domingo, 20 de setembro de 2009

Enfim, Tá na Cara!...

Dou pausa nos contos e poemas para anunciar a publicação da 3ª edição da revista Tá na Cara!, para a qual escrevo e reviso, além de fazer parte do conselho editorial. A revista foi agraciada com uma cerimônia de lançamento realizada na Livraria Siciliano do shopping Midway Mall (Natal), na qual estiveram presentes mais de 50 pessoas e foram vendidas pelo menos 30 edições. O lançamento contou com a presença ilustre de Juliano Siqueira (militante político, ex-vereador de Natal, ex-deputado pelo RJ, professor de Direito da UFRN) e homenageado nesta edição e Pablo Capistrano (escritor mais vendido do estado e uma das revelações nacionais da Editora Rocco, que relançou seu livro Pequenas Catástrofes), que emprestaram, durante 50 minutos, seus conhecimentos sobre técnica literária, jornalismo, política e mídia participativa na cerimônia.

Na nova edição da Tá na Cara!, eu assino quatro textos, são eles:

Catando Histórias no Chão da Praça, um diagnóstico da vida de um mendigo do Centro de Natal, construído a partir de suas vivências relatadas em entrevista na Praça André de Albuquerque;

Matou a Garota e Foi à Igreja, um thriller de suspense e selvageria onde se narra os acontecimentos trágicos que levaram à morte pós-estupro de uma menina de 15 anos, baseada na história real de Maria Luiza, que causou bastante repercussão na imprensa local e nacional neste ano. Toda a história é feita a partir das declarações do suspeito, com quem conversei por telefone (ele está preso em local secreto), e das investigações policiais;

Sobre a Carência Feminina, um conto curto onde rememoro momentos diversos em que me vi diante de mulheres no estado emocional em questão;

ABC, Para Além de Qualquer Lógica, uma redação produzida com olhar de torcedor onde se discute a origem da mística que existe em torno do time mais popular do estado, o ABC Futebol Clube. Este texto é parte de uma trilogia a continuar nas próximas edições, que destacam os três grandes do estado (ABC, América e Alecrim);



A revista conta ainda com os textos Noite Perdida em Natal, principal matéria desta edição onde se relatam histórias vividas nas casas de drinques diversas da Cidade, e Dez Horas com Juliano Siqueira, minibiografia produzida após quase meio dia de conversa entusiasmada da nossa equipe com esse notório potiguar - ambos escritos por Angelo Girotto (editor e diagramador); Você Escolheu Errado seu Super-Herói, texto do já falado Pablo Capistrano; além das contribuições de Meri Medeiros (militante histórico do Partido Comunista e dos poetas mais reverenciados da cidade), com Rimas do Meu Verso; e de Ubiratan Júnior (professor de Comunicação Social da UFRN), que assina Vida em Clausura: Uma Felicidade Pela Renúncia.

Todas as minhas matérias são ilustradas pela Ana Luísa Medeiros, estudante de Arquitetura que tem diversos trabalhos disponibilizados na internet, cujos desenhos são destaque em todas as edições da revista; ilustra também a Tá na Cara o desenhista argentino Andrés Casciani, autor de obras publicadas na América e na Europa, e que agora, enfim, é publicado no Brasil. A matéria de Angelo é ilustrada com desenhos de Di Cavalcanti.

A revista é trimestral e custa 5 reais, estando à venda nas livrarias Siciliano e nas bancas da região metropolitana de Natal. Ela também pode ser adquirida via internet, bastando apenas fazer contato pelo email leonknunes@yahoo.com.br, sem acréscimo no preço.


Foto: eu (camisa verde-musgo) com amigos e membros do Conselho Editorial, no final do lançamento.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

As Artes e Você

Eu não sou crítico da arte;
sou apreciador.
Nas sete artes
não há o que se descarte
e não há consolador.

Em tuas partes
só faço
admirar-te.
Tu és minha arte,
e teu abraço
- que ainda sinto -
é meu baluarte
(e não minto).

És o que eu vejo,
Estás em quem eu beijo.
Estás até na pintura
dum azulejo.
És a pequena escultura
no jardim.
Ou aquela música
que me falavas:
"esta foi feita pra mim!"
És também o filme
que me entrete.
E até em meus contos
dou mostras de como
meu amor por ti
se derrete.

E no palco dos meu sonhos
Tu és a única estrela
da peça em cena,
que quando começa
fica até fácil notar
na primeira fila,
eu, só a te fitar.
Ao passar das cenas
Vou te vendo tão distante
- e já quase agonizante -
por não poder te tocar
(que pena...)

Que amor surreal,
algo pós-moderno.
Neste texto conceitual
dedico-lhe o que faço
no seu jeito mais terno.

Pois na arte, nada é certo.
O que vale
é ter nosso sonho por perto.
Nem me acho artista,
mas em algo somos iguais:
(vivemos nas nuvens)
somos sonhadores habituais.

E poucos homens
revelam-se desta forma:
eu viveria
sobre uma plataforma
só a te ver bailar
e descreveria
cada passo teu
numa bela caligrafia
e no teu olhar
em minha direção
eu logo pensaria:
"agora sou eu!"

E por mais fria
que fosse a noite
eu contigo dançaria,
até que surgissem no céu
as ingratas luzes do dia.
E mesmo se fosses embora
eu pensando ficaria
que a nossa dança,
em meus sonhos,
nunca terminaria.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

No alto da serra

Eu estava ainda na primeira metade da garrafa de conhaque, embora a tarde aos poucos já anunciasse o seu fim. As outras pessoas começavam a ir embora, o local começava a esvaziar-se. Eu estava no Mirante do Canto, um lugar situado no alto da Serra de Martins e que proporciona uma vista incrível de outras serras preenchidas pelo verde, de rios que cortam as terras em rumos sinuosos e azuis demais, alguns pequenos cercados camponeses, tudo sob a imensidão de um céu de sol e nuvens leitosas, paisagem que eu já vislumbrara noutras ocasiões, mas que agora não me parecia mais tão bonita. Eu havia chegado umas três horas antes, o tempo estava frio mas mesmo assim comprei uma cerveja. Só que não queria cerveja. Antes de terminá-la, comprei um conhaque, porém ali estavam vendendo somente em dose. Saí e comprei uma garrafa e voltei para o mirante. Estava a fim de beber até ver tudo engolido pelo breu da noite.

Em todo o tempo que passei, meu silêncio só foi interrompido algumas vezes por pessoas que buscavam informações, ou queriam fazer novos amigos. Eu nunca estou muito aberto a isso, embora até que considerasse, e chegávamos a conversar por algum tempo. Geralmente vinham em grandes grupos, às vezes turistas, ou grupos de estudantes em aulas de campo, mas também apareciam pessoas que vinham sozinhas ou com suas famílias, tirarem fotos e conversarem pra caramba. Mais de uma vez me ofereceram alguma coisa, algum petisco para comer e me convidaram a mesa. Topei em uma dessas vezes.

Que tá fazendo por aqui?, perguntou-me um cara bem falante.

Sou professor, vim tirar umas fotos para mostrar a meus alunos, falei. Obviamente estava mentindo, nem máquina fotográfica eu havia levado. Ainda bem que ele não pediu pra ver as fotos, ou tirar alguma deles.

Essas são minha esposa e meus filhos - um casal de crianças. Sempre me pedem pra vir aqui, mas detesto subir essa serra, meu carro é do tipo que só se comporta bem em sentido plano.

Também não gosto, disse.

Quer carona depois daqui?, perguntou.

Não, obrigado. Estou de moto.

Ele ficou um bom tempo falando que já foi motociclista, e dos riscos que essa prática traz. Felizmente, não demorou a ir-se embora. Assim me ative novamente às minhas divagações, a perder meu olhar no meio da vastidão de terra e água que se podia enxergar daquele mirante, e a enveredar mais algumas doses. Aos grupos que passavam, eu praticamente ignorei; às vezes, recebia algum aceno de cabeça e retribuía. Noutras, perguntavam o que achavam daquele local, daquela atração, e eu só dizia um "ô, muito bom", e pronto. Até porque para mim não era bem uma atração, era apenas um bom lugar, como uma praça, só que mais distante - uns 350km - de casa.

Já perto de ir embora me apareceu um confeiteiro com quem esbarrara noutras ocasiões e era muito bem-relacionado. Não lembrava bem o nome dele, parece que era Décio, mas não arrisquei mencionar. Era negro e baixo, devia ter 1,50m de altura, careca, tinha uma voz engraçada. Ele me reconheceu fácil pelas tantas vezes que fui ali, e lembrava inclusive meu nome, o que me surpreendeu e me deixou um pouco sentido de não lembrar o seu. Os responsáveis pelo mirante não gostaram muito. Notei de longe que olhavam estranho pra minha mesa quando o confeiteiro sentou comigo.

Ignorei o olhar e fiquei a prosear algum bocado com o velho camarada, e ele ainda me perguntou, onde está Cinthia? É Cinthia o nome de sua namorada?

Espantei-me novamente com o vigor de sua memória, e confirmei, sim, é Cinthia. Aliás, era, não namoramos mais há uns três anos, he-he...

Puta merda, dou muita bola fora, falou, em tom de brincadeira.

E eu confirmei.

Por algum tempo, conversei com ele apenas no piloto automático e fiquei com a imagem da Cinthia na cabeça. Eu e ela tínhamos ido ali meia dúzia de vezes, pelo menos. Ela, em todos os instantes, se admirava com a paisagem: é a coisa mais incrível do mundo, dizia. Talvez a Cinthia não tivesse visto outras maravilhas naturais que servissem como parâmetro de comparação, mas eu sempre concordava: a coisa mais incrível do mundo. Queria que ela ainda estivesse aqui; era só nisso que eu pensava.

Parece que notando o olhar de soslaio dos responsáveis pelo mirante, o confeiteiro rompeu meus devaneios e fez sinal para me falar algo no ouvido. Amigo, disse ele quase sussurrando, me acompanhe que há um lugar muito bom que vou te mostrar, porque aqui daqui a pouco está fechando. Venha, você vai gostar de conhecer.

Como eu já estivesse mesmo de saída, topei. Saímos caminhando, deixei a moto lá estacionada. Era fim de tarde e andamos por umas ruelas de areia envolvidas por grandes árvores. Como já estava chegando a noite, já não era possível enxergar muita coisa, os meus olhos até lacrimejavam. O Décio, ou seja lá qual fosse seu nome, permanecia calado. Percebendo que a situação tomava contornos muito estranhos, eu, mesmo um pouco bêbado do conhaque - ainda levava a garrafa com bastante bebida na mão - decidi não arriscar mais. Bati-lhe a mão no ombro, segurando-o com alguma firmeza, e falei:

Meu velho, preciso voltar, a noite já chegou e estou muito indisposto. Obrigado pelo papo, pegue esse conhaque pra você. Adeus.

Falei protuberantemente e com uma convicção tal que ele nem ameaçou insistir.

Voltei para o mirante e peguei a moto, já estava escuro e eu não tinha muitas condições de fazer nova viagem de volta pra capital, decidi passar a noite ali por perto, em alguma suíte. Fui para a Pousada Bela Vista, não é muito barata mas era a única que conhecia, era lá onde sempre me hospedava quando acompanhado pela Cinthia, e não tinha saco pra fazer pesquisa de preço agora.

Assim que cheguei, dormi por algumas horas, acordando pouco depois da meia-noite, e aí não consegui mais adormecer. Tava com uma puta vontade de escrever, mas não tinha nada, nem computador, nem mesmo papel. Não tinha livros pra passar o tempo, mas tinha apenas uma TV, que, no entanto, não me serviria. À parte disso tudo, não tinha a Cinthia - o que tornava aquele ambiente muito mais morto e torturante para mim. O único subterfúgio que restava era a bebida, que eu não tinha mais. À minha disposição, ali, só havia um bom aparelho de som. Abri a janela, deixei aquele frio pesado das serras entrar no cômodo, e fiquei sentado a contemplar a imensidão negra lá fora ouvindo músicas lúgubres e lamentando mais de mil vezes por ter dado o litro de conhaque para o confeiteiro.



quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O kit-net da Rua Neópolis, parte 1

Minhas últimas noites de sono de oito horas aconteceram antes de eu ir morar na Rua Neópolis. Tudo se tornou mais complicado depois dessa mudança. Comer, andar, dormir, transar, sequer respirar eu conseguia. Ouvir, também tive problemas. Comer, nem se fala. Nem evacuar era fácil pra mim. Dizem que o lar determina muito da nossa qualidade de vida. Eu digo, é verdade. A minha ruiu completamente, e até reerguê-la do buraco, o sacrifício há de ser grande.

