domingo, 19 de dezembro de 2010

Diálogo existencialista (peça incompleta)

(Eu estava bebendo conhaque e olhando Júpiter pela janela com a luneta que havia comprado recentemente. Gabriela estava deitada na cama, fora de minha vista e de minha audição; mas como ela quisesse conversar, então me voltei em sua direção.)

GABRIELA

Você gosta de tristeza?

(Eu me fiz de desentendido.)

LEON

O livro? Um dos melhores que já li.

(Ela riu. Depois ficou com um pequeno sorriso, mas meio sem querer perguntar novamente.)

GABRIELA

Não é isso não...

LEON

O sentimento, é?

GABRIELA

Sim.

LEON

Não necessariamente gosto... Convivo com ele. Acho que a vida é triste. Os momentos de alegria são meros lapsos. (dei uma boa parada, coloquei mais um pouco de conhaque e bebi antes de continuar a falação.) A nossa condição existencial é a solidão, e não nos conformamos com isso. Porque fisiologicamente somos um animal social, mas existencialmente, somos solitários.

GABRIELA

Puxa. (parecia surpresa, mas não demonstrava ter nada mais a dizer.)

(Continuei como se não a tivesse ouvido.)

LEON

... Então, acho que quando se adquire mais percepção a respeito das vicissitudes, os dilemas que a vida oferece, cada vez mais se entende que tudo o que conhecemos por reconhecimento, conquista, é pueril e simplório demais, e não sustenta nenhum senso de grandeza. Sendo assim, é uma sensação (a conquista, a vitória, a alegria) que surge e tende a esmorecer rápido, antes que nos demos conta disso... Isso só perdura naqueles que ignoram o lado obscuro da vida.

GABRIELA

Acha mesmo?

(Fui sentencioso.)

LEON

Acho sim.

(Silêncio, por alguns minutos. Gabriela estava sentada com as pernas curvadas sobre a cama, então deitou e se cobriu; eu estava bebericando e olhando-a fixamente. Como se tivesse se lembrado de algo, ela virou o rosto para mim rapidamente, mas ainda ficaria alguns segundos calada.)

GABRIELA


Eu nunca parei pra pensar sobre essas coisas.


LEON

Eu sempre parei, era só o que fazia... não fazia mais nada, afinal. Agora continuo não fazendo muita coisa, eu me acostumei com essa condição.

(Ela fazia murmúrios, como se procurasse as palavras.)

GABRIELA

E antes de pensar tanto sobre essas coisas, você era mais alegre?

LEON

Não. Por isso, eu achava que havia algo errado comigo. Sentia-me desprezado, injustiçado, relegado... Achava que as pessoas eram más e esperava sempre algo delas que nunca me ofereciam, em momento algum.

GABRIELA

Continua.

LEON

Depois, entendi que não se tratava disso. Ainda é estranho aceitar, às vezes. Há ressentimentos e coisas assim. Mas eu passei a entender melhor o porquê de as pessoas agirem dessa maneira. De serem indiferentes a outras, de serem insensíveis, e tal...

GABRIELA

São motivos distintos?

LEON

De modo geral, o motivo é o mesmo... aí cada pessoa tem suas particularidades, que só se diferenciam do todo em alguns casos específicos...

GABRIELA

Entendi.

(Voltei a olhar para a janela. Júpiter ainda estava no campo de vista. Enchi o copo com conhaque e dei uma última olhada para Gabriela. Ela estava me olhando, mas como se não estivesse me vendo, como se eu fosse transparente. Fiz-lhe uma última pergunta.)

LEON

Uma grande bobagem tudo isso?

(Não me lembro da resposta.)




sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A estagiária

Uns meses atrás, quando a minha moto andou encostada devido a uma conjunção de pequenos fatores, eu teria que ir ao trabalho e à faculdade de ônibus. De certo modo, havia algo de positivo nisso, pois me permitia ter um mínimo de relação com outras pessoas, coisa que já não tinha mais, uma vez que nos dias comuns, em que uso meu próprio transporte para ir a meu destino, praticamente as únicas pessoas com quem converso são alunos e professores da escola onde dou aula, colegas e professores da faculdade em que estudo e atendentes de bancas de revista, de lojas, de padarias e coisas assim; a maioria destas relações, como se vê, regida pela insossa relação profissional-cliente, uma das coisas que mais detesto, tanto estando eu na situação do profissional como do cliente.

Decidi pegar o ônibus em três horários diferentes. Nas segundas e quartas, eu pegava o ônibus ao meio-dia na ida e às 22h00 na volta. Nas terças e quintas, eu pegava o ônibus às 13h00 e voltava às 23h00. Nas sextas, o horário era flexível, pois eu dava apenas um horário de aula, e como não havia faculdade nesses dias eu voltava cedo, geralmente ainda no final da tarde, de maneira que não pegava ônibus no mesmo horário.

No ônibus de meio-dia, certa vez ao meu lado sentou uma mulher bastante imponente. Eu estava no banco da janela e ela no do corredor. Era uma mulher grande, balzaquiana, de quadris largos, o que fazia com que, quando ela se sentasse, me imprensasse, deixando suas pernas bem coladas na minha. Como o ônibus nesse horário lotava rapidamente, aos poucos a mulher era obrigada a imprensar-se ainda mais sobre mim, o que gerava também uma reação contrária, caso contrário eu não teria sequer lugar pra sentar. A mulher passou a viagem toda falando no telefone até que enfim chegasse seu ponto; quando ela decidiu descer, um cara sentou em seu lugar e me puxou o braço pra falar algo que não entendi e pedi que repetisse.

Gostosa, a Marta, essa mulherona que tava aqui do teu lado, ele disse.

Ah, sim. Na verdade, não a notei muito, eu falei.

Como não notou?! Ela tava praticamente se oferecendo pra você. Ela é a dama do lotação versão Águas Claras, disse o cara, referindo-se ao conjunto habitacional em que ela morava.

Nem notei mesmo, quem sabe na próxima...

Tu não pode marcar bobeira assim, rapá!, ele dizia, como se fôssemos velhos conhecidos.

Me fale você, eu disse, tentando inverter o interrogatório. Que sabe dela?

E enquanto ele falava eu olhava pela janela.

No dia seguinte, uma terça-feira, eu saí de casa às 13h00. Nesse horário, o ônibus nem sempre lotava; frequentemente o banco ao meu lado ficava vazio. Eu ficava reparando ora no trajeto que passava irreversivelmente lá fora do ônibus, ora nas pessoas dentro dele, estudantes, vendedoras e coisas assim. Uma garota de feitio comum em particular chamava a atenção por ser bastante comunicativa, pelo visto conhecia bastante gente que pegava ônibus naquela hora (sempre a via falando com alguém). Notei pela sua farda que trabalhava na Companhia de Águas e Esgotos. Eu reparava nela como reparava nas outras garotas, às vezes prestando alguma atenção, mas sempre distante, despretensioso, como se as observa num romance de Scott Fitzgerald.

Em uma rara ocasião, essa garota sentou ao meu lado. Depois de poucos minutos de viagem, perguntou a mim as horas.

Bem... são 13h15, eu falei, sem olhar para o relógio.

Nem olhou para o relógio, ela disse, estranhando o fato de eu dizer a hora diretamente.

O meu relógio estava parado fazia alguns dias. Precisava levar em algum relojoeiro. Mas por força do hábito eu sempre o punha no braço, mesmo assim, inutilizável. Então tentei explicar a situação de alguma maneira.

Na verdade, meu relógio parou agora há pouco, notei só depois que saí de casa, falei.

Posso ver?, ela perguntou. E ao notar a data que marcava no relógio, disse mas ele parou há três dias, pelo menos é o que se vê aqui na data.

Bem, não ligo.

Como não liga?, ela insistiu. Ela ria enquanto questionava.

Relógio pra mim é mais um mero acessório, apenas.

Ah...

E se fez algum silêncio por um tempo. Até que eu retomei a conversa.

Você trabalha na Caern, não é?

Como sabe?, ela perguntou.

Já notei pela sua farda em outros dias (ela não usava farda nesse dia).

Ah, sim! Sou estagiária de lá, disse efusivamente.

E começamos a prosear sobre Caern e outras coisas. Quando eu disse que havia sido aprovado no concurso para trabalhar nessa companhia, ela havia ficado particularmente mais interessada na conversa.

Assim os dias se revezavam. Em uns eu falava com o rapaz que sentava ao meu lado, que se chamava Martins. Era um mauricinho, fora nossa idade semelhante nada de comum entre nós, mas a conversa às vezes fluia bem. De modo geral, falávamos de mulheres; aliás, quase sempre era ele quem falava, oferecendo histórias mirabolantes, cada uma com acessos de ousadia de sua parte na sedução de garotas que eram dignos de um Casanova. Pelo menos, assim parecia; nos outros dias, eu falava com essa garota que ocasionalmente sentava ao meu lado e íamos sempre conversando, que se chamava Luziana. Ela era bonita, da minha altura, tinha uns 18 anos e isso era visível na sua pele clara e delicada ornamentada por longos cabelos bem escuros. Seu sorriso de covinhas chamava atenção, até a mim que não ligo muito para sorrisos.

Um certo dia o Martins, que parecia saber coisas de todas as garotas do bairro, entoando sempre longos discursos nos quais eu nem sempre prestava atenção, falou por acaso sobre a Luziana.

Como assim, você conhece a Luziana?, perguntei.

Claro que conheço! A propósito, ela bem que gosta de caras assim como você, com esse ar astuto, metido, professoral, completou, meio ironicamente.

Às vezes eu converso com ela no ônibus das 13h00.

Invista nela, ele disse.

Não liguei muito para o que ele havia falado. Porém, dias depois, a Luziana me convidou para uma festa que haveria na Caern. Era aniversário da empresa e a festa seria aberta para a comunidade.

Venha, você vai gostar, aproveita e vê um pouco como é o ambiente lá, dizia ela, insistindo para que eu fosse.

Certo, eu irei.

O Martins ficou especialmente interessado quando falei do convite da Luziana.

Bote quente!, ele falava, imperativamente.

Nesse período, eu já havia consertado minha moto, mas continuava indo ao trabalho de ônibus só para manter essas prosas cotidianas. Só que para a festa da Caern em particular, não fui de ônibus. A Luziana não entendeu o fato de eu ter ido de moto, provavelmente achou num primeiro momento que ela fosse emprestada de alguém. Havia bastante gente na festa, como havia bastante comida e bastante bebida. Depois de passarmos umas duas horas lá, a Luziana deve ter cansado do lugar.

Vamos sair daqui?, ela pediu.

Abandonamos o recinto. Como eu estava de moto, saímos passeando pela cidade. Antes do final da tarde, a Luziana estava quase implorando para vir à minha casa, e eu mesmo a contragosto - nunca trago ninguém para cá -, acatei. Fizemos sexo por várias horas e ficamos de papo furado outras tantas - sexo e papo, aliás, sempre interrompidos por telefonemas de sua mãe e justificativas pueris da parte da Luziana -, e eu a deixei em casa por volta da meia noite.

O que você pensa depois de transar com alguém?, ela me perguntou na hora da despedida, já em frente à sua casa. Sorria, como sempre.

Daqui a quantos anos será a próxima vez?, eu pensei. Mas não falei.

Isso na verdade nunca foi uma preocupação minha. A depender de mim, aquela noite nem teria existido.

Depois dessa ocasião, sempre que a Luziana me encontrava no ônibus, pressionava mais para sairmos outras vezes. Aliás, ela sempre pressionou, desde o princípio. A única coisa que eu queria era uma prosa cotidiana; ela queria provavelmente um namorado novo e uma transa a cada dois dias. Exigências demais para um sujeito sem saco pra nada disso como eu.

Acho que na semana que vem em diante não pegarei mais o ônibus, eu lhe disse, o que não a agradou.

Como assim?

Vou trabalhar de moto, falei.

Não entendi. E por que você está indo de ônibus todas essas semanas?

A moto estava quebrada.

