Tá tudo tão escuro lá fora e aqui dentro que eu consigo até enxergar coisas que não são reais me arrodeando, todas elas me assustando demais; faltou energia no bairro, o céu noturno está coberto por uma névoa temerosa e no meu íntimo as coisas não parecem muito mais claras, porque eu me sinto até mais livre, mas a tal liberdade não parece sinônimo de satisfação, porque agora vejo que todas as coisas que eu conquistei nos últimos anos (conquistei não é bem a palavra), como alguns trabalhos legais, a possibilidade de poder escrever e ser lido, alguma estabilidade financeira mesmo que não tão estável assim entre outras não parecem significar nada nesse momento em que eu penso mil coisas, porém não consigo chegar à conclusão de sequer uma delas, e acho que não haveria nada, nem pessoas, nem bebidas, nem livros nem outros entretenimentos quaisquer que pudessem me suprir isso, inclusive nem sei por que estou escrevendo pois nem isso gostaria de estar fazendo agora, eu gostaria apenas de dormir – mas desta vez sem sonhar – por tantas horas que se eu me esquecesse de acordar isso seria um mero detalhe para mim ou para os demais, no entanto como eu sei que não vai acontecer fico aqui temendo a chegada do sol junto das coisas chatas correlatas, as pessoas me ligando e perguntando se continuarei dando aula em certa escola no ano que vem, supervisores me pedindo documentos, ou textos, ou qualquer merda por uma ordinária burocracia, entre outras pessoas que não ajudam a melhorar o meu dia, gente que não tem nem culpa disso, porque quando começamos a conversar percebo que precisam apenas de uma ajuda, de algumas palavras de consolo e afeto, mas não sou eu que oferecerei essas palavras porque eu também as queria pra mim; então não me resta mais nada porque eu não tenho saído e não tenho sentido falta, já não bebo mas não sinto a diferença de quando bebia, e também tenho escrito tão pouco sobre mim, aliás, eu me decidi por isso mesmo, que iria escrever menos essas coisas, a carga era muito pesada, além de não significar necessariamente uma forma de autoconhecimento, então desisti, talvez só volte a escrever essas coisas daqui a uns 50 dias, ou talvez nunca mais, porém eu ainda mantenho esse vício da escrita em si, que alguns dizem ser saudável, de modo que passei a escrever outras coisas, eu queria voltar a escrever textos políticos mas fui repreendido por isso pelos camaradas de partido porque devo ser um péssimo analista, então o jeito de suprir minha vontade era voltando pra literatura, e aí andei escrevendo textos de terror, como histórias de vampiros ou coisas assim, também escrevi ficção científica, distopias, pesquisas jornalísticas, histórias infantis, e eu observava a maioria dos escritores, eles começavam a escrever para si mesmo para depois escrever para as outras pessoas, e comigo acontece o inverso, eu escrevia para ser lido e cada vez mais ando escrevendo para mim mesmo, sem publicar e sem comentar com ninguém, porque ninguém quer saber, só que não faço isso porque gosto (é por pura falta de opção) mas às vezes até me divirto e me satisfaço quando leio as coisas que fiz, pena que é uma satisfação tão tênue quanto qualquer outra, uma alegria breve que não se sustenta em si mesma...
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Oi?
Ela me ignorou solenemente, pegou a caipirinha que lhe fora servida e saiu sem expressar o menor interesse, e nunca mais voltei a vê-la.
domingo, 6 de dezembro de 2009
O céu e o sertão
Logo a noite cairia - nenhum carro houvera passado ou passaria por ali nos momentos em que lá estive, embora eu não estivesse esperando -, tornando-se o local muito escuro e estranho, com sons de animais típicos ouvidos por trás das colinas baixas e das matas áridas, elementos que me deixariam apreensivo por me sentir em um ambiente adverso, mas para o qual tentei me tranquilizar e para isso só me restava fazer algo para passar o tempo, como ficar revezando a leitura de livros, iluminado pela lanterna da moto, lendo-os em voz alta, interpretando seus personagens, ou deixar os livros de lado e ficar falando besteira, comigo mesmo, ou então levantar para ficar caminhando em círculos, porque estava ficando frio, além do que meu corpo estava muito incômodo por motivos que desconheço - estava coçando demais as pernas e os braços -, então decidi desligar o farol e ao apagá-lo percebi que o breu repentino gradativamente se iluminaria com a quantidade de estrelas no céu que pareciam surgir do nada pois quanto mais eu olhava mais eu via surgir novas estrelas, e isso de algum modo me deixou mais calmo porque eu teria agora um ótimo passatempo (o meu passatempo predileto na infância que estava esquecido) que seria ficar apontando, contando e desenhando as constelações, deitando rapidamente e identificando de imediato a de Escorpião - era agosto -, sempre a minha primeira referência, e embora eu houvesse esquecido a maioria delas ainda conseguiria reconhecer umas vinte na medida em que o tempo passava e novas estrelas se me apresentavam, e eu, meio embriagado pela brisa noturna (que não era nada gostosa de sentir porque era uma brisa muito seca causando uma sede que eu não teria como suprir, porque eu havia bebido rápido demais o pote de água que carregava), ficava lá discutindo comigo mesmo, chegando a gritar às vezes, como se estivesse dentro de meu próprio quarto, e a última constelação que vi surgir antes de adormecer foi a da Lebre, o que denota que passei pelo menos umas cinco horas naquele exercício estranho...
Ao acordar, sentindo a alta temperatura do solo rompendo a camada relativamente fina de tecido do lençol, meus olhos ficaram por vários segundos ofuscados pelo ardente sol matinal, que se erguia solitário na imensidão do céu azul sem estar acompanhado de uma nuvem sequer, e pela extensa camada de terra que minha vista alcançava só se percebia o visual semidesértico, esbranquiçado e claro como é usual à vegetação seca e ao solo sertanejos, de modo que nem quis perder tempo e levantei rapidamente guardando as trouxas na mochila para sair em seguida em busca da ajuda que só encontraria depois de caminhar cerca de trinta quilômetros cercado por aquele ambiente de feitio monótono e carregado de uma vida estranha - sem encontrar uma casa sequer no decorrer da pernada -, havendo ainda o agravante de que o único borracheiro que encontrei só trabalhava com carros, mas topou um remendo de quebragalho no meu pneu que seria suficiente para eu chegar em outra cidade e resolver o problema em definitivo; quando fomos ao local onde estava a moto, havia um guaxinim muito peludo dormindo sobre o banco, e curiosamente o animalzinho nem se assustaria com a nossa chegada, somente saindo de cima da moto quando o mecânico começou a mexer nela, foi quando notei que o guaxinim estava machucado pois ele conseguia andar normalmente mas dava para perceber que estava manquejando em uma das patas e mirei a vista em sua direção de uma forma que, estático, eu o observei indo embora por centenas de metros, como se eu quisesse saber para onde ele iria, vendo-o tornar-se apenas uma pontinha se mexendo na linha do horizonte, sendo esta a minha última lembrança daquele dia, e eu até voltaria para o Sertão depois dessa experiência, como também viveria outros impropérios com a moto; só que esses impropérios já não me incomodavam mais, porque me davam a oportunidade de viver essas emoções tão humanas e viciosas, pensando em alguma coisa - contando constelações, caminhando em círculos, esquecendo até o fato de estar em completo isolamento - só para sentir algo ali, e deixar de sentir o que aqui sinto demais.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Subproduto do esquecimento
Sendo tímido como sempre fui, não foram de se estranhar meus gestos contidos, ainda que estivesse sendo compelido a me sentir completamente à vontade. Estava com coisa de dezoito anos, e vivia ainda tempos bastante movimentados, conforme era comum naquela fase de minha vida (talvez por uma tentativa inconsciente de apagar de minha memória a infância, a pré-adolescência, períodos lembrados sempre como coisas uniformes e mortas em mim.) Na época - como também continuaria acontecendo depois -, eu sempre me esquecia de todas as garotas com quem ficava, todas com quem houvera transado ou a quem tivesse ao menos beijado, quando estava me relacionando com uma outra. Esquecia de forma tão latente das garotas passadas que todas que apareciam na minha vida eram como se fossem a primeira. Neste caso, acrescenta-se a isso o fato de eu estar na casa não de uma garota de minha idade, mas de uma mulher, que tinha sua vida feita, que já fora até casada, que já tinha 35 anos.
Você que é um cara de sorte, confidenciou-me um amigo horas antes, ao saber com quem eu me encontraria. Ainda prevalecia um fetiche, como em todo jovem, pelo desejo de estar com uma mulher mais madura e experiente.
Eu a conheci na Internet, fui suficientemente dissimulado - não de propósito - para que ela visse em mim não um moleque vazio, e sim um rapaz com jeito mais prudente, experimentado. Agora estava em sua casa, olhando para um pequeno birô, bastante rústico, que enfeitava sua sala. Nele, havia muitos porta-retratos. Em alguns deles, fotos dela quando casada - Cristina, seu nome -, junto com o marido e o filho de dois ou três anos.
Esse fim-de-semana ele foi para casa do pai, disse ela ao me ver observando a foto do rebento.
Ela me ofereceu um vinho e eu nem gosto muito dessa bebida mas aceitei, ainda a observar mais a casa do que a lhe dar atenção. Por todos os lugares, eu ainda percebia coisas que não pertenciam a ela. Quadros na garagem, discos na sala, roupas no quarto. Pertences do ex-marido que só lembrava de pegar quando, de repente, sentia falta. Ela continuava a falar.
Há três dias ele veio pegar uma coleção de atlas que compramos certa vez em viagem. Muito bonitos.
Lembrei-me de uma poesia de Bukowski, em que ele se questiona se alguma vez precisará ir visitar alguma mulher de seu passado em busca de uma bermuda. As mulheres de seu passado, ele dizia, pareciam-lhe inexistentes. E para mim também.
Acaso para onde foram todas elas, para onde foram as Claras, Priscilas, Cinthias, Adrianas, Ianas, Gabrielas, e outras, tantas outras, que não são infinitas, mas, certamente, incontáveis, visto que aos poucos elas têm se deletado de minha mente?! Decerto, poucas ainda se lembrariam de mim se eu lhes telefonasse. São nomes e corpos, lábios rosados por natureza ou pintados, peles macias e finas como algodão e silhuetas de diferentes formas que ainda povoam minha cabeça de quando em quando. Com elas, compartilhei ilusões que pareciam belas e sadias, dessas que aquecem e viciam a alma de quem vive castigado pelo sofrimento. Se pudéssemos parar o tempo, esses instantes que eu teria passado com elas teriam valido por tudo no mundo (só que não se pode pará-lo, e, portanto, o que valem, senão nada?), porque os momentos que compartilhamos foram em geral bons momentos, porém nunca os momentos mais necessários. O prazer que se acometia de mim quando estava em suas companhias não se sobrepunha à solidão que eu sentia quando me despedia de cada uma na porta de suas casas, e saia a vagar sozinho pela madrugada.
