terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Nostalgia na sala-de-estar

Estou sentado numa poltrona, a mesma que outrora já considerei de algum conforto, e que agora não passa de madeira coberta por uma penugem vagabunda, definhando aceleradamente. Seu tecido vermelho-borrado está nitidamente mofado pelo tempo. Como a poltrona, a sala ao meu redor se mostra miserável. Tento me ver nesse ambiente, aqui onde vivi tantos anos, mas ainda me sinto um estranho. Um enjôo angustiante apodera-se de mim cada vez com mais violência, sempre que giro minha cabeça em direções distintas, enquanto observo o abatimento do cômodo, sob a luz baixa do abajur. Ora... não me reconheço naquela mesa de centro, ou no carpete empoeirado e nem no resto da sala - tudo pretensamente limpo e arrumado, mas de uma decadência entristecedora. Quem se sente confortável em tal situação? Eu admito que não fui mais do que isso. Pelo contrário. Nunca neguei minha origem putrefata, inesperançosa. Agora, no entanto, mantenho minha insinceridade vivendo uma falsa vida, uma vida que não é minha... sinto-me lúcido, entretanto, ao mesmo tempo, não consigo controlar o temor que começa a se apossar de mim... e sentado aqui, estático, de ombros encolhidos, olhos marejados de lágrimas que fazem aparecerem tremidas as minhas visões, boca curvada e acaretada como a de uma criança chorona, eu só queria poder sair...

Mas não posso.

Não posso porque há algo a me prender. E esse algo, de pele alva e cabelos castanhos, é uma mulher a quem eu, aparentemente, já nada ofereço, e por quem nada sinto... contudo, ainda a respeito. Uma mulher que conheci num beco escuro, num buraco de lama, numa fetidez quase semelhante à minha... conhecemo-nos trocando muitos goles de álcool, e nosso primeiro beijo não seria consumado se eu não estivesse mais interessado no gosto de conhaque de alcatrão que sua boca continha. Ela era diferente de mim... e muito! Era uma sonhadora! Para ela, o mundo estava apenas um passo adiante... brincava com a vida como quem é dono de toda a sorte que existe. E foi desse modo que ela fez o que pôde para livrar a si própria e a mim daquele dito submundo. Ela era assim, dividia a antiqualidade de uma alcóolatra desorientada com a astúcia de quem sabe que pode tudo - mas eu não! Não tenho ambições, não tenho desejos de grandeza. Não queria sair de onde vivia... era lá meu lugar! Ela me tirou, de qualquer jeito. Não sei reagir a isso. Eu não devia não ser canalha. Devia agradecer pelo que fez.

De lá para cá, passaram-se anos... mas olho para nossos retratos de parcos sorrisos e nem de longe parece a mulher que conheci e que me encantara por despertar em mim sentimentos bem distintos do que qualquer outra já o fizera... ela não me despertava apenas desejo pelo desejo, atrações e tremedeiras. Mas mistos de sentimentos positivos e negativos, que em outra ocasião vos contarei, caros leitores... fossem como fossem, o que interessava a mim era a oportunidade de experimentá-los... numa vida de emoções capitaneadas pelo álcool e pelos comprimidos, talvez a dependência que passei a ter dessa mulher fosse a única saudável... É o que eu pensava.

Eu, que agora passo todos os dias de minha vida sentado nesta poltrona. Todas as tardes... o Sol desce e eu permaneço submerso em divagações, desta vez iluminado apenas pelo abajur. Sequer percebo quando a mulher entra na sala. E ela já não diz nada. Quando dirigiu a voz a mim, certa vez, foi para reclamar do peixe que se deixara morrer no aquário. Por minha vez, também já não a conseguia ouvir direito, mas, numa esperança de vê-la tentando recuperar o que perdemos, e que já não sei mais o que é, pergunto, fazendo, talvez, o maior esforço de minha vida:

- O que houve conosco?

Talvez seja difícil para ela responder. Ou talvez ela nem queira, mesmo... ingrata como é, já deve ter se esquecido de onde veio. Certamente, não imagino o quão aterrorizante a resposta dela pode ser... porém, dessa mulher, eu já não espero nada. Com rara razão.

- Um de nós dois ficou sóbrio - ela disse, apenas.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Sobre quando senti saudades

Ele era divertido, sincero e despreocupado como uma criança, a despeito de seus quarenta e poucos anos. Isso, no entanto, não afetava sua vida social, por uma razão simples: ele não tinha vida social. Quando adolescente, era um visionário, carregava livros e sonhos em sua mochila. Parecia promissor, como bom estudante que era, como bom amigo, como namorado, como companhia pras diversas atividades. Um cara requisitado e considerado. Como já dito, estudioso inveterado, gostou da experiência adquirida quando do serviço militar e traçou como meta ingressar na carreira definitiva. Além disso tudo, atleta, forte e eficiente. "O melhor goleiro da Força Aérea".

Os sonhos, porém, como as borboletas, morrem todos os dias. Com aquele garoto-prodígio, não foi diferente. Bastou um acidente de carro - um atropelamento, um arremesso de 30 metros que fez seu corpo outrora vigoroso e facilmente autosustentável virar um pedaço de pano seco e frágil no asfalto.

O desejo de ser um militar de carreira se foi. Quase tão repentino quanto o acidente sofrido, foram-se embora também os amigos, a namorada, as outras tantas pretendentes, o sorriso fácil.

Apesar de tudo, sobrevivera. Isso era o mais importante, afinal. Assim lhe diziam os parentes e um outro aprochegado, estes nem um pouco íntimos. Para aquele jovem acidentado, no entanto, a oportunidade de sobreviver se tornou simplesmente um adiamento de sua morte. É fato que suas habilidades básicas lhe foram devolvidas. Com ajuda de pinos e parafusos, voltou a andar, a se movimentar normalmente e a viver "como se nada de tivesse acontecido". Mas era impossível pensar que nada tivera acontecido. Considerava uma desonestidade para com seus próprios desejos que o acompanhavam até ali.

Como é o destino de todo indivíduo malogrado e arruinado, ele afundou no mundo noir do álcool e do tabaco. Fumava como uma chaminé e bebia a ponto de esquecer o nome do planeta em que vivia. Nos trabalhos que arrumou depois da recuperação, não se mantinha por mais que algumas semanas. Nos estudos que tentou prosseguir, já não sentia mais nenhum ânimo em concentrar-se. Tornou-se um baderneiro. Roubava. Quebrava bares e batia em pessoas. Em casa, virou um parasita na família, morando com a mãe - agora já uma senhora, atormentada com as constantes notícias de seus escândalos. Ela que era avó, graças a seus outros irmãos. Seus irmãos, aliás, todos bem-sucedidos, o humilhavam constantemente, quase como esporte. Freqüentemente convidavam-no a dar fim à própria vida: "te dou o funeral que dos seus sonhos, mas vá embora e deixe nossa mãe em paz".

Foi nessa época turbulenta que o conheci. Ele era tio de um amigo dos tempos do jardim de infância. Mas rapidamente tornou-se mais que isso; com ele próprio eu criaria um laço de amizade. Eu, que só o via por meio de meu antigo colega de escola, passei a, eventualmente, visitá-lo. Bem se notava que ele ainda guardava a alegria e a pureza doutros tempos. Com sua companhia, assistia aos jogos da Seleção, embora fosse difícil, uma vez que ele só gostasse de jogos onde Ronaldo estava escalado (ao contrário de mim). Também conversávamos sobre bebidas, ainda que já não pudesse beber nesse período, pois seu organismo estava muito debilitado (dava vontade de chorar quando eu o via sem sequer conseguir se levantar após umas poucas doses). Mas ele ainda bebia às escondidas. Além disso, proseávamos longamente sobre planos... mas isso não levava a nada, afinal ele já não tinha planos. E eu apenas pensava que tinha.

O tempo, esse traiçoeiro, fez com que nos víssemos em cada vez mais fugazes oportunidades. A ele obedecemos vergonhosamente, e já fazia dois anos que não via nem falava com esse bom amigo.

Então, senti saudades.

Passado o último Carnaval, numa bondosa tentativa de prosear e marcar uma hora para nos reencontramos pessoalmente, eu lhe telefonei. E qual não foi a minha ingrata surpresa - o meu espanto, meu arrepio, meu sobressalto, e o retorno daquela vontade de chorar - quando recebi a acanhada informação de que poucas horas depois, seria celebrada uma missa pelo sétimo dia de seu falecimento...

Esse cara estragou a sua vida, pensei, ao desligar mecanicamente o telefone. Mas isso era besteira. Era julgamento. Estragar sua vida, afinal, todos fazem. Ele apenas estragou á sua maneira. Estava no seu direito. A minha tristeza estava contida, como todos os fortes sentimentos assim estão, no meu comportamento reservado. Em menos de um mês, eu iria novamente a uma missa de sétimo dia, pois semanas antes falecera a minha avó - minha avó não, avó da minha irmã... uma senhora de setenta que literalmente negou até a morte qualquer possibilidade de eu ser sangue de seu sangue. Mas a despedida dessa desolada senhora, néscia e delirante em seus últimos dias, para mim, foi mera burocracia familiar; a despedida deste camarada, todavia, sim, me abalava. Mais uma vez, segureia as lágrimas por ele. Bebeu muito, mas, de fato, morreu de tanto fumar, pobre homem. O cigarro, que mata centenas de milhares de pessoas anualmente, estatísticas que não abrangem aqueles que merecem, como a senhora minha mãe, que vive por inércia e dinheiro, mas leva outras boas pessoas que já não querem nada da vida, porque não podem querer nada.

E eu sequer pude ir a seu funeral, vê-lo pela última vez, ainda que pelo visor do caixão, sob a pele ossuda e horripilante de uma vítima de câncer de faringe. Precisei conter meu choro novamente, pois não gosto de despedidas, mas não fujo delas. As despedidas são os momentos mais importantes das nossas vidas. Despedida da faculdade, do namoro, do emprego, da rua onde moramos, da vida. Elas são um resumo de tudo que conquistamos ou deixamos de conquistar.

Na missa, sob um olhar trêmulo, sua mãe me disse que ele, nos seus últimos momentos, queria ver montado um quadro com a foto de todos os seus amigos, do tempo de sua juventude até aquela fase de meia-idade (essa meia-idade, para muitos um novo começo, para ele um novo fim). Então, ele fez uma lista de quem deveria estar. Eu estava na lista, é claro... não era o primeiro nem o último, mas estava - isso é o mais importante. Porém, a comoção daquela velhinha de oitenta anos me contagiou em definitivo quando eu soube que meu retrato era o único não incluído no dito quadro. Era impossível, ela disse, pois não tinham nenhuma foto minha.

Mais uma vez, eu segurei o choro. Até chegar em casa.


Com o pensamento em Adelmário de Souza Matos

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A Primeira Noite

Já eram 23h e tantos e ele ainda não sabia para onde ir aquela noite. O Centro da Cidade estava esvaziado, e só se fazia presente a incômoda fetidez de mijo e cerveja que toma conta do lugar à noite. Embora a hora denotasse que já estava ficando tarde, parecia-lhe que muita coisa ainda aconteceria nos instantes seguintes. Mas ele não queria passar aquela noite na rua. Quisesse ou não, ela tinha algo de emblemático, de simbólico.

Depois de vaguear ante as pequenas lojinhas das ruas-beco que se acotovelam entre as principais vias da Cidade Alta, encontrou um hotel asqueroso, mas que oferecia a comodidade pela qual poderia pagar. "Ao menos uma TV ou um radinho deve ter", imaginou, consolando a si mesmo. O salão do hotel, com um balconista e outros quatro caras ao redor de uma mesa jogando cartas, era uma ebriedade só, e lhe trazia à sua memória os filmes vagabundos aos quais costumava assistir na infância - aquele lado escuro da vida, que nunca pensou em experimentar de fato. No entanto, o tempo corria e ele não estava chegado a reflexões. Pegou a primeira chave que o estonteado atendente lhe oferecera e foi ter com o primeiro quarto desconhecido que o acolheria. Lá, nada de radinho ou TV. Apenas uns beliches sujos, quase nenhum com estofado. Da janela, que ficava a dois andares do chão, o que dava uns dez metros de altura, contemplava a decadência dos muitos mendigos, entorpecidos nas calçadas pequenas daquelas ruelas. A maioria das pessoas agradeceria por ter uma cama para dormir, ele pensou. "Sou um ingrato filho-da-puta".

