domingo, 23 de dezembro de 2007

"... Até que dava para beijá-la..."

O Pernil do Zé Roberto, um botequim localizado numa daquelas difíceis ruelas enfiadas por trás do CEFET e escondida no meio dos casarões, sempre foi altar de confissões, desentendimentos, desilusões e novas idéias. Quando eu fazia o ensino médio na citada escola, já freqüentava o local e aprontava das minhas, além de beber do álcool e das tantas histórias lá expostas. Hoje, duas faculdades incompletas depois, já nem o freqüento mais, e, até onde sei, é quase zero o número de remanescentes daqueles áureos tempos, que se vão bem distantes da seriedade que hoje se vê - e que passou a ser regra desde que a irmã do Zé Roberto passou a gerir o local.

Esse novo feitio eu só pude constatar há coisa de semanas, quando senti vontade de voltar pra ver que marcas deixou o tempo naquelas paredes mal-rebocadas que eram a vergonha do bairro, e tive essa indigna surpresa. Convenhamos, não sou do tipo que acha que todo boteco precisa ser ligeiramente sujo, mas as exageradas decorações e as combinações de cores, organizadas de forma infantil, e a obsessão por fazer daquilo um lugar "decente" explicavam bem porque aquilo tinha deixado de ser um ambiente de longas discussões para se tornar, hoje, um ponto monótono onde quase só vende cachorro-quente, e pernil mesmo só existe no nome do estabelecimento.

Para minha sorte, no entanto, cheguei lá e encontrei um velho no alto de seus setenta anos, quase um retirante deste lado da vida, bebericando uma pinga enquanto a moça do balcão o fuzilava com os olhos, louca para que ele fosse embora. Era Cortez, um espanhol alto, magrelo e desdentado, que veio para este lado do Atlântico na infância fugidio da guerra que varria a Europa, e agora era quase um mendigo, sequer lembrava uma frase em sua língua nativa. Morava numa pensão ali perto, desde trinta anos antes. Era o profeta da turma, o nosso sábio, o nosso mestre. Ele me explicaria, calmamente, o rumo que levou à decadência daquele local enquanto estive ausente, período que conta aí uns três anos. O marco inicial daquela derrocada, como eu soube, foi uma briga entre Zé Roberto e sua esposa, por quem ele nutria uma intensa necessidade. A causa da discórdia foi a descoberta das escapadas da mulher às escondidas, enquanto trabalhava como manicure numa grande loja feminina. A Líria (Líria Vale, eis seu belo nome) era tudo em sua vida. Depois dela - a briga se mostrou definitiva - a vida do nosso querido Zé já era, ainda que aos 35, e com ela se foi também o nosso ponto de encontro, do qual a irmã dele tentou se aproveitar, passando a gerir após um tempo e oferecendo "cara nova", subjugando o velho dono, que agora estava depressivo e fraco. Zé Roberto, no entanto, ainda morava ali, de favor, graças à "bondade" da mana, e, ao ser informado de que dois de seus velhos clientes estavam ali tomando um trago e jogando conversa fora, não hesitou em vir nos encontrar. Ele, cuja feição guardada em minha mente mostrava um rapaz alvo de aparência jovial, forte e imponente, estava, agora, emagrecendo e barbado, claramente desajeitado, muitíssimo longe de exprimir o astral elevadíssimo de outrora, porém seu semblante denunciava uma indisfarçável satisfação em nos rever.

Pacientemente, ele sentou-se conosco e demos continuidade à nossa conversa. Falamos sobre aquele passado recente do boteco, sobre a maravilhosa sensação de nos sentirmos tão iguais mesmo sendo de distintíssimas gerações, contudo o papo da noite não poderia ser outro senão as mulheres; sobretudo, aquelas que despedem-se de nós e nos deixam ao relento - isso quando ao menos chegamos a provar de fato o que elas têm a oferecer.

- Hoje, senhores, - disse, quase gritando, o ex-dono do Pernil - tenho certeza de uma coisa: a vida sem vírus não é vida. E o melhor vírus que pode nos infectar é mesmo aquele que nos prende a uma mulher. Depois que nos vemos ligados a uma, não tem jeito. Não há como cortar o cordão. Estaremos presos a ele para sempre.

Cortez, com seu eterno ar de convicção, não pensava lá tão diferente. Porém, foi mais sintomático:

- Eu tenho décadas de vida a mais que vocês, mas não digo isso como superlativo, digo agora aquilo que eu pensava há cinqüenta anos: pra mim, o único amor sincero que temos é o primeiro. Aquele quando somos moleques, quando suamos a primeira vez. Todos os que vêm depois podem ser mais intensos e mais duradouros, mas não valem nada. É tudo caso perdido. O único realmente sincero é o primeiro. Afinal, o primeiro é o primeiro, porra!

- Conte aí como foi seu primeiro amor, pois então! - esbravejou o Zé Roberto, aparentemente restabelecido de ânimo. Eu me mantinha falando pouco, como sempre. Cortez começou.

- Ah, guris, meu primeiro amor foi há muito tempo. Eu me lembro, foi algo como dois anos depois de eu ter chegado aqui. Eu tinha uns catorze anos. Quando eu cheguei, morávamos no bairro do Alecrim, e lá, onde hoje é a Praça Gentil Ferreira, havia um hotel... um hotel que não era um hotel, vocês sabem, né?

Eu e o Zé rimos. Realmente, o hotel da Gentil Ferreira não era um hotel. Ao contrário, era um puteiro mesmo, a festa da molecada; 80% dos jovens dessa cidade haviam tido, nesse hotel, aulas grátis disso-e-daquilo no seu 13º aniversário.

Porém, nosso querido coroa lembrava com inacreditável riqueza de detalhes sua experiência:

- Pois é, vou lhes contar. Eu tinha, como falei, 14 anos, e visitei aquele antro a primeira vez por opção de meu pai. Naquela época, vocês sabem... era tradição familiar que nossos pais nos apresentassem a vida, inclusive nos levando para o cabaré. E tá viva na minha memória a face daquela garota, que não devia ter mais que seus dezesseis, dezessete. Seu rosto era branquinho, com um rosa presente em sua pele, além dos seus olhos castanhos, quase de um dourado bem polido, que eram a coisa mais linda que já tinha visto na minha curta vida. E, posso dizer, a certeza que eu tive naquele dia eu mantenho até hoje, mais de meio século depois!

Nossa atenção já estava presíssima à descrição que ele faria da garota, do ambiente, da relação que teriam e de tudo que se passava em sua mente de moleque.

- Meu pai - continuou - me ofereceu a liberdade de escolher a garota que quisesse para passar a noite, e eu não hesitei em escolhê-la! Ela me disse que se chamava Cecília, me levou rapidamente a um quarto, e, por mais que eu tentasse, entre gaguejos e limpadas na testa, engatar uma conversa, ela não tava afim de papo. Mantinha um sorriso no canto dos belos lábios avermelhados e carnudos feito massa corrida, no entanto provavelmente recebera a proibição expressa em conversar qualquer coisa com qualquer um, embora aos poucos ela fosse se abrindo. Isso me deixou melancólico, mas eu devia estar feliz, oras, ia transar com o primeiro amor da minha vida, isso não é o desejo de todos??

- Não exatamente... - discordei - talvez aquela sinceridade de que tínhamos falado consiste justamente no fato de que o primeiro amor é quase sempre mais platônico que, necessariamente, carnal...

Zé concordou comigo. Cortez balançou a cabeça complacente, como se já discordasse do que acabara de dizer. E daria seqüência:

- Porra, acho que foi por isso que não rolou... eu não consegui, entende? Não consegui, na minha primeira vez! Jurei pra ela que aquilo não importava, que todo meu amor era maior que aquilo tudo, até que minha brocha, mas o som alto de música ruim - era um fado português que invadia todos os cubículos do bordel - impedia a gente de sentar na cama e conversar à vontade. Mas sabe o que é mais incrível? Ela aos poucos foi se abrindo, talvez porque eu tenha sido o único cara que se interessou mais em ouvir sua voz que em vê-la nua, e o único a não ter-lhe dado uns tapas na cara. Cecília me disse que esperaria, até o último de seus dias, a vinda daquele que a tiraria daquela vida e com quem dividiria o maior amor já visto!

Cortez nos contou que, dez anos depois, quando já era um poeta conhecido nos círculos literários da Cidade Alta, voltaria ao bordel e a pediria em casamento. Porém, Carmem (esse foi o nome que ela disse ter, desta vez, e afirmou que nunca se chamou Cecília na vida) já estava casada com o "Anel Prateato", apelido do seu cafetão, e ela tinha se tornado, na prática, a dona do cabaré; de modo algum ela pretenderia largar a boquinha que tinha nessa condição pelo risco de sair e viver um romance com um poeta que só ganhava uns trocados com a publicação de elegias nos parcos semanários locais.

Após o fim de sua história, permanecemos, assim, uns três minutos calados, nós três.

- É foda... - disse alguém, tão baixinho que eu nem pude saber de onde veio, eu mesmo que poderia ter resmungado e não percebi.

- Agora minha vez... vou lhes contar a minha história, que se deu nessas mesmas ruas, anos e anos atrás - disse o trintão!

Bebeu de um só gole o copo de cerveja que eu lhe oferecera, passou as mãos nos lábios, esfregou-as e começou:

- Houve uma garota que cresceu comigo, na rua onde morei quando moleque, há coisa de umas cinco quadras daqui. Ela se chamava Alícia, e era a única criança da rua, além de mim. Ou seja: era com ela que eu brincava, com ela que dançava nas festinhas do bairro, etc. Mas nunca demonstrei maiores interesses.

Vez ou outra, ele pausava para reordenar a história, aparentemente organizadas de forma confusa em sua cabeça, e continuava:

- Ela sempre dizia que a gente era tão chegados, que merecíamos nos casar no futuro. E claro que eu nunca gostei daquilo, a gente, quando criança, nunca gosta, né? Mesmo que eu não tivesse vivido num círculo de garotos eu também tinha esse preconceito, e pá...

Nova pausa, novos goles de cerveja e um estalo, como quem pensa "ah, lembrei!":

- Assim foi até nossos doze, treze anos, cara... ela sempre muito gentil, muito doce, muito tudo e eu desdenhando. Até que, mais ou menos por essa fase, chegou um cara no bairro, o Herbert, de nossa idade, menino de uma família de porte mais apresentável, era um abobado engomadinho, mas que logo chamou a atenção da Alícia. E, meus amigos, o maior nó que já tive na garganta foi quando ela recusou a idéia de dançar comigo para dançar com ele! Que droga, vocês imaginam o abalo que isso fez na minha cabeça? Passou um filme, caras, completo, do início ao fim!

Cortez acompanhava atentamente cada movimento nos olhos do nosso contador. Sua atenção o fazia até esquecer de sua bebida e do suor que tomava praticamente todos os poros de seu rosto. Não seria exagero, se, na verdade, aquilo tudo não fosse suor, e sim lágrimas, cuja quantidade seria impossível sair somente dos olhos...

- Eu solucei e chorei na mesma hora - continuou Zé -, me lembrei de tudo que passamos e, mais ainda, de tudo que a gente DEVERIA passar juntos! Me senti o mais filha-da-puta dos homens. Depois daquilo, eu bem que tentaria, mas nunca mais teria a completa atenção da Alícia. Aliás, menos de três meses depois, ela e o novato do bairro já eram namoradinhos, e, três anos depois, se casariam. Vocês acreditam?