Contei para a Cristina que estava um pouco apreensivo, e, certamente, poderíamos nos encontrar numa segunda ocasião. Ela me deixou cochilar um pouco em sua casa. Devo ter sido tolo em não poder aproveitar tamanho filão, considerando que ela era mesmo muito atraente e, como muitas mulheres solteiras em sua idade, muito carente e fogosa. Seu jeito maternal, contudo, não me deixava à vontade. Esses tantos pensamentos que me vieram à mente só serviam para me deixar ainda mais oscilante. Depois do breve cochilo que eu dei, disse-lhe que preferia ir embora. Falei que havia bebido demais, estava desanimado. Ela entendeu. Ainda me ofereceu carona, disse que estava tarde, mas eu lhe deixei claro que não precisava. De fato, eu não queria mesmo. E jamais voltaria a vê-la.
Depois de sair de sua casa, mais uma vez segui sozinho e taciturno, numa caminhada extensa e duradoura. Sabia que estava acompanhado somente pela solidão. Pensei na hora que o melhor de mim eu devo ter perdido nessas incompletas aventuras a dois. Agora, somente o meu resto é que passeia calado pela noite escura.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Fissuras reprimidas
Mas eu sabia como ela se chamava, era Andressa, alguém me falou numa certa ocasião, e eu remeti imediatamente a uma outra garota de nome parecido - esta se chamava Andreza, com z - que morava perto da escola onde eu estudava na época do ensino fundamental (eu tinha, sei lá, uns 15 anos, e a Andreza também), e como toda garota daquela área, ela estava sempre em oferta para quem chegasse, o preço não podia ser mais primitivo: era sempre o cara mais forte que chamava a atenção das meninas por ali, e eu nunca fui forte nem nada - apanhei muitas vezes na vida, aliás, apanhei em todas as vezes que briguei -, no entanto teve uma fase em que fiquei amigo do Eric e ele serviu de atalho pois era um cara forte, e não somente forte, era um gaúcho muito bem-apessoado, além de carregar aquele sotaque característico que eu acho chato mas as meninas achavam charmoso e tudo isso formava elementos que despertariam inveja em todos os outros caboclos da turma, eu inclusive. Isso era no ano 2000, e eu conheci o Eric um mês depois de iniciada as aulas, na semana em que se comemoravam os 500 anos do país e havia todas aquelas festividades, o que pra mim era uma chatice enorme, e eu na minha origem punk decidi como uma forma de rebeldia fajuta dessas que a gente nutre na adolescência rabiscar na minha camisa da farda a frase PAU NO CU DO QUINTO CENTENÁRIO, e enquanto andava com essa camiseta no pátio da escola, o Eric me parou certa vez e disse:
Pô, massa demais... até que enfim alguém que pensa como eu por aqui.
Pega, pinta a tua camisa também, falei, entregando-lhe logo uma caneta vermelha, dessas de escrever em lousa.
Dali em diante, eu, com a amizade do Eric, teria algumas portas abertas no meio mais obscuro da escola, porque Eric era um garoto de classe média alta que tinha ido parar ali como forma de castigo, mas seus pais não esperavam que o castigo do garoto se tornasse um carma para eles, porque Eric naquela escola virou rei, rei das garotas, a quem conquistava facilmente e rei da negrada, sendo ele o traficante-mor daquele gueto, carregando sempre dinheiro para fazer circular tudo de bom e de ruim sob vista grossa da Ritinha, a diretora da instituição. Eu e Eric formamos junto com outro cara chamado Maurício uma banda punk chamada Cavalo Amarelo, que depois passou a se chamar Aura Oculta e aí ficamos realmente próximos e com ele comecei a viver mais coisas, comecei a pôr em prática os delírios que eu absorvia da literatura que me convinha (com Jack Kerouac e Neal Cassady falando da magia de viver as ruas e o mundo, fugir dos escritórios e dos ambientes claustrofóbicos, de frequentar meios marginais), e nessa tendência convivi por uns anos com o meio barra-pesada que o gaúcho frequentava, e nesse período foi que conheci, pelas infinitas rodas de bebedeira, a Andreza, que também tinha uma bela bunda como a garota de nome parecido, além de tantas outras conheci nessa fase - só que ao mesmo tempo não conheci nenhuma, pois todas essas meninas que comi e de quem esqueci logo depois foram apenas símbolo de um tempo de deslumbre, quando eu, adolescentemente, queria viver todas as coisas e não vivia nada.
Quando o Eric foi embora - ele sofrera um acidente de carro que o faria perder a voz e os pais mandaram-no para morar com outros familiares no Rio Grande do Sul -, nossas vidas já estavam se desestruturando, de modo que se continuássemos naquela a coisa ficaria preta para nosso lado. A Aura Oculta já era artifício do passado, o Maurício já tinha se tornado pai de família aos 16 anos, e eu terminei ficando sem o meu suporte principal, de maneira que percebi já ser a hora de deixar de frequentar os círculos tenebrosos com os quais eu ainda estava envolvido. Levou pelo menos dois anos para que eu abandonasse completamente essas influências, precisando manter-me recluso, mudando de escola, diminuindo gradativamente meu relacionamento com outras pessoas - tanto as desse meio como as pessoas "comuns" - e precisando segurar a vontade que eu tinha de abandonar o isolamento para retomar os contatos com intuito de comprar algumas trouxinhas de cocaína, mas resisti talvez porque não fosse viciado, e sim apenas fascinado pelas maravilhas narcóticas. A Andreza, porém, que me deu a maior força e foi a única pessoa com quem mantive contato, ficou para trás, no entanto eu soube há não muito tempo que ela havia se mudado. Espero que para bem longe, ainda que hoje ela já não deva mesmo ostentar aquele corpo bonito que mantinha nem talvez o carisma que me fez lembrar dela antes das muitas outras.
No entanto, algumas coisas permanecem, a minha fissura pela cocaína por exemplo era a mesma que mantinha por sexo, e tanto um como outro quando cruzam hoje o meu caminho me fazem remeter àquele período estranho, e por isso eu sempre tentei me convencer de que a cocaína é uma merda, o chá de cogumelo é uma merda, sexo é uma merda, punk é uma merda, só que eu não pensava essas coisas por apreensão, nem vergonha, nem repúdio das memórias que trago, pelo contrário, sem elas não seria o que sou; é apenas porque realmente não gosto mais dessas coisas, elas me chateiam - mas de Kerouac ainda gosto, enfim aprendi a lê-lo. Em paralelo, aos poucos vou tentando me livrar do estigma que sempre carreguei, mas que se intensificou durante e depois daquele período, de valorizar tão pouco as outras pessoas, de maneira que hoje, anos depois, tenho me relacionado melhor com as drogas do que com o sexo (por isto ser uma coisa que necessita de presença alheia, o que para mim é algo potencialmente incômodo) e findo lamentando, quando olho para trás, pela pessoa que eu parecia ser, afeita a certos prazeres tão desmedidos que agora pareço estar sequelado, vendo a garota à minha frente balançar suas belas nádegas redondas em meu convite - e aposto que além desses atributos, ela ainda é uma garota de muito mais cérebro do que todas aquelas que experimentei na adolescência - mas eu prefiro deixar pra lá, para não ter que pensar em tudo de novo.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
50 caixas de sutiãs anatômicos
Mas no sábado a gente vai!, dizia enquanto se afastava.
O sábado chegou, porém, e o Pequeno não reapareceu. Somente na terça-feira eu recebi a informação de que o corpo de alguém encontrado embaixo do viaduto da BR-101, dias antes, poderia ser dele, e estavam solicitando pessoas que o conhecessem. Fui no Instituto Técnico de Polícia e me alertaram desde já que o corpo estava em grande parte irreconhecível não somente pela decomposição, mas porque o rapaz em questão havia sido espancado brutalmente.
Entendo, falei, meio sem saber no que pensar. Parecia estar no piloto automático.
Quando o legista puxou o lençol mostrando-me o corpo, eu até me espantei com o estrago que fizeram com o rosto. Mas eu o reconheci pela sua dentição irregular. Reparo rápido nas dentições das pessoas, talvez porque a minha também é bastante irregular; deve ser uma forma inconsciente de autodefesa, ou de autoafirmação.
É ele mesmo, Pequeno, chama-se José Vieira, não sei o nome todo, falei.
Tudo bem, nós já temos aqui, disse o legista.
Junto com alguns vizinhos - que sempre requisitavam os serviço de Pequeno nas suas reformas -, bancamos um funeral modesto para ele. Pequeno morava com a mãe, uma velha que ainda precisa lavar roupa pra poder se sustentar. Grande parte das minhas economias, inclusive um dinheiro que iria utilizar para viajar para um congresso, repassei para a pobre dona.
Pequeno enchera a cara no Bar do Léo e, segundo a polícia, ao sair, bêbado, foi seguido por dois elementos que esperaram o momento certo - a ocasião em que ele passava sob o Viaduto da BR-101, uma área bastante deserta - e derrubaram-no da bicicleta, encheram de porrada e levaram para casa algo em torno de, sei lá, 30 reais.
O tempo que participei do movimento estudantil na época em que fazia ensino médio tinha sido determinante para que eu pudesse fazer algumas amizades. Se dependesse de minha iniciativa em conhecer pessoas pura e simplesmente por conhecer pessoas, provavelmente eu estaria vivendo num deserto hoje. O hábito de estar sempre em interação me permitiu conhecer pessoas de anos diferentes, turmas diferentes, ser convidado para momentos de confraternização e outras coisas afins que sempre fiz com prazer. Mesmo não mantendo contato com praticamente ninguém, há um respeito latente quando nos vemos, e sempre assunto para algumas horas de conversa.
Com um amigo do passado, porém, essas horas de conversa não mais existirão. Era o caso de Ítalo, que conheci de modo adverso - questionando-o aí em alguma assembléia estudantil anos atrás - mas que depois viramos grandes amigos, também decolou para o além há alguns dias, semanas na verdade. Em viagem de carro para a cidade de Currais Novos, seu pai perderia o controle da direção e sofreriam uma colisão de frente com uma carreta que vinha em sentido contrário, num acidente que foi fatal para as quatro pessoas no carro (a prima de Ítalo ainda sobreviveria mais uns dez dias internada).
Lamentei bastante.
