENTINDO ASSIM TAMBEM LIGA PRA MIM VAMO CONVERSAR.

Fiquei matutando sobre o porquê de ele fazer a referência a um momento em que eu estava mal, sobretudo com "aquela garota". O que tinha a ver? Será que ele imaginava que eu só lhe daria atenção se houvesse um peso que me obrigasse a isso? De qualquer maneira, de nada adiantaria pensar nessas coisas, porque eu não tinha mesmo condição para lhe telefonar, e fiquei mal por isso. De fato, Silas tinha quebrado um bom galho noutros momentos, e agora eu não poderia retribuir o amparo, que babaca que sou, eu pensava de mim mesmo, mas o que poderia fazer?

Decidi matar o tempo com alguma leitura, embora não estivesse muito a fim. Dei uma olhada na estante e peguei rápido um livro qualquer que fosse, o quarto estava escuro ainda, de maneira que eu não sabia que livro tinha pego. Só depois que acendi, vi que havia sido um do Jack Kerouac. Eu achei que seria bom para adormecer, porque Kerouac é um dos tipos que me ajudam a escrever, quando quero escrever, que me ajudam a dormir, quando quero dormir, e me ajudam a passar o tempo, quando quero apenas passar o tempo, no ônibus, por exemplo.

Ela é uma garota bonita demais. Eu me pergunto o que todos os meus amigos iam dizer... e o que aconteceria em Nola quando você a visse... sob o sol quente, ela de óculos escuros e um andar preguiçoso... Ela fala de um jeito parecido com minha velha tia franco-canadense lá de Lawrence. "Não quero su moa-ny, o que quero é yur loave." Loave, amor. "És yur lawv." Lawv, lei. Acontece a mesma coisa com Tristessa, que tá o tempo todo tão doidona, passando mal. Ela se aplica 10g de morfina sempre, e sai cambaleando pelas ruas da cidade tão bela, e seus olhos reluzem e seu rosto está úmido com o sereno...

Essa Tristessa é muito louca, muito intensa, eu pensei, e censurei a mim mesmo por ter pensado isso, porque é o que faço todas as vezes, penso demais enquanto leio esse livro, que leva o nome de sua protagonista, Tristessa, e é por meditar tanto nele que não consigo nunca lê-lo todo, mesmo sendo bem pequeno, nem pode ser chamado de livro, é um livreto que não custa nem 6 reais e fica jogado nessas seções de livros que só olha mesmo quem não tem dinheiro para comprar os best-sellers das outras estantes que custam dez vezes mais, embora seus conteúdos valham dez vezes menos. Fico aborrecido porque a leitura de Kerouac deveria ser feita como a escrita, de uma só vez, como o fiz em suas outras obras a que tive acesso. Em se tratando desta, porém, deve haver algo de errado, ou com ela ou comigo. Só sei que sempre que a tomo em mãos, eu parto da primeira linha, e precisaria de um dia inteiro para chegar ao fim. Talvez seja uma forma inconsciente de eu não aceitar que essa história termine tão rápido, como fatalmente seria se fosse lida dum só lance. Decidi deixá-la de lado por uns instantes, fiquei a olhar para o nada e só então achei engraçado o fato de ter pego justo esse livro na estante, porque eu o comprei exatamente com uns trocados emprestados do Silas, que agora me pedia refúgio. Lembro que na ocasião da compra, estávamos num hipermercado, de bobeira, nem recordo o que estávamos buscando e vi esse livreto. O pior é que não tinha nem 6 reais no bolso, eu devia ter 4 reais ou menos, e lhe pedi o restante.

Não tenho, mas peraí, disse o Silas, e saiu, enquanto fiquei folheando outros livros, e em menos de dez minutos ele voltava com a parcela que faltava, em umas dez moedas de 25 centavos.

O que você fez?, perguntei.

O que você acha que fiz? Eu saí pedindo, é claro, foi o que me disse. Vai aceitar ou não?

Aceitei.

Era curioso que ele agora estivesse nessa situação, porque no dia anterior estávamos conversando, eu, ele e mais três amigos, num barzinho pequeno, próximo à escola onde dou aulas, e tanto o Silas como os outros falavam alto sobre as garotas que comeram neste último carnaval, mas o papo não fazia muito sentido pra mim, porque não participei dessa farra licensiosa do carnaval, embora já tenha usufruído dela noutros tempos. É só que agora não tenho mais interesse porque nem meu ânimo é o mesmo, hoje acho que não tenho sequer condições para transar mais de uma vez por semestre, e olhe lá, sem repetições.

Você fala como um velho impotente, disse-me uma garota dia desses.

Você é uma decepção, disse outra, menos de 48 horas depois.

Para as duas eu apenas sorri e mudei de assunto.



terça-feira, 3 de março de 2009

O Literatura Vil ocasionalmente recebe selos de blogs amigos que reconhecem a qualidade do trabalho aqui exposto, composto de acordo com a minha capacidade, porém abaixo da minha infinita pretensão.

O blog não tem restrições quanto a selos - como a recusa automática a expô-los, por exemplo -, porém, como eu mesmo já comentei a algumas pessoas que mos ofertaram, sou um blogueiro ali dos tempos distantes, fiz meu primeiro blog há cinco anos, era um período em que a blogosfera estava em refluxo (os blogueiros mais antigos hão de concordar), ou seja, era uma fase em que escrever em blogs era o suprassumo da marginalidade cibernética - realidade que mudaria de 2007 em diante, quando tivemos uma nova guinada, e hoje temos um novo e produtivo cenário (uma mostra disso podem conferir nos blogs linkados no menu).

Desse modo, ainda que seja saboroso o hábito de visitar e comentar postagens de outros blogs, o processo de interação que tenho para com eles (e para com o mundo dos blogs em geral) é quase zero: não participo de sites de blogs, nem de muitas campanhas existentes, não troco joguinhos, etc, senão muito ocasionalmente... Isso se dá porque, após anos postando em páginas solitárias e distante dessas atividades conjuntas, mantenho certa hesitação em me envolver nesses editos por não saber ainda lidar com eles. Portanto, selos, memes, brincadeiras e afins nunca me atraíram necessariamente. Sou um blogueiro amador, solitário e inquieto. Sempre fui.

Mas apesar disso tudo, não sou ingrato, agradeço a todos que me enviaram selos e os exporei abaixo. Apenas lamento o fato de não ter feito imediatamente após exposto pelos blogs que me indicaram. E peço desculpas, mas não postarei regras, nem os indicarei para outrem, porque a minha seleção de blogs é una - é aquela que, conforme já foi dito, está posta na coluna à direita. É isso.

O colega Italo Sena, do blog Quem Matou Osama, enviou-me este selo: "este blog é alegre e criativo: reflete entusiasmo e criatividade". Hmmm... Se ele diz, né, que assim seja. Ademais, acrescento: o blog Quem Matou Osama é um dos raros blogs de humor que conseguem me tirar algumas risadas... só não posto no menu lateral porque, sinceramente, não acho que tem nada a ver com o Literatura Vil... creio que a justificativa é mútua. Sucesso para o Italo!


A Dina, do Acorda Pra Vida, exclama que o Literatura Vil é um blog maneiro... Pois é, eu concordo, tanto que sou o autor e o principal leitor deste recinto! No mais, quem ainda não a conhece, não há porque perder tempo...


A Natalia, ou apenas Naty, do Sou Continente Perfeito, indicou o selo Literatura é Arte para este blog, motivo de orgulho para este que vos escreve. A Naty, que, obviamente, já havia sido indicada a receber este selo, sabe que seu reconhecimento também é merecido.

Recebi do blog O Instável Mundo da Juh o selo Meu Blog é um Encanto. Não dá nem margem pra comentário, só posso agradecer... o blog da Juh eu conheci dia desses, e, vá lá, é interessante. É um blog que tem um astral interessante, é reflexivo mas é algo bem pra cima... vale a visita.

A Mari Vilani, do Cantinho Misantrópico, enviou-me o selo Esse Blog me Faz Sorrir (a Juh também me enviou). Demorei para relembrar essa indicação, assim como as outras, mas sso não diz nada; gostei da indicação como gosto do blog da Mari; digo mais, Cantinho Misantrópico bem que poderia ser nome do Literatura Vil... acho que escolhi mal. Mas ela foi mais esperta e o catou primeiro.


Além destes selos, a Michele do blog Perscrutarei também me houvera enviando um meme (brincadeira) onde eu deveria listar seis coisas sobre mim. A Michele - e, salvo engano, a Naty também - é mineira, conterrânea de vários dos blogueiros e blogueiras que estão linkados pelo Literatura Vil (além de outros que visito). Terra boa é essa...

Eis as coisas sobre mim:

- Às vezes tenho preguiça de assistir aos jogos do meu time;
- Pelo menos metade dos blogs que visito não estão linkados aqui, nem por isso me são menos importantes;
- Meus textos são muito, mas muito influenciados pelos meus escritores favoritos;
- Eu não me importaria em ser limpador de vidraças no futuro se tivesse meu tempo livre para escrever;
- Tenho dois desejos: trocar uma prosa com Zé Ramalho e com Rubem Fonseca;
- Uma das coisas mais prazerosas que existe, a despeito do pensamento corrente, é dar aulas.

É isto. Agradeço a todos!


* * * * *

Fragmento

Achando a festa meio maçante, eu me dirigi ao bar onde eram oferecidas várias bebidas e lá fiquei por coisa de meia hora, balançando insistentemente a cabeça com sinal de negativo cada vez que olhava para a multidão, e voltava-me para o balcão. De repente, ao meu lado, senta-se uma menina e me causa um baque: era a mais linda que eu já vira - uma princesa!, uma boneca!, uma obra de arte plástica em forma de garota! Quando ela me notou, manteve o olhar fixo em mim por míseros dois segundos, mas eu rapidamente concluí que nossa empatia havia sido imediata! Logo senti que ela fugia à superficialidade das garotas daquela festa. Sim, ela era diferente, era mais delicada, era mais cabeça aberta, era mais fácil rolar um bom papo. Já visualizava nós dois rindo e conversando durante longo tempo até o fim da noite, eu a levando pra casa, ela me convidando pra entrar, a gente nos dias subseqüentes pegando uns cinemas e barzinhos simpáticos iguais àquele em que nos servíamos. Para dar início à nossa longa história juntos, abri de modo bastante original a conversa:

Oi?