Balancei a cabeça negativamente, e olhando pra baixo, como se estivesse interpretando a decepção do próprio Zé em sua história...

- Pô, eu cometi a maior besteira da minha vida - prosseguiu -, mas eu tentei corrigir, da pior forma possível, vocês podem até dizer. A Alícia tinha uma irmã dez anos mais nova, a Líria, que quando tinha seus treze, catorze, eu contava já quase vinte e cinco. Mas eu via nessa garotinha a própria expressão de meu amor perdido. Foi por isso que namoramos escondidos (tá louco se alguém descobre que eu tava namorando aquela guria?), e nos casaríamos um bocado de anos depois...

O ar de estupefação agora tomava conta de minha face e da do Cortez...

- Quer dizer então que a Líria...?

- Exato! A Líria... pô, nunca gostei tanto assim da Líria, mas sabe aquela sensação de você querer ter algo da pessoa que ama, sei lá, nem que seja uma lembrança, um clone... no caso, optei pela irmã. A Líria era uma bela garota e até uma ótima companhia... mas tudo que sinto por ela, não se iguala a tudo que já senti e que ainda sinto por sua irmã, que hoje não fala mais comigo e, provavelmente, foi a arquiteta de nossa separação... ela não queria que seu cunhado fosse um dono de boteco, né?

Cortez ficou puto.

- O que você fez não se faz com uma mulher, seu imbecil!

Zé Roberto apenas abaixou a cabeça e disse, como uma criança que chora:

- Poxa, eu só queria...

Mais minutos de silêncio entre nós.

- Tudo bem, tudo bem - disse eu -, avaliar as coisas sem levar em conta o contexto, as opções envolvidas e afins é, às vezes, uma atitude mais filha-da-puta que a atitude propriamente dita do Zé Roberto em traçar - sem trocadilhos, por favor - seu plano B, em casando com a irmã da garota que é objeto de seu desejo.

Agora era a minha vez.

- Minha história há de ser mais boba que a de vocês, talvez. É uma necessidade dos tempos modernos, né? Tudo hoje é bobagem... até as histórias de amor. De qualquer modo, a primeira vez que me perguntaram se eu acreditava em coisas como "amor à primeira vista" foi lá pelos quinze, dezesseis anos. E eu não hesitava em dizer que SIM, porque eu já tive, antes de tudo, o meu amor à primeira vista...

Com o maior dos respeitos, os dois agora me ouviam cuidadosamente, pegando cada palavra.

- Bem, o começo de tudo, caras, foi num ônibus. Eu estava lá, indo sozinho para a escola, tinha exatos treze anos, condução lotada, muita gente falando, até que de repente... de repente, cara, subiu uma garota que me prendeu a atenção no mesmo instante! Sabe o que dá..? Não sei o que vi de tão especial assim... porque ela era linda, mas lindas muitas garotas eram e nunca me fizeram sentir aquilo... mas ela, com seu nariz arrebitado, sua boca pequena, seus cabelos curtos, a coisa mais bela que já vi na vida, terminando pouco abaixo do pescoço, seus olhos claros, sua nuca que exalava um perfume que, tenho certeza, nunca mais sentirei nunca noutra garota, sua perfeição em formas ia muito além da beleza vaga das demais meninas... ela realmente tinha um quê de especial.

Bebi um gole e continuei rapidamente... estava revivendo a história, ali, diante de mim, e não queria parar um segundo sequer!

- Cara, nessa primeira vez, ela sentou-se do outro lado do ônibus, bem longe de mim... eu segui a viagem toda olhando para a janela, não ousava virar para contemplá-la... mas teve um momento que eu disse: "vou olhar".. e na hora que virei, no exato instante, ela olhava pra mim - e desviou o olhar desesperadamente! Cara, ela estava olhando pra mim!! Tem idéia da sensação de poder e conquista que se instalou em mim quando saquei isso?!?

- hehehehehehehehehe... sorriu vagarosamente o Cortez, com jeito de quem entende aquilo que senti.

- Sabe, bicho.. durante dias, foi assim... maior prazer maior era somente poder apreciá-la no ônibus. Mas decidi fazer mais! Então eu a segui... segui pra saber pra aonde ela ia... e saquei que ela cuidava duma loja de bombons que depoius soube que era da mãe dela, lá perto do antigo cinema Rio Verde, onde as pessoas compravam guloseimas quando iam pra sessão.

- Tá, já sei... você passou a comprar bombons lá, né? - perguntou sabiamente o Zé. Ele estava certo.

Relatei então, o primeiro encontro que tive com ela nessa loja, que tentei demonstrar ser por acaso, né?... Ao que entrei na lojinha, ela pareceu tão nervosa quanto eu por me ver ali. Eu cheguei e, meio nervoso, disse somente:

- Olá.

- Olá...

- Você tem...? - pensei em alguma coisa, qualquer coisa, e lhe pedi, sob tremedeiras, suor e frio na espinha...

- Hmmm... tenho. Vai ver um filme com alguém, é?

- Bom... vou ver um filme sim... mas vou ver sozinho.

- Ah...

Passei a ir ao cinema (e por conseqüência, a loja) com certa freqüência, coisa de uma vez por semana, para poder conversar com a Fernanda - taí seu nome... sempre passava poucos minutos, no entanto. Eu já não a via, porém, nos ônibus. Isso, ela me explicaria.

- Sabe, eu morava com meus tios, lá no seu bairro... é o seu bairro, né? Pois é... estive morando com eles, meus pais são separados, meu pai mora em Curitiba, e minha mãe aqui, mas já tá se restabelecendo e tô com ela... mas em breve, terei que optar com qual dos dois vou querer morar em definitivo...

Essas coisas me violentavam, somente a suspeita de que ela poderia ir embora e eu nunca mais a veria. Enquanto eu contava a história, Cortez dava umas interrupções, comentando que com ele acontecera caso parecido. Mas não tomou a vez...

- Até que aconteceu uma coisa - continuei - que eu não esperava: nos reencontramos na condução. Foi o maior momento de minha vida, quando a pude ver sorrindo e vindo em minha direção, lá nos fundos do ônibus, e sentando a meu lado, no banco que fica logo ao lado da porta. Eu estava no céu, caras...

- No céu! - repetiu Zé Roberto.

- Vocês sabem o que é? Puxa, nossa conversa foi longuíssima durante a viagem, mas eu, um moleque idiota, não conseguia expressar nada do que eu realmente queria... durante o trajeto trocamos cortejantes olhares, e cheguei a ensaiar a possibilidade de pegar na sua mão... puts, como eu era um babaca!

- E sobre o que conversavam?

- Essa é a questão... ela disse que voltou a pegar o ônibus por uma razão lá não tão positiva... ela estava indo à casa dos tios, ia pegar as suas coisas, e provavelmente embarcaria pra Curitiba...

- Puta-que-pariu! - gritou Cortez, dando um murro na mesa...

- Pois é, cara... ela falou tanta coisa, sabe, mas eu não me liguei em conteúdo, só na forma... eu não me lembro mais de suas palavras, porém sua voz tá viva em minha cabeça, isso é curioso... passei a viagem contemplando-a alegremente... isso até saber que ela estava indo embora. Mas ela me disse que a decisão não era definitiva. Que poderia ficar, se fosse seu desejo. Nunca me esquecerei, porém, de suas últimas palavras, já perto do ponto em que desceria, quando me falou: "... e eu poderia até permanecer aqui... com certeza ficaria, se houvesse algo que me pedisse pra ficar..."

Eu não consegui lhe responder uma palavra.

O ponto dela estava chegando e não teríamos mais que uns trinta segundos. Mesmo assim, nada dissemos. O ar permanecia cativante, ela balançava lentamente sua cabeça, mordia muito lentamente os lábios, seus olhos estavam fixos nos meus, e naquele instante, que pra mim parece nunca acabar, eu senti que realmente poderia tê-la comigo, naquele instante percebi que realmente existia um elo forte que une um casal e que explica o fato de existirem, eternamente, a todos tempo, toda sorte de artistas loucos pra falar de amor. Naquele instante, e disso tenho certeza até hoje, até que dava para beijá-la... mas assim não aconteceu. Extintos os trinta segundos, ela, quase num pulo, com olhos lacrimejantes de desapontamento, se levantou, desceu do ônibus e eu nunca mais a vi...

- E você nunca procurou saber o que houve com ela?

- Bá... procurei sim. Não faz tanto tempo, deve ter meses, eu pus seu nome num desses sites de relacionamentos, e você não vai acreditar no que vi, cara... uma comunidade com uma foto dela, dedicada à sua memória! Ela morreu, bicho!! Tem idéia do golpe que isso foi no meu peito?!

- Meu Deus... ela morreu de quê?

- Não sei... fechei na mesma hora.

Ambos balançaram a cabeça condescendentes. Fariam a mesma coisa, se fosse o caso. Permanecemos, então, em silêncio, durante muito tempo.

- É a eterna fragilidade do homem diante de qualquer mulher, seja santa ou puta - disse Cortez, relembrando um velho amigo nosso.

Tomamos lá mais um pouco de cerveja e pinga e voltaríamos para nossa vida. Cortez, em seus setenta anos de promiscuidades, mantendo sua relação com pelo menos três empregadas domésticas que moravam no mesmo pensionato que ele, Zé Roberto em sua eterna síndrome de Bandini, e eu, revolto em meu niilismo, bem distante de qualquer coisa que se aproxime de um desses romances de cinema.

Provavelmente, o Cortez encontrará o descanso em breve. Sua saúde está desgastada, por mais que ele negue isso e até demonstre vigor tendo tantas mulheres na alta idade. Zé Roberto é outro que tende a permanecer vivo somente como lembrança... em especial porque não pretendo voltar naquele recinto cor-de-rosa, nem ele gosta de receber visitas, apesar da boa conversa que tivemos. O que ficou registrado nesse papo, no fim das contas, foi, talvez, o último momento de sinceridade em relação às mulheres. Tudo que virá depois, como disse o nosso guru, é caso perdido.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Mais uma página no imenso livro do rock

Eu estava sentado no chão e afinando a guitarra, supernervoso por participar de meu primeiro festival. Tínhamos menos de um ano de banda, mas o entrosamento já era avançado, apesar dos poucos ensaios e apresentações que fizéramos até ali. A rapaziada no pretenso camarim cujo teto tinha menos de dois metros de altura - o que não era problema para este que vos escreve, visto que sempre fui baixinho, diminuto, imperceptível - ficava tomando tragos de batidas de vinho com alguma vitamina, num ritmo frenético.

Até pouco tempo antes, eu era um moleque pacato, deslocado e mau-humorado, do tipo que se senta na frente na sala e não fala com ninguém. Tratava-se do ano 2000, já no clima dos festejos dos 500 anos da República, e eu, então com 15 anos, estava lá da sala, entediado com tudo aquilo e metido a rebelde, vestido com a camisa da farda rabiscada com os dizeres "pau no cu do 5º centenário", de modo que enfim percebi que alguém pensava minimamente parecido comigo, que sempre detestei essas cerimônias coletivas, quando Eric veio me conhecer e ficamos de conversa por longo tempo naquele mesmo dia; um gaúcho branquelo e racista em potencial, mas com quem até que me dei bem. O nome do figura era Eric, e não tardou até eu conhecer Maurício, um lutador de jiu-jitsu de face eternamente carrancuda, outro de sua trupe.

