segunda-feira, 7 de março de 2011

Com um nó no estômago

Acordei no sofá, com as costas doendo, como sempre. Era o prenúncio de um mau dia, como são todos os outros dias. A TV estava ligada, e eu vi o viaduto por onde passo todo dia em direção aos trabalhos, faculdades e outros tormentos. O viaduto estava em segundo plano, em primeiro estava uma repórter bonita mas totalmente sem sal dizendo que o tempo estava nublado, mas que não choveria. Eu me levantei com muito esforço, sendo meu sofá bem rústico e duro, é péssimo para dormir... todo o corpo estava em cacos... peguei um copo de água e fui para a janela ver as pessoas passando na rua... fico olhando a rua em frente, os estudantes, os operários, as mães com suas crianças, todos seguindo em direção a algum lugar, seguindo até o fim da rua, seguindo até sumirem no horizonte, e eu quase morri nessa falta de perspectiva.

Tomei um banho rápido e enquanto me vestia silenciosamente, o telefone tocou. O telefone residencial. Nunca havia passado o número para ninguém e ele agora estava tocando. Levei um susto, fiquei meio paralisado por segundos. Depois, ignorei. Continuei a vestir-me. Não queria atender. Não tinha nada a dizer, não queria ouvir nada, também não queria sair de casa. Por que era obrigado a atender essas exigências bobas? Tentei pôr mais pressa enquanto me arrumava, pois o telefone não parava de tocar e eu já estava incomodado. Mas antes que eu saísse de casa, ouvi o ônibus passando à frente. Foi-se rapidamente, e eu teria que esperar o próximo. O próximo, eu sabia, não passaria nos 40 minutos seguintes. Sentei-me no sofá com as mãos tapando o rosto... estava puto! Perdi a hora justo quando não devia... tinha uns exames de sangue para fazer. Tive que ligar para a moça do consultório.

O que deseja?

Quero remarcar o meu exame de sangue para amanhã.

Para amanhã não será possível, pois...

Então, interrompi, quero remarcar para depois-de-amanhã.

Também não será possível, senhor.

Tudo bem, quando há uma data disponível?

Infelizmente, não há mais datas disponíveis. O doutor fará exames até sexta e entrará em licença até maio. Você pode tentar...

Não, não vou tentar mais nada, obrigado.

Eu estava agora com uma pilha de exames incompletos, e para tê-los todos teria que esperar até quase o segundo semestre... Horas e horas marcando consultas e fazendo exames de raios X para terminar nisso... Desisti. Como já estava com a necessidade de sair de casa para compromissos outros, como dar aulas, e precisaria me deslocar mesmo assim até o Centro, decidi ficar vestido como estava, mesmo que só fosse sair depois do meio-dia, portanto dali a umas quatro horas. Cochilei no sofá enquanto isso e pus o despertador para alarmar exatamente ao meio dia.

Nesse dia, só dei duas aulas. Daria cinco, mas fiquei nas duas, já que o restante das turmas saiu antes da minha aula para participar de alguma atividade interativa fora da escola, e sendo assim fiquei livre mais cedo. Não sei se isso agradou ao meu dia. Era uma das últimas semanas que eu lecionaria; hoje já não sou mais professor, mas daria tudo pra dar aulas novamente. De qualquer modo, foi o jeito: saí de lá e fui para a parada de ônibus. Só que estava havendo uma passeata de uns servidores públicos, funcionários da Saúde, e estavam fechando a avenida pela qual os carros vinham. Como o trânsito estava desregulado, precisei pegar a condução em outro lugar. Escolhi uma outra parada, mas não tinha certeza de que o ônibus passava lá. Esperei dez minutos e saí. Fui para uma outra parada, onde esperei mais dez minutos e nada. Cheguei na Avenida Rio Branco, onde tem mais quase quinze paradas de ônibus, e eu tinha que adivinhar em qual delas o meu ônibus parava... Como vi que seria difícil, decidi aproveitar o tempo que estava no Centro para fazer algo. Fui à biblioteca do Sesc, ali por perto.

Apresentei minha carteira de sócio na entrada e fui procurar uns livros. Procurei, procurei e nada encontrei. Decidi ir para a mesa de revistas. Enquanto folheava lá algo sobre a rodada do Campeonato Brasileiro no fim de semana anterior, uma funcionária veio ao meu encontro:

Com licença, este é você?

Ela perguntou me mostrando um formulário que continha meu nome, foto, dados e uma listagem de dois livros que eu tomara emprestado meses antes.

Sim, sou eu. Apresentei minha carteira de sócio ao entrar.

Claro, senhor. É que há dois livros da biblioteca que estão emprestados a você, e estão atrasados.

É mesmo?

É sim, um do Rubem Fonseca e um do... deixe-me ver, Ernesto...

Ernest. Ernest Hemingway.

Pois é isso mesmo.

Olha, eu mandei um email recentemente para saber a quantas andava a minha situação aqui.

E não obteve resposta?

Claro que não... Ninguém responde nada. As pessoas só ouvem o que querem ouvir, e dizem o que querem dizer. Ninguém mais sabe perguntar nada, assim como ninguém responde nada também.

Mas, veja bem, os livros não são seus e...

Ué, lógico que são! Sou eu naquelas histórias! Hemingway me roubou, roubou a minha história e a minha personalidade para fazer aqueles contos! Acredite, minha querida, se ama mesmo a Literatura, aqueles livros estão melhores comigo do que aqui esquecidos nessa biblioteca decadente.

Você tem dez dias para trazê-los, não digo mais nada.

Ela sententicou e enfim me deixou em paz.

Depois que li todos os comentários sobre o futebol, a economia e os conflitos contemporâneos, saí, meio indisposto de continuar vagando, fui para uma parada de ônibus na qual sabia que meu ônibus pararia; para tanto tive que andar muito, cerca de meia hora. Peguei o ônibus e cheguei em casa, cochilei, bebi mais água, abri uns emails, li emails antigos, e percebi que havia muito mais emails ainda para trás... emails que nunca deletei em vários anos de uso ininterrupto de internet.

Comecei então a ler e a deletar, e deletar, e deletar. Enquanto deletava ainda relembrava muitos, ainda via neles boas e más lembranças, sentia que estava estourando bolas de encher, preenchidas de emoção. Enquanto deletava, imaginava isso como uma versão moderna da coisa de queimar cartas, lê-las e jogá-las na lareira enquanto o rosto expõe faces de alegrias e decepções. Passei coisa de seis ou sete horas nesse rito, do fim da tarde ao início da madrugada, e já me sentia muito pesado por tanta carga emocional reavivada nesse momento - uma carga pesadíssima, registrada em doses homeopáticas, agora rememorada em escala industrial. Desisti de deletar os emails, só sobraram alguns poucos do passado. Estava querendo dormir, e fiquei com isso na cabeça. Reconhecia o meu rosto íntimo, dissimulado, de quem sai para a rua disfarçado com o próprio corpo. Pensei em refazer coisas, mas era impossível, a vida é uma permanente construção; mesmo quando se destrói, ela se está construindo. Eu pensei nisso depois que li um deles, que escrevi há bastante tempo não lembro para quem e nem cheguei a enviar, ainda que fosse um email-resposta. Estava lá salvo na caixa de rascunhos do servidor. Em letras mal-formatadas, eu só adormeci depois de pensar bastante após reler tais palavras:

eu estava vendo e aprendendo algo sobre o escorpião, sobre a tendência regenerativa desse ser que se manifesta num impulso destrutivo, para reconstruir a vida permanentemente, e fiquei pensando nisso que você falou, que a vida é sempre um andar para a frente,mesmo que trôpego e cambaleante, e já não dá retorno possível para o passado. fica tudo se acumulando no altar do esquecimento. eu que só queria acordar sem esse nó no estômago. queria qualquer coisa doce, já que ando cada dia mais azedo. qualquer coisa que fosse como um deslumbramento ou um abraço. mas nada disso virá, a gente sabe. tudo se vai.

que merda.

até amanhã... quanto a depois, logo se vê.




terça-feira, 1 de março de 2011

A paz que me engana

Já vislumbrei a paz diversas vezes,
já arrumei a mala e parti por meses
com sentido fixo, em sua direção.

Perdi o prumo e o passo, perdi-me todo.
A paz que vi não era mais que engodo
a me ludibriar, mera tapeação.

Reencontrei a tal paz anos depois
e um novo dilema sobre mim se pôs:
se valia a pena tentar segui-la novamente.

Mas só uma coisa agora me vinha à mente:
eu não queria me ver de novo enganado.
Nessa vida, já não preciso de outro fardo.

Então o tempo passou e veja o que ocorre...
Certas coisas parecem que nunca morre,
como essa insistência dela em me flertar.

Agora penso no que vale a pena, no preço da paz,
penso no que preciso fazer pela virtude que ela traz,
mas mais uma vez ela parece me enganar.

Então eu me retiro, prefiro ficar aqui distante,
prefiro tentar fugir desse conflito delirante,
e pretendo anunciar minha completa indiferença.

Porém ela persiste e nunca pára, pois não pensa,
a mim caberá resistir à sua recompensa,
e eliminar o seu poder embriagante.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

53 reais a menos

Eu gosto das pessoas. Gosto de observá-las. Só não sei interagir, e também não gosto. Em geral, as formas de interação são tão pueris que nossa melhor companhia de repente pode perder toda a graça. Mas é por gostar apenas da companhia das pessoas e não da interação que me dou bem em lugares como estádio de futebol, fila de banco, ônibus, trem. Imagino-me pegando um trem lotado - há tempos não faço isso -, e dando de frente com todo aquele povo estranho. Cada um no seu lugar, uns sentados, muitos de pé, crianças chorando, mulheres com saco de compra, homens oferecendo lugares a idosos e grávidas e eu lá, no meu silêncio, observando tudo, sem que ninguém precise me falar - e esperar que eu fale de volta - nada.

É por isso que o lugar que mais gosto é o último banco do ônibus. Quando me sento ali, tenho uma visão panorâmica de todo o interior da condução, posso observar a todos, ainda que com as limitações daquele ângulo de vista, e sou também observado por aqueles que vão descer, mesmo que por lapsos de menos de um segundo. Todas as vezes que preciso me recolher em um lugar, o lugar que escolho é sempre nesse último banco.

Quando vou para algum jogo de futebol acompanhar o meu time, o ABC, não é diferente: gosto de ir de ônibus. Gosto da expectativa da vitória dentro de campo aliado ao prazer de ir observando as outras pessoas que estão no ônibus. Gosto de curtir o bom resultado ou amenizar a dor da derrota bisbilhotando os hábitos alheios, no retorno de casa.

Mas na semana passada, chovia muito e era noite; se eu quisesse ir para o amistoso internacional do ABC contra o River Plate, não poderia ser de ônibus, pois não tem mais ônibus depois das 23h00.

Saquei então a minha moto e me dirigi ao Frasqueirão. A chuva era intensa, muito mais do que eu esperava. Somente quando deixei a moto no estacionamento é que ela se elevou a tal ponto que eu mal conseguia me movimentar. Oh chuva para causar desgraças, será que não me permitirá nem chegar nas arquibancadas?!

Com muito esforço alcancei a arquibancada e lá assisti, mesmo debaixo da tempestade, uma partida meio sem graça. A chamada do evento engrandecia o que ele era de fato. Mas nunca se pode esperar um grande jogo da primeira partida do ano. O estádio parecia apenas metade cheio. As outras milhares de pessoas estavam se acotovelando debaixo das arquibancadas para se proteger da chuva. O primeiro tempo terminou sem gols. No segundo eu já estava trêmulo, apesar de a chuva ter diminuído. Mas quando pensei que o jogo melhoraria, o River marcou o primeiro. Quando pensei que o jogo melhoraria, o River marcou o segundo. Quando pensei, o River já estava marcando o terceiro.