Durante toda a vida, esperou por aquela noite. Contudo, não imaginava que passaria como um mundano, num hotel nojento qualquer. Não chegou a chorar; e se o fizesse não seria por saudades nem por desesperança. Aconchegou-se da forma que pôde, e, pela noite, leu um livro de Cassady, mais um jovem inconseqüente doutros tempos que o ensinara a desprezar a boa-vida que recebera até ali. Não agüentava o tormento daquelas horas e retirou da mochila uma garrafa de vinho pela metade, que o ajudaria a se aquecer e divagar o restante da madrugada, bem percebendo que estava longe de sentir sono. A certo instante, somente quando precisou do toalete, foi que ele entendeu que não estava num suíte - não havia suítes ali, afinal. Caminhou até o fundo do corredor, mas o pouco de dignidade que guardava (que frescura, ó céus!) o impedia de usar o banheiro coletivo repugnante que era dividido entre todos os hóspedes do andar, composto de bêbados, prostitutas e, ocasionalmente, um ou outro adolescente fugidio, "igual a você", conforme lhe dissera um dos embriagados que conhecera na entrada.

Tudo se passou num misto de alegria e tristeza - mas uma tristeza jubilosa, quase uma constatação de que estava vivendo um lado mais sincero e honesto da vida, tal como ela deveria ser de verdade no seu imaginário. Estava, no fim das contas, satisfeito. Nos vinte anos anteriores, fora sempre tido como um sujeito esquisito e ermo, mas os adjetivos inglórios até então recebidos pouco significavam agora. Já não pensava mais em nada depois de alguns tragos de vinho, quando reparou num crucifixo que ornamentava, solitário, uma das paredes do quarto, entre rabiscos de caneta outrora traçados por hóspedes canalhas e metidos a poetas. "Deus, aprendi com você a ser um errante", foi o que disse. Ou parece que disse, não tinha certeza.

Sua paz acabou quando bateram na porta, às 4h e tantas, enquanto filetes de luz matinal já começavam a iluminar o ordinário ambiente. Embora ele estivesse acordado, estava absorto demais para ter consciência disso. Estava drogado, diriam, como sempre disseram, os lugares-comuns que povoaram sua vida. Mas enfim percebeu que havia mesmo alguém forçando a porta no corredor. Quem seria? Ele não imaginava. Bem poderia se tratar de apenas um beberrão tentando entrar no quarto errado, ou até um serviço de quarto, mas isto ele sabia que não havia naquele antro. Talvez alguém que, após alguma procura, descobrira o seu paradeiro. Tentou não dar muita atenção, entretanto as batidas não cessaram. Até que, num dado momento, sem entender muito bem o porquê e sem que se preocupasse com motivos ou razões, desceu-lhe uma minúscula lágrima pelo rosto, e um sorriso indolente desestatuou seus lábios. Pegou uma caneta que tinha no bolso para pôr uma sentença na parede, como tantas outras que já estavam ali expostas. Ele se viu quase completamente sem o controle dos próprios nervos, e, com muito esforço, escreveu: É possível alcançar a supressão do sofrimento que é a vida. Dito isto, não tinha muito mais a fazer. Então se dirigiu à janela. É bem verdade que dez metros nem sempre chegam a ser fatais, mas ele estava decidido a pular de cabeça para baixo, para não ter muitas chances. "Nunca tive segundas chances", pensou, no fim. "Seria muita ironia se tivesse agora".

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Carta de Demissão

Senhor supervisor,

Eu poderia, - ou deveria - inicialmente, expressar minha civilidade elogiando o trabalho prestado por Vossa Senhoria e pela pretensamente conceituada empresa à qual estive vinculado por, é verdade, 24h. No entanto, pularei essa parte.

A carta que vos envio, compreenda, não tem o objetivo de justificar nada, tampouco explicar. Sou sincero: não quero nada com essa carta, senão matar a minha vontade de escrever algo com a certeza de que será lido, o que vai além de um hobby; é uma das coisas que me mantêm vivo. É sempre possível, contudo, que ela não seja lida. Mas bem sei que com o pouco trabalho que cabe à supervisão diariamente, lê-la torna-se até um passatempo.

Não questiono o ócio a que os supervisores desta empresa têm direito, mesmo porque o trabalho que me foi confiado também não era nem um pouco pesado. Até agradeço por ele. Porém, no meu primeiro dia no emprego, sentado atrás daquele birô, - "um birô só meu", como vocês bem prometeram - naquela salinha de fraca iluminação, paredes azuladas, crucifixos tortos na parede e aparência decadente, vez ou outra recebendo telefonema de algum desinformado, estive pensando. Pensando sobre mim, sobre este trabalho. Respondendo perguntas, preenchendo formulários e divagando a maior parte do tempo. Senti-me mal. Muito mal. A estranheza que se apoderou de mim quando me dei conta de onde estava me fez entender que um salário mínimo era insuficiente para me manter na mesma situação. Faço aqui uma ponderação: a crítica não se pestra ao fato de eu receber um salário mínimo. Afinal, na situação em que me vejo, isso é mais do que suficiente.

Eu bem creio que Sua resposta a essa carta, se houvesse alguma, enfatizaria a questão da experiência; conheço as exigências de quaisquer empresas para com a experiência profissional anterior de qualquer candidato a qualquer cargo. Mas não quero ser escravo de tais exigências. Não é o primeiro emprego de quinta que largo. É provável que eu não esteja certo em agir dessa maneira. Estar certo, porém, em tais condições, é o que menos me interessa.

Outra resposta chamaria a atenção para a crescente e desigual disputa no campo de trabalho. Temos que nos adaptar ao que diz o mercado, e não guardar ilusões em querer seguir somente aquilo para que nossos sonhos apontam. Eu não discordaria completamente dessa tese. Gosto de escrever, e Vossa Senhoria bem sabe, porque no dia em que me apresentei à empresa lhe mostrei, em particular, umas impressões que tenho, e percebi que meu interesse havia sido correspondido. De qualquer modo, não tenho devaneios ou ilusões. Não espero, embora seja um desejo, viver com dinheiro adquirido a partir de meus escritos. Nem isso justificaria, ainda assim, eu me manter num trabalho que só violenta a minha inspiração, alveja minha imaginação e me torna claustrofóbico.

No dia em que fui contratado, isso até anotei em uma agenda antiga que carrego, ouvi suas palavras alertarem para o fato de que o desemprego é culpa do desempregado, não do empregador. Tais palavras nada me mudaram o pensamento. Tenho convicção de que o desemprego pode ser culpa de qualquer um, menos do desempregado. Entretanto, como já disse, não sou um sonhador (senão quando diante de um papel em branco). Sei que cedo ou tarde terei de me render à escrota lista de requisitos que tantos pedem por aí, se eu quiser manter meu direito a algumas migalhas de pão e um teto para morar.

Isso pode não estar distante, mas faço eu meu tempo, como puder. A partir da noção que desenho na cabeça - e das minhas necessidades instintivas de fome e frio -, vou, como se diz, "levando como dá". Enquanto permanecer intacta a lógica corrupta e sacana da sociedade na qual vivemos nós, o endinheirado e o falido, o farto e o faminto, vou fazendo parte de sua lista de bestialidades, sigo tornando-me mau exemplo, permaneço bancando o insano largando empregos. Eventualmente tenho conseguido me manter uma semana em uns trabalhos informais, o que me permite pagar umas contas aqui enquanto minha desesperançosa mãe me ajuda em outras ali, e, pelo menos, dá pra pagar minhas garrafas de cerveja e cachaça, já que de bebidas mais requintadas não tenho tido condições de comprar a companhia.

Peço perdão, portanto, pelo tom talvez agressivo e descortês que expressei nessas últimas linhas. É que, enquanto escrevo, a noite avança, e com ela vai-se embora qualquer compostura que eu tente manter, como aquela que até o surpreendeu. Bem sei, de qualquer modo, que sou bom demais para o trabalho oferecido, e para qualquer trabalho que hei de ter em minhas mãos nessa efêmera aventura que é o período em que estarei vivo. Por isso, afirmo que jamais me empolgarei com nenhum deles. E isso não quer dizer que o ato de trabalhar, em especial, me desagrade. A razão é que, simplesmente, são todas as coisas que me desagradam.

Portanto, contenha-se: se fui desrespeitoso em minha atitude, não é uma exclusividade para com esta empresa nem, muito menos, algo pessoal para convosco. Tenho certeza de que minha demissão já está assinada, por eu estar me ausentando já em meu segundo dia de serviço, de modo que nem precisarei solicitá-la. Numa tentativa de ser educado, nestas palavras finais, aceite meu convite para prosearmos, qualquer hora dessas, numa mesa de bar, único lugar em que posso receber um grosso xingamento ou um acalorado elogio e reagir da mesma maneira. Escreva-me.

Sem mais, despeço-me com um enorme alívio da ... Empreendimentos.

domingo, 23 de dezembro de 2007

"... Até que dava para beijá-la..."

O Pernil do Zé Roberto, um botequim localizado numa daquelas difíceis ruelas enfiadas por trás do CEFET e escondida no meio dos casarões, sempre foi altar de confissões, desentendimentos, desilusões e novas idéias. Quando eu fazia o ensino médio na citada escola, já freqüentava o local e aprontava das minhas, além de beber do álcool e das tantas histórias lá expostas. Hoje, duas faculdades incompletas depois, já nem o freqüento mais, e, até onde sei, é quase zero o número de remanescentes daqueles áureos tempos, que se vão bem distantes da seriedade que hoje se vê - e que passou a ser regra desde que a irmã do Zé Roberto passou a gerir o local.

Esse novo feitio eu só pude constatar há coisa de semanas, quando senti vontade de voltar pra ver que marcas deixou o tempo naquelas paredes mal-rebocadas que eram a vergonha do bairro, e tive essa indigna surpresa. Convenhamos, não sou do tipo que acha que todo boteco precisa ser ligeiramente sujo, mas as exageradas decorações e as combinações de cores, organizadas de forma infantil, e a obsessão por fazer daquilo um lugar "decente" explicavam bem porque aquilo tinha deixado de ser um ambiente de longas discussões para se tornar, hoje, um ponto monótono onde quase só vende cachorro-quente, e pernil mesmo só existe no nome do estabelecimento.

Para minha sorte, no entanto, cheguei lá e encontrei um velho no alto de seus setenta anos, quase um retirante deste lado da vida, bebericando uma pinga enquanto a moça do balcão o fuzilava com os olhos, louca para que ele fosse embora. Era Cortez, um espanhol alto, magrelo e desdentado, que veio para este lado do Atlântico na infância fugidio da guerra que varria a Europa, e agora era quase um mendigo, sequer lembrava uma frase em sua língua nativa. Morava numa pensão ali perto, desde trinta anos antes. Era o profeta da turma, o nosso sábio, o nosso mestre. Ele me explicaria, calmamente, o rumo que levou à decadência daquele local enquanto estive ausente, período que conta aí uns três anos. O marco inicial daquela derrocada, como eu soube, foi uma briga entre Zé Roberto e sua esposa, por quem ele nutria uma intensa necessidade. A causa da discórdia foi a descoberta das escapadas da mulher às escondidas, enquanto trabalhava como manicure numa grande loja feminina. A Líria (Líria Vale, eis seu belo nome) era tudo em sua vida. Depois dela - a briga se mostrou definitiva - a vida do nosso querido Zé já era, ainda que aos 35, e com ela se foi também o nosso ponto de encontro, do qual a irmã dele tentou se aproveitar, passando a gerir após um tempo e oferecendo "cara nova", subjugando o velho dono, que agora estava depressivo e fraco. Zé Roberto, no entanto, ainda morava ali, de favor, graças à "bondade" da mana, e, ao ser informado de que dois de seus velhos clientes estavam ali tomando um trago e jogando conversa fora, não hesitou em vir nos encontrar. Ele, cuja feição guardada em minha mente mostrava um rapaz alvo de aparência jovial, forte e imponente, estava, agora, emagrecendo e barbado, claramente desajeitado, muitíssimo longe de exprimir o astral elevadíssimo de outrora, porém seu semblante denunciava uma indisfarçável satisfação em nos rever.