Eu ainda estava no primeiro ou no segundo trabalho num escritório pequeno quando precisei ir pra lá, brigado com a família, jubilado da faculdade, sobrevivendo com migalhas de um batente que eu sabia ser temporário. Saí de casa e o primeiro lugar a que fui foi o Hotel Nordeste, que hoje mudou de nome - como se fosse possível, assim, livrar-se da má fama. Passei apenas uma noite ali, num quarto que não tinha nada, nem uma radiola que fosse, as camas (beliches) não tinham cobertas, a parede caía aos pedaços e não se identificava nem mesmo sua cor original, além de que, o pior de tudo, não era suíte. Eu precisava dividir o banheiro, que ficava no final do corredor, com todos os tipos de meretrizes e cafetões e viciados. Na primeira vez que fui lá, uma rapariga estava sentada, ao lado do vaso, meio alucinada. Olhei da porta comiserativamente e voltei. O banheiro é um altar muito decadente, mas muito necessário para muita gente, para mim inclusive. Muitas e muitas vezes me vi trancado no banheiro querendo fugir até mesmo do ambiente familiar que a sala, a cozinha da casa proporciona.

Depois do Hotel Nordeste, saí pulando de pensões em pensões. Algumas até muito boas, porém a grana que eu tinha não era suficiente para manter um padrão mínimo de qualidade. Fui escolhendo pensões cada vez mais distantes do Centro e com gradativamente menos regalias. Até que, já começando a alimentar alguns acessos de desespero, encontrei no jornal o anúncio de um kit-net cujo aluguel nem se aproximava dos 100 reais de tão baixo, mesmo assim acompanhado de água e energia. Dirigi-me até lá na hora. A única coisa que tinha era um violão e uma mochila. Gostava da coisa de ser andarilho, de não ter um lugar específico que me prendesse, mas eu estava começando a perceber que havia muitos revezes desagradáveis nesse modo de vida - muito mais do que os que eu imaginava.

A Rua Neópolis fica no último bairro de Natal - na verdade já fica no território da cidade vizinha. Não havia muitas casas por perto, e as casas que havia viviam fechadas e com luzes apagadas. Não era possível saber se tinha gente morando nelas ou se estavam abandonadas, ou eram segunda casa, nada disso. Além do que, sobravam terrenos vazios: áreas cercadas, recheadas de mato crescente, o que denotava que aquela área ainda estava esperando sua vez para crescer. Eu me lembro de quando estava procurando o local; tinha apenas uma anotação indicando sua localização exata e lembro que, assim que encontrei a rua, me assustei com tamanho prolongamento. A rua devia ter quilômetros, talvez. Ela começava com casas estáveis, pequenos comércios, e na medida em que alçava os metros, notava que o asfalto sumia sob a areia enrijecida e pastel e, como já falara, as residências iam se escasseando. O kit-net que eu procurava ficava no final da rua, depois de subidas e descidas, onde a estrada era pura terra batida, embora desse pra notar alguns filetes asfaltados, o que demonstra que na verdade a área ali até já recebera uma atenção mínima do governo com uma pavimentação de má qualidade. O kit-net, eu fiquei olhando por uns minutos antes de entrar. Havia uma fileira de portas e janelas, devia ser uns sete ou oito. Começava a criar na minha cabeça a ligação com aquele lugar em que, presumia, passaria um bom tempo. A casa da dona do kit-net, a Sra. Jocastra, ficava mais adiante. Não tinha muito a lhe dizer.

QUERO UM KIT-NET, AQUI ESTÁ, PAGO ADIANTADO DOIS MESES.

CALMA, MEU FILHO, NÃO É ASSIM. E começou a falar, e falar, e falar. Tratavam-se apenas de amenidades, ela também não tinha nada a dizer. Depois do falatório, passou-me a chave e deu boa tarde - embora já fosse o início da noite. Fui para o meu quarto.

O ambiente não tinha muita coisa. Eram dois cômodos maiores, que podiam ser um quarto, sala e cozinha, além do banheiro. De aproveitável, só havia mesmo o sofá verde-musgo, já envelhecido, entretanto pelo visto ainda estava em condições de uso, acompanhado duma poltrona; uma televisão velha, ainda que perfeitavelmente utilizável; uma cama de solteiro pequena, parecia ser um modelo juvenil, com uma colcha muito fina, um birô no qual eu poderia guardar as minhas roupas. Poderia ser aconchegante se o cubículo não fosse sujo e abandonado. As gavetas do birô denunciavam com um odor bem desagradável a presença de insetos ali, tipo baratas. Por muito tempo, deixei minhas roupas guardadas na mochila. Comprei uns pôsteres para as paredes. Comprei livros e livros. Com tudo isso, comprei também um pequeno rádio para comper o silêncio em algumas madrugadas tristes.

A primeira pessoa que conheci nas redondezas foi de modo estranho; era madrugada e estava deitado no sofá ouvindo música clássica na televisão com as luzes apagadas, até que percebi pela sombra emitida sob a porta que alguém estava se aproximando. Logo bateram na porta. Fingi-me de desentendido. Bateram novamente.

QUEM É?

POR FAVOR, QUERO UMA AJUDA. Parecia a voz de um cara não muito saudável. MORO AO LADO, afirmou.

SAIA DAQUI, QUERO DORMIR.

POR FAVOR!

Decidi abrir a porta. PRAZER GAROTO, MEU NOME É TIMÓTEO, MORO AQUI AO LADO, repetiu. Ficamos nos olhando um tempo, alguns segundos em silêncio. Fiz uma careta como se perguntasse o que ele queria. TENHO UMA BEBIDA AQUI COMIGO, QUE TAL SE ENTRASSE PRA GENTE CONVERSAR UM POUCO?

Abri a porta, ele parecia inofensivo, trazia consigo apenas uma garrafa de cachaça quase cheia. Não questionei porque na época eu também não tinha dinheiro para comprar bebidas de mais requinte e sabor. Tinha uns copos descartáveis e bebemos juntos. Ele realmente era menos velho do que eu pensava.

POR QUE VEIO AQUI?

TAVA COM UMA MENINA NA CAMA E ELA ME EXPULSOU, VEJA SÓ, ME EXPULSOU DE MINHA PRÓPRIA CASA. Sentenciou: EU SOU UM MERDA.

EXPULSOU POR QUÊ?

PORQUE EU GOZEI DENTRO.

Achei que convinha ouvir outras bizarrices de sua vida. Timóteo trabalhava numa peixaria ali perto, bem se notava um mal cheiro quando ele se aproximava, mas, como se fosse psicológico, aquele fedor nauseabundo se tornou ainda mais forte depois que ele disse qual era seu trabalho.

Conversamos até amanhecer e o Timóteo me disse que também era como eu, também era aventureiro antes de chegar ali - morava num daqueles kit-nets há seis anos. NA ÉPOCA, SÓ EXISTIAM ESSES KIT-NETS. NEM AS CASAS ABANDONADAS DA RUA ESTAVAM AÍ, ele disse. MAS ESSA VIDA, MEU IRMÃO, ESSE BARRACO, E PRINCIPALMENTE ESSE TRABALHO MALDITO ACABOU COMIGO, FOI A PARTIR DELE QUE ME TORNEI O MERDA QUE SOU, completou.

Eu acreditei. Ele tinha voz fraca e esforçada. Sua face era recheada de suor incrustado e sua pele já dava sinais de falecimento, isso embora ele me dissesse ter 30 anos.

No início, eu tentei evitar maiores contatos com Timóteo; a maior parte do meu tempo eu vivia fora, ou ia para a faculdade só reencontrar os amigos, vez que não tinha mais matrícula, ou ia para algum outro lugar que me permitisse parar e ficar perdido em pensamentos, como um bar, uma praia. Apenas uma parte do dia eu trabalhava, no escritório. Nessa fase, escrevia bastante, e como estava sem computador, passei a me acostumar a escrever manuscritos, coisa de que nunca gostei. No trabalho, a única mudança era quando havia uma necessidade de digitar um memorando; mas quase nunca exigiam. Com o tempo, por inércia, acabei me tornando indisciplinado. Faltava demais, ou me atrasava, ou dava um jeito de sair cedo. Passei três meses lá, e a grana que peguei de saída, uns 400 reais, seria a minha única renda nos três ou quatro meses seguintes.

Passei a comer menos, bem menos. Antes meu almoço era num restaurante popular, desses barriga-cheia. Agora, já nem almoçava mais. Saia ao dia e voltava à noite, e comia alguns pães com um café, com um fogão duas-bocas que eu houvera comprado.

Depois da primeira fase de estranhamento com o Timóteo, nós nos reaproximamos e ele me ajudava arrumando uma margarina, uma cachaça, algum troço assim. Como ele tinha mais bebida que comida, passei a beber mais do que comer em paralelo. PRECISO DE UM TRABALHO, eu lhe falei. NÃO DÁ PRA FICAR ASSIM.

Ele dizia que veria o que podia fazer por mim na peixaria; fora dali, eu não tinha muitas expectativas. Morando na periferia, era difícil procurar emprego na Cidade porque o deslocamento era muito despendioso, sobretudo para quem teria que viver com a grana que restava. Timóteo me arrumou, na peixaria em que trabalhava de peão, uma entrevista com o gerente, um tal Seu Correia. A entrevista durou menos de cinco minutos, depois deixei meu contato e fui embora.

E AÍ, COMO FOI NA ENTREVISTA?, perguntou-me Timóteo à noite, depois de colocar uma dose de cachaça nos copos.

FOI MUITO PRODUTIVA. MENTI QUE SÓ A PORRA, falei, e ele deu uma longa gargalhada, ao que eu também caí na risada. De fato, eu havia mentido em algumas coisas na entrevista, não tinha a menor chance de conseguir o trabalho se não fosse assim. Era meio surreal a coisa de achar engraçado estar me aproximando do fundo do poço.

Timóteo me desejou boa sorte, mesmo assim, e disse que sairia da peixaria. Disse que estava vendo aí uns negócios em que poderia se dar melhor. Também lhe ofereci boa sorte. Depois disso, ele passou uns dias sumidos e eu estranhei sua ausência. Nesse período, eu havia trabalhado numas coisas bobas, tipo entregar panfleto, e havia conseguido uns trocados suficientes para pagar uns almoços de quando em quando. Começava a me sentir sozinho na região quando conheci, no longo trajeto até a parada de ônibus, uma senhora que morava com a filha perto de mim e precisava de um conserto no seu computador.

POSSO AJUDÁ-LA, falei. TENHO EXPERIÊNCIA NISSO.

De fato, consegui resolver o problema dela, que não era nada sério para mim que havia feito um curso - inacabado - de Desenvolvimento de Software. Tanto a mãe como a filha eram bastante simpáticas, e, sobretudo com a filha, a Ana Paula, uma menina com talvez dezesseis, eu criei uma ótima relação, de maneira que ela até me fazia visitas ocasionalmente, embora eu não gostasse, visto que o kit-net não era lá apresentável; de qualquer modo, com o tempo, visitaria ainda mais. O vínculo parecia ter sido construído tão rápido que sua mãe me convidara para fazer uma viagem de uma semana com elas para Monte Alegre, uma cidade não muito distante. Pensei que faziam isso por ter pena de mim, um pobre garoto com emprego vagabundo e sem família por perto. Então, recusei.

Elas se foram e, sem que o Timóteo voltasse, tornei a me sentir solitário. Mais ainda quando, na mesma noite em que elas se foram, eu notei um movimento no kit-net ao lado. Pensei ser o Timóteo e fui vê-lo. Na verdade, era a Sra. Jocastra que estava lá arrumando algumas coisas sem a menor delicadeza.

O QUE QUER?, perguntou quando me viu.

ONDE ESTÁ O TIMÓTEO?

ELE FOI EMBORA, TAVA PROGRAMADO PRA IR, JÁ.

Estranhei o sumiço do Timóteo e o fato de não ter comunicado o fato antes de ir. Fiquei meio puto por um instante, porém isso se amenizou porque eu achei que minha raiva não era justificada. Timóteo não me devia nada, afinal. Pelo contrário. Ajudou-me bastantes vezes naquele período desgraçado. Eu havia voltado à estaca zero, não tinha mais nenhum bico, não tinha mais dinheiro e não tinha mais comida, só bebida. Acordei no dia seguinte e quando fui olhar a hora no celular - eram 9 horas -, fiquei espantado ao ver que houvera recebido uma mensagem.

