Nunca fui tanto à Igreja quanto no último mês. Desde que abandonei a minha moral católica há uns dez anos, só frequento tal recinto para levar minhas considerações a amigos e colegas falecidos, nas missas de Sétimo Dia. Ultimamente, tem se tornado comum. Lembro-me que pouco mais de um mês atrás, um sujeito conhecido como Pequeno, também chamado de "velho companheiro", infelizmente viu seu fim de forma trágica. Ele era o pedreiro que estava remontando algumas coisas no meu quintal, reconstruindo um muro, reinstalando, versátil como era, a fiação elétrica para que eu pudesse ter alguma luz quando quisesse matar algumas noites ali - elas haviam sido danificadas por um curto-circuito recente. Na décima vez em que Pequeno completara o serviço do dia - faltando apenas outros dois dias para concluir toda a reforma -, ele me chamou para o Video-Bar do Léo. Eu não gosto de beber nos bares daqui, então até pensei em topar, mas depois voltei atrás. Vi Pequeno sair em sua bicicleta, meio trôpego e cambaleante.
Mas no sábado a gente vai!, dizia enquanto se afastava.
O sábado chegou, porém, e o Pequeno não reapareceu. Somente na terça-feira eu recebi a informação de que o corpo de alguém encontrado embaixo do viaduto da BR-101, dias antes, poderia ser dele, e estavam solicitando pessoas que o conhecessem. Fui no Instituto Técnico de Polícia e me alertaram desde já que o corpo estava em grande parte irreconhecível não somente pela decomposição, mas porque o rapaz em questão havia sido espancado brutalmente.
Entendo, falei, meio sem saber no que pensar. Parecia estar no piloto automático.
Quando o legista puxou o lençol mostrando-me o corpo, eu até me espantei com o estrago que fizeram com o rosto. Mas eu o reconheci pela sua dentição irregular. Reparo rápido nas dentições das pessoas, talvez porque a minha também é bastante irregular; deve ser uma forma inconsciente de autodefesa, ou de autoafirmação.
É ele mesmo, Pequeno, chama-se José Vieira, não sei o nome todo, falei.
Tudo bem, nós já temos aqui, disse o legista.
Junto com alguns vizinhos - que sempre requisitavam os serviço de Pequeno nas suas reformas -, bancamos um funeral modesto para ele. Pequeno morava com a mãe, uma velha que ainda precisa lavar roupa pra poder se sustentar. Grande parte das minhas economias, inclusive um dinheiro que iria utilizar para viajar para um congresso, repassei para a pobre dona.
Pequeno enchera a cara no Bar do Léo e, segundo a polícia, ao sair, bêbado, foi seguido por dois elementos que esperaram o momento certo - a ocasião em que ele passava sob o Viaduto da BR-101, uma área bastante deserta - e derrubaram-no da bicicleta, encheram de porrada e levaram para casa algo em torno de, sei lá, 30 reais.
O tempo que participei do movimento estudantil na época em que fazia ensino médio tinha sido determinante para que eu pudesse fazer algumas amizades. Se dependesse de minha iniciativa em conhecer pessoas pura e simplesmente por conhecer pessoas, provavelmente eu estaria vivendo num deserto hoje. O hábito de estar sempre em interação me permitiu conhecer pessoas de anos diferentes, turmas diferentes, ser convidado para momentos de confraternização e outras coisas afins que sempre fiz com prazer. Mesmo não mantendo contato com praticamente ninguém, há um respeito latente quando nos vemos, e sempre assunto para algumas horas de conversa.
Com um amigo do passado, porém, essas horas de conversa não mais existirão. Era o caso de Ítalo, que conheci de modo adverso - questionando-o aí em alguma assembléia estudantil anos atrás - mas que depois viramos grandes amigos, também decolou para o além há alguns dias, semanas na verdade. Em viagem de carro para a cidade de Currais Novos, seu pai perderia o controle da direção e sofreriam uma colisão de frente com uma carreta que vinha em sentido contrário, num acidente que foi fatal para as quatro pessoas no carro (a prima de Ítalo ainda sobreviveria mais uns dez dias internada).
Lamentei bastante.
A última vez que o encontrei faz seis meses. Eu estava assistindo algumas bandas instrumentais no Som da Mata e ele me chamou e até me pagou um lanche e papeamos por muito tempo, inclusive saudei-o bastante por ser ainda um cara de ideias avançadas e prosa fácil.
Quando eu pensava, enquanto conversávamos, nas outras pessoas que me circulam hoje, quase todas de conversas redundantes, incapazes de conseguirem falar de algo além do assunto em questão - geralmente alguma merda bem banal - e desarticuladas demais até mesmo para formular algumas perguntas (o que faz as conversas parecerem um interrogatório de minha parte), concluia que deveria ser mais amigo de pessoas como o Ítalo. Mas ser mais amigo não é uma escolha. Deixei por obra do acaso a responsabilidade do nosso próximo encontro, no entanto a vida tomou outro caminho.
