terça-feira, 17 de junho de 2008

A consagração

Eu prometi ao jornaleiro que passaria poucos minutos abrigado em sua banca; estava chovendo muito na ocasião, chuva que pegou a todos de surpresa, e eu estava com muitos papéis à mão, em geral provas de alunos, já muito molhadas. Corria à procura de qualquer abrigo, quando entrei naquela banca de jornal, cujo espaço era suficiente - se era - para aconchegar coisa de uma pessoa e meia... e olhe lá. Não à toa, o jornaleiro se irritou com o modo repentino como me aproximara, e, principalmente, com o fato de eu estar ensopado, o que rapidamente precisei mediar. Além de ensopado, porém, eu estava confuso e entristecido - pois certamente teria de refazer as avaliações com meus alunos, e, como não tinha tempo para tanto, já imaginava de antemão as dificuldades futuras. Logo estava pensando que essas coisas só acontecem comigo e contabilizando aquele dia como apenas mais um dia de azar em meio a uma vida ingloriosa. Apenas isso, nada mais.

Como o jornaleiro, no entanto, também estava aborrecido - um aborrecimento natural, expresso de forma educada até -, decidi me conter um pouco de minhas preocupações e comprar um jornal para não perder a visita. Visto que há tempos não assistia aos noticiários e raramente entrava em páginas de notícias na internet, então considerei que seria uma boa eu me atualizar diante das novidades correntes pelo mundo. Apanhei, então, um jornal local, o Tribuna do Norte. Embora eu estivesse folheando para comprá-lo em seguida, fiquei tão absorto com a leitura que terminei por ler praticamente tudo de relevante que a edição tinha para oferecer. Não adiantava mais comprar o mesmo jornal. Solicitei outro jornal da cidade, o Diário de Natal; mas as notícias internacionais eram as mesmas e as notícias locais eram somente variações para os paparicos à candidata de oposição à Prefeitura, e, por acaso, proprietária do jornal...

Tendo gostado do passatempo, mesmo depois de passada a chuva fiquei vendo outros jornais. Na seção de periódicos nacionais, folheei vários deles, desde o popularíssimo Estado de São Paulo até o literal Jornal Pequeno, do Maranhão. Mas a surpresa maior tive quando peguei o Correio da Bahia... O Correio da Bahia! Ainda no primeiro caderno, recheado de variedades de política, cultura e informações de interesse geral, qual não foi a minha surpresa quando, ao passar rápido dos olhos, tive a impressão de ler algo parecido com o meu nome. O meu nome! Como havia visto tão repentinamente, perdi na página o local que me chamou subitamente a atenção! Fiquei procurando na página com tamanha afobação que parecia estar procurando agulha no palheiro em meio a um bombardeio aéreo. Mas eis que encontrei novamente. Estava realmente lá: "Leon K. Nunes", com o Karlos abreviado e tudo. Era um conto enviado por mim há muito tempo atrás - na verdade, mandei mais de um conto, inclusive para muitos outros jornais de todo o país. Os meus desejos megalômanos de me tornar um cara lido e admirado por aí afora, sobretudo pelos desconhecidos, de me tornar um escritor cultuado, influenciador de mentes em territórios que eu sequer imaginava existir, impulsionava em mim o hábito de, sempre ao concluir um conto que eu considerasse merecer ser lido pelos demais, enviar, por e-mail ou de forma impressa, para revistas de literatura e jornais diários. É verdade que já tinha um blog, entretanto nada substitui o prazer de se ler algo sob a forma impressa. Em geral, as respostas recebidas enalteciam meus textos com elogios, mas desconsideravam a possibilidade de publicá-los. O próprio Correio já me negou diversos textos anteriormente!

Quando saí da banca, obviamente com o dito jornal embaixo do braço, fui direto a um cyber para entrar na internet e revirar minhas caixas de e-mails que eu tinha cadastrado como contato do jornal. De fato, havia alguns enviados pelo Correio da Bahia que sequer eu tinha aberto, certamente por pensar se tratarem de novas negativas. Quando enfim os li, eles traziam menções a três contos que eu lhes houvera enviado da última vez, ressaltando que descartariam um e publicariam os outros dois. A minha sensação, era natural, foi indescritível... foi como uma boa dose de café, um gozo, um choque de heroína... eu já não era um reles mortal!

Meu olhar ególatra, exagerado e ordinário, forçadamente me convencia de que eu estava em outro patamar. Claro, era apenas um texto num jornal estadual... Mas eu logo estaria presente em diários nacionais, publicando contos que renderiam primorosas coletâneas no futuro, quando eu já estaria consagrado após muitas e singulares publicações literárias! Quer ler meus livros? Oras, vá em qualquer biblioteca, procure meu sobrenome: N de Nunes. Estará lá, bem no lugar que lhe cabe: logo à direita do M de Machado de Assis, o maior de todos! Eis o futuro, amigos, pois assim estarei eu, que mesmo depois de carnalmente moribundo permanecerei influenciando escritores da minha geração e das que vierem posteriormente, e que hão de se tornar menos dementes e mais criativas com a bagagem adquirida através dos grandes escritores da Literatura Brasileira e Universal - e agora o meu nome estava entre eles!

Imponente e detentor de uma sensação de orgulho próprio poucas vezes experimentado, saí do cyber e após parca caminhada fui pego de surpresa por nova chuva que me molhou ainda mais que a anterior, estragando o restante das provas e, além delas, também o jornal. Tive de entrar numa lanchonete vagabunda e, aproveitando que era hora do almoço, solicitei um pequeno risole, desgastado e envelhecido, e um suco de laranja bastante mal-preparado. Para mim, pouco importava. Somente queria me sentar e reler mil vezes o meu conto exposto. Quando vi o jornal, contudo, foi que notei o quão ele havia sido igualmente assolado pela chuva - e meu texto, exposto já na segunda página, estava deveras manchado, quase ilegível. Decerto, aquele jornal já não me valia nada. Joguei-o na lixeira e, com ele, foi-se junto a minha mania de grandeza. Enquanto me esforçava para mastigar o risole, reconhecia a minha condição de escritor amador, afeito às lembranças de experiências vivenciadas que me vêm através do éter e da madrugada, estes meus parceiros na hora de produzir, e bem sabia o quanto estava longe de ser um grande, longe de ser um Imortal - era apenas um contista de algum lugarejo provinciano que sequer chegava a ser uma metrópole. Além disso, não passava de mais um membro dessa geração que é a mais agredida e subestimada de todas, mutilada de idéias e de imaginação, e que, por cinscunstâncias tantas, não produz mais que cópias do passado da Humanidade, isso quando não as destrói.

O risole que eu comia, no correr de minha divagação, perdera seu sabor de risole. E o suco que eu bebia já não me permitia saber de que fruta viera. Assim como a chuva, que já não era mais do que água caindo. Tudo ao meu redor não passava de reles aspectos coadjuvantes de nosso austero cotidiano. Eu, por minha vez, também já não era o grande escritor; não ia além de um ocioso qualquer, por ventura publicado num jornaleco de limitada circulação. Ainda assim, quando bebi o último gole do suco inodoro e pensei em todo o ocorrido, concordei comigo mesmo (com rara satisfação) que, para mim, não poderia ter acontecido coisa melhor.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Recado para a namorada que não tive

Eu ainda era um pré-adolescente, tinha apenas uma vaga idéia do que ela já simbolizava para mim. Até então, cresci sem muitos amigos, e nessa fase não fazia muito de minha apática vida senão ficar em casa sozinho enquanto minha mãe trabalhava. Passava dias lendo os livros e as revistas dela; daí eu conheci Manuel Bandeira, William Shakespeare, Antoine de Saint-Exupéry, Claudia e Nova Cosmopolitan. Com a bagagem de alguns poetas e revistas femininas, eu achava que já conhecia sobremodo a cabeça das mulheres. Tolices de um púbere! Mas minhas primeiras experiências de beijos et ceteras vieram por aí, doze, treze anos. Mas foi com uma mundana qualquer, e não com aquela que se tornaria minha fiel companheira – embora esta eu já conhecesse, e bem. Claro que, na época, eu ainda não entendia adequadamente sua importância. E via nas garotas fáceis a verdadeira chave do sucesso e do entrosamento.

Caí, então, naquela que seria a fase mais sem-graça de minha efêmera vida, mas que eu adorava. O rock, o movimento estudantil, o centro das atenções. A adolescência era um altar de prazeres. Desse período, acumulei algumas fotografias de viagens, alguns vícios desagradáveis e uma ou outra doença venérea, rapidamente tratada. Quando batia uma crise de existência, eu, claro, só tinha uma companhia. Mas não a valorizava. Nunca a valorizei. Quando surgia a oportunidade, lá estava eu renegando-a; era totalmente convicto de minhas posturas, afinal. Que bobagem! Aliás, nisso eu evoluí, enquanto outros consideram retrocesso o mesmo trajeto: a idéia de jovem é a de uma pessoa sem nenhuma segurança, e que só vai adquirindo-a com o correr dos anos. O meu caso é inverso. De um garoto idiota, soberbo e pretensamente convicto do que pensava, fui me tornando mais inseguro e angustiado nesse meio tempo. Essa insegurança adquirida que me fazia valorizar ainda mais aquela que realmente merecia.

Depois desses anos de ensaios viciosos, escatológicos e amorosos, vou terminando e recomeçando etapas da vida cada vez com menos certeza das coisas, e menos esperança de alcançá-la. No entanto, sigo a passos firmes, na companhia da solidão, somente – eis a minha companheira fiel, essa solidão... Solidão que se impõe na vida de muitos a contragosto, mas que vence, no final das contas, ainda que pelo cansaço. A solidão é a pena dos desgraçados, disse-me um amigo certa vez. Ele considerava, então, que a solidão levava à morte. Eu não considero. O medo da solidão é latente na maioria das pessoas, mas o convívio com ela é permanente, gostemos ou não. Assim, faço poemas e contos que falam, entre várias coisas, das garotas, de meu passado, e, sobretudo, da solidão; porque só assim posso aprender mais também sobre ela. Somos, todos, afinal, apenas um peso, um fardo nocivo e molesto para nós mesmos... E pensamos que não sabemos! A única coisa que merecemos é o fundo escuro de um porão. Quanto aos solitários, não são eles os fugitivos dessa dura realidade.


* * * * *

Digno de nota: não faz mais que uma semana, foi lançada, com direito a show da banda setentista Os Grogs, a revista Tá na Cara!, uma produção de alta pretensão e qualidade em níveis ainda mais elevados! A Tá na Cara! é um projeto esboçado pelo meu amigo e camarada Ângelo Girotto, estudante de Jornalismo, ao que dei uma força e, felizmente, conseguimos concretizar esse desejo antigo de ver uma obra nossa sendo publicada. A revista arrecadará fundos para um projeto pessoal maior, que é o de fundar uma editora, aberta à publicação tanto de outros periódicos como de livros e discos.

Aos que estão lendo isso e, por ventura, morem em Natal, fiquem atentos: gravamos entrevista hoje na TV Assembléia, e brevemente estaremos na TV Universitária; as revistas estão à venda, por ora, nas livrarias Siciliano e na PotyLivros, mas já estão em fase de distribuição às demais livrarias. A Tá na Cara! é trimestral.

Eu faço parte do conselho editorial e escrevo matérias, além de uma seção onde exponho contos inéditos. Brevemente lançaremos campanha para assinatura da revista e um web-site.