A última vez que o encontrei faz seis meses. Eu estava assistindo algumas bandas instrumentais no Som da Mata e ele me chamou e até me pagou um lanche e papeamos por muito tempo, inclusive saudei-o bastante por ser ainda um cara de ideias avançadas e prosa fácil.
Quando eu pensava, enquanto conversávamos, nas outras pessoas que me circulam hoje, quase todas de conversas redundantes, incapazes de conseguirem falar de algo além do assunto em questão - geralmente alguma merda bem banal - e desarticuladas demais até mesmo para formular algumas perguntas (o que faz as conversas parecerem um interrogatório de minha parte), concluia que deveria ser mais amigo de pessoas como o Ítalo. Mas ser mais amigo não é uma escolha. Deixei por obra do acaso a responsabilidade do nosso próximo encontro, no entanto a vida tomou outro caminho.
Durante anos, o ponto comercial que tem aqui do lado da minha casa esteve alugado a um bom sujeito chamado Tércio. Ele estava agora com seus 50 anos, era um cara vivido, um aventureiro, contudo alguns anos atrás, ele, cansado, já sem tanta saúde, decidira levar uma vida pacata, dividindo com sua esposa - Mercedes, na mesma faixa de idade - e a filha - Juliana Carla, de 21 anos - a propriedade de uma pequena loja de roupas femininas. Tércio passava o dia todo, manhã e tarde, na loja. Lá pelas 14h00, a Juliana aparecia. Depois desse horário, ele ou a esposa, ou às vezes os dois, saiam, para bancos, distribuidoras e coisas assim.
A Mercedes, porém, faleceu pouco tempo depois de abrirem a lojinha aqui. Eles pensaram em fechar a loja, mas Tércio achou melhor mantê-la. Pensava em dar para a filha no futuro. A Juliana e eu nos conhecemos e viramos bons amigos, e até mais - ou menos - que amigos, por muitas vezes já nos pegamos ali na salinha dos fundos da loja. Às vezes, quando tinham algumas peças que não iam mais vender por motivos diversos, como defeitos de fabricação , a Juliana brincava com elas, experimentava, botava, tirava, sob a minha vista e com minha ajuda, claro; depois, jogava as peças fora, ou doava, até para mim mesmo. Eu trouxe várias. Presenteei muitas outras garotas com esses trajes íntimos não-vendíveis. Com a Juliana, a coisa não foi pra frente, mesmo com todas essas travessuras a dois, apesar de que quase namoramos, dada a frequência com que eu ia visitá-la - claro, quando o pai não estava presentes.
Mas ela já tinha outros planos. Arrumou um namorado de fato no meio tempo em que estivemos distantes um do outro e ficou noiva rápido. Conheci o cara quando ele veio à loja certa vez. Não senti inveja dele. A Juliana era uma ótima garota, no entanto eu levaria muito tempo para me acostumar à ideia de casar com ela.
Eles se casaram no início deste ano, só que Juliana manteve o costume de cuidar da loja com o pai. Semana passada, porém, essa rotina foi definitivamente quebrada. Quando a Juliana chegou, pela tarde, no seu horário de sempre, discutiu bastante com o pai porque segundo ele faltavam peças de sutiã. Ele ficou com raiva porque a filha havia sido muito desleixada ultimamente com a loja, e mandou que ela fosse na distribuidora trazer um número previamente acertado de caixas de sutiãs com barbatanas de sustentação anatômica: 50.
Juliana saiu na picape em alta velocidade. Pude ouvir daqui. E sabia que todas as vezes que ela saia rápido assim no carro significavam que havia brigado com o pai.
Entretanto, ela demorou demais. Levou quase duas horas para voltar. Quando enfim chegou, com aquele monte de caixas arroseadas na caçamba, a rua estava pacata como sempre e ninguém tomava conta da loja. Somente quando entrou é que percebeu o pai já desacordado, provavelmente já estava morto; havia tido uma parada cardíaca e nenhum socorro pôde ser prestado pois não havia ninguém para ajudá-lo. Ela chamou a ambulância, mas não adiantou, o Tércio havia mesmo ido. Tudo isso por causa da teimosia em terminar o dia com 50 caixas de sutiãs anatômicos na loja.
A ideia de que um homem morreu aqui na casa ao lado, em si me apavora um pouco. Só que é um pavor que passa rápido. No máximo, gera algum arrepio. De maneira geral, para mim não fez diferença. Eles estavam mesmo para ir embora, afinal. A Juliana fechou a loja, com o falecimento do pai, e foi viver às custas do novo marido. O estoque restante ela vendeu por migalhas, saiu distribuindo, até a mim mesmo ela me viu cinco ou seis caixas de sutiãs dessa. Minha mãe todas pegou para si e para vender no trabalho, eu acho.
Um dia desses toquei violão no trem com uma garota que se chamava Frida, ou pelo menos se identificava assim. Nós nos conhecemos aqui no bairro há três anos, mas eu não dou muito as caras pelas ruas as redondezas, prefiro ficar trancado em casa, então não rola muito de nos encontrarmos. As vezes em que nos conversamos se deram quando nos esbarramos no ônibus, ou no trem. Sempre, pelo menos uma vez por mês, eu esbarrava nela em alguma dessas conduções.
A Frida era uma garota rebelde demais, dos tipos que talvez precise se esforçar para parecer provocativa e ousada, mas dava para notar certa autenticidade nela. Era inteligente, apesar de tudo. Falava sobre várias coisas. Xingava muito. Ainda assim, meu cinismo a irritava mais que os seus xingamentos a certos hábitos meus. Tinha uma energia muito explosiva, emitia emoções facilmente, falava alto e rápido. Gostava de falar sobre livros, já emprestei um ou outro para ela. Depois que ela me devolvia, repudiava a maioria dos livros. Dizia que, se eu fosse recomendar algo, que soubesse fazê-lo. Atínhamo-nos a desconstruir os argumentos do outro. Era um exercício interessante. Ela nunca me emprestou nenhum livro, acho que nem tinha livros, aliás.
Certa vez, ela me comentou o fato de eu nunca ter lhe perguntado onde morava. E questionou se era por falta de interesse que eu não lhe perguntava isso.
Se eu souber onde mora, não ficaria de bom tom para meu lado caso não fizesse uma visita, eu lhe disse, completando: mas não gosto de fazer visitas, como não gosto de recebê-las.
Ela de fato já sabia disso, tanto que entendeu - ou pelo menos achei que houvesse entendido. Numa dada ocasião, insistiu que eu conhecesse sua casa. Então concordei e fui. Sabia que ela morava com a mãe, só que a mãe não estava, e não faço ideia de onde poderia estar. No seu quarto, todas as marcas de sua inconsequência: paredes rabiscadas, alguns desenhos demoníacos em papel jogados debaixo da cama, papelotes de pó convenientemente escondidos nos fundos das gavetas, um cd de músicas incompreensíveis já no ponto no mini-system, só esperando ser dado o play, coisa que ela não demora a fazer.
Gosta desse estilo?, ela pergunta. É gore-grind.
Isso é uma merda, eu disse.
Ela comentou que aquele excremento sonoro tinha exatamente essa pretensão, de ser antimúsica, de fugir de convencionalismos. As músicas se ligavam de maneira bizarra, sem pausas ou intervalos quaisquer. Ela adorava. Dizia que esse som é como um trem pro inferno: não tem freio. Haja contorcionismo conceitual.
Eu falei que não queria cheirar nada, e também não queria ouvir nada. Ela acatou, desligou o som e guardou os papelotes, e passei a noite por lá.
Dois meses depois, eu a encontrei no trem Natal-Parnamirim. Ela estava com violão em punho e perguntou porque eu não a procurei nesse tempo todo. Estava um pouco mais amável do que seu jeito habitual, entretanto continuava elétrica como sempre. Parecia mais bonita também, apesar de a pele estar pálida. Devia estar exagerando nos entorpecentes, eu falei, e ela mudou de assunto. Pegamos o violão e cantamos uma ou outra música. Mas ela não gostava das músicas que eu tocava. Enquanto eu ficava lá dedilhando, ela preferiu pegar a minha agenda e ler se tinha algo escrito. Encontrou um fragmento de poesia.
a vida pra mim é, e sempre foi, uma dor
uma vala de cacos e fatos incolores
uma estrada escura e tão vazia de valores
Só que não houve "um mês depois". No máximo dez dias após essa conversa, soube que ela morrera por acúmulo de entorpecentes. Havia tomado muitos calmantes acompanhados de uma notável quantidade de álcool que potencializou os efeitos dos comprimidos, o que causou uma grande depressão em seu sistema nervoso central fazendo-a perder a consciência e sofrer uma parada respiratória definitiva. Morte.
Já sinto a falta da Frida. E fico a lamentar também pelo Tércio, pelo Ítalo. Lamento também pelo Pequeno, com quem eu sempre conversava enquanto o via trabalhar. Era um sujeito que tinha muito a falar, mas ninguém para ouvir, então eu ouvia. Eu ficava sentado numa cadeira de praia tomando cerveja e dizia para ele segurar a vontade, que depois do serviço poderia beber cerveja à vontade. Apesar disso, eu nunca cumpria a promessa. Sempre dividia com ele a bebida.
Posso pensar que nenhum deles fazia parte da minha vida diretamente, pois não participavam dela, não eram parte do meu cotidiano. Só não é suficiente para deixar de lamentar. Decidi passar para o computador e continuar escrevendo os versos manuscritos fragmentados que tinham sido objeto de apreciação, ainda que breve, da Frida, e enquanto digito sinto um frio sinistro me correr a espinha. Olho ao redor e não vejo e já não sinto nada, não há nem vento aqui. O quarto está todo escuro, e hoje está mais fúnebre do que nos outros dias. Mas eu prefiro não acender a luz.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Por umas horas de sono a mais
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Alegoria de um narcisista
Naturalmente, não era minha intenção: só deve sair de casa pensando em comprar um espelho alguém que realmente não consegue visualizar nada melhor para fazer. Eu estava somente caminhando no Alecrim, no meio daquele amontoado de camelôs e lojas puxando-nos pelo braço, seguia para algum não-lugar, como sempre. Até que, em dado instante, eu o vi - ou me vi, não sei bem. Meu olhar fora preso de batepronto. O fato que estava colocado é que eu não poderia deixar ali aquela magnífica obra: um belo espelho! Não era grande, devia ter algo como um metro de altura. Mas era destacável! Sua moldura, ainda que não fosse carregada de imponência, tinha uma feição hodierna, disposta numa madeira recheada de mesclas douradas e escuras, o que lhe dava muito estilo. A superfície da lâmina de vidro, eficientemente revestida de estanho, suavizava a visão. Evito ser compulsivo quando se trata de comércio, mas desta vez o fui: peguei o dinheiro que tinha e comprei no mesmo instante.