Não gosto de ir embora antes do jogo acabar, mas essa soma de fatores foi determinante para me fazer tomar rápido o caminho de casa...

Só que no estacionamento a moto não queria pegar. Não adiantou eu tentar por dezenas de vezes. Não pegou. Saí empurrando, mesmo debaixo da chuva. Queria ver se fazia ela pegar no tranco, correndo. Só que ainda chovia, a pista estava cheia de água e havia muitos carros estacionados e outros saindo do local do jogo. não tinha condições de pegar no tranco. Pensei que podia ser a gasolina em falta. Levei no posto que fica em frente ao estádio e abasteci. Nada. Um amigo chegou e viu meu problema.

Será o cachimbo? Vela encharcada? Liga o afogador, de repente pegue, disse ele.

Fui tentando dando uma sacada em cada ítem, mas não resolvia. E não tinha mecânico para levar, sequer eu tinha como sair debaixo daquele pé d'água.

Nesse momento, ouvi uma gritaria da torcida no estádio. O ABC havia marcado o primeiro, eu sei. Mas nem comemorei. Apenas sentei e lá fiquei como se a solução dos problemas me fosse cair do céu.

Quando me dei conta, já havia bem menos gente pelas redondezas. O jogo já havia terminado há tempos. Deixei a moto ali mesmo, no posto, ciente de que no dia seguinte ligaria para o meu tio e lhe repassaria uns trocados com a mais límpida convicção de que ele iria fazê-la funcionar e descrever acertadamente o problema para que nunca mais venha a se repetir. Sendo assim, não havia mais nada a fazer. Iria caminhando para casa, até talvez aparecer um táxi. E apareceu.

Vai pra onde?, perguntou o taxista com o carro em lento movimento, seguindo minha caminhada.

Parque Industrial.

Onde fica?

Perto do aeroporto.

Tem quanto aí?

15, 20... sei lá.

Não tem mais?

Mais quanto?

Sei lá, bem mais. O aeroporto é longe.

Talvez.

Entra, se tiver mais.

Entrei.

Dentro do carro, pude ver o teor da chuva. Todo o trajeto usual que eu fazia estava completamente alagado, e a BR 101 havia simplesmente desmoronado por quase toda a via. Essas circunstâncias fizeram o taxista dar muitos arrodeios a mais para chegar ao meu destino. A conta deu exatos 53 reais. Eu não tinha tudo isso no bolso. Quando cheguei em casa, fui no quarto e catei umas últimas notas pra fechar a conta. Repassei a grana, ele sorriu e se foi.

Agora a chuva já era parca e rala, suficiente apenas para que se pudesse ouvi-la caindo sobre os telhados, a pavimentação e as poças. Estava escuro, e na rua somente os postes me faziam reverência em seu silêncio estático, luminoso, molhado demais. Eu fiquei ali parado até o táxi virar a esquina, e ainda continuei alguns segundos a mais, inerte, pensando nos impropérios daquele dia.

E dessa vez eu nem tive o último banco do ônibus para me recolher.



sábado, 15 de janeiro de 2011

Versos otimistas como não sei fazer

Hei, eu a chamei,
você me viu,
eu lhe mostrei, você abriu,
dei um livro e um abraço,
"A Conquista do Espaço".
Mas não me satisfaço:
Faço-lhe mapas e traços,
corto papéis em pedaços,
brincamos e imaginamos
e nesses descompassos
nós nos entrosamos.
Lembro como se fosse agora,
quando, onde você ainda mora,
brincávamos até cansar,
e íamos até o mar
contar, na praia, histórias
criando ritos e glórias
nas margens do oceano
que era nosso cotidiano.
A praia ficou para trás,
pois já não a levo mais;
fico na tola esperança
de que essa vaga lembrança
supra a minha vontade
de ir matar a saudade
de visitá-la e de levá-la
sem quaisquer troços ou malas
praqueles longos passeios.
Mas é que agora, creio,
não posso mais fazer nada
por você, minha afilhada;
porque estamos tão distantes,
diferente de como era antes,
que já não posso acolhê-la,
espero apenas poder vê-la
porque às vezes a tristeza
nos deixa sem qualquer defesa.
Mas não estou triste, prometo,
tenho em você um amuleto
que recheia minha memória,
que dá sentido à minha história,
que melhora um pouco tudo isso.
É uma espécie de compromisso.
E desde quando eu nasci
só agora de fato entendi
que em tudo reside uma lógica;
eu tenho enfim sobrevivido,
tenho buscado algum sentido
que ainda não encontrei,
mas ainda assim eu sei
o que você sequer imagina:
mesmo que haja um caminho certo
essa busca nunca termina.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A primeira noite

Já eram 23h e tantos e ele ainda não sabia para onde ir aquela noite. O centro da cidade estava esvaziado, e só se fazia presente a incômoda fetidez de mijo e cerveja que toma conta do lugar à noite. Embora a hora denotasse que já estava ficando tarde, parecia-lhe que muita coisa ainda aconteceria nos instantes seguintes. Mas ele não queria passar aquela noite na rua. Quisesse ou não, ela tinha algo de emblemático, de simbólico.

Depois de vaguear ante as pequenas lojinhas das ruas-beco que se acotovelam entre as principais vias da Cidade Alta, encontrou um hotel asqueroso, mas que oferecia a comodidade pela qual poderia pagar. "Ao menos uma TV ou um radinho deve ter", imaginou, consolando a si mesmo. O salão do hotel, com um balconista e outros quatro caras ao redor de uma mesa jogando cartas, era uma ebriedade só, e lhe trazia à sua memória os filmes vagabundos aos quais costumava assistir na infância - aquele lado escuro da vida, que nunca pensou em experimentar de fato. No entanto, o tempo corria e ele não estava chegado a reflexões. Pegou a primeira chave que o estonteado atendente lhe oferecera e foi ter com o primeiro quarto desconhecido que o acolheria. Lá, nada de radinho ou TV. Apenas uns beliches sujos, quase nenhum com estofado. Da janela, que ficava a quatro andares do chão, o que dava uns quinze metros de altura, sentia o forte vento frio que invadia o quarto e contemplava a decadência dos muitos mendigos, entorpecidos nas calçadas pequenas daquelas ruelas. A maioria das pessoas agradeceria por ter uma cama para dormir, ele pensou. "Sou um ingrato filho-da-puta".

Durante toda a vida, esperou por aquela noite. Contudo, não imaginava que passaria como um mundano, num hotel nojento qualquer. Não chegou a chorar; e se o fizesse não seria por saudades nem por desesperança. Aconchegou-se da forma que pôde, e, pela noite, leu um livro de Allen Ginsberg, mais um inconseqüente doutros tempos que o ensinara a desprezar a boa-vida vazia de sentido que recebera até ali. Apesar da leitura o absorvê-lo por um tempo, não agüentava o tormento daquelas horas e retirou da mochila uma garrafa de vinho pela metade, que o ajudaria a se aquecer e divagar o restante da madrugada, bem percebendo que estava longe de sentir sono. A certo instante, somente quando precisou do banheiro, foi que ele se deu conta de que não estava num suíte - não havia suítes ali, afinal. Caminhou até o fundo do corredor, mas o pouco de dignidade que guardava - que bobagem... - o impedia de usar o banheiro coletivo repugnante que era dividido entre todos os hóspedes do andar, composto de bêbados, prostitutas e, ocasionalmente, um ou outro adolescente fugidio, "igual a você", conforme lhe dissera um dos embriagados que conhecera na entrada do hotel.

Tudo se passou num misto de alegria e tristeza - mas uma tristeza jubilosa, quase uma constatação de que estava vivendo um lado mais sincero e honesto da vida, tal como ela deveria ser de verdade no seu imaginário. Estava, no final das contas, satisfeito. Nos vinte anos anteriores, fora sempre tido como um sujeito esquisito e ermo, mas os adjetivos inglórios até então recebidos pouco significavam agora. Já não pensava mais em nada depois de alguns tragos de vinho, quando reparou num crucifixo que ornamentava, solitário, uma das paredes do quarto, entre rabiscos de caneta outrora traçados por hóspedes canalhas e metidos a poetas. "Aprendi com você a ser um errante", foi o que disse, olhando para o crucifixo. Ou parece que disse, não tinha certeza.

Sua paz acabou quando bateram na porta, às 4h e poucas, enquanto filetes de luz matinal já começavam a iluminar o ordinário ambiente. Embora ele se mantivesse acordado, estava absorto demais para ter consciência disso. Estava drogado, diriam, como sempre disseram, os lugares-comuns que povoaram sua vida. Mas enfim percebeu que havia mesmo alguém forçando a porta no corredor. Quem seria? Ele não imaginava. Bem poderia se tratar de apenas um beberrão tentando entrar no quarto errado, ou até um serviço de quarto, mas isto ele sabia que não havia naquele antro. Talvez alguém que, após alguma procura, descobrira o seu paradeiro. Tentou não dar muita atenção, entretanto as batidas não cessaram. Num dado momento, contudo, sem entender muito bem o porquê e sem que se preocupasse com motivos ou razões, desceu-lhe uma minúscula lágrima pelo rosto, e um sorriso indolente desestatuou seus lábios. Pegou uma caneta que tinha no bolso para pôr uma sentença na parede, como tantas outras que já estavam ali expostas. Ele se viu quase completamente sem o controle dos próprios nervos, e, com muito esforço, escreveu: É possível alcançar a supressão do sofrimento que é a vida. Dito isto, não tinha muito mais a fazer. Então se dirigiu à janela. É bem verdade que quinze ou vinte metros nem sempre chegam a ser fatais, mas ele estava decidido a pular de cabeça para baixo, para não ter muitas chances. "Nunca tive segundas chances", pensou, no fim. "Seria muita ironia se tivesse agora".



domingo, 19 de dezembro de 2010

Diálogo existencialista (peça incompleta)

(Eu estava bebendo conhaque e olhando Júpiter pela janela com a luneta que havia comprado recentemente. Gabriela estava deitada na cama, fora de minha vista e de minha audição; mas como ela quisesse conversar, então me voltei em sua direção.)

GABRIELA

Você gosta de tristeza?

(Eu me fiz de desentendido.)

LEON

O livro? Um dos melhores que já li.

(Ela riu. Depois ficou com um pequeno sorriso, mas meio sem querer perguntar novamente.)

GABRIELA

Não é isso não...

LEON

O sentimento, é?

GABRIELA

Sim.

LEON

Não necessariamente gosto... Convivo com ele. Acho que a vida é triste. Os momentos de alegria são meros lapsos. (dei uma boa parada, coloquei mais um pouco de conhaque e bebi antes de continuar a falação.) A nossa condição existencial é a solidão, e não nos conformamos com isso. Porque fisiologicamente somos um animal social, mas existencialmente, somos solitários.

GABRIELA

Puxa. (parecia surpresa, mas não demonstrava ter nada mais a dizer.)

(Continuei como se não a tivesse ouvido.)

LEON

... Então, acho que quando se adquire mais percepção a respeito das vicissitudes, os dilemas que a vida oferece, cada vez mais se entende que tudo o que conhecemos por reconhecimento, conquista, é pueril e simplório demais, e não sustenta nenhum senso de grandeza. Sendo assim, é uma sensação (a conquista, a vitória, a alegria) que surge e tende a esmorecer rápido, antes que nos demos conta disso... Isso só perdura naqueles que ignoram o lado obscuro da vida.

GABRIELA

Acha mesmo?

(Fui sentencioso.)

LEON

Acho sim.

(Silêncio, por alguns minutos. Gabriela estava sentada com as pernas curvadas sobre a cama, então deitou e se cobriu; eu estava bebericando e olhando-a fixamente. Como se tivesse se lembrado de algo, ela virou o rosto para mim rapidamente, mas ainda ficaria alguns segundos calada.)

