sexta-feira, 26 de março de 2010
Condução lotada
segunda-feira, 1 de março de 2010
Manuscrito
A dança guatemalteca é assim, me dizia ela baixinho, parece tosca, parece chata, mas é como dançar forró... quem gosta não sabe explicar a beleza que existe no forró, né?
Eu ia acompanhando os movimentos no palco e os sussurros dela, quase adormecia durante algumas cenas cena, só não cheguei a tanto porque o som era incômodo, e eu não consigo ficar totalmente à vontade com sons que me são estranhos, principalmente quando se trata de músicas folclóricas, populares, de locais com os quais não tenho o menor elo.
Fiquei bastante pensativo porque eu é que a tinha convidado para sair. Mas ela não queria sair por sair, e eu não tinha nenhuma idéia. Quando a convido para sair trata-se, tão-somente, de sair mesmo, dar uma volta, sentar em algum lugar, uma praça, uma parada de ônibus, que seja. Eu queria só conversar, mas ela só sairia se fosse para ir a algum algum evento, como se sair sem ter um destino fosse algum pecado imperdoável. Foi quando lhe surgiu a idéia de ir para o espetáculo de dança. Terminado o espetáculo, conversamos um pouco, ela disse que estava tarde, teria faculdade no dia seguinte, levei-a pra casa, nos beijamos e fui embora. Ficamos juntos durante coisa de três horas, mas não tivemos nem vinte minutos de diálogo.
Na porta de sua casa, ela me disse que adorou. Eu lhe menti a mesma coisa. Mas depois que nos despedimos, senti que o dia não poderia acabar daquele jeito. Fui para um bar na Ribeira, porque é lá na Ribeira que estão alguns de meus bares favoritos. O problema é que ali os bares médios estão se tornando escassos pela proliferação de bares mais sofisticados, sobretudo nesses tempos em que a Ribeira tem se tornado mais um point turístico do que local de abrigo da boemia natalense.
Tive que me contentar com um bar novo - na época - por ali, até bem movimentado, situado na Rua Câmara Cascudo. Pedi uma cerveja e fiquei olhando ao redor. Várias pessoas falando alto em outras mesas, pessoas que se achavam muito interessantes, mesas que ocupavam toda a ruela. Muitas mulheres, já de idade bem avançadas, muitas garotas, mais novas do que eu. Todas brancas, reluzentes, limpas demais. Atraíam vários olhares, menos o meu. Eu olhava apenas para as garçonetes, como é hábito. Mas estas não davam muita atenção. Quando uma delas veio me atender, perguntei o que ela sugeriria e ela apenas me deu o cardápio, numa tentativa de ser simpática para o cliente. Não demorou, e vê-las correndo pra lá e pra cá com blocos de notas nas mãos me encheu o saco. Decidi sair de lá sem terminar de beber a cerveja e pedi a conta.
Deseja mais alguma coisa?, perguntou-me a garçonece por fim.
Não, obrigado...
OK, muito obrigado e volte sempre, disse, virando as costas com um sorriso forçado.
Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.
Como ainda quisesse beber mais um quebrado, fui numa conveniência, comprei um litrinho e fui para uma praça lá mesmo no Centro, um lugar sossegado, onde eu queria estar. Bebia e olhava para cima, para as estrelas por cima das árvores, dos prédios, das luzes da cidade, da fonte que jorrava água para o alto e que me fazia sentir alguns respingos bem finos. Pensava em quanto estava gostosa a bebida e o momento. E matutava sobre o preço dessas tão simples benesses. Sobre a solidão e a distância que tenho das outras pessoas. Em contraponto, refletia sobre meu desejo de mudá-las. Pensava na garota com quem estava saindo, e na sensação de posse que eu nutro mesmo sobre ex-namoradas. Pensava em como essas idéias apenas me distanciavam de todas elas cada vez mais.
Também pensava no meu trabalho, em como era bom dar aulas, aliás a única coisa que eu sabia fazer, já que não tenho talento para mais nada e nem gosto de carregar peso, mas ficava reflexivo porque percebia que isso não me nutria, como nenhum trabalho ou nenhuma prática permite.
Essas coisas me deixavam sempre meio triste, o trabalho, as garotas, a revista para a qual eu escrevia, o meu partido, as minhas conquistas tão facilmente desmoronadas, dava até certa vontade de chorar, mas eu não choro há anos, e não seria ali que eu choraria, apesar da noite, apesar das estrelas, apesar da bebida.
Recebi uma mensagem no celular em dois bips que quebraram o silêncio da incipiente madrugada. Era uma mensagem alegre, animada, alto-astral, vinha da garota com quem eu havia saído há pouco, a mandar beijos e abraços, a propor novos joguinhos de relacionamento. Eu sabia que essa euforia de sua parte duraria pouco tempo.
Depois de algum tempo de divagação, eu já não alimentava nenhuma tristeza nem raiva por tais coisas. Eu não poderia me incomodar desse modo. A raiva não se ocupava de mim porque sei que nada ganho com isso. Não havia razão para ficar triste porque triste já sou por natureza, a todo tempo. Apenas senti que meu problema era o cansaço disso tudo. Estou cansado de danças e de sorrisos à toa. Cansado dos projetos pessoais que temos que carregar, dos trabalhos que temos que achar interessantes. E também estou cansado de jogos que não posso ganhar.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Da carência feminina
revista Tá na Cara!, de novembro de 2009.
Eu fui criado por uma mãe solteira. Sou apenas um traço pequeno numa estatística gigantesca. Com frequência, recebíamos visitas. Todas elas, naturalmente, a buscarem a companhia de minha mãe – meus amigos ou minhas garotas nunca me visitavam. Como era usual nas visitas, eu sempre ia para o quarto, já que as conversas eram quase sempre em tom frenético, e eu não conseguia ouvir a TV. No meu quarto, eu tinha a liberdade de não fazer nada sem que isso me fosse um incômodo. De lá eu escutava as histórias ricas em detalhes que eram contadas na sala, e por vezes prestava bastante atenção nelas. Como geralmente eram mulheres que nos faziam a visita, essas histórias naturalmente eram centradas em homens. As mulheres – amigas de minha mãe – pareciam se divertir contando seus casos com homens de caráter duvidoso. Em geral, relações inacabadas, quase sempre interrompidas por algum acesso de intransigência, talvez por bebedeira, talvez por ciúme, coisas assim.
Eu me perguntava, então, desde garoto, até que nível um homem pode deixar atordoada uma mulher. Claro que isso não se mede. Eu nunca tentei, nem nunca me proporia a fazê-lo. Mas o tempo me traria as garotas e algumas respostas. Ou, por outro lado, trazia-me a ciência de que, para certas coisas, não há resposta alguma.
Então, já como uma forma de prevenção diante dessa imprevisível psique feminina, sempre mantive minhas relações bastante limitadas no aspecto psicológico. Dessa forma, eu me protegia e não teria nenhuma delas que me endeusaria hoje para me crucificar amanhã. Mas vai entender o que move esses acessos de cólera.
Eu me lembro de uma mulher com quem sempre saia, a Cristina, e quase sempre, quando tínhamos algum programa light, como um almoço ou coisa parecida, estávamos acompanhados de algumas de suas amigas. Cris – como gostavam de chamá-la, e se irritavam por eu somente chamá-la pelo seu nome, Cristina – era uma espécie de consultora sentimental vinte e quatro horas. Para mim, durante algum tempo, as companhias não fazia diferença. Mas Cristina não gostava da forma como eu tratava suas amigas, que quase sempre traziam narrações tristes ou raivosas de seus casos fracassados.
Por que vocês sempre xingam os homens?, eu perguntava sarcasticamente.
Por que você não pode ser mais gentil com elas?, retrucava a Cristina. Ela nunca tinha razão. E admitia isso. Quando conversávamos a sós, sempre concordava comigo que suas amigas só falavam asneiras quando se tratava desse assunto. Mas ali, diante delas, não poderia deixá-las desarmadas.
Como as amigas de Cristina foram ficando cada vez mais pentelhas e invasivas com o tempo, eu lhe disse que não sairia mais se fôssemos obrigados a acompanhar tais amigas desoladas. Seja paciente, ela me suplicava.
Suas amigas não sabem o que é a paciência, eu dizia.
Elas têm problemas como todo mundo, não percebe?
Não, elas não têm problemas; elas CRIAM problemas.
Então você agora defende esses sacanas de filhos mal-assumidos que enganam as mulheres?
Eu acho que eles poderiam comer melhor, dizia.
E quase sempre diálogos como esse criavam algum mau tempo entre nós dois.
E nesses dias, quando ia dormir, ficava me lembrando dessas mulheres que via, fossem as que acompanhavam a mim e à Cristina, fossem as que visitavam minha mãe, ou as que eu notava na faculdade, no ônibus ou nos bares. Essas pobres mulheres que tinham pavor de ficarem sozinhas para sempre, que acumulavam fracassos amorosos, que observavam o tempo passando, que viam seus lábios vaginais dilatarem, e que não podiam fazer nada para conter essa dura realidade.
No fim, elas sempre engoliam as angústias e tomavam um ar mais autoconfiante. Diziam que haviam pensando bastante e que iriam se valorizar mais. E batiam no peito a dizer que, se os caras as desejassem de volta, eles que viessem procurá-las.
Eles nunca as procuravam.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Paladar fraco e outras coisas a menos
Assim, diariamente me quedo nesse exercício puramente cerebral que ao menos talvez seja melhor do que passar várias horas do dia em frente à TV - coisa que também adoro fazer, por sinal, e nunca me demoro a religá-la -, porque são esses parcos exercícios que mantêm a minha mente em atividade. Minhas cordas vocais, no entanto, estão cada vez mais enrijecidas porque eu não as tenho usado muito, no máximo quando ia ali na padaria e dizia quero quatro pães e nada mais!, mas agora já nem preciso mais falar porque a garota que atende, conhecida por Cleidinha, já sabe o que vou pedir quando chego lá (e faz questão de dizer: já sei!), sempre com um sorriso no rosto que eu não entendo muito bem, e termino oferecendo um pretenso sorriso também mas que na verdade não passa de um franzido labial, e depois que saio tanto do balcão como do caixa da padaria esvaece a última chance de utilizar a minha voz no dia, às vezes eu até esqueço como é seu som e quando estou tomando banho e começo a cantar alguma música dos Engenheiros do Hawaii eu chego a me espantar por um instante por não a reconhecer, e esse espanto, por sua vez, me faz perder o prumo da canção e então desisto de cantar...