VOCÊ FOI ACEITO PRO CARGO, TERA UM MES DE ESPERIENCIA E DEPOIS ASSINAMOS SUA CARTEIRA. COMPARESSA AS 8H DESTA QUARTAFEIRA NA CASA DO PEIXE, RUA RIO MADEIRA, 481.

Percebi que já estava atrasado uma hora e me apressei, lavei o rosto rapidamente e só fiz beber uma água da torneira, nem tive tempo de tomar banho ou sequer escovar os dentes. Apesar das desavenças com a minha pouca pontualidade, trabalhei o primeiro dia e voltei para minha cama, exausto, e dessa vez bebi bastante não por falta de comida, mas por falta de apetite mesmo. À noite, faltaria luz em todo o bairro - e assim seria durante os trinta dias seguintes, um defeito incorrigível da companhia de energia do estado. A sra. Jocastra disse que não poderíamos reclamar porque toda a nossa energia era adquirida por gambiarra. Eu me lembrei de quando o Timóteo me dissera que, apesar de tudo de ruim que acontecera antes, seu primeiro dia de trabalho na peixaria fora o marco inicial da sua decadência. Isso ficou por tanto tempo na minha cabeça que deu vontade até de chorar. Mas eu não chorei.



quarta-feira, 29 de julho de 2009

Deve ser herança da adolescência

Hoje perdi quase trinta reais no pôquer. Não parece muito, e não é. Vejo alguns sujeitos desajeitados perderem muito mais do que isso no clube em que jogo. No meu caso, aliás, nem cheguei a perder todo o dinheiro no jogo. Perdi vinte reais jogando, gastei mais uns oito reais em cervejas. Não me incomodo. Perderia, e ocorre de até mesmo perder, muito mais que isso gastando com cinema, ou gastando com discos, ou gastando com garotas. Trinta reais, contudo, é um limite diário que gasto, ou costumo gastar. Já gastei mais, já torrei centenas de reais em um dia com qualquer coisa – tão sem importância que de nada me lembro, agora –, mas trinta reais é um limite que minha consciência, quando se dá conta, leva a cabo. Deve ser herança da adolescência, quando minha mãe me dava justo essa quantia, e era tudo.

É tão estranho o clima de meio de ano, porque vejo mais pessoas no clube de pôquer. Várias delas estão de férias, não estariam ali em outros dias, outros meses. Conseguem, sei lá, um mês para não fazer nada e vão perder o dinheiro que têm de sobra com qualquer bobagem. Eu não tenho férias no meio do ano, então pra mim o cotidiano e suas responsabilidades nunca mudam muito. Alguns que jogam comigo comemoram. Hoje o clube tá bombando!, dizem. Eu acho chato demais, e geralmente quando percebo isso vou embora.

Queria procurar um lugar para arejar a cabeça, mas não encontraria. Natal tem poquíssimos pontos que propiciam isso, tão poucos que não lembro de nenhum. Ainda eram três da tarde e, de tão longe de casa, preferi ficar na rua até cair a noite, quando iria pra faculdade fingir que assisto aula, e encheria o saco dos professores com coisas que eles deviam saber e não sabem. Mas demoro muito para pensar, tanto que logo cairia uma chuva pesada e eu fui pego desprevenido. Procurei um meio de não ficar ali na rua, me molhando, ou abrigado sob um posto de gasolina. Como, aliado à chuva, havia o fato de a bebida ter me enebriado um pouco, decidi deixar minha moto onde estava e pegar um ônibus, dar um arrodeio pela cidade. Depois de uma viagem de uma hora acho que já estaria mais sossegado. Gastei duas pratas na passagem, e isso zerou a minha carteira, pois havia saído com trinta reais de casa.

A viagem de ônibus durou exatamente uma hora, a chuva enfim houvera passado - ainda que alguns materiais que eu carregava tivessem se molhado antes que pudesse notar -, e desci na mesma parada em que tinha pego a condução.

Quando saltei, uma pessoa bem conhecida estava na parada e me viu e cumprimentou. Eu não sei o que penso agora, mas na hora achei que era melhor não ter descido ali.

Oi amigo!, tudo bem?

Era uma ex-namorada, que agora fazia questão de me chamar de amigo. Cumprimentei, sorri, perguntei como estava. Ela estava bem.

E você?, perguntou-me, automaticamente.

Conversamos algum tempo, e ela até tentava ser doce e simpática, mas não era esse seu jeito. Geralmente, tentava me deixar nervoso, e eu às vezes terminava fazendo a mesma coisa. Chamei-a para jogar no clube de pôquer. Ela gostava de jogar cartas, pelo menos antes de virar evangélica.

Não gosto de pôquer, nunca gostei.

Eu sei, mas o que custa aprender? Você sempre gostou de jogos de baralho.

Gostei de alguns, não de todos.

A sua voz bonita e carregada de um certo cansaço estava mais próxima daquela que me marcara no passado, de maneira que comecei a ficar mais à vontade – acho que ela também.

Você não tá trabalhando, né?, perguntou-me. Pra ficar jogando pôquer numa tarde de segunda-feira, só estando desocupado...

Na verdade, estou sim, mas sei lá, trabalho quando quero, dia sim, dia não, nunca fui afeito a trabalhos que exigem muita disciplina... expediente não é comigo...

Sei... disse, sarcasticamente, e completou: tenho pena dos seus alunos.

Você é um amor, falei.

Depois disso, ela pegou o primeiro ônibus que passou e se foi, sem dizer tchau e sem dar sequer um aperto de mão. Fiquei vendo-a subir meio apressadamente, e lembrando que no dia anterior eu estava com dois amigos bebendo e cantando no teto de um galpão do Centro de Convenções, sem ninguém por perto num raio de quilômetros, com toda a deslumbrante vista para a praia e para as coleções de luzes artificiais dos prédios e naturais das estrelas e da lua, e com tudo isso, era nessa garota que eu pensava, na vez que estivemos ali, anos atrás. Enquanto o ônibus ainda estava parado, até que ela sumisse completamente de minha vista não levaria nem dez segundos, mas eu ainda lhe dei um aceno e falei, de maneira que pudesse ouvir: vou escrever um conto sobre você!

Ela riu de dentro do ônibus; detestava meus contos, sempre detestou.

Já era fim de tarde e fui para faculdade e lá, no pátio largo, encontrei um amigo, estava chapado e observando os arredores. Sentei com ele e conversamos um pouco, ficamos olhando as garotas passando e alguns senis seguindo-as. Não tivemos muito tempo. Ele foi logo embora e fui para as aulas, que foram uma merda: hoje, perdi todos os debates. Estava com a retórica fragilizada pelo desânimo e toda aquela droga de turma se unira contra mim. Fui embora mais cedo, não fiquei para o último horário.

Antes de ir para casa, porém, passei na praia e fiquei em pé, olhando para o mar. O tempo estava bonito e eu tão sereno quanto. Havia um quiosque próximo, acompanhado de várias mesas, a maior parte delas ocupadas por casais. Observei um pouco, mas não comi nada, sequer sentei. Um dos casais, entretanto, era formado por velhos colegas, havíamos estudado juntos.

Sente-se aqui, venha!

Não, não, obrigado, respondi, depois de cumprimentá-los.

Venha, rapaz!, insistiam. Comecei a me arrepender de ter estado ali.

Uma vez que continuavam a me chamar, como se tivessem algo para dizer - mas não tinham nada, disso eu bem sabia -, precisei fingir que não os ouvia mais para que parassem.

Não durei nem meia hora e me despedi da orla. A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi deitar na cama, ainda arrumado, e havia tirado apenas os sapatos. Da cama mesmo, eu ia tirando tudo: relógio, celular, a carteira eu ainda abri uma última vez, para confirmar que de fato não tinha nada. De um dos bolsos da calça, tirei um pendrive e uma caneta, e de outro que pensava não ter nada, puxei alguma quantia em dinheiro. Quinze reais, que eu não sabia que estavam ali. Fiquei um pouco espantado na hora. Espantado e aborrecido. Por um instante, pensei que deveria ter gastado tudo aquilo na mesa de pôquer, mais cedo. Mas fiz bem em não fazê-lo; já bastava de derrotas por hoje.



quinta-feira, 23 de julho de 2009

Na companhia do vazio

Não se preocupe com rejeições, parceiro.
Fumei 25 cigarros esta noite,
e você sabe sobre as cervejas.
O telefone tocou apenas uma vez:
era engano.


Charles Bukowski, O Amor é um Cão dos Diabos


Já fazia quarenta minutos que eu caminhava solicitando carona a todos que passavam protegidos em seus automóveis, mas ninguém me concedia. Era alta madrugada e eu estava um pouco embriagado, mas desejava chegar logo em casa, ou, pelo menos, encontrar algo que me fizesse minimamente confortável. Pouco antes, eu bebia com os colegas de faculdade até que fechasse o bar - na verdade, eu não esperava que fechasse, pois não tinha mais condução que me levasse até em casa, 20 quilômetros distante. Todos se foram, cada qual para seu lado, com as moradias próximas ao boteco, caronas e quetais. Eu poderia usar de minha moto, mas a havia deixado na manhã anterior num borracheiro; estava com o pneu furado e eu teria de suportar o peso de andar a pé e, quando necessário, recorrer ao ônibus - como já disse, porém, não havia mais esta possibilidade na hora em questão.

Vou ligar para alguém, pensei, mas para quem eu ligaria? Fiz uma tentativa.

Porra, é quase uma da manhã, disse meu interlocutor quase sem me deixar começar a falar, deixando claro que eu lhe interrompera o sono e desligou, não sem antes xingar minha mãe.

O meu celular ainda me oferecia uma lista de pelo menos 30 pessoas a quem eu poderia ligar. Mas eu sabia que delas nada conseguiria senão aborrecidas recusas. Conformei-me em vagar na madrugada, já sem pretensões de conseguir carona ou um refúgio qualquer. Foi quando vi uma lan 24h, e entrei. Pelo menos a internet poderia me entreter até que amanhecesse o dia, eu pensei, já que eu passei da fase de achar legal ficar dormindo na rua.

Naveguei um pouco na internet e, dentre os poucos indivíduos disponíveis para conversar àquela hora, me deparei com uma garota insone, uma colega da faculdade que recentemente conhecera. No decorrer do palavreado, ela se queixava de tantas coisas, entre as quais o tédio de estar sozinha em casa naquela madrugada. Então eu pensei, já que estava a não mais que meia hora da casa dela: seria legal se...

Papo vai e papo vem, ela sabia que eu estava por perto e me convidou para ir até sua residência, ao que imediatamente aceitei. Ainda que existisse um certo flerte entre a gente, a verdade é que eu aceitei o convite na melhor das intenções, afinal, só queria um lugar para dormir.

O fato é que, quando já estávamos ambos acomodados em sua casa, ainda conversamos um bocado, e como ela soubesse que eu havia bebido há pouco, por certo bateu-lhe também uma vontade de beber, pois logo me ofereceria algo.

Tem uma vodka ainda aqui, que tal bebermos um pouco?, perguntou-me.

Consenti prontamente.





Duas horas depois, repousávamos nus em sua cama, tínhamos feito de tudo e isso fez mal à garota se mostrava bastante deprimida e desculpava-se repetidas vezes por ter sido tão oferecida justo nessa primeira vez em que nos encontramos assim, sozinhos. Eu terminei me sentindo mal também com tudo aquilo, esperava que ela adormecesse, quem sabe pela manhã estaria melhor?, mas ela ainda não parecia ter sono, dizia estar arrependida e buscando um jeito de fazer com que não perdesse meu respeito, por mais que eu dissesse que isso não aconteceria. Como ela insistisse e eu fosse reincidente, então me pediu que lhe desse uma prova de que a continuaria respeitando pela manhã.

Vá em frente, incitei. Que prova você quer?

Me peça em namoro!, ela disse.

Eu me assustei com a proposta. No entanto, como sabia que ela tinha bebido e sequer se lembraria da conversa depois de um cochilo, cedi.

Tá bom... Namora comigo?

Ela riu e sentenciou: hahaha! Não, seu otário, não gosto de você!

Poucos minutos depois, a garota estaria vomitando todo o banheiro, depois tomaria um banho rápido e voltaria despida para a cama, dormindo em seguida. Ela já nem sabia o que estava fazendo. Eu fiquei acordado, continuava a me sentir mal, não pelo excesso de bebida, mas por aqueles momentos a dois. Não esperava que um abrigo me custasse tão caro, e a noite de sexo realmente não compensou o peso psicológico que foi permanecer ali. Fiquei andando pela casa, sentando no sofá e levantando, até que só quando começava a ver filetes do alvorecer reprimidos pelas brechas da janela eu fui me deitar na cama, a seu lado, adormecendo logo. Não muito tempo depois, o telefone tocava e nós dois despertávamos, ao mesmo tempo.