Quem quiser conhecer o Ângelo Girotto, editor, diagramador, repórter e cronista, basta procurar no menu de links o seu blog, cujo nome foi gentilmente cedido à nossa revista. Sem mais, saudações aos navegantes!


quarta-feira, 21 de maio de 2008

Até o Trem das Sete

Era quase meio-dia e eu precisava comer alguma coisa, em qualquer restaurante chinfrim do Centro. Fui, então, para o Panela Velha, já um antigo recinto, o único que me acostumei a almoçar numa boa. Os outros eram sujos e abatidos, características que, por mais que não me sejam estranhas, não me deixavam plenamente confortável. Mas nem por isso eram ruins. O Panela também não é nenhum primor de limpeza; aliás, nenhum restaurante que se localize ali pelo Beco da Lama é, afinal. Mas gosto de lá, desta vez em particular, sobretudo por conversar com o simpático cara da mesa do lado que puxava conversa, um tal de idade avançada, suado e cansado do trabalho pesado de ambulante, que realizava naquelas redondezas. Ele contou de suas desventuras pela Cidade Alta, de como sempre cai na laia de uns delinqüentes há tempos agem naqueles idos. "Não acredito mais em ninguém. Nem na minha mulher. E é sério! A TV mostra isso: hoje em dia, não se deve confiar em ninguém. Ninguém, meu amigo moço." Conversamos meia hora, por aí. Na hora de pagar, foi a vez de me deparar com a mulher mal-humorada do caixa, que sempre me dá o troco menor do que é de fato. "Ah, desculpa aí, jovem", é o que diz sempre, com jeito de quem chuta uma barata pro canto da parede depois de pisar nela sem querer.

Fora do restaurante, a coisa não muda muito. É meio-dia, mas ainda tem bêbado dormindo na calçada, nem sempre mendigo. Fico passeando pela cidade, e quem freqüenta o ambiente, sabe como há gente de todos os tipos: o metaleiro que fica garimpando algumas lojas de discos, as cigarreiras e bancas de artigos evangélicos onde a dona fica o tempo todo lendo a Bíblia e nem olha a chegada dos clientes. Ainda tem as meninas que estudam pelas escolas públicas dali - a maioria dá sempre bola, ou então debocha: "que é, nunca viu não??" Todas, desde a mulatinha de fichário rosa à loira "de farmácia" que pensa estar arrasando, têm um jeito de rapariga, de menina que mora no fim-da-rua, aquela que dá para todos os caras do bairro, e de quem aos 18 anos a pureza da feminilidade já é parte de um passado distante.

Por toda a tarde, ainda vejo vários tipos de toda espécie. Na Biblioteca que freqüento, encontro lá alguns coroas de ar professoral, um em particular muito compenetrado, incomodado apenas pelos próprios cabelos brancos e compridos, aparentemente não-cortados há uns três anos, que ficam voando a cada vez que o ventilador gira à sua direção. Pululando por sebos, vejo donas-de-casa mal-vestidas procurando livros didáticos para o filho: "meu filho é muito inteligente, então tem que arrumar um livro bom pra estar sempre praticando, né?" Que maravilha a ilusão de estar formando um novo-gênio!

No final da tarde, quando o Sol se põe, dirijo-me até a Ribeira. No dia em questão, eu iria para casa de trem. Fazia quase quinze anos que eu não andava de trem, mas a feroz crise financeira que se assolou não me deixava mais escolha; na capital que tem uma das passagens de ônibus mais cara do país (R$ 1,75), a passagem de trem a 50 centavos é uma rota sagrada, a via crucis do cotidiano. Todos os dias eu corria para tentar pegar o trem das 19h - mas gostava de chegar lá mais cedo, às 18h, para ver ainda o crepúsculo vespertino, colorindo o céu de vermelho e dando um brilho todo especial ao Rio Potengi.

E no trem, veja só... encontro todos eles: o velho ambulante, ainda suado; a mulher do Caixa, provavelmente com uns trocados barganhados com sua conhecida malandragem; o metaleiro, enfim com uma sacola, na qual deve levar um desejado disco, ou uma camiseta de banda; o bêbado que dormia na calçada, ainda muito maltrapilho; a evangélica, ainda com a Bíblia diante dos olhos; o coroa, aparentemente professor, com seu semblante de quem está satisfeito com a sabedoria recolhida. No meu vagão, além de entrar o ambulante, ainda revejo as raparigas das escolas adjacentes - uma delas até me reconhece: "diz aí, filé! Tu também anda de trem?" Não me lembro de ter respondido, minha comunicação com esse tipo de meretriz não funciona desde meus 17 anos; além de todos eles, ainda vejo a dona-de-casa, com um livro em punho, que se senta do meu lado. "E aí?" - Pergunto, com jeito de quem é novato no pedaço. Ela não me reconhece, e está desconfiada demais para aceitar uma conversa àquela hora.

"Porque hoje em dia não se deve confiar em ninguém, meu amigo moço" - é o que ainda ouço do ambulante, a um rapaz com quem puxava uma conversa.


sexta-feira, 25 de abril de 2008

Imaginação no poder! *

Uma de minhas alunas gosta de gravar o áudio de todas as aulas, talvez para dar alguma razão de existir a seu quase invisível mp3. Ela me enviou um pedaço da minha aula, da qual eu transcrevo (levemente adaptado) um trecho onde eu fujo um pouco do assunto (coordenadas geográficas) para tecer alguns comentários pertinentes - ou nem tanto:

Bem, pessoal, eu estava corrigindo as redações de vocês numa dessas madrugadas, ouvindo Joni Mitchell, quando vi este trabalho (exponho uma pesquisa colorida, supercriativa, pintada a spray), que me fez maquinar sobre várias coisas. Eu fiquei pensando que outros professores não aceitariam este trabalho, isso é um fato. Simplesmente porque ele foge a vários padrões elementares na concepção de capa, de desenvolvimento, tudo desenvolvido com um toque muito mais artístico do que sob qualquer outro modo.

Mais do que isso, eu fiquei pensando em como a gente é educado para essa padronização, numa espécie de lavagem, numa espécie de adestramento. Passamos dezoito anos estudando para chegar no vestibular e escrever um artigo bem-dividido em introdução, desenvolvimento e conclusão, num simplismo extremo, que chega a ser aterrorizante, surpreendente. Então a nossa mente emperra, a nossa criatividade fica atrofiada, aleijada. Por que não podemos fugir dessas prisões, essas coisas restritivas, esses paradigmas? Por que eu tenho que começar um texto pela letra maiúscula? Porque tenho que fazer um artigo apresentando a idéia, para depois mostrar meus argumentos e, só no fim, expor minha conclusão? "Você tem que facilitar o entendimento do leitor" (voz fina). Mas por que eu tenho que facilitar o entendimento do leitor? Por que não posso complicar esse entendimento, por que não posso desafiar o leitor a entender o que quero dizer?

Ninguém tem resposta para perguntas assim. Percebia isso no ensino médio e, mais ainda, na faculdade. A vida universitária é um saco, que todos carregam, mas que cheira muito mal. E infelizmente temos que passar por isso. A alternativa é tentar mudar tudo isso. Cada um à sua maneira. Há um livro da Clarice Lispector em que ela começa com uma vírgula e termina com dois pontos, sem nenhuma pretensão de ter sentido. Foi uma critica severa a essas técnicas tolas. A Clarice se foi, faleceu há vários anos, e esses padrões permanecem aí; acho que cabe a nós lutar contra eles também, não é?

O que digo, então, não é que todos devem daqui por diante escrever textos sem sentido, sem organização e sem coerência... se assim fizerem, se darão mal, seja na minha redação, no vestibular, ou em qualquer publicação futura. Pelo contrário: sugiro que vocês conheçam bem esses padrões, aprendam a escrever, a produzir, porque só quando entendemos algo podemos conhecer a sua raiz, e só pela raiz podemos acabar com a opressão que ele cria. As técnicas de escrita são só uma mostra de um mundo totalmente teleguiado que é esse em que vivemos.

Portanto, eu somente digo aquilo que penso sobre esses padrões, pois acho que eles vão na contramão da inteligência humana, e o que afirmo é uma tentativa de romper com essas estruturas... Pois abalar as estruturas, quebrar esses paradigmas, superar limites, mudar a realidade, são a essas coisas que me dedico, e são algumas das poucas coisas pelas quais eu penso que vale a pena viver.

*Slogan dos jovens franceses que organizaram históricos protestos em maio de 1968

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Soneto Marginal

Quando ingeri mais uma pura eu pensei
que não, já não podia voltar pra casa
Que me soltar, libertar, era o que eu devia fazer
Só assim faria jazer minhas emoções em brasa

Mas a brasa as esquenta e, naturalmente, as dilui
Influí ali que estava, então, novamente sem saída
As partes de meu coração precisariam ser reconstruídas
É a conseqüência natural para um marginal que se reclui

E peço mais uma dose, e logo ali alguém entra no bar
Fecho os olhos, me escondo, mas esse papel não quero
Porque já fugi o bastante, agora mais de mim eu espero

Porém recluso em nova pose, recluso em novo esnobar
Viro os olhos e ignoro, volto a meu altar alcóolico
Assim todos os dias fujo, nesse rito melancólico

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Uma noite no xadrez

Eu preferi não pensar em muita coisa quando fui jogado naquela cela que exalava umidade e fedor. Lá dentro, fui ter com outros três caras, todos velhos, cinqüentões aparentando mais de setenta. Eu era o único garoto preso naquela delegacia. Na verdade, havia também outro garoto - meu primo -, mas ele foi para outra cela. Eu estava de temporada numa cidade pequena do interior do Rio Grande do Norte chamada Brejinho, na qual a família tinha um grande sítio, onde eu e meu primo passávamos o dia proseando, tomando sol deitado numa rede, e na noite íamos passear pela cidadezinha, e sentávamos na praça central para sentir melhor a brisa e as garotas oferecidas do povoado. Na época, tínhamos vinte anos. Em várias dessas ocasiões os policiais nos baculejavam, mas só nessa vez eles roubaram a benzina que meu primo em vão tentara esconder, e também somente nesse dia os fardados cumpriram a velha promessa de nos fazer dormir no xadrez.

No fim do corredor das celas, o tímido soar do alarme de um relógio digital, que deveria ser do polícia que fica de plantão, parece que despertava o trio com quem eu dividia a cela. "É meia-noite", disse um deles. "Mais um dia no inferno para o meu currículo". Seu parceiro de beliche lembrou que o inferno decerto era muito pior que aquilo, e que era questão de tempo até experimentarem - todos estavam esperando seus julgamentos. A conversa entre eles se estendia e todos ignoravam a minha presença, o que me incomodava, mas também me tranqüilizava. Enquanto eu estava com pensamentos viajantes, contudo, percebi que em dado instante fez-se um silêncio na cela e, ao que notei, os três me vigiavam.

- Estuprou a namoradinha? - Perguntou-me o cara que estava na parte de cima do meu beliche. Seu bafo estava horroroso, a partir do qual se sabia perfeitamente qual era a dieta que praticava: cachaça, café e feijão-com-arroz. Eu quase gofei e escondi minha careta com as mãos.

- Esse parece com aqueles abobados que fumam maconha na escadaria da Igreja todo dia.

- Eu não fiz nada - falei, enfim, com a impressão de que dissera uma grande idiotice.

- Nenhum de nós fez nada, seu babaca! - Defendeu-se o primeiro, um velho desdentado.

- Está nos chamando de trapaceiros?! Criminosos?! - Desafiou o segundo, um negro alto porém magrelo e preguiçoso.

- Você já deve ter ouvido falar na recepção que se faz na cadeia para os novatos, não é? - Disse o terceiro, tentando me intimidar. Ele tinha sobrancelhas grossas que escondiam os olhos sádicos; era muito peludo e gordo, mas não se mostrava forte. Quando me fez essa pergunta, esfregava as mãos com calma.

- Tente alguma coisa e eu quebro seus três narizes sujos, seus velhotes.

Eu certamente não era nenhum grande lutador, mas não seria tarefa árdua me defender daqueles coroas se necessário fosse, e eles sabiam disso.

- Escutem - falei -, por que vocês não me emprestam um gole dessa breja para baixarmos a poeira por aqui?