Ela me ignorou solenemente, pegou a caipirinha que lhe fora servida e saiu sem expressar o menor interesse, e nunca mais voltei a vê-la.



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Da estupidez

É sempre muito tarde quando eu percebo que me meto num programa-de-índio, é justamente esse maldito pensamento que me passa agora. A madrugada ainda está no seu início, acabo de me sentar numa parada de ônibus na Rodoviária Velha, muito bêbado e cansado. Isso tudo porque eu saí de casa horas atrás, ainda era dia, pra vir em um desses bares da Ribeira assistir a uma banda que tem um som meio setentista, meio rock progressivo, umas influências sinfônicas, enfim... Vi o anúncio no jornal, achei bacana, e vim ver, na maior boa vontade. A banda de fato era até legal, entretanto nem teve muito tempo, teve coisa de trinta minutos. No final das contas, o que rolava era apenas um desses festivais de merda onde as mesmas sete ou oito bandas se revezam todos os fins-de-semana, com mais uma banda fantoche pra dizer que há alguma renovação, e o dono do bar lucra e os caras das bandas se acham os sujeitos mais pops do estado, e eu pinto de idiota, de néscio, porque sou o único por ali que não está acompanhado. Sou o único que está ali só pela música, só pela arte, porque queria ouvir algo, e fiquei meio triste e meio puto porque essas coisas sempre acontecem comigo. Antes, eu me aborrecia muito por estar sempre desacompanhado nessas horas, porém há algum tempo me dei conta de que é melhor assim, pois basta apenas eu me enfiar nessas aventurinhas grotescas. Antes um a dois tolos.

Eu nem me demoro muito a sair desse bar – que não é um bar, é uma pequena casa de shows – e ir para um bar autêntico, por assim dizer, só para beber, e hoje, como saí de casa sem moto, eu iria beber bastante, e foi isso que fiz, bebi até ficar meio tonto como há tempos não fazia.

TEM QUANTOS QUISER, RAPÁ, é o que me diz o garçom, e ri para os amigos.

Outros ainda continuam me enchendo o saco.

POR QUE TÁ BEBENDO, BICHO?, pergunta um cara na mesa ao lado pendendo a cabeça na minha direção, mas sem me olhar. GAROTAS? TRABALHO?

ESQUECE... ELE NÃO DEVE TER NEM UMA COISA NEM OUTRA, diz seu companheiro de mesa, e começa a rir, sendo logo acompanhado pelos colegas.

Eu ignorei todos os que me torravam a paciência e bebi até agora há pouco, só parei quando vi que já era meia-noite e pensei que não teria mais condução para o meu bairro. Quando paguei a conta e me levantei, eu ainda tropecei sem querer e caí na pavimentação, caí sobre o joelho e o braço direito. Tentei me levantar logo mas não me sentia totalmente forte, fiquei lá de quatro ouvindo a risada dos caras e com vergonha de mim mesmo, a diverti-los como se fosse um palhaço. Então, levantei-me e ainda lhes lancei um olhar astuto, e saí andando altivamente, como se eu, bêbado e sozinho, tivesse mais poder que dez mil deuses juntos, todavia enquanto caminhava eu ainda escutava risadas.

E agora aqui estou nesta Rodoviária, e poucos minutos depois da minha chegada começam a cair alguns pingos do céu, um chuvisco que gradativamente vai tomando força. Eu ainda me mantenho protegido, afinal essa parada de ônibus é a parada-modelo que a Prefeitura lançou não tem nem dois anos, de um metálico até bonito, colorido, além de ser coberta. Só que o teto é muito alto e a chuva muito intensa, e logo começa uma ventania, daquelas que fazem a chuva vir de lado. Não demora e estou ensopado.

O tempo passa e agora começo a ficar enfadado, porque ainda não vislumbro nenhum ônibus, mas que ônibus?, eu sei que não passa mais ônibus algum a essa hora. Minha única opção vai ser pegar algum tipo de transporte alternativo, qualquer um que tome outro rumo, qualquer intermunicipal, e descerei na BR 101, lá perto do Aeroporto Internacional Augusto Severo para caminhar a pé sob muita chuva e sobre muita lama durante uns dois ou três quilômetros pra chegar em casa. Isso me faz rememorar os primeiros dias em que fui morar naquele bairro, que tem o lindo nome de PARQUE INDUSTRIAL. E isso é engraçado, porque Natal não tem indústria nenhuma, o Rio Grande do Norte também não tem. Porra, se nem o Brasil tem indústrias direito, como é que esse estado se põe na prerrogativa de batizar assim um de seus bairros mais pobres e encardidos? Mas pois é, é isso que os caras fazem, e esse bairro até que mudou desde que fui morar nele, eu tinha coisa de dez ou onze anos, e isso me vem à mente agora porque naquela época não havia ônibus pra lá, e a situação me fez lembrar das minhas longas caminhadas na infância. Na verdade, não havia quase nada, para ser franco. Sequer água e luz tivemos durante os dois primeiros meses. A única coisa que não mudou é o fato de ainda não ter nenhuma indústria lá. Até puseram uma pedreira, uma marmoraria aqui, uma serralharia ali, para se unirem aos galpões antigos e abandonados e dar razão de existir ao pomposo nome de PARQUE INDUSTRIAL.

Pensar nessas coisas é ao mesmo tempo trágico e engraçado, contudo eu não tenho nada mais a fazer, fico pensando nisso até que venha o transporte, e, claro, que seja clandestino, pois estes são os mais baratos e têm aos montes.

Depois de algumas divagações, eis que me aparece um, é uma Besta, uma dessas vans bem pequenas, e como a chuva desse uma pequena trégua, eu até penso que o dia não foi tão mal devido a essas alegrias momentâneas. Entro meio cambaleante na Besta e balbucio ao garoto de camisa do Flamengo, FICAREI NA BR!, porque o garoto, que devia ter seus quinze, com a camisa do Flamengo é o cobrador, embora não seja cobrador de fato, e sim apenas filho do motorista; está ali, àquela hora da noite, porque o pai o obriga a trabalhar, e como não tem fiscalização que cate nenhum dos dois, o pai persiste explorando o próprio filho. É nessas horas que eu me felicito por não ter pai.

Eu chego a adormecer um pouco durante a viagem, lapsos de sono, cochilos. Ainda estou muito tonto pela bebida. Fico naquele estágio de microssonos até que bato a cabeça na janela e redesperto. Percebo que a chuva voltou; aliás, a chuva não voltou, nós é que fomos em sua direção, porque as nuvens seguem para oeste, e todo nosso trajeto parece que foi correndo atrás daquela nuvem carregada, e assim que nos pusemos bem no meio, no coração dessa nuvem, é justamente quando vejo um cartaz imenso, muito maior que um out-door, anunciando que o aeroporto está a apenas algumas centenas de metros, ou seja, já de meu destino, e eu grito lá do fundo:

DESCE NO CAFÉ!

CAFÉ?, o garoto fica sem entender.

Sua confusão é compreensível porque fazem anos que não pego nenhum transporte alternativo, e na última ocasião em que o fiz o ponto de referência da minha parada ainda era um tal de Café, que na verdade nem sei o que era de fato, apenas concluí a mim mesmo ser Café porque assim que nos mudamos, eu e minha mãe, naquele longínquo 1997, ela me disse:

QUANDO VOLTAR DA ESCOLA, PEÇA SEMPRE PRA DESCER NO CAFÉ!

Então, foi esse Café o ponto de referência pra mim, mas agora o Café, fosse lá o que fosse, não existe mais, e eu não posso fazer nada, e pior, não sei de outro ponto de referência, eu poderia dizer PARA AÍ PERTO DO AEROPORTO, no entanto perto do aeroporto é uma afirmação muito vaga, perdida, sem sentido, perto do aeroporto pode ser em qualquer lugar na BR-101 entre Natal e Parnamirim, e como a visualização estava ruim pela janela, devido à forte chuva, de maneira que eu não sabia onde estava, eu canso e resolvo o problema:

PARA AGORA MESMO ESSA MERDA, AQUI, LOGO!

Quando ele pára eu dou a grana necessária e mostro minha carteira de estudante.

CADÊ O SELO?, pergunta-me o garoto.

MAS QUE SELO?

O SELO QUE AUTORIZA O USO DA CARTEIRINHA, PÔ.

A questão é que eu não sei do que ele fala, selo?, por que raios a minha carteirinha precisa de selo?, afinal eu sou estudante, paguei pela porra da carteirinha, esperei dias pra receber, sempre uso no cinema, sempre uso no teatro, sempre uso nos jogos de futebol, e até no ônibus eu já usei, e não posso usar nesse maldito transporte clandestino, e sendo clandestino nem regularizado é, por quê?

É A LEI!

HA!HA!HA!, rio cinicamente, só que não sei ser cínico, na verdade eu apenas banco novamente o palhaço, porque é isso que sou, um palhaço.