Pacientemente, ele sentou-se conosco e demos continuidade à nossa conversa. Falamos sobre aquele passado recente do boteco, sobre a maravilhosa sensação de nos sentirmos tão iguais mesmo sendo de distintíssimas gerações, contudo o papo da noite não poderia ser outro senão as mulheres; sobretudo, aquelas que despedem-se de nós e nos deixam ao relento - isso quando ao menos chegamos a provar de fato o que elas têm a oferecer.

- Hoje, senhores, - disse, quase gritando, o ex-dono do Pernil - tenho certeza de uma coisa: a vida sem vírus não é vida. E o melhor vírus que pode nos infectar é mesmo aquele que nos prende a uma mulher. Depois que nos vemos ligados a uma, não tem jeito. Não há como cortar o cordão. Estaremos presos a ele para sempre.

Cortez, com seu eterno ar de convicção, não pensava lá tão diferente. Porém, foi mais sintomático:

- Eu tenho décadas de vida a mais que vocês, mas não digo isso como superlativo, digo agora aquilo que eu pensava há cinqüenta anos: pra mim, o único amor sincero que temos é o primeiro. Aquele quando somos moleques, quando suamos a primeira vez. Todos os que vêm depois podem ser mais intensos e mais duradouros, mas não valem nada. É tudo caso perdido. O único realmente sincero é o primeiro. Afinal, o primeiro é o primeiro, porra!

- Conte aí como foi seu primeiro amor, pois então! - esbravejou o Zé Roberto, aparentemente restabelecido de ânimo. Eu me mantinha falando pouco, como sempre. Cortez começou.

- Ah, guris, meu primeiro amor foi há muito tempo. Eu me lembro, foi algo como dois anos depois de eu ter chegado aqui. Eu tinha uns catorze anos. Quando eu cheguei, morávamos no bairro do Alecrim, e lá, onde hoje é a Praça Gentil Ferreira, havia um hotel... um hotel que não era um hotel, vocês sabem, né?

Eu e o Zé rimos. Realmente, o hotel da Gentil Ferreira não era um hotel. Ao contrário, era um puteiro mesmo, a festa da molecada; 80% dos jovens dessa cidade haviam tido, nesse hotel, aulas grátis disso-e-daquilo no seu 13º aniversário.

Porém, nosso querido coroa lembrava com inacreditável riqueza de detalhes sua experiência:

- Pois é, vou lhes contar. Eu tinha, como falei, 14 anos, e visitei aquele antro a primeira vez por opção de meu pai. Naquela época, vocês sabem... era tradição familiar que nossos pais nos apresentassem a vida, inclusive nos levando para o cabaré. E tá viva na minha memória a face daquela garota, que não devia ter mais que seus dezesseis, dezessete. Seu rosto era branquinho, com um rosa presente em sua pele, além dos seus olhos castanhos, quase de um dourado bem polido, que eram a coisa mais linda que já tinha visto na minha curta vida. E, posso dizer, a certeza que eu tive naquele dia eu mantenho até hoje, mais de meio século depois!

Nossa atenção já estava presíssima à descrição que ele faria da garota, do ambiente, da relação que teriam e de tudo que se passava em sua mente de moleque.

- Meu pai - continuou - me ofereceu a liberdade de escolher a garota que quisesse para passar a noite, e eu não hesitei em escolhê-la! Ela me disse que se chamava Cecília, me levou rapidamente a um quarto, e, por mais que eu tentasse, entre gaguejos e limpadas na testa, engatar uma conversa, ela não tava afim de papo. Mantinha um sorriso no canto dos belos lábios avermelhados e carnudos feito massa corrida, no entanto provavelmente recebera a proibição expressa em conversar qualquer coisa com qualquer um, embora aos poucos ela fosse se abrindo. Isso me deixou melancólico, mas eu devia estar feliz, oras, ia transar com o primeiro amor da minha vida, isso não é o desejo de todos??

- Não exatamente... - discordei - talvez aquela sinceridade de que tínhamos falado consiste justamente no fato de que o primeiro amor é quase sempre mais platônico que, necessariamente, carnal...

Zé concordou comigo. Cortez balançou a cabeça complacente, como se já discordasse do que acabara de dizer. E daria seqüência:

- Porra, acho que foi por isso que não rolou... eu não consegui, entende? Não consegui, na minha primeira vez! Jurei pra ela que aquilo não importava, que todo meu amor era maior que aquilo tudo, até que minha brocha, mas o som alto de música ruim - era um fado português que invadia todos os cubículos do bordel - impedia a gente de sentar na cama e conversar à vontade. Mas sabe o que é mais incrível? Ela aos poucos foi se abrindo, talvez porque eu tenha sido o único cara que se interessou mais em ouvir sua voz que em vê-la nua, e o único a não ter-lhe dado uns tapas na cara. Cecília me disse que esperaria, até o último de seus dias, a vinda daquele que a tiraria daquela vida e com quem dividiria o maior amor já visto!

Cortez nos contou que, dez anos depois, quando já era um poeta conhecido nos círculos literários da Cidade Alta, voltaria ao bordel e a pediria em casamento. Porém, Carmem (esse foi o nome que ela disse ter, desta vez, e afirmou que nunca se chamou Cecília na vida) já estava casada com o "Anel Prateato", apelido do seu cafetão, e ela tinha se tornado, na prática, a dona do cabaré; de modo algum ela pretenderia largar a boquinha que tinha nessa condição pelo risco de sair e viver um romance com um poeta que só ganhava uns trocados com a publicação de elegias nos parcos semanários locais.

Após o fim de sua história, permanecemos, assim, uns três minutos calados, nós três.

- É foda... - disse alguém, tão baixinho que eu nem pude saber de onde veio, eu mesmo que poderia ter resmungado e não percebi.

- Agora minha vez... vou lhes contar a minha história, que se deu nessas mesmas ruas, anos e anos atrás - disse o trintão!

Bebeu de um só gole o copo de cerveja que eu lhe oferecera, passou as mãos nos lábios, esfregou-as e começou:

- Houve uma garota que cresceu comigo, na rua onde morei quando moleque, há coisa de umas cinco quadras daqui. Ela se chamava Alícia, e era a única criança da rua, além de mim. Ou seja: era com ela que eu brincava, com ela que dançava nas festinhas do bairro, etc. Mas nunca demonstrei maiores interesses.

Vez ou outra, ele pausava para reordenar a história, aparentemente organizadas de forma confusa em sua cabeça, e continuava:

- Ela sempre dizia que a gente era tão chegados, que merecíamos nos casar no futuro. E claro que eu nunca gostei daquilo, a gente, quando criança, nunca gosta, né? Mesmo que eu não tivesse vivido num círculo de garotos eu também tinha esse preconceito, e pá...

Nova pausa, novos goles de cerveja e um estalo, como quem pensa "ah, lembrei!":

- Assim foi até nossos doze, treze anos, cara... ela sempre muito gentil, muito doce, muito tudo e eu desdenhando. Até que, mais ou menos por essa fase, chegou um cara no bairro, o Herbert, de nossa idade, menino de uma família de porte mais apresentável, era um abobado engomadinho, mas que logo chamou a atenção da Alícia. E, meus amigos, o maior nó que já tive na garganta foi quando ela recusou a idéia de dançar comigo para dançar com ele! Que droga, vocês imaginam o abalo que isso fez na minha cabeça? Passou um filme, caras, completo, do início ao fim!

Cortez acompanhava atentamente cada movimento nos olhos do nosso contador. Sua atenção o fazia até esquecer de sua bebida e do suor que tomava praticamente todos os poros de seu rosto. Não seria exagero, se, na verdade, aquilo tudo não fosse suor, e sim lágrimas, cuja quantidade seria impossível sair somente dos olhos...

- Eu solucei e chorei na mesma hora - continuou Zé -, me lembrei de tudo que passamos e, mais ainda, de tudo que a gente DEVERIA passar juntos! Me senti o mais filha-da-puta dos homens. Depois daquilo, eu bem que tentaria, mas nunca mais teria a completa atenção da Alícia. Aliás, menos de três meses depois, ela e o novato do bairro já eram namoradinhos, e, três anos depois, se casariam. Vocês acreditam?

Balancei a cabeça negativamente, e olhando pra baixo, como se estivesse interpretando a decepção do próprio Zé em sua história...

- Pô, eu cometi a maior besteira da minha vida - prosseguiu -, mas eu tentei corrigir, da pior forma possível, vocês podem até dizer. A Alícia tinha uma irmã dez anos mais nova, a Líria, que quando tinha seus treze, catorze, eu contava já quase vinte e cinco. Mas eu via nessa garotinha a própria expressão de meu amor perdido. Foi por isso que namoramos escondidos (tá louco se alguém descobre que eu tava namorando aquela guria?), e nos casaríamos um bocado de anos depois...

O ar de estupefação agora tomava conta de minha face e da do Cortez...

- Quer dizer então que a Líria...?

- Exato! A Líria... pô, nunca gostei tanto assim da Líria, mas sabe aquela sensação de você querer ter algo da pessoa que ama, sei lá, nem que seja uma lembrança, um clone... no caso, optei pela irmã. A Líria era uma bela garota e até uma ótima companhia... mas tudo que sinto por ela, não se iguala a tudo que já senti e que ainda sinto por sua irmã, que hoje não fala mais comigo e, provavelmente, foi a arquiteta de nossa separação... ela não queria que seu cunhado fosse um dono de boteco, né?

Cortez ficou puto.

- O que você fez não se faz com uma mulher, seu imbecil!

Zé Roberto apenas abaixou a cabeça e disse, como uma criança que chora:

- Poxa, eu só queria...

Mais minutos de silêncio entre nós.

- Tudo bem, tudo bem - disse eu -, avaliar as coisas sem levar em conta o contexto, as opções envolvidas e afins é, às vezes, uma atitude mais filha-da-puta que a atitude propriamente dita do Zé Roberto em traçar - sem trocadilhos, por favor - seu plano B, em casando com a irmã da garota que é objeto de seu desejo.

Agora era a minha vez.

- Minha história há de ser mais boba que a de vocês, talvez. É uma necessidade dos tempos modernos, né? Tudo hoje é bobagem... até as histórias de amor. De qualquer modo, a primeira vez que me perguntaram se eu acreditava em coisas como "amor à primeira vista" foi lá pelos quinze, dezesseis anos. E eu não hesitava em dizer que SIM, porque eu já tive, antes de tudo, o meu amor à primeira vista...

Com o maior dos respeitos, os dois agora me ouviam cuidadosamente, pegando cada palavra.

- Bem, o começo de tudo, caras, foi num ônibus. Eu estava lá, indo sozinho para a escola, tinha exatos treze anos, condução lotada, muita gente falando, até que de repente... de repente, cara, subiu uma garota que me prendeu a atenção no mesmo instante! Sabe o que dá..? Não sei o que vi de tão especial assim... porque ela era linda, mas lindas muitas garotas eram e nunca me fizeram sentir aquilo... mas ela, com seu nariz arrebitado, sua boca pequena, seus cabelos curtos, a coisa mais bela que já vi na vida, terminando pouco abaixo do pescoço, seus olhos claros, sua nuca que exalava um perfume que, tenho certeza, nunca mais sentirei nunca noutra garota, sua perfeição em formas ia muito além da beleza vaga das demais meninas... ela realmente tinha um quê de especial.

Bebi um gole e continuei rapidamente... estava revivendo a história, ali, diante de mim, e não queria parar um segundo sequer!