Sabe-se lá onde eles arrumavam aquelas garrafas de cachaça, mas percebi o desdentado, que era também baixinho, grisalho e tinha um andar torto, escolhendo um dos três litros dispostos na cabeceira de seu beliche e me passando-o de imediato. Obviamente, não havia copos nem nada que lembrasse a menor higiene. O gargalo estava ensebado por completo, e eu engulhei mais uma vez quando vi onde poria minha boca. Pelo visto, nenhum deles utilizava a piazinha que estava chumbada na parede para a mínima limpeza bucal, mas eu tentei dar uma utilidade para aquele acessório.

- Vá lá, desculpem, mas eu preciso dar uma boa lavada nesse gargalo - disse (como se um passar-água fosse suficiente). Enquanto eu esfregava a garrafa na pia, um deles me perguntou: - Todo mundo na cadeia é preto, pobre ou burro. Você se encaixa em qual destes?

- Sei lá, sou meio preto e meio pobre, como vocês podem ver. Mas burro não sou mesmo! - Disse isso e girei a garrafa. O álcool saiu queimando minha garganta, nunca acostumada a esses mal-tratos, sobretudo por fazer meses que eu não bebia. Mesmo assim, bebi todo o resto do litro. Eles riram com o meu desconforto, mas a risada desta vez era carismática, camarada. A partir daí, senti que ficaria muito mais fácil passar todas aquelas horas por ali, pois o amanhecer estava ainda muito distante, e provavelmente eu não dormiria até lá.

- Sente-se, sua garganta tem a madrugada toda para se adaptar. - Disse o desdentado, que se chamava Tinoco. Dos outros dois, não me recordo o nome.

- Eu comi a filha do prefeito. À força. O pneu do carro dela furou na frente da minha barraquinha, que fica bem depois do Posto. Então aproveitei. Por isso estou aqui. - Disse o negro. E continuou: - Pena que não era nenhuma adolescente. A mulher já tinha lá seus 40.

- Ouvi falar no seu caso. Gerou estardalhaço.

- Pois é, fiquei famoso. - Disse o negro, exalando orgulho e auto-afirmação.

Ao contrário do que fizera este cafajeste, os outros dois não tinham feito nada mais sério. O gordo foi pego, como se imagina, roubando comida. Sanduíche. Em flagrante. No ato, tentou resistir à detenção e ainda causou estragos no trailler que era o ponto de encontro jovem da cidadela. O velho desdentado estava lá porque a pensão estava atrasada. Há seis meses, desde que foi declarado que ele deveria pagá-la.

- Eles podem me manter preso por 1000 anos, porque nunca pagarei essa pensão.

Tinoco dizia que amava a ex-esposa, e pagar a pensão seria assinar embaixo o divórcio e financiar a nova vida dela, barbaridade à qual ele não poderia se submeter. Pelo que contava de seu casamento, parecia ter sido muito devoto e carinhoso, mas nunca se sabe. Tinha uma filha chamada Cinthia.

- Sou apaixonado por uma Cinthia - falei, e levei um soco na cara.

- Seu filho da puta! - gritava e repetia Tinoco, e foi rapidamente detido pelos outros dois.

Seu murro me pegou de surpresa; não cheguei a sangrar, mas minha boca doía muito. Na marca dessa violência, senti que havia não somente o ciúme de um pai por uma filha (sobretudo porque a Cinthia à que me referia não era a filha dele), mas o desespero de um velho que não queria perder as coisas de valor que tinha. Mas ele mesmo constatava que já havia perdido.

Não houve olhar de repreensão nem de minha parte nem da parte dos outros dois parceiros da cela pelo soco que o Tinoco me dera. Não houve nem poderia haver. Todos sabíamos que aquelas noites no xadrez nos obrigava a deixar algo para trás. Eu me mantive jovem depois daquela madrugada. Aquele trio, porém, só levaria para o fim de suas vidas o abatimento - a juventude, as aventuras, a percepção de que algo pode ainda ser mudado, todas essas coisas eram apenas uma tênue e frágil lembrança dum passado muito distante, quando Brejinho não passava de um vilarejo, e talvez nem isso. E eles viam em mim e nos moleques da minha geração apenas a certeza de que o tempo passava, mas certas coisas não mudam. Nunca.

terça-feira, 25 de março de 2008

Notas avulsas 2

Há duas semanas comecei a dar aulas de Geografia, ganhando os trocados míseros que o Governo do Estado pode oferecer. Ao menos neste trabalho, devo me manter por um bom tempo, já que pela primeira vez fiz um contrato. Nos outros dez que colecionei desde os 17 anos nunca cheguei perto disso, e mais distante ainda estive de uma carteira assinada. O único patrão que se dispôs a fechar contrato assinando minha Carteira de Trabalho desistiu quando a viu vazia; eu lhe havia dito na entrevista que sim, já tivera experiência em carteira antes. Na verdade, a mentira foi apenas um artifício de passatempo, já que o papo tava bom porém eu sabia de antemão que não conseguiria o emprego. Um emprego precioso, aliás: acho que eu ia adorar carregar sacos de peixe nas costas o dia todo.

Nos ofícios que tive, nunca fiquei mais de três meses - na maioria, passei menos de uma semana. Em alguns, um dia somente. Caso semelhante ao do camarada Chantinon, como ele mesmo disse num comentário ao meu post Carta de Demissão (linkado no menu lateral). Essa rotatividade é algo que não me traz orgulho nem vergonha, mas é uma demonstração, principalmente para mim mesmo, que, por mais que eu tente, continuo sendo o mesmo moleque ranzinza, que acha tudo chato, sem-graça, sem futuro. A minha mãe, quando eu era criança, vivia a aconselhar: "cuidado, quando chegar a hora, não corra atrás de trabalho, e sim de emprego". Parece que um de nós dois errou muito nesse meio tempo.

***

Bom, eu abro essa nota aqui só para notificar que a Samilla, do blog Esse meu ovo mesquinho e fechado, cuja escrita é de inquestionável qualidade, com estilo, tinha oferecido um selo ao Literatura Vil, que nem lembro mais qual é, para somar aos que estão expostos em link no menu à direita. Eu abri mão de re-enviar para outros blogs porque: 1-não gosto de correntes; 2- não gosto de selos; 3-não sou chegado a seleções, além de não conhecer assim tantos blogs, o que me faria oferecer selo apenas para o limitado conjunto de blogs que freqüento; convenhamos, reconheço a qualidade de todos eles, e raras vezes me vejo sem opção de leitura quando vejo minha lista de blogs degustáveis. Se alguém quiser uma seleção, pois, basta olhar a referida lista e se deliciar.

No mais, agradecimentos à Samilla. É o quinto selo que oferecem a este blog; por mais que eu confesse não gostar desse recurso, é sempre uma honra receber qualquer menção positiva - ou até uma negativa também, mas esta é rara de acontecer no mundo sarcástico, dissimulado e colorido da blogosfera...

***

Elegia Sobre o Sorriso

Sorriso galante, nervoso, maroto.
Sorriso amarelo, tão ou mais escroto.

Diz-se comumente
que se deve sorrir sempre
para alegrar o ambiente
em demasia.
Mas também não compreendo
a razão de se disseminar
tanta alegria...

E os outros notáveis sentimentos que tomamos?
Serão apenas descartáveis alentos dos humanos?

Não trago conclusões algumas sobre isso,
mas penso que sorrir é só mais um ato submisso.
Não sei a quê, nem sei a quem
– isso é o que menos importa, porém...

E não tenho pressa pra tentar descobrir,
mas saio dessa e um dia
– quando descer pelo ralo a minha hipocrisia –
deixo definitivamente de sorrir.

***

"... fui para a praia passar a noite sobre a areia com meus cobertores, entrei areia adentro e parei ao sopé de um rochedo, onde os guardas não poderiam me ver nem me mandar embora. Cozinhei salsichas espetadas em galhos recém-cortados sobre o carvão de uma grande fogueira, e esquentei a lata de macarrão com molho de queijo nos espaço ardentes entre brasas, e bebi o vinho que acabara de comprar, e exultei em uma das noites mais agradáveis da minha vida. Entrei na água até os joelhos e me agachei um pouco e fiquei lá olhando para o céu noturno e esplendoroso, o universo de escuridão e de diamantes (...) Feiz, só com meu calção de banho, descalço, com os cabelos desgrenhados, na escuridão avermelhada pelo fogo, cantando, bebendo vinho, cuspindo, correndo, pulando - isso sim é que é viver (Completamente sozinho e livre na areia macia da praia com o suspiro do mar bem ali, as estrelas virgens calorosas e falopianas refletindo nas embarrigadas águas fluidas do canal externo)..."

Jack Kerouac, em Os Vagabundos Iluminados

segunda-feira, 17 de março de 2008

Madrugada fácil e sem-graça

Quando terminei de me aprontar e vi que eram 23h, senti logo um arrependimento por ter topado o convite. É verdade que meu colega Daniel muito insistira para que eu lhe desse uma carona e o acompanhasse àquela festa e eu estava devendo mesmo esses favores, mas, que droga, o que eu vou fazer numa festa universitária?! Sobretudo quando o perfil dos presentes não foge muito ao estilo de playboys e patricinhas?... Sequer tinha roupa para ir - estava usando uma botina como calçado. Finalmente, só aceitei porque a bebida seria livre, embora minha resposta tenha sido travestida, para meu camarada, de "só topei porque vai ter muita mulher"; convenhamos, as garotas que ali veria seriam as coisas de menor valor do local...

E foi exatamente como pensei. Eram todas lindas, maravilhosas, perfeitas, mas não conseguiam sustentar a própria beleza. Senti-me completamente deslocado, ainda que meu amigo tentasse me entrosar na sua roda de conversas inúteis. A festa era de universitários do curso de Biologia (também chamado de BioloRgia), e eu e o Daniel sabíamos que nossa presença por ali seria interrompida assim que ele encontrasse, para passar o resto da noite, a sua cocota, como gostava de dizer..

Eu me dirigi ao bar onde eram oferecidas várias bebidas e lá fiquei por coisa de meia hora, balançando insistentemente a cabeça com sinal de negativo cada vez que via a multidão. Quando, ao meu lado, apareceu uma menina, senti um baque: era a mais linda que eu já vira - uma princesa, uma boneca, uma obra de arte plástica em forma de garota! Quando ela me notou, talvez por manter fixo olhar em mim por mais de dois segundos, rapidamente concluí que nossa empatia havia sido imediata! Logo senti que ela fugia à superficialidade das garotas daquela festa. Sim, ela era diferente, era mais delicada, era mais cabeça aberta, era mais fácil rolar um bom papo. Já visualizava nós dois rindo e conversando durante longo tempo até o fim da noite, eu a levando pra casa, ela me convidando pra entrar, a gente nos dias subseqüentes pegando uns cinemas e barzinhos simpáticos iguais àquele em que nos servíamos. Para dar início à nossa história, abri de modo bastante original a conversa:

- Oi?

Ela me ignorou, pegou a caipirinha que lhe fora servida e saiu sem, desta vez, expressar o menor interesse, e nunca mais voltei a vê-la.

Do outro lado, Daniel corria em minha direção, até dizer, ofegante, apontando para duas garotas tão bonitas quanto sem-graça:

- Bicho, você não sabe o que encontrei! Tem duas garotas ali disponíveis, estão chamando a gente até o apê delas. S'embora cara, vamos nessa!

- Vá lá, irmão. Vou ficar por aqui.

- Como é?! Você é louco?! Vamos lá, rapaz! Uma noite com uma garota dessas não se esquece!

- Garota, o que é isso mesmo? Esqueci...

- Puts cara, e você que pegava geral no tempo do médio...

Tive que topar o convite, a fim de que ele parasse de falar tanta besteira.

Uma das garotas estava com o carro do pai, e fomos de carona com elas, num papo bastante animado entre a motorista e meu parceiro Daniel nos bancos da frente. No de trás, eu estava acompanhado pela Dina, que morava no apê com a amiga. Eu lhe disse que não era chegado a apelidos e lhe perguntei seu nome, mas ela se recusou a dizê-lo.