GABRIELA


Eu nunca parei pra pensar sobre essas coisas.


LEON

Eu sempre parei, era só o que fazia... não fazia mais nada, afinal. Agora continuo não fazendo muita coisa, eu me acostumei com essa condição.

(Ela fazia murmúrios, como se procurasse as palavras.)

GABRIELA

E antes de pensar tanto sobre essas coisas, você era mais alegre?

LEON

Não. Por isso, eu achava que havia algo errado comigo. Sentia-me desprezado, injustiçado, relegado... Achava que as pessoas eram más e esperava sempre algo delas que nunca me ofereciam, em momento algum.

GABRIELA

Continua.

LEON

Depois, entendi que não se tratava disso. Ainda é estranho aceitar, às vezes. Há ressentimentos e coisas assim. Mas eu passei a entender melhor o porquê de as pessoas agirem dessa maneira. De serem indiferentes a outras, de serem insensíveis, e tal...

GABRIELA

São motivos distintos?

LEON

De modo geral, o motivo é o mesmo... aí cada pessoa tem suas particularidades, que só se diferenciam do todo em alguns casos específicos...

GABRIELA

Entendi.

(Voltei a olhar para a janela. Júpiter ainda estava no campo de vista. Enchi o copo com conhaque e dei uma última olhada para Gabriela. Ela estava me olhando, mas como se não estivesse me vendo, como se eu fosse transparente. Fiz-lhe uma última pergunta.)

LEON

Uma grande bobagem tudo isso?

(Não me lembro da resposta.)




sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A estagiária

Uns meses atrás, quando a minha moto andou encostada devido a uma conjunção de pequenos fatores, eu teria que ir ao trabalho e à faculdade de ônibus. De certo modo, havia algo de positivo nisso, pois me permitia ter um mínimo de relação com outras pessoas, coisa que já não tinha mais, uma vez que nos dias comuns, em que uso meu próprio transporte para ir a meu destino, praticamente as únicas pessoas com quem converso são alunos e professores da escola onde dou aula, colegas e professores da faculdade em que estudo e atendentes de bancas de revista, de lojas, de padarias e coisas assim; a maioria destas relações, como se vê, regida pela insossa relação profissional-cliente, uma das coisas que mais detesto, tanto estando eu na situação do profissional como do cliente.

Decidi pegar o ônibus em três horários diferentes. Nas segundas e quartas, eu pegava o ônibus ao meio-dia na ida e às 22h00 na volta. Nas terças e quintas, eu pegava o ônibus às 13h00 e voltava às 23h00. Nas sextas, o horário era flexível, pois eu dava apenas um horário de aula, e como não havia faculdade nesses dias eu voltava cedo, geralmente ainda no final da tarde, de maneira que não pegava ônibus no mesmo horário.

No ônibus de meio-dia, certa vez ao meu lado sentou uma mulher bastante imponente. Eu estava no banco da janela e ela no do corredor. Era uma mulher grande, balzaquiana, de quadris largos, o que fazia com que, quando ela se sentasse, me imprensasse, deixando suas pernas bem coladas na minha. Como o ônibus nesse horário lotava rapidamente, aos poucos a mulher era obrigada a imprensar-se ainda mais sobre mim, o que gerava também uma reação contrária, caso contrário eu não teria sequer lugar pra sentar. A mulher passou a viagem toda falando no telefone até que enfim chegasse seu ponto; quando ela decidiu descer, um cara sentou em seu lugar e me puxou o braço pra falar algo que não entendi e pedi que repetisse.

Gostosa, a Marta, essa mulherona que tava aqui do teu lado, ele disse.

Ah, sim. Na verdade, não a notei muito, eu falei.

Como não notou?! Ela tava praticamente se oferecendo pra você. Ela é a dama do lotação versão Águas Claras, disse o cara, referindo-se ao conjunto habitacional em que ela morava.

Nem notei mesmo, quem sabe na próxima...

Tu não pode marcar bobeira assim, rapá!, ele dizia, como se fôssemos velhos conhecidos.

Me fale você, eu disse, tentando inverter o interrogatório. Que sabe dela?

E enquanto ele falava eu olhava pela janela.

No dia seguinte, uma terça-feira, eu saí de casa às 13h00. Nesse horário, o ônibus nem sempre lotava; frequentemente o banco ao meu lado ficava vazio. Eu ficava reparando ora no trajeto que passava irreversivelmente lá fora do ônibus, ora nas pessoas dentro dele, estudantes, vendedoras e coisas assim. Uma garota de feitio comum em particular chamava a atenção por ser bastante comunicativa, pelo visto conhecia bastante gente que pegava ônibus naquela hora (sempre a via falando com alguém). Notei pela sua farda que trabalhava na Companhia de Águas e Esgotos. Eu reparava nela como reparava nas outras garotas, às vezes prestando alguma atenção, mas sempre distante, despretensioso, como se as observa num romance de Scott Fitzgerald.

Em uma rara ocasião, essa garota sentou ao meu lado. Depois de poucos minutos de viagem, perguntou a mim as horas.

Bem... são 13h15, eu falei, sem olhar para o relógio.

Nem olhou para o relógio, ela disse, estranhando o fato de eu dizer a hora diretamente.

O meu relógio estava parado fazia alguns dias. Precisava levar em algum relojoeiro. Mas por força do hábito eu sempre o punha no braço, mesmo assim, inutilizável. Então tentei explicar a situação de alguma maneira.

Na verdade, meu relógio parou agora há pouco, notei só depois que saí de casa, falei.

Posso ver?, ela perguntou. E ao notar a data que marcava no relógio, disse mas ele parou há três dias, pelo menos é o que se vê aqui na data.

Bem, não ligo.

Como não liga?, ela insistiu. Ela ria enquanto questionava.

Relógio pra mim é mais um mero acessório, apenas.

Ah...

E se fez algum silêncio por um tempo. Até que eu retomei a conversa.

Você trabalha na Caern, não é?

Como sabe?, ela perguntou.

Já notei pela sua farda em outros dias (ela não usava farda nesse dia).

Ah, sim! Sou estagiária de lá, disse efusivamente.

E começamos a prosear sobre Caern e outras coisas. Quando eu disse que havia sido aprovado no concurso para trabalhar nessa companhia, ela havia ficado particularmente mais interessada na conversa.

Assim os dias se revezavam. Em uns eu falava com o rapaz que sentava ao meu lado, que se chamava Martins. Era um mauricinho, fora nossa idade semelhante nada de comum entre nós, mas a conversa às vezes fluia bem. De modo geral, falávamos de mulheres; aliás, quase sempre era ele quem falava, oferecendo histórias mirabolantes, cada uma com acessos de ousadia de sua parte na sedução de garotas que eram dignos de um Casanova. Pelo menos, assim parecia; nos outros dias, eu falava com essa garota que ocasionalmente sentava ao meu lado e íamos sempre conversando, que se chamava Luziana. Ela era bonita, da minha altura, tinha uns 18 anos e isso era visível na sua pele clara e delicada ornamentada por longos cabelos bem escuros. Seu sorriso de covinhas chamava atenção, até a mim que não ligo muito para sorrisos.

Um certo dia o Martins, que parecia saber coisas de todas as garotas do bairro, entoando sempre longos discursos nos quais eu nem sempre prestava atenção, falou por acaso sobre a Luziana.

Como assim, você conhece a Luziana?, perguntei.

Claro que conheço! A propósito, ela bem que gosta de caras assim como você, com esse ar astuto, metido, professoral, completou, meio ironicamente.

Às vezes eu converso com ela no ônibus das 13h00.

Invista nela, ele disse.

Não liguei muito para o que ele havia falado. Porém, dias depois, a Luziana me convidou para uma festa que haveria na Caern. Era aniversário da empresa e a festa seria aberta para a comunidade.

Venha, você vai gostar, aproveita e vê um pouco como é o ambiente lá, dizia ela, insistindo para que eu fosse.

Certo, eu irei.

O Martins ficou especialmente interessado quando falei do convite da Luziana.

Bote quente!, ele falava, imperativamente.

Nesse período, eu já havia consertado minha moto, mas continuava indo ao trabalho de ônibus só para manter essas prosas cotidianas. Só que para a festa da Caern em particular, não fui de ônibus. A Luziana não entendeu o fato de eu ter ido de moto, provavelmente achou num primeiro momento que ela fosse emprestada de alguém. Havia bastante gente na festa, como havia bastante comida e bastante bebida. Depois de passarmos umas duas horas lá, a Luziana deve ter cansado do lugar.

Vamos sair daqui?, ela pediu.

Abandonamos o recinto. Como eu estava de moto, saímos passeando pela cidade. Antes do final da tarde, a Luziana estava quase implorando para vir à minha casa, e eu mesmo a contragosto - nunca trago ninguém para cá -, acatei. Fizemos sexo por várias horas e ficamos de papo furado outras tantas - sexo e papo, aliás, sempre interrompidos por telefonemas de sua mãe e justificativas pueris da parte da Luziana -, e eu a deixei em casa por volta da meia noite.

O que você pensa depois de transar com alguém?, ela me perguntou na hora da despedida, já em frente à sua casa. Sorria, como sempre.

Daqui a quantos anos será a próxima vez?, eu pensei. Mas não falei.

Isso na verdade nunca foi uma preocupação minha. A depender de mim, aquela noite nem teria existido.

Depois dessa ocasião, sempre que a Luziana me encontrava no ônibus, pressionava mais para sairmos outras vezes. Aliás, ela sempre pressionou, desde o princípio. A única coisa que eu queria era uma prosa cotidiana; ela queria provavelmente um namorado novo e uma transa a cada dois dias. Exigências demais para um sujeito sem saco pra nada disso como eu.

Acho que na semana que vem em diante não pegarei mais o ônibus, eu lhe disse, o que não a agradou.

Como assim?

Vou trabalhar de moto, falei.

Não entendi. E por que você está indo de ônibus todas essas semanas?

A moto estava quebrada.

Mas faz dias que você consertou!, disse a Luziana. Ela parecia gradativamente mais irritada.

É, só que preferi continuar indo de ônibus.

Meu Deus, que maníaco é você?! Imagine como deve ser louco um cara que usa relógio parado como acessório e anda de ônibus pra descolar garotas!!

Daí por diante, os seus comentários seriam ainda menos simpáticos. Apesar disso, ela ainda me telefonou uma ou outra vez, bem esporadicamente. No entanto, não demoraria a me esquecer em definitivo; é provável que outro cara já houvesse entrado na sua rota.

Numa das últimas viagens de ônibus que fiz ao meio-dia, encontrei o Martins, com quem não falava há algum tempo. Ele andou com atestado médico, então não havia ido trabalhar naqueles dias.

Ei, mas e a saída com a Luziana??, ele perguntou.

Ah, nada, não rolou nada.

Como assim nada?!

Nada.

Nem um boquetezinho?!, ele insistiu.

Não.

Ah meu irmão, você é muito mole, muito sem futuro. Quer saber? Vou é parar de falar contigo, tava me deixando mal, fazia um tempão que não comia ninguém, foi só ficarmos distante esses últimos dias que eu fiquei com duas morenaças!

Eu não sei se ele falou tudo isso ironicamente, mas decerto tornou bem mais fácil o fim do contato.

Na semana seguinte voltei a usar minha moto para ir ao trabalho e à faculdade, e ela até hoje não quebrou mais. Melhor assim.



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Anoitecer na estrada

Eu tocava adiante na estrada, vendo somente os raios de sol cortarem o tronco das árvores que se punham em sequência como se fosse uma cortina natural, situada ao longo do meio fio, fazendo um jogo de luzes e sombras que desenhavam formas bastante peculiares no asfalto e que ganhavam um visual bem singular quando visto por detrás de meus óculos escuros, e a tudo isso eu cortava ao mesmo tempo em que sentia a brisa pincelando meu rosto.