Não faço resistência alguma, aceito pagar a passagem inteira, e assim que desço, debaixo de uma chuva fortíssima, a Besta arranca. Eu poderia logo partir para minha nova peregrinação, pois terei que caminhar mais uns quinze minutos além dos trinta que já era previsto porque noto que estou pelo menos um quilômetro antes da minha parada. Será mais um fardo que terei de suportar até chegar em casa todo molhado para talvez tomar um banho rápido e dar uma requentada no café que deixei sobrar hoje pela manhã, e tudo isso para depois enfim desabar na cama. Porém, não é o que faço. Desço do alternativo e fico aqui, na beira da avenida, apreciando eles tomarem distância. Somente quando a Besta começa a se perder da minha vista na autoestrada, escondida pela neblina e pelo temporal, é que eu lhe mostro o dedo médio, achando que estou provocando alguém, mas não estou, estou apenas provando pra mim e para qualquer um que até aqui tenha duvidado, que eu sou mesmo um estúpido.

No dia seguinte, acordei enjoado, resfriado e com fortes dores no joelho direito.



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Sobre Quando Senti Saudades

Perdi alguns amigos, mas não muitos.
Alguns chegados já se foram, devido a facadas, tiros ou acidentes.
Mas poucos me deixaram boas lembranças como o saudoso Adelmário,
um velho que deixou sequelas permanentes em todos, a despeito das confusões que causou.
Republico essa postagem em sua memória... um ano depois.




Ele era divertido, sincero e despreocupado como uma criança, a despeito de seus quarenta e poucos anos. Isso, no entanto, não afetava sua vida social, por uma razão simples: ele não tinha vida social. Quando adolescente, era um visionário, carregava livros e sonhos em sua mochila. Parecia promissor, como bom estudante que era, como bom amigo, como namorado, como companhia pras diversas atividades. Um cara requisitado e considerado. Como já dito, estudioso inveterado, gostou da experiência adquirida quando do serviço militar e traçou como meta ingressar na carreira definitiva. Além disso tudo, atleta, forte e eficiente. "O melhor goleiro da Força Aérea". Adelmário era seu nome.

Os sonhos, porém, como as borboletas, morrem todos os dias. Com aquele garoto-prodígio, não foi diferente. Bastou um acidente de carro - um atropelamento, um arremesso de 30 metros que fez seu corpo outrora vigoroso e facilmente autossustentável virar um pedaço de pano seco e frágil no asfalto.

O desejo de ser um militar de carreira se foi como num estalar de dedos. Quase tão repentino quanto o acidente sofrido, foram-se embora também os amigos, a namorada, as outras tantas pretendentes, o sorriso fácil.

Apesar de tudo, sobrevivera. Isso era o mais importante, diziam-lhe os parentes e um outro aprochegado, estes nem um pouco íntimos. No entanto, para aquele jovem acidentado, a oportunidade de sobreviver se tornou simplesmente um adiamento de sua morte. É verdade que suas habilidades básicas até lhe foram devolvidas. Com ajuda de pinos e parafusos, voltou a andar, a se movimentar normalmente e a viver "como se nada de tivesse acontecido". Mas era impossível pensar que nada tivera acontecido. Considerava uma desonestidade para com seus próprios desejos que o acompanhavam até ali.

Como é o destino de todo indivíduo malogrado e arruinado, ele afundou no mundo noir do álcool e do tabaco. Fumava como uma chaminé e bebia a ponto de esquecer o nome do planeta em que vivia. Nos trabalhos que arrumou depois da recuperação, não se mantinha por mais que algumas semanas. Nos estudos que tentou prosseguir, já não sentia mais nenhum ânimo em se concentrar. Tornou-se um baderneiro. Roubava. Quebrava bares e batia em pessoas. Em casa, virou um parasita na família, morando com a mãe - agora já uma senhora, atormentada com as constantes notícias de seus escândalos. Ela que já era avó, graças a seus outros irmãos. Seus irmãos, aliás, todos bem-sucedidos, o humilhavam constantemente, quase como esporte. Freqüentemente convidavam-no a dar fim à própria vida: "te dou o funeral que dos seus sonhos, mas vá embora e deixe nossa mãe em paz".

Foi nessa época turbulenta que o conheci. Ele era tio de um amigo dos tempos do jardim de infância que me convidava nas sextas para sua casa, e eu ia, quase empurrado pela minha mãe. Como conversávamos bastante, nós três, passei-me a aproximar-me mais dele. Com o tempo, tornou-se mais que apenas o tio de meu amigo; com ele próprio eu criaria um laço de amizade. Então passei a, eventualmente, visitá-lo. Era um ótimo parceiro pra conversar sobre minhas vivências de adolescente. Bem se notava que ele ainda guardava a alegria e a pureza doutros tempos. Com sua companhia, assistia aos jogos da Seleção, embora fosse difícil, uma vez que ele só gostasse de jogos onde Ronaldo estava escalado (ao contrário de mim). Também conversávamos sobre bebidas, ainda que ele já não pudesse beber nesse período, pois seu organismo estava muito debilitado. A primeira vez que o vi beber e cair no chão sem conseguir se levantar, senti uma vontade brutal de chorar. Apesar da condição física deteriorada, ele ainda bebia às escondidas.

Além disso, proseávamos longamente sobre planos... mas isso não levava a nada, afinal ele já não tinha planos. E eu apenas pensava que tinha.

O tempo, esse traiçoeiro, fez com que nos víssemos em cada vez mais fugazes oportunidades. A esse tempo obedecemos vergonhosamente, e já fazia dois anos que não via nem falava com esse bom e velho amigo.

Então, senti saudades.

Passado o último Carnaval, numa bondosa tentativa de prosear e marcar uma hora para nos reencontramos pessoalmente, eu lhe telefonei. E qual não foi a minha ingrata surpresa quando recebi a acanhada informação de que poucas horas depois, seria celebrada uma missa pelo sétimo dia de seu falecimento...

Não acreditei. Não me situei no princípio. Apenas parei e me lembrei dele. Lembrei de seu sorriso trôpego, já sem a maior parte dos dentes. Das piadas e dos xingamentos. Das peladas que batíamos, embora ele não tivesse fôlego nem pra correr cinco passos. Pensei o que ocorre a todo mundo que perde seus entes; eu não o veria mais. Fiquei acometido de um arrepiamento, um calafrio. E do retorno daquela vontade de chorar.

Esse cara estragou a sua vida, foi o que pensei na hora. Mas isso era besteira. Era um julgamento indevido de minha parte. Estragar sua vida, afinal, todos fazem. Mesmo quem acredita estar cuidando refinadamente da sua. Ele apenas estragou à sua maneira. Estava no seu direito. A minha tristeza estava contida, como todos os fortes sentimentos assim estão, no meu comportamento reservado. Em menos de um mês, eu iria novamente a uma missa de sétimo dia, pois semanas antes falecera a avó da minha irmã, que, segundo minha mãe, também era minha avó. Mas a despedida dessa desolada senhora, néscia e delirante em seus últimos dias, para mim, foi mera burocracia familiar; a despedida deste camarada, todavia, sim, me abalava. E novamente eu segurei as lágrimas por ele.

Fui à casa de meu velho amigo da escola no dia da missa. Entre nós, parecia já não haver mais nenhuma intimidade - nós que, não muitos anos antes, havíamos feito juras de amizade. Não me demorei na sua casa. Trocamos poucas palavras. "Ele estava muito magro... você não ia querer ver...", foi uma das poucas coisas que me disse.

Adelmário bebeu muito, mas, de fato, morreu de tanto fumar. O cigarro, que mata centenas de milhares de pessoas anualmente, estatísticas que não abrangem aqueles que merecem, aqueles que vivem simplesmente por inércia e dinheiro, mas leva outras boas pessoas que já não querem nada da vida, porque não podem querer nada.

E eu sequer pude ir a seu funeral, vê-lo pela última vez, ainda que pelo visor do caixão, sob a pele ossuda e horripilante de uma vítima de câncer de faringe. Precisei conter meu choro novamente, pois não gosto de despedidas, mas não fujo delas. As despedidas são os momentos mais importantes das nossas vidas. Despedida da faculdade, do namoro, do emprego, da rua onde moramos, da vida. Elas são um resumo de tudo que conquistamos ou deixamos de conquistar.

Na missa, sob um olhar trêmulo, sua mãe me disse que ele, nos seus últimos momentos, queria ver montado um quadro com a foto de todos os seus amigos, desde aqueles do tempo de sua juventude até aquela fase de meia-idade (essa meia-idade, para muitos um novo começo, para ele um novo fim). Então, ele fez uma lista de quem deveria estar. Eu estava na lista, é claro... não era o primeiro nem o último, mas estava lá - isso é o mais importante. Porém, a comoção daquela velhinha de oitenta anos me contagiou em definitivo quando eu soube que meu retrato era o único não incluído no dito quadro. Era impossível, ela disse, pois não tinham nenhuma foto minha.

Pela última vez, eu segurei o choro. Até chegar em casa.



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Olhando para trás

Não havia nada a ser invejado na minha infância. Eu não viajava; não visitava parques aquáticos; não brincava na rua. Tudo isso devido à disciplina com a qual minha mãe tentava me fazer habituar, embora ela mesma nunca fosse disciplinada. Mas, em outra parte, pelo meu próprio desinteresse em participar de tais frivolidades.

Até os quatro anos de idade, eu não tinha nome. Ou poderia dizer que tinha vários. Certa vez, há muito tempo atrás, vi uma foto minha num campo aberto, parecia um deserto, e no verso dizia “hoje é 6 de dezembro de 1986, Carlos Alberto fez um ano”, acompanhado de algumas declarações de felicidade, da benção de ser mãe, entre outras anotações. Através dessa e de outras fotos antigas, além do que ela já me contou, soube com o tempo que já me chamei Juan, Ricardo, Roberto, Raoni, Pablo, Leonardo e Leonel, até que se decidisse por Leon. Todos esses nomes acompanhado de Carlos. Claro que eu não era registrado.

Então, para facilitar as coisas, os parentes me chamavam apenas de Ninho. Era mais fácil. Assim foi até que chegou a idade de eu entrar na escola, e ela enfim fez a minha certidão, decidindo de uma vez por todas qual seria o meu nome: Leon.