- Cuidado com o meu amigo estranho - disse Daniel -, ele não deve transar há dez anos, é mais chegado em árvores e ovos crus - essa piadinha, como outras, fez sucesso no carro, e as meninas riram.

No apê, que era ali no badalado bairro de Ponta Negra, e era um senhor apê, maior do que minha casa, meu amigo tratou de agarrar sua garota e levar lá pra dentro. Logo ouvimos gritos e gemidos. A Dina também não estava muito para papo e veio em cima de mim, tirando meu cinto enquanto nos beijávamos. Sua boca tinha um maldito gosto de cigarro, e eu sempre odiei cigarro, desde a primeira vez que vi minha mãe fumando, desde que um médico me recomendara ficar a dezenas de metros de um cigarro, desde que beijei a primeira garota, tudo isso ali há muito tempo atrás. Quase escarrei na boca da pobre da Dina, mas me contive e a afastei lentamente, ainda que com certa brusquidão.

- Pare - falei. - Que tal se você escovasse sua...? - ela me deu um tapa antes que eu terminasse a frase.

- Quem você pensa que é, seu idiota, imprestável?

- Quer parar de falar assim?

- Qual o seu problema? Você é um veadinho ou o quê?

- Chega, vou embora daqui - ela me deu um novo tapa, e tentou dar uma seqüência deles, mas eu a pus à força no sofá, ordenei que ficasse ali, e saí batendo a porta.

Era madrugada e eu decidi que iria a pé pra casa, já que a moto eu havia deixado lá no estacionamento disponibilizado para a festa, e só voltaria lá em 24 ou 48 horas para pegá-la. Nesse momento, contudo, eu só queria ir para casa. Caminhava desolado e cansado pela Roberto Freire, avenida famosa pela grande incidência de travestis se oferecendo para motoristas e andarilhos insones sedentos de sexo, e um deles chegou a me interromper, oferecendo uma noite maravilhosa. Como não tinha interesse, disse-lhe apenas que não tinha dinheiro.

- Então não rola, conheço seu tipo.... vive sem dinheiro e só se consegue coisas fáceis... mas quem busca facilidade não encontra qualidade nem substância. Lembre disso, querido.

No fim de tudo, fui obrigado a concordar.

sábado, 8 de março de 2008

Enquanto os sinos dobram

- Cara, você parece um velho, um personagem de livro, um sei lá o quê... impossível rolar algo sério entre a gente!

Eu ainda me lembro de quando levei esse fora, embora já tenha uns anos para trás... Depois disso, a garota me derramaria tantos elogios que eu fui para casa com o ego mais inflado do que se tivesse voltado com o peso simbólico de um namoro nos ombros, mesmo sabendo que eram, todos eles, da boca pra fora. Fiquei pensando um pouco no que ela havia falado. "Um velho, um personagem de livro, um sei lá o quê"... o que seria esse sei-lá-o-quê? A que personagem de livro será que ela se referia? É verdade que ela já havia me dito que eu o parecia antes dessa ocasião, mas eu nunca me adiantei a perguntar, por alguma boba razão impossível de entender.

Mas quando ela disse que eu parecia um velho - ela não seria a única pessoa a dizê-lo - a mim não foi novidade nenhuma; desde bem moleque já ouvia adjetivos do tipo, e mais ainda nos últimos anos. Eu passei um dia desses dos vinte outonos, mas percebo que meu corpo anda se deteriorando há tempos. O que é natural, para quem tem uma média de quatro horas de sono por noite como eu.

Dia desses, estava bebendo e conversando com uns amigos numa praia, quando fui com vontade demais ao gargalo...

- Argh! Ugh! Cof cof cof...

- O que foi, cara?! Tá engasgado?

(Cuspi.)

- Nossa, quase morro... O que é isso?

- Sei lá, meu... tem muito sangue... mas parece um... um dente! É isso, é um dente!

- Nossa senhora! - digo, mexendo no maxilar como se o estivesse pondo no lugar, procuro o retrovisor de um carro e como, através de um sorriso forçado, percebo que todos os dentes frontais se mantinham ali, não dei mais muita atenção ao acontecido.

- Meu, caiu um dente da sua boca... isso só acontece até os doze anos de idade ou depois dos setenta, cuidado cara!

- Nunca gostei do gargalo dessas garrafas de cachaça.

Só muitas horas depois, quando eu já estava em casa, lúcido, e fui escovar os dentes, percebi que realmente um dente me havia caído, um lá de trás, cuja classificação não faço idéia. Fiquei pensando como poderia ter caído logo um dente super-escondido, bem guardado nas trincheiras bucais, mas não me ative mais do que isso. O lado bom nessa história toda foi que a dor de dente que eu sentia já há cinco dias, enfim, se foi... o problema que me abateria a partir desse instante tragicômico seria uma intragável dor de ouvido!

Com tais dores, vinham zumbidos, sons de motores de avião e sinos dobrando dentro da minha cabeça. Sempre os ouvi, mas agora estavam em níveis elevadíssimos. O que, pelo menos no caso dos sinos, me apavorava: quando criança, sempre tive medo do som que eles emitiam... era um prenúncio de tudo o que há de ruim, eu pensava. Por quem esses sinos dobram? Pelos que vão ou pelos que ficam?

Essa agonia dentro de minha cabeça só poderia ser combatida se eu mantivesse minha audição ocupada. Tratei então de maltratá-la como eu bem sei, voltando a escutar música nas alturas até estourar, literalmente, as potentes caixas de som que tinha no quarto... outra alternativa era voltar a freqüentar os shows de rock nos bares do Centro e utilizar de modo incessante o fone de ouvido, que passou a me acompanhar quase diariamente onde quer que eu fosse.

- Ei, você... o que está achando da música?

- Oi? Como, professor? - pergunto afobado, lembrando que estava numa aula ao ver que o professor me apontava o dedo e retirando rapidamente o fone de ouvido... - Perguntou algo?

- Perguntei o-que-está-achando-da-música? - ele tinha a voz pausada e em tom elevado, tipicamente irritado.

- Ah não, professor, não é música... é o jogo do ABC na fm...

- Fora.



Durante essas férias que ainda não acabaram, no momento em que eu estava novamente ouvindo um jogo via fm com o fone de ouvido, notei que de repente um dos fones tinha estourado... comprei outro fone mas percebi que ele também não funcionava, o que achei estranho. No entanto, pouco depois, eu constataria que não foram os fones que queimaram - meu tímpano direito é que foi pro espaço...

- ... Ou isso pode representar o que chamamos de "perda progressiva da audição" - disse-me o otorrino com cara de peixe morto (cara de médico.)

- O.K., como reverto isso?

- Bom, se for esse o caso, e você só saberá após uma audiometria, não há como reverter.

- Hã? Repita essa última parte...

- Eu disse, garoto, que não-há-como-reverter! - agora estava com o mesmo tom pausado e elevado do professor.

- Peraí... a Medicina vive falando em transplantar coração, clonar organismos, e não consegue resolver uma mediocridade dessas?!

(silêncio)

- Que frustante devem ser as pesquisas da área de vocês, não? - tentei provocar.

(silêncio)

Na hora, pensei: "é por mim que os sinos dobram, e eu não sabia"...

- Tudo bem, mas não pretendo fazer audiometria, não gosto dessas bobagens... O que o senhor me recomenda como alternativa?

- Procure um psicólogo, já não posso fazer mais nada.

Sabe aquela velha história de pimenta nos olhos dos outros? Foi assim que percebi a situação.

E as pragas continuarão... para sempre.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Nostalgia na sala-de-estar

Estou sentado numa poltrona, a mesma que outrora já considerei de algum conforto, e que agora não passa de madeira coberta por uma penugem vagabunda, definhando aceleradamente. Seu tecido vermelho-borrado está nitidamente mofado pelo tempo. Como a poltrona, a sala ao meu redor se mostra miserável. Tento me ver nesse ambiente, aqui onde vivi tantos anos, mas ainda me sinto um estranho. Um enjôo angustiante apodera-se de mim cada vez com mais violência, sempre que giro minha cabeça em direções distintas, enquanto observo o abatimento do cômodo, sob a luz baixa do abajur. Ora... não me reconheço naquela mesa de centro, ou no carpete empoeirado e nem no resto da sala - tudo pretensamente limpo e arrumado, mas de uma decadência entristecedora. Quem se sente confortável em tal situação? Eu admito que não fui mais do que isso. Pelo contrário. Nunca neguei minha origem putrefata, inesperançosa. Agora, no entanto, mantenho minha insinceridade vivendo uma falsa vida, uma vida que não é minha... sinto-me lúcido, entretanto, ao mesmo tempo, não consigo controlar o temor que começa a se apossar de mim... e sentado aqui, estático, de ombros encolhidos, olhos marejados de lágrimas que fazem aparecerem tremidas as minhas visões, boca curvada e acaretada como a de uma criança chorona, eu só queria poder sair...

Mas não posso.

Não posso porque há algo a me prender. E esse algo, de pele alva e cabelos castanhos, é uma mulher a quem eu, aparentemente, já nada ofereço, e por quem nada sinto... contudo, ainda a respeito. Uma mulher que conheci num beco escuro, num buraco de lama, numa fetidez quase semelhante à minha... conhecemo-nos trocando muitos goles de álcool, e nosso primeiro beijo não seria consumado se eu não estivesse mais interessado no gosto de conhaque de alcatrão que sua boca continha. Ela era diferente de mim... e muito! Era uma sonhadora! Para ela, o mundo estava apenas um passo adiante... brincava com a vida como quem é dono de toda a sorte que existe. E foi desse modo que ela fez o que pôde para livrar a si própria e a mim daquele dito submundo. Ela era assim, dividia a antiqualidade de uma alcóolatra desorientada com a astúcia de quem sabe que pode tudo - mas eu não! Não tenho ambições, não tenho desejos de grandeza. Não queria sair de onde vivia... era lá meu lugar! Ela me tirou, de qualquer jeito. Não sei reagir a isso. Eu não devia não ser canalha. Devia agradecer pelo que fez.

De lá para cá, passaram-se anos... mas olho para nossos retratos de parcos sorrisos e nem de longe parece a mulher que conheci e que me encantara por despertar em mim sentimentos bem distintos do que qualquer outra já o fizera... ela não me despertava apenas desejo pelo desejo, atrações e tremedeiras. Mas mistos de sentimentos positivos e negativos, que em outra ocasião vos contarei, caros leitores... fossem como fossem, o que interessava a mim era a oportunidade de experimentá-los... numa vida de emoções capitaneadas pelo álcool e pelos comprimidos, talvez a dependência que passei a ter dessa mulher fosse a única saudável... É o que eu pensava.

Eu, que agora passo todos os dias de minha vida sentado nesta poltrona. Todas as tardes... o Sol desce e eu permaneço submerso em divagações, desta vez iluminado apenas pelo abajur. Sequer percebo quando a mulher entra na sala. E ela já não diz nada. Quando dirigiu a voz a mim, certa vez, foi para reclamar do peixe que se deixara morrer no aquário. Por minha vez, também já não a conseguia ouvir direito, mas, numa esperança de vê-la tentando recuperar o que perdemos, e que já não sei mais o que é, pergunto, fazendo, talvez, o maior esforço de minha vida:

- O que houve conosco?

Talvez seja difícil para ela responder. Ou talvez ela nem queira, mesmo... ingrata como é, já deve ter se esquecido de onde veio. Certamente, não imagino o quão aterrorizante a resposta dela pode ser... porém, dessa mulher, eu já não espero nada. Com rara razão.

- Um de nós dois ficou sóbrio - ela disse, apenas.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Sobre quando senti saudades

Ele era divertido, sincero e despreocupado como uma criança, a despeito de seus quarenta e poucos anos. Isso, no entanto, não afetava sua vida social, por uma razão simples: ele não tinha vida social. Quando adolescente, era um visionário, carregava livros e sonhos em sua mochila. Parecia promissor, como bom estudante que era, como bom amigo, como namorado, como companhia pras diversas atividades. Um cara requisitado e considerado. Como já dito, estudioso inveterado, gostou da experiência adquirida quando do serviço militar e traçou como meta ingressar na carreira definitiva. Além disso tudo, atleta, forte e eficiente. "O melhor goleiro da Força Aérea".