Você precisa ir embora, ela proferiu calmamente, e explicou o porquê. Fui embora, portanto.





Muitas horas depois, o colega que me houvera recusado um lugar para dormir estava a ligar, chamando para assistir uma apresentação de sua banda num festival de rock. Aceitei o convite, por mais que já não ande com muito saco de acompanhar festivais musicais, e sempre penso que ninguém tem saco também, de maneira que eu nunca convidaria alguém pra ver uma banda minha a tocar num festival, por mais que houvesse uma nova proposta literária ou musical no nosso som, ainda que não houvesse pretensão de nada disso no som da banda de meu amigo. Mesmo assim, fui e acompanhei. Meu bom camarada se divertiu bastante com seu espetáculo, e nossos amigos em comum também eram pura euforia no meio do público.

No final, ficaram todos juntos, bebendo e fumando e tal, eu fui embora logo. Não queria permanecer ali por muito tempo mais. Era relativamente cedo e teria bastante ônibus disponível àquela hora, então não perdi tempo.

Cheguei em casa e uma impressão estranha me acometia. O silêncio parecia mais audível para mim do que nos outros dias. A escuridão era mais visível do que eu percebia normalmente. Li um pouco, ouvi música, fui para o computador. Agia por inércia, sem propósito, sem juízo. Fui logar em um de meus emails, e a resposta que obtive me fez concluir que, por tanto me procurar, enfim eu havia me encontrado: "o usuário não existe mais".



quarta-feira, 8 de julho de 2009

Cinco anos depois

Eu comecei a frequentar blogs, no longínquo ano de 2002 ou 2003, numa época em que nem se sabia direito o que era isso, e nunca imaginaria que teria um. Então comecei a postar, há exatos cinco anos, e não pensei que fosse gostar, até mesmo precisar, tanto. Ao elaborar posts mais pretensiosos, como artigos, ou contos, nem sonhava que conseguiria escrever tantos deles, vez que nunca conseguia sequer finalizar uma história. A travessia pelos blogs foi tortuosa, fiz quase uns dez por aí, mas estanquei neste há dois anos, e importei para cá algumas destacadas postagens de outros blogs paralelos que tive, dos primeiros aos últimos, dos blogs de opinião aos de poesia, dos textos bem-trabalhados aos mais primários.

Eu penso tudo isso enquanto me quedo numa mesa de biblioteca a ler alguns contos de Dalton Trevisan, com os olhos atentos e a atenção desvinculada da barulheira do ambiente - é meio-dia e há tantos estudantes -, porque é esse tipo de literatura que me atraiu de fato, os contos; tão subestimados, mas tão complexos em si. Acho curioso que, para muitos escritores notórios, seja mais difícil fazer um conto que um romance. Eu não sei, já que não sou romancista, mas posso dizer que me fascina, e que nunca penso pouco quando escrevo um conto, seja quanto relato algo, ou seja quando crie, ainda que isto ocorra em menos escala. Não tenho tanta imaginação assim.

É engraçado que eu receba, enquanto leio e enquanto penso, um convite para encontrar uns amigos num bar, e lá conversamos, entre outras coisas, sobre blogs, além de bebermos algum bocado. Assim como é engraçado o fato de aquele mesmo bar ter sido palco de outras histórias, com outras pessoas, no passado, algumas delas relatadas em texto nesta página.

Também é curioso que para quem escreveu tantas histórias escatológicas, tantos artigos opinativos sobre diversos temas, já recomendou tantos outros blogs e escritores, não tenha muito mais a dizer ness'instante. Deve haver algum grau de autenticidade nisso, no fato de não conseguir nunca escrever texto sob encomenda. Não tenho certeza, e a essa altura não importa. O blog continua vivo porque o longo e tenebroso inverno que o sustentou no princípio ainda se faz latente. Permaneço exercendo a arte da escrita, e enquanto o fizer, é um claro sinal de que ainda não estou em paz. A vida é uma estrada, como se diz, e a ela estamos todos submetidos. Há quem reclame de todas as coisas, há quem as aprecie em sua totalidade, cada um tendo o que tanto merece. Mas a mim, quem me merece? Eu mereço a estrada, e nela sigo em frente, sem muitas pretensões de curveados ou de subidas. A vida é isso. Monotonia da estrada. Como dizia um americano morto, sobra apenas a necessidade de tirar algum drama de nenhum progresso de fato.



O Literatura Vil agradece a todos os que frequentam o blog, lendo
e - especialmente - comentando os posts.
08/07

sábado, 27 de junho de 2009

Uma declaração de ódio

Eu nunca consegui
escrever
nos meus melhores momentos.
Como quando estava alegre,
ou quando me pediam.
Escrever, para mim,
e, acho, para os que realmente gostam
– e precisam –
disso,
é uma forma de jogar fora
os males, a urucubaca,
ou seja lá como gostem de chamar
seus azares.

Só escrevo quando estou com raiva,
ou triste, ou entediado,
embora neste último caso
seja muito raro,
vez que nunca sinto tédio.
O tédio é uma declaração de cansaço
de si mesmo.
E eu não gosto tanto assim de mim,
mas não trocaria a minha companhia
pela de qualquer um.
De maneira que me sobram
dois momentos
para escrever:
o da raiva e o da tristeza.


Entretanto,
não adianta pensar que escrevo
só quando estou triste.
Porque a tristeza é uma condição
inerente
à minha personalidade
(Personalidade? Eu tenho isso?
Alguém tem?).
Se eu fosse escrever somente estando triste,
eu escreveria todo dia,
toda hora,
a cada instante,
na cama, no ônibus,
na faculdade, na fila do banco,
na praia, à noite,
até mesmo na privada
como o sujo Enderby.
Mas confesso
que isto
não seria nada mau.


Mas eu escrevo com mais frequência, sim,
quando estou com raiva.
Escrevo quando triste, também
mas, principalmente, quando
estou com raiva.
Escrevo para me livrar dos fantasmas
vivos e mortos
que vivem a me incomodar.


Portanto,
Não procure humor no que escrevo,
porque não sou bem-humorado.
Não procure conselhos
nas minhas letras,
porque nelas estão
minha declaração de ódio
para com este mundo
e tudo o que lhe pertence
e lhe quer pertencer.
E em relação a tudo isso,
não existe nada
mais vazio de sentido.



domingo, 14 de junho de 2009

Essa é para Cláudia, que fez as malas e sumiu de vista

Toda vez que acordo com uma garota ao lado na cama, levo as mãos à cabeça. Não sei porque faço isso. Quero sempre distância dos velhos casos - não por causa das garotas, mas porque não quero que eles se repitam, e se tornem mais frequentes, e se tornem compromissos aos quais nunca corresponderei. Eis que ainda me ocorrem dessas coisas. E desta última vez, nem pude levar as mãos à cabeça ao despertar, porque meus braços estavam enroscados no corpo dela, numa espelunca de quarto, que, pelo menos, não era o meu.

A garota em questão chamava-se Cláudia, que sempre foi muito louca, totalmente inconsequente, e tinha sido por mais de uma dúzia de vezes um objeto de prazer na minha adolescência. Era a época em que rolava algo entre nós, que nos conhecemos numa festa de amigos, nessas das quais hoje quero toda distancia. E logo depois de nos conhecermos, ali mesmo ficamos, ali mesmo transamos, ali mesmo nos despedimos, ainda que nos víssemos diversas vezes em lapsos de tempo preenchidos entre meus dezessete e dezenove anos.

Há alguns dias, contudo, eu estava na biblioteca do SESC lendo um livro. Eu não gosto de ler livros em bibliotecas, no máximo cato alguns, sento e folheio um pouco, mas não leio; levo-os pra casa no meu cadastro. Só que em todas as bibliotecas onde tenho cadastro estou suspenso, não posso pegar livros emprestados, porque sempre atraso ou, até mesmo, não os devolvo. Da Biblioteca do SESC, estou com dois livros, de Rubem Fonseca e Ernest Hemingway, há mais de um ano. Sempre esqueço de devolvê-los. Com isso, não me resta outra opção senão pegar umas obras da prateleira e sentar naquelas mesas de leitura com papéis colados e ordens do tipo "faça silêncio", "não fume", "não desarrume os livros" e outras senilidades, ao lado de estudantes bitolados e poetas pobres fugitivos. Por ter de me ater a isso, ficar sentado num ambiente totalmente impessoal lendo um livro, terminei ficando muito vulnerável, e foi lá que a Cláudia, associada do SESC, me encontrou e quis matar saudades. Tanto conversamos que decidimos sair e dar uma volta. Eu estava de moto, mas com apenas um capacete, então saímos caminhando. Ficamos duas horas seguidas de papo e caminhada. Paramos numa lanchonete, comemos um cachorro-quente com um suco, e eu queria que nos despedíssemos, até cheguei a dizer que precisava ir embora, mas Cláudia não, ela queria que passássemos mais tempo juntos, e dali fomos para um motel pequeno no Areial, perto da Praia do Meio.

É meio deprimente um casal entrar num motel a pé, né?, ela perguntou. Eu não respondi. Entramos no quarto e resolvemos não muito rápido a parada. Há muitos meses eu não fazia sexo, e provavelmente o dobro de meses virá até que eu faça novamente, o que me deixa sempre com a sensação de estar vivendo uma experiência nova - e isso não é bom. Cláudia gosta de ficar falando enquanto transa, um hábito que não é só dela, convenhamos. Tá sempre perguntando coisas entre os gemidos, coisas que não tem nada a ver, sobre o que vou pensar no dia seguinte, algo assim. Eu nunca respondo. No final das contas, umas quatro horas depois, enfim dormiríamos, até as sete da manhã, quando despertei.

Do mesmo modo em que estava quando abri os olhos me mantive, durante mais de uma hora, já com vontade de sumir, desaparecer, vaporizar. Sou muito desapegado, e eu sei que a maioria das mulheres não entende isso, e sabia que Cláudia também não entenderia quando acordasse. Chovia muito lá fora, o que era ainda pior, porque me obrigaria a ficar ali por muito mais tempo. Uma sensação estranha se acomete de mim sempre que acordo, e não estar em casa ajuda a me deixar ainda mais desconfortável. Aliviava-me pensar que dali a algumas horas enfim estaria bem longe, mas enquanto isso não acontecia, o pesar era tão grande que eu até simpatizaria com a ideia de resolver a situação com o barulho de um cano de grosso calibre. Uns quarenta minutos de divagações depois, Cláudia acordaria, levantando-se e enfim dando liberdade aos meus braços. Foi ao banheiro e na volta disse:

O banheiro daqui é horrível, fede a bosta.

É um banheiro, respondi. E me levantei, para fazer eu as necessidades.

E realmente era horrível o banheiro, ela estava certa... Mas entrei, e tranquei a porta, e sentei na privada tampada, só pelo sossego. Batia em mim a mesma sensação ruim que sinto quando não estou em casa ao acordar. Queria beber alguma coisa, mas não tinha dinheiro senão para pagar aquele quarto. Fiquei uns dez minutos por lá e saí.

Pega um espelhinho pra mim, por favor, está aí na bolsa, ela pediu.

Abri sua bolsa, e além do espelho vi agendas, canetas, confeitos, batom, pente, uns três papelotes de pó e uma seringa.

Você ainda tá nessa?, perguntei.

Por quê? Vai me dar alguma lição?, ela ria enquanto falava, como se tripudiasse de minha pergunta.

Essa seringa está cega, isso vai foder o seu braço.

O braço é meu, a buceta é minha, eu faço o que quero de meu corpo e minha vida.

Apesar de tudo, ela estava com a razão. Não era eu quem ficaria lhe explicando o problema de ficar enfiando seringas cegas e usadas no braço. Mesmo porque não sou melhor que ela, e também não sou exemplo; nunca fui. Peguei um dos papelotes de sua bolsa, e pus no bolso traseiro da minha calça, que estava na cabideira.

Isso aqui é pra ajudar no pagamento do quarto, falei. Ela nem questionou.

Deitei na cama e ficamos em silêncio. Depois, ela falou de alguns de seus planos. Pensava em tomar rumo para outro lugar, Europa talvez, Portugal em específico. Eu escutava com atenção, embora não acreditasse. Mas somente depois eu saberia que ela tinha viajado mesmo, foi para Lisboa, fazer um curso de fotografia - ou se tornar uma prostituta, nunca se sabe. Nesse dia, ela chegou a perguntar se eu queria ir junto, talvez só pra analisar minha resposta; mas não lembro se respondi à oferta. Durante aquelas horas, recebi dois telefonemas, e ela percebeu que se tratavam de garotas, e começou a ter o comportamento tolo de quem sente ciúmes, por bobo que seja.