Totalmente deslocados do ambiente de festas que se via em todos os locais - faixas, out-doors, camisetas, televisão -, decidimos aproveitar o elo que havia entre nós e organizar uma banda bem ao estilo punk, já que nenhum de nós tinha lá maiores conhecimentos musicais. Com os instrumentos emprestados do pai de Eric, que sempre sonhou em ver o filho como um virtuoso músico, formamos o Cavalo Amarelo, nome de referências históricas e literárias inglesas, de onde também vinha as nossas influências musicais. Com alguns acordes decorados, consegui desenrolar na guitarra, até entrar, no ano seguinte, André Rubão, um solista magistral, um autêntico guitar man, a quem eu acompanharia no som. A partir daí tudo aconteceria rapidamente na minha vida. O que passou a existir pra mim foi a efemeridade das festas, das garotas, da benzina e de tudo que tinha caído do céu num impacto animal. Eu já não era mais o cara mau-humorado e deslocado de antes.

Oito meses depois de criado o grupelho, fomos convidados para o Festival de Rock da Cidade-Praia, nome que fazia referência ao local, que, convenhamos, ficava a muitos quilômetros do litoral, e cuja identidade praiana na estética era nula. O festival foi realizado num barzinho que não me recordo o nome, mas bem me lembro que não havia ninguém que tivesse a idade próxima à nossa. Praticamente só havia coroa, porém todos, uns graças a umas doses de álcool no sangue, muito empolgados com o que veriam. Além deles, restavam umas púberes mais discretas, sendo que algumas iriam assistir a seus namorados e outras que iriam esperar pra ver se descolava algum garoto para se divertir na Praça Presidente Sarney, que de praça não tinha nada: era tudo mato. Para nosso azar, fomos a última banda da noite e quando saímos já não restava mais nenhuma pequena solitária no bar.

Não tinha mais que quatro bandas aquela noite, das oito que estavam inscritas. Mas para nós, aquilo valia como o Rock in Rio I. Era alguma data no mês de abril, o Dia Internacional do Homem, e, em referência, o Rubão entrou no palco só de cueca. Houve até quem aplaudisse... quando cheguei no palco, saquei que tinha esquecido a set list e introduzi errado várias músicas. De cara, vimos protestos e aplausos logo na primeira música, quando o Eric levou uma latada na cabeça após o desabafo dos primeiros versos de nossa canção Pátria Puta: "vivendo na terra em que tudo tarda, vivendo na merda na periferia do Brasil, ignorados pela pátria puta que nos pariu"... Eric, porém, cabeçudo como era, continuaria a cantar e levaria ainda pelo menos meia dúzia de latas, mas venceu pelo cansaço aqueles que reclamavam (enquanto outros aplaudiam e derramavam seus palavrões). O Eric tocava baixo e cantava, mas nesse dia sua potente voz falhou diversas vezes, e tive que dividir com ele o vocal em um bocado de músicas. Quem me conhece sabe o estrago que é minha voz... depois de encher a cara de cerveja e aguardente, porém, o público presente não ligava para tais bobagens. Ainda assim, tomei latada a cada desafino. E inclusive jogaram cerveja uma vez no Rubão - este era mais fresco, por qualquer coisa fazia arruaça. Chegou a tirar a cueca na apresentação e foi obrigado a sair do palco. Felizmente, isso só aconteceria quando já estávamos no encerramento de nossa apresentação.

Ao fim do festival, porém, veio a surpresa: embora o bar já estivesse esvaziado, nossa empolgação foi única quando soubemos que fomos a melhor banda da noite! E inclusive ganhamos uma plaquinha do barzinho. Além de melhor banda, vencemos com melhor guitarra solo e melhor bateria, com o Maurício. Ficamos ainda no bar até a metade da madrugada enchendo a cara e voltaríamos a pé cantando pelas ruas com os instrumentos pendurados, uns 15km de tropeços e cambaleios até chegar ao destino - porém, algo ainda aconteceria sob o testemunho da lua e das parcas estrelas visíveis.

Quando passávamos por dentro de um pequeno bosque (na realidade, uma outra praça esquecida pelo Estado e dominada por mato) para cortar o caminho, eis que nos aparece um grupo de uns sete ou oito delinqüentes e nos cerca. Na nossa condição, não tínhamos como resistir a nada, mas ainda assim tentamos, em vão: deram-nos murros e socos, roubaram nossas placas de premiação e nos deixaram lá, jogados nas ervas-daninhas, temporariamente incapacitados a levantar, e só dispostos a sentir pena de nós mesmos por não termos defendido o mínimo de nossa dignidade: naquele momento, os nossos pequenos troféus. Roubaram praticamente todos, as placas de melhor banda que os quatro tinham e a de melhor guitarra do Rubão. Só não roubaram a de melhor bateria do Mauricio, já que ele, em seu talento como lutador de artes marciais, conseguiu mantê-la protegida. Mas mesmo ele estava fragilizado, tinha bebido bastante e já estava muito cansado e abatido.

Procuramos o primeiro meio-fio e sentamos para, como consolo, terminar de beber o que restava das duas garrafas de Mackinlays com que o dono do bar também nos brindara. Nos jogamos para trás e ficamos lá, cantando baixinho como um coral melancólico e sem platéia, olhando para o céu vazio e cinza, e só seríamos acordados ao amanhecer, quando a dona da casa em frente à qual adormecemos nos expulsaria a vassouradas.

A nossa banda, embora tivéssemos uma boa relação de cumplicidade e amizade, não duraria mais muito tempo. O Mauricio logo aprontaria das suas com uma tiete nossa e teria uma filha, que chamaria de Clara, e foi o primeiro a sair. Eu aproveitei a saída dele, e, naquele ano em que eu faria 16, coisas novas se me apresentavam, e diferentes do que experimentava até ali. Eu me liguei mais em Aldous Huxley, Pink Floyd, Karl Marx, Luiz Buñuel. Meu lugar não era mais ali. Pulei fora. O Eric, cuja voz forte falhava vez ou outra, a perderia quase completamente num acidente de carro que sofreríamos pouco depois. Suas cordas vocais foram destroçadas, e hoje faz um esforço animal se quiser que sua voz seja ouvida a mais de cinco passos. Sua família logo o mandaria para os Pampas, "aquilo que é terra de gente", distante de nossas más influências, e ele seria o terceiro membro a sair da banda. Eu o vi ainda uma vez em 2005 quando ele voltou a Natal para passar uns dias. Na ocasião, dividiríamos umas bebidas e escreveríamos novas canções, com músicas dele e letras minhas, como sempre foi. Entretanto, ele foi embora rapidamente, como esperado, e as poucas músicas que chegamos a gravar toscamente na guitarra e voz se perderam na última vez em que formatei meu computador.

André Rubão ficou sozinho na banda, que não tinha mais nenhum membro original. Chamaria uns amigos para continuarem tocando dali em diante, porém a banda acabaria pouco depois - exatamente um ano depois do fatídico dia do festival e das premiações roubadas.

Hoje já não tenho nenhuma lembrança material da banda. A única que restaria seria o pequeno troféu rústico e esteticamente muito feio, mas bastante simbólico. Fotos, raramente tiramos juntas. O Cavalo Amarelo persiste, porém, na minha memória, como o marco que mudaria minha vida dali em diante. Faria de mim mais que platéia. Embora fizéssemos coisas bonitas, com umas musiquetas românticas aqui e ali, nossa idéia de banda era protestar e escrever sobre nossas angústias de adolescentes. Hoje, minhas angústias já não são de adolescentes, mas permanecem. Ainda tentei desenrolar outras bandas depois, uma idéia que não sairia do lugar, já que não há mais quem faça banda como expressão existencial de si próprio. A música pra mim nunca foi curtição; para um chato como eu, o que mais se aproximava de curtir era estar numa cama com uma garota ou numa mesa de bar com uns amigos. Já música, assim como contos, eu sempre fiz e assimilei quando estava aborrecido ou irritado. Hoje, a música tem papel pouco destacado na minha vida. O eterno mau humor e o deslocamento que outrora eram parte de minha personalidade, por sua vez, voltaram. Pra ficar.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Notas avulsas

Quero oferecer uma discreta lembrança e um sincero pedido de desculpas à minha amiga Lidia Gabriela, que sofreu um acidente motociclístico comigo essa semana e ainda sente algumas escoriações, mas, felizmente, passa bem.

A experiência de sofrer acidente de moto é algo com que facilmente se acostuma, talvez pela relativa freqüência com que ocorra. A experiência de sofrê-lo com alguém na garupa é outra coisa totalmente diferente...


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O dia 6 é meu aniversário e, a partir de então, começarei a escrever meu primeiro livro, Enquanto o Sono Não Vem, uma fixação que já guardo há muito tempo e que concretizarei; depois, sairei mandando cópias para algumas editoras, ou, na pior das hipóteses, junto uma grana e publicarei em alguma sob demanda.


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A blogosfera anda mais movimentada com a promoção que tá rolando chamada "Eu Tenho um Blog de Elite", que, ao final desse mês, premiará o vencedor com 50 pratas para divulgar o blog pelo Google Adwords. Meu blog foi um dos 5 indicados pela Analu Macedo, ao que fiquei... muito satisfeito. Muito, mesmo.


Ignorando os enfeites coloridos sem-graça e as referências fajutas ao filme Tropa de Elite, darei seqüência à corrente, que consiste em um indicado indicar outros 5 blogs entre os seus links - eis minha listagem:

O Outro Blog da Ana: Assim como a própria Analú, eu também indico a pessoa que me indicou.. o blog dessa garota é super-destacado, não à toa é bastante visitado. São muitas suas histórias no Velho Mundo, contadas sempre com ótimos lances de humor e ironia.

Tá na cara: Blog de meu camarada Ângelo Girotto, onde ele demonstra uma invejável intimidade com as palavras, por meio de ótimas crônicas e poesias. Sem dúvida, uma leitura das mais agradáveis.

Maldita Palavra: Sensibilidade nas mensagens e muita subliminaridade na métrica e no jogo de cores. Um blog que utiliza muito o dueto letras-imagens para fazer potencializar o valor de seus próprios escritos.

Caos Urbanos: Críticas ácidas, sacadas espertíssimas e outros ingredientes fazem com que o leitor dedique sempre muito tempo pra esse blog, no qual já tive a honra de ser re-publicado.

Esse Meu Ovo Mesquinho e Fechado: Linkado aqui como "Me Dá Uma Aspirina", esse blog contém textos escritos numa só corrida, com muita espontaneidade, e com muita eficiência em fazer o leitor se envolver com o texto.


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"E minhas questões pessoais continuavam tão más e lamentáveis quanto no dia em que nasci. A única diferença era que agora eu podia beber de vez em quando, embora nunca o suficiente. A bebida era a única coisa que impedia um homem de se sentir para sempre atordoado e inútil. Todo o resto ia furando e furando sua carne, arrancando seus pedaços. E nada tinha o menor interesse, nada. As pessoas eram limitadas e cuidadosas, todas iguais. E eu teria que viver com esses fodidos pelo resto da minha vida, pensei. Deus, todos eles tinham cus e órgãos sexuais e bocas e sovacos. Cagavam e tagarelavam, e todos eram tão inertes quanto esterco de cavalo. As garotas pareciam legais a certa distância, o sol resplandecendo em seus vestidos, em seus cabelos. Mas vá se aproximar e ouvir seus pensamentos escorrendo boca afora, você vai sentir vontade de cavar um buraco ao sopé de uma colina e se entricheirar com uma metralhadora. Eu certamente nunca conseguiria ser feliz, me casar, nunca teria filhos. Inferno, eu nem mesmo conseguia um emprego como lavador de prato!