- Cara, nessa primeira vez, ela sentou-se do outro lado do ônibus, bem longe de mim... eu segui a viagem toda olhando para a janela, não ousava virar para contemplá-la... mas teve um momento que eu disse: "vou olhar".. e na hora que virei, no exato instante, ela olhava pra mim - e desviou o olhar desesperadamente! Cara, ela estava olhando pra mim!! Tem idéia da sensação de poder e conquista que se instalou em mim quando saquei isso?!?

- hehehehehehehehehe... sorriu vagarosamente o Cortez, com jeito de quem entende aquilo que senti.

- Sabe, bicho.. durante dias, foi assim... maior prazer maior era somente poder apreciá-la no ônibus. Mas decidi fazer mais! Então eu a segui... segui pra saber pra aonde ela ia... e saquei que ela cuidava duma loja de bombons que depoius soube que era da mãe dela, lá perto do antigo cinema Rio Verde, onde as pessoas compravam guloseimas quando iam pra sessão.

- Tá, já sei... você passou a comprar bombons lá, né? - perguntou sabiamente o Zé. Ele estava certo.

Relatei então, o primeiro encontro que tive com ela nessa loja, que tentei demonstrar ser por acaso, né?... Ao que entrei na lojinha, ela pareceu tão nervosa quanto eu por me ver ali. Eu cheguei e, meio nervoso, disse somente:

- Olá.

- Olá...

- Você tem...? - pensei em alguma coisa, qualquer coisa, e lhe pedi, sob tremedeiras, suor e frio na espinha...

- Hmmm... tenho. Vai ver um filme com alguém, é?

- Bom... vou ver um filme sim... mas vou ver sozinho.

- Ah...

Passei a ir ao cinema (e por conseqüência, a loja) com certa freqüência, coisa de uma vez por semana, para poder conversar com a Fernanda - taí seu nome... sempre passava poucos minutos, no entanto. Eu já não a via, porém, nos ônibus. Isso, ela me explicaria.

- Sabe, eu morava com meus tios, lá no seu bairro... é o seu bairro, né? Pois é... estive morando com eles, meus pais são separados, meu pai mora em Curitiba, e minha mãe aqui, mas já tá se restabelecendo e tô com ela... mas em breve, terei que optar com qual dos dois vou querer morar em definitivo...

Essas coisas me violentavam, somente a suspeita de que ela poderia ir embora e eu nunca mais a veria. Enquanto eu contava a história, Cortez dava umas interrupções, comentando que com ele acontecera caso parecido. Mas não tomou a vez...

- Até que aconteceu uma coisa - continuei - que eu não esperava: nos reencontramos na condução. Foi o maior momento de minha vida, quando a pude ver sorrindo e vindo em minha direção, lá nos fundos do ônibus, e sentando a meu lado, no banco que fica logo ao lado da porta. Eu estava no céu, caras...

- No céu! - repetiu Zé Roberto.

- Vocês sabem o que é? Puxa, nossa conversa foi longuíssima durante a viagem, mas eu, um moleque idiota, não conseguia expressar nada do que eu realmente queria... durante o trajeto trocamos cortejantes olhares, e cheguei a ensaiar a possibilidade de pegar na sua mão... puts, como eu era um babaca!

- E sobre o que conversavam?

- Essa é a questão... ela disse que voltou a pegar o ônibus por uma razão lá não tão positiva... ela estava indo à casa dos tios, ia pegar as suas coisas, e provavelmente embarcaria pra Curitiba...

- Puta-que-pariu! - gritou Cortez, dando um murro na mesa...

- Pois é, cara... ela falou tanta coisa, sabe, mas eu não me liguei em conteúdo, só na forma... eu não me lembro mais de suas palavras, porém sua voz tá viva em minha cabeça, isso é curioso... passei a viagem contemplando-a alegremente... isso até saber que ela estava indo embora. Mas ela me disse que a decisão não era definitiva. Que poderia ficar, se fosse seu desejo. Nunca me esquecerei, porém, de suas últimas palavras, já perto do ponto em que desceria, quando me falou: "... e eu poderia até permanecer aqui... com certeza ficaria, se houvesse algo que me pedisse pra ficar..."

Eu não consegui lhe responder uma palavra.

O ponto dela estava chegando e não teríamos mais que uns trinta segundos. Mesmo assim, nada dissemos. O ar permanecia cativante, ela balançava lentamente sua cabeça, mordia muito lentamente os lábios, seus olhos estavam fixos nos meus, e naquele instante, que pra mim parece nunca acabar, eu senti que realmente poderia tê-la comigo, naquele instante percebi que realmente existia um elo forte que une um casal e que explica o fato de existirem, eternamente, a todos tempo, toda sorte de artistas loucos pra falar de amor. Naquele instante, e disso tenho certeza até hoje, até que dava para beijá-la... mas assim não aconteceu. Extintos os trinta segundos, ela, quase num pulo, com olhos lacrimejantes de desapontamento, se levantou, desceu do ônibus e eu nunca mais a vi...

- E você nunca procurou saber o que houve com ela?

- Bá... procurei sim. Não faz tanto tempo, deve ter meses, eu pus seu nome num desses sites de relacionamentos, e você não vai acreditar no que vi, cara... uma comunidade com uma foto dela, dedicada à sua memória! Ela morreu, bicho!! Tem idéia do golpe que isso foi no meu peito?!

- Meu Deus... ela morreu de quê?

- Não sei... fechei na mesma hora.

Ambos balançaram a cabeça condescendentes. Fariam a mesma coisa, se fosse o caso. Permanecemos, então, em silêncio, durante muito tempo.

- É a eterna fragilidade do homem diante de qualquer mulher, seja santa ou puta - disse Cortez, relembrando um velho amigo nosso.

Tomamos lá mais um pouco de cerveja e pinga e voltaríamos para nossa vida. Cortez, em seus setenta anos de promiscuidades, mantendo sua relação com pelo menos três empregadas domésticas que moravam no mesmo pensionato que ele, Zé Roberto em sua eterna síndrome de Bandini, e eu, revolto em meu niilismo, bem distante de qualquer coisa que se aproxime de um desses romances de cinema.

Provavelmente, o Cortez encontrará o descanso em breve. Sua saúde está desgastada, por mais que ele negue isso e até demonstre vigor tendo tantas mulheres na alta idade. Zé Roberto é outro que tende a permanecer vivo somente como lembrança... em especial porque não pretendo voltar naquele recinto cor-de-rosa, nem ele gosta de receber visitas, apesar da boa conversa que tivemos. O que ficou registrado nesse papo, no fim das contas, foi, talvez, o último momento de sinceridade em relação às mulheres. Tudo que virá depois, como disse o nosso guru, é caso perdido.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Mais uma página no imenso livro do rock

Eu estava sentado no chão e afinando a guitarra, supernervoso por participar de meu primeiro festival. Tínhamos menos de um ano de banda, mas o entrosamento já era avançado, apesar dos poucos ensaios e apresentações que fizéramos até ali. A rapaziada no pretenso camarim cujo teto tinha menos de dois metros de altura - o que não era problema para este que vos escreve, visto que sempre fui baixinho, diminuto, imperceptível - ficava tomando tragos de batidas de vinho com alguma vitamina, num ritmo frenético.

Até pouco tempo antes, eu era um moleque pacato, deslocado e mau-humorado, do tipo que se senta na frente na sala e não fala com ninguém. Tratava-se do ano 2000, já no clima dos festejos dos 500 anos da República, e eu, então com 15 anos, estava lá da sala, entediado com tudo aquilo e metido a rebelde, vestido com a camisa da farda rabiscada com os dizeres "pau no cu do 5º centenário", de modo que enfim percebi que alguém pensava minimamente parecido comigo, que sempre detestei essas cerimônias coletivas, quando Eric veio me conhecer e ficamos de conversa por longo tempo naquele mesmo dia; um gaúcho branquelo e racista em potencial, mas com quem até que me dei bem. O nome do figura era Eric, e não tardou até eu conhecer Maurício, um lutador de jiu-jitsu de face eternamente carrancuda, outro de sua trupe.

Totalmente deslocados do ambiente de festas que se via em todos os locais - faixas, out-doors, camisetas, televisão -, decidimos aproveitar o elo que havia entre nós e organizar uma banda bem ao estilo punk, já que nenhum de nós tinha lá maiores conhecimentos musicais. Com os instrumentos emprestados do pai de Eric, que sempre sonhou em ver o filho como um virtuoso músico, formamos o Cavalo Amarelo, nome de referências históricas e literárias inglesas, de onde também vinha as nossas influências musicais. Com alguns acordes decorados, consegui desenrolar na guitarra, até entrar, no ano seguinte, André Rubão, um solista magistral, um autêntico guitar man, a quem eu acompanharia no som. A partir daí tudo aconteceria rapidamente na minha vida. O que passou a existir pra mim foi a efemeridade das festas, das garotas, da benzina e de tudo que tinha caído do céu num impacto animal. Eu já não era mais o cara mau-humorado e deslocado de antes.

Oito meses depois de criado o grupelho, fomos convidados para o Festival de Rock da Cidade-Praia, nome que fazia referência ao local, que, convenhamos, ficava a muitos quilômetros do litoral, e cuja identidade praiana na estética era nula. O festival foi realizado num barzinho que não me recordo o nome, mas bem me lembro que não havia ninguém que tivesse a idade próxima à nossa. Praticamente só havia coroa, porém todos, uns graças a umas doses de álcool no sangue, muito empolgados com o que veriam. Além deles, restavam umas púberes mais discretas, sendo que algumas iriam assistir a seus namorados e outras que iriam esperar pra ver se descolava algum garoto para se divertir na Praça Presidente Sarney, que de praça não tinha nada: era tudo mato. Para nosso azar, fomos a última banda da noite e quando saímos já não restava mais nenhuma pequena solitária no bar.

Não tinha mais que quatro bandas aquela noite, das oito que estavam inscritas. Mas para nós, aquilo valia como o Rock in Rio I. Era alguma data no mês de abril, o Dia Internacional do Homem, e, em referência, o Rubão entrou no palco só de cueca. Houve até quem aplaudisse... quando cheguei no palco, saquei que tinha esquecido a set list e introduzi errado várias músicas. De cara, vimos protestos e aplausos logo na primeira música, quando o Eric levou uma latada na cabeça após o desabafo dos primeiros versos de nossa canção Pátria Puta: "vivendo na terra em que tudo tarda, vivendo na merda na periferia do Brasil, ignorados pela pátria puta que nos pariu"... Eric, porém, cabeçudo como era, continuaria a cantar e levaria ainda pelo menos meia dúzia de latas, mas venceu pelo cansaço aqueles que reclamavam (enquanto outros aplaudiam e derramavam seus palavrões). O Eric tocava baixo e cantava, mas nesse dia sua potente voz falhou diversas vezes, e tive que dividir com ele o vocal em um bocado de músicas. Quem me conhece sabe o estrago que é minha voz... depois de encher a cara de cerveja e aguardente, porém, o público presente não ligava para tais bobagens. Ainda assim, tomei latada a cada desafino. E inclusive jogaram cerveja uma vez no Rubão - este era mais fresco, por qualquer coisa fazia arruaça. Chegou a tirar a cueca na apresentação e foi obrigado a sair do palco. Felizmente, isso só aconteceria quando já estávamos no encerramento de nossa apresentação.

Ao fim do festival, porém, veio a surpresa: embora o bar já estivesse esvaziado, nossa empolgação foi única quando soubemos que fomos a melhor banda da noite! E inclusive ganhamos uma plaquinha do barzinho. Além de melhor banda, vencemos com melhor guitarra solo e melhor bateria, com o Maurício. Ficamos ainda no bar até a metade da madrugada enchendo a cara e voltaríamos a pé cantando pelas ruas com os instrumentos pendurados, uns 15km de tropeços e cambaleios até chegar ao destino - porém, algo ainda aconteceria sob o testemunho da lua e das parcas estrelas visíveis.