Mas não são só vozes e mente que estão cada vez mais mirrando, todo meu corpo segue nesse rumo porque eu não faço nada, não caminho, não pratico esportes nem nada assim, e vou sentindo que todos os membros vão se enfraquecendo de maneira tal que às vezes até pra levantar a caneca de café eu sinto um desconforto e preciso derramar uma pequena parte da bebida ainda quente na pia, e depois assopro bastante porque o meu paladar também já não está lá essas coisas, tanto que já nem faço mais questão de aditivos nas comidas aqui em casa, como temperos no almoço, ou margarina no pão, ou sei lá o que, porque quando como nem sinto isso, não me lembro mais a última vez que fiz hmmmmmmm! para alguma guloseima que ingeri.
Até mesmo pra segurar livros eu andava meio preguiçoso e passei a ler mais no computador, onde eu poderia ficar estático, mas não totalmente estático né, já que é preciso descer a barra de rolagem, e depois que me acostumei com isso já cansei também, e então voltei pra velha leitura de papel, e pra não precisar ficar catando livros pela casa eu tenho acumulado todos eles aqui no quarto, já não bastavam as duas estantes de livros aqui, eu fui lá numa salinha de despensa que tem nos fundos e peguei uma caralhada de livros velhos e empoeirados e trouxe, porque vez ou outra os folheio e agora não preciso mais ir até os fundos de casa e abrir um cadeado para pegar gripe com essa papelada envelhecida...
Às vezes ocorre de eu tentar ir na contramão dessa tendência, saio de casa, vou assistir algum espetáculo, algum show, um jogo de futebol, vou pra umas reuniões ou sair com uma garota, vou ver uns amigos, assistir a algum filme, vou viajar de moto pra algum lugar, e na verdade só quando me entrego a essas coisas percebo que às vezes cometi alguns enganos, porque há certas coisas que não temos como mudar ou pelo menos não cabe a nós mudar, então fico com pena das meninas que saem comigo, como lamento aos amigos que me convidam para beber e fazer umas rodinhas idiotas de violão na praia (sempre vou embora quando aparece um violão na parada), e percebo que conhecer gente já não é mais o foco das minhas viagens como antes, agora quero só deixar que alguns aperreios se dissipem com o vento que bate e se vai, e os shows também não frequento, vou tentando resistir às tentações, porque sei que sempre me empolgo antes de shows mas na hora é que sinto que aquilo não mais me contagia, de modo que eu percebo que existe uma luta intensa dentro de mim entre um lado que deseja se socializar, se soltar e besteiras assim e outro que já sentiu um cansaço de todas essas coisas e que agora quer mesmo é sossegar sem ter que ouvir vozes alheias quando acorda nem antes de dormir, sem ter que atender telefones e é este meu lado que eu premio, deixando todo o resto pra lá, e se me pergunto onde andava todo aquele meu pique de alguns anos atrás (em verdade, eu já nem lembro se tinha mesmo ou se é uma memória forjada pelo meu inconsciente) é por uma trivial curiosidade e não por depressão ou lamento pelo que sou hoje, pois gosto de ser assim, gosto de ficar apenas escrevendo porque é a atividade fisiologicamente mais econômica que posso fazer, já que trabalho apenas com os dedos, permanecendo todo o resto do corpo num transe absoluto, e até o conteúdo escrito não é fruto de conclusão nem de reflexão qualquer que seja, e sim tão-somente um derramamento de palavras cuja leitura se configura numa ordinária perda de tempo, mas constatar isso somente agora já é tarde demais para quem leu até aqui... Só que não pedirei desculpas.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
A última carga pesada
Tá tudo tão escuro lá fora e aqui dentro que eu consigo até enxergar coisas que não são reais me arrodeando, todas elas me assustando demais; faltou energia no bairro, o céu noturno está coberto por uma névoa temerosa e no meu íntimo as coisas não parecem muito mais claras, porque eu me sinto até mais livre, mas a tal liberdade não parece sinônimo de satisfação, porque agora vejo que todas as coisas que eu conquistei nos últimos anos (conquistei não é bem a palavra), como alguns trabalhos legais, a possibilidade de poder escrever e ser lido, alguma estabilidade financeira mesmo que não tão estável assim entre outras não parecem significar nada nesse momento em que eu penso mil coisas, porém não consigo chegar à conclusão de sequer uma delas, e acho que não haveria nada, nem pessoas, nem bebidas, nem livros nem outros entretenimentos quaisquer que pudessem me suprir isso, inclusive nem sei por que estou escrevendo pois nem isso gostaria de estar fazendo agora, eu gostaria apenas de dormir – mas desta vez sem sonhar – por tantas horas que se eu me esquecesse de acordar isso seria um mero detalhe para mim ou para os demais, no entanto como eu sei que não vai acontecer fico aqui temendo a chegada do sol junto das coisas chatas correlatas, as pessoas me ligando e perguntando se continuarei dando aula em certa escola no ano que vem, supervisores me pedindo documentos, ou textos, ou qualquer merda por uma ordinária burocracia, entre outras pessoas que não ajudam a melhorar o meu dia, gente que não tem nem culpa disso, porque quando começamos a conversar percebo que precisam apenas de uma ajuda, de algumas palavras de consolo e afeto, mas não sou eu que oferecerei essas palavras porque eu também as queria pra mim; então não me resta mais nada porque eu não tenho saído e não tenho sentido falta, já não bebo mas não sinto a diferença de quando bebia, e também tenho escrito tão pouco sobre mim, aliás, eu me decidi por isso mesmo, que iria escrever menos essas coisas, a carga era muito pesada, além de não significar necessariamente uma forma de autoconhecimento, então desisti, talvez só volte a escrever essas coisas daqui a uns 50 dias, ou talvez nunca mais, porém eu ainda mantenho esse vício da escrita em si, que alguns dizem ser saudável, de modo que passei a escrever outras coisas, eu queria voltar a escrever textos políticos mas fui repreendido por isso pelos camaradas de partido porque devo ser um péssimo analista, então o jeito de suprir minha vontade era voltando pra literatura, e aí andei escrevendo textos de terror, como histórias de vampiros ou coisas assim, também escrevi ficção científica, distopias, pesquisas jornalísticas, histórias infantis, e eu observava a maioria dos escritores, eles começavam a escrever para si mesmo para depois escrever para as outras pessoas, e comigo acontece o inverso, eu escrevia para ser lido e cada vez mais ando escrevendo para mim mesmo, sem publicar e sem comentar com ninguém, porque ninguém quer saber, só que não faço isso porque gosto (é por pura falta de opção) mas às vezes até me divirto e me satisfaço quando leio as coisas que fiz, pena que é uma satisfação tão tênue quanto qualquer outra, uma alegria breve que não se sustenta em si mesma...
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Oi?
Ela me ignorou solenemente, pegou a caipirinha que lhe fora servida e saiu sem expressar o menor interesse, e nunca mais voltei a vê-la.
domingo, 6 de dezembro de 2009
O céu e o sertão
Logo a noite cairia - nenhum carro houvera passado ou passaria por ali nos momentos em que lá estive, embora eu não estivesse esperando -, tornando-se o local muito escuro e estranho, com sons de animais típicos ouvidos por trás das colinas baixas e das matas áridas, elementos que me deixariam apreensivo por me sentir em um ambiente adverso, mas para o qual tentei me tranquilizar e para isso só me restava fazer algo para passar o tempo, como ficar revezando a leitura de livros, iluminado pela lanterna da moto, lendo-os em voz alta, interpretando seus personagens, ou deixar os livros de lado e ficar falando besteira, comigo mesmo, ou então levantar para ficar caminhando em círculos, porque estava ficando frio, além do que meu corpo estava muito incômodo por motivos que desconheço - estava coçando demais as pernas e os braços -, então decidi desligar o farol e ao apagá-lo percebi que o breu repentino gradativamente se iluminaria com a quantidade de estrelas no céu que pareciam surgir do nada pois quanto mais eu olhava mais eu via surgir novas estrelas, e isso de algum modo me deixou mais calmo porque eu teria agora um ótimo passatempo (o meu passatempo predileto na infância que estava esquecido) que seria ficar apontando, contando e desenhando as constelações, deitando rapidamente e identificando de imediato a de Escorpião - era agosto -, sempre a minha primeira referência, e embora eu houvesse esquecido a maioria delas ainda conseguiria reconhecer umas vinte na medida em que o tempo passava e novas estrelas se me apresentavam, e eu, meio embriagado pela brisa noturna (que não era nada gostosa de sentir porque era uma brisa muito seca causando uma sede que eu não teria como suprir, porque eu havia bebido rápido demais o pote de água que carregava), ficava lá discutindo comigo mesmo, chegando a gritar às vezes, como se estivesse dentro de meu próprio quarto, e a última constelação que vi surgir antes de adormecer foi a da Lebre, o que denota que passei pelo menos umas cinco horas naquele exercício estranho...