Talvez eu pudesse me tornar um ladrão de banco. Alguma coisa bem fodida. Alguma coisa flamejante, fogosa. Só se vive uma vez. Por que ser um limpador de vidraças?

Acendi um cigarro e segui descendo a ladeira. Será que eu era a única pessoa que perdia tempo pensando nesse futuro sem perspectivas?"

Charles Bukowski, em Misto Quente

sábado, 17 de novembro de 2007

Depressão, prantos e alegria contida depois da triste notícia

Quando eu acordei e, ao tentar conectar, percebi que tinham cortado minha net mais uma vez - a equação correta, afinal eu não pagara as duas contas anteriores -, peguei os únicos 5 reais que restavam na minha carteira e decidi tomar duas cervejas no boteco da rua. Eu detestava cerveja de manhã, mas isso não me ocorreu naquele instante... detestava tanta coisa, afinal. Podia dizer que detestava desde vários aspectos de mim mesmo até o fato de a bandeira dos Estados Unidos estar fincada no solo lunar. Não deixava de fazer as coisas por tais frescuragens. Fui bebericar com os trocados que me restava, pois então.

Quando cheguei e me aportei no bar, percebi uma intensa movimentação em torno de uma mesa... ao que os outros bebuns foram se desaglomerando, pude perceber: o Baiano, um conhecido figura do bairro, negro, literalmente baiano, de quase dois metros de altura estava em prantos, uma imagem de dar pena. Nitidamente, tivera sofrido, para ver-se em tal condição, um grande golpe. Não fiz alarde algum; não o conhecia, assim como não conhecia nenhum dos outros assíduos freqüentadores do bar, senão de vista. Eu devia ser o mais jovem a beber por ali, de vez em quando. O lugar só servia mesmo, decentemente, para os funcionários públicos quarentões que por ali moravam. O fato de eu ser um reles adolescente até pouco tempo atrás me tornava um cara totalmente deslocado, tanto no bar quanto fora dele. Percebia isso quando as meninas, os garotos, as mães de minha rua olhavam torto para mim, quando passavam. Decerto a impressão que eu lhes oferecia é a de que sou tão-somente um jovem pinguço, um sem-futuro, um pequeno alcóolatra "que Deus o tenha". Não era eu quem ia negar, embora nunca tenha gostado desses reducionismos. De qualquer modo, me felicitava saber que a molecada do bairro fazia parte da autêntica geração-saúde. A academia era o ponto de encontro no conjunto, e eu devia ser o único que era esnobado até pelas raparigas do fim-da-rua. Enquanto vagueava em pensamentos, no entanto, uma coroa de seus trinta e tantos anos perdidos sentou-se em minha mesa, talvez porque não tinha mais lugar no bar, talvez porque, simplesmente, uma vez na vida, queria falar com uma pessoa diferente.

- Sabe por que o Baiano está chorando? - perguntou-me.

- Não faço idéia - na verdade, pouco me interessava. Choro não é a coisa mais rara de se ver num bar; só perde para palavrões e para ruídos de socos.

- Um amigo dele morreu!

- Ah... um amigo. Que pena, não?

- Você conhecia um cara que... - e começou a dar detalhes sobre um vendedor de muambas piratas. Eu respondi com um grunhido. Na verdade, queria não responder, mas tentei ser minimamente simpático.

- Ele também era vigilante, sabe? - ela continuava fazendo sua descrição.

- Acho que conheço, sim - respondi, já totalmente indiferente à fofoqueira, que estava à minha frente com um copo vazio. Ela parecia um pouco constrangida por eu não ter dado, até então, um sorriso por contido que fosse, nem tampouco oferecido um gole de minha preciosa cerveja. Mas não se deixou abater.

- Pois é, foi ele que morreu!

- Ah...

- Morreu hoje de manhã, Baiano era um velho amigo, soube agora da notícia!

Não pude deixar de notar, no palavreado daquela senhora, uma ponta de sorriso em seus lábios - uma ponta de sorriso! Que bondoso estou sendo!

Seus olhos só faltavam brilhar quando me falava.

- Você já chegou a falar com ele? - tornou a me perguntar, depois de acolher-se num silêncio de uns cinco minutos, por exigência velada de meu pouco entusiasmo.

- Muitas vezes...

- Ele morreu do coração. Andava muito triste, sabe? Comprou um carrinho, um Uno Mille, meu Deus, pouco tempo atrás. O carro foi roubado em dois meses... mas ele ainda tinha mais trinta e quatro prestações pela frente, e pagou todas elas, poxa vida...

Ela se empolgou.

- Sabe o que eu lhe dizia? - continuou - Eu lhe dizia "não desista!" Corra atrás, faça lá seu futuro, mostre pra esses ladrõesinhos que você não se deixa abater. Ele até chegou a comprar um fusquinha, agora há pouco tempo, e eu lhe disse "tá vendo? Tem que começar de baixo." Tentei ajudar o que podia, mas ele tinha ficado pirado depois que perdeu o primeiro carro, oh Deus, passou a beber, a mulher o deixou, pobre dele...

Eu, aos poucos, perdia completamente minha mínima compostura e interrompi a conversa oferecendo-lhe uma cerveja. Queria acabar com a história ali. Já estava abrigado por um grande e incomum sentimento de depressão, não pela internet cortada, nem muito menos pela notícia da morte do rapaz. Mortes eu já vira aos tantos. Já assisti a motoristas alucinados atropelando travestis por esporte, já presenciei cenas de mulheres de quarenta tendo o crânio trespassado por uma bala de 38 pelo próprio marido, já me sujei com o sangue de uma adolescente quando a vi cair do 3º andar do prédio onde eu morava, caindo quase sobre minha cabeça, até. Não, definitivamente a morte daquele rapaz não me incomodava o dia, embora eu reconhecesse que fora um impiedoso fim para um pobre cidadão comum, que só conseguiu o primeiro carro depois de trinta anos de serviço, e ainda assim trabalhando na labuta pelo dia e com serviço alternativo pela madrugada. Isso mais me incomodava que a sua morte, certamente trágica. Porém, o que realmente me derrubava naquela manhã era a atitude daquela estranha mulher, a tentar me tirar o sossego para expelir pela boca mal-cheirosa e pelo olhar pernicioso o seu fetiche com a história de fracasso do malogrado vigilante, agora um cadáver congelado que provavelmente tornar-se-ia, no futuro, mero personagem secundário de suas próprias histórias, um anti-herói, um homem que tanto fez e pouco conquistou, e morreu triste e solitário.

- Beba uma cerveja e cale-se, por favor - Eu lhe disse, já impaciente.

- Ah... desculpe. Você era amigo dele, né?

E ela me acompanharia, respeitosamente de bico fechado, nas duas garrafas. Percebeu o meu estado de completo desânimo. Compreendeu, ainda que tardiamente, o quanto me afetara aquela história, aquela amolação. De fato, o que me incomodava era algo muito além disso. Estava enjoado por ver, na mesma e antitética cena, um brutamontes cair-se aos prantos enquanto uma pequena mulher disfarçava sua alegria e seu gozo pelo mesmo motivo. Aquilo era demais para mim. As lágrimas que corriam em minha face quando cheguei em casa corroíam como ácido a já mal-tratada pele de meu rosto. Definitivamente, evitaria voltar àquele bar. Assim se deu. Nunca mais vi aquela abelhuda, nem nunca mais senti um enjôo tão latente enquanto ouvia de alguém uma história, por triste e tocante que fosse. O impacto que senti dentro de mim mesmo naquela ocasião me deixaria anestesiado para semelhantes situações, no futuro. Sim, estava categoricamente anestesiado. Insensível. Indiferente. Se isso seria bom ou ruim, porém, eu nunca saberia.

sábado, 10 de novembro de 2007

Para o bem de Elizabeth

Eu nunca como nada antes das 14h, mas como eu acordara muito cedo num dado dia, optei por ir a um café me alimentar com algo substancial naquela manhã. Pedi um suco de laranja e um pão com manteiga, mas fui obrigado a comer um outro sanduíche natural, muito sem-graça, que de nada tinha gosto.

Enquanto me abastecia com aquelas migalhas a fazer cócegas na minha boca, cujo sabor, já irrisório como antes dito, estava ainda mais desgastado pela sobreposta dor-de-dente que me incomodava há uns dias, pela vidraça eu notava os preocupados rostos das pessoas que se apressavam a ir à escola, trabalho, faculdade, cursinhos ou que - estes menos preocupados - voltavam da noitada, e isso até me divertia, embora não interferisse em nada na minha sisudez facial.

No café, não tinha quase ninguém aquela manhã. Numa das mesas, um funcionário de repartição de meia-idade comia um bolo com refrigerante meio apressado, enquanto parecia rabiscar um folheto de classificados, e no balcão uma garota vestida de uniforme de lojas de roupa e com uma cara emburrada acompanhava-se de um pires no qual uma gelatina verde tremulava de modo incrivelmente incômodo. Como eu já estivesse há dois dias sem falar com ninguém e receoso com as conseqüências negativas dessa inatividade para minhas cordas vocais, peguei meu suco e meu sanduíche e fui interrompê-la, sentando-me a seu lado.

– Quem é você, o que quer? – ela me perguntou antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Seus olhos eram grandes e meio puxados e sua pele de um moreno claro, indeterminando sua origem. Tinha uma vasta e bonita cabeleira negra, embora estivesse bem descuidada aquele dia.

– Quem eu sou não importa, você se esquecerá assim que sair deste boteco.

– Isso não é um boteco. Não freqüento botecos.

– Que seja, ou que não seja, aliás. Mas pela sua cara e seu humor, parece-me que um boteco propriamente dito lhe cairia melhor.

– Eu pareço acabada? – perguntou me passando um olhar de criança manhosa.

– Parece. – respondi, simplesmente. Sua aparência mudou bastante, pelo visto não esperava minha confirmação. Alterou a face com um misto de espanto e reprovação, mas logo daria de ombros e fingiria ignorar.

– Meu namorado me deixou.

– Hahaha!!! Que sorte a minha, hein? Vim-me sentar logo ao lado duma garota desiludida com um namoro...

Ela ficou nitidamente envergonhada, e direcionou a vista à gelatina. Seus olhos úmidos e inquietos pareciam estar tentando acompanhar cada movimento daquela gosma que já estava a cair sobre a mesa do balcão, visto que ela não o comia e somente usava a colher para brincar com aquele experimento que expressava, em seus movimentos repetitivos e enfadonhos, a pequenez de sua existência, posta em crise com um fim de namoro.

– Tudo bem, pra ser sincero, eu não sou essa insensibilidade toda que pareço.

– É sim. Eu sei. São todos iguais, afinal.

– Meu bem, não sou, e essa sua infelicidade, acredite, nada tem a ver com seu namorado.

– Quem é você pra saber?

– Acredite, eu não falaria isso se não tivesse substância para tanto...

– Não entendo você... parece tão... babaca. Mas, ao mesmo tempo, parece tão compreensivo...

Nós nos fitamos complacentes, e damos seguimento à conversa, na qual ela me contou tudo sobre o namoro, sobre o que estudava - fazia uma faculdade aí que dizia ser o seu maior sonho, mas falava do curso como se fosse uma experência torturante. Seu nome, eu saberia, era Elizabeth. Elizabeth Jasmin. Namorava com Saulo há coisa de um ano e pouco. Ele que lhe tinha arrumado o emprego numa dessas lojas de roupas populares. Por sinal, estava atrasada para o trabalho aquele dia - "não importa mais", foi o que me disse. Num determinado momento, perguntou o que eu fazia.