Os sonhos, porém, como as borboletas, morrem todos os dias. Com aquele garoto-prodígio, não foi diferente. Bastou um acidente de carro - um atropelamento, um arremesso de 30 metros que fez seu corpo outrora vigoroso e facilmente autosustentável virar um pedaço de pano seco e frágil no asfalto.

O desejo de ser um militar de carreira se foi. Quase tão repentino quanto o acidente sofrido, foram-se embora também os amigos, a namorada, as outras tantas pretendentes, o sorriso fácil.

Apesar de tudo, sobrevivera. Isso era o mais importante, afinal. Assim lhe diziam os parentes e um outro aprochegado, estes nem um pouco íntimos. Para aquele jovem acidentado, no entanto, a oportunidade de sobreviver se tornou simplesmente um adiamento de sua morte. É fato que suas habilidades básicas lhe foram devolvidas. Com ajuda de pinos e parafusos, voltou a andar, a se movimentar normalmente e a viver "como se nada de tivesse acontecido". Mas era impossível pensar que nada tivera acontecido. Considerava uma desonestidade para com seus próprios desejos que o acompanhavam até ali.

Como é o destino de todo indivíduo malogrado e arruinado, ele afundou no mundo noir do álcool e do tabaco. Fumava como uma chaminé e bebia a ponto de esquecer o nome do planeta em que vivia. Nos trabalhos que arrumou depois da recuperação, não se mantinha por mais que algumas semanas. Nos estudos que tentou prosseguir, já não sentia mais nenhum ânimo em concentrar-se. Tornou-se um baderneiro. Roubava. Quebrava bares e batia em pessoas. Em casa, virou um parasita na família, morando com a mãe - agora já uma senhora, atormentada com as constantes notícias de seus escândalos. Ela que era avó, graças a seus outros irmãos. Seus irmãos, aliás, todos bem-sucedidos, o humilhavam constantemente, quase como esporte. Freqüentemente convidavam-no a dar fim à própria vida: "te dou o funeral que dos seus sonhos, mas vá embora e deixe nossa mãe em paz".

Foi nessa época turbulenta que o conheci. Ele era tio de um amigo dos tempos do jardim de infância. Mas rapidamente tornou-se mais que isso; com ele próprio eu criaria um laço de amizade. Eu, que só o via por meio de meu antigo colega de escola, passei a, eventualmente, visitá-lo. Bem se notava que ele ainda guardava a alegria e a pureza doutros tempos. Com sua companhia, assistia aos jogos da Seleção, embora fosse difícil, uma vez que ele só gostasse de jogos onde Ronaldo estava escalado (ao contrário de mim). Também conversávamos sobre bebidas, ainda que já não pudesse beber nesse período, pois seu organismo estava muito debilitado (dava vontade de chorar quando eu o via sem sequer conseguir se levantar após umas poucas doses). Mas ele ainda bebia às escondidas. Além disso, proseávamos longamente sobre planos... mas isso não levava a nada, afinal ele já não tinha planos. E eu apenas pensava que tinha.

O tempo, esse traiçoeiro, fez com que nos víssemos em cada vez mais fugazes oportunidades. A ele obedecemos vergonhosamente, e já fazia dois anos que não via nem falava com esse bom amigo.

Então, senti saudades.

Passado o último Carnaval, numa bondosa tentativa de prosear e marcar uma hora para nos reencontramos pessoalmente, eu lhe telefonei. E qual não foi a minha ingrata surpresa - o meu espanto, meu arrepio, meu sobressalto, e o retorno daquela vontade de chorar - quando recebi a acanhada informação de que poucas horas depois, seria celebrada uma missa pelo sétimo dia de seu falecimento...

Esse cara estragou a sua vida, pensei, ao desligar mecanicamente o telefone. Mas isso era besteira. Era julgamento. Estragar sua vida, afinal, todos fazem. Ele apenas estragou á sua maneira. Estava no seu direito. A minha tristeza estava contida, como todos os fortes sentimentos assim estão, no meu comportamento reservado. Em menos de um mês, eu iria novamente a uma missa de sétimo dia, pois semanas antes falecera a minha avó - minha avó não, avó da minha irmã... uma senhora de setenta que literalmente negou até a morte qualquer possibilidade de eu ser sangue de seu sangue. Mas a despedida dessa desolada senhora, néscia e delirante em seus últimos dias, para mim, foi mera burocracia familiar; a despedida deste camarada, todavia, sim, me abalava. Mais uma vez, segureia as lágrimas por ele. Bebeu muito, mas, de fato, morreu de tanto fumar, pobre homem. O cigarro, que mata centenas de milhares de pessoas anualmente, estatísticas que não abrangem aqueles que merecem, como a senhora minha mãe, que vive por inércia e dinheiro, mas leva outras boas pessoas que já não querem nada da vida, porque não podem querer nada.

E eu sequer pude ir a seu funeral, vê-lo pela última vez, ainda que pelo visor do caixão, sob a pele ossuda e horripilante de uma vítima de câncer de faringe. Precisei conter meu choro novamente, pois não gosto de despedidas, mas não fujo delas. As despedidas são os momentos mais importantes das nossas vidas. Despedida da faculdade, do namoro, do emprego, da rua onde moramos, da vida. Elas são um resumo de tudo que conquistamos ou deixamos de conquistar.

Na missa, sob um olhar trêmulo, sua mãe me disse que ele, nos seus últimos momentos, queria ver montado um quadro com a foto de todos os seus amigos, do tempo de sua juventude até aquela fase de meia-idade (essa meia-idade, para muitos um novo começo, para ele um novo fim). Então, ele fez uma lista de quem deveria estar. Eu estava na lista, é claro... não era o primeiro nem o último, mas estava - isso é o mais importante. Porém, a comoção daquela velhinha de oitenta anos me contagiou em definitivo quando eu soube que meu retrato era o único não incluído no dito quadro. Era impossível, ela disse, pois não tinham nenhuma foto minha.

Mais uma vez, eu segurei o choro. Até chegar em casa.


Com o pensamento em Adelmário de Souza Matos

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A Primeira Noite

Já eram 23h e tantos e ele ainda não sabia para onde ir aquela noite. O Centro da Cidade estava esvaziado, e só se fazia presente a incômoda fetidez de mijo e cerveja que toma conta do lugar à noite. Embora a hora denotasse que já estava ficando tarde, parecia-lhe que muita coisa ainda aconteceria nos instantes seguintes. Mas ele não queria passar aquela noite na rua. Quisesse ou não, ela tinha algo de emblemático, de simbólico.

Depois de vaguear ante as pequenas lojinhas das ruas-beco que se acotovelam entre as principais vias da Cidade Alta, encontrou um hotel asqueroso, mas que oferecia a comodidade pela qual poderia pagar. "Ao menos uma TV ou um radinho deve ter", imaginou, consolando a si mesmo. O salão do hotel, com um balconista e outros quatro caras ao redor de uma mesa jogando cartas, era uma ebriedade só, e lhe trazia à sua memória os filmes vagabundos aos quais costumava assistir na infância - aquele lado escuro da vida, que nunca pensou em experimentar de fato. No entanto, o tempo corria e ele não estava chegado a reflexões. Pegou a primeira chave que o estonteado atendente lhe oferecera e foi ter com o primeiro quarto desconhecido que o acolheria. Lá, nada de radinho ou TV. Apenas uns beliches sujos, quase nenhum com estofado. Da janela, que ficava a dois andares do chão, o que dava uns dez metros de altura, contemplava a decadência dos muitos mendigos, entorpecidos nas calçadas pequenas daquelas ruelas. A maioria das pessoas agradeceria por ter uma cama para dormir, ele pensou. "Sou um ingrato filho-da-puta".

Durante toda a vida, esperou por aquela noite. Contudo, não imaginava que passaria como um mundano, num hotel nojento qualquer. Não chegou a chorar; e se o fizesse não seria por saudades nem por desesperança. Aconchegou-se da forma que pôde, e, pela noite, leu um livro de Cassady, mais um jovem inconseqüente doutros tempos que o ensinara a desprezar a boa-vida que recebera até ali. Não agüentava o tormento daquelas horas e retirou da mochila uma garrafa de vinho pela metade, que o ajudaria a se aquecer e divagar o restante da madrugada, bem percebendo que estava longe de sentir sono. A certo instante, somente quando precisou do toalete, foi que ele entendeu que não estava num suíte - não havia suítes ali, afinal. Caminhou até o fundo do corredor, mas o pouco de dignidade que guardava (que frescura, ó céus!) o impedia de usar o banheiro coletivo repugnante que era dividido entre todos os hóspedes do andar, composto de bêbados, prostitutas e, ocasionalmente, um ou outro adolescente fugidio, "igual a você", conforme lhe dissera um dos embriagados que conhecera na entrada.

Tudo se passou num misto de alegria e tristeza - mas uma tristeza jubilosa, quase uma constatação de que estava vivendo um lado mais sincero e honesto da vida, tal como ela deveria ser de verdade no seu imaginário. Estava, no fim das contas, satisfeito. Nos vinte anos anteriores, fora sempre tido como um sujeito esquisito e ermo, mas os adjetivos inglórios até então recebidos pouco significavam agora. Já não pensava mais em nada depois de alguns tragos de vinho, quando reparou num crucifixo que ornamentava, solitário, uma das paredes do quarto, entre rabiscos de caneta outrora traçados por hóspedes canalhas e metidos a poetas. "Deus, aprendi com você a ser um errante", foi o que disse. Ou parece que disse, não tinha certeza.

Sua paz acabou quando bateram na porta, às 4h e tantas, enquanto filetes de luz matinal já começavam a iluminar o ordinário ambiente. Embora ele estivesse acordado, estava absorto demais para ter consciência disso. Estava drogado, diriam, como sempre disseram, os lugares-comuns que povoaram sua vida. Mas enfim percebeu que havia mesmo alguém forçando a porta no corredor. Quem seria? Ele não imaginava. Bem poderia se tratar de apenas um beberrão tentando entrar no quarto errado, ou até um serviço de quarto, mas isto ele sabia que não havia naquele antro. Talvez alguém que, após alguma procura, descobrira o seu paradeiro. Tentou não dar muita atenção, entretanto as batidas não cessaram. Até que, num dado momento, sem entender muito bem o porquê e sem que se preocupasse com motivos ou razões, desceu-lhe uma minúscula lágrima pelo rosto, e um sorriso indolente desestatuou seus lábios. Pegou uma caneta que tinha no bolso para pôr uma sentença na parede, como tantas outras que já estavam ali expostas. Ele se viu quase completamente sem o controle dos próprios nervos, e, com muito esforço, escreveu: É possível alcançar a supressão do sofrimento que é a vida. Dito isto, não tinha muito mais a fazer. Então se dirigiu à janela. É bem verdade que dez metros nem sempre chegam a ser fatais, mas ele estava decidido a pular de cabeça para baixo, para não ter muitas chances. "Nunca tive segundas chances", pensou, no fim. "Seria muita ironia se tivesse agora".

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Carta de Demissão

Senhor supervisor,

Eu poderia, - ou deveria - inicialmente, expressar minha civilidade elogiando o trabalho prestado por Vossa Senhoria e pela pretensamente conceituada empresa à qual estive vinculado por, é verdade, 24h. No entanto, pularei essa parte.

A carta que vos envio, compreenda, não tem o objetivo de justificar nada, tampouco explicar. Sou sincero: não quero nada com essa carta, senão matar a minha vontade de escrever algo com a certeza de que será lido, o que vai além de um hobby; é uma das coisas que me mantêm vivo. É sempre possível, contudo, que ela não seja lida. Mas bem sei que com o pouco trabalho que cabe à supervisão diariamente, lê-la torna-se até um passatempo.