Quando passávamos por dentro de um pequeno bosque (na realidade, uma outra praça esquecida pelo Estado e dominada por mato) para cortar o caminho, eis que nos aparece um grupo de uns sete ou oito delinqüentes e nos cerca. Na nossa condição, não tínhamos como resistir a nada, mas ainda assim tentamos, em vão: deram-nos murros e socos, roubaram nossas placas de premiação e nos deixaram lá, jogados nas ervas-daninhas, temporariamente incapacitados a levantar, e só dispostos a sentir pena de nós mesmos por não termos defendido o mínimo de nossa dignidade: naquele momento, os nossos pequenos troféus. Roubaram praticamente todos, as placas de melhor banda que os quatro tinham e a de melhor guitarra do Rubão. Só não roubaram a de melhor bateria do Mauricio, já que ele, em seu talento como lutador de artes marciais, conseguiu mantê-la protegida. Mas mesmo ele estava fragilizado, tinha bebido bastante e já estava muito cansado e abatido.

Procuramos o primeiro meio-fio e sentamos para, como consolo, terminar de beber o que restava das duas garrafas de Mackinlays com que o dono do bar também nos brindara. Nos jogamos para trás e ficamos lá, cantando baixinho como um coral melancólico e sem platéia, olhando para o céu vazio e cinza, e só seríamos acordados ao amanhecer, quando a dona da casa em frente à qual adormecemos nos expulsaria a vassouradas.

A nossa banda, embora tivéssemos uma boa relação de cumplicidade e amizade, não duraria mais muito tempo. O Mauricio logo aprontaria das suas com uma tiete nossa e teria uma filha, que chamaria de Clara, e foi o primeiro a sair. Eu aproveitei a saída dele, e, naquele ano em que eu faria 16, coisas novas se me apresentavam, e diferentes do que experimentava até ali. Eu me liguei mais em Aldous Huxley, Pink Floyd, Karl Marx, Luiz Buñuel. Meu lugar não era mais ali. Pulei fora. O Eric, cuja voz forte falhava vez ou outra, a perderia quase completamente num acidente de carro que sofreríamos pouco depois. Suas cordas vocais foram destroçadas, e hoje faz um esforço animal se quiser que sua voz seja ouvida a mais de cinco passos. Sua família logo o mandaria para os Pampas, "aquilo que é terra de gente", distante de nossas más influências, e ele seria o terceiro membro a sair da banda. Eu o vi ainda uma vez em 2005 quando ele voltou a Natal para passar uns dias. Na ocasião, dividiríamos umas bebidas e escreveríamos novas canções, com músicas dele e letras minhas, como sempre foi. Entretanto, ele foi embora rapidamente, como esperado, e as poucas músicas que chegamos a gravar toscamente na guitarra e voz se perderam na última vez em que formatei meu computador.

André Rubão ficou sozinho na banda, que não tinha mais nenhum membro original. Chamaria uns amigos para continuarem tocando dali em diante, porém a banda acabaria pouco depois - exatamente um ano depois do fatídico dia do festival e das premiações roubadas.

Hoje já não tenho nenhuma lembrança material da banda. A única que restaria seria o pequeno troféu rústico e esteticamente muito feio, mas bastante simbólico. Fotos, raramente tiramos juntas. O Cavalo Amarelo persiste, porém, na minha memória, como o marco que mudaria minha vida dali em diante. Faria de mim mais que platéia. Embora fizéssemos coisas bonitas, com umas musiquetas românticas aqui e ali, nossa idéia de banda era protestar e escrever sobre nossas angústias de adolescentes. Hoje, minhas angústias já não são de adolescentes, mas permanecem. Ainda tentei desenrolar outras bandas depois, uma idéia que não sairia do lugar, já que não há mais quem faça banda como expressão existencial de si próprio. A música pra mim nunca foi curtição; para um chato como eu, o que mais se aproximava de curtir era estar numa cama com uma garota ou numa mesa de bar com uns amigos. Já música, assim como contos, eu sempre fiz e assimilei quando estava aborrecido ou irritado. Hoje, a música tem papel pouco destacado na minha vida. O eterno mau humor e o deslocamento que outrora eram parte de minha personalidade, por sua vez, voltaram. Pra ficar.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Notas avulsas

Quero oferecer uma discreta lembrança e um sincero pedido de desculpas à minha amiga Lidia Gabriela, que sofreu um acidente motociclístico comigo essa semana e ainda sente algumas escoriações, mas, felizmente, passa bem.

A experiência de sofrer acidente de moto é algo com que facilmente se acostuma, talvez pela relativa freqüência com que ocorra. A experiência de sofrê-lo com alguém na garupa é outra coisa totalmente diferente...


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O dia 6 é meu aniversário e, a partir de então, começarei a escrever meu primeiro livro, Enquanto o Sono Não Vem, uma fixação que já guardo há muito tempo e que concretizarei; depois, sairei mandando cópias para algumas editoras, ou, na pior das hipóteses, junto uma grana e publicarei em alguma sob demanda.


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A blogosfera anda mais movimentada com a promoção que tá rolando chamada "Eu Tenho um Blog de Elite", que, ao final desse mês, premiará o vencedor com 50 pratas para divulgar o blog pelo Google Adwords. Meu blog foi um dos 5 indicados pela Analu Macedo, ao que fiquei... muito satisfeito. Muito, mesmo.


Ignorando os enfeites coloridos sem-graça e as referências fajutas ao filme Tropa de Elite, darei seqüência à corrente, que consiste em um indicado indicar outros 5 blogs entre os seus links - eis minha listagem:

O Outro Blog da Ana: Assim como a própria Analú, eu também indico a pessoa que me indicou.. o blog dessa garota é super-destacado, não à toa é bastante visitado. São muitas suas histórias no Velho Mundo, contadas sempre com ótimos lances de humor e ironia.

Tá na cara: Blog de meu camarada Ângelo Girotto, onde ele demonstra uma invejável intimidade com as palavras, por meio de ótimas crônicas e poesias. Sem dúvida, uma leitura das mais agradáveis.

Maldita Palavra: Sensibilidade nas mensagens e muita subliminaridade na métrica e no jogo de cores. Um blog que utiliza muito o dueto letras-imagens para fazer potencializar o valor de seus próprios escritos.

Caos Urbanos: Críticas ácidas, sacadas espertíssimas e outros ingredientes fazem com que o leitor dedique sempre muito tempo pra esse blog, no qual já tive a honra de ser re-publicado.

Esse Meu Ovo Mesquinho e Fechado: Linkado aqui como "Me Dá Uma Aspirina", esse blog contém textos escritos numa só corrida, com muita espontaneidade, e com muita eficiência em fazer o leitor se envolver com o texto.


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"E minhas questões pessoais continuavam tão más e lamentáveis quanto no dia em que nasci. A única diferença era que agora eu podia beber de vez em quando, embora nunca o suficiente. A bebida era a única coisa que impedia um homem de se sentir para sempre atordoado e inútil. Todo o resto ia furando e furando sua carne, arrancando seus pedaços. E nada tinha o menor interesse, nada. As pessoas eram limitadas e cuidadosas, todas iguais. E eu teria que viver com esses fodidos pelo resto da minha vida, pensei. Deus, todos eles tinham cus e órgãos sexuais e bocas e sovacos. Cagavam e tagarelavam, e todos eram tão inertes quanto esterco de cavalo. As garotas pareciam legais a certa distância, o sol resplandecendo em seus vestidos, em seus cabelos. Mas vá se aproximar e ouvir seus pensamentos escorrendo boca afora, você vai sentir vontade de cavar um buraco ao sopé de uma colina e se entricheirar com uma metralhadora. Eu certamente nunca conseguiria ser feliz, me casar, nunca teria filhos. Inferno, eu nem mesmo conseguia um emprego como lavador de prato!

Talvez eu pudesse me tornar um ladrão de banco. Alguma coisa bem fodida. Alguma coisa flamejante, fogosa. Só se vive uma vez. Por que ser um limpador de vidraças?

Acendi um cigarro e segui descendo a ladeira. Será que eu era a única pessoa que perdia tempo pensando nesse futuro sem perspectivas?"

Charles Bukowski, em Misto Quente

sábado, 17 de novembro de 2007

Depressão, prantos e alegria contida depois da triste notícia

Quando eu acordei e, ao tentar conectar, percebi que tinham cortado minha net mais uma vez - a equação correta, afinal eu não pagara as duas contas anteriores -, peguei os únicos 5 reais que restavam na minha carteira e decidi tomar duas cervejas no boteco da rua. Eu detestava cerveja de manhã, mas isso não me ocorreu naquele instante... detestava tanta coisa, afinal. Podia dizer que detestava desde vários aspectos de mim mesmo até o fato de a bandeira dos Estados Unidos estar fincada no solo lunar. Não deixava de fazer as coisas por tais frescuragens. Fui bebericar com os trocados que me restava, pois então.

Quando cheguei e me aportei no bar, percebi uma intensa movimentação em torno de uma mesa... ao que os outros bebuns foram se desaglomerando, pude perceber: o Baiano, um conhecido figura do bairro, negro, literalmente baiano, de quase dois metros de altura estava em prantos, uma imagem de dar pena. Nitidamente, tivera sofrido, para ver-se em tal condição, um grande golpe. Não fiz alarde algum; não o conhecia, assim como não conhecia nenhum dos outros assíduos freqüentadores do bar, senão de vista. Eu devia ser o mais jovem a beber por ali, de vez em quando. O lugar só servia mesmo, decentemente, para os funcionários públicos quarentões que por ali moravam. O fato de eu ser um reles adolescente até pouco tempo atrás me tornava um cara totalmente deslocado, tanto no bar quanto fora dele. Percebia isso quando as meninas, os garotos, as mães de minha rua olhavam torto para mim, quando passavam. Decerto a impressão que eu lhes oferecia é a de que sou tão-somente um jovem pinguço, um sem-futuro, um pequeno alcóolatra "que Deus o tenha". Não era eu quem ia negar, embora nunca tenha gostado desses reducionismos. De qualquer modo, me felicitava saber que a molecada do bairro fazia parte da autêntica geração-saúde. A academia era o ponto de encontro no conjunto, e eu devia ser o único que era esnobado até pelas raparigas do fim-da-rua. Enquanto vagueava em pensamentos, no entanto, uma coroa de seus trinta e tantos anos perdidos sentou-se em minha mesa, talvez porque não tinha mais lugar no bar, talvez porque, simplesmente, uma vez na vida, queria falar com uma pessoa diferente.

- Sabe por que o Baiano está chorando? - perguntou-me.

- Não faço idéia - na verdade, pouco me interessava. Choro não é a coisa mais rara de se ver num bar; só perde para palavrões e para ruídos de socos.

- Um amigo dele morreu!

- Ah... um amigo. Que pena, não?

- Você conhecia um cara que... - e começou a dar detalhes sobre um vendedor de muambas piratas. Eu respondi com um grunhido. Na verdade, queria não responder, mas tentei ser minimamente simpático.

- Ele também era vigilante, sabe? - ela continuava fazendo sua descrição.

- Acho que conheço, sim - respondi, já totalmente indiferente à fofoqueira, que estava à minha frente com um copo vazio. Ela parecia um pouco constrangida por eu não ter dado, até então, um sorriso por contido que fosse, nem tampouco oferecido um gole de minha preciosa cerveja. Mas não se deixou abater.

- Pois é, foi ele que morreu!

- Ah...

- Morreu hoje de manhã, Baiano era um velho amigo, soube agora da notícia!

Não pude deixar de notar, no palavreado daquela senhora, uma ponta de sorriso em seus lábios - uma ponta de sorriso! Que bondoso estou sendo!

Seus olhos só faltavam brilhar quando me falava.

- Você já chegou a falar com ele? - tornou a me perguntar, depois de acolher-se num silêncio de uns cinco minutos, por exigência velada de meu pouco entusiasmo.

- Muitas vezes...

