domingo, 25 de julho de 2010

Antes de estourar os miolos

É muito fácil parecer moderno,
enquanto se é, na verdade, o maior idiota jamais nascido
.
Charles Bukowski


Como um sujeito bem Século XX, eu me prostei diante da TV ao modo de quem espera que ela ofereça respostas, feito uma divindade moderna e literalmente antenada com os novos tempos. Na tela plana, o meu programa de entrevistas favorito - Provocações - aproximava-se do fim, e, como marca desse momento de clímax, perguntou o entrevistador a mais um intrépido convidado:

- Que é a vida?

A resposta não se deu imediatamente... fez-se um silêncio; jogou-se um sorrisinho discreto, o olhar se perde no alto. Como se não houvesse nada melhor a dizer, eis a resposta, que veio pausada e reticentemente:

- Até hoje estou tentando entender...

Eu decidi desligar a TV, e com isso perdi o poema que fecha o programa. Mas de que servia o poema? O momento mais importante da entrevista, aquele que poderia oferecer a chave da questão - o que é a vida? -, passou, e, na minha cabeça, foi novamente decepcionante. Mais uma vez, para mim que tanto penso no que é a vida, não tive nenhuma ajuda na resposta desses personagens que semanalmente fogem da mesma pergunta com palavreados vazios travestidos com um ar intelectualizado, experimentado.

Que hão de responder sobre a vida, afinal, aqueles que perdem o tempo apenas a vivê-la, sem nem questioná-la? Acho que por nunca se perguntarem é que nunca têm a resposta. Todas as vezes em que assisto ao programa e vejo a pergunta sendo feita, respondo, espontaneamente, e sempre uma resposta diferente, como se a inquirição tivesse sido feita para mim. Mas não é. Na verdade, ando tão desacostumado a responder perguntas, coisa que somente faço nas salas de aulas para os alunos - que me perguntam repetidamente de quantos pontos estão precisando para passar -, que até demoro a responder quando a moça da padaria ou o garçom do botequim perguntam se desejo algo mais; eu sempre penso em dizer que sim, que desejo bastantes coisas mais!, mas certamente as tais coisas não se encontrariam nas prateleiras nem nos cardápios.

Como não conseguia dormir desde a hora do programa até essa alta madrugada de frio e de chuva forte, decidi sentar e dissertar mil coisas a respeito da vida, mas na medida em que pensava, o ritmo da escrita diminuía numa constante gradação. Os poetas chinfrins gostam de dizer que a vida não pode ser explicada, e não talvez não seja possível mesmo. Não posso, nesse quarto, tecer respostas sobre ela quando noutros tantos quartos escuros muitos ainda mais vividos que eu não conseguiram encontrá-la, como Hemingway, que talvez só a tenha obtido no nanossegundo imediatamente anterior àquele em que sua bala estourava seus próprios miolos, ou como o Fante, que de tanto viver num quarto escuro, passou a ver escura toda a vida quando a cegueira o engoliu.

Lembro-me de quando trabalhei numa peixaria, carregando nas costas pesados pacotes cheios, sempre ansioso por ver terminar aquele expediente maldito, que parecia eterno. Não bastasse o desconforto do peso que carregava, tinha ainda que aturar as ladainhas da rapaziada que trabalhava comigo. Homens másculos e falantes demais, todos sempre com um sorriso despojado enquanto o cigarro pende no canto da boca, sempre xingando a uns e a outros - eu sempre na lista de alvos primordiais - e eu sempre na minha, com ódio de todos eles, da minha família, de Deus e do mundo. Uma vez, um desses sujeitos, o Alverga, disse para mim:

- Você não vai com a nossa cara, seu merdinha. Mas foda-se. A vida é assim, e você terá que suportá-la.

Não durei nem um mês completo na peixaria. Mas o temor daquela vida de merda ainda me acompanhou durante muito tempo - na verdade, ainda está por aí.

Eu sempre achei tão vagas essas percepções que se costuma ter da vida, essas coisas que sempre vêm à mente quando pensamos nos colegas ou parentes que se foram por acidentes diversos ou por inconsequências babacas, nos aperreios acumulados na vida escolar, familiar, nas caminhadas noturnas pela Cidade Alta, completamente vazia e tomada por vagabundos andarilhos, nas noites passadas em banheiros trancados, ainda ouvindo do outro lado da porta a soturna música do The Cure, que hoje já não me significa muito; essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo. Para fugir, por ora, dessa atmosfera nada positiva que me persegue, só mesmo tentando dormir, e mais uma vez retardar a reflexão que me levará àquela resposta definitiva...



segunda-feira, 28 de junho de 2010

Inês dorme

Eu não consigo nem escutar música enquanto escrevo, não consigo e não quero que a luz da manhã ilumine o quarto, tranco todas as portas e janelas, mas ainda assim o recinto é invadido por feixes luminosos intrusos, acompanhados dos ruídos que aos poucos adentram no ambiente; é manhã de domingo, a pele nem sente o calor do sol (ainda), no entanto, embora o dia esteja começando, para mim isso é apenas o desfecho de um sábado estranho, em que amanheci na casa de amigos, ressacado e triste, três horas antes dos ditos cujos acordarem, e ficando, assim, preso à solidão daquele ambiente - mesmo que a casa abrigasse ainda meia dúzia de gentes, todas adormecidas. Quase sempre vou embora nessas horas, mas desta vez decidi esperar, e esperei, lendo Maupassant para passar o tempo - é só para o que ele serve, hoje eu sei. O tempo enfim passou, despertando os amigos um a um, sendo a Clara a primeira, já de prontidão para preparar o almoço. Ela também estava ressacada, com pressão baixa e tontura: até a tarde estaria em um prontossocorro. Depois acordariam os demais, um a um, e essa movimentação toda no sábado é que o fez se me parecer diferente, estranho (no sábado normalmente não vejo ninguém).

Fui para casa no início da noite, porém mal cheguei e já fui saindo novamente, pois tinha ainda um outro compromisso: iria me encontrar com outros amigos, iríamos para outra festa. Fôramos convidados pela Inês, uma garota muito jovem, muito bonita, muito louca, que conhecia há dez dias e com quem tenho uma convergência de pensamentos tal como tenho com pouquíssima gente, de maneira que sempre falávamos sobre coisas tantas, sobre livros, sobre sexo, sobre sei lá... No dia em que nos conhecemos ela me deu vários presentes, entre tranquilizantes, bebida e até uma camisa que havia comprado para o namorado, mas ele quis terminar a relação antes que ela o presenteasse (tudo isso é muito confuso para mim, que não ganho presentes, que não tomo calmantes na companhia de ninguém, que não sei fazer amizades). Eu vi então algum valor real na Inês, o que me faz pensar nessas coisas involuntariamente, e ela me lembra as adolescentes que eu conhecia noutros tempos e que tinham vocabulário rico e livre, e postura igualmente ousada mas com as quais eu vivia somente muito rapidamente. Inês tem 15 anos, mas sabe nessa idade que realmente muitas vezes é preciso fazer que a vida pare de doer, e tem os seus subterfúgios que não são usuais no seu círculo, na sua escola, na sua rua, na sua família; ela é então ignorada e maltratada por tanto a martelarem, a olharem de lado... Não sei, não sou ela para saber, mas eu imagino, é por isso que eu a valorizo tanto ela sendo essa ovelha desgarrada, porque as ovelhas desgarradas sofrem mais e amam mais - sentem tudo muito mais intensamente.

Eu me arrumei todo para a festa em questão, mas não era a festa em si que me interessava e sim o momento e a confraria com um grupo pequeno de amigos, quatro no total. Sequer sabíamos de quem era a celebração, era um aniversário de uma conhecida de Inês, mas nós não tínhamos dinheiro para sair e beber, então ela nos fizera o convite para que fôssemos de penetra e assim o fizemos: entramos na festa e, uma vez sentados, tratamos de beber e de comer tudo o que nos era oferecido, entre salgados, entre coquetéis, entre uísque, e tudo isso e aquilo que acontecem nessas festas grandes (do tipo que são organizadas em clubes e afins), e isso já me bastava sobremaneira, sendo todo o resto por mim contínua e solenemente ignorando, fossem as outras pessoas, a música ou a decoração do local; a única pessoa além do garçom que visitava a mesa de nosso quarteto era justamente a Inês, que ficava variando, passava quinze minutos com seus pais e irmãos, e depois passava mais quinze conosco, e ela sentia o nervosismo de alguns de nós que não estavam habituados a entrar de penetra em festas. Foi um momento que até eu achei divertido, e eu sou tão chato para ver diversão nas coisas que, enquanto o pessoal ficava de risadas, eu pensava apenas em como estava sendo legal aquilo tudo.

Depois que de uma certa quantidade de uísque ingerida, logo já queríamos nos deslocar mais, e fomos todos - eu, a Inês e os amigos - para uma área do clube onde ficam as piscinas, e onde não chegam as luzes da festa nem muito menos sua torpe decoração. Éramos apenas vultos no meio do breu, só nos importava mesmo enxergar a nós próprios, e embora a conversa estivesse boa, ela foi tragicamente cortada pela mãe da Inês que, de longe, viu a filha entre nós, a filha adolescente entre quatro caras - uma visão suspeita, ainda que nada de mal lhe tivéssemos feito, proposto ou sequer cogitado. A mãe interrompeu a nossa prosa e obrigou a filha a acompanhá-la até a mesa da família, e por algum tempo ficamos todos muito mal, porque sabíamos o peso e a dificuldade que muitos têm, sobretudo aos 15 anos, de se relacionar com família.

Brindamos à Inês e continuamos a beber bastante e a comer inclusive, até que ela depois de um tempo voltou, surpreendendo-nos e alegrando-nos, e voltamos a conversar todos, mas sabíamos que a coisa não andava tão bem, porque estávamos todos bêbados mas a Inês estava um pouco pior: a essa altura já havia se sentado e deitado na grama, estava começando a ficar grogue, ela bebera muito pouco conosco e ficamos preocupados, porque sabíamos que ela tinha bebido mais do que o que tínhamos visto, e sabíamos (porque ela mesmo nos dissera) que estava dopada de tantos sedativos que tinha tomado antes de sair de casa.

Mesmo com todas essas circunstâncias negativas, ela nos acompanhava na conversa, lançava assuntos, falava de meus textos, dizia que queria ser personagem de um de meus contos, e eu apenas ria, porque não é apenas ela que diz isso, já teve outras também que pediram o mesmo. Eu acho curioso porque não há nada de glamouroso nas garotas sobre quem escrevo, muito menos de bonito... pelo contrário: as que já se viram retratadas neles só viram o aspecto negativo da coisa...

Teríamos que viver alguma coisa juntos, eu lhe disse, porque não sou tão criativo a ponto de construir histórias do zero.

Estamos vivendo, eu tenho um bom papo, é disso que gosta nas garotas, não é?, ela pergunta, e está certa, eu nem lhe havia comentado sobre isso mas ela lê o que escrevo e assim já me conhece bem, e por isso falava de sexo comigo e até se propõs a fazer, por talvez brincar ou por talvez querer, mas ela sabia que sexo pra mim já não é algo tão interessante quanto o era uns dez anos atrás, quando eu tinha a sua idade, 15 anos.

Mas como toda merda que acontece sempre ocorre duas vezes, a mãe dela mais uma vez viria buscá-la, no entanto desta vez sua autoridade não será tão subjugadora, porque Inês não tem muitas condições de se levantar do chão (a essa altura, já está meio desorientada e enjoada), e tudo o que a mãe lhe diz é motivo de retruca, e então ficamos nós, seus amigos, sua mãe e o seu irmão, que chegaria depois, a observar a Inês no seu ato de calvário que ao mesmo tempo é um ato de liberdade; ela vomita na grama enquanto reclama das pessoas que a rodeiam e das coisas que a família a força a fazer, chora, vomita mais, e nós somos todo compaixão pelo seu sofrimento, vez que já passei por isso e outros no círculo também passaram. Num dado momento, mesmo sua mãe enfim sucumbiria a si mesma, e fica a perguntar-se o que poderia fazer ou o que teria feito de errado, mas de que importa?, ela não obteria respostas (talvez nunca obtenha)... Somente depois de regurgitar tudo o que lhe fazia mal fisiologicamente, a Inês se levanta. E então se pode vê-la melhor, ela estava até sorrindo, só que não um semblante de sorriso sexual, e sim o semblante de um menosprezo adolescente de rosto zombeteiro e abatido para o que acham de sua expressão e de seu ato.

Agora estou bem melhor, diz.