– Estudo também... faço Geografia... o resto do tempo, não faço nada.

– Que massa! – sua resposta não trazia nenhuma empolgação, naturalmente, a despeito da exclamação. No instante seguinte, tornamos a falar de sua vida. Nossa conversa tomaria ainda umas duas horas, que inclusive lhe tinham devolvido a fome.

A fluidez de nosso papo indicava que tínhamos mais coisas em comum do que oposições, na verdade. Seu humor até tinha melhorado, embora pausasse quando falasse do ex-namorado.

– Você é bem legal – foi o que me disse, desinspiradamente. Estava carente e suscetível a comentários do tipo, eu bem sabia. Mas nós realmente nos daríamos bem a maior parte do tempo naquela manhã. Ao final, nossos olhares se fixaram e nos beijamos lenta e carinhosamente. Ela parecia frágil como uma boneca de porcelana, de modo que quase não a toquei enquanto nos beijávamos. Ficamos apreciando um ao outro no fim de tudo.

– Eu gostei de você - foi o que me disse, baixinho. Sorri, apenas. E, imprensando os lábios e já me levantando da cadeira, lhe respondi.

– Também gostei de você... preciso ir. Até algum dia – então me retirei, pagando pelas guloseimas e dando-lhe um novo beijo, mas desta vez a beijei no rosto, com mais paternalismo que sentimento de atração. Ela não pareceu tão surpresa como eu temia que ficasse, embora exprimisse certa desolação aparente nas sombrancelhas parcamente levantadas.

Quando fechei a porta do café, achei que nunca mais a veria, e me conformei com a condição, embora ela fosse simpática e até que uma boa companhia. Mas ainda a reencontrei uma vez, só que desta vez não fui notado. Eu estava sentado num ponto de ônibus quando a reparei vindo abraçada a um rapaz, que, pela camisa, pude perceber se tratar do tal Saulo, já que tinha seu nome bordado. Ela o vigiava fixamente, e seus olhos brilhavam, à medida em que seguiam passeando pela calçada, e sua boca se calava para ouvir a voz dele, e seus braços pequenos sofriam para enroscar-lhe o pescoço. Elizabeth bem demonstrava estar envolvida por Saulo de modo a nunca mais querer que lhe escapasse das mãos. Ela se revelava tão impressionada com ele que seu desejo poderia ser traduzido numa fome incompreensível, numa idolatria, enfim, em qualquer coisa, porém nada que se aproximasse de um sentimento minimamente amoroso e recíproco. Ela estava feliz. Aliás... ela parecia feliz. Nada mais que isso. Pobre Elizabeth.

domingo, 4 de novembro de 2007

Release Post

O blog está parado - mais do que o normal - porque estou sem computador, e esta postagem, que rabisco numa folha de papel, provavelmente será publicada quando eu tiver uns trocados pra gastar em algum cyber ou quando me aproveitar da bondade de algum amigo para ditá-la por telefone. De qualquer modo, tenho pensado naquele lema cuja sentença diz que só pensamos no quão algo ou alguém é importante pra nós quando o perdemos. Eu não perdi ninguém, e a falta de uma conexão à internet não é o que vai me fazer ficar em depressão, contudo só agora - quando me vejo distante do blog - é que me lembro de que ele era um espaço que eu tinha para dizer algo e que a distância é como me fizesse estar sem voz. Logo para mim, que tanto gosto de escrever, e que não sou nem um pouco fã de manuscritos.


Porém eu estive, nas oportunidades que tive, entrando no blog... como visitante, mesmo, já que adoro ler o que produzi. A maioria das coisas que escrevo traz boas doses de sinceridade, e isso me é especialmente interessante, porque sou uma pessoa muito inconstante, e reler o que fiz é sempre algo novo... frequentemente discordo do que postei, ou penso que poderia ter feito de melhor forma. Embora nunca me veja à margem do que escrevi, o que parece óbvio, visto que praticamente tudo é advindo de experiências e opiniões pessoais, mas não o é, exatamente. Dia desses me sugeriram mudar o nome do blog para 'diário de leon', pois eu me atinha predominantemente a detalhar o que vivia e deixava o leitor distante do que se passava, sem nenhum espaço para uma reflexão própria... parece-me não mais que uma análise simplista, expressa principalmente pelo fato de eu escrever em 1a pessoa... se não há espaço para reflexão alguma do leitor no texto sobre o quebra-cabeças ou na alegoria do espelho, então realmente avalio muito mal o que eu mesmo faço...


O que senti, e essa crítica eu mesmo expresso, é que tenho restrito muito o blog, criando contos e tal, e perdendo um pouco a despretensão que esse artifício virtual oferece. E claro que não é de hoje... faz pelo menos dois anos que deixei de lado o prazer maior em ter um blog, que é, simplesmente, postar. Sempre que puder. Claro que a qualidade é importante... não vale postar dizendo 'oi, estou atualizando'. O que é o mais importante, porém, é o processo de postar. É como o velho dilema gessingeriano do tenista, que entra numa competição com outros 63 adversários, da qual só sairá um vencedor. Os demais vão ter que buscar algum outro motivo para fazer valer a pena a participação. E o motivo, tão-somente, é competir. É participar do processo. Nessa cultura pop mastigada onde tudo já deve estar pronto, claro, rotulado, definido, estático, onde tudo tem nome, onde se está alegre ou triste, doente ou sadio, onde se quer ir pro cinema ou ficar em casa, onde se é caseiro ou baladeiro, as pessoas terminam perdendo o foco de que o prazer está no processo de construção, no que tá incompleto. O que já está pronto não tem pra onde mudar. O que é perfeito não pode evoluir. É como terminar um quebra-cabeça... de que vale um quebra-cabeça montado?


Essa necessidade de postar sempre algo bom fazia com que eu me repreendesse bastante antes de publicar algumas coisas, e isso se refletiu, naturalmente, no distanciamento entre os textos expostos, em geral postando somente uma vez por semana. Só agora percebo o quanto isso me desagrada como leitor. Blog não é livro, não preciso me policiar. Afinal, não to querendo ser melhor que ninguém [talvez até esteja, mas isso é - acreditem - algo inconsciente]. No fim das contas, o que a gente tem de interessante é o que a gente tem de errado. Fazer certo, bem-feito, tem um monte de pessoas por aí que faz, e lá atrás na História, tem outros que fizeram ainda melhor. Quer ler contos de altíssima qualidade? Procura um Machado de Assis, tá fazendo o que no meu blog? O que quero dizer, enfim, é que a graça já não tá em tentar fazer sempre a coisa certa... e sim em se permitir errar. Não é questão de ser algo mal-feito, e sim de algo que está inerente a nós, uma particularidade inevitável do nosso tempo, onde todo mundo tá sempre tentando ser perfeito em tudo. Eu demorei pra sacar essa estranha idéia, entretanto agora percebo que, se todos tentam seguir pela rodovia principal, ela termina ficando congestionada, e a melhor opção passa a ser a ciclovia. É por este caminho que eu seguirei daqui por diante.

sábado, 20 de outubro de 2007

Patrão sem empregado

"Estude para ser senhor do seu destino", foi o que disseram àquele menino - palavras que ele mastigou bem, e delas se lembraria durante o resto da vida. Estudou, concluiu os ensinos regulares, era um jovem médio, sem grandes problemas e com um mundo pela frente. Todo fim-de-semana ia à sua igrejinha professar sua religião e receber abençoados votos de felicidades. Virou um assalariado. Destacado, convenhamos. Quem sabe, até com reais possibilidades de crescimento onde trabalhava. Trabalhou durante algum tempo na área de produção, mas não se sentia bem em saber que hierarquicamente existiam outras vidas sobre ele, dentro da empresa. Decidiu jogar tudo pro alto. Estava longe de passar necessidades, pelo contrário... já ocupava postos desejados por muitos. Mas achou que tudo aquilo não pagava o preço de ser dono de seu próprio trabalho, "patrão de si mesmo". Danou-se a ler livros de negócios, conhecia toda a bibliografia dos milionários, decorou chavões comuns a empresários iniciantes, fez de tudo! Até que, com a grana acumulada durante o primeiro trabalho e com a venda de alguns artigos, abriu seu próprio negócio.

No início, foi até complicado. Mas ele sabia que tudo ia melhorar - "o único lugar em que o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário", era seu lema. Lema já muito batido, é verdade... mas ele não estava nem aí pra isso. Orgulhava-se de ter o próprio empreendimento, mas sobretudo da idéia de não ter patrão. Trabalhava duro, todas as horas possíveis, em todas as funções. Não tinha empregados... achava que o ideal seria somente gastar o necessário. Empregados seriam gastos supérfluos. Passou a rezar em casa, o tempo de ir à Igreja diminuíra. Ganhou uma grana boa depois da fase difícil. Só parava de trabalhar para refeições, e, boa-pinta como era, rodeado de pessoas, decretava um feriado para cada aniversário de um amigo, para ficar livre e aproveitar o momento. Comprava novos equipamentos pro seu pequeno negócio, assinava novas revistas trademark, procurava cada vez mais fazer crescer sua empresinha. Gastar com lazer? Nem pensar... sua receita, por maior que fosse, era sempre insuficiente às despesas que tinha com o próprio trabalho. Não podia ficar perdendo dinheiro com amenidades. Passou a não trabalhar somente nos domingos, dizia já ser tempo de sobra para matar com amigos e parentes. Almoçava na mesma escrivaninha em que fazia seu serviço, pela falta de tempo. Depois de muito assistir jornais e televisão, ouviu falar numa tal flexibilização de leis trabalhistas. Ele não tinha funcionários a quem respeitar direitos, mas fez questão de implantar a dita "flexibilização" em sua empresa. Não podia ficar de fora do showbizz patronal! Flexibilizou os próprios direitos. Decidiu que trabalharia o máximo de tempo possível, para obter todo o lucro alcançável! Não havia limites para ganhos (?)! Já não almoçava mais... deixava pra comer na hora de ir ao banheiro. Ao menos fazia tudo logo de uma vez. Também não rezava mais; não tinha tempo que pudesse ser dedicado a qualquer outra ocupação! "Minha religião à o lucro", dizia aos amigos - aos poucos que ainda apacientavam-se e conversavam com ele. Mas logos estes também minaram-se. Virou um empregado de si mesmo. Aliás, ainda pior: virou empregado de um patrão que não existe! Sem amigos, sem religião, sem sequer um abastecimento suficiente de comida... assim se deu, até o fim.

Viveu mais que os amigos, mas ao mesmo tempo menos que todos eles. Não foi ao funeral de ninguém. Não se lembrava de nenhum nome nos porta-retratos. Quando enfim morreu, não sangrou. No seu corpo corrompido, já não havia mais sinal de nada que fosse humano.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Vozes e Visões

São quase 4h da manhã no momento em que acordo... nem me lembro direito as circunstâncias em que dormi, mas ao despertar percebo que não me são totalmente estranhas - televisão, computador e luzes ligadas, copo de café mal-acabado do lado da cama, um nervosismo exacerbado, próprio de quem acorda e pensa estar atrasado para um compromisso... na TV, parlamentares estão se digladiando em alto som.. procuro o controle remoto, enquanto os discursos inflamados não se propalam pra mim sob uma forma lógica do tempo-espaço... só o que ouço são berros horrorosos e desorganizados, demonstrações de ódio sem começo nem fim, caretas e outros artifícios sádicos utilizados por quem tenta impressionar alguém por meio das palavras... mas que palavras, onde elas estão?