- Ele morreu do coração. Andava muito triste, sabe? Comprou um carrinho, um Uno Mille, meu Deus, pouco tempo atrás. O carro foi roubado em dois meses... mas ele ainda tinha mais trinta e quatro prestações pela frente, e pagou todas elas, poxa vida...

Ela se empolgou.

- Sabe o que eu lhe dizia? - continuou - Eu lhe dizia "não desista!" Corra atrás, faça lá seu futuro, mostre pra esses ladrõesinhos que você não se deixa abater. Ele até chegou a comprar um fusquinha, agora há pouco tempo, e eu lhe disse "tá vendo? Tem que começar de baixo." Tentei ajudar o que podia, mas ele tinha ficado pirado depois que perdeu o primeiro carro, oh Deus, passou a beber, a mulher o deixou, pobre dele...

Eu, aos poucos, perdia completamente minha mínima compostura e interrompi a conversa oferecendo-lhe uma cerveja. Queria acabar com a história ali. Já estava abrigado por um grande e incomum sentimento de depressão, não pela internet cortada, nem muito menos pela notícia da morte do rapaz. Mortes eu já vira aos tantos. Já assisti a motoristas alucinados atropelando travestis por esporte, já presenciei cenas de mulheres de quarenta tendo o crânio trespassado por uma bala de 38 pelo próprio marido, já me sujei com o sangue de uma adolescente quando a vi cair do 3º andar do prédio onde eu morava, caindo quase sobre minha cabeça, até. Não, definitivamente a morte daquele rapaz não me incomodava o dia, embora eu reconhecesse que fora um impiedoso fim para um pobre cidadão comum, que só conseguiu o primeiro carro depois de trinta anos de serviço, e ainda assim trabalhando na labuta pelo dia e com serviço alternativo pela madrugada. Isso mais me incomodava que a sua morte, certamente trágica. Porém, o que realmente me derrubava naquela manhã era a atitude daquela estranha mulher, a tentar me tirar o sossego para expelir pela boca mal-cheirosa e pelo olhar pernicioso o seu fetiche com a história de fracasso do malogrado vigilante, agora um cadáver congelado que provavelmente tornar-se-ia, no futuro, mero personagem secundário de suas próprias histórias, um anti-herói, um homem que tanto fez e pouco conquistou, e morreu triste e solitário.

- Beba uma cerveja e cale-se, por favor - Eu lhe disse, já impaciente.

- Ah... desculpe. Você era amigo dele, né?

E ela me acompanharia, respeitosamente de bico fechado, nas duas garrafas. Percebeu o meu estado de completo desânimo. Compreendeu, ainda que tardiamente, o quanto me afetara aquela história, aquela amolação. De fato, o que me incomodava era algo muito além disso. Estava enjoado por ver, na mesma e antitética cena, um brutamontes cair-se aos prantos enquanto uma pequena mulher disfarçava sua alegria e seu gozo pelo mesmo motivo. Aquilo era demais para mim. As lágrimas que corriam em minha face quando cheguei em casa corroíam como ácido a já mal-tratada pele de meu rosto. Definitivamente, evitaria voltar àquele bar. Assim se deu. Nunca mais vi aquela abelhuda, nem nunca mais senti um enjôo tão latente enquanto ouvia de alguém uma história, por triste e tocante que fosse. O impacto que senti dentro de mim mesmo naquela ocasião me deixaria anestesiado para semelhantes situações, no futuro. Sim, estava categoricamente anestesiado. Insensível. Indiferente. Se isso seria bom ou ruim, porém, eu nunca saberia.

sábado, 10 de novembro de 2007

Para o bem de Elizabeth

Eu nunca como nada antes das 14h, mas como eu acordara muito cedo num dado dia, optei por ir a um café me alimentar com algo substancial naquela manhã. Pedi um suco de laranja e um pão com manteiga, mas fui obrigado a comer um outro sanduíche natural, muito sem-graça, que de nada tinha gosto.

Enquanto me abastecia com aquelas migalhas a fazer cócegas na minha boca, cujo sabor, já irrisório como antes dito, estava ainda mais desgastado pela sobreposta dor-de-dente que me incomodava há uns dias, pela vidraça eu notava os preocupados rostos das pessoas que se apressavam a ir à escola, trabalho, faculdade, cursinhos ou que - estes menos preocupados - voltavam da noitada, e isso até me divertia, embora não interferisse em nada na minha sisudez facial.

No café, não tinha quase ninguém aquela manhã. Numa das mesas, um funcionário de repartição de meia-idade comia um bolo com refrigerante meio apressado, enquanto parecia rabiscar um folheto de classificados, e no balcão uma garota vestida de uniforme de lojas de roupa e com uma cara emburrada acompanhava-se de um pires no qual uma gelatina verde tremulava de modo incrivelmente incômodo. Como eu já estivesse há dois dias sem falar com ninguém e receoso com as conseqüências negativas dessa inatividade para minhas cordas vocais, peguei meu suco e meu sanduíche e fui interrompê-la, sentando-me a seu lado.

– Quem é você, o que quer? – ela me perguntou antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Seus olhos eram grandes e meio puxados e sua pele de um moreno claro, indeterminando sua origem. Tinha uma vasta e bonita cabeleira negra, embora estivesse bem descuidada aquele dia.

– Quem eu sou não importa, você se esquecerá assim que sair deste boteco.

– Isso não é um boteco. Não freqüento botecos.

– Que seja, ou que não seja, aliás. Mas pela sua cara e seu humor, parece-me que um boteco propriamente dito lhe cairia melhor.

– Eu pareço acabada? – perguntou me passando um olhar de criança manhosa.

– Parece. – respondi, simplesmente. Sua aparência mudou bastante, pelo visto não esperava minha confirmação. Alterou a face com um misto de espanto e reprovação, mas logo daria de ombros e fingiria ignorar.

– Meu namorado me deixou.

– Hahaha!!! Que sorte a minha, hein? Vim-me sentar logo ao lado duma garota desiludida com um namoro...

Ela ficou nitidamente envergonhada, e direcionou a vista à gelatina. Seus olhos úmidos e inquietos pareciam estar tentando acompanhar cada movimento daquela gosma que já estava a cair sobre a mesa do balcão, visto que ela não o comia e somente usava a colher para brincar com aquele experimento que expressava, em seus movimentos repetitivos e enfadonhos, a pequenez de sua existência, posta em crise com um fim de namoro.

– Tudo bem, pra ser sincero, eu não sou essa insensibilidade toda que pareço.

– É sim. Eu sei. São todos iguais, afinal.

– Meu bem, não sou, e essa sua infelicidade, acredite, nada tem a ver com seu namorado.

– Quem é você pra saber?

– Acredite, eu não falaria isso se não tivesse substância para tanto...

– Não entendo você... parece tão... babaca. Mas, ao mesmo tempo, parece tão compreensivo...

Nós nos fitamos complacentes, e damos seguimento à conversa, na qual ela me contou tudo sobre o namoro, sobre o que estudava - fazia uma faculdade aí que dizia ser o seu maior sonho, mas falava do curso como se fosse uma experência torturante. Seu nome, eu saberia, era Elizabeth. Elizabeth Jasmin. Namorava com Saulo há coisa de um ano e pouco. Ele que lhe tinha arrumado o emprego numa dessas lojas de roupas populares. Por sinal, estava atrasada para o trabalho aquele dia - "não importa mais", foi o que me disse. Num determinado momento, perguntou o que eu fazia.

– Estudo também... faço Geografia... o resto do tempo, não faço nada.

– Que massa! – sua resposta não trazia nenhuma empolgação, naturalmente, a despeito da exclamação. No instante seguinte, tornamos a falar de sua vida. Nossa conversa tomaria ainda umas duas horas, que inclusive lhe tinham devolvido a fome.

A fluidez de nosso papo indicava que tínhamos mais coisas em comum do que oposições, na verdade. Seu humor até tinha melhorado, embora pausasse quando falasse do ex-namorado.

– Você é bem legal – foi o que me disse, desinspiradamente. Estava carente e suscetível a comentários do tipo, eu bem sabia. Mas nós realmente nos daríamos bem a maior parte do tempo naquela manhã. Ao final, nossos olhares se fixaram e nos beijamos lenta e carinhosamente. Ela parecia frágil como uma boneca de porcelana, de modo que quase não a toquei enquanto nos beijávamos. Ficamos apreciando um ao outro no fim de tudo.

– Eu gostei de você - foi o que me disse, baixinho. Sorri, apenas. E, imprensando os lábios e já me levantando da cadeira, lhe respondi.

– Também gostei de você... preciso ir. Até algum dia – então me retirei, pagando pelas guloseimas e dando-lhe um novo beijo, mas desta vez a beijei no rosto, com mais paternalismo que sentimento de atração. Ela não pareceu tão surpresa como eu temia que ficasse, embora exprimisse certa desolação aparente nas sombrancelhas parcamente levantadas.

Quando fechei a porta do café, achei que nunca mais a veria, e me conformei com a condição, embora ela fosse simpática e até que uma boa companhia. Mas ainda a reencontrei uma vez, só que desta vez não fui notado. Eu estava sentado num ponto de ônibus quando a reparei vindo abraçada a um rapaz, que, pela camisa, pude perceber se tratar do tal Saulo, já que tinha seu nome bordado. Ela o vigiava fixamente, e seus olhos brilhavam, à medida em que seguiam passeando pela calçada, e sua boca se calava para ouvir a voz dele, e seus braços pequenos sofriam para enroscar-lhe o pescoço. Elizabeth bem demonstrava estar envolvida por Saulo de modo a nunca mais querer que lhe escapasse das mãos. Ela se revelava tão impressionada com ele que seu desejo poderia ser traduzido numa fome incompreensível, numa idolatria, enfim, em qualquer coisa, porém nada que se aproximasse de um sentimento minimamente amoroso e recíproco. Ela estava feliz. Aliás... ela parecia feliz. Nada mais que isso. Pobre Elizabeth.

domingo, 4 de novembro de 2007

Release Post

O blog está parado - mais do que o normal - porque estou sem computador, e esta postagem, que rabisco numa folha de papel, provavelmente será publicada quando eu tiver uns trocados pra gastar em algum cyber ou quando me aproveitar da bondade de algum amigo para ditá-la por telefone. De qualquer modo, tenho pensado naquele lema cuja sentença diz que só pensamos no quão algo ou alguém é importante pra nós quando o perdemos. Eu não perdi ninguém, e a falta de uma conexão à internet não é o que vai me fazer ficar em depressão, contudo só agora - quando me vejo distante do blog - é que me lembro de que ele era um espaço que eu tinha para dizer algo e que a distância é como me fizesse estar sem voz. Logo para mim, que tanto gosto de escrever, e que não sou nem um pouco fã de manuscritos.


Porém eu estive, nas oportunidades que tive, entrando no blog... como visitante, mesmo, já que adoro ler o que produzi. A maioria das coisas que escrevo traz boas doses de sinceridade, e isso me é especialmente interessante, porque sou uma pessoa muito inconstante, e reler o que fiz é sempre algo novo... frequentemente discordo do que postei, ou penso que poderia ter feito de melhor forma. Embora nunca me veja à margem do que escrevi, o que parece óbvio, visto que praticamente tudo é advindo de experiências e opiniões pessoais, mas não o é, exatamente. Dia desses me sugeriram mudar o nome do blog para 'diário de leon', pois eu me atinha predominantemente a detalhar o que vivia e deixava o leitor distante do que se passava, sem nenhum espaço para uma reflexão própria... parece-me não mais que uma análise simplista, expressa principalmente pelo fato de eu escrever em 1a pessoa... se não há espaço para reflexão alguma do leitor no texto sobre o quebra-cabeças ou na alegoria do espelho, então realmente avalio muito mal o que eu mesmo faço...