Era o final de uma tarde de verão e eu estava viajando de moto com a viseira levantada, em algum lugar do norte de Alagoas, num trecho não muito movimentado, permeado de estradas sinuosas e pequenos morros cobertos por uma vegetação verde e litorânea, no qual o único sinal de movimento além dos meus sobre a moto eram treminhões que levavam carregamentos pesadíssimos para os latifúndios da região, e, talvez, um ou outro mochileiro de bicicleta viajando no sentido contrário. Eu pretendia passar a noite em Maceió; ficaria alguns dias por lá, mas durante a viagem de moto imaginei que, em algum momento, eu tivesse pego o caminho errado, pois estranhara o fato de seguir já há muito tempo naquela estrada enfiada num cenário meio paradisíaco, sem jamais encontrar qualquer vestígio da capital alagoana.

No meu trajeto, eu procurava apenas uma placa que indicasse Maceió a XXX quilômetros, mas não encontrava. As únicas placas que apareciam no correr da estrada diziam em letras grandes CUIDADO COM OS TREMINHÕES.

Em um certo momento, notei que atrás de mim vinha outro motociclista. Bem que pretendi solicitar ajuda, mas ele vinha numa moto superesportiva e passou por mim em tão alta velocidade que num espaço de poucos segundos eu já o perdera completamente de vista, a ponto de duvidar de mim mesmo se alguém havia passado por mim naquele instante.

Enquanto o sol descia ainda mais, eu encontrei um garoto encostado ao pé da rodovia, mexendo numa bicicleta. Parei ao seu lado e lhe perguntei para que lado ficava Maceió, se eu estava seguindo no sentido correto.

Maceió?, ele perguntou.

Tinha uns 12 anos, mas provavelmente não fazia a menor noção de para que lado ficava Maceió.

Eu segui adiante, ainda na esperança de encontrar placas que indicassem a distância ou o sentido para o qual eu devia seguir para achar Maceió, mas todas as placas que apareciam se atinham a me avisar CUIDADO COM OS TREMINHÕES.

Como eu andasse já há tanto tempo e naquela estrada deserta não houvesse posto de gasolina, esperei chegar a primeira cidadezinha e decidi que dormiria nela, para pegar a estrada e continuar a viagem na manhã seguinte. A cidadezinha de fato apareceu, com feitio aconchegante. Ao lado de um barzinho que ficava às margens da rodovia tinha um motel, pensei em dormir ali. Antes de ir no motel, entretanto, fui no bar, queria beber alguma coisa. Entrei, sentei no balcão, e fiquei conversando com o atendente. Era o próprio dono do bar, que inclusive, no decorrer da conversa ofereceu gasolina que ele tinha estocado para que eu pudesse prosseguir.

Você é matador?, perguntou-me um bêbado barbudo da mesa em que estava sentado, interrompendo minha conversa com o dono do recinto. Eu não ouvira a pergunta, ou não me houvera dado conta de que havia sido feita para mim. Somente quando ele repetiu - você é matador? -, eu virei o rosto e notei que era mesmo comigo.

Por que a pergunta?, questionei.

Por causa dessas roupas aí, ele disse.

Eu usava uma calça jeans meio surrada, e um colete de motoclube, além de um bracelete punk. Usava também uma bandana, mas havia tirado logo que tirei também o capacete. Provavelmente corria para ele a lenda de que motociclistas nesse estilo eram assassinos e saqueadores. Mas eu estava sozinho, por isso ele e os demais se sentiam seguros.

Não, eu lhes disse. Não sou matador, sou escritor.

Escritor? O que faz um escritor?, perguntou outro cara que não cheguei a ver, apenas ouvi.

Acho mais fácil você ser matador do que escritor, sentenciou o barbudo.

Que seja, eu falei. Mas eu sou escritor.

Eu também acho mais fácil ser matador, disse uma voz feminina que se aproximou de mim, pelo outro lado, sem que eu notasse sua chegada. Apenas balancei a cabeça para ela. Era uma morena de pele clara e cabelos negros mas com umas mechas loiras, bem baixinha, com roupas que denunciavam o que ela fazia; era nitidamente uma mulher muito usada pelos caras da região.

Mora aqui nessa cidadezinha?, perguntei.

Durmo no motel, ela disse.

Dorme no motel?

Durmo, mas não apenas durmo.

Ah, sim, eu falei. E comecei a pensar na ideia de gastar uns trocados com aquela miudinha. Mas quando dei-lhe uma vista geral, notei algo que não havia visto na primeira vez, que eram as suas pernas expostas; eram até bem grossas e ficavam realçadas pelo shortinho que mais parecia de pijama, mas que, pelo que se via, há muito tempo não haviam sido depiladas. Quando eu olhava melhor, ela bem poderia ser confundida com pernas de homem. Aquilo não me animou muito. Ela continuou dando mole e pedindo algumas bebidas que prontamente paguei, mas achei melhor não ficar naquela cidade, sob risco de passar a noite sendo perseguido por essa baixinha peluda.

Saí do bar, ouvindo pela metade os comentários da mulher e do bêbado barbudo e fui em direção à minha moto, que estava rodeada por umas três ou quatro crianças que nunca haviam visto motos naquele estilo custom; provavelmente achavam que era uma moto de brinquedo.

1 real se alguém me disser quanto tempo falta pra Maceió nessa direção, ofereci.

Maceió?? Maceió fica praquele lado!, disse um dos moleques, apontando no sentido contrário.

Só então me dei conta de que estava o tempo todo viajando no sentido contrário. Que grande merda, pensei.

Demoro muito para chegar lá? É longe?, ainda perguntei.

É quase longe, disse um deles. Acho que entendi.

Tomei rumo de volta, e a essa altura o sol já houvera se posto por trás dos morros verdes, e diante de mim só restava a estrada sinuosa que eu acompanhava com o farol alto da moto, recebendo como comunicado somente as mesmas placas de CUIDADO COM OS TREMINHÕES. Eu já estava cansado de ver tais placas, sobretudo porque ainda não havia visto nenhum treminhão por ali. Reclamava, de dentro de meu capacete, de todas as instâncias governamentais que não colocavam uma mísera placa apontando para que lado ficava Maceió.

Depois de duas horas de viagem em pleno breu, encontrei uma encruzilhada de três direções que passara batida na minha viagem, mais cedo. Decidi tomar o rumo que houvera ignorado. Nesse rumo, somavam-se mais curvas, mais montanhas, e mais placas de CUIDADO COM OS TREMINHÕES. Segui em frente, confiante de que chegaria em Maceió antes da madrugada. De repente, no meio daquele breu infinito, eu vi luzes acumuladas algumas centenas de metros à frente, na estrada. Diminuí a velocidade, vi que havia bastante movimento. Eram luzes de carros. Estavam estacionados vendo um estrago na rodovia. Era um ciclista que, ignorando os anúncios para tomar cuidado com os treminhões, havia passado rápido demais numa área de risco. Foi atropelado pelo treminhão, tendo sua bicicleta estraçalhada e seu corpo dilacerado e espalhado na estrada. Eu, um matador de araque, fiquei meio desconfortável quando vi braços aqui e pernas ali. E fiquei apreensivo também com aquele treminhão, cuja imponência justificava as tantas placas que alertavam para o risco de me encontrar com um deles.

Mas a viagem não duraria muito tempo depois dali. Bastou mais vinte e cinco minutos adiante para que eu chegasse em Maceió.



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Prazos de validade

Eu sempre tive um hábito meio mórbido de fazer amigos, mas do qual ainda não consegui me livrar (embora esteja tentando).

Já há alguns anos, sempre na época dos vestibulares, eu me dirijo a algum local de prova e fico na frente do portão, junto com os vendedores de água e baganas e os parentes dos candidatos que ficam do lado de fora trocando lero. A diferença é que não vendo nada nem sou parente de ninguém. Observo todos os candidatos passando pelos portões, até que vai se aproximando a hora-limite de entrada e o clima começa a ficar tenso: será que alguém vai perder a prova?

Quando os responsáveis pelo fechamento dos portões começam a se movimentar, a tensão se espalha. Sempre há candidatos retardatários vindo correndo no final da rua, e a multidão em coro toma para si a perseverança desses sujeitos atrasados e começam a lançar gritos e gritos de alerta.

Corre!, corre!, vai fechar!

Quase sempre o candidato consegue entrar, graças à benevolência do fiscal que retarda o trancamento dos portões. Mas sempre há alguém que fica de fora, e então eu - que sempre assisto entusiasmado a esse pequeno show urbano - começo a agir.

Lembro-me de uma vez que uma garota chegou e não pôde entrar por questão de segundos. Segundos mesmo. Desde o início da leitura dessa frase até esse momento: esse foi o tempo entre o fechamento do portão e a chegada da garota, uma mulata baixinha, que só não caiu no choro na mesma hora porque aparentemente não lhe havia caído a ficha. Assim que a garota literalmente esbarrou no portão - ao som consolador de dezenas de vozes -, ela lá ficou por alguns segundos, inerte, sequer sem voz para pedir inutilmente ao fiscal que a deixasse entrar; então foi saindo dali, ainda apoiando-se no portão e logo que este acabou, apoiando-se no muro. Da parte das pessoas, após o choque inicial, já se ouviam algumas risadinhas e umas provocações indiretas, do tipo "a única coisa que ela tem que fazer no ano é essa prova, e chega atrasada". Estavam alimentando-se da desgraça alheia.

A mulatinha andou uns duzentos metros, saiu do meio da multidão, e então sentou num muro, com um semblante tão pálido que parecia que não havia respirado naqueles minutos. Eu comprei um copo de água mineral e me aproximei, oferecendo e sugerindo-lhe que ficasse calma. Ela não tinha fôlego mesmo, mas aos poucos foi se recuperando e o papo fluía melhor. Assim como conheci essa garota, conheci também outras pessoas. Ficava sempre nas portas dos locais de provas, esperando os retardatários, aqueles que (talvez pela primeira vez) sentem o peso de 30 segundos, de um minuto, em suas vidas. A conversa no início era sempre difícil - muitas vezes, depois da tensão inicial a pessoa caía em prantos e a conversa se tornava por algum tempo impossível; porém, eram esses casos que eu mais gostava -, no entanto aos poucos a comunicação evoluía.

Em geral, eu conhecia mais garotas nesses locais. A conversa com elas fluía sempre com mais facilidade, porque elas exprimem mais as emoções. É até uma oportunidade para eu testar tudo que aprendi autodidaticamente com tantos livros de Psicologia. Só que também já conheci alguns caras. Um deles, o único com quem ainda mantenho algum parco contato, era meio metido a surfista. Nunca teve nenhuma meta na vida que passasse pelo vestibular, mas não deixou de ser um baque ser barrado no portão do local de prova. Raros são os que reagem normalmente. Alguns são até insossos, mas também sentem.

A minha última namorada, inclusive, eu conheci na porta do então Cefet-RN. Logo após ela ter sido barrada, fomos até o bosque que há ali perto e lá lanchamos e conversamos o dia todo, e no dia seguinte até umas dez semanas depois estávamos namorando, ainda que não fosse um namoro propriamente dito, mas que seja: namoros não necessariamente precisam ser tais como são propriamente ditos.

Os desatentos pensariam que eu gosto de ver as desgraças alheias; não, não gosto. Se dependesse de mim, não sofreriam desgraças quaisquer. É apenas que a pessoa nesta ocasião está sensibilizada, de modo geral ela, no momento posterior a um tropeço desses, esboça qualquer característica fundante ignorada, talvez alguns defeitos de personalidade desconhecidos ou talvez virtudes até ali reprimidas. Eu vislumbro sempre o segundo caso.