A minha pobre mãe tinha suas vicissitudes, que a faziam me valorizar. Ela era a mais nova entre sete irmãos, a garota-prodígio, se saía bem nos cursos de inglês, tirava notas bastante elevadas na escola, entrou facilmente na universidade, tinha um caminho aparentemente traçado com linhas coloridas e brilhantes. Mas, aos dezoito anos, esteve grávida, o que não era recomendável em sua situação: devido a um atropelamento sofrido aos nove anos, os órgãos componentes de seu útero tinham dificuldade em se desenvolver, de maneira que o embrião atrofiou-se logo no princípio de sua formação, e ela veio a abortar. Esse trauma, ao que consta, foi gigantesco. No mesmo ano, engravidou novamente, e abortou novamente. Deixou curso de idiomas e faculdade. Foi viver com o namorado. Engravidou pela terceira vez. E por algum milagre, conseguiu ver nascer seu primeiro filho. Na verdade, uma garota. Kaline, minha irmã. Eu nasceria dois anos depois, e entre nós haveria um terceiro aborto. Um dia depois que eu vim ao mundo, minha mãe fugiu do hospital. Não tinha pra onde ir, não sabia o que fazer. Só sabia que não queria levar a vida que tinha até ali. Vivia na casa dos sogros há cinco anos, e mesmo assim todos eles diziam que meu pai era outro. Quando foi encontrada, o médico – de confiança da família – disse que ela sofreria sérios abalos psicológicos se tivesse um novo filho, e ligou suas trompas, ao que ela somente soube na manhã seguinte.

Minha mãe deixou a casa onde vivia e voltou a morar com sua mãe, sem dinheiro, sem trabalho, sem estudo e com um filho no braço – a filha ficara na casa dos sogros, por insistência deles.

Cresci, então, com a mãe sempre me lembrando que as pessoas são máquinas incompreensíveis, difíceis de entender e indignos de confiança até que provem o contrário. A despeito do nome que eu não tinha e de outros detalhes menos interessantes, ela me ensinou a ler, a falar inglês, a calcular, tudo antes de ir para a escola. Queria fazer de mim a pessoa importante que não se tornara, talvez. Mas a compreensão de importante, para minha mãe, se reproduzia em termos monetários. Desde cedo, eu lia os livros que depois ocupariam a lista de mais vendidos; aprendia sobre as leis da autoestima, sobre o poder do pensamento positivo, lia os manuais e as biografias dos milionários. Achava que Napoleon Hill era meu ídolo. Tios e avós me davam tapinha nas costas, sempre aclamando o futuro "doutor da família". Esse tipo de pensamento povoou meu imaginário durante uns dez anos. Olhava para os vizinhos de minha idade jogando bola, xingando-se e esbofeteando-se, e lamentava pela crescente pequenez de suas mentes.

Apesar de tudo, eu ainda tentava criar alguma amizade. Quando era convidado a jogar futebol, eu ia junto. Ainda que não suportasse a gritaria, as ordens. No final, quando perdíamos, era a mim que todos cercavam. Diziam que eu devia ir embora, que se arrependeram por terem me chamado. E eu ia embora, esperando que eles chamassem de volta e dissessem "escuta bicho, desculpa pela grosseria". No entanto, nunca chamavam. Às vezes, me jogavam pedra pra que eu saísse correndo.

Essas e outras coisas, vindas com o tempo, me tornou diferente. Chegou um momento que eu percebi que as coisas não eram assim tão simples quando supunha. Nessa época, eu já ia sozinho para a escola, transportava-me de ônibus, pegava dois deles, um para atravessar a ponte, outro para chegar aonde estudava. Viajava de um lado da cidade até o outro. E por essa época eu já sofria assaltos, já via a mendicância a dormir nas ruas, já tomava sopapo dos moleques da escola, já levava foras de garotas. Eu não estava preparado para tudo isso. E então tentava fugir. Decidi não ir mais para a escola. Aliás, mais do que isso, convenci-me de que vivia uma vida errada, aquilo que aprendia e pensava não tinha conexão com as coisas reais. Pegava um ônibus e, enquanto a escola ficava numa direção, eu me dirigia à outra. Ia para a praia, e ficava lá o dia todo. Ou para um bosque, ou simplesmente ia para o centro da cidade e me punha sentado numa parada de ônibus durante quatro ou cinco horas. Até que caísse a noite e chegasse a hora de eu ir pra casa.

Minha mãe descobriria meses depois. E seria um novo trauma pra ela, que, aliado a outras decepções que teria comigo, que já não era mais uma criança, buscaria seus próprios subterfúgios. Passaria a beber excessivamente. Eu seria colocado numa escola pública periférica. Ela decidira que não mais pagaria estudos pra mim. Nunca mais me perguntou como estavam minhas notas. Nunca mais perguntou por onde eu andava ou com quem estava saindo. Nunca mais me deu livros ou me ensinou nada. Seu passatempo favorito era sair e conhecer caras que no mês seguinte viriam morar conosco e três meses depois iriam embora depois de brigas e brigas, e tantos socos e palavrões trocados entre eles.

Eu passei a me confinar ainda mais no meu quarto. Decidi que o tempo que ficaria em casa seria o mínimo possível. Conhecia alguns amigos, entre malandros aqui e bem-intencionados ali. Fiz uma banda de garagem e nos apresentamos algumas vezes. Havia uns sempre de prontidão a nos presentear com benzina para que cheirássemos a madrugada toda. Existia também um bocado de garotas que ofereciam seu corpo como se não fosse nada – uma maneira boba de sair da rotina, talvez. Ainda havia o movimento estudantil, que, à parte das garotas e drogas fáceis que também proporcionava, me ajudou a observar o mundo com outros olhos, a perceber que estamos todos num permanente conflito, numa tensão inacabável, para além daqueles dilemas existenciais. Para desfrutar essas aventuras, eu tinha uns trocados; minha mãe não conversava mais comigo como antes, mas tentava comprar minha amizade dando computador, violão, mesada e coisas assim. E eu aproveitava para tentar fazer uso disso da maneira que eu achasse mais escrota.

Entretanto, garotas, drogas, malandragem, banda de rock, foi tudo passageiro. Como todas as coisas que já fizeram parte de minha vida, logo cansei delas. Tive menos garotas a cada ano, já não tocava mais rock, ainda que assistisse algumas apresentações e também não andava mais acompanhado de substâncias estranhas, apesar de ainda continuar a beber depois dessa fase.

Em casa, quando era madrugada, eu notava pela luz que vinha por baixo da porta que a sala estava iluminada pelo abajur. Era a minha pobre e solitária mãe, escrevendo em sua agenda e bebendo cerveja, ouvindo música bem baixinho. Ocasionalmente, eu saía do quarto, ela parava de escrever, eu ia beber uma água ou comer alguma coisa, e depois sentava e conversávamos um pouco. Nessas horas, ela era mais boa companhia que em qualquer outro momento, antes ou depois dessa fase. Depois, eu voltaria para o quarto e ela voltaria a escrever e a beber, um ritual quase diário. Ela talvez confidenciasse a si mesma que havia cometido muitos erros comigo, erros que não poderiam ser mudados, e teria de viver com isso para sempre.

E eu roubei esse hábito dela. Quando é noite, eu tento ver TV ou, como é mais frequente, fico conversando na internet. Às vezes, recebo um telefonema dela, que agora está noiva e pelo menos desta vez não é um cara problemático, tanto que estão juntos há sete ou oito anos. A conversa com ela é sempre breve. Na TV, a programação vazia de conteúdo logo nos convida a desligá-la. E as companhias virtuais, o último escape que resta, também não se demoram a ir embora. É um momento em que não sobra mais nada, senão pegar algo para beber e colocar uma música para soar, só que bem baixo, quase inaudivelmente. E pensar nos tantos erros que cometi – e cometeria de novo se preciso fosse –, mas principalmente nos erros que cometeram ela e todos os outros que já esperaram algo de mim.



quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Camas desfeitas

Ainda me recordo de quando, jubilado da faculdade e procurando trabalho, cogitei sair de casa a primeira vez.

- Não, não, não e não!

Era sempre uma negativa aos colegas que, recém-ingressados na Universidade, queriam alguém pra dividir quarto, apartamento, ou o que lá fosse. Mas eu não queria. Estava saindo de casa não por uma incompatibilidade de interesses somente com a minha mãe, e sim por uma impossibilidade de permanecer dividindo vida com alguém. Não conseguia, e não consigo, me sentir confortável sabendo que chegarei em casa e lá haverá outra alma atormentada que, de alguma maneira, roubará a minha paz, a minha solidão - sem oferecer verdadeiramente companhia.

Sendo assim, a única opção que me restava era procurar outros lugares, tipo hotéis ou pensões. O primeiro que experimentei foi um hotel barato, infiltrado numa movimentada rua da Cidade Alta, mas tão decadente que poucos já lhe deram atenção ao passar por ali. Não trazia consigo nenhum charme daqueles de filmes, nenhum letreiro de neon piscante. O nome do recinto - Hotel Nordeste - estava mal pintado na parede, bem como toda sua tabela de preços. Uma noite custava 10 ou 12 reais; um mês, 200 reais. Dormi lá só uma noite. Mas é horrível dormir em hotel barato; ao menos, se considerar que todos os hotéis baratos são como esse. Em primeiro lugar, o quarto já não me oferecia muito. Havia dois beliches, um deles sem qualquer cobertor, e uma parede descascada, rachada e rabiscada até o último centímetro. Mas isso não era o pior. O pior era não ter o banheiro no quarto. O assistente me houvera acompanhado até o segundo andar, onde eu ficaria hospedado, e me apontara o no fim do corredor. Esperei que ele descesse para poder ver como era o interior, e notei que aquele lugar poderia servir para tudo, e tudo mesmo, considerando que ali deve ser também ponto de atuação de boa parte das meretrizes da Cidade Alta, menos para a higiene ou qualquer coisa que o valha. O banheiro é muito importante. Às vezes, quando a própria residência nos representa um peso, o banheiro é o único lugar que pode servir de refúgio. Nesse hotel, entretanto, eu não teria esse refúgio.