Desligo a TV, mas as vozes agitadas elevam-se em minha cabeça... continuo me sentindo num grande salão de dança onde todos os pares, ao invés de dançar, reclamam e difamam uns aos outros... céus, fico me perguntando o que foi que fiz para merecer este tormento, onde eu estava, acaso eu não conseguia perceber que tudo eram apenas vozes da minha cabeça?!? Começo a chorar porque sinto-me como um homem que se vê sem os braços e sem as pernas, ou apenas como uma criança que acredita ter visto um monstro dentro do armário, cuja mãe não está por perto para ajudar. Minha mãe também não está por perto; decerto ela é, inclusive, mais uma das vozes que se agonizam torturadas e aflitas dentro da minha mente... não tenho a quem pedir ajuda neste salão de ira, desprezo e repulsa no qual me sinto como se estivesse plantado... não tenho par... e não vejo a saída... apago as luzes, porém minha vista fica ainda mais ofuscada... o que antes iluminava a todo meu quarto, sinto agora como se fosse uma mira de raio-laser diretamente em meus olhos... procuro ver ao meu redor, mas pouco ou nada é o que consigo discernir, tudo são clarões, flashs e pessoas apontando dedos entre si, alguns desses dedos até apontados para mim... tapo meus ouvidos com força e só o que ouço são vozes cada vez mais amarguradas, num som cada vez mais intenso, mais intenso, muito, muito mais... reconheço-me em meu quarto e decido que nem pensarei em sair de casa quando o dia já estiver claro e chamativo, desligo computador, celular e qualquer coisa que possa me fazer ter contato com pessoas declinadas ou corruptoras, mas isso apenas me deixa com a apreensão de que estou ainda mais vulnerável, como se estivesse no centro de uma arena, na qual todas as pessoas das arquibancadas estivessem prontas, ao primeiro sinal verde, para me presentearem com uma rajada de metralhadora! Deito-me na cama e isso mais me faz sentir vontade de correr, de ir para algum lugar que não seja aqui... no lençol umedecido pelas minhas lágrimas, sinto um pouquinho de conforto neste inferno em que me sinto posto... tento adormecer por crer que é o último recurso que me resta - quem sabe, quando eu acordar a próxima vez, estes demônios não mais estarão aqui? Quem sabe? Não custa tentar...

Foi um dos piores pesadelos da minha vida.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Postagem sobre uma experiência circulatória

– Você não conseguirá. Nem adianta tentar - foi o que me disse um amigo.

– Pensa que não? Por quê? Deixe de besteira...

– Que besteira, Leon? São 3000 peças! Além do mais, você já tá bem grandinho pra brincar de quebra-cabeça, não acha?

– Tem razão - lhe respondi. Mas mesmo assim comprei o jogo. Suas palavras continuavam a repercutir na minha cabeça agora que eu estava solitário com aquele monte de pequenas peças jogadas no assoalho de meu quarto. Já tinha me livrado da capa do desenho, que nem cheguei a ver direito, só para ter o prazer de descobrí-lo no decorrer da montagem. Obviamente, não conseguiria fazer tudo no mesmo instante, era meia noite, logo iria dormir, mas o deixaria aí, sob meus pés, até vê-lo concluído.

Liberdade! Era nisso em que eu pensava quando me ajoelhei no chão como moleque para a primeira noite, garrafa de vinho barato do lado, um classic rock a ecoar no cômodo com seus solos intermináveis que me são uma fonte de paz. As primeiras peças são apenas serviçais de minha pretensa criatividade... vou juntando-as sem muitos critérios, com um arrogante sorriso de todo-poderoso. De início já me saciava o simples fato de estar ali brincando. Já tinha me decidido a não dormir aquela noite - eu andava dormindo tão pouco mesmo. Um quebra-cabeças, em sua lentidão e paragens, é espaço para muitas reflexões, e enquanto jogava, a cada intervalo, eu tomava alguns tragos e pensava nos tolos planos para o dia seguinte, assim que o maçante Sol começasse a iluminar os céus.

Engana-se quem pensa que quebra-cabeça é só mais um jogo igual a qualquer outro. Este, meus amigos, mobiliza a pessoa para o propósito de concluí-lo, prende sua atenção. Quando dei por mim, o despertador já alarmava longamente – meu despertador estava marcado para as onze da manhã! Foram quase doze horas ininterruptas ali sentado, e – que energúmeno eu sou – não tinha feito quase nada. Qual não foi a minha decepção... em verdade, fiquei com mais raiva que decepção. Pensei a bobeira que cometi em ter brincado de jogar peças ao invés de estar montando alguma figura imponente que deveria representar a obra final!

Todos que me viram no dia em questão acharam estranho meu comportamento: estava afobado, impaciente, além da cara de sono e dos olhos sofridamente abertos. Eu estava mesmo era pensando em voltar para casa o quanto antes e continuar a montar o troço! E assim, foi: logo que cheguei em casa, fui tomado de uma repentina disposição, e senti que dali por diante as coisas avançariam. Ao vinho, prefiro a boa e velha cafeína, já que queria me manter mais desperto que embriagado. A montagem de peças seguia num ritmo sensacional, e podia perceber o que já surgia timidamente: dedos, copos, aparentes prédios distantes. Algo como uma paisagem qualquer num dia ensolarado. Não me lembrava de ter comprado algo tão alegre. Talvez eu não tivesse visto a capa do desenho, o que era bom. Talvez nem tão bom - a última coisa que eu queria, ao final do quebra-cabeças, era ver o rosto de uma criança sorridente brincando num parque. Os pensamentos iam correndo na minha mente enquanto eu movia as peças. A luz do dia já se prenunciava, clareando os ninhos de pardais do telhado empoeirado, e eu percebia a primeira figura completa do jogo: um cigarro, numa mão feminina com unhas cuidadosamente esmaltadas em vermelho. Aquilo me incomodou profundamente. Detesto cigarros. Evoluí um bocado no que tange à quantidade do jogo. Mas me sentia muito insatisfeito com o resultado parcial. Saí, tinha um compromisso, afinal. Um outro amigo não compreendeu bem meu caso.

– Somos dois os que passamos a noite na farra? he!he!he!

– Prisioneiros, é o que somos. A única coisa que temos em comum. Mas cada um em seu cenário..

Não me bateu mais o gosto de continuar aquele jogo. Quando cheguei em casa, joguei-me na cama e lá tive um sono de 14 horas. Suficiente para me perguntar, ao acordar, o que aquele jogo estava fazendo ali no chão. Mas eu o mantive lá por dias. Dias, dias, dias. Inalterado. Ao passar por ali - era meio caminho entre este computador e a TV, a minha poltrona preferida, o banheiro, etc - eu dava um salto. Estava cansado de saltar. Mas por nada eu destruiria o pouco que tinha feito no jogo. Então, decidi continuar. Com muito mais calma, com duração controlada, sem bebidas nem nada. Separei duas horas por dia para me dedicar ao jogo, e, quatro dias depois, senti que estava evoluindo rapidamente. Percebia lábios, olhos e uma pele clara e resplandecente na figura. Sentia-me bem melhor, prestativo, mais disposto. Em casa, estava inspirado para escrever, ler, para ter idéias, voltar a ouvir música deitado na cama, só pelo prazer de ouvir música. Já não passava noites em claro bebendo como um maluco insone. Foi a fase em que mais produzi, seja em estudo, trabalho, relações, seja no aspecto pessoal. Havia algum combustível invisível.

Há algum tempo eu percebi que o quebra-cabeças ia chegando ao fim. No total, creio que contavam uns quinze dias de seu começo perturbadíssimo até o momento atual, em que eu já nem me reconhecia de tanta hiper-atividade! E cada vez que chegava mais perto do fim, eu mais me empolgava comigo mesmo! Diariamente comprava sanduíches ou pizzas e refrigerantes para comer enquanto jogava! Chamava amigos para batermos um papo e mostrar-lhes como eu tinha evoluído! Chamava garotas para issos e aquilos - mas é claro que o que eu queria é que elas vissem o meu belo trabalho! Na última noite, só me faltava uma maldita máquina fotográfica para registrar o momento! A única que tive, vendi no tempo de vacas magras. Mas já bastava a minha satisfação pessoal. Quando cheguei da faculdade, vi que faltavam poucas peças, em questão de meia hora eu a terminaria, enfim! Faltavam 50 peças, 30 peças, 10 peças, uma peça...

Vitória! Levantei-me, silenciosamente, pus-me diante do meu amigo espelho e pensei como eu devia estar orgulhoso de mim mesmo. E estava, obviamente. Tinha vencido mais um obstáculo. Olhei para o chão, a figura montada – uma mulher fumando cabisbaixa com um exagerado batom vermelho num desses cafés ao meio-dia – e o estrago que eu tinha feito no quarto, com cama e estante afastados, um espaço sujo e pouco cuidado naquele tempo. Começava a perceber que o quebra-cabeça montado já não atraía tanto minha atenção, e sim o que estava à sua volta. Estive produtivo e alegre enquanto o montava, mas se tratava mais de uma reação interior esquizofrênica do que exatamente de um conjunto de fatores. Estava cego a todo o resto. Só então percebi o porquê das reações negativas dos amigos e das garotas que eu recebia; e eu não entendia essas reações! Lembrei-me das horríveis sensações de infância quando concluía esses jogos... as sensações de que não havia mais para onde ir. Para que serve um quebra-cabeça montado? Não há mesmo saída. Juntei todas as peças, pus numa caixa com o rabisco "isto é um quebra-cabeça" e joguei na rua para que o primeiro lixeiro – ou a primeira criança sem sorte – o pegasse. Abri uma garrafa de vinho barato, acionei um classic rock e decidi que não dormiria mais aquela noite.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Sob suor e curativos

O telefone tocou quebrando o silêncio e me lembrando que eu não estava só no mundo. Da minha posição, sentado à poltrona da sala, nem precisava virar o rosto para vê-lo. Observava-o, de seus sons a suas luzes piscantes, me informando que alguém, conhecido ou desconhecido, em algum lugar, estava à minha procura.

Levantei-me com dificuldades. Estava com a perna esquerda envolvida por gesso. Estava com curativos no braço e no rosto. Tinha sofrido um acidente, aquele dia. Estava, ainda, tonto. Minha cabeça girava. Quando cheguei em casa, já era noite. Na sala, sentei e liguei a TV. Os atores, seus zumbidos, palavras incompreensíveis e risadas injustificadas me deram dor-de-cabeça e tornei a desligá-la. Queria ir para a cama dormir, mas algo me mantinha preso à cadeira. Agora tentava, cambaleantemente, fazendo caretas e apoiado na parede, chegar ao telefone, que ainda tocava com intensidade.

- Sim?

- Boa noite, posso falar com o senhor Leon Karlos? - disse uma garota.

- Alguma novidade?

Não havia novidades. Era mais uma cobrança. Eu me lembrei que estou endividado, dos cartões de crédito à conta nos bares e mercearias do bairro vizinho. A garota de voz doce só veio me lembrar que eu não tinha direito ao sossego enquanto não pagasse.

- Então, quando pagará?

- Se eu lhe disser que pagarei, boneca, estarei mentindo.

- Senhor, é preciso...

- Você não me oferece alternativa, então eu tomarei a liberdade de pensar em alguma.

- Se o senhor não pagar, precisaremos tomar as providências cabíveis...

- Boa noite, senhorita.

Desliguei o telefone. Estava-lhe virando as costas, quando tocou de novo. Atendi friamente.