Apesar de tudo, nenhuma dessas amizades durou muito tempo. Tratavam-se deamizades cujo elo de ligação era a desgraça, o fracasso, a tensão. Eu gostava de conhecer a pessoa pelo que ela tinha de irresponsável. E, sobretudo, gostava de conhecê-la num momento de total ausência de humor, já que não tenho muito saco para besteirol. Só que após os primeiros dias, ou as primeiras semanas (quando sai o resultado do vestibular, sempre bate de novo aquela crise nos retardatários), as pessoas sempre conseguem "superar" o problema. Suas vidas, passam, então, a se permear de novas boas coisas. As garotas começam a querer que eu vá com elas para uma balada ou passar um fim-de-semana na casa de praia com sua turma, os caras começam a me chamar para churrascadas ou para jogos de futebol. A socialização a dois enterra-se, e a amizade só se sustentaria se eu topasse participar desses programas coletivos e chatos demais. Então eu desisto, todas as vezes, de maneira que essas relações nunca ultrapassam a barreira dos três meses. Depois, vem a espera por novas oportunidades.

Mas isso cansa.

Neste final de semana, bem que acordei com aquela velha vontade de fazer brotar mais um amigo e uma namorada; no entanto, assim que pensei no vazio que emergiria daqui a uns três meses - justo quando eu já estivesse desacostumado com ele -, percebi que valeria mais a pena voltar a dormir.



quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Eu estive nessas últimas semanas meio atarefado com a campanha eleitoral e com a monografia que estou preparando;
a campanha passou, de maneira que
agora posso voltar a escrever com mais assiduidade
(a monografia pode esperar).

Por ora, posto um poema para retomar as atualizações.
Em breve, postarei novos contos.
Estou produzindo alguns livros a serem lançados em breve
e o blog entrará numa fase de divulgação,
mas até lá preciso resgatar os queridos leitores,
e, por meio deste, trazer novos.

Abraço e obrigado aos que têm frequentado o blog
mesmo com os últimos contratempos.


Para a margem oposta do rio


Na margem oposta do rio
não há sonhos ou esperanças,
não há bichos e nem crianças;
naquele lugar toda quimera
são mostras de que coisas boas
não satisfaziam pois não existiam
senão noutro tempo, noutra era.

Na margem oposta do rio
não vemos garotas, não temos desejos,
não temos abraços, não temos beijos;
temos o bocejo que marca o cansaço
de quem, numa simplória expectativa
imprime ali o seu derradeiro passo,
a sua última e fracassada tentativa.

Porque a margem oposta do rio,
para quem observa do lado de cá,
oferece loas de primaveras e luzes,
mas esconde a negritude e as cruzes
que nos apresentam a sua outra face
deixando-nos num verdadeiro impasse
(é por isso que não há mais ninguém lá).

Na margem oposta do rio, disseram poetas
as estátuas esculpidas substituíram os atletas,
a paisagem verdejante, com vida e com cor
se transformou numa natureza morta pela dor.
E é por amor à dor e ao sofrimento de agora
que é pra lá que vou quando daqui for-me embora.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O quintal

Aqui faz silêncio e ainda é Natal. A família se reuniu ontem, toda ela, na noite do dia 24. Estavam todos aqui em casa, disseram que era o melhor ponto de encontro. Minha mãe e minhas tias prepararam uns bolos e perus. Parentes e amigos dos familiares vieram, com lembretes, com ânsia de comer, com ânsia de beber. Para mim, isso tudo não significa muita coisa. De tanto não significar, passou rapidamente (ainda bem). Na manhã de hoje, 25, todos já tinham ido embora. Minha mãe e uma ou outra tia ficou para arrumar tudo aqui. Pela tarde, foram, elas tambêm, para suas respectivas casas. Fiquei eu aqui, sozinho, no quintal, atento a suas feituras, seu muro esburacado, observando as formigas caminhando, vindo lá de dentro da casa - provavelmente levando restos de bolo ou qualquer coisa assim para seus lares subterrâneos. Enquanto olho para elas, eu me lembro de outras formigas. Quando olho ao redor, é outro quintal que se ocupa de minha memória. Quando me dou conta de que dia é hoje - 25 de dezembro -, é uma outra data especial que me marca, para além do Natal.

O 25 de dezembro me faz lembrar um aniversário, para o qual eu me aprontava ano a ano, e era o único que me mobilizava a comprar algum presente por aí. Não que presente algum fosse necessário; não era. Era apenas um acessório a mais, mas naquela ocasião, fazia sentido.

O melhor de tudo, contudo, é quando eu me dirigia àquele quintal, que não é este em que me encontro agora. Ali sim era onde eu realmente me sentia aconchegado, por alguma oculta razão. Onde as melhores palavras estavam sempre no ar, mas não foram nunca pronunciadas. Fico me lembrando daquele quintal, do orvalho que havia ali, do cecém ali no canto da parede, no pouco espaço que restava ao gramado, das formigas no chão, que pareciam completamente donas do espaço.

Pensando agora, fica para mim a impressão de que, naquela época, era sempre de manhã.

Outra coisa que me lembro daquele quintal era aquela mesinha que o centralizava, sob um guarda-sol permanentemente aberto - e provavelmente achado no lixo, sei lá, mas que combinava de algum modo com o local - e com as quatro cadeiras que a cercavam (mas somente duas ficavam ocupadas, as outras ficavam livres). Não me lembro de vozes enquanto estava sentado ali; lembro-me apenas de respiração. As vozes existiam, eu as sentia, mas não as ouvia: a comunicação que existia naquele quintal era anterior à comunicação tradicional, falada. Mas era tudo muito claro e direto: naquele olhar que parecia feito ali naquele quintal, as palavras que não eram ditas pareciam visíveis como manchas negras sobre folhas de papel em branco.





Puxando na memória, agora, fico matutando aqui se ali passava o tempo. No período que frequentei aquele local de rara harmonia, tudo parecia estático como retrato. A dialética da natureza se percebia nas minúcias; o macro permanecia inalterado a olhos desavisados.

A dúvida não é à toa. E não é que faltassem ponteiros ou coisas assim. Elas estavam lá, nas paredes, girando incessantemente, feito os relógios comuns de braço, ou aqueles do alto das catedrais. É só que o tempo suplanta ponteiros e calendários, e só hoje sei disso: o tempo, eu diria, parece-se menos com o maquinário dependurado e mais com a parede lascada que o sustenta.

O tempo não cabe em maios nem em catedrais. Não cabe em fotos de calendários de farmácias (essas fotos, aliás, mostram o contrário: que os dias são todos iguais). Esse tempo de que falo está acima dos retratos de tempos dos quais talvez a minha companhia naquele quintal talvez já nem se lembre mais. É o mesmo tempo que enfrentamos todos, que dá poder a impérios ocultos, que dissolve as nossas manhãs, todas elas, uma a uma; só nos daremos conta disso no futuro, quando formos sujeitos velhos e amargurados.





Entre algumas últimas lembranças daquele quintal, fico pensando nos ingredientes que o montavam, entre insetos pequenos e clorofila, onde eu depositava as manhãs de um tempo estranho, que já era muito depois da infância, e naquela fase difícil de minha vida, aqueles ingredientes amorteciam-me das piores dores que pode viver um homem sem quaisquer perspectivas maiores, como eu estava naquele momento.

Aquele quintal, para mim, está agora misturado entre lamentos silenciosos, que devem estar pretendendo mudar sua feição, o seu caráter imutável, onde as laranjas não caiam do pé e as lagartas nunca se tornavam borboletas. Hoje posso dizer que ali o presente é apenas uma lembrança de como os gafanhotos solitários timidamente nos davam um alô enquanto assistíamos à dança das formigas bêbadas, perambulando pelo muro, e de como os cachorros também nunca dormiam à sombra daqueles cinamomos, e onde, perto dos arbustos, as flores ficavam abertas a vida inteira, por séculos adentro, quem sabe (eu não duvido).

Naquele recinto, será sempre de manhã. O sol sempre se portará imóvel, em um conforto inabalável; tão inabalável que eu fico feliz só de pensar que esse quintal por tanto tempo foi propriedade de uma pessoa só, uma pessoa que hoje não presenteio mais...

Fico, portanto, somente com essas lembranças daquele lugar no qual, eu sei, nunca haverá morte. Enquanto perdurar o silêncio que, até hoje, ali deve existir, todas as memórias hão de permanecer assim: imperturbáveis.



sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Emoldurador

Enquanto estávamos sempre assim, sem que ninguém soubesse,
sob a aura colorida de uma luz que te obedece,
era tão perfeito te ver, mesmo que pouco tempo eu tivesse,
e agora já é tudo passado, mas a lembrança ainda floresce.

Como num campo bem cultivado, num conto bem escrito,
num rio muito mergulhado e vivo.
Em ambientes tão vividos, nesse mundo em que habito...

É tudo tão bonito mas agora tão duro, mesmo quando posso te ver,
pois pelos teus olhos escuros, hoje é como se visse um muro.
Não deixar os pés distantes do chão é quase um dever,
mas, tão vago e violável, desobedeço-o,
e, no ponto mais alto,
te emolduro.

E eternizo teu brilho, tua cor, teus traços, teu valor!
E finalizo meus anseios, pois de mais que isso não sou merecedor...
Fico somente a admirar-te, como diante de um altar suntuoso.
E agora, por destino, este meu coração conflituoso
para sempre abrigará uma dor.

domingo, 25 de julho de 2010

Antes de estourar os miolos

É muito fácil parecer moderno,
enquanto se é, na verdade, o maior idiota jamais nascido
.
Charles Bukowski


Como um sujeito bem Século XX, eu me prostei diante da TV ao modo de quem espera que ela ofereça respostas, feito uma divindade moderna e literalmente antenada com os novos tempos. Na tela plana, o meu programa de entrevistas favorito - Provocações - aproximava-se do fim, e, como marca desse momento de clímax, perguntou o entrevistador a mais um intrépido convidado:

- Que é a vida?

A resposta não se deu imediatamente... fez-se um silêncio; jogou-se um sorrisinho discreto, o olhar se perde no alto. Como se não houvesse nada melhor a dizer, eis a resposta, que veio pausada e reticentemente:

- Até hoje estou tentando entender...

Eu decidi desligar a TV, e com isso perdi o poema que fecha o programa. Mas de que servia o poema? O momento mais importante da entrevista, aquele que poderia oferecer a chave da questão - o que é a vida? -, passou, e, na minha cabeça, foi novamente decepcionante. Mais uma vez, para mim que tanto penso no que é a vida, não tive nenhuma ajuda na resposta desses personagens que semanalmente fogem da mesma pergunta com palavreados vazios travestidos com um ar intelectualizado, experimentado.

Que hão de responder sobre a vida, afinal, aqueles que perdem o tempo apenas a vivê-la, sem nem questioná-la? Acho que por nunca se perguntarem é que nunca têm a resposta. Todas as vezes em que assisto ao programa e vejo a pergunta sendo feita, respondo, espontaneamente, e sempre uma resposta diferente, como se a inquirição tivesse sido feita para mim. Mas não é. Na verdade, ando tão desacostumado a responder perguntas, coisa que somente faço nas salas de aulas para os alunos - que me perguntam repetidamente de quantos pontos estão precisando para passar -, que até demoro a responder quando a moça da padaria ou o garçom do botequim perguntam se desejo algo mais; eu sempre penso em dizer que sim, que desejo bastantes coisas mais!, mas certamente as tais coisas não se encontrariam nas prateleiras nem nos cardápios.

Como não conseguia dormir desde a hora do programa até essa alta madrugada de frio e de chuva forte, decidi sentar e dissertar mil coisas a respeito da vida, mas na medida em que pensava, o ritmo da escrita diminuía numa constante gradação. Os poetas chinfrins gostam de dizer que a vida não pode ser explicada, e não talvez não seja possível mesmo. Não posso, nesse quarto, tecer respostas sobre ela quando noutros tantos quartos escuros muitos ainda mais vividos que eu não conseguiram encontrá-la, como Hemingway, que talvez só a tenha obtido no nanossegundo imediatamente anterior àquele em que sua bala estourava seus próprios miolos, ou como o Fante, que de tanto viver num quarto escuro, passou a ver escura toda a vida quando a cegueira o engoliu.