Num hotel desses, fatalmente aparecerá um bêbado mexendo no trinco da porta pela madrugada. Foi o que de fato aconteceu; no final da madrugada, desperto e ouço uma voz rangente e uma insistente luta para abrir a fechadura. Sem sucesso, é lógico. Nem o bêbado nem eu, que decidi procurar outro lugar.

Quando, depois, fui procurar um kit-net nos fundos de uma casa, num bairro nobre, a coisa só pioraria. Ainda me lembro de entrar no quarto, um entre quatro, sem nada lá dentro senão um guarda-roupa, uma cama e um criado-mudo, enquanto eu só carregava umas roupas e livros na mochila e um violão; mas este eu nem sei porque carregava, fazia mais de um ano que não o tocava, hoje faz muito mais. Também não sei mais por onde ele anda, emprestei a alguém que precisava de um violão de papelão e cordas de nylon pra aprender uns abjetos acordes e nunca mais pedi de volta.

Como foi dito, o kit-net ficava nos fundos da casa de um casal de senhores, que eu pensei que facilmente dobraria, só que não foi bem assim. Eu era iniciante na coisa de garimpar noites em quartos estranhos, era mais fácil dormir na rua - e foi o que realmente me ocorreu nessa época, por uma ou duas vezes. Por outro lado, o coroa parecia já ser bem esperto a ponto de enrolar sua clientela. Nos dias em que lá estive, em todos ele vinha me encher o saco, dizendo o que poderia ou não fazer, reclamando de todas as coisas, não importava se eu fechasse a porta (ele mandava uns bilhetes por baixo dando orientações disso e daquilo). Eram um casal de pentelhos coroas, só então entendi por que ninguém dos outros quartos estava lá a maior parte do tempo. Maldito velho, senti vontade de matá-lo quando estava na terceira noite, mas desisti e fui apenas embora, deixando pra trás a solidão de uma cama desfeita, uma cueca suja e o aluguel de um mês pago adiantado... aquele dinheiro não faria falta se eu encontrasse o sossego em qualquer outro lugar, nem que fosse num banco de praça.

Talvez as piores experiências fossem com mulheres, a maior parte delas com uns anos a mais do que eu. Eu lembro que recorri a algumas nos momentos mais difíceis. Era sempre bem-recebido, não só como visita. Elas sempre queriam que ficasse mais. E mais. Devia haver algo que as afligia, porque eu notei que era comum que tais mulheres, depois de uma certa idade, sei lá, vinte e cinco, vinte e seis anos, não conseguissem mais suportar a idéia de serem sós, de viverem sós. A carência era absurdamente grande, e para elas era plenamente natural que eu lhes oferecesse amor em troca de um teto. Mas para mim não era, porque nunca supri carência de ninguém. Ainda mais de pessoas nesta situação... para elas, estar com alguém ia muito além da necessidade natural e animal que todos temos, era uma necessidade doentia, viciosa, sobre a qual elas não tinham nenhum controle.

Era difícil ir embora, porque a despedida nunca era algo cortês e sempre ficava a sensação de que ela cortaria a garganta assim que eu dobrasse a esquina - certamente nenhuma delas faria isso, mas só a sensação me cortava por dentro.

Mais de uma vez, aceitei convites de colegas para dormir na casa deles. Acho que dormir na casa de conhecidos me faria diminuir essa zanha misantrópica que carrego. E era bom, conversávamos muito. Mas como eu nunca via o meu hospedeiro ao dia - eu havia conseguido um trabalho, saía cedo e voltava no início da noite, nas quatro ou cinco vezes que dormi por aí de favor - nunca conversávamos muito. Quando o fazíamos, a conversa era sempre contida por necessidades outras.

- Vou dormir, boa noite - diziam, e se iam.

Eu nunca compreendi como dormir poderia ser um ato tão burocrático para as pessoas. Dava uma certa hora e diziam "vou dormir" para si e para quem mais fosse necessário, e se acomodavam, houvesse ou não compromissos na manhã do dia seguinte para justificar seu ato. Para mim, dormir era difícil. A menos que eu já estivesse tomado de sono a ponto de apagar assim que me deitasse, geralmente o que me ocorria eram perturbações sempre que eu me deitava. É por isso que fujo da cama, fujo porque ela me traz pesadelos enquanto ainda estou desperto. Não me deito nela de bobeira, esperando pegar no sono. Prefiro ler livros na poltrona e adormecer, ver TV no sofá e adormecer, ficar na internet e adormecer. Não consigo dizer nem pensar "vou dormir". Apenas adormeço, quando o corpo assim exige, sendo mais forte do que eu.

Essas e outras experiências se intercalaram com retornos turbulentos à casa de minha família por cerca de um ano. É demais, para qualquer um. Delas, ficaram alguns traumas meio difíceis de sanar, e uma necessidade potencializada de ficar distante das pessoas nas horas mais importantes - aquelas, perdidas no meio da madrugada. Assim, vou levando. Vez ou outra, ainda recebo telefonemas de velhas - e novas - garotas querendo conversar. Eu gosto, as conversas são revigorantes. Quem dera uma relação a dois se compusesse apenas de conversa. Também continuo a receber convites de amigos desejosos de dividir apartamentos. Permaneço recusando a todos.

Por outro lado, já não recebo visitas, senão de algumas baratas quando esqueço o ralo aberto, porque ninguém sabe onde moro. E ao menos isso já é garantia de que estarei livre de fantasmas estranhos quando me dirijo pra casa. Já basta o meu próprio.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Nesses próximos dias, devo postar um conto novo. De fato, estive relativamente distante da tal "blogosfera", ative-me mais a emails e recados ultimamente. Nem escrevia neste blog nem comentava nos blogs amigos, mas lia todos - sobretudo o Literatura Vil, é claro.

Antes de qualquer coisa, lembro que meu maior fator de ausência se deu em virtude de eu estar em campanha à presidência do DCE do CEFET-RN (agora Instituto Federal de Tecnologia). Contudo, perdemos por algumas dezenas entre centenas de votos, mas enfim... tropeços iguais são vicissitudes comuns a todos. Mas que o resultado final foi lamentável... foi sim.


***

A Dina, do blog Acorda pra Vida, ofereceu gentilmente um selo para este blog, cuja menção está colocada no link de selos, do menu lateral... infelizmente, eu a imagem do selo não apareceu lá, não sei porque, acho que desaprendi, sério mesmo... de qualquer maneira, ajeitarei depois.


***

Como disse, em alguns dias postarei um conto novo... Por ora, deixo um poema, pedindo desde já desculpas, afinal nunca tive lá muito jeito com versos, e confesso que nem gosto muito deles. Mas como experimentalismo nunca é mau, segue...


O Emoldurador

Enquanto estávamos sempre assim, sem que ninguém soubesse
Sob a aura colorida de uma luz que te obedece
Eu era tão fogo ao te ver, mesmo que pouco tempo tivesse
E agora já é tudo passado, mas a lembrança ainda floresce

... como num campo tão cultivado, num conto bem escrito
Num rio muito mergulhado e vivo
Num ambiente tão vivido, pelo mundo em que habito

É tudo tão bonito mas agora é tão duro, mesmo quando posso te ver
Pois pelos teus olhos escuros, hoje é como se visse um muro
Não deixar os pés distantes do chão já é um dever
Mas, tão vago e violável, desobedeço-o
e, no ponto mais alto,
te emolduro.

Assim eternizo teu brilho, tua cor, teus traços, teu valor
E finalizo meus anseios, pois de mais que isso não sou merecedor.
Fico somente a admirar-te, como diante de um altar suntuoso
E agora este meu coração conflituoso
para sempre abrigará uma dor.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Acompanhados e sozinhos

Ofereci mais de mil vezes o meu sorriso, notadamente cada vez que era questionado sobre como estava meu humor naquela roda de conversa. À mesa frívola de uma praça de alimentação, meia dúzia de amigos, todos bastante risonhos e afáveis, acompanhando-me numa embriaguez pequeno-burguesa de pizza e refrigerante. Em geral, todos conhecidos meus há pelo menos um lustro. Três casais. Falávamos alto, como todo mundo por ali. Eu ficava, entre uma alocução e outra, olhando para o céu, observando a boca da noite a eliminar um a um os elementos do dia corrido, já sentindo um pouco o cansaço de estar ali e sendo comiserativo comigo mesmo, pois parece que não é fácil se manter sozinho depois que se passa dos vinte e poucos anos. Um dueto entre os que compõem a mesa, afinal, já é casado; outro já se namora há anos e o terceiro tem uma relação menos estável que os restantes, ainda que haja uma insistente paciência entre ele e ela, de modo que os dois se mantêm juntos assim e assim parece que irão permanecer por algum tempo. De minha parte, apenas imagino como deve ser penosa e confusa a vida a dois, compartilhando cada momento. No meu caso, sujeito de amores impetuosos e faltos, nunca compartilhei nada com ninguém.

Um dos últimos momentos de intimidade que tive com uma garota se esmiuçou por completo quando ela acordou e percebeu pasmada que estava nua e seu banheiro todo vomitado - vômito dela, naturalmente. Havíamos bebido um pouco, mas isso lhe fizera mal. Eu lembro que permaneci desperto durante toda a madrugada, quase sem mexer um milímetro do meu corpo, e a observei pegando no sono, como também a notei acordando algum tempo depois, após um intervalo de três ou quatro horas. Era como se uma pessoa adormecesse a meu lado e outra pessoa acordasse. Em resumo, minha relação com garotas não se compõe de parcerias, mas de cumplicidades. Noventa por cento delas me afirmou, com doce voz, que pretendia esquecer o que tivemos e solicitava que eu fizesse o mesmo. Eu sou homem, e nunca afirmarei para uma garota que tentarei esquecê-la - contudo, tampouco a questionarei se essa for sua vontade.