- Sim?

- Por que você fez isso? Aliás, aliás, aliás... por que você NÃO fez?! - era uma outra voz, tão feminina quanto, porém muito mais descontrolada.

- Dê-me um tempo... isso o quê?

- Ligar! Por que você não me ligou? Acha que sou o quê?

(suspiro meu...)

- Tem idéia de como fica minha cabeça?? Sabe, depois que...

- Preciso desligar! - interrompi.

Desliguei e tirei o fio da tomada. O telefone tocaria à vontade. Eu não estava para delongas. Com muitas dificuldades, voltei ao lugar onde estava minimamente aconchegado. Além do corpo machucado de um repentino acidente de moto, não me bastavam os tormentos de cobranças na cabeça, e a lembrança de que pessoas estavam à beira do suicídio por minha causa. Tentava esquecer tais tolices, mas continuava a não ter paz. Naquele ambiente escuro e abafado, eu mal conseguia respirar. O suor me descia pela testa. Não adiantava fechar os olhos, pois tudo se tornava muito mais claro e ofuscante.

Estava com sede, mas há dias não havia água em casa. Estava com fome, mas o pão que restava eu deixaria para comer na manhã seguinte. Meus lábios tremiam, meus dentes trincavam. Peguei no bolso uma cartela de comprimidos e tomei um, dois, tomei logo todos, de uma vez. De meu olhar marejado, eu só visualizava os pés titubeantes do sofá sobre um piso ondeado.

Percebi, a partir de mim mesmo, o quão o humano é frágil, suscetível a doenças, acidentes, envelhecimento, descuido e uma infinidade de inquietações emocionais e psicogênicas. E que essas coisas o acompanham durante toda a vida... que deprimente existência a deste ser que sabe que sabe!

Também pensei que, mesmo com todas as pragas e aflições como acompanhante principal, ainda assim vivemos tanto. Anos, décadas! É quase um milagre... é algo... inexplicável.

O ser humano é mesmo o mais forte de todos.

domingo, 9 de setembro de 2007

Alegoria de um narcisista

Eu não me lembro de quando comprei meu primeiro relógio. Não me lembro de quando comprei a TV. Não me lembro da primeira assinatura de revista ou jornal que fiz. Também vejo meus livros, discos, filmes, e não me lembro da circunstância em que adquiri a maioria deles. Mas duma coisa eu me lembro: de quando comprei o meu primeiro espelho.

Naturalmente, não era minha intenção: só deve sair de casa pensando em comprar um espelho alguém que realmente não consegue visualizar nada melhor para fazer. Eu estava somente caminhando, para algum não-lugar, como sempre. Até que, em dado instante, eu vi – ou me vi, não sei bem! Meu olhar foi preso de bate-pronto! O fato que estava colocado é que eu não podia deixar ali aquela magnífica obra. Não era grande, devia ter algo como um metro de altura. Mas era destacável! Sua moldura não era imponente, mas tinha um estilo modernizado, em madeira de mesclas douradas e escuras. A superfície do espelho suavizava a visão. Evito ser compulsivo quando se trata de comércio, mas desta vez o fui: comprei no mesmo instante.

Eu o pus no meu quarto. Estava há tempos sem espelho. Talvez por isso não reagi ao impulso de adquirí-lo. O último que tive eu quebrei, não me lembro como. Entretanto, depois de comprado este espelho, eu demoraria a me interessar por outro. Para mim, já bastava um no quarto. Pois um outro espelho no mesmo ambiente geraria em mim a perturbadora impressão de que havia mais pessoas no cômodo. E uma das muitas coisas que me assustam são esses vultos. Não os vultos de mendigos e delinqüentes, perceptíveis por trás das árvores e postes quando se caminha na madrugada. Mas me refiro a outros vultos – os que me impressionam no espelho. Estes, sim. Seres estranhos, esses que vivem dentro de nossas cabeças. São os mais perigosos.

Quando olho para o espelho, afinal, não procuro mais de uma pessoa.

Enfim, apliquei o espelho ao lado direito da cama, que fica no centro do cômodo. Esteticamente não era um bom lugar para pô-lo, mas fui mais levado pela minha pragmática conveniência: é para o lado direito que sempre me levanto, ao acordar. Tal ritual passou a ser diário; assim que despertava, eu punha-me a sentar e olhava para ele, em silêncio, durante... uns quinze minutos.

Depois buscaria um café, um pão, um biscoito, qualquer coisa. E voltava para comer ali, sentado na cama, olhando para aquele majestoso espelho. Ah, nada como aquele espelho para me fazer tão bem...

Passou a ser assim todos os dias, invariavelmente.

O espelho tornou-se, então, parte de mim. Matei ali mais da metade do tempo que me era permitido. Era através dele que eu percebia a verdadeira face exposta em mim mesmo, no cômodo, na aparente cor do dia. Não fosse o espelho, eu não saberia a hora certa de tirar a barba, de dormir, de rir, de ficar sério. Não fosse, eu não perceberia, a partir da própria imagem do meu quarto, que as coisas precisavam ser mudadas. Estava perdendo o foco de como a beleza de tudo está na mudança. No início uma obsessão, o espelho tornou-se, no fim das contas, a expressão do olhar que eu tinha sobre minha própria vida. E eu, que já quebrara um espelho, sabia que este representava uma segunda e última chance de colocar a vida nos trilhos.

Hoje, por mais que esteja empoeirada e sua estrutura esteja caquética, esta porcaria risível ainda ocupa espaço central no meu quarto.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Somos os filhos do meio da História.
Sem qualquer objetivo ou lugar.

Não tivemos uma Grande Guerra
como a dos anos 1910 ou a dos anos 1940.

Não tivemos uma Grande Depressão
como aquela da Crise de 1929.

A nossa Grande Guerra é Espiritual.
A nossa Grande Depressão são nossas vidas.

Tyler Durden, no filme Clube da Luta.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

JOGADOR ESPANHOL MORRE VÍTIMA DE FALÊNCIA MÚTIPLA DOS ÓRGÃOS APÓS DESMAIAR EM CAMPO

"Foi um choque brutal para mim quando soube.
Não entendo como o coração de uma pessoa tão sadia como
um atleta que treina diariamente
possa falhar.
Sinto uma grande dor pelo falecimento de Puerta.
Era um garoto alegre, uma pessoa muito boa.
Atuei com ele quase um ano, todos gostavam muito dele.
Era um grande jogador."
Júlio Baptista - jogador do Real Madrid

hum...


Um atleta que treina diariamente...
será que ninguém percebe a razão do problema?

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Uma inquietante viagem de táxi pela madrugada

As duas baratas roendo o banco do carro normalmente seria algo que me deixaria embaraçado ao notar, mas pouco chamou a minha atenção na última vez em que tomei uma viagem de táxi. Isto porque o que eu mais queria, que era tão-somente aconchegar-me na poltrona de casa e beber até dormir, parecia o fator mais inalcançável aquela madrugada.

Lembro-me que quando sentei no banco, falei para o motorista: "toca pra BR-101!" De onde eu estava, à beira da estação ferroviária da Cidade Baixa, chegar à BR-101 de táxi, eu sabia, comeria uns bons trocados. Porém, eram 3h da manhã, os ônibus demorariam a aparecer e não haveria trem naquele dia. Um táxi, uma vez na vida, não faria mal. O motorista nada disse, apenas abriu caminho entre os largos do Centro. Eu estava sentado no banco traseiro, muito deteriorado, com uma gosma já meio endurecida no encosto, como de alguém que tivesse posto algo pra fora ali. O mal cheiro consumia o ambiente. Havia algo como uma cortina fechando minha visão pro lado da frente (nem de longe lembrava uma limusine; era um Corsa já a cair os pedaços). Querendo me esquecer de que estava num concentrado de fezes e vômito, puxei conversa, de modo não muito simpático, é lógico:

- O que me parece é que seu carro tá meio acabado, não acha irmão?

- Não sou teu irmão, guri.

- Tá, e o que me diz do que eu acho?

- Não me importa o que você acha. É desconto que você quer? Vá se danar! Ou se cala ou paro o carro e te deixo aqui mesmo!

Eu não queria confusão, apesar de estar meio cabeça-quente à hora. Também não queria ficar ao relento mais tempo do que já passara naquela madrugada que chegava ao fim. Mas meio sem saber o que fazia, eu lhe perguntei:

- Você dorme neste antro, não é?

- Tá me provocando, guri?

- Qual é, velho? Vai me negar tua natureza?!

O motorista parou o táxi e me mandou descer. Eu disse, é claro, que não desceria. Cheguei a ameaçá-lo: "ou você me leva ao meu destino ou vai se dar mal..." mas eu também não assustava ninguém, naquele momento. Falei, então, que só sairia dali se fosse obrigado.

- Tá bem guri, não fique exaltado. Acho que tem algo pra você aí onde você tá sentado, tome uma dose e cale sua boca. - Foi o que me disse, mudando o tom e oferecendo o litrinho que já se escondia no estofado rasgado do banco. Não restava, no pote, destilado suficiente para mais que três goles. Apesar de eu estar com uma vontade enorme de beber ou comer qualquer coisa, recusei a oferta. O rótulo já demonstrava pequenas ranhuras, fáceis de deduzir que seriam das baratas ou dos camundongos que deviam viver por ali. Além de o gargalo estar trincado, parecia também bem sujo. Nitidamente, era de algum cliente anterior, que provavelmente teria voltado a beber depois de vomitar todo o carro.

A viagem seguia e o motorista não parecia apressado. Pude ver que não era culpa dele; realmente o pretenso veículo não tinha condições de ir mais rápido. Devíamos estar a uns 40km/h. Àquela hora da madrugada, eu faria o trajeto em 10min com um carro. Nós estávamos há 15min e nem metade do caminho feito. Com tom mais benevolente, o motorista agora puxava conversa:

- Então, guri... o que faz nas ruas a essa hora? Você faz programa no Centro?

- Cala a boca, rapaz...

- Aprenda a respeitar quem veio antes de você, moleque. Sabia que eu posso ser você amanhã?

- Eu não acredito, coroa. Parecemos bem diferentes.

- Por que acha?

- Sabe de uma coisa? Você me convenceu a nunca mais pegar um táxi novamente!

O motorista parou o carro. Eu silenciei, e esperava mais alguma asneira, ou um novo convite para me retirar.

- Você anda de mal com a simpatia, guri?

- Nunca andamos juntos às 3h da manhã.

- Aprenda a viver e isso vai mudar, moleque.

- É você o modelo de quem sabe viver, chofer? A imagem que tenho de sua figura aí do outro lado da cortina é a de um velho pálido, doente, virgem e sem ambições.

O motorista gargalhou violentamente. Finalmente, disse: - não sou velho, nem doente, nem muito menos virgem. De resto, é verdade.

Dito isso, voltou a tomar o rumo, até chegar ao destino apontado por mim. Não soltou mais um pio sequer. Com o carro parado, mantive-me sentado no banco de trás esperando ele abrir a cortina para pegar o dinheiro e eu ver-lhe a cara lisa.

- Tá aqui tua grana, velho.

Ele girou a cortina e pegou o dinheiro. Olhei para ele, porém estava muito escuro e a sombra me impedia de ver o seu rosto. Estranhamente, quando ele pegou as duas notas de minha mão, levou-as diretamente à boca, mastigou, engoliu e permaneceu a me encarar. Embora eu não pudesse perceber nem seu olhar nem ruga alguma no seu rosto, sabia que me cravava fixamente.