Ao acordar, sentindo a alta temperatura do solo rompendo a camada relativamente fina de tecido do lençol, meus olhos ficaram por vários segundos ofuscados pelo ardente sol matinal, que se erguia solitário na imensidão do céu azul sem estar acompanhado de uma nuvem sequer, e pela extensa camada de terra que minha vista alcançava só se percebia o visual semidesértico, esbranquiçado e claro como é usual à vegetação seca e ao solo sertanejos, de modo que nem quis perder tempo e levantei rapidamente guardando as trouxas na mochila para sair em seguida em busca da ajuda que só encontraria depois de caminhar cerca de trinta quilômetros cercado por aquele ambiente de feitio monótono e carregado de uma vida estranha - sem encontrar uma casa sequer no decorrer da pernada -, havendo ainda o agravante de que o único borracheiro que encontrei só trabalhava com carros, mas topou um remendo de quebragalho no meu pneu que seria suficiente para eu chegar em outra cidade e resolver o problema em definitivo; quando fomos ao local onde estava a moto, havia um guaxinim muito peludo dormindo sobre o banco, e curiosamente o animalzinho nem se assustaria com a nossa chegada, somente saindo de cima da moto quando o mecânico começou a mexer nela, foi quando notei que o guaxinim estava machucado pois ele conseguia andar normalmente mas dava para perceber que estava manquejando em uma das patas e mirei a vista em sua direção de uma forma que, estático, eu o observei indo embora por centenas de metros, como se eu quisesse saber para onde ele iria, vendo-o tornar-se apenas uma pontinha se mexendo na linha do horizonte, sendo esta a minha última lembrança daquele dia, e eu até voltaria para o Sertão depois dessa experiência, como também viveria outros impropérios com a moto; só que esses impropérios já não me incomodavam mais, porque me davam a oportunidade de viver essas emoções tão humanas e viciosas, pensando em alguma coisa - contando constelações, caminhando em círculos, esquecendo até o fato de estar em completo isolamento - só para sentir algo ali, e deixar de sentir o que aqui sinto demais.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Subproduto do esquecimento
Sendo tímido como sempre fui, não foram de se estranhar meus gestos contidos, ainda que estivesse sendo compelido a me sentir completamente à vontade. Estava com coisa de dezoito anos, e vivia ainda tempos bastante movimentados, conforme era comum naquela fase de minha vida (talvez por uma tentativa inconsciente de apagar de minha memória a infância, a pré-adolescência, períodos lembrados sempre como coisas uniformes e mortas em mim.) Na época - como também continuaria acontecendo depois -, eu sempre me esquecia de todas as garotas com quem ficava, todas com quem houvera transado ou a quem tivesse ao menos beijado, quando estava me relacionando com uma outra. Esquecia de forma tão latente das garotas passadas que todas que apareciam na minha vida eram como se fossem a primeira. Neste caso, acrescenta-se a isso o fato de eu estar na casa não de uma garota de minha idade, mas de uma mulher, que tinha sua vida feita, que já fora até casada, que já tinha 35 anos.
Você que é um cara de sorte, confidenciou-me um amigo horas antes, ao saber com quem eu me encontraria. Ainda prevalecia um fetiche, como em todo jovem, pelo desejo de estar com uma mulher mais madura e experiente.
Eu a conheci na Internet, fui suficientemente dissimulado - não de propósito - para que ela visse em mim não um moleque vazio, e sim um rapaz com jeito mais prudente, experimentado. Agora estava em sua casa, olhando para um pequeno birô, bastante rústico, que enfeitava sua sala. Nele, havia muitos porta-retratos. Em alguns deles, fotos dela quando casada - Cristina, seu nome -, junto com o marido e o filho de dois ou três anos.
Esse fim-de-semana ele foi para casa do pai, disse ela ao me ver observando a foto do rebento.
Ela me ofereceu um vinho e eu nem gosto muito dessa bebida mas aceitei, ainda a observar mais a casa do que a lhe dar atenção. Por todos os lugares, eu ainda percebia coisas que não pertenciam a ela. Quadros na garagem, discos na sala, roupas no quarto. Pertences do ex-marido que só lembrava de pegar quando, de repente, sentia falta. Ela continuava a falar.
Há três dias ele veio pegar uma coleção de atlas que compramos certa vez em viagem. Muito bonitos.
Lembrei-me de uma poesia de Bukowski, em que ele se questiona se alguma vez precisará ir visitar alguma mulher de seu passado em busca de uma bermuda. As mulheres de seu passado, ele dizia, pareciam-lhe inexistentes. E para mim também.
Acaso para onde foram todas elas, para onde foram as Claras, Priscilas, Cinthias, Adrianas, Ianas, Gabrielas, e outras, tantas outras, que não são infinitas, mas, certamente, incontáveis, visto que aos poucos elas têm se deletado de minha mente?! Decerto, poucas ainda se lembrariam de mim se eu lhes telefonasse. São nomes e corpos, lábios rosados por natureza ou pintados, peles macias e finas como algodão e silhuetas de diferentes formas que ainda povoam minha cabeça de quando em quando. Com elas, compartilhei ilusões que pareciam belas e sadias, dessas que aquecem e viciam a alma de quem vive castigado pelo sofrimento. Se pudéssemos parar o tempo, esses instantes que eu teria passado com elas teriam valido por tudo no mundo (só que não se pode pará-lo, e, portanto, o que valem, senão nada?), porque os momentos que compartilhamos foram em geral bons momentos, porém nunca os momentos mais necessários. O prazer que se acometia de mim quando estava em suas companhias não se sobrepunha à solidão que eu sentia quando me despedia de cada uma na porta de suas casas, e saia a vagar sozinho pela madrugada.
Contei para a Cristina que estava um pouco apreensivo, e, certamente, poderíamos nos encontrar numa segunda ocasião. Ela me deixou cochilar um pouco em sua casa. Devo ter sido tolo em não poder aproveitar tamanho filão, considerando que ela era mesmo muito atraente e, como muitas mulheres solteiras em sua idade, muito carente e fogosa. Seu jeito maternal, contudo, não me deixava à vontade. Esses tantos pensamentos que me vieram à mente só serviam para me deixar ainda mais oscilante. Depois do breve cochilo que eu dei, disse-lhe que preferia ir embora. Falei que havia bebido demais, estava desanimado. Ela entendeu. Ainda me ofereceu carona, disse que estava tarde, mas eu lhe deixei claro que não precisava. De fato, eu não queria mesmo. E jamais voltaria a vê-la.
Depois de sair de sua casa, mais uma vez segui sozinho e taciturno, numa caminhada extensa e duradoura. Sabia que estava acompanhado somente pela solidão. Pensei na hora que o melhor de mim eu devo ter perdido nessas incompletas aventuras a dois. Agora, somente o meu resto é que passeia calado pela noite escura.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Fissuras reprimidas
Mas eu sabia como ela se chamava, era Andressa, alguém me falou numa certa ocasião, e eu remeti imediatamente a uma outra garota de nome parecido - esta se chamava Andreza, com z - que morava perto da escola onde eu estudava na época do ensino fundamental (eu tinha, sei lá, uns 15 anos, e a Andreza também), e como toda garota daquela área, ela estava sempre em oferta para quem chegasse, o preço não podia ser mais primitivo: era sempre o cara mais forte que chamava a atenção das meninas por ali, e eu nunca fui forte nem nada - apanhei muitas vezes na vida, aliás, apanhei em todas as vezes que briguei -, no entanto teve uma fase em que fiquei amigo do Eric e ele serviu de atalho pois era um cara forte, e não somente forte, era um gaúcho muito bem-apessoado, além de carregar aquele sotaque característico que eu acho chato mas as meninas achavam charmoso e tudo isso formava elementos que despertariam inveja em todos os outros caboclos da turma, eu inclusive. Isso era no ano 2000, e eu conheci o Eric um mês depois de iniciada as aulas, na semana em que se comemoravam os 500 anos do país e havia todas aquelas festividades, o que pra mim era uma chatice enorme, e eu na minha origem punk decidi como uma forma de rebeldia fajuta dessas que a gente nutre na adolescência rabiscar na minha camisa da farda a frase PAU NO CU DO QUINTO CENTENÁRIO, e enquanto andava com essa camiseta no pátio da escola, o Eric me parou certa vez e disse:
Pô, massa demais... até que enfim alguém que pensa como eu por aqui.
Pega, pinta a tua camisa também, falei, entregando-lhe logo uma caneta vermelha, dessas de escrever em lousa.
Dali em diante, eu, com a amizade do Eric, teria algumas portas abertas no meio mais obscuro da escola, porque Eric era um garoto de classe média alta que tinha ido parar ali como forma de castigo, mas seus pais não esperavam que o castigo do garoto se tornasse um carma para eles, porque Eric naquela escola virou rei, rei das garotas, a quem conquistava facilmente e rei da negrada, sendo ele o traficante-mor daquele gueto, carregando sempre dinheiro para fazer circular tudo de bom e de ruim sob vista grossa da Ritinha, a diretora da instituição. Eu e Eric formamos junto com outro cara chamado Maurício uma banda punk chamada Cavalo Amarelo, que depois passou a se chamar Aura Oculta e aí ficamos realmente próximos e com ele comecei a viver mais coisas, comecei a pôr em prática os delírios que eu absorvia da literatura que me convinha (com Jack Kerouac e Neal Cassady falando da magia de viver as ruas e o mundo, fugir dos escritórios e dos ambientes claustrofóbicos, de frequentar meios marginais), e nessa tendência convivi por uns anos com o meio barra-pesada que o gaúcho frequentava, e nesse período foi que conheci, pelas infinitas rodas de bebedeira, a Andreza, que também tinha uma bela bunda como a garota de nome parecido, além de tantas outras conheci nessa fase - só que ao mesmo tempo não conheci nenhuma, pois todas essas meninas que comi e de quem esqueci logo depois foram apenas símbolo de um tempo de deslumbre, quando eu, adolescentemente, queria viver todas as coisas e não vivia nada.