Eu o pus no meu quarto. Estava há tempos sem espelho, talvez por isso não reagi ao impulso de adquiri-lo. O último que tive, quebrei, propositalmente. No dia em que uma garota havia terminado comigo, eu, sentindo-me culpado, não suportando ver minha face horrenda refletida naquele adorno estúpido, descontei justo nele, dando-lhe um murro apenas: toda a vidraça se espatifaria como castelo de cartas. Ainda hoje carrego pequenas cicatrizes na mão direita. Marcas de um passado taciturno que, eu tinha certeza, ficariam para trás com a presença deste novo elemento no meu cotidiano. Depois de comprado o novo espelho, eu nunca mais me interessaria por outro. Para mim, já bastava um no quarto, porque ter qualquer outro espelho no mesmo ambiente geraria em mim a perturbadora impressão de que havia mais pessoas no cômodo. E uma das muitas coisas que me assustam são vultos. Não os vultos de mendigos e delinqüentes, perceptíveis nas sarjetas e por trás das árvores e postes quando se caminha na madrugada. Mas me refiro a outros vultos - os que me impressionam no espelho. Estes, sim. Seres estranhos, os que vivem dentro de nossas cabeças. São os mais perigosos.
Quando olho para o espelho, afinal, não procuro mais de uma pessoa.
Enfim, apliquei-o na parede adjascente à porta de entrada do quarto, ao lado direito, e ficou bem situado também à direita da cama. Esteticamente não era um bom lugar para colocá-lo, mas fui mais levado pela minha pragmática conveniência: é para aquele lado que sempre me levanto, ao acordar. Tal rito passou a ser diário; assim que despertava, eu punha-me a sentar e olhava para ele, em silêncio, durante uns quinze, vinte minutos, às vezes mais.
Depois buscaria um café, um pão, qualquer coisa assim, e voltava para comer ali, sentado na cama, olhando para aquele majestoso espelho, dando sequência à minha liturgia matinal. Ah, nada como aquele espelho para me fazer tão bem! Não compreendia o que me atava a ele. Não era beleza o que eu via, pois não sou bonito, também não era pose
A despeito de todos os questionamentos, esse hábito passou a fazer parte de todos os meus dias, invariavelmente.
O espelho tornou-se, então, parte de mim. Matava ali mais da metade do tempo que me era permitido. Era através dele que eu percebia a verdadeira face exposta em mim mesmo, no cômodo, na aparente cor do dia. Não fosse o espelho, eu não saberia a hora certa de tirar a barba, de dormir, de rir, de ficar sério.
Mas eu atentei para outras coisas além disso. Afinal, foi graças ao espelho que percebi, a partir da própria imagem que eu captava do meu quarto através de sua superfície polida, que as coisas precisavam ser mudadas. Então me situei: estava perdendo o foco de como a beleza de tudo está na mudança, e não na inércia, na imobilidade. No início uma obsessão, o espelho tornou-se, no fim das contas, a expressão do olhar que eu tinha sobre minha própria vida. E eu, que já quebrara um espelho, sabia que este representava, de algum modo, uma segunda e última chance de tentar colocar a vida nos trilhos.
Hoje, já se passaram vários anos desde que adquiri esse entendimento, no entanto por mais que esteja empoeirada em quase toda a armação e sua estrutura notoriamente caquética, esta porcaria risível ainda ocupa espaço central no meu quarto.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Fragmento
Deseja mais alguma coisa?
Fiz que não lentamente com a cabeça.
OK, muito obrigado e volte sempre, disse, apressadamente, mal oferecendo um sorriso e dando as costas.
Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.
domingo, 20 de setembro de 2009
Enfim, Tá na Cara!...
Na nova edição da Tá na Cara!, eu assino quatro textos, são eles:
Catando Histórias no Chão da Praça, um diagnóstico da vida de um mendigo do Centro de Natal, construído a partir de suas vivências relatadas em entrevista na Praça André de Albuquerque;Matou a Garota e Foi à Igreja, um thriller de suspense e selvageria onde se narra os acontecimentos trágicos que levaram à morte pós-estupro de uma menina de 15 anos, baseada na história real de Maria Luiza, que causou bastante repercussão na imprensa local e nacional neste ano. Toda a história é feita a partir das declarações do suspeito, com quem conversei por telefone (ele está preso em local secreto), e das investigações policiais;
Sobre a Carência Feminina, um conto curto onde rememoro momentos diversos em que me vi diante de mulheres no estado emocional em questão;
ABC, Para Além de Qualquer Lógica, uma redação produzida com olhar de torcedor onde se discute a origem da mística que existe em torno do time mais popular do estado, o ABC Futebol Clube. Este texto é parte de uma trilogia a continuar nas próximas edições, que destacam os três grandes do estado (ABC, América e Alecrim);A revista conta ainda com os textos Noite Perdida em Natal, principal matéria desta edição onde se relatam histórias vividas nas casas de drinques diversas da Cidade, e Dez Horas com Juliano Siqueira, minibiografia produzida após quase meio dia de conversa entusiasmada da nossa equipe com esse notório potiguar - ambos escritos por Angelo Girotto (editor e diagramador); Você Escolheu Errado seu Super-Herói, texto do já falado Pablo Capistrano; além das contribuições de Meri Medeiros (militante histórico do Partido Comunista e dos poetas mais reverenciados da cidade), com Rimas do Meu Verso; e de Ubiratan Júnior (professor de Comunicação Social da UFRN), que assina Vida em Clausura: Uma Felicidade Pela Renúncia.
Todas as minhas matérias são ilustradas pela Ana Luísa Medeiros, estudante de Arquitetura que tem diversos trabalhos disponibilizados na internet, cujos desenhos são destaque em todas as edições da revista; ilustra também a Tá na Cara o desenhista argentino Andrés Casciani, autor de obras publicadas na América e na Europa, e que agora, enfim, é publicado no Brasil. A matéria de Angelo é ilustrada com desenhos de Di Cavalcanti.
A revista é trimestral e custa 5 reais, estando à venda nas livrarias Siciliano e nas bancas da região metropolitana de Natal. Ela também pode ser adquirida via internet, bastando apenas fazer contato pelo email leonknunes@yahoo.com.br, sem acréscimo no preço.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
As Artes e Você
sou apreciador.
Nas sete artes
não há o que se descarte
e não há consolador.
Em tuas partes
só faço
admirar-te.
Tu és minha arte,
e teu abraço
- que ainda sinto -
é meu baluarte
(e não minto).
És o que eu vejo,
Estás em quem eu beijo.
Estás até na pintura
dum azulejo.
És a pequena escultura
no jardim.
Ou aquela música
que me falavas:
"esta foi feita pra mim!"
És também o filme
que me entrete.
E até em meus contos
dou mostras de como
meu amor por ti
se derrete.
E no palco dos meu sonhos
Tu és a única estrela
da peça em cena,
que quando começa
fica até fácil notar
na primeira fila,
eu, só a te fitar.
Ao passar das cenas
Vou te vendo tão distante
- e já quase agonizante -
por não poder te tocar
(que pena...)
Que amor surreal,
algo pós-moderno.
Neste texto conceitual
dedico-lhe o que faço
no seu jeito mais terno.
Pois na arte, nada é certo.
O que vale
é ter nosso sonho por perto.
Nem me acho artista,
mas em algo somos iguais:
(vivemos nas nuvens)
somos sonhadores habituais.
E poucos homens
revelam-se desta forma:
eu viveria
sobre uma plataforma
só a te ver bailar
e descreveria
cada passo teu
numa bela caligrafia
e no teu olhar
em minha direção
eu logo pensaria:
"agora sou eu!"
E por mais fria
que fosse a noite
eu contigo dançaria,
até que surgissem no céu
as ingratas luzes do dia.
E mesmo se fosses embora
eu pensando ficaria
que a nossa dança,
em meus sonhos,
nunca terminaria.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
No alto da serra
Em todo o tempo que passei, meu silêncio só foi interrompido algumas vezes por pessoas que buscavam informações, ou queriam fazer novos amigos. Eu nunca estou muito aberto a isso, embora até que considerasse, e chegávamos a conversar por algum tempo. Geralmente vinham em grandes grupos, às vezes turistas, ou grupos de estudantes em aulas de campo, mas também apareciam pessoas que vinham sozinhas ou com suas famílias, tirarem fotos e conversarem pra caramba. Mais de uma vez me ofereceram alguma coisa, algum petisco para comer e me convidaram a mesa. Topei em uma dessas vezes.
Que tá fazendo por aqui?, perguntou-me um cara bem falante.
Sou professor, vim tirar umas fotos para mostrar a meus alunos, falei. Obviamente estava mentindo, nem máquina fotográfica eu havia levado. Ainda bem que ele não pediu pra ver as fotos, ou tirar alguma deles.
Essas são minha esposa e meus filhos - um casal de crianças. Sempre me pedem pra vir aqui, mas detesto subir essa serra, meu carro é do tipo que só se comporta bem em sentido plano.
Também não gosto, disse.
Quer carona depois daqui?, perguntou.
Não, obrigado. Estou de moto.
Ele ficou um bom tempo falando que já foi motociclista, e dos riscos que essa prática traz. Felizmente, não demorou a ir-se embora. Assim me ative novamente às minhas divagações, a perder meu olhar no meio da vastidão de terra e água que se podia enxergar daquele mirante, e a enveredar mais algumas doses. Aos grupos que passavam, eu praticamente ignorei; às vezes, recebia algum aceno de cabeça e retribuía. Noutras, perguntavam o que achavam daquele local, daquela atração, e eu só dizia um "ô, muito bom", e pronto. Até porque para mim não era bem uma atração, era apenas um bom lugar, como uma praça, só que mais distante - uns 350km - de casa.
Já perto de ir embora me apareceu um confeiteiro com quem esbarrara noutras ocasiões e era muito bem-relacionado. Não lembrava bem o nome dele, parece que era Décio, mas não arrisquei mencionar. Era negro e baixo, devia ter 1,50m de altura, careca, tinha uma voz engraçada. Ele me reconheceu fácil pelas tantas vezes que fui ali, e lembrava inclusive meu nome, o que me surpreendeu e me deixou um pouco sentido de não lembrar o seu. Os responsáveis pelo mirante não gostaram muito. Notei de longe que olhavam estranho pra minha mesa quando o confeiteiro sentou comigo.
Ignorei o olhar e fiquei a prosear algum bocado com o velho camarada, e ele ainda me perguntou, onde está Cinthia? É Cinthia o nome de sua namorada?