E sai caminhando a passos constantes, acompanhada pelo irmão e pela mãe. Mesmo se dissessem que estava suja ou cambaleante, ela ainda assim conseguia ser mais altiva que eles e conseguia ser mais bela que todas as garotas da festa. Uma beleza muito particular, uma beleza triste, um sol noturno. Inês se foi e deixou-nos absortos no mais pleno silêncio, e a última informação que teríamos dela é de que estava internada. Agora, Inês deve apenas permanecer em seu sono distante e inatingível, vivendo sua tortura após a qual continuar existindo é sempre a maior tragédia.


terça-feira, 8 de junho de 2010

O universo reprimido

Abra bem a boca, isso, assim, hmmm.

São com essas palavras da Janine que me recordo de ter começado o dia, hoje. Lembro bem porque ao ouvir-lhe dizer isso, percebi que eram 8h00 no relógio de parede. Janine era uma dentista, e fazia muito tempo que eu não visitava dentista algum; na verdade, não frequento qualquer consultório médico. Mas, até por fazer esse tempo todo, acho que uns cinco anos, decidi dar uma passada, só que nada que se assemelhasse a algum tratamento semanal. Apenas uma consulta de ocasião. Mas eu não sabia se a Janine concordava comigo que uma mera consulta seria suficiente.

Hmmmm, ela continuava murmurando. Hmmmm, hmmm.

Até que entre os murmúrios, teceu uma pergunta:

Por que não tem ido ao dentista?

Porque acho desagradável uma pessoa me tocando, eu lhe disse.

Hmmm. Acha desagradável só o fato de tocarem em você?, perguntou.

Sim.

E se fosse, hmm... E se fosse sua namorada?

Apenas acharia um pouco menos desagradável, respondi.

Enquanto a Janine me interrogava, eu me sentia desconfortável pelo fato de estar com a boca quase todo o tempo aberta, enquanto a dela estava escondida atrás da máscara. Era uma situação injusta. Eu estava desarmado. Minha língua saltava para todos os lados de tensão.

Podemos terminar?, pedi.

Ainda não. Vamos, abra mais.

Na medida em que aqueles troços metálicos faziam cócegas e sons opacos nos meus dentes e a minha saliva ia se acumulando pelo nervosismo, mais excreções preenchiam também o resto de meu corpo. Logo estava suando e lacrimejando, porque a visão fixada da Janine na minha boca me lembrava dos colegas de infância dos quais não sinto a menor saudade.

Abre a boca!, ordenavam eles. Porém, não o faziam por interesse terapêutico, mas somente para rir à vontade dos meus caninos acentuados e dos meus premolares entramelados.

Ha!Ha!Ha!, ainda ouço suas torpes risadas ecoando no universo reprimido da minha cabeça.

Nesses dias ruins, eu sempre chegava em casa e dizia para a minha mãe que meus dentes são horríveis e que eu queria ter outros dentes.

Você não tem dentes cariados, ela dizia.

Mas eu não gosto dos meus dentes.

Mas você não tem dentes cariados, repetia, e o fazia quantas vezes necessário fosse. Era uma sentença já cristalizada no seu vocabulário, para fazer minha propaganda a outras pessoas. Era como "meu filho só tem nota boa", ou "meu filho é muito educado". Só não fazia sentido ela repetir as mesmas coisas para mim, objeto de culto daquelas afirmações, independente dos defeitos que estivessem ocultos por trás delas.

Numa ocasião, chegou a vez dela - da minha mãe - quebrar seus dentes, sabe-se lá onde e como, e colocar uma dentadura postiça. Seu sorriso modou, ela rejuvenesceu, tudo parecia límpido e renascido. Um prodígio da engenharia odontológica a seu serviço; precisaria eu de um acidente de automóvel para consertar os meus?

Olha só - despertou-me da minha divagação a dentista Janine -, eu vou recomendar que você faça um tratamento costumeiro. Pegue essa ficha, vá ali na recepção e explique para a menina que fica lá, e ela já saberá como encaminhá-lo.

Estou com cáries?, perguntei, meio receoso; um receio reprimido desde a mais tenra idade.

Não.

Não estou com cáries?, repeti, como faço usualmente.

Não.

Agradeci, peguei a ficha e fui até a recepção. A menina responsável estava falando ao telefone e já tinha uma criança acompanhada de sua mãe ao balcão sendo atendida. Sentei e esperei. Pensei na coisa de fazer um tratamento, sabe-se lá por que - não entendia o que estava escrito na ficha -, e pensava no quanto aquilo me fazia rememorar coisas ruins de longos tempos atrás. Aproveitei que dificilmente a menina me atenderia nos minutos seguintes e deixei a ficha de consulta em cima do criado mudo, junto com as revistas Veja e Istoé, e fui embora.

Daqui a cinco anos volto.



sexta-feira, 2 de abril de 2010

Abaixando o volume

Hoje, eu estava escutando rádio
em volume alto,
e, nessas condições,
para passar bem o tempo
ative-me à análise;
primeiro do discurso
do locutor da FM,
a repetir inveteradamente as mesmas coisas:
as mesmas informações,
as mesmas promoções,
os mesmos elogios
para músicas diferentes,
do Parangolé com seu Rebolation
aos Dois Rios do Skank.
A única coisa que mudou
nos 40 minutos em que ouvi a tal rádio
foi a hora,
nada mais.

Minha segunda análise
foi à própria natureza do trabalho
daqueles - pobres - locutores
fechados em recintos assépticos,
estúdios maçantes, sem-graça,
e no entanto sendo obrigados a se manifestarem
como se estivessem numa autêntica
balada,
talvez numa praia,
enfim, qualquer lugar
cheio de pessoas bonitas
e de música percussiva,
e de sol e de alegria
ao redor.

Isso me fez mal.
Não gosto de FM. Porém,
escutava muito no passado.

Lembro-me
daquele programa
que trazia momentos de reflexão
acompanhados de traduções
de músicas escritas em inglês.
As letras diziam o mesmo
que as das canções brasileiras
(às vezes eram bem incoerentes),
mas nós sempre achávamos aquilo
o suprassumo
da composição.

Recordo-me de outro programa,
em que o radialista
narrava
histórias de desgraças humanas
escritas por ouvintes fracassados
para outros ouvintes fracassados,
ao som de um triste dedilhado.
Nunca me senti tão completo
enquanto ouvia rádio
como nessas
horas.

E, para finalizar,
rememoro também um outro programa
que passava nas madrugadas
e eu escutava diariamente,
sentado na poltrona da sala,
desta vez com o volume
bem baixo.
Eram madrugadas
em que eu - adolescente de autoestima
destroçada por esses bobos tropeços amorosos,
cuja amplitude nossa mente imatura
não consegue medir - me deleitava,
aos sons melancólicos.
Às vezes (muitas vezes),
eu ligava e pedia uma canção sem-graça
e na hora em que o apresentador
de voz grave e garbosa
perguntava-me para quem eu oferecia,
eu dizia, sem titubear:
para Kelly, no bairro de Capim Macio,
ou poderia dizer
para Cristina, no bairro de Lagoa Nova,
ou talvez
Para Alice, Sabrina, Camila,
"com muito amor",
todas em lugares dispersos pela cidade.
O locutor apenas não sabia
- ou talvez soubesse pela experiência -
que nenhuma dessas garotas existia,
senão na minha cabeça.
Elas, em suas existências
presas à minha imaginação,
eram como o próprio programa que eu ouvia:
apenas o escape
para um adolescente meio reservado
e com algumas tolas ilusões amorosas.
Tão desesperançoso era
esse adolescente, no entanto,
que todas as vezes em que ligava
em todos os dias
era sempre
para pedir a mesma música ruim
que se chamava:
A Vida Não Presta.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Condução lotada

Hoje eu voltava para casa de ônibus - muito lotado, devo dizer - e dei sorte de conseguir um lugar sentado, no lado do corredor. Enquanto viajava, notei que uns dois metros à minha frente voltava uma garota com quem eu já houvera ficado, apenas dado uns beijos, na verdade, uns dez anos atrás - nós tínhamos 13, 14, 15 anos, portanto -, e agora estávamos novamente próximos. Chamava-se Marcela, e não chegou a me ver. Então fiquei observando-a durante o trajeto. Ela estava em pé, e o ônibus estava, como dito, muito cheio. A Marcela estava tão imprensada que já quase se jogava em cima do passageiro sentado. Na posição em que estava, ela ficava até com a bunda bem arrebitada, favorecida pela calça jeans que vestia, que usava justamente com propósito de avantajar um pouco mais seu dote posterior. Inclinei um pouco a cabeça e constatei isso. Aliás, constatei também que todo passageiro que passava por ela tirava uma casquinha, com um sarro muito bem dado no seu belo traseiro - que não aproveitei nos meus tempos de adolescência fracassada recheada de profícua masturbação. Os sujeitos tentavam se aproveitar de toda maneira: os mais altos agachavam-se um pouco; os mais baixos ficavam na ponta dos pés, tudo na perspectiva de apontarem seus membros para a bunda circular da Marcela. Começaram a vir as paradas e o ônibus começou a esvaziar. Na medida em que o número de pessoas diminuia eu a via melhor. Ela continuava lá, em sua imutável posição. Estava nitidamente gostando daquilo. Isso se percebia nos seus olhos grandes, que ficavam maiores cada vez que passava alguém por trás, e perdiam-se completamente nessas horas. Ela tapava a boca com a mão, sabe-se lá o porquê. Algumas cadeiras vagavam perto de si, mas a Marcela oferecia para as pessoas ao seu redor e permanecia no mesmo estado em que se encontrava. Seu bumbum bem desenhado conservava-se numa posição que o realçava sobremaneira, e agora tornara-se não somente uma área de lazer da rapaziada que nela se esfregava quando se dirigia aos fundos do ônibus, mas também alvo de olhares (o que, com o ônibus lotado do modo que estava antes, não era possível). Não fui apenas eu, portanto, que notei o quanto ela gostava do esfrega-esfrega. Só quando a condução já estava indisfarçavelmente esvaziada ela se dirigiria até as últimas cadeiras, passando por mim sem reconhecer, e lá ficando até chegar seu ponto. Achei engraçada e patética a situação. Cheguei a sorrir boa parte do tempo em que assistia a esse ordinário espetáculo moderno. Neste momento em que escrevo, eu penso que podia até ser neura minha achar que ela estava empinando o bumbum pra rapaziada, mas na hora pensei apenas no quão vadia ela tinha se tornado ou, o que é mais provável, sempre houvera sido. Não sou perfeito. Mas a raiva dela já passou.





segunda-feira, 1 de março de 2010

Manuscrito

Tive um compromisso hoje com uma garota, uma dançarina. Fomos assistir a um espetáculo de dança guatemalteca. O que eu fui ver nesse lugar? Não sabia, mas até apreciei a dança. No começo, parecia sem-graça, mas de tanto ela me falar no ouvido, comecei a gostar. Sobretudo porque o evento para mim não me interessava. Era mero pretexto para ter a companhia.

A dança guatemalteca é assim, me dizia ela baixinho, parece tosca, parece chata, mas é como dançar forró... quem gosta não sabe explicar a beleza que existe no forró, né?

Eu ia acompanhando os movimentos no palco e os sussurros dela, quase adormecia durante algumas cenas cena, só não cheguei a tanto porque o som era incômodo, e eu não consigo ficar totalmente à vontade com sons que me são estranhos, principalmente quando se trata de músicas folclóricas, populares, de locais com os quais não tenho o menor elo.

Fiquei bastante pensativo porque eu é que a tinha convidado para sair. Mas ela não queria sair por sair, e eu não tinha nenhuma idéia. Quando a convido para sair trata-se, tão-somente, de sair mesmo, dar uma volta, sentar em algum lugar, uma praça, uma parada de ônibus, que seja. Eu queria só conversar, mas ela só sairia se fosse para ir a algum algum evento, como se sair sem ter um destino fosse algum pecado imperdoável. Foi quando lhe surgiu a idéia de ir para o espetáculo de dança. Terminado o espetáculo, conversamos um pouco, ela disse que estava tarde, teria faculdade no dia seguinte, levei-a pra casa, nos beijamos e fui embora. Ficamos juntos durante coisa de três horas, mas não tivemos nem vinte minutos de diálogo.

Na porta de sua casa, ela me disse que adorou. Eu lhe menti a mesma coisa. Mas depois que nos despedimos, senti que o dia não poderia acabar daquele jeito. Fui para um bar na Ribeira, porque é lá na Ribeira que estão alguns de meus bares favoritos. O problema é que ali os bares médios estão se tornando escassos pela proliferação de bares mais sofisticados, sobretudo nesses tempos em que a Ribeira tem se tornado mais um point turístico do que local de abrigo da boemia natalense.