Quando o Eric foi embora - ele sofrera um acidente de carro que o faria perder a voz e os pais mandaram-no para morar com outros familiares no Rio Grande do Sul -, nossas vidas já estavam se desestruturando, de modo que se continuássemos naquela a coisa ficaria preta para nosso lado. A Aura Oculta já era artifício do passado, o Maurício já tinha se tornado pai de família aos 16 anos, e eu terminei ficando sem o meu suporte principal, de maneira que percebi já ser a hora de deixar de frequentar os círculos tenebrosos com os quais eu ainda estava envolvido. Levou pelo menos dois anos para que eu abandonasse completamente essas influências, precisando manter-me recluso, mudando de escola, diminuindo gradativamente meu relacionamento com outras pessoas - tanto as desse meio como as pessoas "comuns" - e precisando segurar a vontade que eu tinha de abandonar o isolamento para retomar os contatos com intuito de comprar algumas trouxinhas de cocaína, mas resisti talvez porque não fosse viciado, e sim apenas fascinado pelas maravilhas narcóticas. A Andreza, porém, que me deu a maior força e foi a única pessoa com quem mantive contato, ficou para trás, no entanto eu soube há não muito tempo que ela havia se mudado. Espero que para bem longe, ainda que hoje ela já não deva mesmo ostentar aquele corpo bonito que mantinha nem talvez o carisma que me fez lembrar dela antes das muitas outras.
No entanto, algumas coisas permanecem, a minha fissura pela cocaína por exemplo era a mesma que mantinha por sexo, e tanto um como outro quando cruzam hoje o meu caminho me fazem remeter àquele período estranho, e por isso eu sempre tentei me convencer de que a cocaína é uma merda, o chá de cogumelo é uma merda, sexo é uma merda, punk é uma merda, só que eu não pensava essas coisas por apreensão, nem vergonha, nem repúdio das memórias que trago, pelo contrário, sem elas não seria o que sou; é apenas porque realmente não gosto mais dessas coisas, elas me chateiam - mas de Kerouac ainda gosto, enfim aprendi a lê-lo. Em paralelo, aos poucos vou tentando me livrar do estigma que sempre carreguei, mas que se intensificou durante e depois daquele período, de valorizar tão pouco as outras pessoas, de maneira que hoje, anos depois, tenho me relacionado melhor com as drogas do que com o sexo (por isto ser uma coisa que necessita de presença alheia, o que para mim é algo potencialmente incômodo) e findo lamentando, quando olho para trás, pela pessoa que eu parecia ser, afeita a certos prazeres tão desmedidos que agora pareço estar sequelado, vendo a garota à minha frente balançar suas belas nádegas redondas em meu convite - e aposto que além desses atributos, ela ainda é uma garota de muito mais cérebro do que todas aquelas que experimentei na adolescência - mas eu prefiro deixar pra lá, para não ter que pensar em tudo de novo.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
50 caixas de sutiãs anatômicos
Mas no sábado a gente vai!, dizia enquanto se afastava.
O sábado chegou, porém, e o Pequeno não reapareceu. Somente na terça-feira eu recebi a informação de que o corpo de alguém encontrado embaixo do viaduto da BR-101, dias antes, poderia ser dele, e estavam solicitando pessoas que o conhecessem. Fui no Instituto Técnico de Polícia e me alertaram desde já que o corpo estava em grande parte irreconhecível não somente pela decomposição, mas porque o rapaz em questão havia sido espancado brutalmente.
Entendo, falei, meio sem saber no que pensar. Parecia estar no piloto automático.
Quando o legista puxou o lençol mostrando-me o corpo, eu até me espantei com o estrago que fizeram com o rosto. Mas eu o reconheci pela sua dentição irregular. Reparo rápido nas dentições das pessoas, talvez porque a minha também é bastante irregular; deve ser uma forma inconsciente de autodefesa, ou de autoafirmação.
É ele mesmo, Pequeno, chama-se José Vieira, não sei o nome todo, falei.
Tudo bem, nós já temos aqui, disse o legista.
Junto com alguns vizinhos - que sempre requisitavam os serviço de Pequeno nas suas reformas -, bancamos um funeral modesto para ele. Pequeno morava com a mãe, uma velha que ainda precisa lavar roupa pra poder se sustentar. Grande parte das minhas economias, inclusive um dinheiro que iria utilizar para viajar para um congresso, repassei para a pobre dona.
Pequeno enchera a cara no Bar do Léo e, segundo a polícia, ao sair, bêbado, foi seguido por dois elementos que esperaram o momento certo - a ocasião em que ele passava sob o Viaduto da BR-101, uma área bastante deserta - e derrubaram-no da bicicleta, encheram de porrada e levaram para casa algo em torno de, sei lá, 30 reais.
O tempo que participei do movimento estudantil na época em que fazia ensino médio tinha sido determinante para que eu pudesse fazer algumas amizades. Se dependesse de minha iniciativa em conhecer pessoas pura e simplesmente por conhecer pessoas, provavelmente eu estaria vivendo num deserto hoje. O hábito de estar sempre em interação me permitiu conhecer pessoas de anos diferentes, turmas diferentes, ser convidado para momentos de confraternização e outras coisas afins que sempre fiz com prazer. Mesmo não mantendo contato com praticamente ninguém, há um respeito latente quando nos vemos, e sempre assunto para algumas horas de conversa.
Com um amigo do passado, porém, essas horas de conversa não mais existirão. Era o caso de Ítalo, que conheci de modo adverso - questionando-o aí em alguma assembléia estudantil anos atrás - mas que depois viramos grandes amigos, também decolou para o além há alguns dias, semanas na verdade. Em viagem de carro para a cidade de Currais Novos, seu pai perderia o controle da direção e sofreriam uma colisão de frente com uma carreta que vinha em sentido contrário, num acidente que foi fatal para as quatro pessoas no carro (a prima de Ítalo ainda sobreviveria mais uns dez dias internada).
Lamentei bastante.
A última vez que o encontrei faz seis meses. Eu estava assistindo algumas bandas instrumentais no Som da Mata e ele me chamou e até me pagou um lanche e papeamos por muito tempo, inclusive saudei-o bastante por ser ainda um cara de ideias avançadas e prosa fácil.
Quando eu pensava, enquanto conversávamos, nas outras pessoas que me circulam hoje, quase todas de conversas redundantes, incapazes de conseguirem falar de algo além do assunto em questão - geralmente alguma merda bem banal - e desarticuladas demais até mesmo para formular algumas perguntas (o que faz as conversas parecerem um interrogatório de minha parte), concluia que deveria ser mais amigo de pessoas como o Ítalo. Mas ser mais amigo não é uma escolha. Deixei por obra do acaso a responsabilidade do nosso próximo encontro, no entanto a vida tomou outro caminho.
Durante anos, o ponto comercial que tem aqui do lado da minha casa esteve alugado a um bom sujeito chamado Tércio. Ele estava agora com seus 50 anos, era um cara vivido, um aventureiro, contudo alguns anos atrás, ele, cansado, já sem tanta saúde, decidira levar uma vida pacata, dividindo com sua esposa - Mercedes, na mesma faixa de idade - e a filha - Juliana Carla, de 21 anos - a propriedade de uma pequena loja de roupas femininas. Tércio passava o dia todo, manhã e tarde, na loja. Lá pelas 14h00, a Juliana aparecia. Depois desse horário, ele ou a esposa, ou às vezes os dois, saiam, para bancos, distribuidoras e coisas assim.
A Mercedes, porém, faleceu pouco tempo depois de abrirem a lojinha aqui. Eles pensaram em fechar a loja, mas Tércio achou melhor mantê-la. Pensava em dar para a filha no futuro. A Juliana e eu nos conhecemos e viramos bons amigos, e até mais - ou menos - que amigos, por muitas vezes já nos pegamos ali na salinha dos fundos da loja. Às vezes, quando tinham algumas peças que não iam mais vender por motivos diversos, como defeitos de fabricação , a Juliana brincava com elas, experimentava, botava, tirava, sob a minha vista e com minha ajuda, claro; depois, jogava as peças fora, ou doava, até para mim mesmo. Eu trouxe várias. Presenteei muitas outras garotas com esses trajes íntimos não-vendíveis. Com a Juliana, a coisa não foi pra frente, mesmo com todas essas travessuras a dois, apesar de que quase namoramos, dada a frequência com que eu ia visitá-la - claro, quando o pai não estava presentes.
Mas ela já tinha outros planos. Arrumou um namorado de fato no meio tempo em que estivemos distantes um do outro e ficou noiva rápido. Conheci o cara quando ele veio à loja certa vez. Não senti inveja dele. A Juliana era uma ótima garota, no entanto eu levaria muito tempo para me acostumar à ideia de casar com ela.
Eles se casaram no início deste ano, só que Juliana manteve o costume de cuidar da loja com o pai. Semana passada, porém, essa rotina foi definitivamente quebrada. Quando a Juliana chegou, pela tarde, no seu horário de sempre, discutiu bastante com o pai porque segundo ele faltavam peças de sutiã. Ele ficou com raiva porque a filha havia sido muito desleixada ultimamente com a loja, e mandou que ela fosse na distribuidora trazer um número previamente acertado de caixas de sutiãs com barbatanas de sustentação anatômica: 50.
Juliana saiu na picape em alta velocidade. Pude ouvir daqui. E sabia que todas as vezes que ela saia rápido assim no carro significavam que havia brigado com o pai.
Entretanto, ela demorou demais. Levou quase duas horas para voltar. Quando enfim chegou, com aquele monte de caixas arroseadas na caçamba, a rua estava pacata como sempre e ninguém tomava conta da loja. Somente quando entrou é que percebeu o pai já desacordado, provavelmente já estava morto; havia tido uma parada cardíaca e nenhum socorro pôde ser prestado pois não havia ninguém para ajudá-lo. Ela chamou a ambulância, mas não adiantou, o Tércio havia mesmo ido. Tudo isso por causa da teimosia em terminar o dia com 50 caixas de sutiãs anatômicos na loja.