O que senti, e essa crítica eu mesmo expresso, é que tenho restrito muito o blog, criando contos e tal, e perdendo um pouco a despretensão que esse artifício virtual oferece. E claro que não é de hoje... faz pelo menos dois anos que deixei de lado o prazer maior em ter um blog, que é, simplesmente, postar. Sempre que puder. Claro que a qualidade é importante... não vale postar dizendo 'oi, estou atualizando'. O que é o mais importante, porém, é o processo de postar. É como o velho dilema gessingeriano do tenista, que entra numa competição com outros 63 adversários, da qual só sairá um vencedor. Os demais vão ter que buscar algum outro motivo para fazer valer a pena a participação. E o motivo, tão-somente, é competir. É participar do processo. Nessa cultura pop mastigada onde tudo já deve estar pronto, claro, rotulado, definido, estático, onde tudo tem nome, onde se está alegre ou triste, doente ou sadio, onde se quer ir pro cinema ou ficar em casa, onde se é caseiro ou baladeiro, as pessoas terminam perdendo o foco de que o prazer está no processo de construção, no que tá incompleto. O que já está pronto não tem pra onde mudar. O que é perfeito não pode evoluir. É como terminar um quebra-cabeça... de que vale um quebra-cabeça montado?


Essa necessidade de postar sempre algo bom fazia com que eu me repreendesse bastante antes de publicar algumas coisas, e isso se refletiu, naturalmente, no distanciamento entre os textos expostos, em geral postando somente uma vez por semana. Só agora percebo o quanto isso me desagrada como leitor. Blog não é livro, não preciso me policiar. Afinal, não to querendo ser melhor que ninguém [talvez até esteja, mas isso é - acreditem - algo inconsciente]. No fim das contas, o que a gente tem de interessante é o que a gente tem de errado. Fazer certo, bem-feito, tem um monte de pessoas por aí que faz, e lá atrás na História, tem outros que fizeram ainda melhor. Quer ler contos de altíssima qualidade? Procura um Machado de Assis, tá fazendo o que no meu blog? O que quero dizer, enfim, é que a graça já não tá em tentar fazer sempre a coisa certa... e sim em se permitir errar. Não é questão de ser algo mal-feito, e sim de algo que está inerente a nós, uma particularidade inevitável do nosso tempo, onde todo mundo tá sempre tentando ser perfeito em tudo. Eu demorei pra sacar essa estranha idéia, entretanto agora percebo que, se todos tentam seguir pela rodovia principal, ela termina ficando congestionada, e a melhor opção passa a ser a ciclovia. É por este caminho que eu seguirei daqui por diante.

sábado, 20 de outubro de 2007

Patrão sem empregado

"Estude para ser senhor do seu destino", foi o que disseram àquele menino - palavras que ele mastigou bem, e delas se lembraria durante o resto da vida. Estudou, concluiu os ensinos regulares, era um jovem médio, sem grandes problemas e com um mundo pela frente. Todo fim-de-semana ia à sua igrejinha professar sua religião e receber abençoados votos de felicidades. Virou um assalariado. Destacado, convenhamos. Quem sabe, até com reais possibilidades de crescimento onde trabalhava. Trabalhou durante algum tempo na área de produção, mas não se sentia bem em saber que hierarquicamente existiam outras vidas sobre ele, dentro da empresa. Decidiu jogar tudo pro alto. Estava longe de passar necessidades, pelo contrário... já ocupava postos desejados por muitos. Mas achou que tudo aquilo não pagava o preço de ser dono de seu próprio trabalho, "patrão de si mesmo". Danou-se a ler livros de negócios, conhecia toda a bibliografia dos milionários, decorou chavões comuns a empresários iniciantes, fez de tudo! Até que, com a grana acumulada durante o primeiro trabalho e com a venda de alguns artigos, abriu seu próprio negócio.

No início, foi até complicado. Mas ele sabia que tudo ia melhorar - "o único lugar em que o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário", era seu lema. Lema já muito batido, é verdade... mas ele não estava nem aí pra isso. Orgulhava-se de ter o próprio empreendimento, mas sobretudo da idéia de não ter patrão. Trabalhava duro, todas as horas possíveis, em todas as funções. Não tinha empregados... achava que o ideal seria somente gastar o necessário. Empregados seriam gastos supérfluos. Passou a rezar em casa, o tempo de ir à Igreja diminuíra. Ganhou uma grana boa depois da fase difícil. Só parava de trabalhar para refeições, e, boa-pinta como era, rodeado de pessoas, decretava um feriado para cada aniversário de um amigo, para ficar livre e aproveitar o momento. Comprava novos equipamentos pro seu pequeno negócio, assinava novas revistas trademark, procurava cada vez mais fazer crescer sua empresinha. Gastar com lazer? Nem pensar... sua receita, por maior que fosse, era sempre insuficiente às despesas que tinha com o próprio trabalho. Não podia ficar perdendo dinheiro com amenidades. Passou a não trabalhar somente nos domingos, dizia já ser tempo de sobra para matar com amigos e parentes. Almoçava na mesma escrivaninha em que fazia seu serviço, pela falta de tempo. Depois de muito assistir jornais e televisão, ouviu falar numa tal flexibilização de leis trabalhistas. Ele não tinha funcionários a quem respeitar direitos, mas fez questão de implantar a dita "flexibilização" em sua empresa. Não podia ficar de fora do showbizz patronal! Flexibilizou os próprios direitos. Decidiu que trabalharia o máximo de tempo possível, para obter todo o lucro alcançável! Não havia limites para ganhos (?)! Já não almoçava mais... deixava pra comer na hora de ir ao banheiro. Ao menos fazia tudo logo de uma vez. Também não rezava mais; não tinha tempo que pudesse ser dedicado a qualquer outra ocupação! "Minha religião à o lucro", dizia aos amigos - aos poucos que ainda apacientavam-se e conversavam com ele. Mas logos estes também minaram-se. Virou um empregado de si mesmo. Aliás, ainda pior: virou empregado de um patrão que não existe! Sem amigos, sem religião, sem sequer um abastecimento suficiente de comida... assim se deu, até o fim.

Viveu mais que os amigos, mas ao mesmo tempo menos que todos eles. Não foi ao funeral de ninguém. Não se lembrava de nenhum nome nos porta-retratos. Quando enfim morreu, não sangrou. No seu corpo corrompido, já não havia mais sinal de nada que fosse humano.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Vozes e Visões

São quase 4h da manhã no momento em que acordo... nem me lembro direito as circunstâncias em que dormi, mas ao despertar percebo que não me são totalmente estranhas - televisão, computador e luzes ligadas, copo de café mal-acabado do lado da cama, um nervosismo exacerbado, próprio de quem acorda e pensa estar atrasado para um compromisso... na TV, parlamentares estão se digladiando em alto som.. procuro o controle remoto, enquanto os discursos inflamados não se propalam pra mim sob uma forma lógica do tempo-espaço... só o que ouço são berros horrorosos e desorganizados, demonstrações de ódio sem começo nem fim, caretas e outros artifícios sádicos utilizados por quem tenta impressionar alguém por meio das palavras... mas que palavras, onde elas estão?

Desligo a TV, mas as vozes agitadas elevam-se em minha cabeça... continuo me sentindo num grande salão de dança onde todos os pares, ao invés de dançar, reclamam e difamam uns aos outros... céus, fico me perguntando o que foi que fiz para merecer este tormento, onde eu estava, acaso eu não conseguia perceber que tudo eram apenas vozes da minha cabeça?!? Começo a chorar porque sinto-me como um homem que se vê sem os braços e sem as pernas, ou apenas como uma criança que acredita ter visto um monstro dentro do armário, cuja mãe não está por perto para ajudar. Minha mãe também não está por perto; decerto ela é, inclusive, mais uma das vozes que se agonizam torturadas e aflitas dentro da minha mente... não tenho a quem pedir ajuda neste salão de ira, desprezo e repulsa no qual me sinto como se estivesse plantado... não tenho par... e não vejo a saída... apago as luzes, porém minha vista fica ainda mais ofuscada... o que antes iluminava a todo meu quarto, sinto agora como se fosse uma mira de raio-laser diretamente em meus olhos... procuro ver ao meu redor, mas pouco ou nada é o que consigo discernir, tudo são clarões, flashs e pessoas apontando dedos entre si, alguns desses dedos até apontados para mim... tapo meus ouvidos com força e só o que ouço são vozes cada vez mais amarguradas, num som cada vez mais intenso, mais intenso, muito, muito mais... reconheço-me em meu quarto e decido que nem pensarei em sair de casa quando o dia já estiver claro e chamativo, desligo computador, celular e qualquer coisa que possa me fazer ter contato com pessoas declinadas ou corruptoras, mas isso apenas me deixa com a apreensão de que estou ainda mais vulnerável, como se estivesse no centro de uma arena, na qual todas as pessoas das arquibancadas estivessem prontas, ao primeiro sinal verde, para me presentearem com uma rajada de metralhadora! Deito-me na cama e isso mais me faz sentir vontade de correr, de ir para algum lugar que não seja aqui... no lençol umedecido pelas minhas lágrimas, sinto um pouquinho de conforto neste inferno em que me sinto posto... tento adormecer por crer que é o último recurso que me resta - quem sabe, quando eu acordar a próxima vez, estes demônios não mais estarão aqui? Quem sabe? Não custa tentar...

Foi um dos piores pesadelos da minha vida.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Postagem sobre uma experiência circulatória

– Você não conseguirá. Nem adianta tentar - foi o que me disse um amigo.

– Pensa que não? Por quê? Deixe de besteira...

– Que besteira, Leon? São 3000 peças! Além do mais, você já tá bem grandinho pra brincar de quebra-cabeça, não acha?

– Tem razão - lhe respondi. Mas mesmo assim comprei o jogo. Suas palavras continuavam a repercutir na minha cabeça agora que eu estava solitário com aquele monte de pequenas peças jogadas no assoalho de meu quarto. Já tinha me livrado da capa do desenho, que nem cheguei a ver direito, só para ter o prazer de descobrí-lo no decorrer da montagem. Obviamente, não conseguiria fazer tudo no mesmo instante, era meia noite, logo iria dormir, mas o deixaria aí, sob meus pés, até vê-lo concluído.

Liberdade! Era nisso em que eu pensava quando me ajoelhei no chão como moleque para a primeira noite, garrafa de vinho barato do lado, um classic rock a ecoar no cômodo com seus solos intermináveis que me são uma fonte de paz. As primeiras peças são apenas serviçais de minha pretensa criatividade... vou juntando-as sem muitos critérios, com um arrogante sorriso de todo-poderoso. De início já me saciava o simples fato de estar ali brincando. Já tinha me decidido a não dormir aquela noite - eu andava dormindo tão pouco mesmo. Um quebra-cabeças, em sua lentidão e paragens, é espaço para muitas reflexões, e enquanto jogava, a cada intervalo, eu tomava alguns tragos e pensava nos tolos planos para o dia seguinte, assim que o maçante Sol começasse a iluminar os céus.

Engana-se quem pensa que quebra-cabeça é só mais um jogo igual a qualquer outro. Este, meus amigos, mobiliza a pessoa para o propósito de concluí-lo, prende sua atenção. Quando dei por mim, o despertador já alarmava longamente – meu despertador estava marcado para as onze da manhã! Foram quase doze horas ininterruptas ali sentado, e – que energúmeno eu sou – não tinha feito quase nada. Qual não foi a minha decepção... em verdade, fiquei com mais raiva que decepção. Pensei a bobeira que cometi em ter brincado de jogar peças ao invés de estar montando alguma figura imponente que deveria representar a obra final!