Na sua imobilidade, senti o incômodo de minha própria presença. E era a minha presença que quebrava a harmonia naquele ambiente. Um ambiente grotesco, propriedade de mais um personagem da noite, que seja. Percebi a minha condição, de um jovem aventureiro que não sabe das coisas, e que usa o mundo dos outros como subterfúgio. O motorista estava errado; eu não estava fadado a ser como ele no futuro. Na prática, eu não valia sequer mais que as baratas, que matavam o tempo alimentando-se do excremento e do resto de seus clientes.

sábado, 18 de agosto de 2007

O dia em que vida e morte se misturaram numa mesma vagina

Eu realmente não acreditei no que vi quando aquela garota arriou a saia. De pronto, só pude berrar: "que droga, será que não existe uma porra duma garota saudável nesse bordel?" Dava-me saudades das garotinhas branquinhas da escola... pelo menos da época em que eu ia pra escola pensando nas garotas, e não pensando em movimento estudantil, ou onde ia beber depois da aula, ou em chegar logo em casa pra me livrar dos sons de outras vozes perturbadas e sempre preocupadas com alguma coisa!

Apesar de os prostíbulos hoje serem amaldiçoados até por quase todos os homens (como isso foi acontecer?), eu sempre respeitei muito esses ambientes, que estão presentes em todos os lugares, em todos os tempos. Certamente, foi nesses tais cantos que as grandes decisões que mudaram o rumo da História foram mudados. Agora, obviamente, que isso aconteceu nos grandes bordéis: eu, contudo, sempre freqüentei puteiros de quinta, embora eles estejam se "modernizando": neles, por exemplo, nenhuma puta trepa sem camisinha hoje em dia.

De fato, fazia muito tempo que eu não tomava tragos duma rapariga. Até que, dia desses, decidi que faria isso num bordelzinho ali no Alecrim, porém antes estava bebendo com colegas num cemitério, o principal da zona, num antigo ritual post meridiem. Meus amigos estavam sentados em fila, cada um num túmulo diferente. Eu fiquei indignado com aquilo:

- Pô, vocês não respeitam nem morto, meu?

- Qual'é, Leon? Tu vai sentar aonde? Vai pedir mesa pra Deus, por acaso?

Não me restou nada a não ser sentar-me em outro, também. Porém, não sem antes saber onde eu ia pôr a bunda. No primeiro túmulo, achei que coincidentemente era de outro Leon, porém lendo melhor, percebi que se chamava Leôncio. Não havia nenhuma referência além de sua data de nascimento e de morte. No túmulo do lado eu vi uma foto de uma garota falecida aos dezesseis anos. No retrato parcamente colorido, ela estava de vestidinho tomara-que-caia, tinha pele alva e levemente rosada, vastos cabelos louros, olhos pequenos, narizinho empinado e um sorriso tímido e encabulado. Não sei que sensibilidade tem uma família que coloca uma foto sorridente no túmulo duma adolescente morta. Mas vai entender... vai ver todas as fotos disponíveis expunham sorrisos, como parece ser regra.

Entretanto, como eu nunca fui espectrófilo nem nada, meu encantamento pela garota minou-se no momento em que me ofereceram outra dose. Eu logo me deitaria no túmulo, e, junto da rapaziada, conversaria ainda durante mais umas duas horas. Só depois que todos os litros e todos os assuntos do dia terminaram, ofereci a idéia de matarmos o resto das horas na choperia mais próxima. Ninguém topou, e todos foram-se embora. Mas eu decidi dar uma passada na dita choperia, que era mais do que uma simples choperia, era um cabaré.

Lá, eu somente pedi uma cerveja. Como de costume, ia sentar e observar o que o ambiente oferecia. As mulheres eram de péssima qualidade, até mesmo para um bêbado como eu e os muitos outros que estavam em suas mesas. No entanto, quando passou uma guria pequena e loura, e sorriu meio envergonhada para cada cara em suas mesas, logo me veio à mente a defunta do cemitério! Vi um rosto morto na imagem da putana que passava, e decerto trabalhava há pouco tempo no local, vide pelo fato de não ser tão acabada quanto as outras. Quando ela passou diante de mim, puxei-a pelo braço e a fiz sentar no meu colo. Ela fez queixa, porém logo daria seu preço e me levaria para algum quarto. Viramos três cortinas até achar algum disponível, mas assim que entramos, ela não hesitou em me acariciar e dar o trato que por certo lhe ensinaram muito bem, embora retardasse em tirar suas poucas vestimentas completamente. Até que eu, já meio agressivo, perguntei qual era a dela, se não fazia o serviço completo.

- Meu, isso é que dá colocar virgem pra trabalhar... - reclamei.

- Calma...

De qualquer forma, ela sabia que teria que tirar, apesar de toda cerimônia. Todavia, quando baixou a saia, senti o asco exposto na primeira linha desta narração. Perguntava a mim mesmo ou a quem quisesse responder em voz alta qual a origem daquele estrago! Certamente, ela já protagonizara barracos maiores de outros clientes. Durante minutos, mantive meus olhos arregalados, enxuguei o suor de minha testa e tapei minha boca, que depois da gritaria inicial, manteve-se aberta denotando meu ar de espanto. Sua vulva parecia estraçalhada, eu não conseguia distinguir local de entrada/saída de nada naquele congestionamento anatômico de sangue e pregas.

- Meu pai deu um tiro na minha vagina, quando descobriu que eu não era mais virgem. É claro que nunca cicatrizou perfeitamente. Ele, depois, me expulsou de casa, então eu tive...

- Tá, não precisa contar mais!

Eu não tava afim de ouvir histórias sensíveis. Não naquela hora. Em qualquer outro momento. Na hora da foda, não! Tava a fim de esquecer rapidamente o ridículo que foi o dia em que uma defunta me chamou a atenção e decidi que ia para casa dormir. Saquei logo da grana e deixei em cima do balcão, vesti logo minha bermuda, sem cueca nem nada, queria sair dali o quanto antes.

- É sempre assim que se comportam comigo! - ela gritou, por fim.

- A vida é injusta, minha filha! - respondi de bate-pronto. "Só não é injusta a meu favor", foi o que pensei quando mexi na carteira e percebi que toda minha grana tinha ido embora nessa peripécia grotesca.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Novo espaço

Esta postagem marca o nascimento deste blog. Todas as postagens anteriores são importadas de uma outra página que eu mantinha, o Nada Pra Dizer. Abaixo, o texto original de abertura:




Mudo desta vez mais por questão de qualidade... enquanto nos outros casos, valia mais a idéia de recomeçar. Não queria fazer deste blog um recomeço, eu ia até importar textos do EternaProcura pra cá, mas o Blogger não oferece este serviço. Sem problemas. Ocasionalmente, irei republicando alguns textos destacados lá.

Além de tudo, a entonação maníaco-depressiva que se via no último blog provavelmente não perderá espaço. Eu mudei, mas penso mudei para continuar o mesmo. E isso está além de uma escolha.

Enfim, esse blog, a partir do seu nome, já deixa clara a tendência pela literatura, pela imaginação, que hei de priorizar daqui pra frente. O que não me impedirá, obviamente, de opinar acerca do caos em que anda o mundo, e das glórias que o meu querido time ABC tem conquistado.

Mais que suficiente para uma primeira postagem. Boa travessia.

sábado, 28 de julho de 2007

Apenas mais um teórico do caos

Estava organizando uma papelada antiga no meu quarto e encontrei um texto que havia guardado ainda quando fazia o ensino médio, que se chama Mude, da Clarice Lispector. Textinho bem conhecido, por sinal. E que busca, à sua maneira, encorajar o leitor a tentar ares novos, no início com certa sutileza (... procure andar do outro lado da rua...) para depois partir para mudanças mais profundas, e fiquei divagando sobre o quanto estamos presos à macro-estrutura, ao caminho mais fácil. A simples idéia de passarmos anos de nossas vidas fazendo a mesma coisa, seja trabalhando num determinado turno diariamente, estudando num modelo educacional fracassado e ineficiente, votando periodicamente no político mais honesto, etc. parece claramente absurda; porém ninguém pára para pensar nela. Poucos param e analisam o que estão a fazer de sua vida. Alguns mais raros buscam fugir às convenções a que estamos acorrentados... estes, porém, não são levadas a sério.

Obviamente que buscar quebrar os paradigmas mais latentes de nossa sociedade não é tarefa fácil. Quem buscou, à sua maneira, ver um mundo novo - sejam hippies, esquerdistas, artistas, punks - voltou sempre ao ponto de partida, fazendo apenas número no suntuoso livro de excêntricos da história da Humanidade. Produz-se por aí a idéia de que a juventude anos 60 foi a última realmente militante, seja no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa, em qualquer lugar. Realmente, parece tão claro... afinal hoje não há hippies vivendo em comunidades tribais buscando alternativas ao mundo moderno, nem jovens franceses com cartazes exigindo Imaginação no Poder. Distribuem essa idéia numa masturbação mental os que viveram àquela época e nós que viemos depois, sem receber nada em troca, fazemos questão de disseminá-la - que há nessa popularização do jovem sessentista como militante e do jovem contemporâneo como conformado senão a pretensão de se degolar pela raiz qualquer possibilidade de ruptura às estruturas ideais dessa sociedade decadente? Eu não sei em que a geração 1960 era mais atuante que a de hoje, não percebo quais reações eles sofreram que não soframos outra pior - fala-se tanto em ditaduras, em guerras daquela época, mas ninguém esquece que o inimigo hoje é muito mais difícil de combater, pois ele é cor-de-rosa, disfarça-se de formador de opinião e idéias, nos exilam deletando-nos da mídia - estão escondidos em programas de TV tão distintos quanto Xuxa e Jornal Nacional, estão escondidos em livros didáticos que chamam os portugueses de 1500 de "conquistadores", estão escondidos no rosto da garota mais bonita da escola - que às vezes nem é a mais bonita, mas sabe-se lá o que faz alguém ser considerado mais bonito que os outros (e é justamente a isso que me refiro).

Que vivemos num mundo degenerado, não há dúvida; que a maioria se satisfaz em assistir documentários libertadores, em vestir-se de branco no reveillon num fetiche pacifista ou em tentar mudar o mundo via denúncias de pedófilos e racistas orkut também é de conhecimento de todos. Pensar em mudar o mundo na mão, hoje, é conversa de boteco, e até frases historicamente de impactos, como eu tenho direitos!, ganham teor humorístico. Este meu texto não é apenas mais um que tenta se tornar à parte aos que vivem esse cansaço dos dias de hoje, porque eu não estou criticando as pessoas conformistas (já tem gente demais fazendo isso), e sim a idéia de conformismo - sem muita profundidade, aliás, já que neste momento nem tento analisar quem estaria por trás disso. Enfim, trata-se aqui tão-somente de um comentário de quem tenta entender a falta de perspectivas - e sobre essas perspectivas não me refiro ao fim da fome, do desemprego, do capitalismo, de nada disso. Políticos corruptos, pessoas conformadas, serviços públicos mal-prestados... essas coisas são terrenas demais. Refiro-me, sim, a algo que vá além do que conhecemos conscientemente. Algo que não sei o que é. E que talvez só gerações muito adiantes à nossa consigam ter este insight.

Assim como o sapiens sacou, bem lá atrás, nos momentos de sufoco que a imaginação era muito mais importante que a força para vencer os Neandertais, é preciso que o homem futuro também acorde à mesma maneira - só que desta vez, se chegarmos a um sufoco maior do que o presente, provavelmente não haverá mais o que se reconstruir.