Tive que me contentar com um bar novo - na época - por ali, até bem movimentado, situado na Rua Câmara Cascudo. Pedi uma cerveja e fiquei olhando ao redor. Várias pessoas falando alto em outras mesas, pessoas que se achavam muito interessantes, mesas que ocupavam toda a ruela. Muitas mulheres, já de idade bem avançadas, muitas garotas, mais novas do que eu. Todas brancas, reluzentes, limpas demais. Atraíam vários olhares, menos o meu. Eu olhava apenas para as garçonetes, como é hábito. Mas estas não davam muita atenção. Quando uma delas veio me atender, perguntei o que ela sugeriria e ela apenas me deu o cardápio, numa tentativa de ser simpática para o cliente. Não demorou, e vê-las correndo pra lá e pra cá com blocos de notas nas mãos me encheu o saco. Decidi sair de lá sem terminar de beber a cerveja e pedi a conta.

Deseja mais alguma coisa?, perguntou-me a garçonece por fim.

Não, obrigado...

OK, muito obrigado e volte sempre, disse, virando as costas com um sorriso forçado.

Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.

Como ainda quisesse beber mais um quebrado, fui numa conveniência, comprei um litrinho e fui para uma praça lá mesmo no Centro, um lugar sossegado, onde eu queria estar. Bebia e olhava para cima, para as estrelas por cima das árvores, dos prédios, das luzes da cidade, da fonte que jorrava água para o alto e que me fazia sentir alguns respingos bem finos. Pensava em quanto estava gostosa a bebida e o momento. E matutava sobre o preço dessas tão simples benesses. Sobre a solidão e a distância que tenho das outras pessoas. Em contraponto, refletia sobre meu desejo de mudá-las. Pensava na garota com quem estava saindo, e na sensação de posse que eu nutro mesmo sobre ex-namoradas. Pensava em como essas idéias apenas me distanciavam de todas elas cada vez mais.

Também pensava no meu trabalho, em como era bom dar aulas, aliás a única coisa que eu sabia fazer, já que não tenho talento para mais nada e nem gosto de carregar peso, mas ficava reflexivo porque percebia que isso não me nutria, como nenhum trabalho ou nenhuma prática permite.

Essas coisas me deixavam sempre meio triste, o trabalho, as garotas, a revista para a qual eu escrevia, o meu partido, as minhas conquistas tão facilmente desmoronadas, dava até certa vontade de chorar, mas eu não choro há anos, e não seria ali que eu choraria, apesar da noite, apesar das estrelas, apesar da bebida.

Recebi uma mensagem no celular em dois bips que quebraram o silêncio da incipiente madrugada. Era uma mensagem alegre, animada, alto-astral, vinha da garota com quem eu havia saído há pouco, a mandar beijos e abraços, a propor novos joguinhos de relacionamento. Eu sabia que essa euforia de sua parte duraria pouco tempo.

Depois de algum tempo de divagação, eu já não alimentava nenhuma tristeza nem raiva por tais coisas. Eu não poderia me incomodar desse modo. A raiva não se ocupava de mim porque sei que nada ganho com isso. Não havia razão para ficar triste porque triste já sou por natureza, a todo tempo. Apenas senti que meu problema era o cansaço disso tudo. Estou cansado de danças e de sorrisos à toa. Cansado dos projetos pessoais que temos que carregar, dos trabalhos que temos que achar interessantes. E também estou cansado de jogos que não posso ganhar.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Da carência feminina

Publicado originalmente na terceira edição da
revista
Tá na Cara!, de novembro de 2009.

Houve um cara que disse que fazemos parte de uma geração criada por mulheres. E lançou o questionamento: será de uma outra mulher que precisamos?

Eu fui criado por uma mãe solteira. Sou apenas um traço pequeno numa estatística gigantesca. Com frequência, recebíamos visitas. Todas elas, naturalmente, a buscarem a companhia de minha mãe – meus amigos ou minhas garotas nunca me visitavam. Como era usual nas visitas, eu sempre ia para o quarto, já que as conversas eram quase sempre em tom frenético, e eu não conseguia ouvir a TV. No meu quarto, eu tinha a liberdade de não fazer nada sem que isso me fosse um incômodo. De lá eu escutava as histórias ricas em detalhes que eram contadas na sala, e por vezes prestava bastante atenção nelas. Como geralmente eram mulheres que nos faziam a visita, essas histórias naturalmente eram centradas em homens. As mulheres – amigas de minha mãe – pareciam se divertir contando seus casos com homens de caráter duvidoso. Em geral, relações inacabadas, quase sempre interrompidas por algum acesso de intransigência, talvez por bebedeira, talvez por ciúme, coisas assim.

Eu me perguntava, então, desde garoto, até que nível um homem pode deixar atordoada uma mulher. Claro que isso não se mede. Eu nunca tentei, nem nunca me proporia a fazê-lo. Mas o tempo me traria as garotas e algumas respostas. Ou, por outro lado, trazia-me a ciência de que, para certas coisas, não há resposta alguma.

Então, já como uma forma de prevenção diante dessa imprevisível psique feminina, sempre mantive minhas relações bastante limitadas no aspecto psicológico. Dessa forma, eu me protegia e não teria nenhuma delas que me endeusaria hoje para me crucificar amanhã. Mas vai entender o que move esses acessos de cólera.

Eu me lembro de uma mulher com quem sempre saia, a Cristina, e quase sempre, quando tínhamos algum programa light, como um almoço ou coisa parecida, estávamos acompanhados de algumas de suas amigas. Cris – como gostavam de chamá-la, e se irritavam por eu somente chamá-la pelo seu nome, Cristina – era uma espécie de consultora sentimental vinte e quatro horas. Para mim, durante algum tempo, as companhias não fazia diferença. Mas Cristina não gostava da forma como eu tratava suas amigas, que quase sempre traziam narrações tristes ou raivosas de seus casos fracassados.

Por que vocês sempre xingam os homens?, eu perguntava sarcasticamente.

Por que você não pode ser mais gentil com elas?, retrucava a Cristina. Ela nunca tinha razão. E admitia isso. Quando conversávamos a sós, sempre concordava comigo que suas amigas só falavam asneiras quando se tratava desse assunto. Mas ali, diante delas, não poderia deixá-las desarmadas.

Como as amigas de Cristina foram ficando cada vez mais pentelhas e invasivas com o tempo, eu lhe disse que não sairia mais se fôssemos obrigados a acompanhar tais amigas desoladas. Seja paciente, ela me suplicava.

Suas amigas não sabem o que é a paciência, eu dizia.

Elas têm problemas como todo mundo, não percebe?

Não, elas não têm problemas; elas CRIAM problemas.

Então você agora defende esses sacanas de filhos mal-assumidos que enganam as mulheres?

Eu acho que eles poderiam comer melhor, dizia.

E quase sempre diálogos como esse criavam algum mau tempo entre nós dois.

E nesses dias, quando ia dormir, ficava me lembrando dessas mulheres que via, fossem as que acompanhavam a mim e à Cristina, fossem as que visitavam minha mãe, ou as que eu notava na faculdade, no ônibus ou nos bares. Essas pobres mulheres que tinham pavor de ficarem sozinhas para sempre, que acumulavam fracassos amorosos, que observavam o tempo passando, que viam seus lábios vaginais dilatarem, e que não podiam fazer nada para conter essa dura realidade.

No fim, elas sempre engoliam as angústias e tomavam um ar mais autoconfiante. Diziam que haviam pensando bastante e que iriam se valorizar mais. E batiam no peito a dizer que, se os caras as desejassem de volta, eles que viessem procurá-las.

Eles nunca as procuravam.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Paladar fraco e outras coisas a menos

Onde está o apetite que um dia tive por todas essas coisas?, eu me pergunto de quando em quando. Passo todo o dia dessas férias sentado na frente da janela, observando as pessoas passarem em prosas animadas e às vezes até escuto parte da conversa delas, algumas perguntas que uns fazem aos outros, e eu fico respondendo imaginativamente, como se a pergunta fosse pra mim, mas não é.

Assim, diariamente me quedo nesse exercício puramente cerebral que ao menos talvez seja melhor do que passar várias horas do dia em frente à TV - coisa que também adoro fazer, por sinal, e nunca me demoro a religá-la -, porque são esses parcos exercícios que mantêm a minha mente em atividade. Minhas cordas vocais, no entanto, estão cada vez mais enrijecidas porque eu não as tenho usado muito, no máximo quando ia ali na padaria e dizia quero quatro pães e nada mais!, mas agora já nem preciso mais falar porque a garota que atende, conhecida por Cleidinha, já sabe o que vou pedir quando chego lá (e faz questão de dizer: já sei!), sempre com um sorriso no rosto que eu não entendo muito bem, e termino oferecendo um pretenso sorriso também mas que na verdade não passa de um franzido labial, e depois que saio tanto do balcão como do caixa da padaria esvaece a última chance de utilizar a minha voz no dia, às vezes eu até esqueço como é seu som e quando estou tomando banho e começo a cantar alguma música dos Engenheiros do Hawaii eu chego a me espantar por um instante por não a reconhecer, e esse espanto, por sua vez, me faz perder o prumo da canção e então desisto de cantar...

Mas não são só vozes e mente que estão cada vez mais mirrando, todo meu corpo segue nesse rumo porque eu não faço nada, não caminho, não pratico esportes nem nada assim, e vou sentindo que todos os membros vão se enfraquecendo de maneira tal que às vezes até pra levantar a caneca de café eu sinto um desconforto e preciso derramar uma pequena parte da bebida ainda quente na pia, e depois assopro bastante porque o meu paladar também já não está lá essas coisas, tanto que já nem faço mais questão de aditivos nas comidas aqui em casa, como temperos no almoço, ou margarina no pão, ou sei lá o que, porque quando como nem sinto isso, não me lembro mais a última vez que fiz hmmmmmmm! para alguma guloseima que ingeri.

Até mesmo pra segurar livros eu andava meio preguiçoso e passei a ler mais no computador, onde eu poderia ficar estático, mas não totalmente estático né, já que é preciso descer a barra de rolagem, e depois que me acostumei com isso já cansei também, e então voltei pra velha leitura de papel, e pra não precisar ficar catando livros pela casa eu tenho acumulado todos eles aqui no quarto, já não bastavam as duas estantes de livros aqui, eu fui lá numa salinha de despensa que tem nos fundos e peguei uma caralhada de livros velhos e empoeirados e trouxe, porque vez ou outra os folheio e agora não preciso mais ir até os fundos de casa e abrir um cadeado para pegar gripe com essa papelada envelhecida...