Há muitas meninas adolescentes ainda em sua vida? Olha, você tem 25, daqui a pouco terá 30, sai desse mundo.

Não tenho 25, tenho 23.

Mesma merda.

Ela insistia nesse papo enquanto eu me estafava ainda mais em ver que a chuva demoraria muito mais a passar, e estava também começando a me preocupar com a moto, que estava bem longe dali, além de ter passado a noite sozinha no meio da rua - talvez nem estivesse mais lá. Eu prometera uns trocados ao flanelinha que ficaria de olho, mas provavelmente ele, no seu fim de tarde, percebendo que não receberia nem uma prata sequer por ela, deve ter feito alguma merda na moto, do tipo secar pneu ou roubar retrovisores.

Falei pra ela que ia embora. Ela pediu muito para que eu permanecesse - e até permaneci por algum tempo -, mas não podia ficar mais. Depois perguntou se poderíamos nos ver no dia seguinte.

Um filme, uma praia, talvez. Amanhã é sábado. Podemos vir para esse motel novamente, gostei dele, é simpático, ela disse.

Ando com pouco dinheiro, não posso, respondia. E não podia mesmo.

Então eu saí na chuva, com o capacete na mão. Deixei paga a conta na saída do motel e me fui, primeiro correndo, depois, desistindo de tentar fugir da chuva, a passos curtos e regulares. Eu estava a quilômetros do local onde deixara a moto. À medida em que caminhava, e saía do pequeno bairro do Areial para entrar no do Centro, percebia que a cidade mantinha seu cotidiano, os camelôs nas ruas, os engarrafamentos, o comércio aberto, a multidão galopante, mesmo com o temporal e a ventania.

No caminho, eu ainda recebia novos telefonemas de garotas. Ao contrário do que pensava a Cláudia, porém, os telefonemas nunca eram pra mim. Sempre eram pedidos de informação sobre alguns de meus amigos e coisas do tipo.

Não, não sei onde o Diego está, não o vejo há quatro dias, eu falava. E desligavam.

Enfim cheguei à minha moto, ainda no mesmo lugar, e aparentemente sem sofrer nenhum tipo de prejuízo. O flanelinha nem estava lá. Subi, dei partida e fui embora, mesmo naquela chuva torrencial, a cidade toda sob água, a visibilidade baixíssima, o corpo sendo golpeado por pingos que pareciam pedregulhos. Não deu outra: numa das avenidas em que tentei passar, com quase meio metro de água, a moto emburacou-se numa fenda e eu caí.

Quando a levantei e levei para a calçada, notei que havia furado o pneu dianteiro.

Saí empurrando a moto por um bairro residencial da zona sul à procura de um borracheiro para lhe pedir um remendo. Estava muito cansado e desanimado. Depois de algum tempo, eu encontraria uma oficina, mas estava fechada. Como na entrada havia o telefone do responsável, eu liguei e disse que precisava do serviço. Ele me atendeu na hora: morava nos fundos da oficina. Mas saiu nitidamente a contragosto, quando abriu a porteira notei que devia estar comendo algo, porque ainda mastigava e seus dentes estavam sujos, a cara fechada. Era um sujeito de poucas palavras. Enquanto fazia o serviço, eu tentei explicar a situação. Não tinha dinheiro.

Porra, nem um puto sequer?

Fiquei apalpando os bolsos e realmente não tinha nada. A única coisa que saquei do bolso traseiro, o papelote de cocaína, foi o que lhe disse que restava, e ofereci. Ele ficou calado, terminou o serviço da moto e foi lá nos fundos da oficina, onde não sei se morava sozinho ou acompanhado. Percebi que lançava uns gritos, que pareciam se dirigir talvez para um cachorro, talvez para uma criança, talvez para a esposa. Aquilo de algum modo me irritou, mas eu não podia questioná-lo, não estava em condições. Ele voltaria em menos de um minuto.

Me dá o negócio que você tem, foi o que ele disse.

Eu dei e fui embora. Às vezes, precisamos de canalhas desse tipo.



domingo, 31 de maio de 2009

Fragmento de uma crônica

Recordo Luís de Camões. Ele era um arruaceiro e acabou na prisão, ou por suas rixas ou por ter ser envolvido com a infanta dona Maria, irmã de rei João III.

Para obter o perdão do Rei, Camões se propôs a servi-lo na Índia, como soldado. Lá ficou por dezesseis anos e, afinal, voltou para Portugal a bordo de um navio. No retorno, estava acompanhado de uma jovem indiana que ele amava e a quem dedicou o lindo soneto: "Alma minha gentil, que partiste".

Mas o navio naufragou - e Camões só pensou, durante o naufrágio, em uma coisa: salvar o manuscristo dos Lusíadas e de seus poemas. Deixou a mulher amada morrer afogada e perdeu todos os seus bens... mas salvou todos os seus manuscritos.

Para quem ler? Estávamos nos século XVI e muito pouca gente em Portugal sabia ler.

Mas Camões pensou exatamente neste punhado de leitores, era para eles que Camões escrevia, não importava quantos fossem.

***

Os leitores vão acabar? Talvez. Mas os escritores não. A síndrome de Camões vai continuar. E o escritor vai resistir.



Rubem Fonseca, O Romance Morreu (adaptado)

sábado, 16 de maio de 2009

Junto com o coroa roncador

Depois que paguei os 50 centavos e girei a catraca da Estação de Trem do Jardim Aeroporto foi que estranhei o fato de não haver quase ninguém por ali. Tinha apenas um cinquentão dormindo no banco. Era muito cedo, devia ser 5h00 da manhã, o céu já estava claro, mas o sol ainda nem havia aparecido no horizonte - no horizonte oposto ao que se permite ver da estação. Achei estranho não ter mais ninguém por ali, mas me detive a ficar à espera daquele trem fudido e despedaçado, mas que me permite usufruir do meu direito de ir e vir quando não tenho grana para pôr combustível na minha moto, então pego aquela condução que dança em cima da ferrovia mal-ajustada e desço na Estação da Ribeira, de lá desloco-me pra tudo que é lugar a pé, faço todas as coisas que tenho pra fazer, e, quando é noite, volto caminhando pra Ribeira, todo suado, cheirando mal e cansado, e uno-me a outras centenas de pessoas que estão suadas e cansadas e cheirando mal voltando pra suas casas. Apesar disso, estar na estação ou mesmo no trem era algo que me agradava, porque lá havia uma gente com quem eu, algumas vezes, conversava numa boa e havia uma mutualidade de interesses, sempre havia pessoas de vidas horríveis e asquerosas, e que tinham vergonha de contar experiências suas para estranhos, então eu tinha todo o espaço pra contar as coisas da minha, um espaço que geralmente faltava pra mim, porque não conto nada de mim pra outras pessoas, nem pros meus amigos, eles nunca têm muito interesse em saber, e como tudo mundo eu também às vezes sou meio carente, gosto de trocar uma conversa. Hoje mesmo uma amiga me disse por que você não fala de sua vida?, como se eu ocultasse coisas, e foi isso que ela perguntou também, por que você esconde coisas?, mas ela se engana, eu não escondo nada, ela que nunca se interessou em saber, é tanto que me fez uma pergunta pessoal e, depois da minha resposta, mudou de assunto, sem nem notar, como se nunca tivesse feito diferente, e não fazia mesmo. Mas agora, nem na estação de trem havia alguém para conversar ou sequer para cumprimentar com um aceno de cabeça, estávamos apenas eu e o coroa dormindo, pensei em acordá-lo para perguntar a hora ou algo assim, mas desisti, imaginei que estivesse bêbado ou fudido demais, às vezes cabe um bom senso antes de interromper o sono de alguém, e pensei em ir ali perto da bilheteira e falar com ela, dizer-lhe oi, bom dia?, quer conversar?, porque ela vive ali, catando moedas de 50 centavos e passando trocos, o dia todo, num cubículo de menos de 5m², tendo uma relação tão meteórica com as pessoas que não dura nem 5 segundos, é só o tempo de as tais pessoas dizerem um bilhete, por favor!, ou dois bilhetes, por favor!, e pronto, acabou-se, ela talvez nunca mais volte a ver aquelas faces, enfurnada dentro daquela salinha. Eu não iria lá, fatalmente ela já estava acostumada às relações efêmeras, não se permitia conversar com alguém na hora de trabalho, fiquei lá, sentado, vendo o dia clarear ainda mais, vendo o matagal à frente, porque existe um matagal, um sítio à frente da estação, um sítio imenso, parece uma fazenda, uma floresta, não existe vida habitável nesse terrenão todo até onde a vista alcança, no máximo uma casa lá pelo meio da fazenda, minha nossa, que vastidão de árvores, era legal ver, porque a estação fica situada num ponto alto, uns 5 metros acima do nível do chão da fazenda, então dava pra ver a vastidão de árvores se dirigindo até o horizonte, e eu morava ali perto, a uns 300 metros, ali, o último ponto da cidade, a periferia da periferia, depois da qual não existe civilização até que venha o próximo povoado. Esse marasmo todo, esse vazio me deu vontade de escrever, peguei uma agenda que nunca usava, tinha agenda apenas para ocupar minhas mãos, sou um cara muito nervoso, muito cheio de tiques, de mexe-mexe, nunca sei o que fazer com as mãos, se as ponho no bolso, ou na cintura, ou sei lá, estão sempre saio de casa com um livro ou uma agenda pra ter algo a segurar, mas agora especificamente me deu vontade de escrever na agenda, um poema!, vou escrever um poema!, faz tempo que não faço um, mas que merda!, nesse espaço que eles dedicam não rola fazer um poema!, fiquei puto porque na agenda cada dia tem apenas umas dez linhas, como vou escrever um poema, mesmo pequeno, em dez linhas tão pouco espaçadas?, eu escrevo muito, tenho letras grandes e garranchudas, eu poderia fazer um poema que tomasse a agenda toda, sem me importar com as linhas ou essas coisas, mas fiquei meio puto, nessa hora queria um caderno, ou uma folha totalmente em branco, pra que pudesse escrever livremente, porque essas linhas, mesmo sendo apenas isso, linhas, bloqueavam a minha criatividade, e tudo o que me vinha na cabeça e dava substância a escrever nessa estação, e eu sempre tive uma vontade de escrever na estação, agora tava munido de algo, uma agenda, estava com caneta, que mais que eu queria se tinha caneta e papel?, mas não, sempre tem que acontecer alguma merda pra me bloquear a criatividade, apoiei os cotovelos nos joelhos e escondi a minha cabeça entre as mãos, parecia frustrado, e estava mesmo, mas na verdade eu estava assim por causa do sono, nunca pego o trem às 5h00 da manhã, somente às 7h00, mas nesse dia em específico eu acordei duas horas mais cedo e terminei saindo de casa duas horas mais cedo, porque eu só ligo o relógio-despertador quando vou dormir, então fatalmente eu marquei a hora errada à noite, por isso acordei, também, na hora errada, acordei às 4h00 e quebrados pensando que já passara das 6h00, meu compromisso era as 8h00, mas 300 metros até voltar pra casa já era demais pra mim, abaixei a cabeça, joguei as pernas em cima do banco da estação e também aproveitei para tirar uma soneca junto com o coroa roncador.



domingo, 26 de abril de 2009

Notícias do lixo

Um amigo me contou, enquanto bebíamos num bar perto da faculdade, que Rinaldo, um alcóolatra vizinho seu, havia sido atropelado. Foi atravessar a rua bêbado e duas garotas que vinham a todo pique em uma moto o atingiram. Seu corpo fora dividido em dois, sua perna direita jogada longe, sua perna e seu braço esquerdos espatifados no ato do acidente. Seu crânio amassado ao se colidir com o meio-fio. Meu amigo queria visitá-lo no hospital, mas não queria ir sozinho. Ofereci-me para acompanhá-lo.

Rinaldo estava na UTI do Hospital São Lucas, uma clínica particular a qual a motociclista que o atropelara era associada. Ela havia se saído bem do acidente, sofrera apenas umas escoriações nos dois cotovelos. Quanto à sua moto, uma Virago 250cc - suponho que muito pomposa, embora definitivamente mal usada -, e à sua carona, não tenho conhecimento de como estão.