Durante anos, o ponto comercial que tem aqui do lado da minha casa esteve alugado a um bom sujeito chamado Tércio. Ele estava agora com seus 50 anos, era um cara vivido, um aventureiro, contudo alguns anos atrás, ele, cansado, já sem tanta saúde, decidira levar uma vida pacata, dividindo com sua esposa - Mercedes, na mesma faixa de idade - e a filha - Juliana Carla, de 21 anos - a propriedade de uma pequena loja de roupas femininas. Tércio passava o dia todo, manhã e tarde, na loja. Lá pelas 14h00, a Juliana aparecia. Depois desse horário, ele ou a esposa, ou às vezes os dois, saiam, para bancos, distribuidoras e coisas assim.
A Mercedes, porém, faleceu pouco tempo depois de abrirem a lojinha aqui. Eles pensaram em fechar a loja, mas Tércio achou melhor mantê-la. Pensava em dar para a filha no futuro. A Juliana e eu nos conhecemos e viramos bons amigos, e até mais - ou menos - que amigos, por muitas vezes já nos pegamos ali na salinha dos fundos da loja. Às vezes, quando tinham algumas peças que não iam mais vender por motivos diversos, como defeitos de fabricação , a Juliana brincava com elas, experimentava, botava, tirava, sob a minha vista e com minha ajuda, claro; depois, jogava as peças fora, ou doava, até para mim mesmo. Eu trouxe várias. Presenteei muitas outras garotas com esses trajes íntimos não-vendíveis. Com a Juliana, a coisa não foi pra frente, mesmo com todas essas travessuras a dois, apesar de que quase namoramos, dada a frequência com que eu ia visitá-la - claro, quando o pai não estava presentes.
Mas ela já tinha outros planos. Arrumou um namorado de fato no meio tempo em que estivemos distantes um do outro e ficou noiva rápido. Conheci o cara quando ele veio à loja certa vez. Não senti inveja dele. A Juliana era uma ótima garota, no entanto eu levaria muito tempo para me acostumar à ideia de casar com ela.
Eles se casaram no início deste ano, só que Juliana manteve o costume de cuidar da loja com o pai. Semana passada, porém, essa rotina foi definitivamente quebrada. Quando a Juliana chegou, pela tarde, no seu horário de sempre, discutiu bastante com o pai porque segundo ele faltavam peças de sutiã. Ele ficou com raiva porque a filha havia sido muito desleixada ultimamente com a loja, e mandou que ela fosse na distribuidora trazer um número previamente acertado de caixas de sutiãs com barbatanas de sustentação anatômica: 50.
Juliana saiu na picape em alta velocidade. Pude ouvir daqui. E sabia que todas as vezes que ela saia rápido assim no carro significavam que havia brigado com o pai.
Entretanto, ela demorou demais. Levou quase duas horas para voltar. Quando enfim chegou, com aquele monte de caixas arroseadas na caçamba, a rua estava pacata como sempre e ninguém tomava conta da loja. Somente quando entrou é que percebeu o pai já desacordado, provavelmente já estava morto; havia tido uma parada cardíaca e nenhum socorro pôde ser prestado pois não havia ninguém para ajudá-lo. Ela chamou a ambulância, mas não adiantou, o Tércio havia mesmo ido. Tudo isso por causa da teimosia em terminar o dia com 50 caixas de sutiãs anatômicos na loja.
A ideia de que um homem morreu aqui na casa ao lado, em si me apavora um pouco. Só que é um pavor que passa rápido. No máximo, gera algum arrepio. De maneira geral, para mim não fez diferença. Eles estavam mesmo para ir embora, afinal. A Juliana fechou a loja, com o falecimento do pai, e foi viver às custas do novo marido. O estoque restante ela vendeu por migalhas, saiu distribuindo, até a mim mesmo ela me viu cinco ou seis caixas de sutiãs dessa. Minha mãe todas pegou para si e para vender no trabalho, eu acho.
Um dia desses toquei violão no trem com uma garota que se chamava Frida, ou pelo menos se identificava assim. Nós nos conhecemos aqui no bairro há três anos, mas eu não dou muito as caras pelas ruas as redondezas, prefiro ficar trancado em casa, então não rola muito de nos encontrarmos. As vezes em que nos conversamos se deram quando nos esbarramos no ônibus, ou no trem. Sempre, pelo menos uma vez por mês, eu esbarrava nela em alguma dessas conduções.