Mas faz dias que você consertou!, disse a Luziana. Ela parecia gradativamente mais irritada.

É, só que preferi continuar indo de ônibus.

Meu Deus, que maníaco é você?! Imagine como deve ser louco um cara que usa relógio parado como acessório e anda de ônibus pra descolar garotas!!

Daí por diante, os seus comentários seriam ainda menos simpáticos. Apesar disso, ela ainda me telefonou uma ou outra vez, bem esporadicamente. No entanto, não demoraria a me esquecer em definitivo; é provável que outro cara já houvesse entrado na sua rota.

Numa das últimas viagens de ônibus que fiz ao meio-dia, encontrei o Martins, com quem não falava há algum tempo. Ele andou com atestado médico, então não havia ido trabalhar naqueles dias.

Ei, mas e a saída com a Luziana??, ele perguntou.

Ah, nada, não rolou nada.

Como assim nada?!

Nada.

Nem um boquetezinho?!, ele insistiu.

Não.

Ah meu irmão, você é muito mole, muito sem futuro. Quer saber? Vou é parar de falar contigo, tava me deixando mal, fazia um tempão que não comia ninguém, foi só ficarmos distante esses últimos dias que eu fiquei com duas morenaças!

Eu não sei se ele falou tudo isso ironicamente, mas decerto tornou bem mais fácil o fim do contato.

Na semana seguinte voltei a usar minha moto para ir ao trabalho e à faculdade, e ela até hoje não quebrou mais. Melhor assim.



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Anoitecer na estrada

Eu tocava adiante na estrada, vendo somente os raios de sol cortarem o tronco das árvores que se punham em sequência como se fosse uma cortina natural, situada ao longo do meio fio, fazendo um jogo de luzes e sombras que desenhavam formas bastante peculiares no asfalto e que ganhavam um visual bem singular quando visto por detrás de meus óculos escuros, e a tudo isso eu cortava ao mesmo tempo em que sentia a brisa pincelando meu rosto.

Era o final de uma tarde de verão e eu estava viajando de moto com a viseira levantada, em algum lugar do norte de Alagoas, num trecho não muito movimentado, permeado de estradas sinuosas e pequenos morros cobertos por uma vegetação verde e litorânea, no qual o único sinal de movimento além dos meus sobre a moto eram treminhões que levavam carregamentos pesadíssimos para os latifúndios da região, e, talvez, um ou outro mochileiro de bicicleta viajando no sentido contrário. Eu pretendia passar a noite em Maceió; ficaria alguns dias por lá, mas durante a viagem de moto imaginei que, em algum momento, eu tivesse pego o caminho errado, pois estranhara o fato de seguir já há muito tempo naquela estrada enfiada num cenário meio paradisíaco, sem jamais encontrar qualquer vestígio da capital alagoana.

No meu trajeto, eu procurava apenas uma placa que indicasse Maceió a XXX quilômetros, mas não encontrava. As únicas placas que apareciam no correr da estrada diziam em letras grandes CUIDADO COM OS TREMINHÕES.

Em um certo momento, notei que atrás de mim vinha outro motociclista. Bem que pretendi solicitar ajuda, mas ele vinha numa moto superesportiva e passou por mim em tão alta velocidade que num espaço de poucos segundos eu já o perdera completamente de vista, a ponto de duvidar de mim mesmo se alguém havia passado por mim naquele instante.

Enquanto o sol descia ainda mais, eu encontrei um garoto encostado ao pé da rodovia, mexendo numa bicicleta. Parei ao seu lado e lhe perguntei para que lado ficava Maceió, se eu estava seguindo no sentido correto.

Maceió?, ele perguntou.

Tinha uns 12 anos, mas provavelmente não fazia a menor noção de para que lado ficava Maceió.

Eu segui adiante, ainda na esperança de encontrar placas que indicassem a distância ou o sentido para o qual eu devia seguir para achar Maceió, mas todas as placas que apareciam se atinham a me avisar CUIDADO COM OS TREMINHÕES.

Como eu andasse já há tanto tempo e naquela estrada deserta não houvesse posto de gasolina, esperei chegar a primeira cidadezinha e decidi que dormiria nela, para pegar a estrada e continuar a viagem na manhã seguinte. A cidadezinha de fato apareceu, com feitio aconchegante. Ao lado de um barzinho que ficava às margens da rodovia tinha um motel, pensei em dormir ali. Antes de ir no motel, entretanto, fui no bar, queria beber alguma coisa. Entrei, sentei no balcão, e fiquei conversando com o atendente. Era o próprio dono do bar, que inclusive, no decorrer da conversa ofereceu gasolina que ele tinha estocado para que eu pudesse prosseguir.

Você é matador?, perguntou-me um bêbado barbudo da mesa em que estava sentado, interrompendo minha conversa com o dono do recinto. Eu não ouvira a pergunta, ou não me houvera dado conta de que havia sido feita para mim. Somente quando ele repetiu - você é matador? -, eu virei o rosto e notei que era mesmo comigo.

Por que a pergunta?, questionei.

Por causa dessas roupas aí, ele disse.

Eu usava uma calça jeans meio surrada, e um colete de motoclube, além de um bracelete punk. Usava também uma bandana, mas havia tirado logo que tirei também o capacete. Provavelmente corria para ele a lenda de que motociclistas nesse estilo eram assassinos e saqueadores. Mas eu estava sozinho, por isso ele e os demais se sentiam seguros.

Não, eu lhes disse. Não sou matador, sou escritor.

Escritor? O que faz um escritor?, perguntou outro cara que não cheguei a ver, apenas ouvi.

Acho mais fácil você ser matador do que escritor, sentenciou o barbudo.

Que seja, eu falei. Mas eu sou escritor.

Eu também acho mais fácil ser matador, disse uma voz feminina que se aproximou de mim, pelo outro lado, sem que eu notasse sua chegada. Apenas balancei a cabeça para ela. Era uma morena de pele clara e cabelos negros mas com umas mechas loiras, bem baixinha, com roupas que denunciavam o que ela fazia; era nitidamente uma mulher muito usada pelos caras da região.

Mora aqui nessa cidadezinha?, perguntei.

Durmo no motel, ela disse.

Dorme no motel?

Durmo, mas não apenas durmo.

Ah, sim, eu falei. E comecei a pensar na ideia de gastar uns trocados com aquela miudinha. Mas quando dei-lhe uma vista geral, notei algo que não havia visto na primeira vez, que eram as suas pernas expostas; eram até bem grossas e ficavam realçadas pelo shortinho que mais parecia de pijama, mas que, pelo que se via, há muito tempo não haviam sido depiladas. Quando eu olhava melhor, ela bem poderia ser confundida com pernas de homem. Aquilo não me animou muito. Ela continuou dando mole e pedindo algumas bebidas que prontamente paguei, mas achei melhor não ficar naquela cidade, sob risco de passar a noite sendo perseguido por essa baixinha peluda.

Saí do bar, ouvindo pela metade os comentários da mulher e do bêbado barbudo e fui em direção à minha moto, que estava rodeada por umas três ou quatro crianças que nunca haviam visto motos naquele estilo custom; provavelmente achavam que era uma moto de brinquedo.

1 real se alguém me disser quanto tempo falta pra Maceió nessa direção, ofereci.

Maceió?? Maceió fica praquele lado!, disse um dos moleques, apontando no sentido contrário.

Só então me dei conta de que estava o tempo todo viajando no sentido contrário. Que grande merda, pensei.

Demoro muito para chegar lá? É longe?, ainda perguntei.

É quase longe, disse um deles. Acho que entendi.

Tomei rumo de volta, e a essa altura o sol já houvera se posto por trás dos morros verdes, e diante de mim só restava a estrada sinuosa que eu acompanhava com o farol alto da moto, recebendo como comunicado somente as mesmas placas de CUIDADO COM OS TREMINHÕES. Eu já estava cansado de ver tais placas, sobretudo porque ainda não havia visto nenhum treminhão por ali. Reclamava, de dentro de meu capacete, de todas as instâncias governamentais que não colocavam uma mísera placa apontando para que lado ficava Maceió.

Depois de duas horas de viagem em pleno breu, encontrei uma encruzilhada de três direções que passara batida na minha viagem, mais cedo. Decidi tomar o rumo que houvera ignorado. Nesse rumo, somavam-se mais curvas, mais montanhas, e mais placas de CUIDADO COM OS TREMINHÕES. Segui em frente, confiante de que chegaria em Maceió antes da madrugada. De repente, no meio daquele breu infinito, eu vi luzes acumuladas algumas centenas de metros à frente, na estrada. Diminuí a velocidade, vi que havia bastante movimento. Eram luzes de carros. Estavam estacionados vendo um estrago na rodovia. Era um ciclista que, ignorando os anúncios para tomar cuidado com os treminhões, havia passado rápido demais numa área de risco. Foi atropelado pelo treminhão, tendo sua bicicleta estraçalhada e seu corpo dilacerado e espalhado na estrada. Eu, um matador de araque, fiquei meio desconfortável quando vi braços aqui e pernas ali. E fiquei apreensivo também com aquele treminhão, cuja imponência justificava as tantas placas que alertavam para o risco de me encontrar com um deles.

Mas a viagem não duraria muito tempo depois dali. Bastou mais vinte e cinco minutos adiante para que eu chegasse em Maceió.



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Prazos de validade

Eu sempre tive um hábito meio mórbido de fazer amigos, mas do qual ainda não consegui me livrar (embora esteja tentando).

Já há alguns anos, sempre na época dos vestibulares, eu me dirijo a algum local de prova e fico na frente do portão, junto com os vendedores de água e baganas e os parentes dos candidatos que ficam do lado de fora trocando lero. A diferença é que não vendo nada nem sou parente de ninguém. Observo todos os candidatos passando pelos portões, até que vai se aproximando a hora-limite de entrada e o clima começa a ficar tenso: será que alguém vai perder a prova?

Quando os responsáveis pelo fechamento dos portões começam a se movimentar, a tensão se espalha. Sempre há candidatos retardatários vindo correndo no final da rua, e a multidão em coro toma para si a perseverança desses sujeitos atrasados e começam a lançar gritos e gritos de alerta.

Corre!, corre!, vai fechar!

Quase sempre o candidato consegue entrar, graças à benevolência do fiscal que retarda o trancamento dos portões. Mas sempre há alguém que fica de fora, e então eu - que sempre assisto entusiasmado a esse pequeno show urbano - começo a agir.

Lembro-me de uma vez que uma garota chegou e não pôde entrar por questão de segundos. Segundos mesmo. Desde o início da leitura dessa frase até esse momento: esse foi o tempo entre o fechamento do portão e a chegada da garota, uma mulata baixinha, que só não caiu no choro na mesma hora porque aparentemente não lhe havia caído a ficha. Assim que a garota literalmente esbarrou no portão - ao som consolador de dezenas de vozes -, ela lá ficou por alguns segundos, inerte, sequer sem voz para pedir inutilmente ao fiscal que a deixasse entrar; então foi saindo dali, ainda apoiando-se no portão e logo que este acabou, apoiando-se no muro. Da parte das pessoas, após o choque inicial, já se ouviam algumas risadinhas e umas provocações indiretas, do tipo "a única coisa que ela tem que fazer no ano é essa prova, e chega atrasada". Estavam alimentando-se da desgraça alheia.

A mulatinha andou uns duzentos metros, saiu do meio da multidão, e então sentou num muro, com um semblante tão pálido que parecia que não havia respirado naqueles minutos. Eu comprei um copo de água mineral e me aproximei, oferecendo e sugerindo-lhe que ficasse calma. Ela não tinha fôlego mesmo, mas aos poucos foi se recuperando e o papo fluía melhor. Assim como conheci essa garota, conheci também outras pessoas. Ficava sempre nas portas dos locais de provas, esperando os retardatários, aqueles que (talvez pela primeira vez) sentem o peso de 30 segundos, de um minuto, em suas vidas. A conversa no início era sempre difícil - muitas vezes, depois da tensão inicial a pessoa caía em prantos e a conversa se tornava por algum tempo impossível; porém, eram esses casos que eu mais gostava -, no entanto aos poucos a comunicação evoluía.