Lembro-me de quando trabalhei numa peixaria, carregando nas costas pesados pacotes cheios, sempre ansioso por ver terminar aquele expediente maldito, que parecia eterno. Não bastasse o desconforto do peso que carregava, tinha ainda que aturar as ladainhas da rapaziada que trabalhava comigo. Homens másculos e falantes demais, todos sempre com um sorriso despojado enquanto o cigarro pende no canto da boca, sempre xingando a uns e a outros - eu sempre na lista de alvos primordiais - e eu sempre na minha, com ódio de todos eles, da minha família, de Deus e do mundo. Uma vez, um desses sujeitos, o Alverga, disse para mim:

- Você não vai com a nossa cara, seu merdinha. Mas foda-se. A vida é assim, e você terá que suportá-la.

Não durei nem um mês completo na peixaria. Mas o temor daquela vida de merda ainda me acompanhou durante muito tempo - na verdade, ainda está por aí.

Eu sempre achei tão vagas essas percepções que se costuma ter da vida, essas coisas que sempre vêm à mente quando pensamos nos colegas ou parentes que se foram por acidentes diversos ou por inconsequências babacas, nos aperreios acumulados na vida escolar, familiar, nas caminhadas noturnas pela Cidade Alta, completamente vazia e tomada por vagabundos andarilhos, nas noites passadas em banheiros trancados, ainda ouvindo do outro lado da porta a soturna música do The Cure, que hoje já não me significa muito; essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo. Para fugir, por ora, dessa atmosfera nada positiva que me persegue, só mesmo tentando dormir, e mais uma vez retardar a reflexão que me levará àquela resposta definitiva...



segunda-feira, 28 de junho de 2010

Inês dorme

Eu não consigo nem escutar música enquanto escrevo, não consigo e não quero que a luz da manhã ilumine o quarto, tranco todas as portas e janelas, mas ainda assim o recinto é invadido por feixes luminosos intrusos, acompanhados dos ruídos que aos poucos adentram no ambiente; é manhã de domingo, a pele nem sente o calor do sol (ainda), no entanto, embora o dia esteja começando, para mim isso é apenas o desfecho de um sábado estranho, em que amanheci na casa de amigos, ressacado e triste, três horas antes dos ditos cujos acordarem, e ficando, assim, preso à solidão daquele ambiente - mesmo que a casa abrigasse ainda meia dúzia de gentes, todas adormecidas. Quase sempre vou embora nessas horas, mas desta vez decidi esperar, e esperei, lendo Maupassant para passar o tempo - é só para o que ele serve, hoje eu sei. O tempo enfim passou, despertando os amigos um a um, sendo a Clara a primeira, já de prontidão para preparar o almoço. Ela também estava ressacada, com pressão baixa e tontura: até a tarde estaria em um prontossocorro. Depois acordariam os demais, um a um, e essa movimentação toda no sábado é que o fez se me parecer diferente, estranho (no sábado normalmente não vejo ninguém).

Fui para casa no início da noite, porém mal cheguei e já fui saindo novamente, pois tinha ainda um outro compromisso: iria me encontrar com outros amigos, iríamos para outra festa. Fôramos convidados pela Inês, uma garota muito jovem, muito bonita, muito louca, que conhecia há dez dias e com quem tenho uma convergência de pensamentos tal como tenho com pouquíssima gente, de maneira que sempre falávamos sobre coisas tantas, sobre livros, sobre sexo, sobre sei lá... No dia em que nos conhecemos ela me deu vários presentes, entre tranquilizantes, bebida e até uma camisa que havia comprado para o namorado, mas ele quis terminar a relação antes que ela o presenteasse (tudo isso é muito confuso para mim, que não ganho presentes, que não tomo calmantes na companhia de ninguém, que não sei fazer amizades). Eu vi então algum valor real na Inês, o que me faz pensar nessas coisas involuntariamente, e ela me lembra as adolescentes que eu conhecia noutros tempos e que tinham vocabulário rico e livre, e postura igualmente ousada mas com as quais eu vivia somente muito rapidamente. Inês tem 15 anos, mas sabe nessa idade que realmente muitas vezes é preciso fazer que a vida pare de doer, e tem os seus subterfúgios que não são usuais no seu círculo, na sua escola, na sua rua, na sua família; ela é então ignorada e maltratada por tanto a martelarem, a olharem de lado... Não sei, não sou ela para saber, mas eu imagino, é por isso que eu a valorizo tanto ela sendo essa ovelha desgarrada, porque as ovelhas desgarradas sofrem mais e amam mais - sentem tudo muito mais intensamente.

Eu me arrumei todo para a festa em questão, mas não era a festa em si que me interessava e sim o momento e a confraria com um grupo pequeno de amigos, quatro no total. Sequer sabíamos de quem era a celebração, era um aniversário de uma conhecida de Inês, mas nós não tínhamos dinheiro para sair e beber, então ela nos fizera o convite para que fôssemos de penetra e assim o fizemos: entramos na festa e, uma vez sentados, tratamos de beber e de comer tudo o que nos era oferecido, entre salgados, entre coquetéis, entre uísque, e tudo isso e aquilo que acontecem nessas festas grandes (do tipo que são organizadas em clubes e afins), e isso já me bastava sobremaneira, sendo todo o resto por mim contínua e solenemente ignorando, fossem as outras pessoas, a música ou a decoração do local; a única pessoa além do garçom que visitava a mesa de nosso quarteto era justamente a Inês, que ficava variando, passava quinze minutos com seus pais e irmãos, e depois passava mais quinze conosco, e ela sentia o nervosismo de alguns de nós que não estavam habituados a entrar de penetra em festas. Foi um momento que até eu achei divertido, e eu sou tão chato para ver diversão nas coisas que, enquanto o pessoal ficava de risadas, eu pensava apenas em como estava sendo legal aquilo tudo.

Depois que de uma certa quantidade de uísque ingerida, logo já queríamos nos deslocar mais, e fomos todos - eu, a Inês e os amigos - para uma área do clube onde ficam as piscinas, e onde não chegam as luzes da festa nem muito menos sua torpe decoração. Éramos apenas vultos no meio do breu, só nos importava mesmo enxergar a nós próprios, e embora a conversa estivesse boa, ela foi tragicamente cortada pela mãe da Inês que, de longe, viu a filha entre nós, a filha adolescente entre quatro caras - uma visão suspeita, ainda que nada de mal lhe tivéssemos feito, proposto ou sequer cogitado. A mãe interrompeu a nossa prosa e obrigou a filha a acompanhá-la até a mesa da família, e por algum tempo ficamos todos muito mal, porque sabíamos o peso e a dificuldade que muitos têm, sobretudo aos 15 anos, de se relacionar com família.

Brindamos à Inês e continuamos a beber bastante e a comer inclusive, até que ela depois de um tempo voltou, surpreendendo-nos e alegrando-nos, e voltamos a conversar todos, mas sabíamos que a coisa não andava tão bem, porque estávamos todos bêbados mas a Inês estava um pouco pior: a essa altura já havia se sentado e deitado na grama, estava começando a ficar grogue, ela bebera muito pouco conosco e ficamos preocupados, porque sabíamos que ela tinha bebido mais do que o que tínhamos visto, e sabíamos (porque ela mesmo nos dissera) que estava dopada de tantos sedativos que tinha tomado antes de sair de casa.

Mesmo com todas essas circunstâncias negativas, ela nos acompanhava na conversa, lançava assuntos, falava de meus textos, dizia que queria ser personagem de um de meus contos, e eu apenas ria, porque não é apenas ela que diz isso, já teve outras também que pediram o mesmo. Eu acho curioso porque não há nada de glamouroso nas garotas sobre quem escrevo, muito menos de bonito... pelo contrário: as que já se viram retratadas neles só viram o aspecto negativo da coisa...

Teríamos que viver alguma coisa juntos, eu lhe disse, porque não sou tão criativo a ponto de construir histórias do zero.

Estamos vivendo, eu tenho um bom papo, é disso que gosta nas garotas, não é?, ela pergunta, e está certa, eu nem lhe havia comentado sobre isso mas ela lê o que escrevo e assim já me conhece bem, e por isso falava de sexo comigo e até se propõs a fazer, por talvez brincar ou por talvez querer, mas ela sabia que sexo pra mim já não é algo tão interessante quanto o era uns dez anos atrás, quando eu tinha a sua idade, 15 anos.

Mas como toda merda que acontece sempre ocorre duas vezes, a mãe dela mais uma vez viria buscá-la, no entanto desta vez sua autoridade não será tão subjugadora, porque Inês não tem muitas condições de se levantar do chão (a essa altura, já está meio desorientada e enjoada), e tudo o que a mãe lhe diz é motivo de retruca, e então ficamos nós, seus amigos, sua mãe e o seu irmão, que chegaria depois, a observar a Inês no seu ato de calvário que ao mesmo tempo é um ato de liberdade; ela vomita na grama enquanto reclama das pessoas que a rodeiam e das coisas que a família a força a fazer, chora, vomita mais, e nós somos todo compaixão pelo seu sofrimento, vez que já passei por isso e outros no círculo também passaram. Num dado momento, mesmo sua mãe enfim sucumbiria a si mesma, e fica a perguntar-se o que poderia fazer ou o que teria feito de errado, mas de que importa?, ela não obteria respostas (talvez nunca obtenha)... Somente depois de regurgitar tudo o que lhe fazia mal fisiologicamente, a Inês se levanta. E então se pode vê-la melhor, ela estava até sorrindo, só que não um semblante de sorriso sexual, e sim o semblante de um menosprezo adolescente de rosto zombeteiro e abatido para o que acham de sua expressão e de seu ato.

Agora estou bem melhor, diz.

E sai caminhando a passos constantes, acompanhada pelo irmão e pela mãe. Mesmo se dissessem que estava suja ou cambaleante, ela ainda assim conseguia ser mais altiva que eles e conseguia ser mais bela que todas as garotas da festa. Uma beleza muito particular, uma beleza triste, um sol noturno. Inês se foi e deixou-nos absortos no mais pleno silêncio, e a última informação que teríamos dela é de que estava internada. Agora, Inês deve apenas permanecer em seu sono distante e inatingível, vivendo sua tortura após a qual continuar existindo é sempre a maior tragédia.


terça-feira, 8 de junho de 2010

O universo reprimido

Abra bem a boca, isso, assim, hmmm.

São com essas palavras da Janine que me recordo de ter começado o dia, hoje. Lembro bem porque ao ouvir-lhe dizer isso, percebi que eram 8h00 no relógio de parede. Janine era uma dentista, e fazia muito tempo que eu não visitava dentista algum; na verdade, não frequento qualquer consultório médico. Mas, até por fazer esse tempo todo, acho que uns cinco anos, decidi dar uma passada, só que nada que se assemelhasse a algum tratamento semanal. Apenas uma consulta de ocasião. Mas eu não sabia se a Janine concordava comigo que uma mera consulta seria suficiente.

Hmmmm, ela continuava murmurando. Hmmmm, hmmm.

Até que entre os murmúrios, teceu uma pergunta:

Por que não tem ido ao dentista?

Porque acho desagradável uma pessoa me tocando, eu lhe disse.

Hmmm. Acha desagradável só o fato de tocarem em você?, perguntou.

Sim.

E se fosse, hmm... E se fosse sua namorada?

Apenas acharia um pouco menos desagradável, respondi.

Enquanto a Janine me interrogava, eu me sentia desconfortável pelo fato de estar com a boca quase todo o tempo aberta, enquanto a dela estava escondida atrás da máscara. Era uma situação injusta. Eu estava desarmado. Minha língua saltava para todos os lados de tensão.