Eu juro que não o vi, ele surgiu muito rápido!, dizia-nos ela. Soubemos que ela seria julgada por crime doloso, por isso seu desespero. Era uma garota bonita, do tipo que fatalmente não conversa com qualquer um. Estava ali sucumbi

Rinaldo morreu dois dias depois do acidente. Além de mim e de meu amigo, apenas quatro pessoas - todas do conselho comunitário de seu bairro - foram visitá-lo no hospital. Ele esteve em coma todo o tempo, mas, ainda que estivesse consciente, não reconheceria ninguém. Seu cérebro estava afetado por completo, e o hipocampo, responsável pela memória, fora praticamente destruído. Não tinha jeito pra ele.

Esse acontecimento não me abalou tanto porque não conhecia o Rinaldo, mas não posso negar que me causou uma certa comoção. Deve ser mesmo triste chegar ao fim sendo tão pouco lembrado.

Quando penso em Rinaldo, vêm-me à mente os casos de todas aquelas pessoas problemáticas. Dia desses, escrevi sobre meus alunos, sobre os problemas que enfrentam por não terem outro caminho a seguir. É corriqueiro, para quem trabalha numa escola pública de uma cidade com problemas de metrópole (mesmo sendo tão mediana e antiquada como Natal), conviver com os dilemas de quem vem da periferia assistir às aulas. É corriqueiro também ser obrigado a se acostumar com as más notícias.

Fiquei pensando nas ocasiões em que, no ano passado, vi alguns alunos se vendo obrigados a sair em grupo da escola, visto o risco que era andar sozinho pelas ruas vestindo uma farda - a rivalidade entre as instituições é uma coisa que já tomam como algo banal por aqui, engraçado até.

Esses dias encontrei Vanaldo, que não é mais meu aluno, mas mesmo quando era eu o via pouco. Sendo frequentemente ameaçado, seria natural mesmo que aparecesse pouco. As ameaças, porém, eram simplórias, pelas coisas mais bobas; Vanaldo é grande atleta, sabe jogar futebol como poucos. Há quem não goste disso. Ano passado, foi espancado na abertura dos Jogos Escolares. O maior evento esportivo do estado vê um de seus participantes sendo espancado e nada faz; no máximo, notinhas críticas no dia seguinte "lamentando o ocorrido".

Quando comecei a escrever esse texto, também povoava a minha cabeça o caso de Maria Luiza, também ex-aluna, que estava desaparecida há dez dias. Mas há instantes, telefonaram-me para me informar que já a haviam encontrado. Algumas crianças, enquanto brincavam - no Lixão de Cidade Nova - encontraram seu corpo ontem, e foi logo reconhecido hoje pela manhã e o funeral rapidamente convocado para instantes depois: o estado de decomposição em que se encontrava já não permitia maiores e mais longas cerimônias.

A Maria Luiza, filha da dona da cantina da escola, conhecida de todos, com um permanente sorriso preso ao rosto - e permanentes questionamentos acerca de minha aparência rude - foi duramente violentada e estrangulada, num caso que gerou bastante comoção. Seu enterro, mesmo feito às pressas, reuniu centenas de pessoas, seu nome seria objeto de faixas espalhadas pela cidade, amanhã mesmo um jogo amistoso no Machadão - ABC x América, os dois grandes do estado - dedicar-lhe-á um minuto de silêncio... devo ter sido o último a saber.

No mais, só mesmo assim para que a garota risonha pudesse ocupar manchetes de todos os jornais, audiovisuais ou impressos.

Depois que eu penso nessas coisas todas, todas as outras perdem sentido, seja dormir, ver um filme, conversar um pouco, comer qualquer merda... diante da pobreza em que vivemos - e não me refiro apenas à pobreza no aspecto social -, essas coisas são vazias demais. Nessas horas se percebe que é por nós que os sinos dobram quando alguém se vai.



domingo, 12 de abril de 2009

Memórias extraclasse

Todos os dias, quando eu deixava a escola onde dava aula dirigindo-me ao estacionamento, uma aluna me seguia, uma em específico, mas às vezes variava, ocorria também de virem outras e outras - mas não mais de uma no mesmo dia. E me pedia uma carona.

Vamos lá, é o que dizia.

Nunca era apenas a carona. Sempre parávamos em algum lugar, geralmente na beira-mar, já que a escola ficava próxima da praia. Tomávamos um suco, enquanto elas falavam de seus problemas amorosos e ginecológicos e eu escutava atentamente. A maioria delas já era noiva, aos 16, 17, ou até mesmo ex-noiva, e me mostravam algumas manchas de pancadas no braço ou nas costas, e pediam ajuda, pelo menos companhia.

Todas as vezes que saía da escola e, ao invés de ir para qualquer outro lugar, eu ficava bebendo sozinho a poucas quadras dali, alunos apareciam e pediam para beber comigo.

Senta aí, eu convidava. Pede um refrigerante.

Quero uma gela, vamos dividir, não pode ser?

Pede, então. Uma não, duas. Não divido nada.

E eles pediam, e conversávamos bastante, no início a conversa era sempre animada, depois eles começavam a falar de seus problemas familiares e de suas amizades incômodas, e sobre pequenas cicatrizes causadas por canivete em partes do corpo, e pediam conselhos.

Certa vez, a diretora me chamou.

Nós reconhecemos sua dedicação na sala e os alunos avaliaram bem você naquela pesquisa que fizemos, mas não é ético sair com eles, ela disse.

Sair com eles?, perguntei.

É, consta que você saiu com alguns deles.

Quem lhe contou?

Isso eu não vou dizer.

Então não é ético fazer nada com eles, eu falei. Entendo o seu lado, mas eu não transo com as meninas nem bebo com os menores.

A questão não é essa.

Qual a questão?

A questão é que não pode sair com alunos.

OK, não sairei mais com quem quer que seja.






No mesmo dia, dei minhas aulas, discutimos na sala sobre os meios de orientação mais usados, os pontos cardeais, alguns alunos me surpreenderam ao demonstrar uma notável melhora na compreensão do tema, e pareciam muito empolgados em poder provar isso, outros pareciam ter esquecido solenemente tudo que eu lhes contara dentro da sala nas últimas três semanas, chegando a ignorar quando eu os convidava para o debate, pareciam distraídos, divagantes, entorpecidos.

Ao final das aulas, uma outra aluna, que nunca havia antes conversado comigo fora da sala, vem até mim e pede carona.

Não posso, não é adequado, eu digo. E faço a mesma coisa com o cara que sinaliza pra mim que me encontraria no bar dali a poucas horas.

Então eu ia embora, sozinho, ou bebia, sozinho.

Com o tempo, conversávamos pela escola e trocávamos emails, telefones. Passaram, então, a me ligar de quando em quando.

Podemos nos encontrar?, Olá, vamos sair pra beber?, cada qual fazia convites a seu modo.

OK, eu dizia.

E saía com alguns deles, geralmente nos fins-de-semana.

Novamente, a diretora me chamou.

Professor, ela disse, soubemos que foi reincidente no erro de sair com alunos. Quero dizer que estamos atentos ao que faz e que não achamos adequado. Se fizer de novo, lamento dizer mas terá que sair da escola.

Em que o meu encontro com alunos prejudica a escola?

Prejudica a reputação da escola.

A reputação da escola, repeti. O que a reputação da escola sabe sobre as condições dos alunos?

Temos uma coordenação para cuidar desses problemas. Não darei aviso normalmente. Sabemos quem são os alunos e se houver reincidência, não só você deixará a escola, mas eles também.






Saí da Direção e dirigi-me à Sala dos Professores. Lá, o assunto estava na pauta do dia. Quase em uníssono, os colegas, ou ex-colegas como alguns faziam questão de falar, me repreendiam. Diziam que eu deveria enveredar para outro trabalho, que estava rompendo a ética da profissão, que se fossem diretores já não seriam tão condescendentes com a minha permanência por lá.

Depois disso, nunca mais me demorei na Sala dos Professores. Entrava, no máximo, para pegar um café, e saía, ficava, do alto do corredor do segundo andar, olhando os alunos lá no pátio, os prédios vizinhos, as ruas, tudo numa intensa harmonia.

Na saída da escola, oferecia negativas a quem me pedia carona ou companhia em mesa de bar.

Ao telefone, em alguns fins-de-semana, recusava novamente a todos os pedidos.

Com o tempo, nem atendia mais as ligações, deixava tocar até cansarem.

Aos emails e recados, eu também fui deixando de responder.

"Eles estariam melhor assim", é o que pensava sempre.

Era desse modo que eu enganava a mim mesmo.


segunda-feira, 30 de março de 2009

Passeio pelo lado selvagem

Estava passando de moto em frente a uma borracharia que tem na Rua Auris Coelho, logo em frente a uma grande praça, meio descuidada mas até agradável, e decidi dar uma parada. Sentei-me num dos bancos, ao lado de uma banca de revista fechada, e fiquei fitando a borracharia. Próximo à praça, havia um Batalhão do Exército, também o observei um pouco, a sua arquitetura rígida militar, o sentinela que ficava na portaria de armas em punho fixamente, durante horas e horas. Atrás de mim, no parquinho infantil que havia na praça, ouvia vozes de meninas de sete anos que brincavam no escorrego.

Lembrei-me de outra vez que estive sentado naquele mesmo banco, só que a lembrança não era tão bucólica quanto o momento que eu agora vivia. Ocorreu numa madrugada distante. Estava bêbado nessa madrugada, vinha de uma festa pilotando uma moto, carregado de muito uísque na cabeça, alucinado, completamente louco, sem a menor carga de noção e em altíssima velocidade. Não sentia vento no corpo, não sentia frio nem cansaço, só sentia o desejo de correr, na minha pouca lucidez. Já sofri vários acidentes de moto, a maioria deles acidentes bobos, mas sem dúvida o momento em que estive mais suscetível a um acidente fatal foi nesse dia, que se deu alguns anos atrás, não muitos. Meu desvario completo ia passando na medida em que eu perseguia o nada a bordo de duas rodas a mais de 100 por hora numa via urbana, rompendo sinais vermelhos, pensando que a cidade era minha às quatro da madrugada, cantando, gritando.

Eu não tenho saudades dessa época, eu barbarizava, mas não sinto saudades, porque eu sabia que não ia me dar bem, bastava lembrar dos caras com quem dividia as aventuras, e eu me lembro de dois em especial, dois cocainômanos inveterados: um deles era o negrinho Josias que morava no bairro de Mãe Luiza, uma vez levou um tiro quando foi comprar uma sacolinha de pó no bairro de Petrópolis e não sabia o código, existia um código pra poder comprar o papelote, se você não soubesse estava condenado, mesmo que fosse uma cara conhecida. E ele era sim, uma cara muito conhecida. Josias era o cara que trazia todas as merdas ilícitas para maníacos covardes como eu, que gostavam e precisavam disso, mas nunca iam ao comércio negro, só em último caso. Josias sobreviveu, mas não sei mais por onde anda. Lembro-me também do Eric, um mauricinho que era amigo dos caras do morro, com quem eu me encontrava pra falar merda e fazer música, chegamos a montar uma banda que durou vários meses, mas ele foi mandado embora pro Rio Grande do Sul pelos pais, pra livrar-se de nossas más influências, antes que virasse mais um nas estatísticas de drogas e morte. Antes disso, porém, ele sofreria um acidente de carro, e por muito pouco não perderia a voz. Nenhum de nós, porém, ascendeu para além do que esperava, e nunca nos ligamos mesmo muito nisso. De que serviria? Não lembro quem foi que escreveu que, no nosso século, o "grande homem" pode, ao mesmo tempo, ser uma boa besta. Por que se importar muito então? Assim, ficávamos nessas aventuras malditas, pensando que éramos personagens das canções marginais de Lou Reed, envolvidos em viagens depressivas que em nada lembravam os paraísos artificiais baudelaireanos, sempre cheirando e sempre bebendo, e isso é foda, lembro-me de um velho amigo, que já esteve à beira de uma overdose, que dizia que cocaína e álcool são realmente o casal perfeito, duas drogas que se merecem.

Mas eu agora estava sozinho, não tinha mais amigos nesse meio, mas continuava fazendo merda, conheci depois uns malucos no movimento estudantil, mas eles eram uns tolos que fumavam maconha pra ficar estereotipado, nunca me senti bem nessa coisa de colocar na testa "sou drogado", além do que nunca usava drogas em grupo, no máximo na companhia do Josias e do Eric, e então gradativamente fui abandonando tudo, embora vez ou outra ainda enchesse a cara e cometesse loucuras como essa de voar pela cidade no meio da madrugada me achando dono do mundo. Nesse meu delírio a mais de 100 por hora, meus sentidos logo começariam a adormecer, então eu dei um pequeno cochilo, coisa de três segundos apenas, mas quando dei por mim já estava derrapando na estrada, com os dois pneus furados; eu provavelmente havia invadido algum meio-fio por um instante, ou passado por cima de várias tartarugas, aqueles troços fincados no chão que servem de divisória de uma rua para outra, e mesmo no aperreio do deslize e na lentidão de meus reflexos, tentei recuperar o controle da moto, sem sucesso, até que, depois de vários metros deslizando, enfim caí, com a sorte de que já havia perdido bastante velocidade e não me restaram nada mais que alguns arranhões e um deslocamento no braço, além do que, como não havia mais ninguém na estrada, não havia maiores riscos em levar uma relativamente pequena queda naquele chão frio da BR 101, vez que não passaria outro veículo pelo menos nos cinco minutos seguintes...