Em geral, eu conhecia mais garotas nesses locais. A conversa com elas fluía sempre com mais facilidade, porque elas exprimem mais as emoções. É até uma oportunidade para eu testar tudo que aprendi autodidaticamente com tantos livros de Psicologia. Só que também já conheci alguns caras. Um deles, o único com quem ainda mantenho algum parco contato, era meio metido a surfista. Nunca teve nenhuma meta na vida que passasse pelo vestibular, mas não deixou de ser um baque ser barrado no portão do local de prova. Raros são os que reagem normalmente. Alguns são até insossos, mas também sentem.

A minha última namorada, inclusive, eu conheci na porta do então Cefet-RN. Logo após ela ter sido barrada, fomos até o bosque que há ali perto e lá lanchamos e conversamos o dia todo, e no dia seguinte até umas dez semanas depois estávamos namorando, ainda que não fosse um namoro propriamente dito, mas que seja: namoros não necessariamente precisam ser tais como são propriamente ditos.

Os desatentos pensariam que eu gosto de ver as desgraças alheias; não, não gosto. Se dependesse de mim, não sofreriam desgraças quaisquer. É apenas que a pessoa nesta ocasião está sensibilizada, de modo geral ela, no momento posterior a um tropeço desses, esboça qualquer característica fundante ignorada, talvez alguns defeitos de personalidade desconhecidos ou talvez virtudes até ali reprimidas. Eu vislumbro sempre o segundo caso.

Apesar de tudo, nenhuma dessas amizades durou muito tempo. Tratavam-se deamizades cujo elo de ligação era a desgraça, o fracasso, a tensão. Eu gostava de conhecer a pessoa pelo que ela tinha de irresponsável. E, sobretudo, gostava de conhecê-la num momento de total ausência de humor, já que não tenho muito saco para besteirol. Só que após os primeiros dias, ou as primeiras semanas (quando sai o resultado do vestibular, sempre bate de novo aquela crise nos retardatários), as pessoas sempre conseguem "superar" o problema. Suas vidas, passam, então, a se permear de novas boas coisas. As garotas começam a querer que eu vá com elas para uma balada ou passar um fim-de-semana na casa de praia com sua turma, os caras começam a me chamar para churrascadas ou para jogos de futebol. A socialização a dois enterra-se, e a amizade só se sustentaria se eu topasse participar desses programas coletivos e chatos demais. Então eu desisto, todas as vezes, de maneira que essas relações nunca ultrapassam a barreira dos três meses. Depois, vem a espera por novas oportunidades.

Mas isso cansa.

Neste final de semana, bem que acordei com aquela velha vontade de fazer brotar mais um amigo e uma namorada; no entanto, assim que pensei no vazio que emergiria daqui a uns três meses - justo quando eu já estivesse desacostumado com ele -, percebi que valeria mais a pena voltar a dormir.



quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Eu estive nessas últimas semanas meio atarefado com a campanha eleitoral e com a monografia que estou preparando;
a campanha passou, de maneira que
agora posso voltar a escrever com mais assiduidade
(a monografia pode esperar).

Por ora, posto um poema para retomar as atualizações.
Em breve, postarei novos contos.
Estou produzindo alguns livros a serem lançados em breve
e o blog entrará numa fase de divulgação,
mas até lá preciso resgatar os queridos leitores,
e, por meio deste, trazer novos.

Abraço e obrigado aos que têm frequentado o blog
mesmo com os últimos contratempos.


Para a margem oposta do rio


Na margem oposta do rio
não há sonhos ou esperanças,
não há bichos e nem crianças;
naquele lugar toda quimera
são mostras de que coisas boas
não satisfaziam pois não existiam
senão noutro tempo, noutra era.

Na margem oposta do rio
não vemos garotas, não temos desejos,
não temos abraços, não temos beijos;
temos o bocejo que marca o cansaço
de quem, numa simplória expectativa
imprime ali o seu derradeiro passo,
a sua última e fracassada tentativa.

Porque a margem oposta do rio,
para quem observa do lado de cá,
oferece loas de primaveras e luzes,
mas esconde a negritude e as cruzes
que nos apresentam a sua outra face
deixando-nos num verdadeiro impasse
(é por isso que não há mais ninguém lá).

Na margem oposta do rio, disseram poetas
as estátuas esculpidas substituíram os atletas,
a paisagem verdejante, com vida e com cor
se transformou numa natureza morta pela dor.
E é por amor à dor e ao sofrimento de agora
que é pra lá que vou quando daqui for-me embora.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O quintal

Aqui faz silêncio e ainda é Natal. A família se reuniu ontem, toda ela, na noite do dia 24. Estavam todos aqui em casa, disseram que era o melhor ponto de encontro. Minha mãe e minhas tias prepararam uns bolos e perus. Parentes e amigos dos familiares vieram, com lembretes, com ânsia de comer, com ânsia de beber. Para mim, isso tudo não significa muita coisa. De tanto não significar, passou rapidamente (ainda bem). Na manhã de hoje, 25, todos já tinham ido embora. Minha mãe e uma ou outra tia ficou para arrumar tudo aqui. Pela tarde, foram, elas tambêm, para suas respectivas casas. Fiquei eu aqui, sozinho, no quintal, atento a suas feituras, seu muro esburacado, observando as formigas caminhando, vindo lá de dentro da casa - provavelmente levando restos de bolo ou qualquer coisa assim para seus lares subterrâneos. Enquanto olho para elas, eu me lembro de outras formigas. Quando olho ao redor, é outro quintal que se ocupa de minha memória. Quando me dou conta de que dia é hoje - 25 de dezembro -, é uma outra data especial que me marca, para além do Natal.

O 25 de dezembro me faz lembrar um aniversário, para o qual eu me aprontava ano a ano, e era o único que me mobilizava a comprar algum presente por aí. Não que presente algum fosse necessário; não era. Era apenas um acessório a mais, mas naquela ocasião, fazia sentido.

O melhor de tudo, contudo, é quando eu me dirigia àquele quintal, que não é este em que me encontro agora. Ali sim era onde eu realmente me sentia aconchegado, por alguma oculta razão. Onde as melhores palavras estavam sempre no ar, mas não foram nunca pronunciadas. Fico me lembrando daquele quintal, do orvalho que havia ali, do cecém ali no canto da parede, no pouco espaço que restava ao gramado, das formigas no chão, que pareciam completamente donas do espaço.

Pensando agora, fica para mim a impressão de que, naquela época, era sempre de manhã.

Outra coisa que me lembro daquele quintal era aquela mesinha que o centralizava, sob um guarda-sol permanentemente aberto - e provavelmente achado no lixo, sei lá, mas que combinava de algum modo com o local - e com as quatro cadeiras que a cercavam (mas somente duas ficavam ocupadas, as outras ficavam livres). Não me lembro de vozes enquanto estava sentado ali; lembro-me apenas de respiração. As vozes existiam, eu as sentia, mas não as ouvia: a comunicação que existia naquele quintal era anterior à comunicação tradicional, falada. Mas era tudo muito claro e direto: naquele olhar que parecia feito ali naquele quintal, as palavras que não eram ditas pareciam visíveis como manchas negras sobre folhas de papel em branco.





Puxando na memória, agora, fico matutando aqui se ali passava o tempo. No período que frequentei aquele local de rara harmonia, tudo parecia estático como retrato. A dialética da natureza se percebia nas minúcias; o macro permanecia inalterado a olhos desavisados.

A dúvida não é à toa. E não é que faltassem ponteiros ou coisas assim. Elas estavam lá, nas paredes, girando incessantemente, feito os relógios comuns de braço, ou aqueles do alto das catedrais. É só que o tempo suplanta ponteiros e calendários, e só hoje sei disso: o tempo, eu diria, parece-se menos com o maquinário dependurado e mais com a parede lascada que o sustenta.

O tempo não cabe em maios nem em catedrais. Não cabe em fotos de calendários de farmácias (essas fotos, aliás, mostram o contrário: que os dias são todos iguais). Esse tempo de que falo está acima dos retratos de tempos dos quais talvez a minha companhia naquele quintal talvez já nem se lembre mais. É o mesmo tempo que enfrentamos todos, que dá poder a impérios ocultos, que dissolve as nossas manhãs, todas elas, uma a uma; só nos daremos conta disso no futuro, quando formos sujeitos velhos e amargurados.





Entre algumas últimas lembranças daquele quintal, fico pensando nos ingredientes que o montavam, entre insetos pequenos e clorofila, onde eu depositava as manhãs de um tempo estranho, que já era muito depois da infância, e naquela fase difícil de minha vida, aqueles ingredientes amorteciam-me das piores dores que pode viver um homem sem quaisquer perspectivas maiores, como eu estava naquele momento.

Aquele quintal, para mim, está agora misturado entre lamentos silenciosos, que devem estar pretendendo mudar sua feição, o seu caráter imutável, onde as laranjas não caiam do pé e as lagartas nunca se tornavam borboletas. Hoje posso dizer que ali o presente é apenas uma lembrança de como os gafanhotos solitários timidamente nos davam um alô enquanto assistíamos à dança das formigas bêbadas, perambulando pelo muro, e de como os cachorros também nunca dormiam à sombra daqueles cinamomos, e onde, perto dos arbustos, as flores ficavam abertas a vida inteira, por séculos adentro, quem sabe (eu não duvido).

Naquele recinto, será sempre de manhã. O sol sempre se portará imóvel, em um conforto inabalável; tão inabalável que eu fico feliz só de pensar que esse quintal por tanto tempo foi propriedade de uma pessoa só, uma pessoa que hoje não presenteio mais...

Fico, portanto, somente com essas lembranças daquele lugar no qual, eu sei, nunca haverá morte. Enquanto perdurar o silêncio que, até hoje, ali deve existir, todas as memórias hão de permanecer assim: imperturbáveis.



sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Emoldurador

Enquanto estávamos sempre assim, sem que ninguém soubesse,
sob a aura colorida de uma luz que te obedece,
era tão perfeito te ver, mesmo que pouco tempo eu tivesse,
e agora já é tudo passado, mas a lembrança ainda floresce.

Como num campo bem cultivado, num conto bem escrito,
num rio muito mergulhado e vivo.
Em ambientes tão vividos, nesse mundo em que habito...

É tudo tão bonito mas agora tão duro, mesmo quando posso te ver,
pois pelos teus olhos escuros, hoje é como se visse um muro.
Não deixar os pés distantes do chão é quase um dever,
mas, tão vago e violável, desobedeço-o,
e, no ponto mais alto,
te emolduro.

E eternizo teu brilho, tua cor, teus traços, teu valor!
E finalizo meus anseios, pois de mais que isso não sou merecedor...
Fico somente a admirar-te, como diante de um altar suntuoso.
E agora, por destino, este meu coração conflituoso
para sempre abrigará uma dor.

domingo, 25 de julho de 2010

Antes de estourar os miolos

É muito fácil parecer moderno,
enquanto se é, na verdade, o maior idiota jamais nascido
.
Charles Bukowski


Como um sujeito bem Século XX, eu me prostei diante da TV ao modo de quem espera que ela ofereça respostas, feito uma divindade moderna e literalmente antenada com os novos tempos. Na tela plana, o meu programa de entrevistas favorito - Provocações - aproximava-se do fim, e, como marca desse momento de clímax, perguntou o entrevistador a mais um intrépido convidado:

- Que é a vida?

A resposta não se deu imediatamente... fez-se um silêncio; jogou-se um sorrisinho discreto, o olhar se perde no alto. Como se não houvesse nada melhor a dizer, eis a resposta, que veio pausada e reticentemente:

- Até hoje estou tentando entender...