Às vezes ocorre de eu tentar ir na contramão dessa tendência, saio de casa, vou assistir algum espetáculo, algum show, um jogo de futebol, vou pra umas reuniões ou sair com uma garota, vou ver uns amigos, assistir a algum filme, vou viajar de moto pra algum lugar, e na verdade só quando me entrego a essas coisas percebo que às vezes cometi alguns enganos, porque há certas coisas que não temos como mudar ou pelo menos não cabe a nós mudar, então fico com pena das meninas que saem comigo, como lamento aos amigos que me convidam para beber e fazer umas rodinhas idiotas de violão na praia (sempre vou embora quando aparece um violão na parada), e percebo que conhecer gente já não é mais o foco das minhas viagens como antes, agora quero só deixar que alguns aperreios se dissipem com o vento que bate e se vai, e os shows também não frequento, vou tentando resistir às tentações, porque sei que sempre me empolgo antes de shows mas na hora é que sinto que aquilo não mais me contagia, de modo que eu percebo que existe uma luta intensa dentro de mim entre um lado que deseja se socializar, se soltar e besteiras assim e outro que já sentiu um cansaço de todas essas coisas e que agora quer mesmo é sossegar sem ter que ouvir vozes alheias quando acorda nem antes de dormir, sem ter que atender telefones e é este meu lado que eu premio, deixando todo o resto pra lá, e se me pergunto onde andava todo aquele meu pique de alguns anos atrás (em verdade, eu já nem lembro se tinha mesmo ou se é uma memória forjada pelo meu inconsciente) é por uma trivial curiosidade e não por depressão ou lamento pelo que sou hoje, pois gosto de ser assim, gosto de ficar apenas escrevendo porque é a atividade fisiologicamente mais econômica que posso fazer, já que trabalho apenas com os dedos, permanecendo todo o resto do corpo num transe absoluto, e até o conteúdo escrito não é fruto de conclusão nem de reflexão qualquer que seja, e sim tão-somente um derramamento de palavras cuja leitura se configura numa ordinária perda de tempo, mas constatar isso somente agora já é tarde demais para quem leu até aqui... Só que não pedirei desculpas.




terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A última carga pesada

Tá tudo tão escuro lá fora e aqui dentro que eu consigo até enxergar coisas que não são reais me arrodeando, todas elas me assustando demais; faltou energia no bairro, o céu noturno está coberto por uma névoa temerosa e no meu íntimo as coisas não parecem muito mais claras, porque eu me sinto até mais livre, mas a tal liberdade não parece sinônimo de satisfação, porque agora vejo que todas as coisas que eu conquistei nos últimos anos (conquistei não é bem a palavra), como alguns trabalhos legais, a possibilidade de poder escrever e ser lido, alguma estabilidade financeira mesmo que não tão estável assim entre outras não parecem significar nada nesse momento em que eu penso mil coisas, porém não consigo chegar à conclusão de sequer uma delas, e acho que não haveria nada, nem pessoas, nem bebidas, nem livros nem outros entretenimentos quaisquer que pudessem me suprir isso, inclusive nem sei por que estou escrevendo pois nem isso gostaria de estar fazendo agora, eu gostaria apenas de dormir – mas desta vez sem sonhar – por tantas horas que se eu me esquecesse de acordar isso seria um mero detalhe para mim ou para os demais, no entanto como eu sei que não vai acontecer fico aqui temendo a chegada do sol junto das coisas chatas correlatas, as pessoas me ligando e perguntando se continuarei dando aula em certa escola no ano que vem, supervisores me pedindo documentos, ou textos, ou qualquer merda por uma ordinária burocracia, entre outras pessoas que não ajudam a melhorar o meu dia, gente que não tem nem culpa disso, porque quando começamos a conversar percebo que precisam apenas de uma ajuda, de algumas palavras de consolo e afeto, mas não sou eu que oferecerei essas palavras porque eu também as queria pra mim; então não me resta mais nada porque eu não tenho saído e não tenho sentido falta, já não bebo mas não sinto a diferença de quando bebia, e também tenho escrito tão pouco sobre mim, aliás, eu me decidi por isso mesmo, que iria escrever menos essas coisas, a carga era muito pesada, além de não significar necessariamente uma forma de autoconhecimento, então desisti, talvez só volte a escrever essas coisas daqui a uns 50 dias, ou talvez nunca mais, porém eu ainda mantenho esse vício da escrita em si, que alguns dizem ser saudável, de modo que passei a escrever outras coisas, eu queria voltar a escrever textos políticos mas fui repreendido por isso pelos camaradas de partido porque devo ser um péssimo analista, então o jeito de suprir minha vontade era voltando pra literatura, e aí andei escrevendo textos de terror, como histórias de vampiros ou coisas assim, também escrevi ficção científica, distopias, pesquisas jornalísticas, histórias infantis, e eu observava a maioria dos escritores, eles começavam a escrever para si mesmo para depois escrever para as outras pessoas, e comigo acontece o inverso, eu escrevia para ser lido e cada vez mais ando escrevendo para mim mesmo, sem publicar e sem comentar com ninguém, porque ninguém quer saber, só que não faço isso porque gosto (é por pura falta de opção) mas às vezes até me divirto e me satisfaço quando leio as coisas que fiz, pena que é uma satisfação tão tênue quanto qualquer outra, uma alegria breve que não se sustenta em si mesma...



quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Achando a festa meio maçante, eu me dirigi ao bar onde eram oferecidas várias bebidas e lá fiquei por coisa de meia hora, balançando insistentemente a cabeça com sinal de negativo cada vez que olhava para a multidão, e voltava-me para o balcão. De repente, ao meu lado, senta-se uma menina e me causa um baque: era a mais linda que eu já vira - uma princesa!, uma boneca!, uma obra de arte plástica em forma de garota! Quando ela me notou, manteve o olhar fixo em mim por míseros dois segundos, mas eu rapidamente concluí que nossa empatia havia sido imediata! Logo senti que ela fugia à superficialidade das garotas daquela festa. Sim, ela era diferente, era mais delicada, era mais cabeça aberta, era mais fácil rolar um bom papo. Já visualizava nós dois rindo e conversando durante longo tempo até o fim da noite, eu a levando pra casa, ela me convidando pra entrar, a gente nos dias subseqüentes pegando uns cinemas e barzinhos simpáticos iguais àquele em que nos servíamos. Para dar início à nossa longa história juntos, abri de modo bastante original a conversa:

Oi?

Ela me ignorou solenemente, pegou a caipirinha que lhe fora servida e saiu sem expressar o menor interesse, e nunca mais voltei a vê-la.


domingo, 6 de dezembro de 2009

O céu e o sertão

O céu noturno mais estrelado que já vi foi no meio do sertão, lá pelo médio oeste do Rio Grande do Norte, quando eu viajava de moto - não lembro para onde, mas no trajeto eu pretendia parar na cidade de Frutuoso Gomes porque o sol já estava se pondo e eu encontraria lá um abrigo para passar a noite - até que, após enfrentar uma área onde a rodovia estava destruída, além de recheada de pedregulhos junto a muitos objetos na estrada - alguns possivelmente cortantes - talvez derrubados de um caminhão, eu percebi que a moto perdeu força e começou a deslizar, o que logo me fez levantar a suspeita (confirmada logo depois) de que o pneu dianteiro havia sido furado, o que me irritou no primeiro instante e me frustrou no segundo, porque eu sabia que não teria condições de conseguir consertá-lo ainda naquele dia, só que ainda tentei tirar o pneu para levá-lo à cidade mais próxima, que eu acreditava ser Janduís, mas percebi então que não houvera levado ferramentas necessárias, de maneira que decidi encostar a moto atrás de uma árvore - não muito grande, devia ter no máximo uns três metros, mas cercada de arbustos secos, como é comum naquela área - e sair caminhando pelo chão carregado de pequenas pedras que o tornavam bastante escorregadio, fatores que me fizeram repensar a ideia de sair à procura de algum mecânico, coisa que, eu sabia, só me traria aborrecimento naquele dia (dificilmente algum mecânico ou borracheiro sairia à noite para fazer o remendo no pneu) e voltar para onde estava a moto; levou esse tempo de mais ou menos meia hora para que me caísse a ficha de que teria que ficar ali mesmo, ao relento, sem nenhum tipo de mantimento que me permitisse dormir a céu aberto, pois carregava apenas uma mochila com umas roupas, livros, uns e outros acessórios, entre eles um lençol, que abri ao chão, o que apenas amenizaria, ainda assim parcimoniosamente, o desconforto de sentar no solo pedregoso.

Logo a noite cairia - nenhum carro houvera passado ou passaria por ali nos momentos em que lá estive, embora eu não estivesse esperando -, tornando-se o local muito escuro e estranho, com sons de animais típicos ouvidos por trás das colinas baixas e das matas áridas, elementos que me deixariam apreensivo por me sentir em um ambiente adverso, mas para o qual tentei me tranquilizar e para isso só me restava fazer algo para passar o tempo, como ficar revezando a leitura de livros, iluminado pela lanterna da moto, lendo-os em voz alta, interpretando seus personagens, ou deixar os livros de lado e ficar falando besteira, comigo mesmo, ou então levantar para ficar caminhando em círculos, porque estava ficando frio, além do que meu corpo estava muito incômodo por motivos que desconheço - estava coçando demais as pernas e os braços -, então decidi desligar o farol e ao apagá-lo percebi que o breu repentino gradativamente se iluminaria com a quantidade de estrelas no céu que pareciam surgir do nada pois quanto mais eu olhava mais eu via surgir novas estrelas, e isso de algum modo me deixou mais calmo porque eu teria agora um ótimo passatempo (o meu passatempo predileto na infância que estava esquecido) que seria ficar apontando, contando e desenhando as constelações, deitando rapidamente e identificando de imediato a de Escorpião - era agosto -, sempre a minha primeira referência, e embora eu houvesse esquecido a maioria delas ainda conseguiria reconhecer umas vinte na medida em que o tempo passava e novas estrelas se me apresentavam, e eu, meio embriagado pela brisa noturna (que não era nada gostosa de sentir porque era uma brisa muito seca causando uma sede que eu não teria como suprir, porque eu havia bebido rápido demais o pote de água que carregava), ficava lá discutindo comigo mesmo, chegando a gritar às vezes, como se estivesse dentro de meu próprio quarto, e a última constelação que vi surgir antes de adormecer foi a da Lebre, o que denota que passei pelo menos umas cinco horas naquele exercício estranho...

Ao acordar, sentindo a alta temperatura do solo rompendo a camada relativamente fina de tecido do lençol, meus olhos ficaram por vários segundos ofuscados pelo ardente sol matinal, que se erguia solitário na imensidão do céu azul sem estar acompanhado de uma nuvem sequer, e pela extensa camada de terra que minha vista alcançava só se percebia o visual semidesértico, esbranquiçado e claro como é usual à vegetação seca e ao solo sertanejos, de modo que nem quis perder tempo e levantei rapidamente guardando as trouxas na mochila para sair em seguida em busca da ajuda que só encontraria depois de caminhar cerca de trinta quilômetros cercado por aquele ambiente de feitio monótono e carregado de uma vida estranha - sem encontrar uma casa sequer no decorrer da pernada -, havendo ainda o agravante de que o único borracheiro que encontrei só trabalhava com carros, mas topou um remendo de quebragalho no meu pneu que seria suficiente para eu chegar em outra cidade e resolver o problema em definitivo; quando fomos ao local onde estava a moto, havia um guaxinim muito peludo dormindo sobre o banco, e curiosamente o animalzinho nem se assustaria com a nossa chegada, somente saindo de cima da moto quando o mecânico começou a mexer nela, foi quando notei que o guaxinim estava machucado pois ele conseguia andar normalmente mas dava para perceber que estava manquejando em uma das patas e mirei a vista em sua direção de uma forma que, estático, eu o observei indo embora por centenas de metros, como se eu quisesse saber para onde ele iria, vendo-o tornar-se apenas uma pontinha se mexendo na linha do horizonte, sendo esta a minha última lembrança daquele dia, e eu até voltaria para o Sertão depois dessa experiência, como também viveria outros impropérios com a moto; só que esses impropérios já não me incomodavam mais, porque me davam a oportunidade de viver essas emoções tão humanas e viciosas, pensando em alguma coisa - contando constelações, caminhando em círculos, esquecendo até o fato de estar em completo isolamento - só para sentir algo ali, e deixar de sentir o que aqui sinto demais.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Subproduto do esquecimento

Foi quando me olhei no espelho que percebi o quanto estava apreensivo. Conseguia ver embaçada minha imagem refletida mesmo estando o vidro total e perfeitamente polido. Eu estava na sala, sozinho no cômodo, e lá na cozinha havia uma mulher, a cantar alto, frequentemente me convidando para acompanhá-la no rito, sem sucesso.

Sendo tímido como sempre fui, não foram de se estranhar meus gestos contidos, ainda que estivesse sendo compelido a me sentir completamente à vontade. Estava com coisa de dezoito anos, e vivia ainda tempos bastante movimentados, conforme era comum naquela fase de minha vida (talvez por uma tentativa inconsciente de apagar de minha memória a infância, a pré-adolescência, períodos lembrados sempre como coisas uniformes e mortas em mim.) Na época - como também continuaria acontecendo depois -, eu sempre me esquecia de todas as garotas com quem ficava, todas com quem houvera transado ou a quem tivesse ao menos beijado, quando estava me relacionando com uma outra. Esquecia de forma tão latente das garotas passadas que todas que apareciam na minha vida eram como se fossem a primeira. Neste caso, acrescenta-se a isso o fato de eu estar na casa não de uma garota de minha idade, mas de uma mulher, que tinha sua vida feita, que já fora até casada, que já tinha 35 anos.

Você que é um cara de sorte, confidenciou-me um amigo horas antes, ao saber com quem eu me encontraria. Ainda prevalecia um fetiche, como em todo jovem, pelo desejo de estar com uma mulher mais madura e experiente.

Eu a conheci na Internet, fui suficientemente dissimulado - não de propósito - para que ela visse em mim não um moleque vazio, e sim um rapaz com jeito mais prudente, experimentado. Agora estava em sua casa, olhando para um pequeno birô, bastante rústico, que enfeitava sua sala. Nele, havia muitos porta-retratos. Em alguns deles, fotos dela quando casada - Cristina, seu nome -, junto com o marido e o filho de dois ou três anos.