Eu me lembrei dessa ocasião porque isso ocorreu justo perto da borracharia a que me referia, e foi até ela que empurrei a moto com o sangue quase gelado descendo por dentro da calça suja, e aguardei até que o estabelecimento abrisse, e demorou muito para abrir. Quando me sentei no banco da praça, o céu ainda começava a ver seus primeiros filetes de luz, então logo adormeci. Eu acordaria às 10 da manhã, bem encardido, e foi justo quando a borracharia estava abrindo. Depois que os pneus foram remendados me mandei pra casa, eu permanecia bêbado, porém estava bastante mais precavido, senti-me muito mal o dia todo, vomitei pra caramba na privada, e lá mesmo no banheiro eu fiquei por um bom tempo, não comi nada nesse dia nem nos três seguintes, fiquei muito fraco, porque estava com medo, ainda que eu suspeitasse que meu fim se daria assim mesmo, estatelado numa autoestrada, provavelmente com partes do meu corpo jogadas de lado a lado da avenida.

De qualquer modo, depois dessa ocasião relevei mais certas coisas, nunca mais saí para festas afins, e em raras vezes eu bebo qualquer coisa fora de casa, aliás, tenho passado mais tempo em minha casa que em qualquer outro lugar, coisa que não me ocorria há pelo menos dez anos, e isso tem sido muito bom, tenho gostado de passar menos tempo correndo atrás de outras coisas. Os vícios do passado não se foram, não fiz maiores autocríticas porque nunca mudei efetivamente a visão que eu tinha do mundo, hoje meus hábitos são mais caseiros, mas meus gostos são os mesmos de anos atrás.

E todos esses pensamentos se misturavam na minha cabeça enquanto eu ainda estava sentado no banco da praça, ao lado da revistaria que permanecia fechada, tomado de um sentimento de comiseração comigo mesmo. A essa altura, as meninas de sete anos ainda brincavam no parquinho, o sentinela permanecia fixo no seu lugar. Apesar de ainda ser cedo, umas três da tarde de domingo, comecei a sentir um pouco de dormência, decidi que tiraria uma soneca por ali mesmo, e eu continuava pensando, a vida não é tão boa assim, mas acho que ainda não é o momento de ir embora. Pela segunda vez, adormeci no mesmo lugar.



segunda-feira, 16 de março de 2009

Sem gosto de despedida

Já estava no fim da tarde, e eu estava deitado no sofá dividindo minha atenção entre o cochilo e a TV ligada no modo silencioso, quando escutei alguém me chamando lá fora, uma voz feminina, e me espantei porque raramente alguém me procura aqui, essa casa só tem algum tipo de movimento quando a minha mãe aparece, e isso ocorre com mais frequência nos domingos. Eu olhei pela janela do quarto e vi que era Cinthia, uma ex-namorada, e disse que poderia entrar, que o portão estava aberto.

Não, não está aberto, foi o que ela disse.

Que merda, pensei.

Eu estava encardido, não havia tomado banho ainda e vestia a mesma roupa do dia anterior, porque nesses tempos eu não faço nada, estou de férias das escolas onde dou aula e da faculdade, passo o dia bebericando, escrevendo, e comendo pão ou biscoito recheado, no máximo peço alguma comida pelo telefone.

Esperaí, falei, e lhe joguei a chave pela janela. Abre aí e entra, disse num grito, eu vou tomar um banho rápido.

Quando saí do banho, a Cinthia estava no sofá, lendo umas cartas que estavam jogadas na mesinha de centro. Eu recebo muitas cartas, porque nas últimas semanas estava participando de um grupo informal de trocas de correspondências, e não chegava a ser exatamente divertido, a maioria dos correspondentes eram mulheres carentes de meia-idade que tentavam nos enganar e se enganar dizendo que queriam apenas amizade, mas era bacana se corresponder, de modo que eu passava o dia lendo e escrevendo cartas, escrevia em média catorze nos últimos dias. Expliquei essas coisas a Cinthia e ela achou tudo isso uma grande bobagem.

A razão de sua visita era para fazer um pedido. Ela estava terminando o curso de Turismo, estava no relatório final, dissertação, TCC, ou algo assim, e me pediu para ajudá-la. Faltavam apenas três semanas e ela só tinha esboços do que queria fazer, e – como nos seus primeiros anos de curso, quando nos conhecemos – pediu que eu a ajudasse de alguma maneira.

Cinthia era uma ex-namorada por quem eu mantinha não somente uma grande consideração, mas um respeito pleno. Ela sempre fora a minha meta inalcançável. O meu ponto fraco. Por ela, eu não era apenas apaixonado, era obcecado, era viciado. Talvez isso, de lado a lado, gerasse o clima de turbulência que era constante entre nós. A vitalidade e a personalidade forte que eu via nela e que se mesclava com sua meiguice, nunca vi jamais em qualquer outra garota, quase todas com quem estive se reduzia a paparicações, passividade e voz extremamente aguda e recatada, e eu pensava nisso mesmo agora, depois dois anos que passamos distantes, e que eu sequer a beijava, pois ela já estava em outra, com outras metas, agora era uma moça evangélica, microempresária, e já próxima de noivar. Mesmo com tudo isso, ela ainda era presença constante em meus pensamentos, de maneira que eu continuava a sentir seu corpo, seus lábios, seu calor em qualquer outra garota com quem eu estivesse depois dela. Isso, no início, era um grande tormento para mim, mas depois de algum tempo já me faria estar conformado: eu estaria sempre acompanhado do fantasma dessa garota, marcado pelo seu estigma. E pra ser sincero, não achava uma má idéia.

Então passei a ajudá-la na pesquisa nesse dia, em que ela ficou umas quatro horas, e no dia seguinte, quando ela voltou. A Cinthia tinha meu endereço há anos, mas nunca me havia visitado, o que me surpreendeu bastante. E eu nunca tive muito em casa para oferecer, e estavam o quarto e a cozinha bagunçados e empoeirados. Era engraçado eu tentando arrumar rapidamente alguma coisa da maneira que desse. Ia comprar um refrigerante e preparar uma comida, talvez um macarrão, pra ser simpático, porque eu só tinha água e conhaque em casa, talvez uns camarões empanados, pré-prontos, mas ela disse que não precisava.

O projeto que ela elaborara previa também uma viagem, da qual ela havia aberto mão, por não lhe ser viável, mas eu ofereci a idéia de irmos juntos, afinal eu tinha na época uma pequena moto, era uma Biz, bem modesta, mas certamente a levaria aos lugares que são seu objeto de estudo: algumas cidades parcamente visitadas do interior do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Ela aceitou a ideia e dentro em uma semana, saímos para passar dois dias viajando pelos quinhões sertanejos que ficam aqui do lado. E enquanto viajávamos, visitávamos os locais e ela fazia o seu estudo, e eu apenas permanecia contemplativo, só quebrando o galho em alguns momentos, e redescobri dois prazeres, que eram a companhia da Cinthia e o deleite de uma viagem de moto, sentindo o vento no corpo, ver a estrada e as paisagens e tudo o mais que houver ficando para trás.

Passamos duas noites na mesma pousada. Na primeira, ainda como viagem de ida, conversamos bastante, relembramos fatos de nosso passado, e as coisas que vivemos quando já estávamos distantes um do outro.

Você não mudou nada, era o que mais se ouvia dos dois lados.

Apesar de estarmos nos dando bem nessa viagem, a cada momento ela dava um jeito de lembrar que não havia mais possibilidade para nós dois. Ela gostava agora de se dedicar a algumas coisas de sua igreja, já estava se estabilizando e contava várias coisas da loja de roupas que havia montado, que eu simpaticamente disse que conheceria no futuro, e de seu namorado, um detetive particular. Eu lhe contava que agora dava aulas, tinha uma revista, mas ela não se interessou muito, lembrou que quando namorávamos eu já escrevia mal e porcamente. Talvez não estivesse errada - relendo algumas coisas da época, eu mesmo concordo -, mas ela também nunca fora eficiente nos seus projetos; a loja não era o primeiro.

Na mesma pousada, no dia seguinte, quando já fazíamos trajeto de volta, não conversamos muito. Ela foi dormir rápido, se dizia cansada, mas bem. Eu até pensei que ela talvez quisesse romancear um pouco tudo aquilo. Que tal se aproveitássemos essa noite?, lhe perguntei. Ela deu um sorrisinho irônico e foi se deitar sem responder, e isso me lembrou a época em que namorávamos. Ela sempre teve uma personalidade muito forte, e eu também sempre fui de convivência difícil, e, como foi dito, frequentemente nosso relacionamento era acompanhado de momentos de tensão. Cada um tentava se impor sobre o outro, não era uma relação com mandante. De qualquer modo, na nossa rivalidade existia uma parceria involuntária, uma cumplicidade, um duobanditismo. Agora, muitos meses depois, éramos os mesmos, mas ninguém tomava postura sobre o outro, estávamos cada um na sua, mais assépticos, mais vazios, menos personalistas - nossa cumplicidade hoje se resumia a troca de gentilezas, transformamo-nos naquilo de que sempre tínhamos medo de nos tornar. Isso me deixou meio puto na hora, mas eu relevei, porque não sou do tipo que tenta deixar as coisas pra trás, que tenta esquecer o passado achando ser a melhor solução. Gosto demais da minha vida, em todos os seus impropérios, pra tentar apagar um minuto que seja da memória. Eu sabia que esses momentos seriam os últimos que passaríamos juntos - e era melhor que fossem mesmo -, mas mesmo assim eu o notava mais como reencontro que como despedida. Foi acompanhado dessas divagações que, enquanto ela se dirigia à cama em silêncio, eu ia dar uma volta pelas ruas escuras, até comprar umas cervejas em lata no posto de gasolina mais próximo e bebê-las solitário num ponto de ônibus com a boca franzida feito um bebê chorão.





Depois desse dia, só tive chance de revê-la na sua apresentação, que foi aprovada com louvor. E eu raramente fico orgulhoso por alguém, mas fiquei muito por ela. A Cinthia havia me marcado tanto, e mesmo que estudássemos no mesmo lugar já não nos víamos mais, porque ela estudava pela manhã e eu à noite. E quando eu pensava nela antes da sua visita-surpresa, a única coisa que eu desejava era poder participar de sua vida uma última vez, participar de algo que lhe fosse importante. E eu consegui, mesmo não tendo oportunidade para algo como um novo último beijo, mas ainda assim me senti contemplado.

Dias depois, eu comprei uma moto nova, para fazer reviver em mim o desejo de pegar a estrada – mas dessa vez, sem companhia.

Assisti à sua formatura, mas não me demorei muito tempo na cerimônia e saí sem cumprimentá-la. Sabia que era a última vez que a veria e não queria estender tanto aquele martírio, eu já estava bastante desconfortável, suado. Sentia o calor de sempre, o calor dessas ocasiões, porém mesmo esse calor insuportável não abranda o frio da alma. Fui para o Bar do Caixão, que ficava do outro lado da avenida, e passei ali as quatro horas seguintes enfiando goela abaixo uma cerveja atrás da outra. Eu me mantinha com o olhar fixado na bebida, observando o lúpulo que subia em minúcias e fazia um pequeno borbulhar no topo do copo, enquanto resmungava Cinthia... Cinthia... Cinthia... bem baixo, tão baixo que se houvesse mais alguém na minha mesa não escutaria.



sábado, 7 de março de 2009

Sobre nós e sobre os outros

Eu recebi hoje um email de um conhecido dos tempos de colégio, estava anexado com umas fotos recentes de Rodrigo, um dos caras mais arruaceiros que já conheci, quando nos falamos a primeira vez devíamos ter uns 13 anos, e mantivemos contato pelos três ou quatro seguintes. Depois que nos distanciamos, só tive notícias suas em dois momentos: um foi quando ele passou uma semana preso por estar empossado de umas muambas, que, como se não bastasse, eram roubadas; o outro momento foi agora, através dessas fotos. No corpo da mensagem, o remetente tentava convencer a mim e aos outros três ou quatro destinatários a abrir as imagens.