Eu decidi desligar a TV, e com isso perdi o poema que fecha o programa. Mas de que servia o poema? O momento mais importante da entrevista, aquele que poderia oferecer a chave da questão - o que é a vida? -, passou, e, na minha cabeça, foi novamente decepcionante. Mais uma vez, para mim que tanto penso no que é a vida, não tive nenhuma ajuda na resposta desses personagens que semanalmente fogem da mesma pergunta com palavreados vazios travestidos com um ar intelectualizado, experimentado.

Que hão de responder sobre a vida, afinal, aqueles que perdem o tempo apenas a vivê-la, sem nem questioná-la? Acho que por nunca se perguntarem é que nunca têm a resposta. Todas as vezes em que assisto ao programa e vejo a pergunta sendo feita, respondo, espontaneamente, e sempre uma resposta diferente, como se a inquirição tivesse sido feita para mim. Mas não é. Na verdade, ando tão desacostumado a responder perguntas, coisa que somente faço nas salas de aulas para os alunos - que me perguntam repetidamente de quantos pontos estão precisando para passar -, que até demoro a responder quando a moça da padaria ou o garçom do botequim perguntam se desejo algo mais; eu sempre penso em dizer que sim, que desejo bastantes coisas mais!, mas certamente as tais coisas não se encontrariam nas prateleiras nem nos cardápios.

Como não conseguia dormir desde a hora do programa até essa alta madrugada de frio e de chuva forte, decidi sentar e dissertar mil coisas a respeito da vida, mas na medida em que pensava, o ritmo da escrita diminuía numa constante gradação. Os poetas chinfrins gostam de dizer que a vida não pode ser explicada, e não talvez não seja possível mesmo. Não posso, nesse quarto, tecer respostas sobre ela quando noutros tantos quartos escuros muitos ainda mais vividos que eu não conseguiram encontrá-la, como Hemingway, que talvez só a tenha obtido no nanossegundo imediatamente anterior àquele em que sua bala estourava seus próprios miolos, ou como o Fante, que de tanto viver num quarto escuro, passou a ver escura toda a vida quando a cegueira o engoliu.

Lembro-me de quando trabalhei numa peixaria, carregando nas costas pesados pacotes cheios, sempre ansioso por ver terminar aquele expediente maldito, que parecia eterno. Não bastasse o desconforto do peso que carregava, tinha ainda que aturar as ladainhas da rapaziada que trabalhava comigo. Homens másculos e falantes demais, todos sempre com um sorriso despojado enquanto o cigarro pende no canto da boca, sempre xingando a uns e a outros - eu sempre na lista de alvos primordiais - e eu sempre na minha, com ódio de todos eles, da minha família, de Deus e do mundo. Uma vez, um desses sujeitos, o Alverga, disse para mim:

- Você não vai com a nossa cara, seu merdinha. Mas foda-se. A vida é assim, e você terá que suportá-la.

Não durei nem um mês completo na peixaria. Mas o temor daquela vida de merda ainda me acompanhou durante muito tempo - na verdade, ainda está por aí.

Eu sempre achei tão vagas essas percepções que se costuma ter da vida, essas coisas que sempre vêm à mente quando pensamos nos colegas ou parentes que se foram por acidentes diversos ou por inconsequências babacas, nos aperreios acumulados na vida escolar, familiar, nas caminhadas noturnas pela Cidade Alta, completamente vazia e tomada por vagabundos andarilhos, nas noites passadas em banheiros trancados, ainda ouvindo do outro lado da porta a soturna música do The Cure, que hoje já não me significa muito; essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo. Para fugir, por ora, dessa atmosfera nada positiva que me persegue, só mesmo tentando dormir, e mais uma vez retardar a reflexão que me levará àquela resposta definitiva...



segunda-feira, 28 de junho de 2010

Inês dorme

Eu não consigo nem escutar música enquanto escrevo, não consigo e não quero que a luz da manhã ilumine o quarto, tranco todas as portas e janelas, mas ainda assim o recinto é invadido por feixes luminosos intrusos, acompanhados dos ruídos que aos poucos adentram no ambiente; é manhã de domingo, a pele nem sente o calor do sol (ainda), no entanto, embora o dia esteja começando, para mim isso é apenas o desfecho de um sábado estranho, em que amanheci na casa de amigos, ressacado e triste, três horas antes dos ditos cujos acordarem, e ficando, assim, preso à solidão daquele ambiente - mesmo que a casa abrigasse ainda meia dúzia de gentes, todas adormecidas. Quase sempre vou embora nessas horas, mas desta vez decidi esperar, e esperei, lendo Maupassant para passar o tempo - é só para o que ele serve, hoje eu sei. O tempo enfim passou, despertando os amigos um a um, sendo a Clara a primeira, já de prontidão para preparar o almoço. Ela também estava ressacada, com pressão baixa e tontura: até a tarde estaria em um prontossocorro. Depois acordariam os demais, um a um, e essa movimentação toda no sábado é que o fez se me parecer diferente, estranho (no sábado normalmente não vejo ninguém).

Fui para casa no início da noite, porém mal cheguei e já fui saindo novamente, pois tinha ainda um outro compromisso: iria me encontrar com outros amigos, iríamos para outra festa. Fôramos convidados pela Inês, uma garota muito jovem, muito bonita, muito louca, que conhecia há dez dias e com quem tenho uma convergência de pensamentos tal como tenho com pouquíssima gente, de maneira que sempre falávamos sobre coisas tantas, sobre livros, sobre sexo, sobre sei lá... No dia em que nos conhecemos ela me deu vários presentes, entre tranquilizantes, bebida e até uma camisa que havia comprado para o namorado, mas ele quis terminar a relação antes que ela o presenteasse (tudo isso é muito confuso para mim, que não ganho presentes, que não tomo calmantes na companhia de ninguém, que não sei fazer amizades). Eu vi então algum valor real na Inês, o que me faz pensar nessas coisas involuntariamente, e ela me lembra as adolescentes que eu conhecia noutros tempos e que tinham vocabulário rico e livre, e postura igualmente ousada mas com as quais eu vivia somente muito rapidamente. Inês tem 15 anos, mas sabe nessa idade que realmente muitas vezes é preciso fazer que a vida pare de doer, e tem os seus subterfúgios que não são usuais no seu círculo, na sua escola, na sua rua, na sua família; ela é então ignorada e maltratada por tanto a martelarem, a olharem de lado... Não sei, não sou ela para saber, mas eu imagino, é por isso que eu a valorizo tanto ela sendo essa ovelha desgarrada, porque as ovelhas desgarradas sofrem mais e amam mais - sentem tudo muito mais intensamente.

Eu me arrumei todo para a festa em questão, mas não era a festa em si que me interessava e sim o momento e a confraria com um grupo pequeno de amigos, quatro no total. Sequer sabíamos de quem era a celebração, era um aniversário de uma conhecida de Inês, mas nós não tínhamos dinheiro para sair e beber, então ela nos fizera o convite para que fôssemos de penetra e assim o fizemos: entramos na festa e, uma vez sentados, tratamos de beber e de comer tudo o que nos era oferecido, entre salgados, entre coquetéis, entre uísque, e tudo isso e aquilo que acontecem nessas festas grandes (do tipo que são organizadas em clubes e afins), e isso já me bastava sobremaneira, sendo todo o resto por mim contínua e solenemente ignorando, fossem as outras pessoas, a música ou a decoração do local; a única pessoa além do garçom que visitava a mesa de nosso quarteto era justamente a Inês, que ficava variando, passava quinze minutos com seus pais e irmãos, e depois passava mais quinze conosco, e ela sentia o nervosismo de alguns de nós que não estavam habituados a entrar de penetra em festas. Foi um momento que até eu achei divertido, e eu sou tão chato para ver diversão nas coisas que, enquanto o pessoal ficava de risadas, eu pensava apenas em como estava sendo legal aquilo tudo.

Depois que de uma certa quantidade de uísque ingerida, logo já queríamos nos deslocar mais, e fomos todos - eu, a Inês e os amigos - para uma área do clube onde ficam as piscinas, e onde não chegam as luzes da festa nem muito menos sua torpe decoração. Éramos apenas vultos no meio do breu, só nos importava mesmo enxergar a nós próprios, e embora a conversa estivesse boa, ela foi tragicamente cortada pela mãe da Inês que, de longe, viu a filha entre nós, a filha adolescente entre quatro caras - uma visão suspeita, ainda que nada de mal lhe tivéssemos feito, proposto ou sequer cogitado. A mãe interrompeu a nossa prosa e obrigou a filha a acompanhá-la até a mesa da família, e por algum tempo ficamos todos muito mal, porque sabíamos o peso e a dificuldade que muitos têm, sobretudo aos 15 anos, de se relacionar com família.

Brindamos à Inês e continuamos a beber bastante e a comer inclusive, até que ela depois de um tempo voltou, surpreendendo-nos e alegrando-nos, e voltamos a conversar todos, mas sabíamos que a coisa não andava tão bem, porque estávamos todos bêbados mas a Inês estava um pouco pior: a essa altura já havia se sentado e deitado na grama, estava começando a ficar grogue, ela bebera muito pouco conosco e ficamos preocupados, porque sabíamos que ela tinha bebido mais do que o que tínhamos visto, e sabíamos (porque ela mesmo nos dissera) que estava dopada de tantos sedativos que tinha tomado antes de sair de casa.

Mesmo com todas essas circunstâncias negativas, ela nos acompanhava na conversa, lançava assuntos, falava de meus textos, dizia que queria ser personagem de um de meus contos, e eu apenas ria, porque não é apenas ela que diz isso, já teve outras também que pediram o mesmo. Eu acho curioso porque não há nada de glamouroso nas garotas sobre quem escrevo, muito menos de bonito... pelo contrário: as que já se viram retratadas neles só viram o aspecto negativo da coisa...

Teríamos que viver alguma coisa juntos, eu lhe disse, porque não sou tão criativo a ponto de construir histórias do zero.

Estamos vivendo, eu tenho um bom papo, é disso que gosta nas garotas, não é?, ela pergunta, e está certa, eu nem lhe havia comentado sobre isso mas ela lê o que escrevo e assim já me conhece bem, e por isso falava de sexo comigo e até se propõs a fazer, por talvez brincar ou por talvez querer, mas ela sabia que sexo pra mim já não é algo tão interessante quanto o era uns dez anos atrás, quando eu tinha a sua idade, 15 anos.

Mas como toda merda que acontece sempre ocorre duas vezes, a mãe dela mais uma vez viria buscá-la, no entanto desta vez sua autoridade não será tão subjugadora, porque Inês não tem muitas condições de se levantar do chão (a essa altura, já está meio desorientada e enjoada), e tudo o que a mãe lhe diz é motivo de retruca, e então ficamos nós, seus amigos, sua mãe e o seu irmão, que chegaria depois, a observar a Inês no seu ato de calvário que ao mesmo tempo é um ato de liberdade; ela vomita na grama enquanto reclama das pessoas que a rodeiam e das coisas que a família a força a fazer, chora, vomita mais, e nós somos todo compaixão pelo seu sofrimento, vez que já passei por isso e outros no círculo também passaram. Num dado momento, mesmo sua mãe enfim sucumbiria a si mesma, e fica a perguntar-se o que poderia fazer ou o que teria feito de errado, mas de que importa?, ela não obteria respostas (talvez nunca obtenha)... Somente depois de regurgitar tudo o que lhe fazia mal fisiologicamente, a Inês se levanta. E então se pode vê-la melhor, ela estava até sorrindo, só que não um semblante de sorriso sexual, e sim o semblante de um menosprezo adolescente de rosto zombeteiro e abatido para o que acham de sua expressão e de seu ato.

Agora estou bem melhor, diz.

E sai caminhando a passos constantes, acompanhada pelo irmão e pela mãe. Mesmo se dissessem que estava suja ou cambaleante, ela ainda assim conseguia ser mais altiva que eles e conseguia ser mais bela que todas as garotas da festa. Uma beleza muito particular, uma beleza triste, um sol noturno. Inês se foi e deixou-nos absortos no mais pleno silêncio, e a última informação que teríamos dela é de que estava internada. Agora, Inês deve apenas permanecer em seu sono distante e inatingível, vivendo sua tortura após a qual continuar existindo é sempre a maior tragédia.


terça-feira, 8 de junho de 2010

O universo reprimido

Abra bem a boca, isso, assim, hmmm.