Espantei-me novamente com o vigor de sua memória, e confirmei, sim, é Cinthia. Aliás, era, não namoramos mais há uns três anos, he-he...
Puta merda, dou muita bola fora, falou, em tom de brincadeira.
E eu confirmei.
Por algum tempo, conversei com ele apenas no piloto automático e fiquei com a imagem da Cinthia na cabeça. Eu e ela tínhamos ido ali meia dúzia de vezes, pelo menos. Ela, em todos os instantes, se admirava com a paisagem: é a coisa mais incrível do mundo, dizia. Talvez a Cinthia não tivesse visto outras maravilhas naturais que servissem como parâmetro de comparação, mas eu sempre concordava: a coisa mais incrível do mundo. Queria que ela ainda estivesse aqui; era só nisso que eu pensava.
Parece que notando o olhar de soslaio dos responsáveis pelo mirante, o confeiteiro rompeu meus devaneios e fez sinal para me falar algo no ouvido. Amigo, disse ele quase sussurrando, me acompanhe que há um lugar muito bom que vou te mostrar, porque aqui daqui a pouco está fechando. Venha, você vai gostar de conhecer.
Como eu já estivesse mesmo de saída, topei. Saímos caminhando, deixei a moto lá estacionada. Era fim de tarde e andamos por umas ruelas de areia envolvidas por grandes árvores. Como já estava chegando a noite, já não era possível enxergar muita coisa, os meus olhos até lacrimejavam. O Décio, ou seja lá qual fosse seu nome, permanecia calado. Percebendo que a situação tomava contornos muito estranhos, eu, mesmo um pouco bêbado do conhaque - ainda levava a garrafa com bastante bebida na mão - decidi não arriscar mais. Bati-lhe a mão no ombro, segurando-o com alguma firmeza, e falei:
Meu velho, preciso voltar, a noite já chegou e estou muito indisposto. Obrigado pelo papo, pegue esse conhaque pra você. Adeus.
Falei protuberantemente e com uma convicção tal que ele nem ameaçou insistir.
Voltei para o mirante e peguei a moto, já estava escuro e eu não tinha muitas condições de fazer nova viagem de volta pra capital, decidi passar a noite ali por perto, em alguma suíte. Fui para a Pousada Bela Vista, não é muito barata mas era a única que conhecia, era lá onde sempre me hospedava quando acompanhado pela Cinthia, e não tinha saco pra fazer pesquisa de preço agora.
Assim que cheguei, dormi por algumas horas, acordando pouco depois da meia-noite, e aí não consegui mais adormecer. Tava com uma puta vontade de escrever, mas não tinha nada, nem computador, nem mesmo papel. Não tinha livros pra passar o tempo, mas tinha apenas uma TV, que, no entanto, não me serviria. À parte disso tudo, não tinha a Cinthia - o que tornava aquele ambiente muito mais morto e torturante para mim. O único subterfúgio que restava era a bebida, que eu não tinha mais. À minha disposição, ali, só havia um bom aparelho de som. Abri a janela, deixei aquele frio pesado das serras entrar no cômodo, e fiquei sentado a contemplar a imensidão negra lá fora ouvindo músicas lúgubres e lamentando mais de mil vezes por ter dado o litro de conhaque para o confeiteiro.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
O kit-net da Rua Neópolis, parte 1
Eu ainda estava no primeiro ou no segundo trabalho num escritório pequeno quando precisei ir pra lá, brigado com a família, jubilado da faculdade, sobrevivendo com migalhas de um batente que eu sabia ser temporário. Saí de casa e o primeiro lugar a que fui foi o Hotel Nordeste, que hoje mudou de nome - como se fosse possível, assim, livrar-se da má fama. Passei apenas uma noite ali, num quarto que não tinha nada, nem uma radiola que fosse, as camas (beliches) não tinham cobertas, a parede caía aos pedaços e não se identificava nem mesmo sua cor original, além de que, o pior de tudo, não era suíte. Eu precisava dividir o banheiro, que ficava no final do corredor, com todos os tipos de meretrizes e cafetões e viciados. Na primeira vez que fui lá, uma rapariga estava sentada, ao lado do vaso, meio alucinada. Olhei da porta comiserativamente e voltei. O banheiro é um altar muito decadente, mas muito necessário para muita gente, para mim inclusive. Muitas e muitas vezes me vi trancado no banheiro querendo fugir até mesmo do ambiente familiar que a sala, a cozinha da casa proporciona.
Depois do Hotel Nordeste, saí pulando de pensões em pensões. Algumas até muito boas, porém a grana que eu tinha não era suficiente para manter um padrão mínimo de qualidade. Fui escolhendo pensões cada vez mais distantes do Centro e com gradativamente menos regalias. Até que, já começando a alimentar alguns acessos de desespero, encontrei no jornal o anúncio de um kit-net cujo aluguel nem se aproximava dos 100 reais de tão baixo, mesmo assim acompanhado de água e energia. Dirigi-me até lá na hora. A única coisa que tinha era um violão e uma mochila. Gostava da coisa de ser andarilho, de não ter um lugar específico que me prendesse, mas eu estava começando a perceber que havia muitos revezes desagradáveis nesse modo de vida - muito mais do que os que eu imaginava.
A Rua Neópolis fica no último bairro de Natal - na verdade já fica no território da cidade vizinha. Não havia muitas casas por perto, e as casas que havia viviam fechadas e com luzes apagadas. Não era possível saber se tinha gente morando nelas ou se estavam abandonadas, ou eram segunda casa, nada disso. Além do que, sobravam terrenos vazios: áreas cercadas, recheadas de mato crescente, o que denotava que aquela área ainda estava esperando sua vez para crescer. Eu me lembro de quando estava procurando o local; tinha apenas uma anotação indicando sua localização exata e lembro que, assim que encontrei a rua, me assustei com tamanho prolongamento. A rua devia ter quilômetros, talvez. Ela começava com casas estáveis, pequenos comércios, e na medida em que alçava os metros, notava que o asfalto sumia sob a areia enrijecida e pastel e, como já falara, as residências iam se escasseando. O kit-net que eu procurava ficava no final da rua, depois de subidas e descidas, onde a estrada era pura terra batida, embora desse pra notar alguns filetes asfaltados, o que demonstra que na verdade a área ali até já recebera uma atenção mínima do governo com uma pavimentação de má qualidade. O kit-net, eu fiquei olhando por uns minutos antes de entrar. Havia uma fileira de portas e janelas, devia ser uns sete ou oito. Começava a criar na minha cabeça a ligação com aquele lugar em que, presumia, passaria um bom tempo. A casa da dona do kit-net, a Sra. Jocastra, ficava mais adiante. Não tinha muito a lhe dizer.
QUERO UM KIT-NET, AQUI ESTÁ, PAGO ADIANTADO DOIS MESES.
CALMA, MEU FILHO, NÃO É ASSIM. E começou a falar, e falar, e falar. Tratavam-se apenas de amenidades, ela também não tinha nada a dizer. Depois do falatório, passou-me a chave e deu boa tarde - embora já fosse o início da noite. Fui para o meu quarto.
O ambiente não tinha muita coisa. Eram dois cômodos maiores, que podiam ser um quarto, sala e cozinha, além do banheiro. De aproveitável, só havia mesmo o sofá verde-musgo, já envelhecido, entretanto pelo visto ainda estava em condições de uso, acompanhado duma poltrona; uma televisão velha, ainda que perfeitavelmente utilizável; uma cama de solteiro pequena, parecia ser um modelo juvenil, com uma colcha muito fina, um birô no qual eu poderia guardar as minhas roupas. Poderia ser aconchegante se o cubículo não fosse sujo e abandonado. As gavetas do birô denunciavam com um odor bem desagradável a presença de insetos ali, tipo baratas. Por muito tempo, deixei minhas roupas guardadas na mochila. Comprei uns pôsteres para as paredes. Comprei livros e livros. Com tudo isso, comprei também um pequeno rádio para comper o silêncio em algumas madrugadas tristes.
A primeira pessoa que conheci nas redondezas foi de modo estranho; era madrugada e estava deitado no sofá ouvindo música clássica na televisão com as luzes apagadas, até que percebi pela sombra emitida sob a porta que alguém estava se aproximando. Logo bateram na porta. Fingi-me de desentendido. Bateram novamente.
QUEM É?
POR FAVOR, QUERO UMA AJUDA. Parecia a voz de um cara não muito saudável. MORO AO LADO, afirmou.
SAIA DAQUI, QUERO DORMIR.
POR FAVOR!
Decidi abrir a porta. PRAZER GAROTO, MEU NOME É TIMÓTEO, MORO AQUI AO LADO, repetiu. Ficamos nos olhando um tempo, alguns segundos em silêncio. Fiz uma careta como se perguntasse o que ele queria. TENHO UMA BEBIDA AQUI COMIGO, QUE TAL SE ENTRASSE PRA GENTE CONVERSAR UM POUCO?
Abri a porta, ele parecia inofensivo, trazia consigo apenas uma garrafa de cachaça quase cheia. Não questionei porque na época eu também não tinha dinheiro para comprar bebidas de mais requinte e sabor. Tinha uns copos descartáveis e bebemos juntos. Ele realmente era menos velho do que eu pensava.
POR QUE VEIO AQUI?
TAVA COM UMA MENINA NA CAMA E ELA ME EXPULSOU, VEJA SÓ, ME EXPULSOU DE MINHA PRÓPRIA CASA. Sentenciou: EU SOU UM MERDA.
EXPULSOU POR QUÊ?
PORQUE EU GOZEI DENTRO.
Achei que convinha ouvir outras bizarrices de sua vida. Timóteo trabalhava numa peixaria ali perto, bem se notava um mal cheiro quando ele se aproximava, mas, como se fosse psicológico, aquele fedor nauseabundo se tornou ainda mais forte depois que ele disse qual era seu trabalho.
Conversamos até amanhecer e o Timóteo me disse que também era como eu, também era aventureiro antes de chegar ali - morava num daqueles kit-nets há seis anos. NA ÉPOCA, SÓ EXISTIAM ESSES KIT-NETS. NEM AS CASAS ABANDONADAS DA RUA ESTAVAM AÍ, ele disse. MAS ESSA VIDA, MEU IRMÃO, ESSE BARRACO, E PRINCIPALMENTE ESSE TRABALHO MALDITO ACABOU COMIGO, FOI A PARTIR DELE QUE ME TORNEI O MERDA QUE SOU, completou.
Eu acreditei. Ele tinha voz fraca e esforçada. Sua face era recheada de suor incrustado e sua pele já dava sinais de falecimento, isso embora ele me dissesse ter 30 anos.