Esse fim-de-semana ele foi para casa do pai, disse ela ao me ver observando a foto do rebento.

Ela me ofereceu um vinho e eu nem gosto muito dessa bebida mas aceitei, ainda a observar mais a casa do que a lhe dar atenção. Por todos os lugares, eu ainda percebia coisas que não pertenciam a ela. Quadros na garagem, discos na sala, roupas no quarto. Pertences do ex-marido que só lembrava de pegar quando, de repente, sentia falta. Ela continuava a falar.

Há três dias ele veio pegar uma coleção de atlas que compramos certa vez em viagem. Muito bonitos.

Lembrei-me de uma poesia de Bukowski, em que ele se questiona se alguma vez precisará ir visitar alguma mulher de seu passado em busca de uma bermuda. As mulheres de seu passado, ele dizia, pareciam-lhe inexistentes. E para mim também.

Acaso para onde foram todas elas, para onde foram as Claras, Priscilas, Cinthias, Adrianas, Ianas, Gabrielas, e outras, tantas outras, que não são infinitas, mas, certamente, incontáveis, visto que aos poucos elas têm se deletado de minha mente?! Decerto, poucas ainda se lembrariam de mim se eu lhes telefonasse. São nomes e corpos, lábios rosados por natureza ou pintados, peles macias e finas como algodão e silhuetas de diferentes formas que ainda povoam minha cabeça de quando em quando. Com elas, compartilhei ilusões que pareciam belas e sadias, dessas que aquecem e viciam a alma de quem vive castigado pelo sofrimento. Se pudéssemos parar o tempo, esses instantes que eu teria passado com elas teriam valido por tudo no mundo (só que não se pode pará-lo, e, portanto, o que valem, senão nada?), porque os momentos que compartilhamos foram em geral bons momentos, porém nunca os momentos mais necessários. O prazer que se acometia de mim quando estava em suas companhias não se sobrepunha à solidão que eu sentia quando me despedia de cada uma na porta de suas casas, e saia a vagar sozinho pela madrugada.

Contei para a Cristina que estava um pouco apreensivo, e, certamente, poderíamos nos encontrar numa segunda ocasião. Ela me deixou cochilar um pouco em sua casa. Devo ter sido tolo em não poder aproveitar tamanho filão, considerando que ela era mesmo muito atraente e, como muitas mulheres solteiras em sua idade, muito carente e fogosa. Seu jeito maternal, contudo, não me deixava à vontade. Esses tantos pensamentos que me vieram à mente só serviam para me deixar ainda mais oscilante. Depois do breve cochilo que eu dei, disse-lhe que preferia ir embora. Falei que havia bebido demais, estava desanimado. Ela entendeu. Ainda me ofereceu carona, disse que estava tarde, mas eu lhe deixei claro que não precisava. De fato, eu não queria mesmo. E jamais voltaria a vê-la.

Depois de sair de sua casa, mais uma vez segui sozinho e taciturno, numa caminhada extensa e duradoura. Sabia que estava acompanhado somente pela solidão. Pensei na hora que o melhor de mim eu devo ter perdido nessas incompletas aventuras a dois. Agora, somente o meu resto é que passeia calado pela noite escura.



quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Fissuras reprimidas

Eu observava o balançar glúteo da garota que seguia à minha frente e não conseguia mudar o foco de minha atenção. Era muita beleza reunida naquele pedaço de carne em movimento constante, moldado por uma calça jeans de um tipo que não sei bem descrever. Eu não sou de ficar feito pateta babando por cada bunda bonita que vejo, mas essa garota tem um conjunto de corpo tão atraente para mim que eu fico fissurado quando a vejo passar, gosto de ver primeiro seu rosto, seu olhar verde e perdido, seus mãos a segurar os cadernos e livros, braços cobertos pela penugem fina que parece ser igual aos cabelos castanhos, e enquanto a observo, bem pequena, bem charmosa em seus movimentos suaves, chego até a fazer algumas artimanhas, como fazia nessa vez, para poder segui-la sem que ela notasse a menos de cinco metros de distância (onde posso vê-la bem) pelo decorrer dos pátios do campus até o momento em que eu ia pegar a minha moto e ela se dirigia para sua parada de ônibus. Já pensei em falar com ela alguma vez, tentar conhecê-la melhor, só que achei melhor não, ela faz ensino médio, deve ter seus 15 ou 16 anos, então eu deixo suspenso o meu interesse, vez que ela nessa idade tanto pode como não pode gostar da ideia de chamar a atenção de caras mais velhos, isso embora eu não seja muito mais velho, só uns sete anos no máximo.

Mas eu sabia como ela se chamava, era Andressa, alguém me falou numa certa ocasião, e eu remeti imediatamente a uma outra garota de nome parecido - esta se chamava Andreza, com z - que morava perto da escola onde eu estudava na época do ensino fundamental (eu tinha, sei lá, uns 15 anos, e a Andreza também), e como toda garota daquela área, ela estava sempre em oferta para quem chegasse, o preço não podia ser mais primitivo: era sempre o cara mais forte que chamava a atenção das meninas por ali, e eu nunca fui forte nem nada - apanhei muitas vezes na vida, aliás, apanhei em todas as vezes que briguei -, no entanto teve uma fase em que fiquei amigo do Eric e ele serviu de atalho pois era um cara forte, e não somente forte, era um gaúcho muito bem-apessoado, além de carregar aquele sotaque característico que eu acho chato mas as meninas achavam charmoso e tudo isso formava elementos que despertariam inveja em todos os outros caboclos da turma, eu inclusive. Isso era no ano 2000, e eu conheci o Eric um mês depois de iniciada as aulas, na semana em que se comemoravam os 500 anos do país e havia todas aquelas festividades, o que pra mim era uma chatice enorme, e eu na minha origem punk decidi como uma forma de rebeldia fajuta dessas que a gente nutre na adolescência rabiscar na minha camisa da farda a frase PAU NO CU DO QUINTO CENTENÁRIO, e enquanto andava com essa camiseta no pátio da escola, o Eric me parou certa vez e disse:

Pô, massa demais... até que enfim alguém que pensa como eu por aqui.

Pega, pinta a tua camisa também, falei, entregando-lhe logo uma caneta vermelha, dessas de escrever em lousa.

Dali em diante, eu, com a amizade do Eric, teria algumas portas abertas no meio mais obscuro da escola, porque Eric era um garoto de classe média alta que tinha ido parar ali como forma de castigo, mas seus pais não esperavam que o castigo do garoto se tornasse um carma para eles, porque Eric naquela escola virou rei, rei das garotas, a quem conquistava facilmente e rei da negrada, sendo ele o traficante-mor daquele gueto, carregando sempre dinheiro para fazer circular tudo de bom e de ruim sob vista grossa da Ritinha, a diretora da instituição. Eu e Eric formamos junto com outro cara chamado Maurício uma banda punk chamada Cavalo Amarelo, que depois passou a se chamar Aura Oculta e aí ficamos realmente próximos e com ele comecei a viver mais coisas, comecei a pôr em prática os delírios que eu absorvia da literatura que me convinha (com Jack Kerouac e Neal Cassady falando da magia de viver as ruas e o mundo, fugir dos escritórios e dos ambientes claustrofóbicos, de frequentar meios marginais), e nessa tendência convivi por uns anos com o meio barra-pesada que o gaúcho frequentava, e nesse período foi que conheci, pelas infinitas rodas de bebedeira, a Andreza, que também tinha uma bela bunda como a garota de nome parecido, além de tantas outras conheci nessa fase - só que ao mesmo tempo não conheci nenhuma, pois todas essas meninas que comi e de quem esqueci logo depois foram apenas símbolo de um tempo de deslumbre, quando eu, adolescentemente, queria viver todas as coisas e não vivia nada.

Quando o Eric foi embora - ele sofrera um acidente de carro que o faria perder a voz e os pais mandaram-no para morar com outros familiares no Rio Grande do Sul -, nossas vidas já estavam se desestruturando, de modo que se continuássemos naquela a coisa ficaria preta para nosso lado. A Aura Oculta já era artifício do passado, o Maurício já tinha se tornado pai de família aos 16 anos, e eu terminei ficando sem o meu suporte principal, de maneira que percebi já ser a hora de deixar de frequentar os círculos tenebrosos com os quais eu ainda estava envolvido. Levou pelo menos dois anos para que eu abandonasse completamente essas influências, precisando manter-me recluso, mudando de escola, diminuindo gradativamente meu relacionamento com outras pessoas - tanto as desse meio como as pessoas "comuns" - e precisando segurar a vontade que eu tinha de abandonar o isolamento para retomar os contatos com intuito de comprar algumas trouxinhas de cocaína, mas resisti talvez porque não fosse viciado, e sim apenas fascinado pelas maravilhas narcóticas. A Andreza, porém, que me deu a maior força e foi a única pessoa com quem mantive contato, ficou para trás, no entanto eu soube há não muito tempo que ela havia se mudado. Espero que para bem longe, ainda que hoje ela já não deva mesmo ostentar aquele corpo bonito que mantinha nem talvez o carisma que me fez lembrar dela antes das muitas outras.

No entanto, algumas coisas permanecem, a minha fissura pela cocaína por exemplo era a mesma que mantinha por sexo, e tanto um como outro quando cruzam hoje o meu caminho me fazem remeter àquele período estranho, e por isso eu sempre tentei me convencer de que a cocaína é uma merda, o chá de cogumelo é uma merda, sexo é uma merda, punk é uma merda, só que eu não pensava essas coisas por apreensão, nem vergonha, nem repúdio das memórias que trago, pelo contrário, sem elas não seria o que sou; é apenas porque realmente não gosto mais dessas coisas, elas me chateiam - mas de Kerouac ainda gosto, enfim aprendi a lê-lo. Em paralelo, aos poucos vou tentando me livrar do estigma que sempre carreguei, mas que se intensificou durante e depois daquele período, de valorizar tão pouco as outras pessoas, de maneira que hoje, anos depois, tenho me relacionado melhor com as drogas do que com o sexo (por isto ser uma coisa que necessita de presença alheia, o que para mim é algo potencialmente incômodo) e findo lamentando, quando olho para trás, pela pessoa que eu parecia ser, afeita a certos prazeres tão desmedidos que agora pareço estar sequelado, vendo a garota à minha frente balançar suas belas nádegas redondas em meu convite - e aposto que além desses atributos, ela ainda é uma garota de muito mais cérebro do que todas aquelas que experimentei na adolescência - mas eu prefiro deixar pra lá, para não ter que pensar em tudo de novo.



segunda-feira, 9 de novembro de 2009

50 caixas de sutiãs anatômicos

Nunca fui tanto à Igreja quanto no último mês. Desde que abandonei a minha moral católica há uns dez anos, só frequento tal recinto para levar minhas considerações a amigos e colegas falecidos, nas missas de Sétimo Dia. Ultimamente, tem se tornado comum. Lembro-me que pouco mais de um mês atrás, um sujeito conhecido como Pequeno, também chamado de "velho companheiro", infelizmente viu seu fim de forma trágica. Ele era o pedreiro que estava remontando algumas coisas no meu quintal, reconstruindo um muro, reinstalando, versátil como era, a fiação elétrica para que eu pudesse ter alguma luz quando quisesse matar algumas noites ali - elas haviam sido danificadas por um curto-circuito recente. Na décima vez em que Pequeno completara o serviço do dia - faltando apenas outros dois dias para concluir toda a reforma -, ele me chamou para o Video-Bar do Léo. Eu não gosto de beber nos bares daqui, então até pensei em topar, mas depois voltei atrás. Vi Pequeno sair em sua bicicleta, meio trôpego e cambaleante.

Mas no sábado a gente vai!, dizia enquanto se afastava.

O sábado chegou, porém, e o Pequeno não reapareceu. Somente na terça-feira eu recebi a informação de que o corpo de alguém encontrado embaixo do viaduto da BR-101, dias antes, poderia ser dele, e estavam solicitando pessoas que o conhecessem. Fui no Instituto Técnico de Polícia e me alertaram desde já que o corpo estava em grande parte irreconhecível não somente pela decomposição, mas porque o rapaz em questão havia sido espancado brutalmente.

Entendo, falei, meio sem saber no que pensar. Parecia estar no piloto automático.