São com essas palavras da Janine que me recordo de ter começado o dia, hoje. Lembro bem porque ao ouvir-lhe dizer isso, percebi que eram 8h00 no relógio de parede. Janine era uma dentista, e fazia muito tempo que eu não visitava dentista algum; na verdade, não frequento qualquer consultório médico. Mas, até por fazer esse tempo todo, acho que uns cinco anos, decidi dar uma passada, só que nada que se assemelhasse a algum tratamento semanal. Apenas uma consulta de ocasião. Mas eu não sabia se a Janine concordava comigo que uma mera consulta seria suficiente.

Hmmmm, ela continuava murmurando. Hmmmm, hmmm.

Até que entre os murmúrios, teceu uma pergunta:

Por que não tem ido ao dentista?

Porque acho desagradável uma pessoa me tocando, eu lhe disse.

Hmmm. Acha desagradável só o fato de tocarem em você?, perguntou.

Sim.

E se fosse, hmm... E se fosse sua namorada?

Apenas acharia um pouco menos desagradável, respondi.

Enquanto a Janine me interrogava, eu me sentia desconfortável pelo fato de estar com a boca quase todo o tempo aberta, enquanto a dela estava escondida atrás da máscara. Era uma situação injusta. Eu estava desarmado. Minha língua saltava para todos os lados de tensão.

Podemos terminar?, pedi.

Ainda não. Vamos, abra mais.

Na medida em que aqueles troços metálicos faziam cócegas e sons opacos nos meus dentes e a minha saliva ia se acumulando pelo nervosismo, mais excreções preenchiam também o resto de meu corpo. Logo estava suando e lacrimejando, porque a visão fixada da Janine na minha boca me lembrava dos colegas de infância dos quais não sinto a menor saudade.

Abre a boca!, ordenavam eles. Porém, não o faziam por interesse terapêutico, mas somente para rir à vontade dos meus caninos acentuados e dos meus premolares entramelados.

Ha!Ha!Ha!, ainda ouço suas torpes risadas ecoando no universo reprimido da minha cabeça.

Nesses dias ruins, eu sempre chegava em casa e dizia para a minha mãe que meus dentes são horríveis e que eu queria ter outros dentes.

Você não tem dentes cariados, ela dizia.

Mas eu não gosto dos meus dentes.

Mas você não tem dentes cariados, repetia, e o fazia quantas vezes necessário fosse. Era uma sentença já cristalizada no seu vocabulário, para fazer minha propaganda a outras pessoas. Era como "meu filho só tem nota boa", ou "meu filho é muito educado". Só não fazia sentido ela repetir as mesmas coisas para mim, objeto de culto daquelas afirmações, independente dos defeitos que estivessem ocultos por trás delas.

Numa ocasião, chegou a vez dela - da minha mãe - quebrar seus dentes, sabe-se lá onde e como, e colocar uma dentadura postiça. Seu sorriso modou, ela rejuvenesceu, tudo parecia límpido e renascido. Um prodígio da engenharia odontológica a seu serviço; precisaria eu de um acidente de automóvel para consertar os meus?

Olha só - despertou-me da minha divagação a dentista Janine -, eu vou recomendar que você faça um tratamento costumeiro. Pegue essa ficha, vá ali na recepção e explique para a menina que fica lá, e ela já saberá como encaminhá-lo.

Estou com cáries?, perguntei, meio receoso; um receio reprimido desde a mais tenra idade.

Não.

Não estou com cáries?, repeti, como faço usualmente.

Não.

Agradeci, peguei a ficha e fui até a recepção. A menina responsável estava falando ao telefone e já tinha uma criança acompanhada de sua mãe ao balcão sendo atendida. Sentei e esperei. Pensei na coisa de fazer um tratamento, sabe-se lá por que - não entendia o que estava escrito na ficha -, e pensava no quanto aquilo me fazia rememorar coisas ruins de longos tempos atrás. Aproveitei que dificilmente a menina me atenderia nos minutos seguintes e deixei a ficha de consulta em cima do criado mudo, junto com as revistas Veja e Istoé, e fui embora.

Daqui a cinco anos volto.



sexta-feira, 2 de abril de 2010

Abaixando o volume

Hoje, eu estava escutando rádio
em volume alto,
e, nessas condições,
para passar bem o tempo
ative-me à análise;
primeiro do discurso
do locutor da FM,
a repetir inveteradamente as mesmas coisas:
as mesmas informações,
as mesmas promoções,
os mesmos elogios
para músicas diferentes,
do Parangolé com seu Rebolation
aos Dois Rios do Skank.
A única coisa que mudou
nos 40 minutos em que ouvi a tal rádio
foi a hora,
nada mais.

Minha segunda análise
foi à própria natureza do trabalho
daqueles - pobres - locutores
fechados em recintos assépticos,
estúdios maçantes, sem-graça,
e no entanto sendo obrigados a se manifestarem
como se estivessem numa autêntica
balada,
talvez numa praia,
enfim, qualquer lugar
cheio de pessoas bonitas
e de música percussiva,
e de sol e de alegria
ao redor.

Isso me fez mal.
Não gosto de FM. Porém,
escutava muito no passado.

Lembro-me
daquele programa
que trazia momentos de reflexão
acompanhados de traduções
de músicas escritas em inglês.
As letras diziam o mesmo
que as das canções brasileiras
(às vezes eram bem incoerentes),
mas nós sempre achávamos aquilo
o suprassumo
da composição.

Recordo-me de outro programa,
em que o radialista
narrava
histórias de desgraças humanas
escritas por ouvintes fracassados
para outros ouvintes fracassados,
ao som de um triste dedilhado.
Nunca me senti tão completo
enquanto ouvia rádio
como nessas
horas.

E, para finalizar,
rememoro também um outro programa
que passava nas madrugadas
e eu escutava diariamente,
sentado na poltrona da sala,
desta vez com o volume
bem baixo.
Eram madrugadas
em que eu - adolescente de autoestima
destroçada por esses bobos tropeços amorosos,
cuja amplitude nossa mente imatura
não consegue medir - me deleitava,
aos sons melancólicos.
Às vezes (muitas vezes),
eu ligava e pedia uma canção sem-graça
e na hora em que o apresentador
de voz grave e garbosa
perguntava-me para quem eu oferecia,
eu dizia, sem titubear:
para Kelly, no bairro de Capim Macio,
ou poderia dizer
para Cristina, no bairro de Lagoa Nova,
ou talvez
Para Alice, Sabrina, Camila,
"com muito amor",
todas em lugares dispersos pela cidade.
O locutor apenas não sabia
- ou talvez soubesse pela experiência -
que nenhuma dessas garotas existia,
senão na minha cabeça.
Elas, em suas existências
presas à minha imaginação,
eram como o próprio programa que eu ouvia:
apenas o escape
para um adolescente meio reservado
e com algumas tolas ilusões amorosas.
Tão desesperançoso era
esse adolescente, no entanto,
que todas as vezes em que ligava
em todos os dias
era sempre
para pedir a mesma música ruim
que se chamava:
A Vida Não Presta.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Condução lotada

Hoje eu voltava para casa de ônibus - muito lotado, devo dizer - e dei sorte de conseguir um lugar sentado, no lado do corredor. Enquanto viajava, notei que uns dois metros à minha frente voltava uma garota com quem eu já houvera ficado, apenas dado uns beijos, na verdade, uns dez anos atrás - nós tínhamos 13, 14, 15 anos, portanto -, e agora estávamos novamente próximos. Chamava-se Marcela, e não chegou a me ver. Então fiquei observando-a durante o trajeto. Ela estava em pé, e o ônibus estava, como dito, muito cheio. A Marcela estava tão imprensada que já quase se jogava em cima do passageiro sentado. Na posição em que estava, ela ficava até com a bunda bem arrebitada, favorecida pela calça jeans que vestia, que usava justamente com propósito de avantajar um pouco mais seu dote posterior. Inclinei um pouco a cabeça e constatei isso. Aliás, constatei também que todo passageiro que passava por ela tirava uma casquinha, com um sarro muito bem dado no seu belo traseiro - que não aproveitei nos meus tempos de adolescência fracassada recheada de profícua masturbação. Os sujeitos tentavam se aproveitar de toda maneira: os mais altos agachavam-se um pouco; os mais baixos ficavam na ponta dos pés, tudo na perspectiva de apontarem seus membros para a bunda circular da Marcela. Começaram a vir as paradas e o ônibus começou a esvaziar. Na medida em que o número de pessoas diminuia eu a via melhor. Ela continuava lá, em sua imutável posição. Estava nitidamente gostando daquilo. Isso se percebia nos seus olhos grandes, que ficavam maiores cada vez que passava alguém por trás, e perdiam-se completamente nessas horas. Ela tapava a boca com a mão, sabe-se lá o porquê. Algumas cadeiras vagavam perto de si, mas a Marcela oferecia para as pessoas ao seu redor e permanecia no mesmo estado em que se encontrava. Seu bumbum bem desenhado conservava-se numa posição que o realçava sobremaneira, e agora tornara-se não somente uma área de lazer da rapaziada que nela se esfregava quando se dirigia aos fundos do ônibus, mas também alvo de olhares (o que, com o ônibus lotado do modo que estava antes, não era possível). Não fui apenas eu, portanto, que notei o quanto ela gostava do esfrega-esfrega. Só quando a condução já estava indisfarçavelmente esvaziada ela se dirigiria até as últimas cadeiras, passando por mim sem reconhecer, e lá ficando até chegar seu ponto. Achei engraçada e patética a situação. Cheguei a sorrir boa parte do tempo em que assistia a esse ordinário espetáculo moderno. Neste momento em que escrevo, eu penso que podia até ser neura minha achar que ela estava empinando o bumbum pra rapaziada, mas na hora pensei apenas no quão vadia ela tinha se tornado ou, o que é mais provável, sempre houvera sido. Não sou perfeito. Mas a raiva dela já passou.





segunda-feira, 1 de março de 2010

Manuscrito

Tive um compromisso hoje com uma garota, uma dançarina. Fomos assistir a um espetáculo de dança guatemalteca. O que eu fui ver nesse lugar? Não sabia, mas até apreciei a dança. No começo, parecia sem-graça, mas de tanto ela me falar no ouvido, comecei a gostar. Sobretudo porque o evento para mim não me interessava. Era mero pretexto para ter a companhia.

A dança guatemalteca é assim, me dizia ela baixinho, parece tosca, parece chata, mas é como dançar forró... quem gosta não sabe explicar a beleza que existe no forró, né?

Eu ia acompanhando os movimentos no palco e os sussurros dela, quase adormecia durante algumas cenas cena, só não cheguei a tanto porque o som era incômodo, e eu não consigo ficar totalmente à vontade com sons que me são estranhos, principalmente quando se trata de músicas folclóricas, populares, de locais com os quais não tenho o menor elo.

Fiquei bastante pensativo porque eu é que a tinha convidado para sair. Mas ela não queria sair por sair, e eu não tinha nenhuma idéia. Quando a convido para sair trata-se, tão-somente, de sair mesmo, dar uma volta, sentar em algum lugar, uma praça, uma parada de ônibus, que seja. Eu queria só conversar, mas ela só sairia se fosse para ir a algum algum evento, como se sair sem ter um destino fosse algum pecado imperdoável. Foi quando lhe surgiu a idéia de ir para o espetáculo de dança. Terminado o espetáculo, conversamos um pouco, ela disse que estava tarde, teria faculdade no dia seguinte, levei-a pra casa, nos beijamos e fui embora. Ficamos juntos durante coisa de três horas, mas não tivemos nem vinte minutos de diálogo.