Não questiono o ócio a que os supervisores desta empresa têm direito, mesmo porque o trabalho que me foi confiado também não era nem um pouco pesado. Até agradeço por ele. Porém, no meu primeiro dia no emprego, sentado atrás daquele birô, - "um birô só meu", como vocês bem prometeram - naquela salinha de fraca iluminação, paredes azuladas, crucifixos tortos na parede e aparência decadente, vez ou outra recebendo telefonema de algum desinformado, estive pensando. Pensando sobre mim, sobre este trabalho. Respondendo perguntas, preenchendo formulários e divagando a maior parte do tempo. Senti-me mal. Muito mal. A estranheza que se apoderou de mim quando me dei conta de onde estava me fez entender que um salário mínimo era insuficiente para me manter na mesma situação. Faço aqui uma ponderação: a crítica não se pestra ao fato de eu receber um salário mínimo. Afinal, na situação em que me vejo, isso é mais do que suficiente.

Eu bem creio que Sua resposta a essa carta, se houvesse alguma, enfatizaria a questão da experiência; conheço as exigências de quaisquer empresas para com a experiência profissional anterior de qualquer candidato a qualquer cargo. Mas não quero ser escravo de tais exigências. Não é o primeiro emprego de quinta que largo. É provável que eu não esteja certo em agir dessa maneira. Estar certo, porém, em tais condições, é o que menos me interessa.

Outra resposta chamaria a atenção para a crescente e desigual disputa no campo de trabalho. Temos que nos adaptar ao que diz o mercado, e não guardar ilusões em querer seguir somente aquilo para que nossos sonhos apontam. Eu não discordaria completamente dessa tese. Gosto de escrever, e Vossa Senhoria bem sabe, porque no dia em que me apresentei à empresa lhe mostrei, em particular, umas impressões que tenho, e percebi que meu interesse havia sido correspondido. De qualquer modo, não tenho devaneios ou ilusões. Não espero, embora seja um desejo, viver com dinheiro adquirido a partir de meus escritos. Nem isso justificaria, ainda assim, eu me manter num trabalho que só violenta a minha inspiração, alveja minha imaginação e me torna claustrofóbico.

No dia em que fui contratado, isso até anotei em uma agenda antiga que carrego, ouvi suas palavras alertarem para o fato de que o desemprego é culpa do desempregado, não do empregador. Tais palavras nada me mudaram o pensamento. Tenho convicção de que o desemprego pode ser culpa de qualquer um, menos do desempregado. Entretanto, como já disse, não sou um sonhador (senão quando diante de um papel em branco). Sei que cedo ou tarde terei de me render à escrota lista de requisitos que tantos pedem por aí, se eu quiser manter meu direito a algumas migalhas de pão e um teto para morar.

Isso pode não estar distante, mas faço eu meu tempo, como puder. A partir da noção que desenho na cabeça - e das minhas necessidades instintivas de fome e frio -, vou, como se diz, "levando como dá". Enquanto permanecer intacta a lógica corrupta e sacana da sociedade na qual vivemos nós, o endinheirado e o falido, o farto e o faminto, vou fazendo parte de sua lista de bestialidades, sigo tornando-me mau exemplo, permaneço bancando o insano largando empregos. Eventualmente tenho conseguido me manter uma semana em uns trabalhos informais, o que me permite pagar umas contas aqui enquanto minha desesperançosa mãe me ajuda em outras ali, e, pelo menos, dá pra pagar minhas garrafas de cerveja e cachaça, já que de bebidas mais requintadas não tenho tido condições de comprar a companhia.

Peço perdão, portanto, pelo tom talvez agressivo e descortês que expressei nessas últimas linhas. É que, enquanto escrevo, a noite avança, e com ela vai-se embora qualquer compostura que eu tente manter, como aquela que até o surpreendeu. Bem sei, de qualquer modo, que sou bom demais para o trabalho oferecido, e para qualquer trabalho que hei de ter em minhas mãos nessa efêmera aventura que é o período em que estarei vivo. Por isso, afirmo que jamais me empolgarei com nenhum deles. E isso não quer dizer que o ato de trabalhar, em especial, me desagrade. A razão é que, simplesmente, são todas as coisas que me desagradam.

Portanto, contenha-se: se fui desrespeitoso em minha atitude, não é uma exclusividade para com esta empresa nem, muito menos, algo pessoal para convosco. Tenho certeza de que minha demissão já está assinada, por eu estar me ausentando já em meu segundo dia de serviço, de modo que nem precisarei solicitá-la. Numa tentativa de ser educado, nestas palavras finais, aceite meu convite para prosearmos, qualquer hora dessas, numa mesa de bar, único lugar em que posso receber um grosso xingamento ou um acalorado elogio e reagir da mesma maneira. Escreva-me.

Sem mais, despeço-me com um enorme alívio da ... Empreendimentos.

domingo, 23 de dezembro de 2007

"... Até que dava para beijá-la..."

O Pernil do Zé Roberto, um botequim localizado numa daquelas difíceis ruelas enfiadas por trás do CEFET e escondida no meio dos casarões, sempre foi altar de confissões, desentendimentos, desilusões e novas idéias. Quando eu fazia o ensino médio na citada escola, já freqüentava o local e aprontava das minhas, além de beber do álcool e das tantas histórias lá expostas. Hoje, duas faculdades incompletas depois, já nem o freqüento mais, e, até onde sei, é quase zero o número de remanescentes daqueles áureos tempos, que se vão bem distantes da seriedade que hoje se vê - e que passou a ser regra desde que a irmã do Zé Roberto passou a gerir o local.

Esse novo feitio eu só pude constatar há coisa de semanas, quando senti vontade de voltar pra ver que marcas deixou o tempo naquelas paredes mal-rebocadas que eram a vergonha do bairro, e tive essa indigna surpresa. Convenhamos, não sou do tipo que acha que todo boteco precisa ser ligeiramente sujo, mas as exageradas decorações e as combinações de cores, organizadas de forma infantil, e a obsessão por fazer daquilo um lugar "decente" explicavam bem porque aquilo tinha deixado de ser um ambiente de longas discussões para se tornar, hoje, um ponto monótono onde quase só vende cachorro-quente, e pernil mesmo só existe no nome do estabelecimento.

Para minha sorte, no entanto, cheguei lá e encontrei um velho no alto de seus setenta anos, quase um retirante deste lado da vida, bebericando uma pinga enquanto a moça do balcão o fuzilava com os olhos, louca para que ele fosse embora. Era Cortez, um espanhol alto, magrelo e desdentado, que veio para este lado do Atlântico na infância fugidio da guerra que varria a Europa, e agora era quase um mendigo, sequer lembrava uma frase em sua língua nativa. Morava numa pensão ali perto, desde trinta anos antes. Era o profeta da turma, o nosso sábio, o nosso mestre. Ele me explicaria, calmamente, o rumo que levou à decadência daquele local enquanto estive ausente, período que conta aí uns três anos. O marco inicial daquela derrocada, como eu soube, foi uma briga entre Zé Roberto e sua esposa, por quem ele nutria uma intensa necessidade. A causa da discórdia foi a descoberta das escapadas da mulher às escondidas, enquanto trabalhava como manicure numa grande loja feminina. A Líria (Líria Vale, eis seu belo nome) era tudo em sua vida. Depois dela - a briga se mostrou definitiva - a vida do nosso querido Zé já era, ainda que aos 35, e com ela se foi também o nosso ponto de encontro, do qual a irmã dele tentou se aproveitar, passando a gerir após um tempo e oferecendo "cara nova", subjugando o velho dono, que agora estava depressivo e fraco. Zé Roberto, no entanto, ainda morava ali, de favor, graças à "bondade" da mana, e, ao ser informado de que dois de seus velhos clientes estavam ali tomando um trago e jogando conversa fora, não hesitou em vir nos encontrar. Ele, cuja feição guardada em minha mente mostrava um rapaz alvo de aparência jovial, forte e imponente, estava, agora, emagrecendo e barbado, claramente desajeitado, muitíssimo longe de exprimir o astral elevadíssimo de outrora, porém seu semblante denunciava uma indisfarçável satisfação em nos rever.

Pacientemente, ele sentou-se conosco e demos continuidade à nossa conversa. Falamos sobre aquele passado recente do boteco, sobre a maravilhosa sensação de nos sentirmos tão iguais mesmo sendo de distintíssimas gerações, contudo o papo da noite não poderia ser outro senão as mulheres; sobretudo, aquelas que despedem-se de nós e nos deixam ao relento - isso quando ao menos chegamos a provar de fato o que elas têm a oferecer.

- Hoje, senhores, - disse, quase gritando, o ex-dono do Pernil - tenho certeza de uma coisa: a vida sem vírus não é vida. E o melhor vírus que pode nos infectar é mesmo aquele que nos prende a uma mulher. Depois que nos vemos ligados a uma, não tem jeito. Não há como cortar o cordão. Estaremos presos a ele para sempre.

Cortez, com seu eterno ar de convicção, não pensava lá tão diferente. Porém, foi mais sintomático:

- Eu tenho décadas de vida a mais que vocês, mas não digo isso como superlativo, digo agora aquilo que eu pensava há cinqüenta anos: pra mim, o único amor sincero que temos é o primeiro. Aquele quando somos moleques, quando suamos a primeira vez. Todos os que vêm depois podem ser mais intensos e mais duradouros, mas não valem nada. É tudo caso perdido. O único realmente sincero é o primeiro. Afinal, o primeiro é o primeiro, porra!

- Conte aí como foi seu primeiro amor, pois então! - esbravejou o Zé Roberto, aparentemente restabelecido de ânimo. Eu me mantinha falando pouco, como sempre. Cortez começou.

- Ah, guris, meu primeiro amor foi há muito tempo. Eu me lembro, foi algo como dois anos depois de eu ter chegado aqui. Eu tinha uns catorze anos. Quando eu cheguei, morávamos no bairro do Alecrim, e lá, onde hoje é a Praça Gentil Ferreira, havia um hotel... um hotel que não era um hotel, vocês sabem, né?

Eu e o Zé rimos. Realmente, o hotel da Gentil Ferreira não era um hotel. Ao contrário, era um puteiro mesmo, a festa da molecada; 80% dos jovens dessa cidade haviam tido, nesse hotel, aulas grátis disso-e-daquilo no seu 13º aniversário.

Porém, nosso querido coroa lembrava com inacreditável riqueza de detalhes sua experiência:

- Pois é, vou lhes contar. Eu tinha, como falei, 14 anos, e visitei aquele antro a primeira vez por opção de meu pai. Naquela época, vocês sabem... era tradição familiar que nossos pais nos apresentassem a vida, inclusive nos levando para o cabaré. E tá viva na minha memória a face daquela garota, que não devia ter mais que seus dezesseis, dezessete. Seu rosto era branquinho, com um rosa presente em sua pele, além dos seus olhos castanhos, quase de um dourado bem polido, que eram a coisa mais linda que já tinha visto na minha curta vida. E, posso dizer, a certeza que eu tive naquele dia eu mantenho até hoje, mais de meio século depois!

Nossa atenção já estava presíssima à descrição que ele faria da garota, do ambiente, da relação que teriam e de tudo que se passava em sua mente de moleque.

- Meu pai - continuou - me ofereceu a liberdade de escolher a garota que quisesse para passar a noite, e eu não hesitei em escolhê-la! Ela me disse que se chamava Cecília, me levou rapidamente a um quarto, e, por mais que eu tentasse, entre gaguejos e limpadas na testa, engatar uma conversa, ela não tava afim de papo. Mantinha um sorriso no canto dos belos lábios avermelhados e carnudos feito massa corrida, no entanto provavelmente recebera a proibição expressa em conversar qualquer coisa com qualquer um, embora aos poucos ela fosse se abrindo. Isso me deixou melancólico, mas eu devia estar feliz, oras, ia transar com o primeiro amor da minha vida, isso não é o desejo de todos??