Todos que me viram no dia em questão acharam estranho meu comportamento: estava afobado, impaciente, além da cara de sono e dos olhos sofridamente abertos. Eu estava mesmo era pensando em voltar para casa o quanto antes e continuar a montar o troço! E assim, foi: logo que cheguei em casa, fui tomado de uma repentina disposição, e senti que dali por diante as coisas avançariam. Ao vinho, prefiro a boa e velha cafeína, já que queria me manter mais desperto que embriagado. A montagem de peças seguia num ritmo sensacional, e podia perceber o que já surgia timidamente: dedos, copos, aparentes prédios distantes. Algo como uma paisagem qualquer num dia ensolarado. Não me lembrava de ter comprado algo tão alegre. Talvez eu não tivesse visto a capa do desenho, o que era bom. Talvez nem tão bom - a última coisa que eu queria, ao final do quebra-cabeças, era ver o rosto de uma criança sorridente brincando num parque. Os pensamentos iam correndo na minha mente enquanto eu movia as peças. A luz do dia já se prenunciava, clareando os ninhos de pardais do telhado empoeirado, e eu percebia a primeira figura completa do jogo: um cigarro, numa mão feminina com unhas cuidadosamente esmaltadas em vermelho. Aquilo me incomodou profundamente. Detesto cigarros. Evoluí um bocado no que tange à quantidade do jogo. Mas me sentia muito insatisfeito com o resultado parcial. Saí, tinha um compromisso, afinal. Um outro amigo não compreendeu bem meu caso.

– Somos dois os que passamos a noite na farra? he!he!he!

– Prisioneiros, é o que somos. A única coisa que temos em comum. Mas cada um em seu cenário..

Não me bateu mais o gosto de continuar aquele jogo. Quando cheguei em casa, joguei-me na cama e lá tive um sono de 14 horas. Suficiente para me perguntar, ao acordar, o que aquele jogo estava fazendo ali no chão. Mas eu o mantive lá por dias. Dias, dias, dias. Inalterado. Ao passar por ali - era meio caminho entre este computador e a TV, a minha poltrona preferida, o banheiro, etc - eu dava um salto. Estava cansado de saltar. Mas por nada eu destruiria o pouco que tinha feito no jogo. Então, decidi continuar. Com muito mais calma, com duração controlada, sem bebidas nem nada. Separei duas horas por dia para me dedicar ao jogo, e, quatro dias depois, senti que estava evoluindo rapidamente. Percebia lábios, olhos e uma pele clara e resplandecente na figura. Sentia-me bem melhor, prestativo, mais disposto. Em casa, estava inspirado para escrever, ler, para ter idéias, voltar a ouvir música deitado na cama, só pelo prazer de ouvir música. Já não passava noites em claro bebendo como um maluco insone. Foi a fase em que mais produzi, seja em estudo, trabalho, relações, seja no aspecto pessoal. Havia algum combustível invisível.

Há algum tempo eu percebi que o quebra-cabeças ia chegando ao fim. No total, creio que contavam uns quinze dias de seu começo perturbadíssimo até o momento atual, em que eu já nem me reconhecia de tanta hiper-atividade! E cada vez que chegava mais perto do fim, eu mais me empolgava comigo mesmo! Diariamente comprava sanduíches ou pizzas e refrigerantes para comer enquanto jogava! Chamava amigos para batermos um papo e mostrar-lhes como eu tinha evoluído! Chamava garotas para issos e aquilos - mas é claro que o que eu queria é que elas vissem o meu belo trabalho! Na última noite, só me faltava uma maldita máquina fotográfica para registrar o momento! A única que tive, vendi no tempo de vacas magras. Mas já bastava a minha satisfação pessoal. Quando cheguei da faculdade, vi que faltavam poucas peças, em questão de meia hora eu a terminaria, enfim! Faltavam 50 peças, 30 peças, 10 peças, uma peça...

Vitória! Levantei-me, silenciosamente, pus-me diante do meu amigo espelho e pensei como eu devia estar orgulhoso de mim mesmo. E estava, obviamente. Tinha vencido mais um obstáculo. Olhei para o chão, a figura montada – uma mulher fumando cabisbaixa com um exagerado batom vermelho num desses cafés ao meio-dia – e o estrago que eu tinha feito no quarto, com cama e estante afastados, um espaço sujo e pouco cuidado naquele tempo. Começava a perceber que o quebra-cabeça montado já não atraía tanto minha atenção, e sim o que estava à sua volta. Estive produtivo e alegre enquanto o montava, mas se tratava mais de uma reação interior esquizofrênica do que exatamente de um conjunto de fatores. Estava cego a todo o resto. Só então percebi o porquê das reações negativas dos amigos e das garotas que eu recebia; e eu não entendia essas reações! Lembrei-me das horríveis sensações de infância quando concluía esses jogos... as sensações de que não havia mais para onde ir. Para que serve um quebra-cabeça montado? Não há mesmo saída. Juntei todas as peças, pus numa caixa com o rabisco "isto é um quebra-cabeça" e joguei na rua para que o primeiro lixeiro – ou a primeira criança sem sorte – o pegasse. Abri uma garrafa de vinho barato, acionei um classic rock e decidi que não dormiria mais aquela noite.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Sob suor e curativos

O telefone tocou quebrando o silêncio e me lembrando que eu não estava só no mundo. Da minha posição, sentado à poltrona da sala, nem precisava virar o rosto para vê-lo. Observava-o, de seus sons a suas luzes piscantes, me informando que alguém, conhecido ou desconhecido, em algum lugar, estava à minha procura.

Levantei-me com dificuldades. Estava com a perna esquerda envolvida por gesso. Estava com curativos no braço e no rosto. Tinha sofrido um acidente, aquele dia. Estava, ainda, tonto. Minha cabeça girava. Quando cheguei em casa, já era noite. Na sala, sentei e liguei a TV. Os atores, seus zumbidos, palavras incompreensíveis e risadas injustificadas me deram dor-de-cabeça e tornei a desligá-la. Queria ir para a cama dormir, mas algo me mantinha preso à cadeira. Agora tentava, cambaleantemente, fazendo caretas e apoiado na parede, chegar ao telefone, que ainda tocava com intensidade.

- Sim?

- Boa noite, posso falar com o senhor Leon Karlos? - disse uma garota.

- Alguma novidade?

Não havia novidades. Era mais uma cobrança. Eu me lembrei que estou endividado, dos cartões de crédito à conta nos bares e mercearias do bairro vizinho. A garota de voz doce só veio me lembrar que eu não tinha direito ao sossego enquanto não pagasse.

- Então, quando pagará?

- Se eu lhe disser que pagarei, boneca, estarei mentindo.

- Senhor, é preciso...

- Você não me oferece alternativa, então eu tomarei a liberdade de pensar em alguma.

- Se o senhor não pagar, precisaremos tomar as providências cabíveis...

- Boa noite, senhorita.

Desliguei o telefone. Estava-lhe virando as costas, quando tocou de novo. Atendi friamente.

- Sim?

- Por que você fez isso? Aliás, aliás, aliás... por que você NÃO fez?! - era uma outra voz, tão feminina quanto, porém muito mais descontrolada.

- Dê-me um tempo... isso o quê?

- Ligar! Por que você não me ligou? Acha que sou o quê?

(suspiro meu...)

- Tem idéia de como fica minha cabeça?? Sabe, depois que...

- Preciso desligar! - interrompi.

Desliguei e tirei o fio da tomada. O telefone tocaria à vontade. Eu não estava para delongas. Com muitas dificuldades, voltei ao lugar onde estava minimamente aconchegado. Além do corpo machucado de um repentino acidente de moto, não me bastavam os tormentos de cobranças na cabeça, e a lembrança de que pessoas estavam à beira do suicídio por minha causa. Tentava esquecer tais tolices, mas continuava a não ter paz. Naquele ambiente escuro e abafado, eu mal conseguia respirar. O suor me descia pela testa. Não adiantava fechar os olhos, pois tudo se tornava muito mais claro e ofuscante.

Estava com sede, mas há dias não havia água em casa. Estava com fome, mas o pão que restava eu deixaria para comer na manhã seguinte. Meus lábios tremiam, meus dentes trincavam. Peguei no bolso uma cartela de comprimidos e tomei um, dois, tomei logo todos, de uma vez. De meu olhar marejado, eu só visualizava os pés titubeantes do sofá sobre um piso ondeado.

Percebi, a partir de mim mesmo, o quão o humano é frágil, suscetível a doenças, acidentes, envelhecimento, descuido e uma infinidade de inquietações emocionais e psicogênicas. E que essas coisas o acompanham durante toda a vida... que deprimente existência a deste ser que sabe que sabe!

Também pensei que, mesmo com todas as pragas e aflições como acompanhante principal, ainda assim vivemos tanto. Anos, décadas! É quase um milagre... é algo... inexplicável.

O ser humano é mesmo o mais forte de todos.

domingo, 9 de setembro de 2007

Alegoria de um narcisista

Eu não me lembro de quando comprei meu primeiro relógio. Não me lembro de quando comprei a TV. Não me lembro da primeira assinatura de revista ou jornal que fiz. Também vejo meus livros, discos, filmes, e não me lembro da circunstância em que adquiri a maioria deles. Mas duma coisa eu me lembro: de quando comprei o meu primeiro espelho.

Naturalmente, não era minha intenção: só deve sair de casa pensando em comprar um espelho alguém que realmente não consegue visualizar nada melhor para fazer. Eu estava somente caminhando, para algum não-lugar, como sempre. Até que, em dado instante, eu vi – ou me vi, não sei bem! Meu olhar foi preso de bate-pronto! O fato que estava colocado é que eu não podia deixar ali aquela magnífica obra. Não era grande, devia ter algo como um metro de altura. Mas era destacável! Sua moldura não era imponente, mas tinha um estilo modernizado, em madeira de mesclas douradas e escuras. A superfície do espelho suavizava a visão. Evito ser compulsivo quando se trata de comércio, mas desta vez o fui: comprei no mesmo instante.

Eu o pus no meu quarto. Estava há tempos sem espelho. Talvez por isso não reagi ao impulso de adquirí-lo. O último que tive eu quebrei, não me lembro como. Entretanto, depois de comprado este espelho, eu demoraria a me interessar por outro. Para mim, já bastava um no quarto. Pois um outro espelho no mesmo ambiente geraria em mim a perturbadora impressão de que havia mais pessoas no cômodo. E uma das muitas coisas que me assustam são esses vultos. Não os vultos de mendigos e delinqüentes, perceptíveis por trás das árvores e postes quando se caminha na madrugada. Mas me refiro a outros vultos – os que me impressionam no espelho. Estes, sim. Seres estranhos, esses que vivem dentro de nossas cabeças. São os mais perigosos.

Quando olho para o espelho, afinal, não procuro mais de uma pessoa.

Enfim, apliquei o espelho ao lado direito da cama, que fica no centro do cômodo. Esteticamente não era um bom lugar para pô-lo, mas fui mais levado pela minha pragmática conveniência: é para o lado direito que sempre me levanto, ao acordar. Tal ritual passou a ser diário; assim que despertava, eu punha-me a sentar e olhava para ele, em silêncio, durante... uns quinze minutos.

Depois buscaria um café, um pão, um biscoito, qualquer coisa. E voltava para comer ali, sentado na cama, olhando para aquele majestoso espelho. Ah, nada como aquele espelho para me fazer tão bem...

Passou a ser assim todos os dias, invariavelmente.

O espelho tornou-se, então, parte de mim. Matei ali mais da metade do tempo que me era permitido. Era através dele que eu percebia a verdadeira face exposta em mim mesmo, no cômodo, na aparente cor do dia. Não fosse o espelho, eu não saberia a hora certa de tirar a barba, de dormir, de rir, de ficar sério. Não fosse, eu não perceberia, a partir da própria imagem do meu quarto, que as coisas precisavam ser mudadas. Estava perdendo o foco de como a beleza de tudo está na mudança. No início uma obsessão, o espelho tornou-se, no fim das contas, a expressão do olhar que eu tinha sobre minha própria vida. E eu, que já quebrara um espelho, sabia que este representava uma segunda e última chance de colocar a vida nos trilhos.

Hoje, por mais que esteja empoeirada e sua estrutura esteja caquética, esta porcaria risível ainda ocupa espaço central no meu quarto.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Somos os filhos do meio da História.
Sem qualquer objetivo ou lugar.

Não tivemos uma Grande Guerra
como a dos anos 1910 ou a dos anos 1940.

Não tivemos uma Grande Depressão
como aquela da Crise de 1929.

A nossa Grande Guerra é Espiritual.
A nossa Grande Depressão são nossas vidas.

Tyler Durden, no filme Clube da Luta.