EI AMIGOS VEJAM O QUE ACONTECEU COM O VENTA
HAHAHAHAHA QUEM SABE ELE APRENDE
SAUDADES

Eu não tinha entendido, só entendi quando vi as fotos. Rodrigo estava acabado, havia sofrido um acidente de carro e era só cacos, com lesões que iam desde pequenos arranhões na bochecha até uma fratura horrível nos metatarsos que o impediria até de colocar o pé no chão por um tempo, mas estava vivo, e chegava até a sorrir em uma das sete fotografias, fazendo um sinal com as mãos.

Eu pensei em responder a mensagem pedindo algum contato do Rodrigo, telefone ou coisa assim, mas deixei pra lá. Ele provavelmente não se lembrava de nenhum de seus colegas do tempo da escola, sabia que no máximo era motivo de chacota para alguns que o chamavam de "venta", e eu nem sabia que ele tinha esse apelido.

Isso tudo na verdade era só algum passatempo na madrugada. Não havia mais nada a fazer, e eu não tinha sono. Não tinha bebida em casa, nem comida. Tomei banho pra passar o tempo, mas isso só me fez pior, porque a água daqui tem muito cloro, e eu sou meio alérgico, sei lá, não sei se é possível ser meio alérgico, mas o fato é que passei vinte e cinco minutos no banho, às três da manhã, e quando saí o meu corpo era só pruridos. Eu demoraria mais no banho - enquanto estou embaixo d'água, nada sinto -, mas escutei o celular apitando, era uma mensagem que havia chegado. Eu pensava quem me escreveria algo a essa hora?, e sabia que havia grande possibilidade de ser uma mensagem automática da operadora lembrando-me de minhas dívidas. Mas não, não era uma mensagem automática, era uma mensagem de um amigo chamado Silas, perdido num apartamento de alguma garota fácil dessa cidade. Ele dizia:

CARA LEMBRA QUANDO VOCE ESTAVA MAL COM AQUELA GAROTA POIS EH AGORA ESTOU ME SENTINDO ASSIM TAMBEM LIGA PRA MIM VAMO CONVERSAR.

Fiquei matutando sobre o porquê de ele fazer a referência a um momento em que eu estava mal, sobretudo com "aquela garota". O que tinha a ver? Será que ele imaginava que eu só lhe daria atenção se houvesse um peso que me obrigasse a isso? De qualquer maneira, de nada adiantaria pensar nessas coisas, porque eu não tinha mesmo condição para lhe telefonar, e fiquei mal por isso. De fato, Silas tinha quebrado um bom galho noutros momentos, e agora eu não poderia retribuir o amparo, que babaca que sou, eu pensava de mim mesmo, mas o que poderia fazer?

Decidi matar o tempo com alguma leitura, embora não estivesse muito a fim. Dei uma olhada na estante e peguei rápido um livro qualquer que fosse, o quarto estava escuro ainda, de maneira que eu não sabia que livro tinha pego. Só depois que acendi, vi que havia sido um do Jack Kerouac. Eu achei que seria bom para adormecer, porque Kerouac é um dos tipos que me ajudam a escrever, quando quero escrever, que me ajudam a dormir, quando quero dormir, e me ajudam a passar o tempo, quando quero apenas passar o tempo, no ônibus, por exemplo.

Ela é uma garota bonita demais. Eu me pergunto o que todos os meus amigos iam dizer... e o que aconteceria em Nola quando você a visse... sob o sol quente, ela de óculos escuros e um andar preguiçoso... Ela fala de um jeito parecido com minha velha tia franco-canadense lá de Lawrence. "Não quero su moa-ny, o que quero é yur loave." Loave, amor. "És yur lawv." Lawv, lei. Acontece a mesma coisa com Tristessa, que tá o tempo todo tão doidona, passando mal. Ela se aplica 10g de morfina sempre, e sai cambaleando pelas ruas da cidade tão bela, e seus olhos reluzem e seu rosto está úmido com o sereno...

Essa Tristessa é muito louca, muito intensa, eu pensei, e censurei a mim mesmo por ter pensado isso, porque é o que faço todas as vezes, penso demais enquanto leio esse livro, que leva o nome de sua protagonista, Tristessa, e é por meditar tanto nele que não consigo nunca lê-lo todo, mesmo sendo bem pequeno, nem pode ser chamado de livro, é um livreto que não custa nem 6 reais e fica jogado nessas seções de livros que só olha mesmo quem não tem dinheiro para comprar os best-sellers das outras estantes que custam dez vezes mais, embora seus conteúdos valham dez vezes menos. Fico aborrecido porque a leitura de Kerouac deveria ser feita como a escrita, de uma só vez, como o fiz em suas outras obras a que tive acesso. Em se tratando desta, porém, deve haver algo de errado, ou com ela ou comigo. Só sei que sempre que a tomo em mãos, eu parto da primeira linha, e precisaria de um dia inteiro para chegar ao fim. Talvez seja uma forma inconsciente de eu não aceitar que essa história termine tão rápido, como fatalmente seria se fosse lida dum só lance. Decidi deixá-la de lado por uns instantes, fiquei a olhar para o nada e só então achei engraçado o fato de ter pego justo esse livro na estante, porque eu o comprei exatamente com uns trocados emprestados do Silas, que agora me pedia refúgio. Lembro que na ocasião da compra, estávamos num hipermercado, de bobeira, nem recordo o que estávamos buscando e vi esse livreto. O pior é que não tinha nem 6 reais no bolso, eu devia ter 4 reais ou menos, e lhe pedi o restante.

Não tenho, mas peraí, disse o Silas, e saiu, enquanto fiquei folheando outros livros, e em menos de dez minutos ele voltava com a parcela que faltava, em umas dez moedas de 25 centavos.

O que você fez?, perguntei.

O que você acha que fiz? Eu saí pedindo, é claro, foi o que me disse. Vai aceitar ou não?

Aceitei.

Era curioso que ele agora estivesse nessa situação, porque no dia anterior estávamos conversando, eu, ele e mais três amigos, num barzinho pequeno, próximo à escola onde dou aulas, e tanto o Silas como os outros falavam alto sobre as garotas que comeram neste último carnaval, mas o papo não fazia muito sentido pra mim, porque não participei dessa farra licensiosa do carnaval, embora já tenha usufruído dela noutros tempos. É só que agora não tenho mais interesse porque nem meu ânimo é o mesmo, hoje acho que não tenho sequer condições para transar mais de uma vez por semestre, e olhe lá, sem repetições.

Você fala como um velho impotente, disse-me uma garota dia desses.

Você é uma decepção, disse outra, menos de 48 horas depois.

Para as duas eu apenas sorri e mudei de assunto.



terça-feira, 3 de março de 2009

O Literatura Vil ocasionalmente recebe selos de blogs amigos que reconhecem a qualidade do trabalho aqui exposto, composto de acordo com a minha capacidade, porém abaixo da minha infinita pretensão.

O blog não tem restrições quanto a selos - como a recusa automática a expô-los, por exemplo -, porém, como eu mesmo já comentei a algumas pessoas que mos ofertaram, sou um blogueiro ali dos tempos distantes, fiz meu primeiro blog há cinco anos, era um período em que a blogosfera estava em refluxo (os blogueiros mais antigos hão de concordar), ou seja, era uma fase em que escrever em blogs era o suprassumo da marginalidade cibernética - realidade que mudaria de 2007 em diante, quando tivemos uma nova guinada, e hoje temos um novo e produtivo cenário (uma mostra disso podem conferir nos blogs linkados no menu).

Desse modo, ainda que seja saboroso o hábito de visitar e comentar postagens de outros blogs, o processo de interação que tenho para com eles (e para com o mundo dos blogs em geral) é quase zero: não participo de sites de blogs, nem de muitas campanhas existentes, não troco joguinhos, etc, senão muito ocasionalmente... Isso se dá porque, após anos postando em páginas solitárias e distante dessas atividades conjuntas, mantenho certa hesitação em me envolver nesses editos por não saber ainda lidar com eles. Portanto, selos, memes, brincadeiras e afins nunca me atraíram necessariamente. Sou um blogueiro amador, solitário e inquieto. Sempre fui.

Mas apesar disso tudo, não sou ingrato, agradeço a todos que me enviaram selos e os exporei abaixo. Apenas lamento o fato de não ter feito imediatamente após exposto pelos blogs que me indicaram. E peço desculpas, mas não postarei regras, nem os indicarei para outrem, porque a minha seleção de blogs é una - é aquela que, conforme já foi dito, está posta na coluna à direita. É isso.

O colega Italo Sena, do blog Quem Matou Osama, enviou-me este selo: "este blog é alegre e criativo: reflete entusiasmo e criatividade". Hmmm... Se ele diz, né, que assim seja. Ademais, acrescento: o blog Quem Matou Osama é um dos raros blogs de humor que conseguem me tirar algumas risadas... só não posto no menu lateral porque, sinceramente, não acho que tem nada a ver com o Literatura Vil... creio que a justificativa é mútua. Sucesso para o Italo!


A Dina, do Acorda Pra Vida, exclama que o Literatura Vil é um blog maneiro... Pois é, eu concordo, tanto que sou o autor e o principal leitor deste recinto! No mais, quem ainda não a conhece, não há porque perder tempo...


A Natalia, ou apenas Naty, do Sou Continente Perfeito, indicou o selo Literatura é Arte para este blog, motivo de orgulho para este que vos escreve. A Naty, que, obviamente, já havia sido indicada a receber este selo, sabe que seu reconhecimento também é merecido.

Recebi do blog O Instável Mundo da Juh o selo Meu Blog é um Encanto. Não dá nem margem pra comentário, só posso agradecer... o blog da Juh eu conheci dia desses, e, vá lá, é interessante. É um blog que tem um astral interessante, é reflexivo mas é algo bem pra cima... vale a visita.

A Mari Vilani, do Cantinho Misantrópico, enviou-me o selo Esse Blog me Faz Sorrir (a Juh também me enviou). Demorei para relembrar essa indicação, assim como as outras, mas sso não diz nada; gostei da indicação como gosto do blog da Mari; digo mais, Cantinho Misantrópico bem que poderia ser nome do Literatura Vil... acho que escolhi mal. Mas ela foi mais esperta e o catou primeiro.


Além destes selos, a Michele do blog Perscrutarei também me houvera enviando um meme (brincadeira) onde eu deveria listar seis coisas sobre mim. A Michele - e, salvo engano, a Naty também - é mineira, conterrânea de vários dos blogueiros e blogueiras que estão linkados pelo Literatura Vil (além de outros que visito). Terra boa é essa...

Eis as coisas sobre mim:

- Às vezes tenho preguiça de assistir aos jogos do meu time;
- Pelo menos metade dos blogs que visito não estão linkados aqui, nem por isso me são menos importantes;
- Meus textos são muito, mas muito influenciados pelos meus escritores favoritos;
- Eu não me importaria em ser limpador de vidraças no futuro se tivesse meu tempo livre para escrever;
- Tenho dois desejos: trocar uma prosa com Zé Ramalho e com Rubem Fonseca;
- Uma das coisas mais prazerosas que existe, a despeito do pensamento corrente, é dar aulas.

É isto. Agradeço a todos!


* * * * *

Fragmento

Achando a festa meio maçante, eu me dirigi ao bar onde eram oferecidas várias bebidas e lá fiquei por coisa de meia hora, balançando insistentemente a cabeça com sinal de negativo cada vez que olhava para a multidão, e voltava-me para o balcão. De repente, ao meu lado, senta-se uma menina e me causa um baque: era a mais linda que eu já vira - uma princesa!, uma boneca!, uma obra de arte plástica em forma de garota! Quando ela me notou, manteve o olhar fixo em mim por míseros dois segundos, mas eu rapidamente concluí que nossa empatia havia sido imediata! Logo senti que ela fugia à superficialidade das garotas daquela festa. Sim, ela era diferente, era mais delicada, era mais cabeça aberta, era mais fácil rolar um bom papo. Já visualizava nós dois rindo e conversando durante longo tempo até o fim da noite, eu a levando pra casa, ela me convidando pra entrar, a gente nos dias subseqüentes pegando uns cinemas e barzinhos simpáticos iguais àquele em que nos servíamos. Para dar início à nossa longa história juntos, abri de modo bastante original a conversa:

Oi?

Ela me ignorou solenemente, pegou a caipirinha que lhe fora servida e saiu sem expressar o menor interesse, e nunca mais voltei a vê-la.