Quando o legista puxou o lençol mostrando-me o corpo, eu até me espantei com o estrago que fizeram com o rosto. Mas eu o reconheci pela sua dentição irregular. Reparo rápido nas dentições das pessoas, talvez porque a minha também é bastante irregular; deve ser uma forma inconsciente de autodefesa, ou de autoafirmação.

É ele mesmo, Pequeno, chama-se José Vieira, não sei o nome todo, falei.

Tudo bem, nós já temos aqui, disse o legista.

Junto com alguns vizinhos - que sempre requisitavam os serviço de Pequeno nas suas reformas -, bancamos um funeral modesto para ele. Pequeno morava com a mãe, uma velha que ainda precisa lavar roupa pra poder se sustentar. Grande parte das minhas economias, inclusive um dinheiro que iria utilizar para viajar para um congresso, repassei para a pobre dona.

Pequeno enchera a cara no Bar do Léo e, segundo a polícia, ao sair, bêbado, foi seguido por dois elementos que esperaram o momento certo - a ocasião em que ele passava sob o Viaduto da BR-101, uma área bastante deserta - e derrubaram-no da bicicleta, encheram de porrada e levaram para casa algo em torno de, sei lá, 30 reais.






O tempo que participei do movimento estudantil na época em que fazia ensino médio tinha sido determinante para que eu pudesse fazer algumas amizades. Se dependesse de minha iniciativa em conhecer pessoas pura e simplesmente por conhecer pessoas, provavelmente eu estaria vivendo num deserto hoje. O hábito de estar sempre em interação me permitiu conhecer pessoas de anos diferentes, turmas diferentes, ser convidado para momentos de confraternização e outras coisas afins que sempre fiz com prazer. Mesmo não mantendo contato com praticamente ninguém, há um respeito latente quando nos vemos, e sempre assunto para algumas horas de conversa.

Com um amigo do passado, porém, essas horas de conversa não mais existirão. Era o caso de Ítalo, que conheci de modo adverso - questionando-o aí em alguma assembléia estudantil anos atrás - mas que depois viramos grandes amigos, também decolou para o além há alguns dias, semanas na verdade. Em viagem de carro para a cidade de Currais Novos, seu pai perderia o controle da direção e sofreriam uma colisão de frente com uma carreta que vinha em sentido contrário, num acidente que foi fatal para as quatro pessoas no carro (a prima de Ítalo ainda sobreviveria mais uns dez dias internada).

Lamentei bastante.

A última vez que o encontrei faz seis meses. Eu estava assistindo algumas bandas instrumentais no Som da Mata e ele me chamou e até me pagou um lanche e papeamos por muito tempo, inclusive saudei-o bastante por ser ainda um cara de ideias avançadas e prosa fácil.

Quando eu pensava, enquanto conversávamos, nas outras pessoas que me circulam hoje, quase todas de conversas redundantes, incapazes de conseguirem falar de algo além do assunto em questão - geralmente alguma merda bem banal - e desarticuladas demais até mesmo para formular algumas perguntas (o que faz as conversas parecerem um interrogatório de minha parte), concluia que deveria ser mais amigo de pessoas como o Ítalo. Mas ser mais amigo não é uma escolha. Deixei por obra do acaso a responsabilidade do nosso próximo encontro, no entanto a vida tomou outro caminho.






Durante anos, o ponto comercial que tem aqui do lado da minha casa esteve alugado a um bom sujeito chamado Tércio. Ele estava agora com seus 50 anos, era um cara vivido, um aventureiro, contudo alguns anos atrás, ele, cansado, já sem tanta saúde, decidira levar uma vida pacata, dividindo com sua esposa - Mercedes, na mesma faixa de idade - e a filha - Juliana Carla, de 21 anos - a propriedade de uma pequena loja de roupas femininas. Tércio passava o dia todo, manhã e tarde, na loja. Lá pelas 14h00, a Juliana aparecia. Depois desse horário, ele ou a esposa, ou às vezes os dois, saiam, para bancos, distribuidoras e coisas assim.

A Mercedes, porém, faleceu pouco tempo depois de abrirem a lojinha aqui. Eles pensaram em fechar a loja, mas Tércio achou melhor mantê-la. Pensava em dar para a filha no futuro. A Juliana e eu nos conhecemos e viramos bons amigos, e até mais - ou menos - que amigos, por muitas vezes já nos pegamos ali na salinha dos fundos da loja. Às vezes, quando tinham algumas peças que não iam mais vender por motivos diversos, como defeitos de fabricação , a Juliana brincava com elas, experimentava, botava, tirava, sob a minha vista e com minha ajuda, claro; depois, jogava as peças fora, ou doava, até para mim mesmo. Eu trouxe várias. Presenteei muitas outras garotas com esses trajes íntimos não-vendíveis. Com a Juliana, a coisa não foi pra frente, mesmo com todas essas travessuras a dois, apesar de que quase namoramos, dada a frequência com que eu ia visitá-la - claro, quando o pai não estava presentes.

Mas ela já tinha outros planos. Arrumou um namorado de fato no meio tempo em que estivemos distantes um do outro e ficou noiva rápido. Conheci o cara quando ele veio à loja certa vez. Não senti inveja dele. A Juliana era uma ótima garota, no entanto eu levaria muito tempo para me acostumar à ideia de casar com ela.

Eles se casaram no início deste ano, só que Juliana manteve o costume de cuidar da loja com o pai. Semana passada, porém, essa rotina foi definitivamente quebrada. Quando a Juliana chegou, pela tarde, no seu horário de sempre, discutiu bastante com o pai porque segundo ele faltavam peças de sutiã. Ele ficou com raiva porque a filha havia sido muito desleixada ultimamente com a loja, e mandou que ela fosse na distribuidora trazer um número previamente acertado de caixas de sutiãs com barbatanas de sustentação anatômica: 50.

Juliana saiu na picape em alta velocidade. Pude ouvir daqui. E sabia que todas as vezes que ela saia rápido assim no carro significavam que havia brigado com o pai.

Entretanto, ela demorou demais. Levou quase duas horas para voltar. Quando enfim chegou, com aquele monte de caixas arroseadas na caçamba, a rua estava pacata como sempre e ninguém tomava conta da loja. Somente quando entrou é que percebeu o pai já desacordado, provavelmente já estava morto; havia tido uma parada cardíaca e nenhum socorro pôde ser prestado pois não havia ninguém para ajudá-lo. Ela chamou a ambulância, mas não adiantou, o Tércio havia mesmo ido. Tudo isso por causa da teimosia em terminar o dia com 50 caixas de sutiãs anatômicos na loja.

A ideia de que um homem morreu aqui na casa ao lado, em si me apavora um pouco. Só que é um pavor que passa rápido. No máximo, gera algum arrepio. De maneira geral, para mim não fez diferença. Eles estavam mesmo para ir embora, afinal. A Juliana fechou a loja, com o falecimento do pai, e foi viver às custas do novo marido. O estoque restante ela vendeu por migalhas, saiu distribuindo, até a mim mesmo ela me viu cinco ou seis caixas de sutiãs dessa. Minha mãe todas pegou para si e para vender no trabalho, eu acho.






Um dia desses toquei violão no trem com uma garota que se chamava Frida, ou pelo menos se identificava assim. Nós nos conhecemos aqui no bairro há três anos, mas eu não dou muito as caras pelas ruas as redondezas, prefiro ficar trancado em casa, então não rola muito de nos encontrarmos. As vezes em que nos conversamos se deram quando nos esbarramos no ônibus, ou no trem. Sempre, pelo menos uma vez por mês, eu esbarrava nela em alguma dessas conduções.

A Frida era uma garota rebelde demais, dos tipos que talvez precise se esforçar para parecer provocativa e ousada, mas dava para notar certa autenticidade nela. Era inteligente, apesar de tudo. Falava sobre várias coisas. Xingava muito. Ainda assim, meu cinismo a irritava mais que os seus xingamentos a certos hábitos meus. Tinha uma energia muito explosiva, emitia emoções facilmente, falava alto e rápido. Gostava de falar sobre livros, já emprestei um ou outro para ela. Depois que ela me devolvia, repudiava a maioria dos livros. Dizia que, se eu fosse recomendar algo, que soubesse fazê-lo. Atínhamo-nos a desconstruir os argumentos do outro. Era um exercício interessante. Ela nunca me emprestou nenhum livro, acho que nem tinha livros, aliás.

Certa vez, ela me comentou o fato de eu nunca ter lhe perguntado onde morava. E questionou se era por falta de interesse que eu não lhe perguntava isso.

Se eu souber onde mora, não ficaria de bom tom para meu lado caso não fizesse uma visita, eu lhe disse, completando: mas não gosto de fazer visitas, como não gosto de recebê-las.

Ela de fato já sabia disso, tanto que entendeu - ou pelo menos achei que houvesse entendido. Numa dada ocasião, insistiu que eu conhecesse sua casa. Então concordei e fui. Sabia que ela morava com a mãe, só que a mãe não estava, e não faço ideia de onde poderia estar. No seu quarto, todas as marcas de sua inconsequência: paredes rabiscadas, alguns desenhos demoníacos em papel jogados debaixo da cama, papelotes de pó convenientemente escondidos nos fundos das gavetas, um cd de músicas incompreensíveis já no ponto no mini-system, só esperando ser dado o play, coisa que ela não demora a fazer.

Gosta desse estilo?, ela pergunta. É gore-grind.

Isso é uma merda, eu disse.

Ela comentou que aquele excremento sonoro tinha exatamente essa pretensão, de ser antimúsica, de fugir de convencionalismos. As músicas se ligavam de maneira bizarra, sem pausas ou intervalos quaisquer. Ela adorava. Dizia que esse som é como um trem pro inferno: não tem freio. Haja contorcionismo conceitual.

Eu falei que não queria cheirar nada, e também não queria ouvir nada. Ela acatou, desligou o som e guardou os papelotes, e passei a noite por lá.

Dois meses depois, eu a encontrei no trem Natal-Parnamirim. Ela estava com violão em punho e perguntou porque eu não a procurei nesse tempo todo. Estava um pouco mais amável do que seu jeito habitual, entretanto continuava elétrica como sempre. Parecia mais bonita também, apesar de a pele estar pálida. Devia estar exagerando nos entorpecentes, eu falei, e ela mudou de assunto. Pegamos o violão e cantamos uma ou outra música. Mas ela não gostava das músicas que eu tocava. Enquanto eu ficava lá dedilhando, ela preferiu pegar a minha agenda e ler se tinha algo escrito. Encontrou um fragmento de poesia.

porém, não te sou insincero, meu amor
a vida pra mim é, e sempre foi, uma dor
uma vala de cacos e fatos incolores
uma estrada escura e tão vazia de valores

Gostei disso, ela falou, agora num tom mais sério. Mas não comentou mais, o trem havia parado e era a estação dela. Pegou o violão e se foi, me implorou que a visitasse dentro de um mês depois. Haveria uma novidade na sua vida que queria me contar.

Só que não houve "um mês depois". No máximo dez dias após essa conversa, soube que ela morrera por acúmulo de entorpecentes. Havia tomado muitos calmantes acompanhados de uma notável quantidade de álcool que potencializou os efeitos dos comprimidos, o que causou uma grande depressão em seu sistema nervoso central fazendo-a perder a consciência e sofrer uma parada respiratória definitiva. Morte.






Já sinto a falta da Frida. E fico a lamentar também pelo Tércio, pelo Ítalo. Lamento também pelo Pequeno, com quem eu sempre conversava enquanto o via trabalhar. Era um sujeito que tinha muito a falar, mas ninguém para ouvir, então eu ouvia. Eu ficava sentado numa cadeira de praia tomando cerveja e dizia para ele segurar a vontade, que depois do serviço poderia beber cerveja à vontade. Apesar disso, eu nunca cumpria a promessa. Sempre dividia com ele a bebida.