No início, eu tentei evitar maiores contatos com Timóteo; a maior parte do meu tempo eu vivia fora, ou ia para a faculdade só reencontrar os amigos, vez que não tinha mais matrícula, ou ia para algum outro lugar que me permitisse parar e ficar perdido em pensamentos, como um bar, uma praia. Apenas uma parte do dia eu trabalhava, no escritório. Nessa fase, escrevia bastante, e como estava sem computador, passei a me acostumar a escrever manuscritos, coisa de que nunca gostei. No trabalho, a única mudança era quando havia uma necessidade de digitar um memorando; mas quase nunca exigiam. Com o tempo, por inércia, acabei me tornando indisciplinado. Faltava demais, ou me atrasava, ou dava um jeito de sair cedo. Passei três meses lá, e a grana que peguei de saída, uns 400 reais, seria a minha única renda nos três ou quatro meses seguintes.
Passei a comer menos, bem menos. Antes meu almoço era num restaurante popular, desses barriga-cheia. Agora, já nem almoçava mais. Saia ao dia e voltava à noite, e comia alguns pães com um café, com um fogão duas-bocas que eu houvera comprado.
Depois da primeira fase de estranhamento com o Timóteo, nós nos reaproximamos e ele me ajudava arrumando uma margarina, uma cachaça, algum troço assim. Como ele tinha mais bebida que comida, passei a beber mais do que comer em paralelo. PRECISO DE UM TRABALHO, eu lhe falei. NÃO DÁ PRA FICAR ASSIM.
Ele dizia que veria o que podia fazer por mim na peixaria; fora dali, eu não tinha muitas expectativas. Morando na periferia, era difícil procurar emprego na Cidade porque o deslocamento era muito despendioso, sobretudo para quem teria que viver com a grana que restava. Timóteo me arrumou, na peixaria em que trabalhava de peão, uma entrevista com o gerente, um tal Seu Correia. A entrevista durou menos de cinco minutos, depois deixei meu contato e fui embora.
E AÍ, COMO FOI NA ENTREVISTA?, perguntou-me Timóteo à noite, depois de colocar uma dose de cachaça nos copos.
FOI MUITO PRODUTIVA. MENTI QUE SÓ A PORRA, falei, e ele deu uma longa gargalhada, ao que eu também caí na risada. De fato, eu havia mentido em algumas coisas na entrevista, não tinha a menor chance de conseguir o trabalho se não fosse assim. Era meio surreal a coisa de achar engraçado estar me aproximando do fundo do poço.
Timóteo me desejou boa sorte, mesmo assim, e disse que sairia da peixaria. Disse que estava vendo aí uns negócios em que poderia se dar melhor. Também lhe ofereci boa sorte. Depois disso, ele passou uns dias sumidos e eu estranhei sua ausência. Nesse período, eu havia trabalhado numas coisas bobas, tipo entregar panfleto, e havia conseguido uns trocados suficientes para pagar uns almoços de quando em quando. Começava a me sentir sozinho na região quando conheci, no longo trajeto até a parada de ônibus, uma senhora que morava com a filha perto de mim e precisava de um conserto no seu computador.
POSSO AJUDÁ-LA, falei. TENHO EXPERIÊNCIA NISSO.
De fato, consegui resolver o problema dela, que não era nada sério para mim que havia feito um curso - inacabado - de Desenvolvimento de Software. Tanto a mãe como a filha eram bastante simpáticas, e, sobretudo com a filha, a Ana Paula, uma menina com talvez dezesseis, eu criei uma ótima relação, de maneira que ela até me fazia visitas ocasionalmente, embora eu não gostasse, visto que o kit-net não era lá apresentável; de qualquer modo, com o tempo, visitaria ainda mais. O vínculo parecia ter sido construído tão rápido que sua mãe me convidara para fazer uma viagem de uma semana com elas para Monte Alegre, uma cidade não muito distante. Pensei que faziam isso por ter pena de mim, um pobre garoto com emprego vagabundo e sem família por perto. Então, recusei.
Elas se foram e, sem que o Timóteo voltasse, tornei a me sentir solitário. Mais ainda quando, na mesma noite em que elas se foram, eu notei um movimento no kit-net ao lado. Pensei ser o Timóteo e fui vê-lo. Na verdade, era a Sra. Jocastra que estava lá arrumando algumas coisas sem a menor delicadeza.
O QUE QUER?, perguntou quando me viu.
ONDE ESTÁ O TIMÓTEO?
ELE FOI EMBORA, TAVA PROGRAMADO PRA IR, JÁ.
Estranhei o sumiço do Timóteo e o fato de não ter comunicado o fato antes de ir. Fiquei meio puto por um instante, porém isso se amenizou porque eu achei que minha raiva não era justificada. Timóteo não me devia nada, afinal. Pelo contrário. Ajudou-me bastantes vezes naquele período desgraçado. Eu havia voltado à estaca zero, não tinha mais nenhum bico, não tinha mais dinheiro e não tinha mais comida, só bebida. Acordei no dia seguinte e quando fui olhar a hora no celular - eram 9 horas -, fiquei espantado ao ver que houvera recebido uma mensagem.
Percebi que já estava atrasado uma hora e me apressei, lavei o rosto rapidamente e só fiz beber uma água da torneira, nem tive tempo de tomar banho ou sequer escovar os dentes. Apesar das desavenças com a minha pouca pontualidade, trabalhei o primeiro dia e voltei para minha cama, exausto, e dessa vez bebi bastante não por falta de comida, mas por falta de apetite mesmo. À noite, faltaria luz em todo o bairro - e assim seria durante os trinta dias seguintes, um defeito incorrigível da companhia de energia do estado. A sra. Jocastra disse que não poderíamos reclamar porque toda a nossa energia era adquirida por gambiarra. Eu me lembrei de quando o Timóteo me dissera que, apesar de tudo de ruim que acontecera antes, seu primeiro dia de trabalho na peixaria fora o marco inicial da sua decadência. Isso ficou por tanto tempo na minha cabeça que deu vontade até de chorar. Mas eu não chorei.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Deve ser herança da adolescência
É tão estranho o clima de meio de ano, porque vejo mais pessoas no clube de pôquer. Várias delas estão de férias, não estariam ali em outros dias, outros meses. Conseguem, sei lá, um mês para não fazer nada e vão perder o dinheiro que têm de sobra com qualquer bobagem. Eu não tenho férias no meio do ano, então pra mim o cotidiano e suas responsabilidades nunca mudam muito. Alguns que jogam comigo comemoram. Hoje o clube tá bombando!, dizem. Eu acho chato demais, e geralmente quando percebo isso vou embora.
Queria procurar um lugar para arejar a cabeça, mas não encontraria. Natal tem poquíssimos pontos que propiciam isso, tão poucos que não lembro de nenhum. Ainda eram três da tarde e, de tão longe de casa, preferi ficar na rua até cair a noite, quando iria pra faculdade fingir que assisto aula, e encheria o saco dos professores com coisas que eles deviam saber e não sabem. Mas demoro muito para pensar, tanto que logo cairia uma chuva pesada e eu fui pego desprevenido. Procurei um meio de não ficar ali na rua, me molhando, ou abrigado sob um posto de gasolina. Como, aliado à chuva, havia o fato de a bebida ter me enebriado um pouco, decidi deixar minha moto onde estava e pegar um ônibus, dar um arrodeio pela cidade. Depois de uma viagem de uma hora acho que já estaria mais sossegado. Gastei duas pratas na passagem, e isso zerou a minha carteira, pois havia saído com trinta reais de casa.
A viagem de ônibus durou exatamente uma hora, a chuva enfim houvera passado - ainda que alguns materiais que eu carregava tivessem se molhado antes que pudesse notar -, e desci na mesma parada em que tinha pego a condução.
Quando saltei, uma pessoa bem conhecida estava na parada e me viu e cumprimentou. Eu não sei o que penso agora, mas na hora achei que era melhor não ter descido ali.
Oi amigo!, tudo bem?
Era uma ex-namorada, que agora fazia questão de me chamar de amigo. Cumprimentei, sorri, perguntei como estava. Ela estava bem.
E você?, perguntou-me, automaticamente.
Conversamos algum tempo, e ela até tentava ser doce e simpática, mas não era esse seu jeito. Geralmente, tentava me deixar nervoso, e eu às vezes terminava fazendo a mesma coisa. Chamei-a para jogar no clube de pôquer. Ela gostava de jogar cartas, pelo menos antes de virar evangélica.
Não gosto de pôquer, nunca gostei.
Eu sei, mas o que custa aprender? Você sempre gostou de jogos de baralho.
Gostei de alguns, não de todos.
A sua voz bonita e carregada de um certo cansaço estava mais próxima daquela que me marcara no passado, de maneira que comecei a ficar mais à vontade – acho que ela também.
Você não tá trabalhando, né?, perguntou-me. Pra ficar jogando pôquer numa tarde de segunda-feira, só estando desocupado...
Na verdade, estou sim, mas sei lá, trabalho quando quero, dia sim, dia não, nunca fui afeito a trabalhos que exigem muita disciplina... expediente não é comigo...
Sei... disse, sarcasticamente, e completou: tenho pena dos seus alunos.
Você é um amor, falei.
Depois disso, ela pegou o primeiro ônibus que passou e se foi, sem dizer tchau e sem dar sequer um aperto de mão. Fiquei vendo-a subir meio apressadamente, e lembrando que no dia anterior eu estava com dois amigos bebendo e cantando no teto de um galpão do Centro de Convenções, sem ninguém por perto num raio de quilômetros, com toda a deslumbrante vista para a praia e para as coleções de luzes artificiais dos prédios e naturais das estrelas e da lua, e com tudo isso, era nessa garota que eu pensava, na vez que estivemos ali, anos atrás. Enquanto o ônibus ainda estava parado, até que ela sumisse completamente de minha vista não levaria nem dez segundos, mas eu ainda lhe dei um aceno e falei, de maneira que pudesse ouvir: vou escrever um conto sobre você!
Ela riu de dentro do ônibus; detestava meus contos, sempre detestou.
Já era fim de tarde e fui para faculdade e lá, no pátio largo, encontrei um amigo, estava chapado e observando os arredores. Sentei com ele e conversamos um pouco, ficamos olhando as garotas passando e alguns senis seguindo-as. Não tivemos muito tempo. Ele foi logo embora e fui para as aulas, que foram uma merda: hoje, perdi todos os debates. Estava com a retórica fragilizada pelo desânimo e toda aquela droga de turma se unira contra mim. Fui embora mais cedo, não fiquei para o último horário.