A ideia de que um homem morreu aqui na casa ao lado, em si me apavora um pouco. Só que é um pavor que passa rápido. No máximo, gera algum arrepio. De maneira geral, para mim não fez diferença. Eles estavam mesmo para ir embora, afinal. A Juliana fechou a loja, com o falecimento do pai, e foi viver às custas do novo marido. O estoque restante ela vendeu por migalhas, saiu distribuindo, até a mim mesmo ela me viu cinco ou seis caixas de sutiãs dessa. Minha mãe todas pegou para si e para vender no trabalho, eu acho.
Um dia desses toquei violão no trem com uma garota que se chamava Frida, ou pelo menos se identificava assim. Nós nos conhecemos aqui no bairro há três anos, mas eu não dou muito as caras pelas ruas as redondezas, prefiro ficar trancado em casa, então não rola muito de nos encontrarmos. As vezes em que nos conversamos se deram quando nos esbarramos no ônibus, ou no trem. Sempre, pelo menos uma vez por mês, eu esbarrava nela em alguma dessas conduções.
A Frida era uma garota rebelde demais, dos tipos que talvez precise se esforçar para parecer provocativa e ousada, mas dava para notar certa autenticidade nela. Era inteligente, apesar de tudo. Falava sobre várias coisas. Xingava muito. Ainda assim, meu cinismo a irritava mais que os seus xingamentos a certos hábitos meus. Tinha uma energia muito explosiva, emitia emoções facilmente, falava alto e rápido. Gostava de falar sobre livros, já emprestei um ou outro para ela. Depois que ela me devolvia, repudiava a maioria dos livros. Dizia que, se eu fosse recomendar algo, que soubesse fazê-lo. Atínhamo-nos a desconstruir os argumentos do outro. Era um exercício interessante. Ela nunca me emprestou nenhum livro, acho que nem tinha livros, aliás.
Certa vez, ela me comentou o fato de eu nunca ter lhe perguntado onde morava. E questionou se era por falta de interesse que eu não lhe perguntava isso.
Se eu souber onde mora, não ficaria de bom tom para meu lado caso não fizesse uma visita, eu lhe disse, completando: mas não gosto de fazer visitas, como não gosto de recebê-las.
Ela de fato já sabia disso, tanto que entendeu - ou pelo menos achei que houvesse entendido. Numa dada ocasião, insistiu que eu conhecesse sua casa. Então concordei e fui. Sabia que ela morava com a mãe, só que a mãe não estava, e não faço ideia de onde poderia estar. No seu quarto, todas as marcas de sua inconsequência: paredes rabiscadas, alguns desenhos demoníacos em papel jogados debaixo da cama, papelotes de pó convenientemente escondidos nos fundos das gavetas, um cd de músicas incompreensíveis já no ponto no mini-system, só esperando ser dado o play, coisa que ela não demora a fazer.
Gosta desse estilo?, ela pergunta. É gore-grind.
Isso é uma merda, eu disse.
Ela comentou que aquele excremento sonoro tinha exatamente essa pretensão, de ser antimúsica, de fugir de convencionalismos. As músicas se ligavam de maneira bizarra, sem pausas ou intervalos quaisquer. Ela adorava. Dizia que esse som é como um trem pro inferno: não tem freio. Haja contorcionismo conceitual.
Eu falei que não queria cheirar nada, e também não queria ouvir nada. Ela acatou, desligou o som e guardou os papelotes, e passei a noite por lá.
Dois meses depois, eu a encontrei no trem Natal-Parnamirim. Ela estava com violão em punho e perguntou porque eu não a procurei nesse tempo todo. Estava um pouco mais amável do que seu jeito habitual, entretanto continuava elétrica como sempre. Parecia mais bonita também, apesar de a pele estar pálida. Devia estar exagerando nos entorpecentes, eu falei, e ela mudou de assunto. Pegamos o violão e cantamos uma ou outra música. Mas ela não gostava das músicas que eu tocava. Enquanto eu ficava lá dedilhando, ela preferiu pegar a minha agenda e ler se tinha algo escrito. Encontrou um fragmento de poesia.
a vida pra mim é, e sempre foi, uma dor
uma vala de cacos e fatos incolores
uma estrada escura e tão vazia de valores
Só que não houve "um mês depois". No máximo dez dias após essa conversa, soube que ela morrera por acúmulo de entorpecentes. Havia tomado muitos calmantes acompanhados de uma notável quantidade de álcool que potencializou os efeitos dos comprimidos, o que causou uma grande depressão em seu sistema nervoso central fazendo-a perder a consciência e sofrer uma parada respiratória definitiva. Morte.
Já sinto a falta da Frida. E fico a lamentar também pelo Tércio, pelo Ítalo. Lamento também pelo Pequeno, com quem eu sempre conversava enquanto o via trabalhar. Era um sujeito que tinha muito a falar, mas ninguém para ouvir, então eu ouvia. Eu ficava sentado numa cadeira de praia tomando cerveja e dizia para ele segurar a vontade, que depois do serviço poderia beber cerveja à vontade. Apesar disso, eu nunca cumpria a promessa. Sempre dividia com ele a bebida.
Posso pensar que nenhum deles fazia parte da minha vida diretamente, pois não participavam dela, não eram parte do meu cotidiano. Só não é suficiente para deixar de lamentar. Decidi passar para o computador e continuar escrevendo os versos manuscritos fragmentados que tinham sido objeto de apreciação, ainda que breve, da Frida, e enquanto digito sinto um frio sinistro me correr a espinha. Olho ao redor e não vejo e já não sinto nada, não há nem vento aqui. O quarto está todo escuro, e hoje está mais fúnebre do que nos outros dias. Mas eu prefiro não acender a luz.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Por umas horas de sono a mais
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Alegoria de um narcisista
Naturalmente, não era minha intenção: só deve sair de casa pensando em comprar um espelho alguém que realmente não consegue visualizar nada melhor para fazer. Eu estava somente caminhando no Alecrim, no meio daquele amontoado de camelôs e lojas puxando-nos pelo braço, seguia para algum não-lugar, como sempre. Até que, em dado instante, eu o vi - ou me vi, não sei bem. Meu olhar fora preso de batepronto. O fato que estava colocado é que eu não poderia deixar ali aquela magnífica obra: um belo espelho! Não era grande, devia ter algo como um metro de altura. Mas era destacável! Sua moldura, ainda que não fosse carregada de imponência, tinha uma feição hodierna, disposta numa madeira recheada de mesclas douradas e escuras, o que lhe dava muito estilo. A superfície da lâmina de vidro, eficientemente revestida de estanho, suavizava a visão. Evito ser compulsivo quando se trata de comércio, mas desta vez o fui: peguei o dinheiro que tinha e comprei no mesmo instante.
Eu o pus no meu quarto. Estava há tempos sem espelho, talvez por isso não reagi ao impulso de adquiri-lo. O último que tive, quebrei, propositalmente. No dia em que uma garota havia terminado comigo, eu, sentindo-me culpado, não suportando ver minha face horrenda refletida naquele adorno estúpido, descontei justo nele, dando-lhe um murro apenas: toda a vidraça se espatifaria como castelo de cartas. Ainda hoje carrego pequenas cicatrizes na mão direita. Marcas de um passado taciturno que, eu tinha certeza, ficariam para trás com a presença deste novo elemento no meu cotidiano. Depois de comprado o novo espelho, eu nunca mais me interessaria por outro. Para mim, já bastava um no quarto, porque ter qualquer outro espelho no mesmo ambiente geraria em mim a perturbadora impressão de que havia mais pessoas no cômodo. E uma das muitas coisas que me assustam são vultos. Não os vultos de mendigos e delinqüentes, perceptíveis nas sarjetas e por trás das árvores e postes quando se caminha na madrugada. Mas me refiro a outros vultos - os que me impressionam no espelho. Estes, sim. Seres estranhos, os que vivem dentro de nossas cabeças. São os mais perigosos.
Quando olho para o espelho, afinal, não procuro mais de uma pessoa.
Enfim, apliquei-o na parede adjascente à porta de entrada do quarto, ao lado direito, e ficou bem situado também à direita da cama. Esteticamente não era um bom lugar para colocá-lo, mas fui mais levado pela minha pragmática conveniência: é para aquele lado que sempre me levanto, ao acordar. Tal rito passou a ser diário; assim que despertava, eu punha-me a sentar e olhava para ele, em silêncio, durante uns quinze, vinte minutos, às vezes mais.
Depois buscaria um café, um pão, qualquer coisa assim, e voltava para comer ali, sentado na cama, olhando para aquele majestoso espelho, dando sequência à minha liturgia matinal. Ah, nada como aquele espelho para me fazer tão bem! Não compreendia o que me atava a ele. Não era beleza o que eu via, pois não sou bonito, também não era pose
A despeito de todos os questionamentos, esse hábito passou a fazer parte de todos os meus dias, invariavelmente.
O espelho tornou-se, então, parte de mim. Matava ali mais da metade do tempo que me era permitido. Era através dele que eu percebia a verdadeira face exposta em mim mesmo, no cômodo, na aparente cor do dia. Não fosse o espelho, eu não saberia a hora certa de tirar a barba, de dormir, de rir, de ficar sério.
Mas eu atentei para outras coisas além disso. Afinal, foi graças ao espelho que percebi, a partir da própria imagem que eu captava do meu quarto através de sua superfície polida, que as coisas precisavam ser mudadas. Então me situei: estava perdendo o foco de como a beleza de tudo está na mudança, e não na inércia, na imobilidade. No início uma obsessão, o espelho tornou-se, no fim das contas, a expressão do olhar que eu tinha sobre minha própria vida. E eu, que já quebrara um espelho, sabia que este representava, de algum modo, uma segunda e última chance de tentar colocar a vida nos trilhos.
Hoje, já se passaram vários anos desde que adquiri esse entendimento, no entanto por mais que esteja empoeirada em quase toda a armação e sua estrutura notoriamente caquética, esta porcaria risível ainda ocupa espaço central no meu quarto.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Fragmento
Deseja mais alguma coisa?
Fiz que não lentamente com a cabeça.