Na porta de sua casa, ela me disse que adorou. Eu lhe menti a mesma coisa. Mas depois que nos despedimos, senti que o dia não poderia acabar daquele jeito. Fui para um bar na Ribeira, porque é lá na Ribeira que estão alguns de meus bares favoritos. O problema é que ali os bares médios estão se tornando escassos pela proliferação de bares mais sofisticados, sobretudo nesses tempos em que a Ribeira tem se tornado mais um point turístico do que local de abrigo da boemia natalense.

Tive que me contentar com um bar novo - na época - por ali, até bem movimentado, situado na Rua Câmara Cascudo. Pedi uma cerveja e fiquei olhando ao redor. Várias pessoas falando alto em outras mesas, pessoas que se achavam muito interessantes, mesas que ocupavam toda a ruela. Muitas mulheres, já de idade bem avançadas, muitas garotas, mais novas do que eu. Todas brancas, reluzentes, limpas demais. Atraíam vários olhares, menos o meu. Eu olhava apenas para as garçonetes, como é hábito. Mas estas não davam muita atenção. Quando uma delas veio me atender, perguntei o que ela sugeriria e ela apenas me deu o cardápio, numa tentativa de ser simpática para o cliente. Não demorou, e vê-las correndo pra lá e pra cá com blocos de notas nas mãos me encheu o saco. Decidi sair de lá sem terminar de beber a cerveja e pedi a conta.

Deseja mais alguma coisa?, perguntou-me a garçonece por fim.

Não, obrigado...

OK, muito obrigado e volte sempre, disse, virando as costas com um sorriso forçado.

Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.

Como ainda quisesse beber mais um quebrado, fui numa conveniência, comprei um litrinho e fui para uma praça lá mesmo no Centro, um lugar sossegado, onde eu queria estar. Bebia e olhava para cima, para as estrelas por cima das árvores, dos prédios, das luzes da cidade, da fonte que jorrava água para o alto e que me fazia sentir alguns respingos bem finos. Pensava em quanto estava gostosa a bebida e o momento. E matutava sobre o preço dessas tão simples benesses. Sobre a solidão e a distância que tenho das outras pessoas. Em contraponto, refletia sobre meu desejo de mudá-las. Pensava na garota com quem estava saindo, e na sensação de posse que eu nutro mesmo sobre ex-namoradas. Pensava em como essas idéias apenas me distanciavam de todas elas cada vez mais.

Também pensava no meu trabalho, em como era bom dar aulas, aliás a única coisa que eu sabia fazer, já que não tenho talento para mais nada e nem gosto de carregar peso, mas ficava reflexivo porque percebia que isso não me nutria, como nenhum trabalho ou nenhuma prática permite.

Essas coisas me deixavam sempre meio triste, o trabalho, as garotas, a revista para a qual eu escrevia, o meu partido, as minhas conquistas tão facilmente desmoronadas, dava até certa vontade de chorar, mas eu não choro há anos, e não seria ali que eu choraria, apesar da noite, apesar das estrelas, apesar da bebida.

Recebi uma mensagem no celular em dois bips que quebraram o silêncio da incipiente madrugada. Era uma mensagem alegre, animada, alto-astral, vinha da garota com quem eu havia saído há pouco, a mandar beijos e abraços, a propor novos joguinhos de relacionamento. Eu sabia que essa euforia de sua parte duraria pouco tempo.

Depois de algum tempo de divagação, eu já não alimentava nenhuma tristeza nem raiva por tais coisas. Eu não poderia me incomodar desse modo. A raiva não se ocupava de mim porque sei que nada ganho com isso. Não havia razão para ficar triste porque triste já sou por natureza, a todo tempo. Apenas senti que meu problema era o cansaço disso tudo. Estou cansado de danças e de sorrisos à toa. Cansado dos projetos pessoais que temos que carregar, dos trabalhos que temos que achar interessantes. E também estou cansado de jogos que não posso ganhar.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Da carência feminina

Publicado originalmente na terceira edição da
revista
Tá na Cara!, de novembro de 2009.

Houve um cara que disse que fazemos parte de uma geração criada por mulheres. E lançou o questionamento: será de uma outra mulher que precisamos?

Eu fui criado por uma mãe solteira. Sou apenas um traço pequeno numa estatística gigantesca. Com frequência, recebíamos visitas. Todas elas, naturalmente, a buscarem a companhia de minha mãe – meus amigos ou minhas garotas nunca me visitavam. Como era usual nas visitas, eu sempre ia para o quarto, já que as conversas eram quase sempre em tom frenético, e eu não conseguia ouvir a TV. No meu quarto, eu tinha a liberdade de não fazer nada sem que isso me fosse um incômodo. De lá eu escutava as histórias ricas em detalhes que eram contadas na sala, e por vezes prestava bastante atenção nelas. Como geralmente eram mulheres que nos faziam a visita, essas histórias naturalmente eram centradas em homens. As mulheres – amigas de minha mãe – pareciam se divertir contando seus casos com homens de caráter duvidoso. Em geral, relações inacabadas, quase sempre interrompidas por algum acesso de intransigência, talvez por bebedeira, talvez por ciúme, coisas assim.

Eu me perguntava, então, desde garoto, até que nível um homem pode deixar atordoada uma mulher. Claro que isso não se mede. Eu nunca tentei, nem nunca me proporia a fazê-lo. Mas o tempo me traria as garotas e algumas respostas. Ou, por outro lado, trazia-me a ciência de que, para certas coisas, não há resposta alguma.

Então, já como uma forma de prevenção diante dessa imprevisível psique feminina, sempre mantive minhas relações bastante limitadas no aspecto psicológico. Dessa forma, eu me protegia e não teria nenhuma delas que me endeusaria hoje para me crucificar amanhã. Mas vai entender o que move esses acessos de cólera.

Eu me lembro de uma mulher com quem sempre saia, a Cristina, e quase sempre, quando tínhamos algum programa light, como um almoço ou coisa parecida, estávamos acompanhados de algumas de suas amigas. Cris – como gostavam de chamá-la, e se irritavam por eu somente chamá-la pelo seu nome, Cristina – era uma espécie de consultora sentimental vinte e quatro horas. Para mim, durante algum tempo, as companhias não fazia diferença. Mas Cristina não gostava da forma como eu tratava suas amigas, que quase sempre traziam narrações tristes ou raivosas de seus casos fracassados.

Por que vocês sempre xingam os homens?, eu perguntava sarcasticamente.

Por que você não pode ser mais gentil com elas?, retrucava a Cristina. Ela nunca tinha razão. E admitia isso. Quando conversávamos a sós, sempre concordava comigo que suas amigas só falavam asneiras quando se tratava desse assunto. Mas ali, diante delas, não poderia deixá-las desarmadas.

Como as amigas de Cristina foram ficando cada vez mais pentelhas e invasivas com o tempo, eu lhe disse que não sairia mais se fôssemos obrigados a acompanhar tais amigas desoladas. Seja paciente, ela me suplicava.

Suas amigas não sabem o que é a paciência, eu dizia.

Elas têm problemas como todo mundo, não percebe?

Não, elas não têm problemas; elas CRIAM problemas.

Então você agora defende esses sacanas de filhos mal-assumidos que enganam as mulheres?

Eu acho que eles poderiam comer melhor, dizia.

E quase sempre diálogos como esse criavam algum mau tempo entre nós dois.

E nesses dias, quando ia dormir, ficava me lembrando dessas mulheres que via, fossem as que acompanhavam a mim e à Cristina, fossem as que visitavam minha mãe, ou as que eu notava na faculdade, no ônibus ou nos bares. Essas pobres mulheres que tinham pavor de ficarem sozinhas para sempre, que acumulavam fracassos amorosos, que observavam o tempo passando, que viam seus lábios vaginais dilatarem, e que não podiam fazer nada para conter essa dura realidade.

No fim, elas sempre engoliam as angústias e tomavam um ar mais autoconfiante. Diziam que haviam pensando bastante e que iriam se valorizar mais. E batiam no peito a dizer que, se os caras as desejassem de volta, eles que viessem procurá-las.

Eles nunca as procuravam.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Paladar fraco e outras coisas a menos

Onde está o apetite que um dia tive por todas essas coisas?, eu me pergunto de quando em quando. Passo todo o dia dessas férias sentado na frente da janela, observando as pessoas passarem em prosas animadas e às vezes até escuto parte da conversa delas, algumas perguntas que uns fazem aos outros, e eu fico respondendo imaginativamente, como se a pergunta fosse pra mim, mas não é.

Assim, diariamente me quedo nesse exercício puramente cerebral que ao menos talvez seja melhor do que passar várias horas do dia em frente à TV - coisa que também adoro fazer, por sinal, e nunca me demoro a religá-la -, porque são esses parcos exercícios que mantêm a minha mente em atividade. Minhas cordas vocais, no entanto, estão cada vez mais enrijecidas porque eu não as tenho usado muito, no máximo quando ia ali na padaria e dizia quero quatro pães e nada mais!, mas agora já nem preciso mais falar porque a garota que atende, conhecida por Cleidinha, já sabe o que vou pedir quando chego lá (e faz questão de dizer: já sei!), sempre com um sorriso no rosto que eu não entendo muito bem, e termino oferecendo um pretenso sorriso também mas que na verdade não passa de um franzido labial, e depois que saio tanto do balcão como do caixa da padaria esvaece a última chance de utilizar a minha voz no dia, às vezes eu até esqueço como é seu som e quando estou tomando banho e começo a cantar alguma música dos Engenheiros do Hawaii eu chego a me espantar por um instante por não a reconhecer, e esse espanto, por sua vez, me faz perder o prumo da canção e então desisto de cantar...

Mas não são só vozes e mente que estão cada vez mais mirrando, todo meu corpo segue nesse rumo porque eu não faço nada, não caminho, não pratico esportes nem nada assim, e vou sentindo que todos os membros vão se enfraquecendo de maneira tal que às vezes até pra levantar a caneca de café eu sinto um desconforto e preciso derramar uma pequena parte da bebida ainda quente na pia, e depois assopro bastante porque o meu paladar também já não está lá essas coisas, tanto que já nem faço mais questão de aditivos nas comidas aqui em casa, como temperos no almoço, ou margarina no pão, ou sei lá o que, porque quando como nem sinto isso, não me lembro mais a última vez que fiz hmmmmmmm! para alguma guloseima que ingeri.

Até mesmo pra segurar livros eu andava meio preguiçoso e passei a ler mais no computador, onde eu poderia ficar estático, mas não totalmente estático né, já que é preciso descer a barra de rolagem, e depois que me acostumei com isso já cansei também, e então voltei pra velha leitura de papel, e pra não precisar ficar catando livros pela casa eu tenho acumulado todos eles aqui no quarto, já não bastavam as duas estantes de livros aqui, eu fui lá numa salinha de despensa que tem nos fundos e peguei uma caralhada de livros velhos e empoeirados e trouxe, porque vez ou outra os folheio e agora não preciso mais ir até os fundos de casa e abrir um cadeado para pegar gripe com essa papelada envelhecida...