Antes de ir para casa, porém, passei na praia e fiquei em pé, olhando para o mar. O tempo estava bonito e eu tão sereno quanto. Havia um quiosque próximo, acompanhado de várias mesas, a maior parte delas ocupadas por casais. Observei um pouco, mas não comi nada, sequer sentei. Um dos casais, entretanto, era formado por velhos colegas, havíamos estudado juntos.
Sente-se aqui, venha!
Não, não, obrigado, respondi, depois de cumprimentá-los.
Venha, rapaz!, insistiam. Comecei a me arrepender de ter estado ali.
Uma vez que continuavam a me chamar, como se tivessem algo para dizer - mas não tinham nada, disso eu bem sabia -, precisei fingir que não os ouvia mais para que parassem.
Não durei nem meia hora e me despedi da orla. A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi deitar na cama, ainda arrumado, e havia tirado apenas os sapatos. Da cama mesmo, eu ia tirando tudo: relógio, celular, a carteira eu ainda abri uma última vez, para confirmar que de fato não tinha nada. De um dos bolsos da calça, tirei um pendrive e uma caneta, e de outro que pensava não ter nada, puxei alguma quantia em dinheiro. Quinze reais, que eu não sabia que estavam ali. Fiquei um pouco espantado na hora. Espantado e aborrecido. Por um instante, pensei que deveria ter gastado tudo aquilo na mesa de pôquer, mais cedo. Mas fiz bem em não fazê-lo; já bastava de derrotas por hoje.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Na companhia do vazio
Fumei 25 cigarros esta noite,
e você sabe sobre as cervejas.
O telefone tocou apenas uma vez:
era engano.
Charles Bukowski, O Amor é um Cão dos Diabos
Já fazia quarenta minutos que eu caminhava solicitando carona a todos que passavam protegidos em seus automóveis, mas ninguém me concedia. Era alta madrugada e eu estava um pouco embriagado, mas desejava chegar logo em casa, ou, pelo menos, encontrar algo que me fizesse minimamente confortável. Pouco antes, eu bebia com os colegas de faculdade até que fechasse o bar - na verdade, eu não esperava que fechasse, pois não tinha mais condução que me levasse até em casa, 20 quilômetros distante. Todos se foram, cada qual para seu lado, com as moradias próximas ao boteco, caronas e quetais. Eu poderia usar de minha moto, mas a havia deixado na manhã anterior num borracheiro; estava com o pneu furado e eu teria de suportar o peso de andar a pé e, quando necessário, recorrer ao ônibus - como já disse, porém, não havia mais esta possibilidade na hora em questão.
Vou ligar para alguém, pensei, mas para quem eu ligaria? Fiz uma tentativa.
Porra, é quase uma da manhã, disse meu interlocutor quase sem me deixar começar a falar, deixando claro que eu lhe interrompera o sono e desligou, não sem antes xingar minha mãe.
O meu celular ainda me oferecia uma lista de pelo menos 30 pessoas a quem eu poderia ligar. Mas eu sabia que delas nada conseguiria senão aborrecidas recusas. Conformei-me em vagar na madrugada, já sem pretensões de conseguir carona ou um refúgio qualquer. Foi quando vi uma lan 24h, e entrei. Pelo menos a internet poderia me entreter até que amanhecesse o dia, eu pensei, já que eu passei da fase de achar legal ficar dormindo na rua.
Naveguei um pouco na internet e, dentre os poucos indivíduos disponíveis para conversar àquela hora, me deparei com uma garota insone, uma colega da faculdade que recentemente conhecera. No decorrer do palavreado, ela se queixava de tantas coisas, entre as quais o tédio de estar sozinha em casa naquela madrugada. Então eu pensei, já que estava a não mais que meia hora da casa dela: seria legal se...
Papo vai e papo vem, ela sabia que eu estava por perto e me convidou para ir até sua residência, ao que imediatamente aceitei. Ainda que existisse um certo flerte entre a gente, a verdade é que eu aceitei o convite na melhor das intenções, afinal, só queria um lugar para dormir.
O fato é que, quando já estávamos ambos acomodados em sua casa, ainda conversamos um bocado, e como ela soubesse que eu havia bebido há pouco, por certo bateu-lhe também uma vontade de beber, pois logo me ofereceria algo.
Tem uma vodka ainda aqui, que tal bebermos um pouco?, perguntou-me.
Consenti prontamente.
Duas horas depois, repousávamos nus em sua cama, tínhamos feito de tudo e isso fez mal à garota se mostrava bastante deprimida e desculpava-se repetidas vezes por ter sido tão oferecida justo nessa primeira vez em que nos encontramos assim, sozinhos. Eu terminei me sentindo mal também com tudo aquilo, esperava que ela adormecesse, quem sabe pela manhã estaria melhor?, mas ela ainda não parecia ter sono, dizia estar arrependida e buscando um jeito de fazer com que não perdesse meu respeito, por mais que eu dissesse que isso não aconteceria. Como ela insistisse e eu fosse reincidente, então me pediu que lhe desse uma prova de que a continuaria respeitando pela manhã.
Vá em frente, incitei. Que prova você quer?
Me peça em namoro!, ela disse.
Eu me assustei com a proposta. No entanto, como sabia que ela tinha bebido e sequer se lembraria da conversa depois de um cochilo, cedi.
Tá bom... Namora comigo?
Ela riu e sentenciou: hahaha! Não, seu otário, não gosto de você!
Poucos minutos depois, a garota estaria vomitando todo o banheiro, depois tomaria um banho rápido e voltaria despida para a cama, dormindo em seguida. Ela já nem sabia o que estava fazendo. Eu fiquei acordado, continuava a me sentir mal, não pelo excesso de bebida, mas por aqueles momentos a dois. Não esperava que um abrigo me custasse tão caro, e a noite de sexo realmente não compensou o peso psicológico que foi permanecer ali. Fiquei andando pela casa, sentando no sofá e levantando, até que só quando começava a ver filetes do alvorecer reprimidos pelas brechas da janela eu fui me deitar na cama, a seu lado, adormecendo logo. Não muito tempo depois, o telefone tocava e nós dois despertávamos, ao mesmo tempo.
Você precisa ir embora, ela proferiu calmamente, e explicou o porquê. Fui embora, portanto.
Muitas horas depois, o colega que me houvera recusado um lugar para dormir estava a ligar, chamando para assistir uma apresentação de sua banda num festival de rock. Aceitei o convite, por mais que já não ande com muito saco de acompanhar festivais musicais, e sempre penso que ninguém tem saco também, de maneira que eu nunca convidaria alguém pra ver uma banda minha a tocar num festival, por mais que houvesse uma nova proposta literária ou musical no nosso som, ainda que não houvesse pretensão de nada disso no som da banda de meu amigo. Mesmo assim, fui e acompanhei. Meu bom camarada se divertiu bastante com seu espetáculo, e nossos amigos em comum também eram pura euforia no meio do público.
No final, ficaram todos juntos, bebendo e fumando e tal, eu fui embora logo. Não queria permanecer ali por muito tempo mais. Era relativamente cedo e teria bastante ônibus disponível àquela hora, então não perdi tempo.
Cheguei em casa e uma impressão estranha me acometia. O silêncio parecia mais audível para mim do que nos outros dias. A escuridão era mais visível do que eu percebia normalmente. Li um pouco, ouvi música, fui para o computador. Agia por inércia, sem propósito, sem juízo. Fui logar em um de meus emails, e a resposta que obtive me fez concluir que, por tanto me procurar, enfim eu havia me encontrado: "o usuário não existe mais".
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Cinco anos depois
Eu penso tudo isso enquanto me quedo numa mesa de biblioteca a ler alguns contos de Dalton Trevisan, com os olhos atentos e a atenção desvinculada da barulheira do ambiente - é meio-dia e há tantos estudantes -, porque é esse tipo de literatura que me atraiu de fato, os contos; tão subestimados, mas tão complexos em si. Acho curioso que, para muitos escritores notórios, seja mais difícil fazer um conto que um romance. Eu não sei, já que não sou romancista, mas posso dizer que me fascina, e que nunca penso pouco quando escrevo um conto, seja quanto relato algo, ou seja quando crie, ainda que isto ocorra em menos escala. Não tenho tanta imaginação assim.
É engraçado que eu receba, enquanto leio e enquanto penso, um convite para encontrar uns amigos num bar, e lá conversamos, entre outras coisas, sobre blogs, além de bebermos algum bocado. Assim como é engraçado o fato de aquele mesmo bar ter sido palco de outras histórias, com outras pessoas, no passado, algumas delas relatadas em texto nesta página.
Também é curioso que para quem escreveu tantas histórias escatológicas, tantos artigos opinativos sobre diversos temas, já recomendou tantos outros blogs e escritores, não tenha muito mais a dizer ness'instante. Deve haver algum grau de autenticidade nisso, no fato de não conseguir nunca escrever texto sob encomenda. Não tenho certeza, e a essa altura não importa. O blog continua vivo porque o longo e tenebroso inverno que o sustentou no princípio ainda se faz latente. Permaneço exercendo a arte da escrita, e enquanto o fizer, é um claro sinal de que ainda não estou em paz. A vida é uma estrada, como se diz, e a ela estamos todos submetidos. Há quem reclame de todas as coisas, há quem as aprecie em sua totalidade, cada um tendo o que tanto merece. Mas a mim, quem me merece? Eu mereço a estrada, e nela sigo em frente, sem muitas pretensões de curveados ou de subidas. A vida é isso. Monotonia da estrada. Como dizia um americano morto, sobra apenas a necessidade de tirar algum drama de nenhum progresso de fato.
e - especialmente - comentando os posts.
08/07
sábado, 27 de junho de 2009
Uma declaração de ódio
Eu nunca consegui
escrever
nos meus melhores momentos.
Como quando estava alegre,
ou quando me pediam.
Escrever, para mim,
e, acho, para os que realmente gostam
– e precisam –
disso,
é uma forma de jogar fora
os males, a urucubaca,
ou seja lá como gostem de chamar
seus azares.
Só escrevo quando estou com raiva,
ou triste, ou entediado,
embora neste último caso
seja muito raro,
vez que nunca sinto tédio.
O tédio é uma declaração de cansaço
de si mesmo.
E eu não gosto tanto assim de mim,
mas não trocaria a minha companhia
pela de qualquer um.
De maneira que me sobram
dois momentos
para escrever:
o da raiva e o da tristeza.
Entretanto,
não adianta pensar que escrevo
só quando estou triste.
Porque a tristeza é uma condição
inerente
à minha personalidade
(Personalidade? Eu tenho isso?
Alguém tem?).