OK, muito obrigado e volte sempre, disse, apressadamente, mal oferecendo um sorriso e dando as costas.
Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.
domingo, 20 de setembro de 2009
Enfim, Tá na Cara!...
Na nova edição da Tá na Cara!, eu assino quatro textos, são eles:
Catando Histórias no Chão da Praça, um diagnóstico da vida de um mendigo do Centro de Natal, construído a partir de suas vivências relatadas em entrevista na Praça André de Albuquerque;Matou a Garota e Foi à Igreja, um thriller de suspense e selvageria onde se narra os acontecimentos trágicos que levaram à morte pós-estupro de uma menina de 15 anos, baseada na história real de Maria Luiza, que causou bastante repercussão na imprensa local e nacional neste ano. Toda a história é feita a partir das declarações do suspeito, com quem conversei por telefone (ele está preso em local secreto), e das investigações policiais;
Sobre a Carência Feminina, um conto curto onde rememoro momentos diversos em que me vi diante de mulheres no estado emocional em questão;
ABC, Para Além de Qualquer Lógica, uma redação produzida com olhar de torcedor onde se discute a origem da mística que existe em torno do time mais popular do estado, o ABC Futebol Clube. Este texto é parte de uma trilogia a continuar nas próximas edições, que destacam os três grandes do estado (ABC, América e Alecrim);A revista conta ainda com os textos Noite Perdida em Natal, principal matéria desta edição onde se relatam histórias vividas nas casas de drinques diversas da Cidade, e Dez Horas com Juliano Siqueira, minibiografia produzida após quase meio dia de conversa entusiasmada da nossa equipe com esse notório potiguar - ambos escritos por Angelo Girotto (editor e diagramador); Você Escolheu Errado seu Super-Herói, texto do já falado Pablo Capistrano; além das contribuições de Meri Medeiros (militante histórico do Partido Comunista e dos poetas mais reverenciados da cidade), com Rimas do Meu Verso; e de Ubiratan Júnior (professor de Comunicação Social da UFRN), que assina Vida em Clausura: Uma Felicidade Pela Renúncia.
Todas as minhas matérias são ilustradas pela Ana Luísa Medeiros, estudante de Arquitetura que tem diversos trabalhos disponibilizados na internet, cujos desenhos são destaque em todas as edições da revista; ilustra também a Tá na Cara o desenhista argentino Andrés Casciani, autor de obras publicadas na América e na Europa, e que agora, enfim, é publicado no Brasil. A matéria de Angelo é ilustrada com desenhos de Di Cavalcanti.
A revista é trimestral e custa 5 reais, estando à venda nas livrarias Siciliano e nas bancas da região metropolitana de Natal. Ela também pode ser adquirida via internet, bastando apenas fazer contato pelo email leonknunes@yahoo.com.br, sem acréscimo no preço.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
As Artes e Você
sou apreciador.
Nas sete artes
não há o que se descarte
e não há consolador.
Em tuas partes
só faço
admirar-te.
Tu és minha arte,
e teu abraço
- que ainda sinto -
é meu baluarte
(e não minto).
És o que eu vejo,
Estás em quem eu beijo.
Estás até na pintura
dum azulejo.
És a pequena escultura
no jardim.
Ou aquela música
que me falavas:
"esta foi feita pra mim!"
És também o filme
que me entrete.
E até em meus contos
dou mostras de como
meu amor por ti
se derrete.
E no palco dos meu sonhos
Tu és a única estrela
da peça em cena,
que quando começa
fica até fácil notar
na primeira fila,
eu, só a te fitar.
Ao passar das cenas
Vou te vendo tão distante
- e já quase agonizante -
por não poder te tocar
(que pena...)
Que amor surreal,
algo pós-moderno.
Neste texto conceitual
dedico-lhe o que faço
no seu jeito mais terno.
Pois na arte, nada é certo.
O que vale
é ter nosso sonho por perto.
Nem me acho artista,
mas em algo somos iguais:
(vivemos nas nuvens)
somos sonhadores habituais.
E poucos homens
revelam-se desta forma:
eu viveria
sobre uma plataforma
só a te ver bailar
e descreveria
cada passo teu
numa bela caligrafia
e no teu olhar
em minha direção
eu logo pensaria:
"agora sou eu!"
E por mais fria
que fosse a noite
eu contigo dançaria,
até que surgissem no céu
as ingratas luzes do dia.
E mesmo se fosses embora
eu pensando ficaria
que a nossa dança,
em meus sonhos,
nunca terminaria.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
No alto da serra
Em todo o tempo que passei, meu silêncio só foi interrompido algumas vezes por pessoas que buscavam informações, ou queriam fazer novos amigos. Eu nunca estou muito aberto a isso, embora até que considerasse, e chegávamos a conversar por algum tempo. Geralmente vinham em grandes grupos, às vezes turistas, ou grupos de estudantes em aulas de campo, mas também apareciam pessoas que vinham sozinhas ou com suas famílias, tirarem fotos e conversarem pra caramba. Mais de uma vez me ofereceram alguma coisa, algum petisco para comer e me convidaram a mesa. Topei em uma dessas vezes.
Que tá fazendo por aqui?, perguntou-me um cara bem falante.
Sou professor, vim tirar umas fotos para mostrar a meus alunos, falei. Obviamente estava mentindo, nem máquina fotográfica eu havia levado. Ainda bem que ele não pediu pra ver as fotos, ou tirar alguma deles.
Essas são minha esposa e meus filhos - um casal de crianças. Sempre me pedem pra vir aqui, mas detesto subir essa serra, meu carro é do tipo que só se comporta bem em sentido plano.
Também não gosto, disse.
Quer carona depois daqui?, perguntou.
Não, obrigado. Estou de moto.
Ele ficou um bom tempo falando que já foi motociclista, e dos riscos que essa prática traz. Felizmente, não demorou a ir-se embora. Assim me ative novamente às minhas divagações, a perder meu olhar no meio da vastidão de terra e água que se podia enxergar daquele mirante, e a enveredar mais algumas doses. Aos grupos que passavam, eu praticamente ignorei; às vezes, recebia algum aceno de cabeça e retribuía. Noutras, perguntavam o que achavam daquele local, daquela atração, e eu só dizia um "ô, muito bom", e pronto. Até porque para mim não era bem uma atração, era apenas um bom lugar, como uma praça, só que mais distante - uns 350km - de casa.
Já perto de ir embora me apareceu um confeiteiro com quem esbarrara noutras ocasiões e era muito bem-relacionado. Não lembrava bem o nome dele, parece que era Décio, mas não arrisquei mencionar. Era negro e baixo, devia ter 1,50m de altura, careca, tinha uma voz engraçada. Ele me reconheceu fácil pelas tantas vezes que fui ali, e lembrava inclusive meu nome, o que me surpreendeu e me deixou um pouco sentido de não lembrar o seu. Os responsáveis pelo mirante não gostaram muito. Notei de longe que olhavam estranho pra minha mesa quando o confeiteiro sentou comigo.
Ignorei o olhar e fiquei a prosear algum bocado com o velho camarada, e ele ainda me perguntou, onde está Cinthia? É Cinthia o nome de sua namorada?
Espantei-me novamente com o vigor de sua memória, e confirmei, sim, é Cinthia. Aliás, era, não namoramos mais há uns três anos, he-he...
Puta merda, dou muita bola fora, falou, em tom de brincadeira.
E eu confirmei.
Por algum tempo, conversei com ele apenas no piloto automático e fiquei com a imagem da Cinthia na cabeça. Eu e ela tínhamos ido ali meia dúzia de vezes, pelo menos. Ela, em todos os instantes, se admirava com a paisagem: é a coisa mais incrível do mundo, dizia. Talvez a Cinthia não tivesse visto outras maravilhas naturais que servissem como parâmetro de comparação, mas eu sempre concordava: a coisa mais incrível do mundo. Queria que ela ainda estivesse aqui; era só nisso que eu pensava.
Parece que notando o olhar de soslaio dos responsáveis pelo mirante, o confeiteiro rompeu meus devaneios e fez sinal para me falar algo no ouvido. Amigo, disse ele quase sussurrando, me acompanhe que há um lugar muito bom que vou te mostrar, porque aqui daqui a pouco está fechando. Venha, você vai gostar de conhecer.
Como eu já estivesse mesmo de saída, topei. Saímos caminhando, deixei a moto lá estacionada. Era fim de tarde e andamos por umas ruelas de areia envolvidas por grandes árvores. Como já estava chegando a noite, já não era possível enxergar muita coisa, os meus olhos até lacrimejavam. O Décio, ou seja lá qual fosse seu nome, permanecia calado. Percebendo que a situação tomava contornos muito estranhos, eu, mesmo um pouco bêbado do conhaque - ainda levava a garrafa com bastante bebida na mão - decidi não arriscar mais. Bati-lhe a mão no ombro, segurando-o com alguma firmeza, e falei:
Meu velho, preciso voltar, a noite já chegou e estou muito indisposto. Obrigado pelo papo, pegue esse conhaque pra você. Adeus.
Falei protuberantemente e com uma convicção tal que ele nem ameaçou insistir.
Voltei para o mirante e peguei a moto, já estava escuro e eu não tinha muitas condições de fazer nova viagem de volta pra capital, decidi passar a noite ali por perto, em alguma suíte. Fui para a Pousada Bela Vista, não é muito barata mas era a única que conhecia, era lá onde sempre me hospedava quando acompanhado pela Cinthia, e não tinha saco pra fazer pesquisa de preço agora.