Podemos terminar?, pedi.

Ainda não. Vamos, abra mais.

Na medida em que aqueles troços metálicos faziam cócegas e sons opacos nos meus dentes e a minha saliva ia se acumulando pelo nervosismo, mais excreções preenchiam também o resto de meu corpo. Logo estava suando e lacrimejando, porque a visão fixada da Janine na minha boca me lembrava dos colegas de infância dos quais não sinto a menor saudade.

Abre a boca!, ordenavam eles. Porém, não o faziam por interesse terapêutico, mas somente para rir à vontade dos meus caninos acentuados e dos meus premolares entramelados.

Ha!Ha!Ha!, ainda ouço suas torpes risadas ecoando no universo reprimido da minha cabeça.

Nesses dias ruins, eu sempre chegava em casa e dizia para a minha mãe que meus dentes são horríveis e que eu queria ter outros dentes.

Você não tem dentes cariados, ela dizia.

Mas eu não gosto dos meus dentes.

Mas você não tem dentes cariados, repetia, e o fazia quantas vezes necessário fosse. Era uma sentença já cristalizada no seu vocabulário, para fazer minha propaganda a outras pessoas. Era como "meu filho só tem nota boa", ou "meu filho é muito educado". Só não fazia sentido ela repetir as mesmas coisas para mim, objeto de culto daquelas afirmações, independente dos defeitos que estivessem ocultos por trás delas.

Numa ocasião, chegou a vez dela - da minha mãe - quebrar seus dentes, sabe-se lá onde e como, e colocar uma dentadura postiça. Seu sorriso modou, ela rejuvenesceu, tudo parecia límpido e renascido. Um prodígio da engenharia odontológica a seu serviço; precisaria eu de um acidente de automóvel para consertar os meus?

Olha só - despertou-me da minha divagação a dentista Janine -, eu vou recomendar que você faça um tratamento costumeiro. Pegue essa ficha, vá ali na recepção e explique para a menina que fica lá, e ela já saberá como encaminhá-lo.

Estou com cáries?, perguntei, meio receoso; um receio reprimido desde a mais tenra idade.

Não.

Não estou com cáries?, repeti, como faço usualmente.

Não.

Agradeci, peguei a ficha e fui até a recepção. A menina responsável estava falando ao telefone e já tinha uma criança acompanhada de sua mãe ao balcão sendo atendida. Sentei e esperei. Pensei na coisa de fazer um tratamento, sabe-se lá por que - não entendia o que estava escrito na ficha -, e pensava no quanto aquilo me fazia rememorar coisas ruins de longos tempos atrás. Aproveitei que dificilmente a menina me atenderia nos minutos seguintes e deixei a ficha de consulta em cima do criado mudo, junto com as revistas Veja e Istoé, e fui embora.

Daqui a cinco anos volto.



sexta-feira, 2 de abril de 2010

Abaixando o volume

Hoje, eu estava escutando rádio
em volume alto,
e, nessas condições,
para passar bem o tempo
ative-me à análise;
primeiro do discurso
do locutor da FM,
a repetir inveteradamente as mesmas coisas:
as mesmas informações,
as mesmas promoções,
os mesmos elogios
para músicas diferentes,
do Parangolé com seu Rebolation
aos Dois Rios do Skank.
A única coisa que mudou
nos 40 minutos em que ouvi a tal rádio
foi a hora,
nada mais.

Minha segunda análise
foi à própria natureza do trabalho
daqueles - pobres - locutores
fechados em recintos assépticos,
estúdios maçantes, sem-graça,
e no entanto sendo obrigados a se manifestarem
como se estivessem numa autêntica
balada,
talvez numa praia,
enfim, qualquer lugar
cheio de pessoas bonitas
e de música percussiva,
e de sol e de alegria
ao redor.

Isso me fez mal.
Não gosto de FM. Porém,
escutava muito no passado.

Lembro-me
daquele programa
que trazia momentos de reflexão
acompanhados de traduções
de músicas escritas em inglês.
As letras diziam o mesmo
que as das canções brasileiras
(às vezes eram bem incoerentes),
mas nós sempre achávamos aquilo
o suprassumo
da composição.

Recordo-me de outro programa,
em que o radialista
narrava
histórias de desgraças humanas
escritas por ouvintes fracassados
para outros ouvintes fracassados,
ao som de um triste dedilhado.
Nunca me senti tão completo
enquanto ouvia rádio
como nessas
horas.

E, para finalizar,
rememoro também um outro programa
que passava nas madrugadas
e eu escutava diariamente,
sentado na poltrona da sala,
desta vez com o volume
bem baixo.
Eram madrugadas
em que eu - adolescente de autoestima
destroçada por esses bobos tropeços amorosos,
cuja amplitude nossa mente imatura
não consegue medir - me deleitava,
aos sons melancólicos.
Às vezes (muitas vezes),
eu ligava e pedia uma canção sem-graça
e na hora em que o apresentador
de voz grave e garbosa
perguntava-me para quem eu oferecia,
eu dizia, sem titubear:
para Kelly, no bairro de Capim Macio,
ou poderia dizer
para Cristina, no bairro de Lagoa Nova,
ou talvez
Para Alice, Sabrina, Camila,
"com muito amor",
todas em lugares dispersos pela cidade.
O locutor apenas não sabia
- ou talvez soubesse pela experiência -
que nenhuma dessas garotas existia,
senão na minha cabeça.
Elas, em suas existências
presas à minha imaginação,
eram como o próprio programa que eu ouvia:
apenas o escape
para um adolescente meio reservado
e com algumas tolas ilusões amorosas.
Tão desesperançoso era
esse adolescente, no entanto,
que todas as vezes em que ligava
em todos os dias
era sempre
para pedir a mesma música ruim
que se chamava:
A Vida Não Presta.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Condução lotada

Hoje eu voltava para casa de ônibus - muito lotado, devo dizer - e dei sorte de conseguir um lugar sentado, no lado do corredor. Enquanto viajava, notei que uns dois metros à minha frente voltava uma garota com quem eu já houvera ficado, apenas dado uns beijos, na verdade, uns dez anos atrás - nós tínhamos 13, 14, 15 anos, portanto -, e agora estávamos novamente próximos. Chamava-se Marcela, e não chegou a me ver. Então fiquei observando-a durante o trajeto. Ela estava em pé, e o ônibus estava, como dito, muito cheio. A Marcela estava tão imprensada que já quase se jogava em cima do passageiro sentado. Na posição em que estava, ela ficava até com a bunda bem arrebitada, favorecida pela calça jeans que vestia, que usava justamente com propósito de avantajar um pouco mais seu dote posterior. Inclinei um pouco a cabeça e constatei isso. Aliás, constatei também que todo passageiro que passava por ela tirava uma casquinha, com um sarro muito bem dado no seu belo traseiro - que não aproveitei nos meus tempos de adolescência fracassada recheada de profícua masturbação. Os sujeitos tentavam se aproveitar de toda maneira: os mais altos agachavam-se um pouco; os mais baixos ficavam na ponta dos pés, tudo na perspectiva de apontarem seus membros para a bunda circular da Marcela. Começaram a vir as paradas e o ônibus começou a esvaziar. Na medida em que o número de pessoas diminuia eu a via melhor. Ela continuava lá, em sua imutável posição. Estava nitidamente gostando daquilo. Isso se percebia nos seus olhos grandes, que ficavam maiores cada vez que passava alguém por trás, e perdiam-se completamente nessas horas. Ela tapava a boca com a mão, sabe-se lá o porquê. Algumas cadeiras vagavam perto de si, mas a Marcela oferecia para as pessoas ao seu redor e permanecia no mesmo estado em que se encontrava. Seu bumbum bem desenhado conservava-se numa posição que o realçava sobremaneira, e agora tornara-se não somente uma área de lazer da rapaziada que nela se esfregava quando se dirigia aos fundos do ônibus, mas também alvo de olhares (o que, com o ônibus lotado do modo que estava antes, não era possível). Não fui apenas eu, portanto, que notei o quanto ela gostava do esfrega-esfrega. Só quando a condução já estava indisfarçavelmente esvaziada ela se dirigiria até as últimas cadeiras, passando por mim sem reconhecer, e lá ficando até chegar seu ponto. Achei engraçada e patética a situação. Cheguei a sorrir boa parte do tempo em que assistia a esse ordinário espetáculo moderno. Neste momento em que escrevo, eu penso que podia até ser neura minha achar que ela estava empinando o bumbum pra rapaziada, mas na hora pensei apenas no quão vadia ela tinha se tornado ou, o que é mais provável, sempre houvera sido. Não sou perfeito. Mas a raiva dela já passou.





segunda-feira, 1 de março de 2010

Manuscrito

Tive um compromisso hoje com uma garota, uma dançarina. Fomos assistir a um espetáculo de dança guatemalteca. O que eu fui ver nesse lugar? Não sabia, mas até apreciei a dança. No começo, parecia sem-graça, mas de tanto ela me falar no ouvido, comecei a gostar. Sobretudo porque o evento para mim não me interessava. Era mero pretexto para ter a companhia.

A dança guatemalteca é assim, me dizia ela baixinho, parece tosca, parece chata, mas é como dançar forró... quem gosta não sabe explicar a beleza que existe no forró, né?

Eu ia acompanhando os movimentos no palco e os sussurros dela, quase adormecia durante algumas cenas cena, só não cheguei a tanto porque o som era incômodo, e eu não consigo ficar totalmente à vontade com sons que me são estranhos, principalmente quando se trata de músicas folclóricas, populares, de locais com os quais não tenho o menor elo.

Fiquei bastante pensativo porque eu é que a tinha convidado para sair. Mas ela não queria sair por sair, e eu não tinha nenhuma idéia. Quando a convido para sair trata-se, tão-somente, de sair mesmo, dar uma volta, sentar em algum lugar, uma praça, uma parada de ônibus, que seja. Eu queria só conversar, mas ela só sairia se fosse para ir a algum algum evento, como se sair sem ter um destino fosse algum pecado imperdoável. Foi quando lhe surgiu a idéia de ir para o espetáculo de dança. Terminado o espetáculo, conversamos um pouco, ela disse que estava tarde, teria faculdade no dia seguinte, levei-a pra casa, nos beijamos e fui embora. Ficamos juntos durante coisa de três horas, mas não tivemos nem vinte minutos de diálogo.

Na porta de sua casa, ela me disse que adorou. Eu lhe menti a mesma coisa. Mas depois que nos despedimos, senti que o dia não poderia acabar daquele jeito. Fui para um bar na Ribeira, porque é lá na Ribeira que estão alguns de meus bares favoritos. O problema é que ali os bares médios estão se tornando escassos pela proliferação de bares mais sofisticados, sobretudo nesses tempos em que a Ribeira tem se tornado mais um point turístico do que local de abrigo da boemia natalense.

Tive que me contentar com um bar novo - na época - por ali, até bem movimentado, situado na Rua Câmara Cascudo. Pedi uma cerveja e fiquei olhando ao redor. Várias pessoas falando alto em outras mesas, pessoas que se achavam muito interessantes, mesas que ocupavam toda a ruela. Muitas mulheres, já de idade bem avançadas, muitas garotas, mais novas do que eu. Todas brancas, reluzentes, limpas demais. Atraíam vários olhares, menos o meu. Eu olhava apenas para as garçonetes, como é hábito. Mas estas não davam muita atenção. Quando uma delas veio me atender, perguntei o que ela sugeriria e ela apenas me deu o cardápio, numa tentativa de ser simpática para o cliente. Não demorou, e vê-las correndo pra lá e pra cá com blocos de notas nas mãos me encheu o saco. Decidi sair de lá sem terminar de beber a cerveja e pedi a conta.