- Não exatamente... - discordei - talvez aquela sinceridade de que tínhamos falado consiste justamente no fato de que o primeiro amor é quase sempre mais platônico que, necessariamente, carnal...

Zé concordou comigo. Cortez balançou a cabeça complacente, como se já discordasse do que acabara de dizer. E daria seqüência:

- Porra, acho que foi por isso que não rolou... eu não consegui, entende? Não consegui, na minha primeira vez! Jurei pra ela que aquilo não importava, que todo meu amor era maior que aquilo tudo, até que minha brocha, mas o som alto de música ruim - era um fado português que invadia todos os cubículos do bordel - impedia a gente de sentar na cama e conversar à vontade. Mas sabe o que é mais incrível? Ela aos poucos foi se abrindo, talvez porque eu tenha sido o único cara que se interessou mais em ouvir sua voz que em vê-la nua, e o único a não ter-lhe dado uns tapas na cara. Cecília me disse que esperaria, até o último de seus dias, a vinda daquele que a tiraria daquela vida e com quem dividiria o maior amor já visto!

Cortez nos contou que, dez anos depois, quando já era um poeta conhecido nos círculos literários da Cidade Alta, voltaria ao bordel e a pediria em casamento. Porém, Carmem (esse foi o nome que ela disse ter, desta vez, e afirmou que nunca se chamou Cecília na vida) já estava casada com o "Anel Prateato", apelido do seu cafetão, e ela tinha se tornado, na prática, a dona do cabaré; de modo algum ela pretenderia largar a boquinha que tinha nessa condição pelo risco de sair e viver um romance com um poeta que só ganhava uns trocados com a publicação de elegias nos parcos semanários locais.

Após o fim de sua história, permanecemos, assim, uns três minutos calados, nós três.

- É foda... - disse alguém, tão baixinho que eu nem pude saber de onde veio, eu mesmo que poderia ter resmungado e não percebi.

- Agora minha vez... vou lhes contar a minha história, que se deu nessas mesmas ruas, anos e anos atrás - disse o trintão!

Bebeu de um só gole o copo de cerveja que eu lhe oferecera, passou as mãos nos lábios, esfregou-as e começou:

- Houve uma garota que cresceu comigo, na rua onde morei quando moleque, há coisa de umas cinco quadras daqui. Ela se chamava Alícia, e era a única criança da rua, além de mim. Ou seja: era com ela que eu brincava, com ela que dançava nas festinhas do bairro, etc. Mas nunca demonstrei maiores interesses.

Vez ou outra, ele pausava para reordenar a história, aparentemente organizadas de forma confusa em sua cabeça, e continuava:

- Ela sempre dizia que a gente era tão chegados, que merecíamos nos casar no futuro. E claro que eu nunca gostei daquilo, a gente, quando criança, nunca gosta, né? Mesmo que eu não tivesse vivido num círculo de garotos eu também tinha esse preconceito, e pá...

Nova pausa, novos goles de cerveja e um estalo, como quem pensa "ah, lembrei!":

- Assim foi até nossos doze, treze anos, cara... ela sempre muito gentil, muito doce, muito tudo e eu desdenhando. Até que, mais ou menos por essa fase, chegou um cara no bairro, o Herbert, de nossa idade, menino de uma família de porte mais apresentável, era um abobado engomadinho, mas que logo chamou a atenção da Alícia. E, meus amigos, o maior nó que já tive na garganta foi quando ela recusou a idéia de dançar comigo para dançar com ele! Que droga, vocês imaginam o abalo que isso fez na minha cabeça? Passou um filme, caras, completo, do início ao fim!

Cortez acompanhava atentamente cada movimento nos olhos do nosso contador. Sua atenção o fazia até esquecer de sua bebida e do suor que tomava praticamente todos os poros de seu rosto. Não seria exagero, se, na verdade, aquilo tudo não fosse suor, e sim lágrimas, cuja quantidade seria impossível sair somente dos olhos...

- Eu solucei e chorei na mesma hora - continuou Zé -, me lembrei de tudo que passamos e, mais ainda, de tudo que a gente DEVERIA passar juntos! Me senti o mais filha-da-puta dos homens. Depois daquilo, eu bem que tentaria, mas nunca mais teria a completa atenção da Alícia. Aliás, menos de três meses depois, ela e o novato do bairro já eram namoradinhos, e, três anos depois, se casariam. Vocês acreditam?

Balancei a cabeça negativamente, e olhando pra baixo, como se estivesse interpretando a decepção do próprio Zé em sua história...

- Pô, eu cometi a maior besteira da minha vida - prosseguiu -, mas eu tentei corrigir, da pior forma possível, vocês podem até dizer. A Alícia tinha uma irmã dez anos mais nova, a Líria, que quando tinha seus treze, catorze, eu contava já quase vinte e cinco. Mas eu via nessa garotinha a própria expressão de meu amor perdido. Foi por isso que namoramos escondidos (tá louco se alguém descobre que eu tava namorando aquela guria?), e nos casaríamos um bocado de anos depois...

O ar de estupefação agora tomava conta de minha face e da do Cortez...

- Quer dizer então que a Líria...?

- Exato! A Líria... pô, nunca gostei tanto assim da Líria, mas sabe aquela sensação de você querer ter algo da pessoa que ama, sei lá, nem que seja uma lembrança, um clone... no caso, optei pela irmã. A Líria era uma bela garota e até uma ótima companhia... mas tudo que sinto por ela, não se iguala a tudo que já senti e que ainda sinto por sua irmã, que hoje não fala mais comigo e, provavelmente, foi a arquiteta de nossa separação... ela não queria que seu cunhado fosse um dono de boteco, né?

Cortez ficou puto.

- O que você fez não se faz com uma mulher, seu imbecil!

Zé Roberto apenas abaixou a cabeça e disse, como uma criança que chora:

- Poxa, eu só queria...

Mais minutos de silêncio entre nós.

- Tudo bem, tudo bem - disse eu -, avaliar as coisas sem levar em conta o contexto, as opções envolvidas e afins é, às vezes, uma atitude mais filha-da-puta que a atitude propriamente dita do Zé Roberto em traçar - sem trocadilhos, por favor - seu plano B, em casando com a irmã da garota que é objeto de seu desejo.

Agora era a minha vez.

- Minha história há de ser mais boba que a de vocês, talvez. É uma necessidade dos tempos modernos, né? Tudo hoje é bobagem... até as histórias de amor. De qualquer modo, a primeira vez que me perguntaram se eu acreditava em coisas como "amor à primeira vista" foi lá pelos quinze, dezesseis anos. E eu não hesitava em dizer que SIM, porque eu já tive, antes de tudo, o meu amor à primeira vista...

Com o maior dos respeitos, os dois agora me ouviam cuidadosamente, pegando cada palavra.

- Bem, o começo de tudo, caras, foi num ônibus. Eu estava lá, indo sozinho para a escola, tinha exatos treze anos, condução lotada, muita gente falando, até que de repente... de repente, cara, subiu uma garota que me prendeu a atenção no mesmo instante! Sabe o que dá..? Não sei o que vi de tão especial assim... porque ela era linda, mas lindas muitas garotas eram e nunca me fizeram sentir aquilo... mas ela, com seu nariz arrebitado, sua boca pequena, seus cabelos curtos, a coisa mais bela que já vi na vida, terminando pouco abaixo do pescoço, seus olhos claros, sua nuca que exalava um perfume que, tenho certeza, nunca mais sentirei nunca noutra garota, sua perfeição em formas ia muito além da beleza vaga das demais meninas... ela realmente tinha um quê de especial.

Bebi um gole e continuei rapidamente... estava revivendo a história, ali, diante de mim, e não queria parar um segundo sequer!

- Cara, nessa primeira vez, ela sentou-se do outro lado do ônibus, bem longe de mim... eu segui a viagem toda olhando para a janela, não ousava virar para contemplá-la... mas teve um momento que eu disse: "vou olhar".. e na hora que virei, no exato instante, ela olhava pra mim - e desviou o olhar desesperadamente! Cara, ela estava olhando pra mim!! Tem idéia da sensação de poder e conquista que se instalou em mim quando saquei isso?!?

- hehehehehehehehehe... sorriu vagarosamente o Cortez, com jeito de quem entende aquilo que senti.

- Sabe, bicho.. durante dias, foi assim... maior prazer maior era somente poder apreciá-la no ônibus. Mas decidi fazer mais! Então eu a segui... segui pra saber pra aonde ela ia... e saquei que ela cuidava duma loja de bombons que depoius soube que era da mãe dela, lá perto do antigo cinema Rio Verde, onde as pessoas compravam guloseimas quando iam pra sessão.

- Tá, já sei... você passou a comprar bombons lá, né? - perguntou sabiamente o Zé. Ele estava certo.

Relatei então, o primeiro encontro que tive com ela nessa loja, que tentei demonstrar ser por acaso, né?... Ao que entrei na lojinha, ela pareceu tão nervosa quanto eu por me ver ali. Eu cheguei e, meio nervoso, disse somente:

- Olá.

- Olá...

- Você tem...? - pensei em alguma coisa, qualquer coisa, e lhe pedi, sob tremedeiras, suor e frio na espinha...

- Hmmm... tenho. Vai ver um filme com alguém, é?

- Bom... vou ver um filme sim... mas vou ver sozinho.

- Ah...

Passei a ir ao cinema (e por conseqüência, a loja) com certa freqüência, coisa de uma vez por semana, para poder conversar com a Fernanda - taí seu nome... sempre passava poucos minutos, no entanto. Eu já não a via, porém, nos ônibus. Isso, ela me explicaria.

- Sabe, eu morava com meus tios, lá no seu bairro... é o seu bairro, né? Pois é... estive morando com eles, meus pais são separados, meu pai mora em Curitiba, e minha mãe aqui, mas já tá se restabelecendo e tô com ela... mas em breve, terei que optar com qual dos dois vou querer morar em definitivo...

Essas coisas me violentavam, somente a suspeita de que ela poderia ir embora e eu nunca mais a veria. Enquanto eu contava a história, Cortez dava umas interrupções, comentando que com ele acontecera caso parecido. Mas não tomou a vez...

- Até que aconteceu uma coisa - continuei - que eu não esperava: nos reencontramos na condução. Foi o maior momento de minha vida, quando a pude ver sorrindo e vindo em minha direção, lá nos fundos do ônibus, e sentando a meu lado, no banco que fica logo ao lado da porta. Eu estava no céu, caras...

- No céu! - repetiu Zé Roberto.

- Vocês sabem o que é? Puxa, nossa conversa foi longuíssima durante a viagem, mas eu, um moleque idiota, não conseguia expressar nada do que eu realmente queria... durante o trajeto trocamos cortejantes olhares, e cheguei a ensaiar a possibilidade de pegar na sua mão... puts, como eu era um babaca!

- E sobre o que conversavam?

- Essa é a questão... ela disse que voltou a pegar o ônibus por uma razão lá não tão positiva... ela estava indo à casa dos tios, ia pegar as suas coisas, e provavelmente embarcaria pra Curitiba...

- Puta-que-pariu! - gritou Cortez, dando um murro na mesa...

- Pois é, cara... ela falou tanta coisa, sabe, mas eu não me liguei em conteúdo, só na forma... eu não me lembro mais de suas palavras, porém sua voz tá viva em minha cabeça, isso é curioso... passei a viagem contemplando-a alegremente... isso até saber que ela estava indo embora. Mas ela me disse que a decisão não era definitiva. Que poderia ficar, se fosse seu desejo. Nunca me esquecerei, porém, de suas últimas palavras, já perto do ponto em que desceria, quando me falou: "... e eu poderia até permanecer aqui... com certeza ficaria, se houvesse algo que me pedisse pra ficar..."

Eu não consegui lhe responder uma palavra.