Assim que cheguei, dormi por algumas horas, acordando pouco depois da meia-noite, e aí não consegui mais adormecer. Tava com uma puta vontade de escrever, mas não tinha nada, nem computador, nem mesmo papel. Não tinha livros pra passar o tempo, mas tinha apenas uma TV, que, no entanto, não me serviria. À parte disso tudo, não tinha a Cinthia - o que tornava aquele ambiente muito mais morto e torturante para mim. O único subterfúgio que restava era a bebida, que eu não tinha mais. À minha disposição, ali, só havia um bom aparelho de som. Abri a janela, deixei aquele frio pesado das serras entrar no cômodo, e fiquei sentado a contemplar a imensidão negra lá fora ouvindo músicas lúgubres e lamentando mais de mil vezes por ter dado o litro de conhaque para o confeiteiro.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
O kit-net da Rua Neópolis, parte 1
Eu ainda estava no primeiro ou no segundo trabalho num escritório pequeno quando precisei ir pra lá, brigado com a família, jubilado da faculdade, sobrevivendo com migalhas de um batente que eu sabia ser temporário. Saí de casa e o primeiro lugar a que fui foi o Hotel Nordeste, que hoje mudou de nome - como se fosse possível, assim, livrar-se da má fama. Passei apenas uma noite ali, num quarto que não tinha nada, nem uma radiola que fosse, as camas (beliches) não tinham cobertas, a parede caía aos pedaços e não se identificava nem mesmo sua cor original, além de que, o pior de tudo, não era suíte. Eu precisava dividir o banheiro, que ficava no final do corredor, com todos os tipos de meretrizes e cafetões e viciados. Na primeira vez que fui lá, uma rapariga estava sentada, ao lado do vaso, meio alucinada. Olhei da porta comiserativamente e voltei. O banheiro é um altar muito decadente, mas muito necessário para muita gente, para mim inclusive. Muitas e muitas vezes me vi trancado no banheiro querendo fugir até mesmo do ambiente familiar que a sala, a cozinha da casa proporciona.
Depois do Hotel Nordeste, saí pulando de pensões em pensões. Algumas até muito boas, porém a grana que eu tinha não era suficiente para manter um padrão mínimo de qualidade. Fui escolhendo pensões cada vez mais distantes do Centro e com gradativamente menos regalias. Até que, já começando a alimentar alguns acessos de desespero, encontrei no jornal o anúncio de um kit-net cujo aluguel nem se aproximava dos 100 reais de tão baixo, mesmo assim acompanhado de água e energia. Dirigi-me até lá na hora. A única coisa que tinha era um violão e uma mochila. Gostava da coisa de ser andarilho, de não ter um lugar específico que me prendesse, mas eu estava começando a perceber que havia muitos revezes desagradáveis nesse modo de vida - muito mais do que os que eu imaginava.
A Rua Neópolis fica no último bairro de Natal - na verdade já fica no território da cidade vizinha. Não havia muitas casas por perto, e as casas que havia viviam fechadas e com luzes apagadas. Não era possível saber se tinha gente morando nelas ou se estavam abandonadas, ou eram segunda casa, nada disso. Além do que, sobravam terrenos vazios: áreas cercadas, recheadas de mato crescente, o que denotava que aquela área ainda estava esperando sua vez para crescer. Eu me lembro de quando estava procurando o local; tinha apenas uma anotação indicando sua localização exata e lembro que, assim que encontrei a rua, me assustei com tamanho prolongamento. A rua devia ter quilômetros, talvez. Ela começava com casas estáveis, pequenos comércios, e na medida em que alçava os metros, notava que o asfalto sumia sob a areia enrijecida e pastel e, como já falara, as residências iam se escasseando. O kit-net que eu procurava ficava no final da rua, depois de subidas e descidas, onde a estrada era pura terra batida, embora desse pra notar alguns filetes asfaltados, o que demonstra que na verdade a área ali até já recebera uma atenção mínima do governo com uma pavimentação de má qualidade. O kit-net, eu fiquei olhando por uns minutos antes de entrar. Havia uma fileira de portas e janelas, devia ser uns sete ou oito. Começava a criar na minha cabeça a ligação com aquele lugar em que, presumia, passaria um bom tempo. A casa da dona do kit-net, a Sra. Jocastra, ficava mais adiante. Não tinha muito a lhe dizer.
QUERO UM KIT-NET, AQUI ESTÁ, PAGO ADIANTADO DOIS MESES.
CALMA, MEU FILHO, NÃO É ASSIM. E começou a falar, e falar, e falar. Tratavam-se apenas de amenidades, ela também não tinha nada a dizer. Depois do falatório, passou-me a chave e deu boa tarde - embora já fosse o início da noite. Fui para o meu quarto.
O ambiente não tinha muita coisa. Eram dois cômodos maiores, que podiam ser um quarto, sala e cozinha, além do banheiro. De aproveitável, só havia mesmo o sofá verde-musgo, já envelhecido, entretanto pelo visto ainda estava em condições de uso, acompanhado duma poltrona; uma televisão velha, ainda que perfeitavelmente utilizável; uma cama de solteiro pequena, parecia ser um modelo juvenil, com uma colcha muito fina, um birô no qual eu poderia guardar as minhas roupas. Poderia ser aconchegante se o cubículo não fosse sujo e abandonado. As gavetas do birô denunciavam com um odor bem desagradável a presença de insetos ali, tipo baratas. Por muito tempo, deixei minhas roupas guardadas na mochila. Comprei uns pôsteres para as paredes. Comprei livros e livros. Com tudo isso, comprei também um pequeno rádio para comper o silêncio em algumas madrugadas tristes.
A primeira pessoa que conheci nas redondezas foi de modo estranho; era madrugada e estava deitado no sofá ouvindo música clássica na televisão com as luzes apagadas, até que percebi pela sombra emitida sob a porta que alguém estava se aproximando. Logo bateram na porta. Fingi-me de desentendido. Bateram novamente.
QUEM É?
POR FAVOR, QUERO UMA AJUDA. Parecia a voz de um cara não muito saudável. MORO AO LADO, afirmou.
SAIA DAQUI, QUERO DORMIR.
POR FAVOR!
Decidi abrir a porta. PRAZER GAROTO, MEU NOME É TIMÓTEO, MORO AQUI AO LADO, repetiu. Ficamos nos olhando um tempo, alguns segundos em silêncio. Fiz uma careta como se perguntasse o que ele queria. TENHO UMA BEBIDA AQUI COMIGO, QUE TAL SE ENTRASSE PRA GENTE CONVERSAR UM POUCO?
Abri a porta, ele parecia inofensivo, trazia consigo apenas uma garrafa de cachaça quase cheia. Não questionei porque na época eu também não tinha dinheiro para comprar bebidas de mais requinte e sabor. Tinha uns copos descartáveis e bebemos juntos. Ele realmente era menos velho do que eu pensava.
POR QUE VEIO AQUI?
TAVA COM UMA MENINA NA CAMA E ELA ME EXPULSOU, VEJA SÓ, ME EXPULSOU DE MINHA PRÓPRIA CASA. Sentenciou: EU SOU UM MERDA.
EXPULSOU POR QUÊ?
PORQUE EU GOZEI DENTRO.
Achei que convinha ouvir outras bizarrices de sua vida. Timóteo trabalhava numa peixaria ali perto, bem se notava um mal cheiro quando ele se aproximava, mas, como se fosse psicológico, aquele fedor nauseabundo se tornou ainda mais forte depois que ele disse qual era seu trabalho.
Conversamos até amanhecer e o Timóteo me disse que também era como eu, também era aventureiro antes de chegar ali - morava num daqueles kit-nets há seis anos. NA ÉPOCA, SÓ EXISTIAM ESSES KIT-NETS. NEM AS CASAS ABANDONADAS DA RUA ESTAVAM AÍ, ele disse. MAS ESSA VIDA, MEU IRMÃO, ESSE BARRACO, E PRINCIPALMENTE ESSE TRABALHO MALDITO ACABOU COMIGO, FOI A PARTIR DELE QUE ME TORNEI O MERDA QUE SOU, completou.
Eu acreditei. Ele tinha voz fraca e esforçada. Sua face era recheada de suor incrustado e sua pele já dava sinais de falecimento, isso embora ele me dissesse ter 30 anos.
No início, eu tentei evitar maiores contatos com Timóteo; a maior parte do meu tempo eu vivia fora, ou ia para a faculdade só reencontrar os amigos, vez que não tinha mais matrícula, ou ia para algum outro lugar que me permitisse parar e ficar perdido em pensamentos, como um bar, uma praia. Apenas uma parte do dia eu trabalhava, no escritório. Nessa fase, escrevia bastante, e como estava sem computador, passei a me acostumar a escrever manuscritos, coisa de que nunca gostei. No trabalho, a única mudança era quando havia uma necessidade de digitar um memorando; mas quase nunca exigiam. Com o tempo, por inércia, acabei me tornando indisciplinado. Faltava demais, ou me atrasava, ou dava um jeito de sair cedo. Passei três meses lá, e a grana que peguei de saída, uns 400 reais, seria a minha única renda nos três ou quatro meses seguintes.
Passei a comer menos, bem menos. Antes meu almoço era num restaurante popular, desses barriga-cheia. Agora, já nem almoçava mais. Saia ao dia e voltava à noite, e comia alguns pães com um café, com um fogão duas-bocas que eu houvera comprado.
Depois da primeira fase de estranhamento com o Timóteo, nós nos reaproximamos e ele me ajudava arrumando uma margarina, uma cachaça, algum troço assim. Como ele tinha mais bebida que comida, passei a beber mais do que comer em paralelo. PRECISO DE UM TRABALHO, eu lhe falei. NÃO DÁ PRA FICAR ASSIM.
Ele dizia que veria o que podia fazer por mim na peixaria; fora dali, eu não tinha muitas expectativas. Morando na periferia, era difícil procurar emprego na Cidade porque o deslocamento era muito despendioso, sobretudo para quem teria que viver com a grana que restava. Timóteo me arrumou, na peixaria em que trabalhava de peão, uma entrevista com o gerente, um tal Seu Correia. A entrevista durou menos de cinco minutos, depois deixei meu contato e fui embora.
E AÍ, COMO FOI NA ENTREVISTA?, perguntou-me Timóteo à noite, depois de colocar uma dose de cachaça nos copos.