Às vezes ocorre de eu tentar ir na contramão dessa tendência, saio de casa, vou assistir algum espetáculo, algum show, um jogo de futebol, vou pra umas reuniões ou sair com uma garota, vou ver uns amigos, assistir a algum filme, vou viajar de moto pra algum lugar, e na verdade só quando me entrego a essas coisas percebo que às vezes cometi alguns enganos, porque há certas coisas que não temos como mudar ou pelo menos não cabe a nós mudar, então fico com pena das meninas que saem comigo, como lamento aos amigos que me convidam para beber e fazer umas rodinhas idiotas de violão na praia (sempre vou embora quando aparece um violão na parada), e percebo que conhecer gente já não é mais o foco das minhas viagens como antes, agora quero só deixar que alguns aperreios se dissipem com o vento que bate e se vai, e os shows também não frequento, vou tentando resistir às tentações, porque sei que sempre me empolgo antes de shows mas na hora é que sinto que aquilo não mais me contagia, de modo que eu percebo que existe uma luta intensa dentro de mim entre um lado que deseja se socializar, se soltar e besteiras assim e outro que já sentiu um cansaço de todas essas coisas e que agora quer mesmo é sossegar sem ter que ouvir vozes alheias quando acorda nem antes de dormir, sem ter que atender telefones e é este meu lado que eu premio, deixando todo o resto pra lá, e se me pergunto onde andava todo aquele meu pique de alguns anos atrás (em verdade, eu já nem lembro se tinha mesmo ou se é uma memória forjada pelo meu inconsciente) é por uma trivial curiosidade e não por depressão ou lamento pelo que sou hoje, pois gosto de ser assim, gosto de ficar apenas escrevendo porque é a atividade fisiologicamente mais econômica que posso fazer, já que trabalho apenas com os dedos, permanecendo todo o resto do corpo num transe absoluto, e até o conteúdo escrito não é fruto de conclusão nem de reflexão qualquer que seja, e sim tão-somente um derramamento de palavras cuja leitura se configura numa ordinária perda de tempo, mas constatar isso somente agora já é tarde demais para quem leu até aqui... Só que não pedirei desculpas.




terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A última carga pesada

Tá tudo tão escuro lá fora e aqui dentro que eu consigo até enxergar coisas que não são reais me arrodeando, todas elas me assustando demais; faltou energia no bairro, o céu noturno está coberto por uma névoa temerosa e no meu íntimo as coisas não parecem muito mais claras, porque eu me sinto até mais livre, mas a tal liberdade não parece sinônimo de satisfação, porque agora vejo que todas as coisas que eu conquistei nos últimos anos (conquistei não é bem a palavra), como alguns trabalhos legais, a possibilidade de poder escrever e ser lido, alguma estabilidade financeira mesmo que não tão estável assim entre outras não parecem significar nada nesse momento em que eu penso mil coisas, porém não consigo chegar à conclusão de sequer uma delas, e acho que não haveria nada, nem pessoas, nem bebidas, nem livros nem outros entretenimentos quaisquer que pudessem me suprir isso, inclusive nem sei por que estou escrevendo pois nem isso gostaria de estar fazendo agora, eu gostaria apenas de dormir – mas desta vez sem sonhar – por tantas horas que se eu me esquecesse de acordar isso seria um mero detalhe para mim ou para os demais, no entanto como eu sei que não vai acontecer fico aqui temendo a chegada do sol junto das coisas chatas correlatas, as pessoas me ligando e perguntando se continuarei dando aula em certa escola no ano que vem, supervisores me pedindo documentos, ou textos, ou qualquer merda por uma ordinária burocracia, entre outras pessoas que não ajudam a melhorar o meu dia, gente que não tem nem culpa disso, porque quando começamos a conversar percebo que precisam apenas de uma ajuda, de algumas palavras de consolo e afeto, mas não sou eu que oferecerei essas palavras porque eu também as queria pra mim; então não me resta mais nada porque eu não tenho saído e não tenho sentido falta, já não bebo mas não sinto a diferença de quando bebia, e também tenho escrito tão pouco sobre mim, aliás, eu me decidi por isso mesmo, que iria escrever menos essas coisas, a carga era muito pesada, além de não significar necessariamente uma forma de autoconhecimento, então desisti, talvez só volte a escrever essas coisas daqui a uns 50 dias, ou talvez nunca mais, porém eu ainda mantenho esse vício da escrita em si, que alguns dizem ser saudável, de modo que passei a escrever outras coisas, eu queria voltar a escrever textos políticos mas fui repreendido por isso pelos camaradas de partido porque devo ser um péssimo analista, então o jeito de suprir minha vontade era voltando pra literatura, e aí andei escrevendo textos de terror, como histórias de vampiros ou coisas assim, também escrevi ficção científica, distopias, pesquisas jornalísticas, histórias infantis, e eu observava a maioria dos escritores, eles começavam a escrever para si mesmo para depois escrever para as outras pessoas, e comigo acontece o inverso, eu escrevia para ser lido e cada vez mais ando escrevendo para mim mesmo, sem publicar e sem comentar com ninguém, porque ninguém quer saber, só que não faço isso porque gosto (é por pura falta de opção) mas às vezes até me divirto e me satisfaço quando leio as coisas que fiz, pena que é uma satisfação tão tênue quanto qualquer outra, uma alegria breve que não se sustenta em si mesma...



quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Achando a festa meio maçante, eu me dirigi ao bar onde eram oferecidas várias bebidas e lá fiquei por coisa de meia hora, balançando insistentemente a cabeça com sinal de negativo cada vez que olhava para a multidão, e voltava-me para o balcão. De repente, ao meu lado, senta-se uma menina e me causa um baque: era a mais linda que eu já vira - uma princesa!, uma boneca!, uma obra de arte plástica em forma de garota! Quando ela me notou, manteve o olhar fixo em mim por míseros dois segundos, mas eu rapidamente concluí que nossa empatia havia sido imediata! Logo senti que ela fugia à superficialidade das garotas daquela festa. Sim, ela era diferente, era mais delicada, era mais cabeça aberta, era mais fácil rolar um bom papo. Já visualizava nós dois rindo e conversando durante longo tempo até o fim da noite, eu a levando pra casa, ela me convidando pra entrar, a gente nos dias subseqüentes pegando uns cinemas e barzinhos simpáticos iguais àquele em que nos servíamos. Para dar início à nossa longa história juntos, abri de modo bastante original a conversa:

Oi?

Ela me ignorou solenemente, pegou a caipirinha que lhe fora servida e saiu sem expressar o menor interesse, e nunca mais voltei a vê-la.


domingo, 6 de dezembro de 2009

O céu e o sertão

O céu noturno mais estrelado que já vi foi no meio do sertão, lá pelo médio oeste do Rio Grande do Norte, quando eu viajava de moto - não lembro para onde, mas no trajeto eu pretendia parar na cidade de Frutuoso Gomes porque o sol já estava se pondo e eu encontraria lá um abrigo para passar a noite - até que, após enfrentar uma área onde a rodovia estava destruída, além de recheada de pedregulhos junto a muitos objetos na estrada - alguns possivelmente cortantes - talvez derrubados de um caminhão, eu percebi que a moto perdeu força e começou a deslizar, o que logo me fez levantar a suspeita (confirmada logo depois) de que o pneu dianteiro havia sido furado, o que me irritou no primeiro instante e me frustrou no segundo, porque eu sabia que não teria condições de conseguir consertá-lo ainda naquele dia, só que ainda tentei tirar o pneu para levá-lo à cidade mais próxima, que eu acreditava ser Janduís, mas percebi então que não houvera levado ferramentas necessárias, de maneira que decidi encostar a moto atrás de uma árvore - não muito grande, devia ter no máximo uns três metros, mas cercada de arbustos secos, como é comum naquela área - e sair caminhando pelo chão carregado de pequenas pedras que o tornavam bastante escorregadio, fatores que me fizeram repensar a ideia de sair à procura de algum mecânico, coisa que, eu sabia, só me traria aborrecimento naquele dia (dificilmente algum mecânico ou borracheiro sairia à noite para fazer o remendo no pneu) e voltar para onde estava a moto; levou esse tempo de mais ou menos meia hora para que me caísse a ficha de que teria que ficar ali mesmo, ao relento, sem nenhum tipo de mantimento que me permitisse dormir a céu aberto, pois carregava apenas uma mochila com umas roupas, livros, uns e outros acessórios, entre eles um lençol, que abri ao chão, o que apenas amenizaria, ainda assim parcimoniosamente, o desconforto de sentar no solo pedregoso.

Logo a noite cairia - nenhum carro houvera passado ou passaria por ali nos momentos em que lá estive, embora eu não estivesse esperando -, tornando-se o local muito escuro e estranho, com sons de animais típicos ouvidos por trás das colinas baixas e das matas áridas, elementos que me deixariam apreensivo por me sentir em um ambiente adverso, mas para o qual tentei me tranquilizar e para isso só me restava fazer algo para passar o tempo, como ficar revezando a leitura de livros, iluminado pela lanterna da moto, lendo-os em voz alta, interpretando seus personagens, ou deixar os livros de lado e ficar falando besteira, comigo mesmo, ou então levantar para ficar caminhando em círculos, porque estava ficando frio, além do que meu corpo estava muito incômodo por motivos que desconheço - estava coçando demais as pernas e os braços -, então decidi desligar o farol e ao apagá-lo percebi que o breu repentino gradativamente se iluminaria com a quantidade de estrelas no céu que pareciam surgir do nada pois quanto mais eu olhava mais eu via surgir novas estrelas, e isso de algum modo me deixou mais calmo porque eu teria agora um ótimo passatempo (o meu passatempo predileto na infância que estava esquecido) que seria ficar apontando, contando e desenhando as constelações, deitando rapidamente e identificando de imediato a de Escorpião - era agosto -, sempre a minha primeira referência, e embora eu houvesse esquecido a maioria delas ainda conseguiria reconhecer umas vinte na medida em que o tempo passava e novas estrelas se me apresentavam, e eu, meio embriagado pela brisa noturna (que não era nada gostosa de sentir porque era uma brisa muito seca causando uma sede que eu não teria como suprir, porque eu havia bebido rápido demais o pote de água que carregava), ficava lá discutindo comigo mesmo, chegando a gritar às vezes, como se estivesse dentro de meu próprio quarto, e a última constelação que vi surgir antes de adormecer foi a da Lebre, o que denota que passei pelo menos umas cinco horas naquele exercício estranho...

Ao acordar, sentindo a alta temperatura do solo rompendo a camada relativamente fina de tecido do lençol, meus olhos ficaram por vários segundos ofuscados pelo ardente sol matinal, que se erguia solitário na imensidão do céu azul sem estar acompanhado de uma nuvem sequer, e pela extensa camada de terra que minha vista alcançava só se percebia o visual semidesértico, esbranquiçado e claro como é usual à vegetação seca e ao solo sertanejos, de modo que nem quis perder tempo e levantei rapidamente guardando as trouxas na mochila para sair em seguida em busca da ajuda que só encontraria depois de caminhar cerca de trinta quilômetros cercado por aquele ambiente de feitio monótono e carregado de uma vida estranha - sem encontrar uma casa sequer no decorrer da pernada -, havendo ainda o agravante de que o único borracheiro que encontrei só trabalhava com carros, mas topou um remendo de quebragalho no meu pneu que seria suficiente para eu chegar em outra cidade e resolver o problema em definitivo; quando fomos ao local onde estava a moto, havia um guaxinim muito peludo dormindo sobre o banco, e curiosamente o animalzinho nem se assustaria com a nossa chegada, somente saindo de cima da moto quando o mecânico começou a mexer nela, foi quando notei que o guaxinim estava machucado pois ele conseguia andar normalmente mas dava para perceber que estava manquejando em uma das patas e mirei a vista em sua direção de uma forma que, estático, eu o observei indo embora por centenas de metros, como se eu quisesse saber para onde ele iria, vendo-o tornar-se apenas uma pontinha se mexendo na linha do horizonte, sendo esta a minha última lembrança daquele dia, e eu até voltaria para o Sertão depois dessa experiência, como também viveria outros impropérios com a moto; só que esses impropérios já não me incomodavam mais, porque me davam a oportunidade de viver essas emoções tão humanas e viciosas, pensando em alguma coisa - contando constelações, caminhando em círculos, esquecendo até o fato de estar em completo isolamento - só para sentir algo ali, e deixar de sentir o que aqui sinto demais.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Subproduto do esquecimento

Foi quando me olhei no espelho que percebi o quanto estava apreensivo. Conseguia ver embaçada minha imagem refletida mesmo estando o vidro total e perfeitamente polido. Eu estava na sala, sozinho no cômodo, e lá na cozinha havia uma mulher, a cantar alto, frequentemente me convidando para acompanhá-la no rito, sem sucesso.