Eram memórias tumultuadas como essa que me vinham à mente quando eu fitava meus amigos e suas fiéis companheiras a se beijarem romanticamente a cada espaço vazio no colóquio; espaços parcos, aliás, pois na pauta estão acaloradas e orgulhosas discussões, com histórias heróicas de conquistas pessoais, análises políticas, bisbilhotices, dinheiro. Por essência, assuntos igualmente discutidos em ambientes quaisquer, seja naquele em que nos situávamos, seja numa mesa de boteco de alguma megalópole ou até mesmo numa sala de bate-papo na internet. Delongas que não levariam a lugar algum, portanto. Todavia, nós, justificando nossa postura salvadora e presunçosa, demarcávamos nosso espaço. E eu não ficava para trás, embora, ao contrário de meus camaradas, eu não tivesse uma pequena para aplaudir meu discurso na confraria.

Quando é chegada a hora de partir, todos optam por ir à casa de um deles, para prolongar a noite e a madrugada num passatempo qualquer. Por mais que eu expressasse desinteresse, a minha presença pelo restante da noite, claro, foi requisitada, com muita piedade e compaixão. Sendo o primo pobre do grupo, sou permanentemente acolhido pelos bons samaritanos, sempre dispostos a oferecer dinheiro e abrigo nas horas complicadas, além de serem, cada qual na sua individualidade, agradáveis companhias. Como não tenho nada para lhes retribuir, não faria, logo, mais essa desfeita, e aceito acompanhá-los. Entretanto, a essa altura o convite já não se sustentava mais - alguém lembrara que estaria ocupado no dia seguinte. "Preciso resolver aquela bronca, senão blá-blá-blá". Repentinamente, parece que surge do nada uma competição para ver quem está mais atarefado: "é mesmo, também preciso fazer aquele blá-blá-blá", diz mais um. "E eu preciso fazer aquilo", diz uma terceira voz. Nem adiantou que um entre nós lembrasse que o dia seguinte seria sábado. Todos já haviam se convencidos de que deveriam estar ocupados no dia seguinte.

Então, feita a despedida, voltei para casa sozinho, quieto e pouco pensativo. Todos eles também se foram, preocupados e confusos em suas vidas de gente grande, cheias de preocupações conjugais, profissionais, universitárias e monetárias. Meros subterfúgios para a fadiga existencial que se acomete sobre nós, enquanto tentamos fingir que não sofremos disso.



Conto originalmente publicado na segunda
edição da revista Tá na Cara!, lançada em novembro,
e que permanecia inédito no blog.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Quando até os iogurtes fazem falta

Pegue um lápis e marque um ponto
no centro de uma folha
a solidão é tudo o que está em volta

Alice Sant'Anna


Deitada ao meu lado, ela ainda insistia em conversar.

- Você parece até que não gostou...

Dei uma risadinha e não respondi.

- Li uma vez - prosseguiu - um texto seu em que você dizia que gostava de mulheres que transavam bem e que tinham um bom papo.

Olhei pra ela e a corrigi: - não, eu dizia que gostava de mulheres que tinham apenas um bom papo.

- E saber transar bem não é importante pra você?

- Não.

- Por que não?

- Porque também não transo bem e nem gosto disso.

- Por quê? Você é fresco?

Ignorei o comentário e percebi que o melhor que eu fazia era cair no sono Virei para o outro lado e fechei os olhos enquanto ela foi tomar banho, no entanto ela logo voltaria sem que eu conseguisse adormecer, e como ela bebesse ainda bastantes tragos de vinho - bebia sozinha, pois eu detesto vinho -, suas delongas não pararam. Eu preferi beber um iogurte pra ver se me distraía... sem sucesso.

- Tenho um bom papo - insistiu -, por que não conversa comigo?

- Você não tem um bom papo, você apenas transa bem.

- Mas você disse que mulher que transa bem não faz o seu tipo.

- E não faz mesmo.

- Ha!Ha!

Ela riu, ainda que tenha detestado o comentário. Sentou na cama, entoando uma enrolação atrás da outra. Eu demorei mas enfim percebi que fora um erro ir pra casa dela, que fora um erro ter pego aquele ônibus no qual a reencontrei; que fora um erro ter bebido conhaque depois do expediente com um amigo, o que me levou a pegar aquele ônibus; que fora um erro ir trabalhar naquele dia, o que me levou a encontrar esse amigo; que fora um erro acordar, o que me levou a ir trabalhar. Tudo no dia foi um erro, notei que me sentia muito melhor horas antes, mesmo estando há oito meses sem deitar com uma garota, do que nesse momento pós-êxtase, sendo obrigado a ouvir tamanhas tagarelices sem possibilidade de pagar a conta e ir embora. Eu pus as duas mãos na cabeça, esperando um apagar repentino que não vinha, enquanto ainda ouvia sua voz rinitente a me roubar a paz e a serenidade.

- Você deve ter um amor recalcado por mim, só pode.

- Não... - disse-lhe - O meu amor recalcado passou hoje no vestibular da Universidade Federal, e nunca mais a verei.

- Por que não?

- Porque ela vai se enfurnar naquela universidade, e eu tenho asco daquele lugar.





Quando estava, uma hora e meia depois, pegando outro ônibus, um corujão, à madrugada, voltando à minha rota normal, indo para casa, ainda pensava nos erros. No erro de ter vendido a moto, o que me faz andar de ônibus. No erro de ter amores recalcados, o que me faz suscetível a boas ofertas como a dessa ex-vizinha que encontrei na condução e me ofereceu uma noite de prazer.

Falando em recalques, então, terminei por ficar travado por vários dias depois desse sem conseguir escrever - lamentavelmente. Meu editor aguardava os meus textos, meu blog aguardava outros textos, meu espírito também os aguardava, tudo ansiava por novas manifestações que não vinham, e até o iogurte agora me fazia falta. Estava tudo ao meu redor tão abafado, eu tentava de todas as formas me estimular, convencia-me de que Hemingway, Bukowski e Dostoievski também deviam se sentir igualmente abafados em seus quartos sem mulheres, comida ou esperança.

Olhava para as flores de plástico penduradas na janela, que minha irmã deixou quando veio aqui há três semanas, e as tirei, porque imaginei que elas é quem me estavam sufocando, de alguma maneira. De fato, tirá-las de lá me fez melhor, percebi que o ar voltou a fluir, que voltei a escrever, escrever bem. Quanto às flores, deixei-as no chão, num canto do quarto, bastante visível para mim quando estou escrevendo no computador, e cada vez que as vejo sinto um respingo de expectativa, por um email, uma carta, ou qualquer coisa que diga "estou aqui, gosto de você", porque às vezes parece que a necessidade disso é tamanha, e as conseqüências tão úmidas...

Decidi devolver as flores para minha irmã, porque ninguém quer ser julgado pelo que guarda no peito, e eu também fujo disso. Sem querer.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Nem todas as luzes brilham na noite de Natal

O clima do Natal é melancólico, dizem alguns. É inspirador, dizem outros poucos. Eu, em tese, estou no primeiro grupo, à medida que poderia estar em um terceiro. Todo clima pra mim é melancólico. Futebol pra mim é melancólico. Estudar, então, nem se fala. Abandonei dois ou três cursos por puro cansaço de não fazer nada. Dar aulas também é, mas parece divertido, é um trabalho que gosto mais de fazer do que todos os outros, porque faz parecer que há quem me escute. Freqüentemente me perguntam como é ser professor e, dependendo do caso, posso dar respostas positivas ou negativas. Os professores mais antigos dão somente respostas negativas, por motivos óbvios. Eu sou jovem, metido a aventureiro, carrego, dizem eles, as ilusões de um ensino transformador. Mas isso não é verdade. Sei que não mudarei nada dando aulas. Se comemoro quando um aluno se sobressai numa aula, na aula seguinte me decepciono porque esse mesmo aluno não resiste às bobagens que as demais tribos oferecem. Podia contar pelo menos uns cinqüenta dos 500 alunos que tive este ano que sabiam muito mais do que eu sabia na idade deles, e que sequer passaram de série.