Se eu fosse escrever somente estando triste,
eu escreveria todo dia,
toda hora,
a cada instante,
na cama, no ônibus,
na faculdade, na fila do banco,
na praia, à noite,
até mesmo na privada
como o sujo Enderby.
Mas confesso
que isto
não seria nada mau.
Mas eu escrevo com mais frequência, sim,
quando estou com raiva.
Escrevo quando triste, também
mas, principalmente, quando
estou com raiva.
Escrevo para me livrar dos fantasmas
vivos e mortos
que vivem a me incomodar.
Portanto,
Não procure humor no que escrevo,
porque não sou bem-humorado.
Não procure conselhos
nas minhas letras,
porque nelas estão
minha declaração de ódio
para com este mundo
e tudo o que lhe pertence
e lhe quer pertencer.
E em relação a tudo isso,
não existe nada
mais vazio de sentido.
domingo, 14 de junho de 2009
Essa é para Cláudia, que fez as malas e sumiu de vista
A garota em questão chamava-se Cláudia, que sempre foi muito louca, totalmente inconsequente, e tinha sido por mais de uma dúzia de vezes um objeto de prazer na minha adolescência. Era a época em que rolava algo entre nós, que nos conhecemos numa festa de amigos, nessas das quais hoje quero toda distancia. E logo depois de nos conhecermos, ali mesmo ficamos, ali mesmo transamos, ali mesmo nos despedimos, ainda que nos víssemos diversas vezes em lapsos de tempo preenchidos entre meus dezessete e dezenove anos.
Há alguns dias, contudo, eu estava na biblioteca do SESC lendo um livro. Eu não gosto de ler livros em bibliotecas, no máximo cato alguns, sento e folheio um pouco, mas não leio; levo-os pra casa no meu cadastro. Só que em todas as bibliotecas onde tenho cadastro estou suspenso, não posso pegar livros emprestados, porque sempre atraso ou, até mesmo, não os devolvo. Da Biblioteca do SESC, estou com dois livros, de Rubem Fonseca e Ernest Hemingway, há mais de um ano. Sempre esqueço de devolvê-los. Com isso, não me resta outra opção senão pegar umas obras da prateleira e sentar naquelas mesas de leitura com papéis colados e ordens do tipo "faça silêncio", "não fume", "não desarrume os livros" e outras senilidades, ao lado de estudantes bitolados e poetas pobres fugitivos. Por ter de me ater a isso, ficar sentado num ambiente totalmente impessoal lendo um livro, terminei ficando muito vulnerável, e foi lá que a Cláudia, associada do SESC, me encontrou e quis matar saudades. Tanto conversamos que decidimos sair e dar uma volta. Eu estava de moto, mas com apenas um capacete, então saímos caminhando. Ficamos duas horas seguidas de papo e caminhada. Paramos numa lanchonete, comemos um cachorro-quente com um suco, e eu queria que nos despedíssemos, até cheguei a dizer que precisava ir embora, mas Cláudia não, ela queria que passássemos mais tempo juntos, e dali fomos para um motel pequeno no Areial, perto da Praia do Meio.
É meio deprimente um casal entrar num motel a pé, né?, ela perguntou. Eu não respondi. Entramos no quarto e resolvemos não muito rápido a parada. Há muitos meses eu não fazia sexo, e provavelmente o dobro de meses virá até que eu faça novamente, o que me deixa sempre com a sensação de estar vivendo uma experiência nova - e isso não é bom. Cláudia gosta de ficar falando enquanto transa, um hábito que não é só dela, convenhamos. Tá sempre perguntando coisas entre os gemidos, coisas que não tem nada a ver, sobre o que vou pensar no dia seguinte, algo assim. Eu nunca respondo. No final das contas, umas quatro horas depois, enfim dormiríamos, até as sete da manhã, quando despertei.
Do mesmo modo em que estava quando abri os olhos me mantive, durante mais de uma hora, já com vontade de sumir, desaparecer, vaporizar. Sou muito desapegado, e eu sei que a maioria das mulheres não entende isso, e sabia que Cláudia também não entenderia quando acordasse. Chovia muito lá fora, o que era ainda pior, porque me obrigaria a ficar ali por muito mais tempo. Uma sensação estranha se acomete de mim sempre que acordo, e não estar em casa ajuda a me deixar ainda mais desconfortável. Aliviava-me pensar que dali a algumas horas enfim estaria bem longe, mas enquanto isso não acontecia, o pesar era tão grande que eu até simpatizaria com a ideia de resolver a situação com o barulho de um cano de grosso calibre. Uns quarenta minutos de divagações depois, Cláudia acordaria, levantando-se e enfim dando liberdade aos meus braços. Foi ao banheiro e na volta disse:
O banheiro daqui é horrível, fede a bosta.
É um banheiro, respondi. E me levantei, para fazer eu as necessidades.
E realmente era horrível o banheiro, ela estava certa... Mas entrei, e tranquei a porta, e sentei na privada tampada, só pelo sossego. Batia em mim a mesma sensação ruim que sinto quando não estou em casa ao acordar. Queria beber alguma coisa, mas não tinha dinheiro senão para pagar aquele quarto. Fiquei uns dez minutos por lá e saí.
Pega um espelhinho pra mim, por favor, está aí na bolsa, ela pediu.
Abri sua bolsa, e além do espelho vi agendas, canetas, confeitos, batom, pente, uns três papelotes de pó e uma seringa.
Você ainda tá nessa?, perguntei.
Por quê? Vai me dar alguma lição?, ela ria enquanto falava, como se tripudiasse de minha pergunta.
Essa seringa está cega, isso vai foder o seu braço.
O braço é meu, a buceta é minha, eu faço o que quero de meu corpo e minha vida.
Apesar de tudo, ela estava com a razão. Não era eu quem ficaria lhe explicando o problema de ficar enfiando seringas cegas e usadas no braço. Mesmo porque não sou melhor que ela, e também não sou exemplo; nunca fui. Peguei um dos papelotes de sua bolsa, e pus no bolso traseiro da minha calça, que estava na cabideira.
Isso aqui é pra ajudar no pagamento do quarto, falei. Ela nem questionou.
Deitei na cama e ficamos em silêncio. Depois, ela falou de alguns de seus planos. Pensava em tomar rumo para outro lugar, Europa talvez, Portugal em específico. Eu escutava com atenção, embora não acreditasse. Mas somente depois eu saberia que ela tinha viajado mesmo, foi para Lisboa, fazer um curso de fotografia - ou se tornar uma prostituta, nunca se sabe. Nesse dia, ela chegou a perguntar se eu queria ir junto, talvez só pra analisar minha resposta; mas não lembro se respondi à oferta. Durante aquelas horas, recebi dois telefonemas, e ela percebeu que se tratavam de garotas, e começou a ter o comportamento tolo de quem sente ciúmes, por bobo que seja.
Há muitas meninas adolescentes ainda em sua vida? Olha, você tem 25, daqui a pouco terá 30, sai desse mundo.
Não tenho 25, tenho 23.
Mesma merda.
Ela insistia nesse papo enquanto eu me estafava ainda mais em ver que a chuva demoraria muito mais a passar, e estava também começando a me preocupar com a moto, que estava bem longe dali, além de ter passado a noite sozinha no meio da rua - talvez nem estivesse mais lá. Eu prometera uns trocados ao flanelinha que ficaria de olho, mas provavelmente ele, no seu fim de tarde, percebendo que não receberia nem uma prata sequer por ela, deve ter feito alguma merda na moto, do tipo secar pneu ou roubar retrovisores.
Falei pra ela que ia embora. Ela pediu muito para que eu permanecesse - e até permaneci por algum tempo -, mas não podia ficar mais. Depois perguntou se poderíamos nos ver no dia seguinte.
Um filme, uma praia, talvez. Amanhã é sábado. Podemos vir para esse motel novamente, gostei dele, é simpático, ela disse.
Ando com pouco dinheiro, não posso, respondia. E não podia mesmo.
Então eu saí na chuva, com o capacete na mão. Deixei paga a conta na saída do motel e me fui, primeiro correndo, depois, desistindo de tentar fugir da chuva, a passos curtos e regulares. Eu estava a quilômetros do local onde deixara a moto. À medida em que caminhava, e saía do pequeno bairro do Areial para entrar no do Centro, percebia que a cidade mantinha seu cotidiano, os camelôs nas ruas, os engarrafamentos, o comércio aberto, a multidão galopante, mesmo com o temporal e a ventania.
No caminho, eu ainda recebia novos telefonemas de garotas. Ao contrário do que pensava a Cláudia, porém, os telefonemas nunca eram pra mim. Sempre eram pedidos de informação sobre alguns de meus amigos e coisas do tipo.
Não, não sei onde o Diego está, não o vejo há quatro dias, eu falava. E desligavam.
Enfim cheguei à minha moto, ainda no mesmo lugar, e aparentemente sem sofrer nenhum tipo de prejuízo. O flanelinha nem estava lá. Subi, dei partida e fui embora, mesmo naquela chuva torrencial, a cidade toda sob água, a visibilidade baixíssima, o corpo sendo golpeado por pingos que pareciam pedregulhos. Não deu outra: numa das avenidas em que tentei passar, com quase meio metro de água, a moto emburacou-se numa fenda e eu caí.
Quando a levantei e levei para a calçada, notei que havia furado o pneu dianteiro.
Saí empurrando a moto por um bairro residencial da zona sul à procura de um borracheiro para lhe pedir um remendo. Estava muito cansado e desanimado. Depois de algum tempo, eu encontraria uma oficina, mas estava fechada. Como na entrada havia o telefone do responsável, eu liguei e disse que precisava do serviço. Ele me atendeu na hora: morava nos fundos da oficina. Mas saiu nitidamente a contragosto, quando abriu a porteira notei que devia estar comendo algo, porque ainda mastigava e seus dentes estavam sujos, a cara fechada. Era um sujeito de poucas palavras. Enquanto fazia o serviço, eu tentei explicar a situação. Não tinha dinheiro.
Porra, nem um puto sequer?
Fiquei apalpando os bolsos e realmente não tinha nada. A única coisa que saquei do bolso traseiro, o papelote de cocaína, foi o que lhe disse que restava, e ofereci. Ele ficou calado, terminou o serviço da moto e foi lá nos fundos da oficina, onde não sei se morava sozinho ou acompanhado. Percebi que lançava uns gritos, que pareciam se dirigir talvez para um cachorro, talvez para uma criança, talvez para a esposa. Aquilo de algum modo me irritou, mas eu não podia questioná-lo, não estava em condições. Ele voltaria em menos de um minuto.
Me dá o negócio que você tem, foi o que ele disse.
Eu dei e fui embora. Às vezes, precisamos de canalhas desse tipo.