Sendo tímido como sempre fui, não foram de se estranhar meus gestos contidos, ainda que estivesse sendo compelido a me sentir completamente à vontade. Estava com coisa de dezoito anos, e vivia ainda tempos bastante movimentados, conforme era comum naquela fase de minha vida (talvez por uma tentativa inconsciente de apagar de minha memória a infância, a pré-adolescência, períodos lembrados sempre como coisas uniformes e mortas em mim.) Na época - como também continuaria acontecendo depois -, eu sempre me esquecia de todas as garotas com quem ficava, todas com quem houvera transado ou a quem tivesse ao menos beijado, quando estava me relacionando com uma outra. Esquecia de forma tão latente das garotas passadas que todas que apareciam na minha vida eram como se fossem a primeira. Neste caso, acrescenta-se a isso o fato de eu estar na casa não de uma garota de minha idade, mas de uma mulher, que tinha sua vida feita, que já fora até casada, que já tinha 35 anos.

Você que é um cara de sorte, confidenciou-me um amigo horas antes, ao saber com quem eu me encontraria. Ainda prevalecia um fetiche, como em todo jovem, pelo desejo de estar com uma mulher mais madura e experiente.

Eu a conheci na Internet, fui suficientemente dissimulado - não de propósito - para que ela visse em mim não um moleque vazio, e sim um rapaz com jeito mais prudente, experimentado. Agora estava em sua casa, olhando para um pequeno birô, bastante rústico, que enfeitava sua sala. Nele, havia muitos porta-retratos. Em alguns deles, fotos dela quando casada - Cristina, seu nome -, junto com o marido e o filho de dois ou três anos.

Esse fim-de-semana ele foi para casa do pai, disse ela ao me ver observando a foto do rebento.

Ela me ofereceu um vinho e eu nem gosto muito dessa bebida mas aceitei, ainda a observar mais a casa do que a lhe dar atenção. Por todos os lugares, eu ainda percebia coisas que não pertenciam a ela. Quadros na garagem, discos na sala, roupas no quarto. Pertences do ex-marido que só lembrava de pegar quando, de repente, sentia falta. Ela continuava a falar.

Há três dias ele veio pegar uma coleção de atlas que compramos certa vez em viagem. Muito bonitos.

Lembrei-me de uma poesia de Bukowski, em que ele se questiona se alguma vez precisará ir visitar alguma mulher de seu passado em busca de uma bermuda. As mulheres de seu passado, ele dizia, pareciam-lhe inexistentes. E para mim também.

Acaso para onde foram todas elas, para onde foram as Claras, Priscilas, Cinthias, Adrianas, Ianas, Gabrielas, e outras, tantas outras, que não são infinitas, mas, certamente, incontáveis, visto que aos poucos elas têm se deletado de minha mente?! Decerto, poucas ainda se lembrariam de mim se eu lhes telefonasse. São nomes e corpos, lábios rosados por natureza ou pintados, peles macias e finas como algodão e silhuetas de diferentes formas que ainda povoam minha cabeça de quando em quando. Com elas, compartilhei ilusões que pareciam belas e sadias, dessas que aquecem e viciam a alma de quem vive castigado pelo sofrimento. Se pudéssemos parar o tempo, esses instantes que eu teria passado com elas teriam valido por tudo no mundo (só que não se pode pará-lo, e, portanto, o que valem, senão nada?), porque os momentos que compartilhamos foram em geral bons momentos, porém nunca os momentos mais necessários. O prazer que se acometia de mim quando estava em suas companhias não se sobrepunha à solidão que eu sentia quando me despedia de cada uma na porta de suas casas, e saia a vagar sozinho pela madrugada.

Contei para a Cristina que estava um pouco apreensivo, e, certamente, poderíamos nos encontrar numa segunda ocasião. Ela me deixou cochilar um pouco em sua casa. Devo ter sido tolo em não poder aproveitar tamanho filão, considerando que ela era mesmo muito atraente e, como muitas mulheres solteiras em sua idade, muito carente e fogosa. Seu jeito maternal, contudo, não me deixava à vontade. Esses tantos pensamentos que me vieram à mente só serviam para me deixar ainda mais oscilante. Depois do breve cochilo que eu dei, disse-lhe que preferia ir embora. Falei que havia bebido demais, estava desanimado. Ela entendeu. Ainda me ofereceu carona, disse que estava tarde, mas eu lhe deixei claro que não precisava. De fato, eu não queria mesmo. E jamais voltaria a vê-la.

Depois de sair de sua casa, mais uma vez segui sozinho e taciturno, numa caminhada extensa e duradoura. Sabia que estava acompanhado somente pela solidão. Pensei na hora que o melhor de mim eu devo ter perdido nessas incompletas aventuras a dois. Agora, somente o meu resto é que passeia calado pela noite escura.



quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Fissuras reprimidas

Eu observava o balançar glúteo da garota que seguia à minha frente e não conseguia mudar o foco de minha atenção. Era muita beleza reunida naquele pedaço de carne em movimento constante, moldado por uma calça jeans de um tipo que não sei bem descrever. Eu não sou de ficar feito pateta babando por cada bunda bonita que vejo, mas essa garota tem um conjunto de corpo tão atraente para mim que eu fico fissurado quando a vejo passar, gosto de ver primeiro seu rosto, seu olhar verde e perdido, seus mãos a segurar os cadernos e livros, braços cobertos pela penugem fina que parece ser igual aos cabelos castanhos, e enquanto a observo, bem pequena, bem charmosa em seus movimentos suaves, chego até a fazer algumas artimanhas, como fazia nessa vez, para poder segui-la sem que ela notasse a menos de cinco metros de distância (onde posso vê-la bem) pelo decorrer dos pátios do campus até o momento em que eu ia pegar a minha moto e ela se dirigia para sua parada de ônibus. Já pensei em falar com ela alguma vez, tentar conhecê-la melhor, só que achei melhor não, ela faz ensino médio, deve ter seus 15 ou 16 anos, então eu deixo suspenso o meu interesse, vez que ela nessa idade tanto pode como não pode gostar da ideia de chamar a atenção de caras mais velhos, isso embora eu não seja muito mais velho, só uns sete anos no máximo.

Mas eu sabia como ela se chamava, era Andressa, alguém me falou numa certa ocasião, e eu remeti imediatamente a uma outra garota de nome parecido - esta se chamava Andreza, com z - que morava perto da escola onde eu estudava na época do ensino fundamental (eu tinha, sei lá, uns 15 anos, e a Andreza também), e como toda garota daquela área, ela estava sempre em oferta para quem chegasse, o preço não podia ser mais primitivo: era sempre o cara mais forte que chamava a atenção das meninas por ali, e eu nunca fui forte nem nada - apanhei muitas vezes na vida, aliás, apanhei em todas as vezes que briguei -, no entanto teve uma fase em que fiquei amigo do Eric e ele serviu de atalho pois era um cara forte, e não somente forte, era um gaúcho muito bem-apessoado, além de carregar aquele sotaque característico que eu acho chato mas as meninas achavam charmoso e tudo isso formava elementos que despertariam inveja em todos os outros caboclos da turma, eu inclusive. Isso era no ano 2000, e eu conheci o Eric um mês depois de iniciada as aulas, na semana em que se comemoravam os 500 anos do país e havia todas aquelas festividades, o que pra mim era uma chatice enorme, e eu na minha origem punk decidi como uma forma de rebeldia fajuta dessas que a gente nutre na adolescência rabiscar na minha camisa da farda a frase PAU NO CU DO QUINTO CENTENÁRIO, e enquanto andava com essa camiseta no pátio da escola, o Eric me parou certa vez e disse:

Pô, massa demais... até que enfim alguém que pensa como eu por aqui.

Pega, pinta a tua camisa também, falei, entregando-lhe logo uma caneta vermelha, dessas de escrever em lousa.

Dali em diante, eu, com a amizade do Eric, teria algumas portas abertas no meio mais obscuro da escola, porque Eric era um garoto de classe média alta que tinha ido parar ali como forma de castigo, mas seus pais não esperavam que o castigo do garoto se tornasse um carma para eles, porque Eric naquela escola virou rei, rei das garotas, a quem conquistava facilmente e rei da negrada, sendo ele o traficante-mor daquele gueto, carregando sempre dinheiro para fazer circular tudo de bom e de ruim sob vista grossa da Ritinha, a diretora da instituição. Eu e Eric formamos junto com outro cara chamado Maurício uma banda punk chamada Cavalo Amarelo, que depois passou a se chamar Aura Oculta e aí ficamos realmente próximos e com ele comecei a viver mais coisas, comecei a pôr em prática os delírios que eu absorvia da literatura que me convinha (com Jack Kerouac e Neal Cassady falando da magia de viver as ruas e o mundo, fugir dos escritórios e dos ambientes claustrofóbicos, de frequentar meios marginais), e nessa tendência convivi por uns anos com o meio barra-pesada que o gaúcho frequentava, e nesse período foi que conheci, pelas infinitas rodas de bebedeira, a Andreza, que também tinha uma bela bunda como a garota de nome parecido, além de tantas outras conheci nessa fase - só que ao mesmo tempo não conheci nenhuma, pois todas essas meninas que comi e de quem esqueci logo depois foram apenas símbolo de um tempo de deslumbre, quando eu, adolescentemente, queria viver todas as coisas e não vivia nada.

Quando o Eric foi embora - ele sofrera um acidente de carro que o faria perder a voz e os pais mandaram-no para morar com outros familiares no Rio Grande do Sul -, nossas vidas já estavam se desestruturando, de modo que se continuássemos naquela a coisa ficaria preta para nosso lado. A Aura Oculta já era artifício do passado, o Maurício já tinha se tornado pai de família aos 16 anos, e eu terminei ficando sem o meu suporte principal, de maneira que percebi já ser a hora de deixar de frequentar os círculos tenebrosos com os quais eu ainda estava envolvido. Levou pelo menos dois anos para que eu abandonasse completamente essas influências, precisando manter-me recluso, mudando de escola, diminuindo gradativamente meu relacionamento com outras pessoas - tanto as desse meio como as pessoas "comuns" - e precisando segurar a vontade que eu tinha de abandonar o isolamento para retomar os contatos com intuito de comprar algumas trouxinhas de cocaína, mas resisti talvez porque não fosse viciado, e sim apenas fascinado pelas maravilhas narcóticas. A Andreza, porém, que me deu a maior força e foi a única pessoa com quem mantive contato, ficou para trás, no entanto eu soube há não muito tempo que ela havia se mudado. Espero que para bem longe, ainda que hoje ela já não deva mesmo ostentar aquele corpo bonito que mantinha nem talvez o carisma que me fez lembrar dela antes das muitas outras.

No entanto, algumas coisas permanecem, a minha fissura pela cocaína por exemplo era a mesma que mantinha por sexo, e tanto um como outro quando cruzam hoje o meu caminho me fazem remeter àquele período estranho, e por isso eu sempre tentei me convencer de que a cocaína é uma merda, o chá de cogumelo é uma merda, sexo é uma merda, punk é uma merda, só que eu não pensava essas coisas por apreensão, nem vergonha, nem repúdio das memórias que trago, pelo contrário, sem elas não seria o que sou; é apenas porque realmente não gosto mais dessas coisas, elas me chateiam - mas de Kerouac ainda gosto, enfim aprendi a lê-lo. Em paralelo, aos poucos vou tentando me livrar do estigma que sempre carreguei, mas que se intensificou durante e depois daquele período, de valorizar tão pouco as outras pessoas, de maneira que hoje, anos depois, tenho me relacionado melhor com as drogas do que com o sexo (por isto ser uma coisa que necessita de presença alheia, o que para mim é algo potencialmente incômodo) e findo lamentando, quando olho para trás, pela pessoa que eu parecia ser, afeita a certos prazeres tão desmedidos que agora pareço estar sequelado, vendo a garota à minha frente balançar suas belas nádegas redondas em meu convite - e aposto que além desses atributos, ela ainda é uma garota de muito mais cérebro do que todas aquelas que experimentei na adolescência - mas eu prefiro deixar pra lá, para não ter que pensar em tudo de novo.