Deseja mais alguma coisa?, perguntou-me a garçonece por fim.

Não, obrigado...

OK, muito obrigado e volte sempre, disse, virando as costas com um sorriso forçado.

Não há nada pior do que uma relação profissional-cliente.

Como ainda quisesse beber mais um quebrado, fui numa conveniência, comprei um litrinho e fui para uma praça lá mesmo no Centro, um lugar sossegado, onde eu queria estar. Bebia e olhava para cima, para as estrelas por cima das árvores, dos prédios, das luzes da cidade, da fonte que jorrava água para o alto e que me fazia sentir alguns respingos bem finos. Pensava em quanto estava gostosa a bebida e o momento. E matutava sobre o preço dessas tão simples benesses. Sobre a solidão e a distância que tenho das outras pessoas. Em contraponto, refletia sobre meu desejo de mudá-las. Pensava na garota com quem estava saindo, e na sensação de posse que eu nutro mesmo sobre ex-namoradas. Pensava em como essas idéias apenas me distanciavam de todas elas cada vez mais.

Também pensava no meu trabalho, em como era bom dar aulas, aliás a única coisa que eu sabia fazer, já que não tenho talento para mais nada e nem gosto de carregar peso, mas ficava reflexivo porque percebia que isso não me nutria, como nenhum trabalho ou nenhuma prática permite.

Essas coisas me deixavam sempre meio triste, o trabalho, as garotas, a revista para a qual eu escrevia, o meu partido, as minhas conquistas tão facilmente desmoronadas, dava até certa vontade de chorar, mas eu não choro há anos, e não seria ali que eu choraria, apesar da noite, apesar das estrelas, apesar da bebida.

Recebi uma mensagem no celular em dois bips que quebraram o silêncio da incipiente madrugada. Era uma mensagem alegre, animada, alto-astral, vinha da garota com quem eu havia saído há pouco, a mandar beijos e abraços, a propor novos joguinhos de relacionamento. Eu sabia que essa euforia de sua parte duraria pouco tempo.

Depois de algum tempo de divagação, eu já não alimentava nenhuma tristeza nem raiva por tais coisas. Eu não poderia me incomodar desse modo. A raiva não se ocupava de mim porque sei que nada ganho com isso. Não havia razão para ficar triste porque triste já sou por natureza, a todo tempo. Apenas senti que meu problema era o cansaço disso tudo. Estou cansado de danças e de sorrisos à toa. Cansado dos projetos pessoais que temos que carregar, dos trabalhos que temos que achar interessantes. E também estou cansado de jogos que não posso ganhar.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Da carência feminina

Publicado originalmente na terceira edição da
revista
Tá na Cara!, de novembro de 2009.

Houve um cara que disse que fazemos parte de uma geração criada por mulheres. E lançou o questionamento: será de uma outra mulher que precisamos?

Eu fui criado por uma mãe solteira. Sou apenas um traço pequeno numa estatística gigantesca. Com frequência, recebíamos visitas. Todas elas, naturalmente, a buscarem a companhia de minha mãe – meus amigos ou minhas garotas nunca me visitavam. Como era usual nas visitas, eu sempre ia para o quarto, já que as conversas eram quase sempre em tom frenético, e eu não conseguia ouvir a TV. No meu quarto, eu tinha a liberdade de não fazer nada sem que isso me fosse um incômodo. De lá eu escutava as histórias ricas em detalhes que eram contadas na sala, e por vezes prestava bastante atenção nelas. Como geralmente eram mulheres que nos faziam a visita, essas histórias naturalmente eram centradas em homens. As mulheres – amigas de minha mãe – pareciam se divertir contando seus casos com homens de caráter duvidoso. Em geral, relações inacabadas, quase sempre interrompidas por algum acesso de intransigência, talvez por bebedeira, talvez por ciúme, coisas assim.

Eu me perguntava, então, desde garoto, até que nível um homem pode deixar atordoada uma mulher. Claro que isso não se mede. Eu nunca tentei, nem nunca me proporia a fazê-lo. Mas o tempo me traria as garotas e algumas respostas. Ou, por outro lado, trazia-me a ciência de que, para certas coisas, não há resposta alguma.

Então, já como uma forma de prevenção diante dessa imprevisível psique feminina, sempre mantive minhas relações bastante limitadas no aspecto psicológico. Dessa forma, eu me protegia e não teria nenhuma delas que me endeusaria hoje para me crucificar amanhã. Mas vai entender o que move esses acessos de cólera.

Eu me lembro de uma mulher com quem sempre saia, a Cristina, e quase sempre, quando tínhamos algum programa light, como um almoço ou coisa parecida, estávamos acompanhados de algumas de suas amigas. Cris – como gostavam de chamá-la, e se irritavam por eu somente chamá-la pelo seu nome, Cristina – era uma espécie de consultora sentimental vinte e quatro horas. Para mim, durante algum tempo, as companhias não fazia diferença. Mas Cristina não gostava da forma como eu tratava suas amigas, que quase sempre traziam narrações tristes ou raivosas de seus casos fracassados.

Por que vocês sempre xingam os homens?, eu perguntava sarcasticamente.

Por que você não pode ser mais gentil com elas?, retrucava a Cristina. Ela nunca tinha razão. E admitia isso. Quando conversávamos a sós, sempre concordava comigo que suas amigas só falavam asneiras quando se tratava desse assunto. Mas ali, diante delas, não poderia deixá-las desarmadas.

Como as amigas de Cristina foram ficando cada vez mais pentelhas e invasivas com o tempo, eu lhe disse que não sairia mais se fôssemos obrigados a acompanhar tais amigas desoladas. Seja paciente, ela me suplicava.

Suas amigas não sabem o que é a paciência, eu dizia.

Elas têm problemas como todo mundo, não percebe?

Não, elas não têm problemas; elas CRIAM problemas.

Então você agora defende esses sacanas de filhos mal-assumidos que enganam as mulheres?

Eu acho que eles poderiam comer melhor, dizia.

E quase sempre diálogos como esse criavam algum mau tempo entre nós dois.

E nesses dias, quando ia dormir, ficava me lembrando dessas mulheres que via, fossem as que acompanhavam a mim e à Cristina, fossem as que visitavam minha mãe, ou as que eu notava na faculdade, no ônibus ou nos bares. Essas pobres mulheres que tinham pavor de ficarem sozinhas para sempre, que acumulavam fracassos amorosos, que observavam o tempo passando, que viam seus lábios vaginais dilatarem, e que não podiam fazer nada para conter essa dura realidade.

No fim, elas sempre engoliam as angústias e tomavam um ar mais autoconfiante. Diziam que haviam pensando bastante e que iriam se valorizar mais. E batiam no peito a dizer que, se os caras as desejassem de volta, eles que viessem procurá-las.

Eles nunca as procuravam.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Paladar fraco e outras coisas a menos

Onde está o apetite que um dia tive por todas essas coisas?, eu me pergunto de quando em quando. Passo todo o dia dessas férias sentado na frente da janela, observando as pessoas passarem em prosas animadas e às vezes até escuto parte da conversa delas, algumas perguntas que uns fazem aos outros, e eu fico respondendo imaginativamente, como se a pergunta fosse pra mim, mas não é.

Assim, diariamente me quedo nesse exercício puramente cerebral que ao menos talvez seja melhor do que passar várias horas do dia em frente à TV - coisa que também adoro fazer, por sinal, e nunca me demoro a religá-la -, porque são esses parcos exercícios que mantêm a minha mente em atividade. Minhas cordas vocais, no entanto, estão cada vez mais enrijecidas porque eu não as tenho usado muito, no máximo quando ia ali na padaria e dizia quero quatro pães e nada mais!, mas agora já nem preciso mais falar porque a garota que atende, conhecida por Cleidinha, já sabe o que vou pedir quando chego lá (e faz questão de dizer: já sei!), sempre com um sorriso no rosto que eu não entendo muito bem, e termino oferecendo um pretenso sorriso também mas que na verdade não passa de um franzido labial, e depois que saio tanto do balcão como do caixa da padaria esvaece a última chance de utilizar a minha voz no dia, às vezes eu até esqueço como é seu som e quando estou tomando banho e começo a cantar alguma música dos Engenheiros do Hawaii eu chego a me espantar por um instante por não a reconhecer, e esse espanto, por sua vez, me faz perder o prumo da canção e então desisto de cantar...

Mas não são só vozes e mente que estão cada vez mais mirrando, todo meu corpo segue nesse rumo porque eu não faço nada, não caminho, não pratico esportes nem nada assim, e vou sentindo que todos os membros vão se enfraquecendo de maneira tal que às vezes até pra levantar a caneca de café eu sinto um desconforto e preciso derramar uma pequena parte da bebida ainda quente na pia, e depois assopro bastante porque o meu paladar também já não está lá essas coisas, tanto que já nem faço mais questão de aditivos nas comidas aqui em casa, como temperos no almoço, ou margarina no pão, ou sei lá o que, porque quando como nem sinto isso, não me lembro mais a última vez que fiz hmmmmmmm! para alguma guloseima que ingeri.

Até mesmo pra segurar livros eu andava meio preguiçoso e passei a ler mais no computador, onde eu poderia ficar estático, mas não totalmente estático né, já que é preciso descer a barra de rolagem, e depois que me acostumei com isso já cansei também, e então voltei pra velha leitura de papel, e pra não precisar ficar catando livros pela casa eu tenho acumulado todos eles aqui no quarto, já não bastavam as duas estantes de livros aqui, eu fui lá numa salinha de despensa que tem nos fundos e peguei uma caralhada de livros velhos e empoeirados e trouxe, porque vez ou outra os folheio e agora não preciso mais ir até os fundos de casa e abrir um cadeado para pegar gripe com essa papelada envelhecida...

Às vezes ocorre de eu tentar ir na contramão dessa tendência, saio de casa, vou assistir algum espetáculo, algum show, um jogo de futebol, vou pra umas reuniões ou sair com uma garota, vou ver uns amigos, assistir a algum filme, vou viajar de moto pra algum lugar, e na verdade só quando me entrego a essas coisas percebo que às vezes cometi alguns enganos, porque há certas coisas que não temos como mudar ou pelo menos não cabe a nós mudar, então fico com pena das meninas que saem comigo, como lamento aos amigos que me convidam para beber e fazer umas rodinhas idiotas de violão na praia (sempre vou embora quando aparece um violão na parada), e percebo que conhecer gente já não é mais o foco das minhas viagens como antes, agora quero só deixar que alguns aperreios se dissipem com o vento que bate e se vai, e os shows também não frequento, vou tentando resistir às tentações, porque sei que sempre me empolgo antes de shows mas na hora é que sinto que aquilo não mais me contagia, de modo que eu percebo que existe uma luta intensa dentro de mim entre um lado que deseja se socializar, se soltar e besteiras assim e outro que já sentiu um cansaço de todas essas coisas e que agora quer mesmo é sossegar sem ter que ouvir vozes alheias quando acorda nem antes de dormir, sem ter que atender telefones e é este meu lado que eu premio, deixando todo o resto pra lá, e se me pergunto onde andava todo aquele meu pique de alguns anos atrás (em verdade, eu já nem lembro se tinha mesmo ou se é uma memória forjada pelo meu inconsciente) é por uma trivial curiosidade e não por depressão ou lamento pelo que sou hoje, pois gosto de ser assim, gosto de ficar apenas escrevendo porque é a atividade fisiologicamente mais econômica que posso fazer, já que trabalho apenas com os dedos, permanecendo todo o resto do corpo num transe absoluto, e até o conteúdo escrito não é fruto de conclusão nem de reflexão qualquer que seja, e sim tão-somente um derramamento de palavras cuja leitura se configura numa ordinária perda de tempo, mas constatar isso somente agora já é tarde demais para quem leu até aqui... Só que não pedirei desculpas.