FOI MUITO PRODUTIVA. MENTI QUE SÓ A PORRA, falei, e ele deu uma longa gargalhada, ao que eu também caí na risada. De fato, eu havia mentido em algumas coisas na entrevista, não tinha a menor chance de conseguir o trabalho se não fosse assim. Era meio surreal a coisa de achar engraçado estar me aproximando do fundo do poço.
Timóteo me desejou boa sorte, mesmo assim, e disse que sairia da peixaria. Disse que estava vendo aí uns negócios em que poderia se dar melhor. Também lhe ofereci boa sorte. Depois disso, ele passou uns dias sumidos e eu estranhei sua ausência. Nesse período, eu havia trabalhado numas coisas bobas, tipo entregar panfleto, e havia conseguido uns trocados suficientes para pagar uns almoços de quando em quando. Começava a me sentir sozinho na região quando conheci, no longo trajeto até a parada de ônibus, uma senhora que morava com a filha perto de mim e precisava de um conserto no seu computador.
POSSO AJUDÁ-LA, falei. TENHO EXPERIÊNCIA NISSO.
De fato, consegui resolver o problema dela, que não era nada sério para mim que havia feito um curso - inacabado - de Desenvolvimento de Software. Tanto a mãe como a filha eram bastante simpáticas, e, sobretudo com a filha, a Ana Paula, uma menina com talvez dezesseis, eu criei uma ótima relação, de maneira que ela até me fazia visitas ocasionalmente, embora eu não gostasse, visto que o kit-net não era lá apresentável; de qualquer modo, com o tempo, visitaria ainda mais. O vínculo parecia ter sido construído tão rápido que sua mãe me convidara para fazer uma viagem de uma semana com elas para Monte Alegre, uma cidade não muito distante. Pensei que faziam isso por ter pena de mim, um pobre garoto com emprego vagabundo e sem família por perto. Então, recusei.
Elas se foram e, sem que o Timóteo voltasse, tornei a me sentir solitário. Mais ainda quando, na mesma noite em que elas se foram, eu notei um movimento no kit-net ao lado. Pensei ser o Timóteo e fui vê-lo. Na verdade, era a Sra. Jocastra que estava lá arrumando algumas coisas sem a menor delicadeza.
O QUE QUER?, perguntou quando me viu.
ONDE ESTÁ O TIMÓTEO?
ELE FOI EMBORA, TAVA PROGRAMADO PRA IR, JÁ.
Estranhei o sumiço do Timóteo e o fato de não ter comunicado o fato antes de ir. Fiquei meio puto por um instante, porém isso se amenizou porque eu achei que minha raiva não era justificada. Timóteo não me devia nada, afinal. Pelo contrário. Ajudou-me bastantes vezes naquele período desgraçado. Eu havia voltado à estaca zero, não tinha mais nenhum bico, não tinha mais dinheiro e não tinha mais comida, só bebida. Acordei no dia seguinte e quando fui olhar a hora no celular - eram 9 horas -, fiquei espantado ao ver que houvera recebido uma mensagem.
Percebi que já estava atrasado uma hora e me apressei, lavei o rosto rapidamente e só fiz beber uma água da torneira, nem tive tempo de tomar banho ou sequer escovar os dentes. Apesar das desavenças com a minha pouca pontualidade, trabalhei o primeiro dia e voltei para minha cama, exausto, e dessa vez bebi bastante não por falta de comida, mas por falta de apetite mesmo. À noite, faltaria luz em todo o bairro - e assim seria durante os trinta dias seguintes, um defeito incorrigível da companhia de energia do estado. A sra. Jocastra disse que não poderíamos reclamar porque toda a nossa energia era adquirida por gambiarra. Eu me lembrei de quando o Timóteo me dissera que, apesar de tudo de ruim que acontecera antes, seu primeiro dia de trabalho na peixaria fora o marco inicial da sua decadência. Isso ficou por tanto tempo na minha cabeça que deu vontade até de chorar. Mas eu não chorei.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Deve ser herança da adolescência
É tão estranho o clima de meio de ano, porque vejo mais pessoas no clube de pôquer. Várias delas estão de férias, não estariam ali em outros dias, outros meses. Conseguem, sei lá, um mês para não fazer nada e vão perder o dinheiro que têm de sobra com qualquer bobagem. Eu não tenho férias no meio do ano, então pra mim o cotidiano e suas responsabilidades nunca mudam muito. Alguns que jogam comigo comemoram. Hoje o clube tá bombando!, dizem. Eu acho chato demais, e geralmente quando percebo isso vou embora.
Queria procurar um lugar para arejar a cabeça, mas não encontraria. Natal tem poquíssimos pontos que propiciam isso, tão poucos que não lembro de nenhum. Ainda eram três da tarde e, de tão longe de casa, preferi ficar na rua até cair a noite, quando iria pra faculdade fingir que assisto aula, e encheria o saco dos professores com coisas que eles deviam saber e não sabem. Mas demoro muito para pensar, tanto que logo cairia uma chuva pesada e eu fui pego desprevenido. Procurei um meio de não ficar ali na rua, me molhando, ou abrigado sob um posto de gasolina. Como, aliado à chuva, havia o fato de a bebida ter me enebriado um pouco, decidi deixar minha moto onde estava e pegar um ônibus, dar um arrodeio pela cidade. Depois de uma viagem de uma hora acho que já estaria mais sossegado. Gastei duas pratas na passagem, e isso zerou a minha carteira, pois havia saído com trinta reais de casa.
A viagem de ônibus durou exatamente uma hora, a chuva enfim houvera passado - ainda que alguns materiais que eu carregava tivessem se molhado antes que pudesse notar -, e desci na mesma parada em que tinha pego a condução.
Quando saltei, uma pessoa bem conhecida estava na parada e me viu e cumprimentou. Eu não sei o que penso agora, mas na hora achei que era melhor não ter descido ali.
Oi amigo!, tudo bem?
Era uma ex-namorada, que agora fazia questão de me chamar de amigo. Cumprimentei, sorri, perguntei como estava. Ela estava bem.
E você?, perguntou-me, automaticamente.
Conversamos algum tempo, e ela até tentava ser doce e simpática, mas não era esse seu jeito. Geralmente, tentava me deixar nervoso, e eu às vezes terminava fazendo a mesma coisa. Chamei-a para jogar no clube de pôquer. Ela gostava de jogar cartas, pelo menos antes de virar evangélica.
Não gosto de pôquer, nunca gostei.
Eu sei, mas o que custa aprender? Você sempre gostou de jogos de baralho.
Gostei de alguns, não de todos.
A sua voz bonita e carregada de um certo cansaço estava mais próxima daquela que me marcara no passado, de maneira que comecei a ficar mais à vontade – acho que ela também.
Você não tá trabalhando, né?, perguntou-me. Pra ficar jogando pôquer numa tarde de segunda-feira, só estando desocupado...
Na verdade, estou sim, mas sei lá, trabalho quando quero, dia sim, dia não, nunca fui afeito a trabalhos que exigem muita disciplina... expediente não é comigo...
Sei... disse, sarcasticamente, e completou: tenho pena dos seus alunos.
Você é um amor, falei.
Depois disso, ela pegou o primeiro ônibus que passou e se foi, sem dizer tchau e sem dar sequer um aperto de mão. Fiquei vendo-a subir meio apressadamente, e lembrando que no dia anterior eu estava com dois amigos bebendo e cantando no teto de um galpão do Centro de Convenções, sem ninguém por perto num raio de quilômetros, com toda a deslumbrante vista para a praia e para as coleções de luzes artificiais dos prédios e naturais das estrelas e da lua, e com tudo isso, era nessa garota que eu pensava, na vez que estivemos ali, anos atrás. Enquanto o ônibus ainda estava parado, até que ela sumisse completamente de minha vista não levaria nem dez segundos, mas eu ainda lhe dei um aceno e falei, de maneira que pudesse ouvir: vou escrever um conto sobre você!
Ela riu de dentro do ônibus; detestava meus contos, sempre detestou.
Já era fim de tarde e fui para faculdade e lá, no pátio largo, encontrei um amigo, estava chapado e observando os arredores. Sentei com ele e conversamos um pouco, ficamos olhando as garotas passando e alguns senis seguindo-as. Não tivemos muito tempo. Ele foi logo embora e fui para as aulas, que foram uma merda: hoje, perdi todos os debates. Estava com a retórica fragilizada pelo desânimo e toda aquela droga de turma se unira contra mim. Fui embora mais cedo, não fiquei para o último horário.
Antes de ir para casa, porém, passei na praia e fiquei em pé, olhando para o mar. O tempo estava bonito e eu tão sereno quanto. Havia um quiosque próximo, acompanhado de várias mesas, a maior parte delas ocupadas por casais. Observei um pouco, mas não comi nada, sequer sentei. Um dos casais, entretanto, era formado por velhos colegas, havíamos estudado juntos.
Sente-se aqui, venha!
Não, não, obrigado, respondi, depois de cumprimentá-los.
Venha, rapaz!, insistiam. Comecei a me arrepender de ter estado ali.
Uma vez que continuavam a me chamar, como se tivessem algo para dizer - mas não tinham nada, disso eu bem sabia -, precisei fingir que não os ouvia mais para que parassem.
Não durei nem meia hora e me despedi da orla. A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi deitar na cama, ainda arrumado, e havia tirado apenas os sapatos. Da cama mesmo, eu ia tirando tudo: relógio, celular, a carteira eu ainda abri uma última vez, para confirmar que de fato não tinha nada. De um dos bolsos da calça, tirei um pendrive e uma caneta, e de outro que pensava não ter nada, puxei alguma quantia em dinheiro. Quinze reais, que eu não sabia que estavam ali. Fiquei um pouco espantado na hora. Espantado e aborrecido. Por um instante, pensei que deveria ter gastado tudo aquilo na mesa de pôquer, mais cedo. Mas fiz bem em não fazê-lo; já bastava de derrotas por hoje.