Posso pensar que nenhum deles fazia parte da minha vida diretamente, pois não participavam dela, não eram parte do meu cotidiano. Só não é suficiente para deixar de lamentar. Decidi passar para o computador e continuar escrevendo os versos manuscritos fragmentados que tinham sido objeto de apreciação, ainda que breve, da Frida, e enquanto digito sinto um frio sinistro me correr a espinha. Olho ao redor e não vejo e já não sinto nada, não há nem vento aqui. O quarto está todo escuro, e hoje está mais fúnebre do que nos outros dias. Mas eu prefiro não acender a luz.




quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Por umas horas de sono a mais

Quando abro os olhos, despertando vagarosamente de um sono curto, postado de maneira bastante desconfortável no sofá, meio sentado, meio deitado de lado, vários travesseiros amontoados entre minhas pernas, na minha barriga, junto à minha cabeça, um calor latente que faz o suor descer testa abaixo, um maldito gosto de saliva acumulada na boca e fora dela, um filme pornográfico na televisão, as luzes acesas, o computador ligado, fito a janela sem sequer mexer qualquer outra parte do corpo, e por uma pequena fresta posso perceber que há um luz solar tentando a entrar na sala, denunciando que o dia está apenas começando e na mesma hora eu lamentei, pois decidira para mim mesmo que dormiria por oito horas, quinze horas, vinte e quatro horas se preciso fosse - era só o que eu queria, afinal: dormir -, mas não, aquele filete de sol nascente, o relógio de parede logo acima da janela e o cansaço do meu corpo deixam claro que não passaram sequer duas horas desde a hora que adormecido até agora, mas como pode?, eu me pergunto, por que também não tenho direito ao sono?, fico matutando, como se alguém pudesse me dar alguma resposta sobre isso, e pior, como se logo eu pudesse ter a resposta desses questionamentos; tanto não a tenho como fico pensando, na verdade, que isso é consequência de equívocos que eu mesmo cometi muito tempos antes, afinal, claro, não foi sempre que eu tive problemas com o sono, embora nem me lembre de quando eu tenha começado a tê-los, mas a minha relação com o dormir é estranha mesmo, porque durante muito tempo eu busquei estímulos para a minha vida, e no entanto, esses estímulos não faziam parte do meu cotidiano, de maneira que eu passei a buscá-los, veja só, nos sonhos; então num primeiro momento eu me vi levado a dormir por muito mais tempo que o usual, dormia bastante, inclusive se me fosse dada a escolha creio que eu teria preferido passar a maior parte do tempo dormindo a passá-la acordado - no entanto houve um momento, não sei precisar qual, em que vi essa minha virtude escapar pelas mãos, meus sonhos já não eram mais os subterfúrgios de que eu precisava, eu costumava acordar trêmulo, desesperado, e isso potencializou a minha asma, levando-me a sofrer crises respiratórias constantes caso passasse muito tempo dormindo, então achei que deveria dormir menos, que dormir estava sendo o meu grande problema, passei a fazer de tudo nessas horas - conversava na internet, lia, ouvia música, bebia, dançava, analisava a situação do meu time, tecia comentários solitários sobre as notícias da política e do cotidiano -, tornando a minha madrugada um horário de extrema mobilidade, e quando o dia amanhecia e o barulho externo começava a invadir a casa, eu enfim deitava, embora naturalmente por pouco tempo, duas ou três horas no máximo, em parte pelo próprio relógio biológico desregulado do meu corpo e em parte pelos compromissos que eu tinha mundo afora, e que os cumpria de maneira cada vez menos eficiente, uma vez que estava sempre muito estafado, acometido de reflexos bastante lentos, incapaz de acompanhar o ritmo dinâmico que meu trabalho num escritório e a minha faculdade exigiam: fui demitido e jubilado, passando a viver, após esse momento, pelo menos seis meses parado, e nesses seis meses a coisa somente pioraria, porque depois de me ver com necessidades que vão além da falta de sono eu sabia que precisava me organizar, a começar arrumando um novo trabalho, um bico, um estágio qualquer se não quisesse morar debaixo de uma ponte nos meses seguintes, obrigando a mim mesmo a tentar recuperar a minha relação saudável com o corpo, dando-lhe o descanso merecido, tentando me deitar cedo para acordar cedo, praticar algum esporte talvez, aceitaando convites de amigos para dormir na casa deles. De qualquer modo, nada disso me ajudaria no meu propósito... eu só percebi isso quando seguia de moto pela Avenida Rio Branco, no Centro da Cidade, e tive um microssono de 4 segundos que me levou a bater em cheio na traseira de um Fiat 174 que estava estacionado. Talvez isso tenha agravado o impacto, pois levei vários pontos no braço, e, enquanto a enfermeira bonita os colocava delicadamente, eu pensava que não havia motivos para aquela minha reação súbita, já que sequer era noite para eu adormecer enquanto pilotava a moto - por sinal, precisei vendê-la depois do acidente -, e só então percebi que eu necessitava na verdade era de um médico, apesar de que nunca gostei de médicos, sempre me distanciei deles, nunca vi neles qualquer perspectiva de melhora nas minhas piores situações, mas tentei engolir meus preconceitos desta vez; porém, este médico em específico também não me ajudaria muito nisso, chegou até a dizer que eu estava com propensão a narcolepsia, uma doença pouco comum que faz as pessoas adormecerem de maneira totalmente repentina, e me recomendou um tratamento que, se eu quisesse pôr pra frente, teria que sacar uma boa grana para pagar novas consultas e comprar os estimulantes que ele recomendara, mas essa grana eu não tinha, e assim terminou mais uma de minhas relações com médicos - como sempre, encerrando-se justo quando o assunto entra na parte financeira. Resolvi aceitar a minha condição e tentar conviver com esse problema - se é que ainda é um problema meu, pois nunca mais voltou a ocorrer -, e atualmente voltei à rotina que mantinha anos atrás, de ocupar as minhas madrugadas com tantas coisas, fico bebericando um conhaque enquanto ouço música no escuro ou fico lendo artigos e artigos da minha área, ou então fico corrigindo provas de alunos, e são sempre muitas provas e trabalhos, outras vezes converso com alguém que se dispõe a virar a noite na internet, o que quase não acontece, mas quando acontece é muito bom pois supre o meu problema de carência agravado por tantas noites solitário, no entanto às vezes eu queria dormir, apenas dormir, por bastante tempo, mas enquanto me vejo neste instante, quedado, ainda suado, ainda mal-posto no sofá e ainda a observar a fresta de luz nascente na janela, eu percebo que não é desta vez que terei esse direito. Decido então me levantar do sofá, meio cambaleante e contorcido por causa das muitas dores na coluna, sentar ao computador e escrever até o sono chegar; nunca se sabe quando.



segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Alegoria de um narcisista

Eu não me lembro de quando comprei meu primeiro relógio. Não me lembro de quando comprei a TV. Não me lembro da primeira assinatura de revista ou jornal que fiz. Também vejo meus livros, discos, filmes, e não me lembro da circunstância em que adquiri a maioria deles. Mas duma coisa eu me lembro: de quando comprei o meu primeiro espelho.

Naturalmente, não era minha intenção: só deve sair de casa pensando em comprar um espelho alguém que realmente não consegue visualizar nada melhor para fazer. Eu estava somente caminhando no Alecrim, no meio daquele amontoado de camelôs e lojas puxando-nos pelo braço, seguia para algum não-lugar, como sempre. Até que, em dado instante, eu o vi - ou me vi, não sei bem. Meu olhar fora preso de batepronto. O fato que estava colocado é que eu não poderia deixar ali aquela magnífica obra: um belo espelho! Não era grande, devia ter algo como um metro de altura. Mas era destacável! Sua moldura, ainda que não fosse carregada de imponência, tinha uma feição hodierna, disposta numa madeira recheada de mesclas douradas e escuras, o que lhe dava muito estilo. A superfície da lâmina de vidro, eficientemente revestida de estanho, suavizava a visão. Evito ser compulsivo quando se trata de comércio, mas desta vez o fui: peguei o dinheiro que tinha e comprei no mesmo instante.

Eu o pus no meu quarto. Estava há tempos sem espelho, talvez por isso não reagi ao impulso de adquiri-lo. O último que tive, quebrei, propositalmente. No dia em que uma garota havia terminado comigo, eu, sentindo-me culpado, não suportando ver minha face horrenda refletida naquele adorno estúpido, descontei justo nele, dando-lhe um murro apenas: toda a vidraça se espatifaria como castelo de cartas. Ainda hoje carrego pequenas cicatrizes na mão direita. Marcas de um passado taciturno que, eu tinha certeza, ficariam para trás com a presença deste novo elemento no meu cotidiano. Depois de comprado o novo espelho, eu nunca mais me interessaria por outro. Para mim, já bastava um no quarto, porque ter qualquer outro espelho no mesmo ambiente geraria em mim a perturbadora impressão de que havia mais pessoas no cômodo. E uma das muitas coisas que me assustam são vultos. Não os vultos de mendigos e delinqüentes, perceptíveis nas sarjetas e por trás das árvores e postes quando se caminha na madrugada. Mas me refiro a outros vultos - os que me impressionam no espelho. Estes, sim. Seres estranhos, os que vivem dentro de nossas cabeças. São os mais perigosos.

Quando olho para o espelho, afinal, não procuro mais de uma pessoa.

Enfim, apliquei-o na parede adjascente à porta de entrada do quarto, ao lado direito, e ficou bem situado também à direita da cama. Esteticamente não era um bom lugar para colocá-lo, mas fui mais levado pela minha pragmática conveniência: é para aquele lado que sempre me levanto, ao acordar. Tal rito passou a ser diário; assim que despertava, eu punha-me a sentar e olhava para ele, em silêncio, durante uns quinze, vinte minutos, às vezes mais.

Depois buscaria um café, um pão, qualquer coisa assim, e voltava para comer ali, sentado na cama, olhando para aquele majestoso espelho, dando sequência à minha liturgia matinal. Ah, nada como aquele espelho para me fazer tão bem! Não compreendia o que me atava a ele. Não era beleza o que eu via, pois não sou bonito, também não era pose nem grandiosidade, não tenho nada disso, era alguma outra coisa, muito mais subjetiva, que, depois dos primeiros lapsos de curiosidade, desisti de pensar no que poderia ser. Eu nunca adquiriria respostas.

A despeito de todos os questionamentos, esse hábito passou a fazer parte de todos os meus dias, invariavelmente.

O espelho tornou-se, então, parte de mim. Matava ali mais da metade do tempo que me era permitido. Era através dele que eu percebia a verdadeira face exposta em mim mesmo, no cômodo, na aparente cor do dia. Não fosse o espelho, eu não saberia a hora certa de tirar a barba, de dormir, de rir, de ficar sério.

Mas eu atentei para outras coisas além disso. Afinal, foi graças ao espelho que percebi, a partir da própria imagem que eu captava do meu quarto através de sua superfície polida, que as coisas precisavam ser mudadas. Então me situei: estava perdendo o foco de como a beleza de tudo está na mudança, e não na inércia, na imobilidade. No início uma obsessão, o espelho tornou-se, no fim das contas, a expressão do olhar que eu tinha sobre minha própria vida. E eu, que já quebrara um espelho, sabia que este representava, de algum modo, uma segunda e última chance de tentar colocar a vida nos trilhos.

Hoje, já se passaram vários anos desde que adquiri esse entendimento, no entanto por mais que esteja empoeirada em quase toda a armação e sua estrutura notoriamente caquética, esta porcaria risível ainda ocupa espaço central no meu quarto.



sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Fragmento

Estava nos arredores da Rodoviária Velha e procurei um bar em qualquer dos becos adjacentes, escolhi o único aberto, bastante movimentado, sentei e fiquei olhando ao redor. Várias pessoas falando alto em outras mesas, pessoas que se achavam muito interessantes, mesas que ocupavam toda a ruela. Muitas mulheres, já de idade bem avançadas, muitas garotas, até mais novas do que eu. Todas brancas, reluzentes, limpas demais. Muitos caras altos e bonitos, de barbas ralas e cabelos caindo pelo rosto, que só olhavam meio de lado e estavam sempre de meios-sorrisos, com camisetas de etiquetas pequeninas porém situadas em pontos estratégicos, muitos carros estacionados que se prolongavam pela rua, alguns populares dividindo espaço com outros mais elitizados e eu ali no bar sozinho em uma mesa, na espera de apenas alguns copos de cerveja, incapaz, pela própria ignorância, de distinguir um Corsa de um Palio entre veículos que vejo diariamente pelo trânsito. Era curioso que um bairro antigo e boêmio tivesse virado rota de atração dessa classe média alta, vinda lá do outro lado da cidade, mas era compreensível, sobretudo porque há de fato uma escassez de programas noturnos em todas as zonas, e os que existem, já estão saturados, como este, que se mantinha lotado, cada vez mais.As conversas eram prolongadas, pessoas de mesas diferentes se interagiam como se estivessem em perfeita comunhão, as garotas vez ou outra se atinham a desfilar pelo ambiente, dirigindo-se a algum canto pra cochicharem qualquer coisa, sempre atraindo vários olhares atrevidos, menos o meu. No máximo, eu olhava apenas para as garçonetes, todas mulheres. Mas elas não davam muita atenção. Quando uma veio me atender, perguntei o que me sugeriria, no entanto ela apenas passou o cardápio, numa tentativa de ser simpática e impessoal. Não demorou e vê-las correndo pra lá e pra cá com blocos de notas nas mãos me encheu o saco. Decidi sair sem terminar de beber toda a cerveja e pedi a conta.