O ponto dela estava chegando e não teríamos mais que uns trinta segundos. Mesmo assim, nada dissemos. O ar permanecia cativante, ela balançava lentamente sua cabeça, mordia muito lentamente os lábios, seus olhos estavam fixos nos meus, e naquele instante, que pra mim parece nunca acabar, eu senti que realmente poderia tê-la comigo, naquele instante percebi que realmente existia um elo forte que une um casal e que explica o fato de existirem, eternamente, a todos tempo, toda sorte de artistas loucos pra falar de amor. Naquele instante, e disso tenho certeza até hoje, até que dava para beijá-la... mas assim não aconteceu. Extintos os trinta segundos, ela, quase num pulo, com olhos lacrimejantes de desapontamento, se levantou, desceu do ônibus e eu nunca mais a vi...

- E você nunca procurou saber o que houve com ela?

- Bá... procurei sim. Não faz tanto tempo, deve ter meses, eu pus seu nome num desses sites de relacionamentos, e você não vai acreditar no que vi, cara... uma comunidade com uma foto dela, dedicada à sua memória! Ela morreu, bicho!! Tem idéia do golpe que isso foi no meu peito?!

- Meu Deus... ela morreu de quê?

- Não sei... fechei na mesma hora.

Ambos balançaram a cabeça condescendentes. Fariam a mesma coisa, se fosse o caso. Permanecemos, então, em silêncio, durante muito tempo.

- É a eterna fragilidade do homem diante de qualquer mulher, seja santa ou puta - disse Cortez, relembrando um velho amigo nosso.

Tomamos lá mais um pouco de cerveja e pinga e voltaríamos para nossa vida. Cortez, em seus setenta anos de promiscuidades, mantendo sua relação com pelo menos três empregadas domésticas que moravam no mesmo pensionato que ele, Zé Roberto em sua eterna síndrome de Bandini, e eu, revolto em meu niilismo, bem distante de qualquer coisa que se aproxime de um desses romances de cinema.

Provavelmente, o Cortez encontrará o descanso em breve. Sua saúde está desgastada, por mais que ele negue isso e até demonstre vigor tendo tantas mulheres na alta idade. Zé Roberto é outro que tende a permanecer vivo somente como lembrança... em especial porque não pretendo voltar naquele recinto cor-de-rosa, nem ele gosta de receber visitas, apesar da boa conversa que tivemos. O que ficou registrado nesse papo, no fim das contas, foi, talvez, o último momento de sinceridade em relação às mulheres. Tudo que virá depois, como disse o nosso guru, é caso perdido.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Mais uma página no imenso livro do rock

Eu estava sentado no chão e afinando a guitarra, supernervoso por participar de meu primeiro festival. Tínhamos menos de um ano de banda, mas o entrosamento já era avançado, apesar dos poucos ensaios e apresentações que fizéramos até ali. A rapaziada no pretenso camarim cujo teto tinha menos de dois metros de altura - o que não era problema para este que vos escreve, visto que sempre fui baixinho, diminuto, imperceptível - ficava tomando tragos de batidas de vinho com alguma vitamina, num ritmo frenético.

Até pouco tempo antes, eu era um moleque pacato, deslocado e mau-humorado, do tipo que se senta na frente na sala e não fala com ninguém. Tratava-se do ano 2000, já no clima dos festejos dos 500 anos da República, e eu, então com 15 anos, estava lá da sala, entediado com tudo aquilo e metido a rebelde, vestido com a camisa da farda rabiscada com os dizeres "pau no cu do 5º centenário", de modo que enfim percebi que alguém pensava minimamente parecido comigo, que sempre detestei essas cerimônias coletivas, quando Eric veio me conhecer e ficamos de conversa por longo tempo naquele mesmo dia; um gaúcho branquelo e racista em potencial, mas com quem até que me dei bem. O nome do figura era Eric, e não tardou até eu conhecer Maurício, um lutador de jiu-jitsu de face eternamente carrancuda, outro de sua trupe.

Totalmente deslocados do ambiente de festas que se via em todos os locais - faixas, out-doors, camisetas, televisão -, decidimos aproveitar o elo que havia entre nós e organizar uma banda bem ao estilo punk, já que nenhum de nós tinha lá maiores conhecimentos musicais. Com os instrumentos emprestados do pai de Eric, que sempre sonhou em ver o filho como um virtuoso músico, formamos o Cavalo Amarelo, nome de referências históricas e literárias inglesas, de onde também vinha as nossas influências musicais. Com alguns acordes decorados, consegui desenrolar na guitarra, até entrar, no ano seguinte, André Rubão, um solista magistral, um autêntico guitar man, a quem eu acompanharia no som. A partir daí tudo aconteceria rapidamente na minha vida. O que passou a existir pra mim foi a efemeridade das festas, das garotas, da benzina e de tudo que tinha caído do céu num impacto animal. Eu já não era mais o cara mau-humorado e deslocado de antes.

Oito meses depois de criado o grupelho, fomos convidados para o Festival de Rock da Cidade-Praia, nome que fazia referência ao local, que, convenhamos, ficava a muitos quilômetros do litoral, e cuja identidade praiana na estética era nula. O festival foi realizado num barzinho que não me recordo o nome, mas bem me lembro que não havia ninguém que tivesse a idade próxima à nossa. Praticamente só havia coroa, porém todos, uns graças a umas doses de álcool no sangue, muito empolgados com o que veriam. Além deles, restavam umas púberes mais discretas, sendo que algumas iriam assistir a seus namorados e outras que iriam esperar pra ver se descolava algum garoto para se divertir na Praça Presidente Sarney, que de praça não tinha nada: era tudo mato. Para nosso azar, fomos a última banda da noite e quando saímos já não restava mais nenhuma pequena solitária no bar.

Não tinha mais que quatro bandas aquela noite, das oito que estavam inscritas. Mas para nós, aquilo valia como o Rock in Rio I. Era alguma data no mês de abril, o Dia Internacional do Homem, e, em referência, o Rubão entrou no palco só de cueca. Houve até quem aplaudisse... quando cheguei no palco, saquei que tinha esquecido a set list e introduzi errado várias músicas. De cara, vimos protestos e aplausos logo na primeira música, quando o Eric levou uma latada na cabeça após o desabafo dos primeiros versos de nossa canção Pátria Puta: "vivendo na terra em que tudo tarda, vivendo na merda na periferia do Brasil, ignorados pela pátria puta que nos pariu"... Eric, porém, cabeçudo como era, continuaria a cantar e levaria ainda pelo menos meia dúzia de latas, mas venceu pelo cansaço aqueles que reclamavam (enquanto outros aplaudiam e derramavam seus palavrões). O Eric tocava baixo e cantava, mas nesse dia sua potente voz falhou diversas vezes, e tive que dividir com ele o vocal em um bocado de músicas. Quem me conhece sabe o estrago que é minha voz... depois de encher a cara de cerveja e aguardente, porém, o público presente não ligava para tais bobagens. Ainda assim, tomei latada a cada desafino. E inclusive jogaram cerveja uma vez no Rubão - este era mais fresco, por qualquer coisa fazia arruaça. Chegou a tirar a cueca na apresentação e foi obrigado a sair do palco. Felizmente, isso só aconteceria quando já estávamos no encerramento de nossa apresentação.

Ao fim do festival, porém, veio a surpresa: embora o bar já estivesse esvaziado, nossa empolgação foi única quando soubemos que fomos a melhor banda da noite! E inclusive ganhamos uma plaquinha do barzinho. Além de melhor banda, vencemos com melhor guitarra solo e melhor bateria, com o Maurício. Ficamos ainda no bar até a metade da madrugada enchendo a cara e voltaríamos a pé cantando pelas ruas com os instrumentos pendurados, uns 15km de tropeços e cambaleios até chegar ao destino - porém, algo ainda aconteceria sob o testemunho da lua e das parcas estrelas visíveis.

Quando passávamos por dentro de um pequeno bosque (na realidade, uma outra praça esquecida pelo Estado e dominada por mato) para cortar o caminho, eis que nos aparece um grupo de uns sete ou oito delinqüentes e nos cerca. Na nossa condição, não tínhamos como resistir a nada, mas ainda assim tentamos, em vão: deram-nos murros e socos, roubaram nossas placas de premiação e nos deixaram lá, jogados nas ervas-daninhas, temporariamente incapacitados a levantar, e só dispostos a sentir pena de nós mesmos por não termos defendido o mínimo de nossa dignidade: naquele momento, os nossos pequenos troféus. Roubaram praticamente todos, as placas de melhor banda que os quatro tinham e a de melhor guitarra do Rubão. Só não roubaram a de melhor bateria do Mauricio, já que ele, em seu talento como lutador de artes marciais, conseguiu mantê-la protegida. Mas mesmo ele estava fragilizado, tinha bebido bastante e já estava muito cansado e abatido.

Procuramos o primeiro meio-fio e sentamos para, como consolo, terminar de beber o que restava das duas garrafas de Mackinlays com que o dono do bar também nos brindara. Nos jogamos para trás e ficamos lá, cantando baixinho como um coral melancólico e sem platéia, olhando para o céu vazio e cinza, e só seríamos acordados ao amanhecer, quando a dona da casa em frente à qual adormecemos nos expulsaria a vassouradas.

A nossa banda, embora tivéssemos uma boa relação de cumplicidade e amizade, não duraria mais muito tempo. O Mauricio logo aprontaria das suas com uma tiete nossa e teria uma filha, que chamaria de Clara, e foi o primeiro a sair. Eu aproveitei a saída dele, e, naquele ano em que eu faria 16, coisas novas se me apresentavam, e diferentes do que experimentava até ali. Eu me liguei mais em Aldous Huxley, Pink Floyd, Karl Marx, Luiz Buñuel. Meu lugar não era mais ali. Pulei fora. O Eric, cuja voz forte falhava vez ou outra, a perderia quase completamente num acidente de carro que sofreríamos pouco depois. Suas cordas vocais foram destroçadas, e hoje faz um esforço animal se quiser que sua voz seja ouvida a mais de cinco passos. Sua família logo o mandaria para os Pampas, "aquilo que é terra de gente", distante de nossas más influências, e ele seria o terceiro membro a sair da banda. Eu o vi ainda uma vez em 2005 quando ele voltou a Natal para passar uns dias. Na ocasião, dividiríamos umas bebidas e escreveríamos novas canções, com músicas dele e letras minhas, como sempre foi. Entretanto, ele foi embora rapidamente, como esperado, e as poucas músicas que chegamos a gravar toscamente na guitarra e voz se perderam na última vez em que formatei meu computador.

André Rubão ficou sozinho na banda, que não tinha mais nenhum membro original. Chamaria uns amigos para continuarem tocando dali em diante, porém a banda acabaria pouco depois - exatamente um ano depois do fatídico dia do festival e das premiações roubadas.

Hoje já não tenho nenhuma lembrança material da banda. A única que restaria seria o pequeno troféu rústico e esteticamente muito feio, mas bastante simbólico. Fotos, raramente tiramos juntas. O Cavalo Amarelo persiste, porém, na minha memória, como o marco que mudaria minha vida dali em diante. Faria de mim mais que platéia. Embora fizéssemos coisas bonitas, com umas musiquetas românticas aqui e ali, nossa idéia de banda era protestar e escrever sobre nossas angústias de adolescentes. Hoje, minhas angústias já não são de adolescentes, mas permanecem. Ainda tentei desenrolar outras bandas depois, uma idéia que não sairia do lugar, já que não há mais quem faça banda como expressão existencial de si próprio. A música pra mim nunca foi curtição; para um chato como eu, o que mais se aproximava de curtir era estar numa cama com uma garota ou numa mesa de bar com uns amigos. Já música, assim como contos, eu sempre fiz e assimilei quando estava aborrecido ou irritado. Hoje, a música tem papel pouco destacado na minha vida. O eterno mau humor e o deslocamento que outrora eram parte de minha personalidade, por sua vez, voltaram. Pra ficar.