A Frida era uma garota rebelde demais, dos tipos que talvez precise se esforçar para parecer provocativa e ousada, mas dava para notar certa autenticidade nela. Era inteligente, apesar de tudo. Falava sobre várias coisas. Xingava muito. Ainda assim, meu cinismo a irritava mais que os seus xingamentos a certos hábitos meus. Tinha uma energia muito explosiva, emitia emoções facilmente, falava alto e rápido. Gostava de falar sobre livros, já emprestei um ou outro para ela. Depois que ela me devolvia, repudiava a maioria dos livros. Dizia que, se eu fosse recomendar algo, que soubesse fazê-lo. Atínhamo-nos a desconstruir os argumentos do outro. Era um exercício interessante. Ela nunca me emprestou nenhum livro, acho que nem tinha livros, aliás.
Certa vez, ela me comentou o fato de eu nunca ter lhe perguntado onde morava. E questionou se era por falta de interesse que eu não lhe perguntava isso.
Se eu souber onde mora, não ficaria de bom tom para meu lado caso não fizesse uma visita, eu lhe disse, completando: mas não gosto de fazer visitas, como não gosto de recebê-las.
Ela de fato já sabia disso, tanto que entendeu - ou pelo menos achei que houvesse entendido. Numa dada ocasião, insistiu que eu conhecesse sua casa. Então concordei e fui. Sabia que ela morava com a mãe, só que a mãe não estava, e não faço ideia de onde poderia estar. No seu quarto, todas as marcas de sua inconsequência: paredes rabiscadas, alguns desenhos demoníacos em papel jogados debaixo da cama, papelotes de pó convenientemente escondidos nos fundos das gavetas, um cd de músicas incompreensíveis já no ponto no mini-system, só esperando ser dado o play, coisa que ela não demora a fazer.
Gosta desse estilo?, ela pergunta. É gore-grind.
Isso é uma merda, eu disse.
Ela comentou que aquele excremento sonoro tinha exatamente essa pretensão, de ser antimúsica, de fugir de convencionalismos. As músicas se ligavam de maneira bizarra, sem pausas ou intervalos quaisquer. Ela adorava. Dizia que esse som é como um trem pro inferno: não tem freio. Haja contorcionismo conceitual.
Eu falei que não queria cheirar nada, e também não queria ouvir nada. Ela acatou, desligou o som e guardou os papelotes, e passei a noite por lá.
Dois meses depois, eu a encontrei no trem Natal-Parnamirim. Ela estava com violão em punho e perguntou porque eu não a procurei nesse tempo todo. Estava um pouco mais amável do que seu jeito habitual, entretanto continuava elétrica como sempre. Parecia mais bonita também, apesar de a pele estar pálida. Devia estar exagerando nos entorpecentes, eu falei, e ela mudou de assunto. Pegamos o violão e cantamos uma ou outra música. Mas ela não gostava das músicas que eu tocava. Enquanto eu ficava lá dedilhando, ela preferiu pegar a minha agenda e ler se tinha algo escrito. Encontrou um fragmento de poesia.
porém, não te sou insincero, meu amora vida pra mim é, e sempre foi, uma doruma vala de cacos e fatos incoloresuma estrada escura e tão vazia de valoresGostei disso, ela falou, agora num tom mais sério. Mas não comentou mais, o trem havia parado e era a estação dela. Pegou o violão e se foi, me implorou que a visitasse dentro de um mês depois. Haveria uma novidade na sua vida que queria me contar.
Só que não houve "um mês depois". No máximo dez dias após essa conversa, soube que ela morrera por acúmulo de entorpecentes. Havia tomado muitos calmantes acompanhados de uma notável quantidade de álcool que potencializou os efeitos dos comprimidos, o que causou uma grande depressão em seu sistema nervoso central fazendo-a perder a consciência e sofrer uma parada respiratória definitiva. Morte.
Já sinto a falta da Frida. E fico a lamentar também pelo Tércio, pelo Ítalo. Lamento também pelo Pequeno, com quem eu sempre conversava enquanto o via trabalhar. Era um sujeito que tinha muito a falar, mas ninguém para ouvir, então eu ouvia. Eu ficava sentado numa cadeira de praia tomando cerveja e dizia para ele segurar a vontade, que depois do serviço poderia beber cerveja à vontade. Apesar disso, eu nunca cumpria a promessa. Sempre dividia com ele a bebida.
Posso pensar que nenhum deles fazia parte da minha vida diretamente, pois não participavam dela, não eram parte do meu cotidiano. Só não é suficiente para deixar de lamentar. Decidi passar para o computador e continuar escrevendo os versos manuscritos fragmentados que tinham sido objeto de apreciação, ainda que breve, da Frida, e enquanto digito sinto um frio sinistro me correr a espinha. Olho ao redor e não vejo e já não sinto nada, não há nem vento aqui. O quarto está todo escuro, e hoje está mais fúnebre do que nos outros dias. Mas eu prefiro não acender a luz.