Deseja mais alguma coisa?

Fiz que não lentamente com a cabeça.

OK, muito obrigado e volte sempre, disse, apressadamente, mal oferecendo um sorriso e dando as costas.

Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.


domingo, 20 de setembro de 2009

Enfim, Tá na Cara!...

Dou pausa nos contos e poemas para anunciar a publicação da 3ª edição da revista Tá na Cara!, para a qual escrevo e reviso, além de fazer parte do conselho editorial. A revista foi agraciada com uma cerimônia de lançamento realizada na Livraria Siciliano do shopping Midway Mall (Natal), na qual estiveram presentes mais de 50 pessoas e foram vendidas pelo menos 30 edições. O lançamento contou com a presença ilustre de Juliano Siqueira (militante político, ex-vereador de Natal, ex-deputado pelo RJ, professor de Direito da UFRN) e homenageado nesta edição e Pablo Capistrano (escritor mais vendido do estado e uma das revelações nacionais da Editora Rocco, que relançou seu livro Pequenas Catástrofes), que emprestaram, durante 50 minutos, seus conhecimentos sobre técnica literária, jornalismo, política e mídia participativa na cerimônia.

Na nova edição da Tá na Cara!, eu assino quatro textos, são eles:

Catando Histórias no Chão da Praça, um diagnóstico da vida de um mendigo do Centro de Natal, construído a partir de suas vivências relatadas em entrevista na Praça André de Albuquerque;

Matou a Garota e Foi à Igreja, um thriller de suspense e selvageria onde se narra os acontecimentos trágicos que levaram à morte pós-estupro de uma menina de 15 anos, baseada na história real de Maria Luiza, que causou bastante repercussão na imprensa local e nacional neste ano. Toda a história é feita a partir das declarações do suspeito, com quem conversei por telefone (ele está preso em local secreto), e das investigações policiais;

Sobre a Carência Feminina, um conto curto onde rememoro momentos diversos em que me vi diante de mulheres no estado emocional em questão;

ABC, Para Além de Qualquer Lógica, uma redação produzida com olhar de torcedor onde se discute a origem da mística que existe em torno do time mais popular do estado, o ABC Futebol Clube. Este texto é parte de uma trilogia a continuar nas próximas edições, que destacam os três grandes do estado (ABC, América e Alecrim);



A revista conta ainda com os textos Noite Perdida em Natal, principal matéria desta edição onde se relatam histórias vividas nas casas de drinques diversas da Cidade, e Dez Horas com Juliano Siqueira, minibiografia produzida após quase meio dia de conversa entusiasmada da nossa equipe com esse notório potiguar - ambos escritos por Angelo Girotto (editor e diagramador); Você Escolheu Errado seu Super-Herói, texto do já falado Pablo Capistrano; além das contribuições de Meri Medeiros (militante histórico do Partido Comunista e dos poetas mais reverenciados da cidade), com Rimas do Meu Verso; e de Ubiratan Júnior (professor de Comunicação Social da UFRN), que assina Vida em Clausura: Uma Felicidade Pela Renúncia.

Todas as minhas matérias são ilustradas pela Ana Luísa Medeiros, estudante de Arquitetura que tem diversos trabalhos disponibilizados na internet, cujos desenhos são destaque em todas as edições da revista; ilustra também a Tá na Cara o desenhista argentino Andrés Casciani, autor de obras publicadas na América e na Europa, e que agora, enfim, é publicado no Brasil. A matéria de Angelo é ilustrada com desenhos de Di Cavalcanti.

A revista é trimestral e custa 5 reais, estando à venda nas livrarias Siciliano e nas bancas da região metropolitana de Natal. Ela também pode ser adquirida via internet, bastando apenas fazer contato pelo email leonknunes@yahoo.com.br, sem acréscimo no preço.


Foto: eu (camisa verde-musgo) com amigos e membros do Conselho Editorial, no final do lançamento.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

As Artes e Você

Eu não sou crítico da arte;
sou apreciador.
Nas sete artes
não há o que se descarte
e não há consolador.

Em tuas partes
só faço
admirar-te.
Tu és minha arte,
e teu abraço
- que ainda sinto -
é meu baluarte
(e não minto).

És o que eu vejo,
Estás em quem eu beijo.
Estás até na pintura
dum azulejo.
És a pequena escultura
no jardim.
Ou aquela música
que me falavas:
"esta foi feita pra mim!"
És também o filme
que me entrete.
E até em meus contos
dou mostras de como
meu amor por ti
se derrete.

E no palco dos meu sonhos
Tu és a única estrela
da peça em cena,
que quando começa
fica até fácil notar
na primeira fila,
eu, só a te fitar.
Ao passar das cenas
Vou te vendo tão distante
- e já quase agonizante -
por não poder te tocar
(que pena...)

Que amor surreal,
algo pós-moderno.
Neste texto conceitual
dedico-lhe o que faço
no seu jeito mais terno.

Pois na arte, nada é certo.
O que vale
é ter nosso sonho por perto.
Nem me acho artista,
mas em algo somos iguais:
(vivemos nas nuvens)
somos sonhadores habituais.

E poucos homens
revelam-se desta forma:
eu viveria
sobre uma plataforma
só a te ver bailar
e descreveria
cada passo teu
numa bela caligrafia
e no teu olhar
em minha direção
eu logo pensaria:
"agora sou eu!"

E por mais fria
que fosse a noite
eu contigo dançaria,
até que surgissem no céu
as ingratas luzes do dia.
E mesmo se fosses embora
eu pensando ficaria
que a nossa dança,
em meus sonhos,
nunca terminaria.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

No alto da serra

Eu estava ainda na primeira metade da garrafa de conhaque, embora a tarde aos poucos já anunciasse o seu fim. As outras pessoas começavam a ir embora, o local começava a esvaziar-se. Eu estava no Mirante do Canto, um lugar situado no alto da Serra de Martins e que proporciona uma vista incrível de outras serras preenchidas pelo verde, de rios que cortam as terras em rumos sinuosos e azuis demais, alguns pequenos cercados camponeses, tudo sob a imensidão de um céu de sol e nuvens leitosas, paisagem que eu já vislumbrara noutras ocasiões, mas que agora não me parecia mais tão bonita. Eu havia chegado umas três horas antes, o tempo estava frio mas mesmo assim comprei uma cerveja. Só que não queria cerveja. Antes de terminá-la, comprei um conhaque, porém ali estavam vendendo somente em dose. Saí e comprei uma garrafa e voltei para o mirante. Estava a fim de beber até ver tudo engolido pelo breu da noite.

Em todo o tempo que passei, meu silêncio só foi interrompido algumas vezes por pessoas que buscavam informações, ou queriam fazer novos amigos. Eu nunca estou muito aberto a isso, embora até que considerasse, e chegávamos a conversar por algum tempo. Geralmente vinham em grandes grupos, às vezes turistas, ou grupos de estudantes em aulas de campo, mas também apareciam pessoas que vinham sozinhas ou com suas famílias, tirarem fotos e conversarem pra caramba. Mais de uma vez me ofereceram alguma coisa, algum petisco para comer e me convidaram a mesa. Topei em uma dessas vezes.

Que tá fazendo por aqui?, perguntou-me um cara bem falante.

Sou professor, vim tirar umas fotos para mostrar a meus alunos, falei. Obviamente estava mentindo, nem máquina fotográfica eu havia levado. Ainda bem que ele não pediu pra ver as fotos, ou tirar alguma deles.

Essas são minha esposa e meus filhos - um casal de crianças. Sempre me pedem pra vir aqui, mas detesto subir essa serra, meu carro é do tipo que só se comporta bem em sentido plano.

Também não gosto, disse.

Quer carona depois daqui?, perguntou.

Não, obrigado. Estou de moto.

Ele ficou um bom tempo falando que já foi motociclista, e dos riscos que essa prática traz. Felizmente, não demorou a ir-se embora. Assim me ative novamente às minhas divagações, a perder meu olhar no meio da vastidão de terra e água que se podia enxergar daquele mirante, e a enveredar mais algumas doses. Aos grupos que passavam, eu praticamente ignorei; às vezes, recebia algum aceno de cabeça e retribuía. Noutras, perguntavam o que achavam daquele local, daquela atração, e eu só dizia um "ô, muito bom", e pronto. Até porque para mim não era bem uma atração, era apenas um bom lugar, como uma praça, só que mais distante - uns 350km - de casa.

Já perto de ir embora me apareceu um confeiteiro com quem esbarrara noutras ocasiões e era muito bem-relacionado. Não lembrava bem o nome dele, parece que era Décio, mas não arrisquei mencionar. Era negro e baixo, devia ter 1,50m de altura, careca, tinha uma voz engraçada. Ele me reconheceu fácil pelas tantas vezes que fui ali, e lembrava inclusive meu nome, o que me surpreendeu e me deixou um pouco sentido de não lembrar o seu. Os responsáveis pelo mirante não gostaram muito. Notei de longe que olhavam estranho pra minha mesa quando o confeiteiro sentou comigo.

Ignorei o olhar e fiquei a prosear algum bocado com o velho camarada, e ele ainda me perguntou, onde está Cinthia? É Cinthia o nome de sua namorada?

Espantei-me novamente com o vigor de sua memória, e confirmei, sim, é Cinthia. Aliás, era, não namoramos mais há uns três anos, he-he...

Puta merda, dou muita bola fora, falou, em tom de brincadeira.

E eu confirmei.

Por algum tempo, conversei com ele apenas no piloto automático e fiquei com a imagem da Cinthia na cabeça. Eu e ela tínhamos ido ali meia dúzia de vezes, pelo menos. Ela, em todos os instantes, se admirava com a paisagem: é a coisa mais incrível do mundo, dizia. Talvez a Cinthia não tivesse visto outras maravilhas naturais que servissem como parâmetro de comparação, mas eu sempre concordava: a coisa mais incrível do mundo. Queria que ela ainda estivesse aqui; era só nisso que eu pensava.

Parece que notando o olhar de soslaio dos responsáveis pelo mirante, o confeiteiro rompeu meus devaneios e fez sinal para me falar algo no ouvido. Amigo, disse ele quase sussurrando, me acompanhe que há um lugar muito bom que vou te mostrar, porque aqui daqui a pouco está fechando. Venha, você vai gostar de conhecer.

Como eu já estivesse mesmo de saída, topei. Saímos caminhando, deixei a moto lá estacionada. Era fim de tarde e andamos por umas ruelas de areia envolvidas por grandes árvores. Como já estava chegando a noite, já não era possível enxergar muita coisa, os meus olhos até lacrimejavam. O Décio, ou seja lá qual fosse seu nome, permanecia calado. Percebendo que a situação tomava contornos muito estranhos, eu, mesmo um pouco bêbado do conhaque - ainda levava a garrafa com bastante bebida na mão - decidi não arriscar mais. Bati-lhe a mão no ombro, segurando-o com alguma firmeza, e falei:

Meu velho, preciso voltar, a noite já chegou e estou muito indisposto. Obrigado pelo papo, pegue esse conhaque pra você. Adeus.

Falei protuberantemente e com uma convicção tal que ele nem ameaçou insistir.

Voltei para o mirante e peguei a moto, já estava escuro e eu não tinha muitas condições de fazer nova viagem de volta pra capital, decidi passar a noite ali por perto, em alguma suíte. Fui para a Pousada Bela Vista, não é muito barata mas era a única que conhecia, era lá onde sempre me hospedava quando acompanhado pela Cinthia, e não tinha saco pra fazer pesquisa de preço agora.

Assim que cheguei, dormi por algumas horas, acordando pouco depois da meia-noite, e aí não consegui mais adormecer. Tava com uma puta vontade de escrever, mas não tinha nada, nem computador, nem mesmo papel. Não tinha livros pra passar o tempo, mas tinha apenas uma TV, que, no entanto, não me serviria. À parte disso tudo, não tinha a Cinthia - o que tornava aquele ambiente muito mais morto e torturante para mim. O único subterfúgio que restava era a bebida, que eu não tinha mais. À minha disposição, ali, só havia um bom aparelho de som. Abri a janela, deixei aquele frio pesado das serras entrar no cômodo, e fiquei sentado a contemplar a imensidão negra lá fora ouvindo músicas lúgubres e lamentando mais de mil vezes por ter dado o litro de conhaque para o confeiteiro.