Eles me lembram eu mesmo. Percebo, então, que o ensino médio não forma a pessoa - ele apenas revela a pessoa já formada. Dou aula em turmas do 1° ano. E foi no mesmo 1° ano que eu mesmo desandei, que eu me converti niilista, que meus últimos sonhos adolescentes se despedaçaram. Agora já não carrego nenhum deles. Certa vez, disse para uma garota, quando fazia o ensino médio, que "professor de Geografia é o último estágio da pessoa civilizada, a partir da qual só restaria mesmo o caminho do crime, da contravenção, das negligências... é o caminho de ladrões de bicicleta, estupradores de crianças e mendigos profissionais". E agora estou aqui, dando aulas de Geografia... é engraçado. Mas na prática, não mudou. Eu percebo que, sendo professor dessa disciplina, não sou levado a sério senão por poucos. Os caras acham-me um completo loser. As garotas acham retardado, mesmo. No mínimo, termino sendo lá meio folclórico, não só onde dou aula, mas em qualquer lugar de algum convívio social. Na faculdade, sou muito sério, mas há outras coisas que amenizam a minha imagem ríspida. Sou um tagarela, um ranzinza, para cada letra A que o professor fala, eu intervenho com uma letra B, sou impertinente, um completo pé no saco. Mas toda sala tem seu chato, e eu sou o chato da sala, ninguém me leva a sério por isso, ninguém ouve o que falo quando levanto o braço para intervir no que o professor diz. Sou baixinho, escondido lá no canto... não faço trabalhos com mais do que três almas pacientes, uma das quais está indo embora, vai desistir do curso porque não a apetece... e eu ficarei sem minha parceira. Acho que parceria é um negócio interessante e avançado. Parceria nem sempre chega a ser amizade ou algo assim, mas mesmo assim é algo do que precisamos. Eu não vou me vitimizar dizendo que não tenho amigos. Mas parceiro, de fato, não tive nos últimos tempos. Somente tive depois que entrei nesse curso e conheci essa garota, com quem discutia e batia boca, de quem discordava aqui e ali e a relação continuava muito boa. Uma pessoa que não tinha medo da sinceridade, não tinha medo de me criticar. Com ela, dava gosto discutir os trabalhos, os assuntos estudados e conversar na hora do intervalo e no fim da aula - embora ela talvez não sentisse o mesmo. De qualquer maneira, ela se vai e embora façamos alguns votos de que nos encontraremos no futuro, sei que nunca mais a verei, como daqui a cinco anos não verei mais ninguém que faça parte de meu círculo atual. E lamento porque, com isso, a disciplina que criei para tocar esse meu curso será agora deliberadamente reduzida, mas insuficiente, pelo menos, para me fazer desistir. Então levarei até o fim, é o que resta, mesmo sendo um curso de merda de Licenciatura em Geografia, que nunca me ensinou nada, onde os pedagogos tentam inculcar os pensamentos megalômanos de mudança por meio da Educação e onde os geógrafos se derramam em viagens teóricas mas se recusam a dizer em quem votam na eleição municipal, ou qual sua posição política a respeito de Hugo Chávez, Obama, a transposição do Rio São Francisco. Cansei de tanta gente medrosa junto. Mas é o que se colhe quando se faz Geografia; aliás, é o que se colhe quando faz qualquer coisa, sobretudo um curso superior.

Eu já teria abandonado o curso se fosse levar em conta o quanto sou ignorado na sala; ser ignorado, contudo, já é algo com que estou acostumado. Desde o ensino médio eu já era o "sério" (termo que usavam quando queriam ser simpáticos). Depois do ensino médio não conheci mais uma pessoa sequer com quem cultivasse algo que se assemelhasse a uma amizade. Todos aqueles que compartilharam coisas comigo depois dessa época não o fizeram de graça. Nem amigos, nem garotas, nem ninguém. O que não me torna um completo sociopata é o fato de eu ser da geração abençoada pela Internet, então virei um assíduo freqüentador de batepapos e quetais, lugares, para mim, relativamente mais apropriados para conhecer pessoas, um lugar no qual os preconceitos físicos são mais dissimulados, o que é perfeito. Eu nunca precisava dizer que era musculoso, alto e loiro, apesar disso. Apenas conversava, e desconstruía qualquer má imagem que fosse feita de mim sem precisar mentir. Conheci tanta gente na Internet, mas tanta gente, e perdi contato com quase todos. Mas nunca foi um intento meu fazer amizades ou conquistar namoradas. Eu sempre soube que a net é um espaço bastante paliativo e breve. Eu gostava da sensação de ter um amigo agora ou uma garota que dizia estar louca para me conhecer agora. Eu sabia que quando nos conhecêssemos, os amigos já não teriam mais tanto tempo para uma prosa e as garotas já não estariam mais tão oferecidas, senão no primeiro encontro, para os dois casos.

Isso ainda persiste um pouco até hoje, embora já não como antes. Os batepapos ruíram, hoje não existem mais bons chats virtuais. Só se usa o msn, e o msn não tem a menor graça porque batemos sempre com os conhecidos, batemos sempre com pessoas medrosas, pessoas para quem se discordamos de algo, a resposta adequada é um "cada um com sua opinião", pessoas que evitam uma discussão, mesmo aquelas mais bobas, como o diabo evita a cruz, se escondem em termos vazios como "ok" e "ah tá"... que horror! Que fracasso! Fico catando comunidades no orkut onde se fale sério, onde se discuta sério e onde se xingue sério, mas isso não existe. Fico procurando as outras pessoas ranzinzas, e parecem não existir mais. Todas apenas sorriem. Todas vêem esta minha foto e vêem apenas a pose, o cara relativamente charmoso, de óculos escuros e ar intimidador, quando não é isto que sou. A foto está aí por mera propaganda, da mesma forma que o nome do blog é uma antipropaganda, mas que até tem dado certo, talvez porque muita gente não saiba o que significa vil ou não acredite que aqui tenha, de fato, uma literatura vil. No final das contas, essa auto-ironia termina sendo a maior constante deste blog e da minha vida, porque a auto-ironia é a única coisa que faz com que nós, os chatos, suportemos a nós mesmos. Só não sei até quando.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Tão fugaz

Eu acordei na madrugada com os olhos ardentes, sentado diante do computador... estava escrevendo algo novo, trabalhando um conto, mas fui além dos limites esperados, o texto estava muito extenso, e é sempre assim quando eu escrevo depois de beber em excesso... eu estava com bastantes doses de aguardente no sangue, voltei para essa bebida porque é a mais barata, porém ela tem me deixado com uma dor-de-cabeça enorme logo depois, e foi com essa dor latejante que acordei e notei que sequer havia terminado o conto... não gosto de produzir nada bêbado, não gosto de escrever no piloto automático, então selecionei todo o texto e em um clique deletei tudo...

Levantei meio tonto, acendi as luzes e olhei para a hora... eram 4 da manhã. E o dia era o meu aniversário, um sábado. Eu havia preparado um bolo de ovos na noite anterior para comer quando o sol raiasse, comemorar no café-da-manhã para dormir o resto do dia. Entretanto, preferi não esperar o sol e fui catar uns pedaços. Ainda estava muito tonto e não conseguia partí-lo de forma coesa, ficando muitos farelos jogados pela mesa e pelo chão. Comi um pequeno pedaço e fiz uma careta, porque o bolo estava ruim, as bordas estavam queimadas. Tudo bem, amanhã peço à minha mãe para me trazer, quem sabe, um bolo de verdade, eu pensei. Na geladeira só tinha água e outras amenidades, como vinagre, tomates, presuntos e margarinas, coisas que não uso muito e só compro quando penso em trazer alguma garota pra casa. Como fazia tempo que isso não acontecia, então os produtos ali já não deviam mais estar dentro de seu prazo, e o mal cheiro começava a se apoderar da cozinha. Eu ia juntar tudo e pôr numa sacola e na lixeira, mas retardei o processo para a manhã seguinte. O cacho de bananas preso na parede também já estava apodrecido, chegando até a pingar no chão, como se os fungos nascentes das bananas começassem a pesar, sendo, assim, expelidos, tudo sob a forma de um líquido meio mucoso, que grudava no chão, e eu percebi que parecia um muco quando passei o dedão em cima para dispersar o líquido e tentar diluir um pouco o fedor - sem sucesso.

Sentei-me à janela até o dia amanhecer.

Quando já eram umas 8 horas, o sol forte me batendo na cara, e eu ainda impassível olhando pela janela a rua vazia, ouvi o telefone tocar. Era Mariana, uma amiga doutros tempos querendo saber se eu organizaria algo, se cantaria parabéns. - Não, não vai ter nada disso - eu lhe falei. Como ela quisesse sair, e se importava mais comigo hoje do que se importara nos anos anteriores em que nos conhecíamos, eu topei. Mas o programa terá que acabar cedo, porque eu já havia combinado outro, com outra garota, para mais tarde. Ela aceitou.

Fomos ver uma peça de teatro dos meus alunos, que estavam em temporada, se apresentando toda semana numa casa de cultura da Ribeira. Eu já havia assistido na noite de estréia, e havia achado muito bom. Porém, assistir pela segunda vez não foi tão bom assim. Vários erros, cortes de luzes, falta de sincronia na cenografia, o espetáculo foi um fracasso tão grande que achei que a razão era o fato de ser meu aniversário, eu, um pé-frio dos piores.

Quando comentei a peça depois com a minha amiga, ela disse que não havia notado nada disso. Fiquei pensando se esses erros não foram frutos da minha imaginação. Embora ela discordasse, eu insistia:

- Pois eu vi muitos erros.

- É que sua chatice é potencializada no seu aniversário, seu bobo - disse.

Talvez tivesse razão.

- Estou brincando, viu - disse-me rindo.

Eu sei que ela não estava brincando.

Apesar do meu ar abusado, ainda conversamos algum tempo. Fomos comer uns sanduíches em alguma lanchonete. Ela me contou que dali estava pensando em visitar o namorado e me perguntou o melhor caminho para ir à casa dele. Eu não disse. Proseamos bastante até que chegasse sua hora, e eu agradeci pela companhia. Antes de sair, ressaltoub que ninguém mais aceitaria um convite meu para sair no dia do aniversário, e eu concordei, porque ela dizia mesmo a verdade.

Depois que ela foi embora, fui para um barzinho no meu bairro ver se encontrava lá uma outra garota, essa um pouco mais velha que a Mariana, inclusive mais velha também do que eu. Ela dançava no boteco e eu, cliente velho, talvez ganhasse umas carícias a mais sem precisar pagar, por ser aniversariante.

Como ela não apareceu e um trio de alcóolatras me viu ali sozinho, fui convidado a me sentar com eles. Eu preferia ficar na minha, contudo tanto insistiram que fui lá e troquei uma conversa rápida com o grupo. Eles já sabiam que eu esperava a rapariga do bar. Estava mesmo na cara.

- Pois é garoto, deu azar hoje! - Disse, gritando, o mais velho deles, o que tinha mais mal-hálito.

- Dizem que ela é uma grande chupadora, é verdade?, perguntou-me um outro.

- Ela é uma tagarela, eu falei. Isso faz com que pratique mais a língua que a maioria das mulheres.

Depois de umas risadas, um dos três velhos ainda sentenciou: - é, só que as mulheres que falam muito geralmente pensam pouco.

- Isso também vale para os homens, respondi.

Não fiquei muito tempo no bar. Tomei apenas umas pequenas doses de cachaça e fui embora, comprei uma pequena garrafa da mesma cachaça para continuar a beber sozinho em casa. Quando estava me acomodando, percebi, na cozinha, que haviam duas pizzas lá, e um bilhete. A minha mãe havia passado enquanto eu estava ausente, e como ela tem a chave - não sei como, eu nunca dei -, deixara essa pequena surpresa. Deixei para comer no dia seguinte, peguei um copo e me sentei à mesa, com os dois braços sobre ela, à luz baixa do abajur. Sorvia o álcool em doses homeopáticas e silenciosas. Lamentava cada gota que tragava, ao ver a bebida sumindo e sumindo e sumindo. Quanto mais eu a possuía, mais eu a perdia, como foi também com todas as garotas que tive. Depois de um momento impassível, passei a beber num ritmo cavalar, desfocando minha atenção de todas as outras coisas do mundo, ignorando meus sentidos que começavam a perder forças, mas sentindo um prazer inebriante e incomparável. Até que só me restassem, no fim, o copo vazio e a solidão.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Outsider post

Bem, enquanto não vem um novo conto no Literatura Vil (estou trabalhando nos textos inéditos para a revista que produzo, fase em que fico mais negligente no blog), postarei uma brincadeira que me foi enviada pela Ingrid Caroline, uma doce companhia virtual, além de dona do blog Enjoy of Silence (aprecie o silêncio), apontado logo ali no menu lateral.

A brincadeira consiste em responder um pequeno questionário... friso que, como não costumo distribuir selos, desafios ou afins aqui no blog, darei fim a esta corrente, ignorando a última regra, que pedia para distribuir para outros dois blogueiros.

Ademais, eis os temas:

I. colocar uma foto individual nossa;

II. escolher uma banda/artista;

III. responder às questões somente com títulos de canções da banda/artista escolhido;


I - A foto
É verdade que nunca postei uma foto minha aqui, à exceção daquela que fica exposta no perfil... contudo, não tenho mesmo muitas fotos... mas já que a idéia é fazer um momento de descontração e quebrar o clima rabugento do blog, vai uma foto fofa e sorridente:


II - escolher uma banda/artista
Não tem segredo... a minha banda favorita são os Engenheiros do Hawaii (ênfase para a formação clássica, 1987-94)...

III - as respostas (com nomes de músicas, lembrando)

3.1- Es Homem ou Mulher? Humano Demais

3.2- Se Descreva: Nau à Deriva

3.3- O que as pessoas acham de vc? Nuvem Passageira

3.4- Onde queria estar agora? Longe Demais das Capitais

3.5- Uma frase: Somos quem Podemos Ser

3.6- Como é a sua vida? Cinza

3.7- Namorando, Casado ou Solteiro? Ando só

3.8- O que pedirias se tivesse só um desejo? Luz.




terça-feira, 25 de novembro de 2008

Fim do expediente

Hoje eu vi um velho feio, cabeludo e desdentado, e me lembrei de um outro velho, igualmente cabeludo e desdentado, mas bastante mais feio, o Seu Dinei, um funcionário público aposentado que conheci há uns anos. Eu trabalhava, na ocasião, em um balcão de empréstimo pessoal. Na verdade, isso foi no meu primeiro dia de trabalho. Durante algum tempo, meu lugar era na rua, distribuindo panfletos de uma firma que trabalhava nesse esquema, até ganhar a oportunidade de trabalhar lá dentro, fazendo os negócios, um relativo avanço, trabalharia sentado, no ar condicionado. O Seu Dinei, o meu primeiro cliente, por assim dizer, estava perdido na vida, atolado de dívidas e pensões. Até que ele entrou no salão onde eu trabalhava e se dirigiu à minha pequena cabina.

Eu me lembro de quando cheguei no primeiro dia e sentei na cadeira que seria minha a partir dali, no computador que seria meu, no balcão onde eu passaria a maior parte das horas do meu dia. Umas sete, oito, nove, ou mais, dependendo das horas extras. Ainda estava em fase de testes. Passaria umas duas semanas nessa. Poderiam me tirar a qualquer momento se lhes desagradasse. Mas, estava decidido a tentar. Enquanto não começava o serviço, ficava na internet, onde o histórico das navegações e as pastas salvas ainda denunciava parte da personalidade da garota que ocupava o lugar até o dia anterior, a Fabiana. Sites de perfumes, loções e fofocas, episódios de novelas gravados, música de araque. Até o banco ainda me parecia quente. Não pensei mais nela depois disso. A dita cuja havia sido demitida acusando o patrão - um galante de 1,90m chamado Vasconcelos, um nome de velho, mas ele era bem jovem, devia ter menos de trinta, talvez uns três anos a mais que eu - de assédio sexual e sendo ridicularizada pelas que outrora se auto-afirmavam as melhores amigas da "Bibi".

Aproveitei e dei uma personalizada na mesa, tinha um porta-retrato vazio e eu coloquei nele uma foto, uma 3x4, era a única que tinha... e fiquei lá navegando por sites de literatura e notícias. Ainda não estava acostumado à idéia de trabalhar com essas negociações, mas era uma oportunidade qualquer e eu tava lá tentando tascá-la. Enquanto lia bobagens no computador, ouvi uma voz fanha vindo de cima pra baixo, a me dizer bom dia.

Quero dinheiro, prosseguiu, e quero agora. Era o Seu Dinei, a quem depois conheceria melhor. Parecia nervoso, mas mantinha o estilo coronel, me fazia lembrar um velho tio, que vivia no sítio. Aguarde um pouco, basta passarmos por alguns procedimentos, eu falei. Eu estava empolgado em conseguir fácil fácil a minha primeira comissão. Mas depois de consultar a vida financeira do velho, percebi que não havia margem para muita coisa. Mas é por estar fudido que eu venho pedir dinheiro emprestado!, ele falava, meio cochichado, mas quase elevando a voz. A minha única alternativa foi oferecer-lhe um plano onde ele receberia menos dinheiro, mas concordaria em pagar mais parcelas e juros mais elevados. Era um plano muito desvantajoso - como todos os outros - para o pobre coitado, mas absurdamente mais proveitoso para mim, que não lhe ofereci na primeira oportunidade por não sentir ainda a devida confiança em manobrar a baixa auto-estima alheia. Mas ele não concordou e foi embora, levando apenas um panfleto da firma e meu cartão com a oferta anotada.

Instantes depois, viriam outras pessoas, entre professores, assistentes administrativos, militares, ex-professores, ex-assistentes administrativos e ex-militares, alguns fazendo planos, alguns não. Percebi que o negócio se encaixava para mim perfeitamente. Faria sucesso trabalhando com empréstimos. Depois do almoço, quando voltei para a minha cadeira de um azul fubento, o velho reapareceu. Pensei muito, ele gritou ainda da porta do salão e continuava a falar enquanto se aproximava do balcão. Acho que vou aceitar a oferta sim, dizia. Vai se dar muito bem, senhor!, menti, na maior sem-cerimônia. Ele era rápido na assinatura de papéis, e à medida em que assinava os vários formulários, eu sentia em paralelo o mesmo que senti com os outros, um êxtase profundo, uma sensação de conquista! Depois que ele se foi, eu não quis atender mais ninguém. Até veio uma loura deficiente física, tinha uma escoliose acentuada, andava curvada em quase 30 graus, algum absurdo assim. Mas eu já tinha me decidido não atender mais uma pessoa sequer. Danielle, pega essa aqui, pedi, apontando para a cliente. Já estava dado por satisfeito fazendo hora lá quando o Seu Dinei apareceu mais uma vez na porta, e disse, se dirigindo até mim, você é um bom garoto, venha beber algo em minha casa quando terminar o expediente, moro aqui perto, e falou o endereço.

Eu, claro, aceitei o convite e fui visitá-lo. No endereço especificado, não tinha quase nada. Só tinha resto. Resto de um casebre. Nem se compara aos casarões daquela rua, a Rua Princesa Isabel, uma rua muito antiga do Centro. Foi o que me restou, a mulher me fudeu, lembra que eu falei que estava fudido?, apressou-se em dizer, me convidando para entrar. Lá, me ofereceu um conhaque, nunca fui lá muito chegado a conhaque, no entanto esse era até bom - aliás, muito bom -, um tal V. Brandy, mas depois que eu conheci o Macieira através de um amigo, não alterei mais a preferência. Enquanto o Brandy descia oleoso pela garganta, o pobre Dinei falava de sua coleção de fracassos. Estávamos sentados na sala, eu no sofá, meio perplexo com alguma coisa, segurando a caneca um pouco inclinada e olhando fixamente para a bebida, como se tivesse algum receio surreal de que ela desapareceria dali, e ele na sua poltrona rasgada largado. O ambiente era hostil, as paredes estavam todas rachadas e o lodo verde vinha subindo pelo lado que recebia água da chuva. Faltava até reboco em algumas partes, a infiltração era absurda. Seu Dinei era professor universitário, mas foi escanteado e expulso da Universidade por cometer algumas contravenções, e estava aposentado por lecionar nas modestas escolas públicas do município. A ex-mulher e o filho lhe comem, com a pensão e outros pormenores, 80% de sua renda. Seu Dinei nunca poderia pagar a dívida do empréstimo. Provavelmente, já nem lembrava onde estava algumas poucas centenas de reais que lhe ofereci astutamente. Cheguei a lhe oferecer o cancelamento do contrato; ele não deu atenção. Continuou em seu delírio particular. De seu passado, só restava um cachorro pulguento lambendo-lhe os pés. Seu Dinei dizia ser feliz. Quando chegar o fim, darei os olhos, os cabelos e o sangue para quem precisar, falava.

Eu não acreditava nessa dita felicidade. E não fui trabalhar no dia seguinte, nem nos demais.